UDN

Política

Alzira Soriano, nossa Mulher Maravilha


Nenhum Comentário

Há algumas famílias que têm o privilégio de ter seus super-heróis particulares. Um bombeiro que arrisca a sua vida para salvar pessoas. Um bom e corajoso policial. Um médico querido de toda a comunidade. Pessoas que, pelo seu exemplo, marcam e orientam as trajetórias de todos os que estarão próximas delas.

Minha família não tem um super-herói. Tem uma super-heroína. Alzira Soriano foi a primeira mulher a exercer um cargo público no Poder Executivo na América Latina. Em 1929, portanto há 87 anos, Alzira, minha bisavó, foi eleita prefeita da cidade de Lajes, no sertão do Rio Grande do Norte.

A história da saga de minha bisavó marcou de uma forma incrível minha família. Durante muito tempo, fomos um matriarcado, de mulheres fortes mandando e definindo os destinos de suas famílias. Se não continuamos assim foi por conta de gerações posteriores quase que somente masculinas. Os Soriano – que depois viraram Lago, quando minha avó, Ismênia, casou-se com o dentista Ruy Lago e teve três filhos, José, meu pai, e seus dois irmãos, Thomaz e Ruy – viraram homens diferentes. Temos um profundo respeito pelas mulheres e conseguimos vê-las de fato como iguais. Não como seres mais frágeis. Ou muito menos com aquelas ideias bobas antigas, de responsáveis pelo pecado original, etc. Pelo contrário, elas nos parecem até superiores. Super-heroínas, mesmo.

Trata-se de uma mulher que ficou viúva aos 22 anos. Seu marido, Thomaz Soriano de Souza, morreu de gripe espanhola em 1919. Minha bisavó teve que se virar sozinha, com duas filhas nascidas e mais uma na barriga. Assim forjou-se aquela que, em 1929, se tornaria a primeira prefeita da América Latina, motivo na época de matéria até no New York Times.

Vovó Alzira é mais um daqueles casos que o destino forja. Se não tivesse ficado viúva tão cedo, certamente não teria que, tão cedo, administrar uma fazenda em pleno sertão nordestino, a Fazenda Primavera. Não teria que mandar em homens, em rudes vaqueiros. Não chamaria a atenção do movimento feminista do Rio Grande do Norte, que não a escolheria como opção de mulher para disputar as eleições para prefeito. É provável que ela ficasse na condição de dona-de-casa, cuidando das suas filhas. Mas o destino não quis assim, e vovó Alzira foi fazer história.

Não que já não houvesse o gosto pela política na família. O pai de minha bisavó, Miguel Teixeira de Vasconcelos, já era um dos líderes políticos da região. Mas meu bisavô era nome apontado como provável futuro governador do Rio Grande do Norte. Ou seja: se não tivesse morrido, a primazia política era dele. Até porque era um mundo majoritariamente masculino (infelizmente, ainda vivemos num mundo majoritariamente masculino…). Em 1929, quando vovó Alzira foi eleita, as mulheres no Brasil ainda nem votavam. Ela se aproveitou  de uma brecha na legislação eleitoral do Rio Grande do Norte. A legislação permitia que homens e mulheres fossem candidatos, embora mulheres não votassem. As sufragistas foram atrás de pessoas com perfil para, mesmo assim, terem chances de ser eleitas. Como forma de abrir caminho na luta pela emancipação feminina.

alzira-2

Vovó teve que ser dura. Ouviu muitas piadas e xingamentos. Os homens contrapunham a ideia de “homem público”, ligada ao político, a “mulher pública”, para insinuar que ela era uma prostituta por fazer política, por administrar uma cidade. A necessidade de ter de responder a esse tipo de coisa fez de vovó, dizem, uma mulher que não costumava levar desaforo para casa. O seu secretariado no município era composto apenas por homens. Uma mulher baixinha mandava neles. Não cheguei a conhecê-la. Conheci minha avó e suas irmãs, minhas tias-avós, que não eram diferentes. Ai de quem se atrevesse a tratá-las como ‘mulherzinhas”, no sentido pejorativo do termo.

