Sérgio Moro

Política

Um governo infestado de comunistas…


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Pelas vias tortuosas da mente de Carlos Bolsonaro, vamos descobrindo que as Forças Armadas brasileiras são uma instituição tão invadida por comunistas que para ele se torna mesmo um grande perigo aceitar segurança militar. O Gabinete de Segurança Institucional da Presidência está entranhado de petistas, caso do sargento preso com 39 quilos de cocaína que transportava dentro do avião presidencial. Parece incluir-se entre a turma o próprio general Augusto Heleno, que há alguns meses era tido como um dos principais conselheiros do presidente Jair Bolsonaro. Que perigo!

São também comunistas e petistas os integrantes do Movimento Brasil Livre. Esses devem agregar ao esquerdismo perigosos componentes de feitiçaria, de bruxaria. Afinal, conseguem ao mesmo tempo defender a livre iniciativa e a distribuição de renda. Professam o original caminho de atingir a igualdade pela meritocracia. Como diz o famoso meme que circula pela internet, são um caso a ser investigado pela Nasa.

A cada dia que passa, vai-se descobrindo um número maior de esquerdistas e comunistas denunciados nos posts de Carluxo ou nos cartazes distribuídos nas passeatas que viraram um esporte nacional quase tão querido quanto o futebol. Vai ficando difícil entender como essa perigosa multidão de infiltrados no Exército, nos movimentos liberais, no empresariado, no Judiciário, nos partidos políticos, etc, não foi capaz de vencer as eleições do ano passado. O velho da Havan já mandou a jornalista Raquel Sheherazade para Cuba…

Tudo isso poderia ser somente uma engraçada excentricidade destes nossos tempos se não estivesse gravemente contaminando o governo. Fica difícil não acreditar que de alguma forma o presidente Jair Bolsonaro não ratifica esse tipo de pensamento. Principalmente depois da demissão do ministro Santos Cruz da Secretaria de Governo. Desde o início, desde a saída de Gustavo Bebianno, a verdade é que Carluxo vem ganhando todas as paradas.

O que parece acontecer é que, a partir das diatribes de Carluxo nas redes sociais, Bolsonaro vai limando do governo os que se uniram a ele na campanha com o intuito de controlá-lo. Como já se disse por aqui, Bolsonaro construiu sua candidatura partindo de uma base de cerca de 15% da sociedade que aderiu fortemente às suas ideias. É a parcela mais sólida dos chamados bolsomínions, que o tratam como “mito”. Uma musculatura forte o suficiente para colocá-lo competitivo no jogo. Com isso, ele foi se consolidando como a mais viável alternativa capaz de derrotar o PT e por fim à sua era. Assim, aderiram a ele militares, liberais e outros grupos que, longe de serem partidários fieis, somente queriam vencer o PT.

Militares; os liberais do ministro da Economia, Paulo Guedes; os procuradores e policiais trazidos pelo ministro da Justiça, Sérgio Moro, seriam a força competente de fato à frente do governo do capitão. Aparentemente, Bolsonaro, seis meses depois, resiste a esse monitoramento. Defenestra a base militar. Surfa nos problemas de Moro para inverter a equação no caso dele – Bolsonaro menos dependente de Moro; Moro mais dependente de Bolsonaro. Mantém Guedes isolado à negociação da reforma da Previdência – e sem muitas vezes a necessária ajuda na articulação política.

O problema é que, retirados militares, liberais e a turma que defende mais a Lava Jato e menos o governo, o que fica é clara minoria. Uma fórmula muito mais capaz de gerar atritos que soluções. A parcela mais fiel ao bolsonarismo e à extrema direita terá que produzir resultados melhores que as piadas de gosto duvidoso do ministro da Educação, Abraham Weintraub…

Política

O efeito reverso das denúncias contra Moro


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Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil-EBC

O Instituto Paraná Pesquisas, do cientista político Murilo Hidalgo, divulgou nesta terça-feira (25) pesquisa que merece muita atenção. Murilo gosta de fazer curtas apurações sobre temas relevantes da nossa pauta política, que servem como bússolas importantes dos caminhos que o país tende a seguir. Desta vez, ele fez somente duas perguntas a 2.264 pessoas de 176 municípios dos 26 estados brasileiros e do Distrito Federal, entre os dias 17 e 21 de julho. A primeira pergunta foi se a pessoa tinha tomado conhecimento das denúncias do WikiJato do The Intercept Brasil, que apontam para um conluio entre o hoje ministro da Justiça, Sérgio Moro, quando era juiz e os procuradores da Lava Jato. A segunda pergunta foi: isso põe em dúvida os resultados da operação?

