Wilson Witzel

Política

Saída pela direita?


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Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil – EBC

A pesquisa divulgada no primeiro dia do ano pelo Instituto Datafolha reforça impressões perigosas, que devem fazer acender um alerta na sociedade. Mas que também servem para apontar para qual rumo político deve continuar seguindo o país neste ano de 2020 e nos próximos.

De acordo com a pesquisa, diminuiu o apoio dos brasileiros à democracia. Felizmente, a maioria de nós continua considerando que a democracia é o melhor regime de governo. Ou, pelo menos, como dizia Winston Churchill, é o pior à exceção de todos os outros. Segundo o Datafolha, 62% dos brasileiros consideram que a democracia é sempre a melhor forma de governar. Em outubro de 2018, porém, quando foi feita a mesma pergunta, o apoio à democracia foi de 69%. Um outro dado que preocupa é que aumentou nove pontos percentuais a parcela daqueles que consideram que tanto faz se o governo seja democrático ou não: de 13% para 22%. Manteve-se o índice dos que disseram considerar que uma ditadura pode ser melhor que a democracia em certas circunstâncias: 12%.

Para além das chances de retorno de uma ditadura, que o maior percentual dos entrevistados considera uma possibilidade remota, os dados do Datafolha reforçam uma constatação: o Brasil endireitou. Não no sentido de que tenha deixado de ser torto. Mas no sentido de que guinou à direita.

Infelizmente, com as seguidas interrupções que tivemos ao longo da nossa vida na nossa democracia, não conseguimos amadurecer na nossa sociedade a aptidão democrática. Adquirimos um sentimento paternalista com relação aos nossos governantes. Esperamos que eles sejam uma espécie de redentores com a capacidade de resolver todos os nossos problemas com a força das suas canetas. Como nenhum deles, por melhor que seja, jamais terá tal capacidade, nos frustramos. E essa frustração nos leva a desprezar a democracia, imaginando que mais poder dará mais tinta à caneta. Depois, nos arrependemos. E seguimos assim nossa trágica sina.

Dificilmente, conservadores de países como os Estados Unidos, Inglaterra ou França diriam que tanto faz uma democracia ou uma ditadura. Os cidadãos de direita desses países, na sua ampla maioria, vão às urnas tentar eleger seus candidatos e perdem ou ganham, sabendo que ganhar ou perder faz parte do jogo. Mas, por aqui, infelizmente, o desapreço à democracia muitas vezes mistura-se com a tendência à direita.

De qualquer modo, o Datafolha mostra que tal percepção ainda é de uma minoria. O que importa é que o jogo segue democrático. Em um momento em que parece haver uma expressiva percepção mais à direita do jogo político. E é isso o que transparece nos primeiros movimentos do xadrez eleitoral nessas primeiras horas de 2020.

Talvez nunca tenha havido tamanha profusão de candidatos de perfil mais conservador ensaiando a entrada no jogo da sucessão presidencial. A começar pelo próprio Jair Bolsonaro, o mais de direita deles. Mas é pela mesma raia, com maior ou menor inclinação, que se ensaiam os governadores de São Paulo e do Rio, João Dória e Wilson Witzell. É por aí que vai o apresentador de TV Luciano Huck. Ou o ministro da Justiça, Sérgio Moro. Mesmo o movimento de valorização do centro político, que se esboça, tem inclinação mais à direita. Nada indica inclinações antidemocráticas no presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), mas, do ponto de vista econômico, ele é, sem dúvida, um conservador.

Enquanto isso, o campo da esquerda segue tendo sua alternativa concentrada em um Luiz Inácio Lula da Silva que, como em 2018, continua impedido de disputar a eleição, barrado que está pela Lei da Ficha Limpa. Parece cada vez mais improvável que ele consiga reverter as condenações contra ele. Então, candidato não será. Para onde, então, se reverterão os votos que não serão para ele? Terá Lula agora maior capacidade de transferir seus votos para outro candidato, talvez o mesmo Fernando Haddad, do que teve em 2018? Ou o provável recrudescimento da opção mais à direita do eleitorado enfraquecerá mais ainda a opção?

Além disso, outras opções de esquerda, como Ciro Gomes, do PDT, parecem pelo menos neste primeiro momento enfraquecidas. O partido de Ciro não tem nomes visíveis fortes para a disputa municipal deste ano, como forma de ir pavimentando seu caminho.