Eram admiráveis na inteligência rara e no conhecimento político, mulheres atualizadas, sempre antenadas, profundas. Meu pai era absolutamente fascinado pela imagem da avó. Enquanto meu pai foi vivo, vovó Alzira era citada praticamente todos os dias. A Fazenda Primavera, que ela administrava, era o local sempre das férias do meu pai. Ele, um Pedrinho, e a fazenda, o seu “Sítio do Pica-pau Amarelo”.

A aventura de minha bisavó como prefeita durou apenas um ano. Em 1930, houve a revolução e ela deixou o cargo com a ascensão de Getúlio Vargas. Mais tarde, foi duas vezes vereadora. Chegou a presidir a Câmara e a liderar a UDN no município.

Hoje, a casa em que minha bisavó nasceu, em Jardim de Angicos, no sertão do Rio Grande do Norte, é um museu que guarda a memória da sua imensa aventura.

Noventa e um anos depois, neste Dia Internacional da Mulher, não sei como ela enxergaria o mundo que ajudou de forma decisiva a transformar. Por aqui, uma mulher já chegou à Presidência da República. Para depois sofrer um processo de impeachment. Elas ainda são absoluta minoria no universo da política. Ainda ganham salários menores para exercerem as mesmas funções que homens. Ainda sofrem violência somente pelo fato de serem mulheres. Violência que cresce, na atual escalada assustadora do feminicídio. Ainda cumprem dupla jornada porque não conseguem ajuda doméstica de seus maridos. O mundo ainda sente falta de outras Mulheres Maravilhas, como foi minha bisavó Alzira Soriano.

Política

Rodrigo Maia, o reformista. Será raposa?


Nenhum Comentário

Foto: Fabio Pozzebom/Agência Brasil-EBC

O choro do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), ao anunciar, na tarde da quarta-feira (10), o resultado da aprovação do texto-base da reforma da Previdência foi o retrato inconteste do triunfo da velha política. Pode-se comparar perfis, experiências, reputações, mas Maia recuava ali mais de 60 anos e recolocava o país na lógica do equilíbrio político que ainda hoje o caracteriza. Era o velho PSD da década de 1950 mostrando ainda as suas caras.

É incrível como o arranjo político desenhado no Brasil ao final da era Vargas seja ainda o desenho mais sólido do jogo de forças que mantém nossa estabilidade em tempos de democracia. Os partidos mudaram, novos grupos surgiram, novas pressões aconteceram, há hoje diversos elementos novos vindos de outras formas de participação da sociedade – a mais recente delas, a força de pressão direta via redes sociais. Mas a lógica que havia no tripé UDN-PSD-PTB naquele arranjo permanece. A UDN representando os grupos conservadores, de direita, à época ligados às novas categorias de profissionais liberais que surgiam com o crescimento urbano brasileiro. O PTB ligado à crescente organização sindical, dos trabalhadores que se aglutinavam com a industrialização do país e os embates do sindicalismo. E o PSD, ao centro, aglutinando os coroneis e raposas da política de líderes regionais da Velha República com novos representantes das forças moderadas.

Como mostra Lúcia Hippolito no seu ótimo livro “PSD, de Raposas e Reformistas”, o PSD foi fortemente responsável por manter a estabilidade política do final da era Vargas até o final da década de 1950, administrando e amaciando os conflitos entre esquerda e direita, partidariamente representados pelo PTB e pela UDN. Em tempos em que a Guerra Fria estimulava arroubos golpistas de um lado e de outro. Um trabalho que provavelmente atrasou em coisa de vinte anos o infeliz desfecho da ditadura militar com o golpe de 1964. Foi do PSD a última tentativa de manter as coisas estabilizadas, com a implementação do parlamentarismo para reduzir os poderes de João Goulart.

A vitória de Jair Bolsonaro após a longa era em que o PT se manteve no poder – a maior era de domínio de um partido na nossa história republicana – traz de volta para o cenário um tempo de embate forte entre direita e esquerda. Com todos os riscos de transformação disso num radical diálogo de surdos, em nada semelhante do que se espera de uma democracia. Por mais que se torça o nariz para o conteúdo da reforma da Previdência, o trabalho de Rodrigo Maia ao aprovar o texto-base trouxe a bola de novo para o centro do campo. No que isso pode significar de bom e de ruim. A lição que fica é que o jogo jogado continua a ser o da política, de quem negocia e cede. Não o de quem atropela.

De ruim, fica claro que em um país no qual hoje as forças políticas dividem-se numa miríade de partidos sem consistência ideológica, o jogo da negociação seguirá passando pelo velho toma-lá-dá da distribuição de verbas e cargos. O governo abriu firme a carteira para fazer passar o projeto. Fica claro também que seguirá conseguindo mais quem pode mais. A negociação suprimiu setores e categorias da reforma. O sistema previdenciário brasileiro seguirá sendo desigual, penalizando mais alguns e pesando bem menos sobre outros.

De bom, Rodrigo Maia mostra ao governo que o jogo da democracia não é o de vitórias ou derrotas absolutas. Não se atropela o Congresso. Não se desce goela abaixo projetos e imposições. Sempre o que se aprovará é o possível, não o totalmente desejado.

A outra lição é que,diante da constatação de situações contra as quais não há possibilidade de impedimento, quem não negocia perde totalmente. Logo no início do seu primeiro governo, o ex-presidente Lula fez uma reforma da Previdência. Ou seja: quando esteve no poder, o PT já constatou que, na prática, não se sustentava seu discurso anterior de que não era necessária uma mudança nos cálculos e nos formatos do nosso sistema previdenciário. Outros partidos de oposição, como o PDT, na campanha presidencial do ano passado, também já sustentavam a necessidade de reforma. No processo de discussão do projeto, as oposições apostaram que o governo, estabanado e de cintura dura, poderia acabar pondo tudo a perder e não aprovando nada. Acabou ficando fora da negociação. Não negociou. Não contribuiu para a formação de um projeto mais palatável. Correrá atrás agora, enfraquecido, na tentativa de emplacar algum destaque.

Enquanto isso, Rodrigo Maia estabelece como agenda seguinte a reforma tributária, a partir de projetos que já tramitavam e que tiveram iniciativa no Congresso. Ou seja, uma agenda sua, e não de iniciativa do Executivo. O tempo dirá se o presidente da Câmara de 49 anos será tão habilidoso quanto seus modelos do PSD da década de 1950. Se será capaz de segurar da mesma forma os embates entre os radicais de direita e esquerda trazendo a bola para o centro do campo. Veremos o quanto Rodrigo Maia será capaz de ser “raposa”, no seu projeto de ser “reformista”.

Política

O governo mais ideológico da história?


Nenhum Comentário

Foto: Valter Campanato/Agência Brasil-EBC

Talvez para todo o sempre – mas certamente até aqui -, o modelo que segue administrando nossa correlação de forças políticas ainda é o criado após o fim da ditadura de Getúlio Vargas em 1945. Naquele momento, e até o golpe militar de 1964, fomos regidos por um triunvirato formado por PSD, PTB e UDN. A UDN era o partido conservador, de direita, surgido com a ascensão da classe média urbana e de seus profissionais liberais. O PTB era o partido trabalhista, de esquerda, que unia sindicatos e movimentos de trabalhadores, braço do getulismo. E o PSD a grande conformação de centro, que unia os caciques regionais. Brilhantemente retratado no livro da cientista política Lucia Hippolyto – “PSD, de Raposas e Reformistas” -, era o partido que garantia a governabilidade, impedia maiores arroubos e mantinha a fórmula estável.

A ditadura militar acabou com os partidos pós-1945. Quando houve a redemocratização, surgiram novas legendas. Houve uma maior diluição, e a criação de partidos que não são absolutamente nada, não têm ideologia nenhuma e atuam como parasitas a sugar a seiva de quem quer que chegue ao poder. Mas, por trás dessa geleia, parece sobreviver o espírito do triunvirato PSB, PTB e UDN. A UDN está em todas essas conformações de direita. Não por acaso, num momento em que a direita ascende, há gente aí inclusive tentando ressuscitar a sigla. O PTB está no espírito trabalhista dos nossos principais partidos de esquerda. O PDT como herdeiro original, o PT tentando inicialmente fazer um contraponto ao antigo trabalhismo, para, na prática, não ser lá tão diferente.