Pelo campo da direita, há ainda um último fator importante. Se Bolsonaro não for capaz de colocar em campo no pleito municipal seu novo partido, o Aliança, assanha ainda mais as pretensões dos demais nomes à direita no sentido de ocuparem esse vácuo. Ao que tudo indica, o jogo de outubro será mais intenso pelo lado direito…

Política

Os riscos da guerra total


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Reprodução/Vídeo

O vídeo estilo Rei Leão que o presidente Jair Bolsonaro nos impingiu durante um tempo e do qual depois se arrependeu é um veemente sincericídio. O presidente, com a ajuda dos seus assessores, aqueles a quem, em entrevista ao site Congresso em Foco, o ex-ministro Gustavo Bebianno chama com todas as letras de “loucos”, se coloca ali contra tudo e contra todos. Não adianta a essa altura ter se arrependido depois. Até porque, antes do seu arrependimento, seu assessor Filipe Martins já havia ratificado seu conteúdo. Ficou claro que aquilo é o que de fato pensa Bolsonaro e aqueles que o assessoram.

O vídeo demonstra que Bolsonaro hoje se sente atacado por todas as instituições brasileiras. Contra ele está o Judiciário, representado pelo Supremo Tribunal Federal. Está o Legislativo, a partir de diversos partidos – até o mesmo o seu próprio, o PSL. Está a imprensa, a partir dos seus principais veículos. Está a sociedade civil organizada, em grupamentos como o Movimento Brasil Livre (MBL) ou organizações classistas como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Bolsonaro só tem a seu favor um tal difuso “brasileiro patriota”.

Não sei se os “loucos”, como chama Bebianno, se inserem ou não nessa onda, mas já se estuda o surgimento pelo mundo de um certo anarquismo de direita. A tal nova onda, ao explicitar individualismos, coloca contra si todas as organizações da sociedade. E é daí que muitos passam a acreditar em tenebrosas conspirações, como a que envolveria toda a comunidade científica em torno de negar que a terra é plana, por exemplo. Enfim, um mundo delirante. Que fica perigoso se alguém com tais ideias chega ao poder. Espera-se que não seja o nosso caso…

O fato, porém, é que o vídeo Rei Leão de Bolsonaro é a mais explícita afirmação da existência dessa disposição contra a ordem institucional. De um sentimento, por parte de Bolsonaro e do grupo que o cerca, de isolamento e de perseguição. Que Bebianno, na entrevista, enxerga que possa desaguar mesmo futuramente em alguma tentativa de golpe.

Mas é justamente nesse ponto que qualquer arroubo golpista agora de Bolsonaro será completamente diferente da construção que se deu no golpe militar de 1964, que ele tanto venera e elogia. Em 1964, as instituições se uniram para depor João Goulart. Os militares tiveram o apoio da imprensa, do Congresso, de parte do Judiciário, de parte da sociedade civil organizada, para tomarem o poder. Se oposição dessas instituições houve, foi depois, diante da constatação de que a devolução prometida do poder não se daria e que a ditadura se consolidaria, como se consolidou, por vinte anos.

Se há por parte de Bolsonaro e de seus “loucos” – de novo, usando o termo de Bebianno – alguma estratégia, ela parece partir para uma opção de guerra total. Olavo de Carvalho e seus discípulos parecem ter percebido que a alternativa conservadora tomada não apenas aqui mas em diversos países da América do Sul por alguma razão se esfarinha. A Argentina optou por voltar para o peronismo. A Bolívia elegeu Evo Morales em primeiro turno – é preciso se verificar se com fraude ou não. O Equador protesta. O Chile nem se fala.

Seria, assim, necessária, na cabeça deles,  alguma reação. O problema é estabelecer uma reação contra tudo. Que elege todas as instituições como inimigas. Mesmo junto ao comando militar, Bolsonaro comprou diversas brigas. Reduziu o tamanho da participação de praticamente todos os seus generais. Mantém mudo o seu porta-voz, general Rego Barros. Difícil saber se contaria com a instituição Forças Armadas caso embarcasse em tal aventura. Fica, assim, com ele somente o tal “brasileiro patriota”.

E contra, as instituições. E esse é o risco da guerra total. Qual o tamanho do apoio de que dispõe Bolsonaro na sociedade? O que ele quer quando declara guerra ao Supremo? Aos demais governadores, como Wilson Witzel, do Rio? E, citando novamente Witzel e João Dória, de São Paulo, às demais forças do campo conservador? Ao seu próprio partido e aos demais? Aos movimentos sociais, incluindo aqueles que o elegeram, como o MBL? Ao final dessa guerra, sobrará o quê de pé?

O tamanho da briga comprada fica claro no desenrolar dos últimos acontecimentos. Bolsonaro foi citado pelo porteiro do seu prédio na investigação do assassinato de Marielle. Isso é fato. E, sabido, precisa ser noticiado. Mas Bolsonaro só aumentou o fogo da sua artilharia contra a TV Globo. E contra Witzel, que acusa de ter orientado tal menção aos investigadores. Aos investigadores, que teriam incitado o humilde porteiro. Menção que levará o caso ao Supremo, que ele retratou como hiena no tal vídeo.

O risco de declarar guerra contra todo mundo é se todo mundo aceitar a declaração de guerra…