Mas é principalmente o PSD que parece estar no cerne do espírito da busca da coalizão para a manutenção da governabilidade. E, aqui, não falamos necessariamente da coalizão distorcida. Da governabilidade mantida a partir do toma-lá-dá-cá, do fisiologismo, do “É dando que se recebe”. Mas da coalizão saudável. Da necessidade de concertação diante dessa multidão de partidos, numa sociedade multifacetada.

Até a eleição de Jânio Quadros, o PSD deu um jeito de manter a governabilidade apesar dos arroubos da direita extremada doida para dar um golpe. Quando Jânio se elegeu, imprevisível, o arranjo de concertação foi pro vinagre, e deu no que deu.

Não são poucos agora os que sentem um cheiro de Jânio no ar. Além do grau de imprevisibilidade parecido, soma-se agora a extrema casca ideológica do núcleo duro no poder. Possivelmente, temos hoje o governo mais ideológico da nossa história – incluídos aí os governos das ditaduras. O que tem feito bater na trave todas as tentativas de moderação vindas do centro. O resultado não poderia ser outro: instabilidade crônica.

Os episódios das demissões do general Santos Cruz da Secretaria de Governo e de Joaquim Levy da presidência do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) são fortes exemplos disso. Na campanha, Bolsonaro elegeu-se com o discurso da necessidade de retirar da vida das pessoas a influência ideológica. Afirma que isso acontece nas escolas, que é assim nas universidades, etc. Mas, na melhor das hipóteses, o presidente apenas trocou uma ideologia por outra. Na pior, e que está se mostrando mais provável, introduziu na nossa rotina uma ideologia forte como nunca antes se viu.

O fato de Joaquim Levy ter sido ministro da Fazenda de Dilma Rousseff é um exemplo claro de que ideias mais conservadoras podiam habitar no universo anterior. Essa, aliás, foi a grande crítica que então se fez a Levy e a Dilma: ela passou a campanha dizendo que não havia crise, e botou um cara para fazer o choque fiscal da maneira mais conservadora possível na economia. Levy não foi parar como um clandestino na equipe de Paulo Guedes. Levy sempre foi muito mais próximo ao pensamento de economistas como Guedes do que da turma da esquerda.

Mas Levy cai somente por causa dessa sua vinculação passada. Porque Bolsonaro sonhou com uma devassa nas contas do BNDES, que mostraria monstruosas irregularidades cometidas com o nosso dinheiro. Levy não entregou a tal devassa. Agora, veremos se não fez isso por alguma lealdade aos antigos patrões ou porque não encontrou mesmo nada de tão grave assim. Levy sai do governo elogiado por Rodrigo Maia e outras figuras do centro.

Já Santos Cruz era, junto com Hamilton Mourão, o retrato de uma moderação militar que ninguém esperava muito antes da eleição. Era ele quem evitava na Secretaria de Governo que imperasse uma relação radical, que elegesse a imprensa como inimiga, só falasse com blogs amigos e jogasse o equilíbrio às favas. Ou seja: uma radicalização a um grau extremo de algo que os governos petistas ensaiaram, principalmente nos seus últimos momentos: imprensa como inimiga e ajuda aos blogs amigos.

Assim como aconteceu com o imprevisível e bagunçado Jânio, o centro faz agora ensaios de afastamento. Ou de ser afastado, o que neste momento parece ser a leitura mais correta. Na manhã desta terça-feira, faziam na Câmara do Rio uma homenagem a Mourão, e Carlos Bolsonaro deixou a sessão em protesto.

Na época de Jânio, o afastamento do centro representado pelo PSD desequilibrou a fórmula e permitiu a ascensão dos radicais, de um lado e de outro. O que levou ao golpe militar e a ausência de democracia por vinte anos nas nossas vidas.

Deus queira que nada de parecido aconteça agora. Mas o Brasil certamente não são os 15% mais radicais que aplaudem os posts incompreensíveis de Carlos Bolsonaro ou que riem das piadas escatológicas de Olavo de Carvalho. Se é verdade que o país precisa das reformas estruturantes, como a da Previdência, a aprovação delas passa pelo centro. Pelo PSD diluído hoje no Congresso e comandado pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia. A fórmula que nos mantém estáveis permanece a mesma.