A resposta à primeira pergunta aponta para um nível bem alto de conhecimento dos diálogos que o site The Intercept Brasil vem publicando, agora em parceria com outros veículos. Nada menos que 86,7% dos entrevistados disseram ter tomado conhecimento das publicações. A segunda pergunta mostra que isso pode ter provocado certo abalo na credibilidade da Lava Jato, mas longe de ser o suficiente para mudar a convicção da maioria da sociedade quanto à sua importância. Para 38,1% dos entrevistados, o que vem sendo publicado põe, sim, em dúvida os resultados da operação. Mas para 56,1%, isso não aconteceu. Esse grupo, que constitui a maioria, continua convicto da importância da operação que engaiolou um expressivo número de políticos e empresários brasileiros.

Fica claro aí um efeito reverso das denúncias, do qual o presidente Jair Bolsonaro e Sérgio Moro já parecem ter se dado conta. As publicações do The Intercept parecem ter recolocado a disputa político no terreno que Bolsonaro mais gosta: o da polarização absoluta dele com Lula, de seu grupo com o do PT. E não é por outra razão que Bolsonaro animou-se a, desde já, lançar-se no terreno da reeleição.

Enquanto ficam completamente desaparecidos do noticiário os fatos que poderiam questionar o próprio Bolsonaro e seu grupo enquanto representantes da moralidade política como se pretendem – as histórias que envolvem laranjas, milícias, Fabrício Queiroz, o senador Flávio Bolsonaro, o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, etc – parte-se para cima de Sérgio Moro. Questiona-se de forma dura sua imparcialidade. Mostra-se que ele, de fato, no mínimo, flertou profundamente com os limites das suas funções para alcançar condenações, especialmente a do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

E eis que voltamos, então, àquele ponto que alçou Bolsonaro à Presidência. As denúncias reanimaram o Lula Livre. E a liberdade de Lula voltou a ser a referência da oposição. Ocorre que, se Lula aglutina os seus, é ele que aglutina também os que se opõem a ele. Foi a impressão de que Bolsonaro era o único capaz de derrotar o PT – e, consequentementemente, derrotar Lula – que fez com que seu eleitorado se ampliasse além dos 15% originais, angariando o empresariado, o meio militar, os liberais.

Por conta das trapalhadas de seu próprio estilo, Bolsonaro vinha perdendo o apoio além dos seus 15%. Porque insiste em falar somente para eles. Ainda perde, por conta de episódios como o da demissão do general Santos Cruz. Ou das brigas com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ). Mas a ameaça à Lava Jato cria um novo fator de união. Talvez nem pelos riscos ao combate à corrupção. Mas pelos riscos de se ver Lula novamente solto e em campanha.

As avaliações de que o episódio enfraquece Moro e o joga no colo de Bolsonaro talvez sejam um pouco simplistas. O que na verdade parece ter acontecido é que elas uniram novamente o presidente e seu ministro da Justiça. Se antes Bolsonaro vinha largando o ministro de lado, porque ele às vezes atrapalhava sua pretensão de falar somente para seus 15%, agora o presidente voltou a ver em Moro a chance de retornar ao velho FlaXFlu que ele gosta de jogar.

Lula é, ao mesmo tempo, o calo e o trunfo de Bolsonaro. Seu maior inimigo, mas também seu adversário predileto. Há algo nessa relação que lembra uma canção de João Bosco e Aldir Blanc, “Siameses”, cujos versos dizem: “Amiga inseparável/Rancores siameses/Nos unem pelo olhar/Infelizes pra sempre/Em comunhão de males”…

Política

“Com o Supremo, com tudo” era “Com o Supremo, com todos”?


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Foto: Nelson Jr./STF

A segunda parte do WikiJato do The Intercept joga um bocado de constrangimento sobre o ministro Luís Fux, com a sua boa vontade desprendida para ajudar Sérgio Moro e Deltan Dallagnol na Lava Jato. Aliás, não é a primeira vez que Fux aparece de forma polêmica no noticiário por conta da sua disposição de ajudar.

Agora, segundo a nova conversa vazada, Deltan Dallagnol diz que conversou com Fux, de forma “reservada, é claro”. E Fux disse que podiam contar com ele, “para o que precisarmos”. Em seguida, vira por meio de comentário de Moro versão tupiniquim de uma nota de dólar: “In Fux, we trust”.

O outro episódio de boa vontade desprendida de Fux teria acontecido quando ainda disputava a indicação para ministro do Supremo Tribunal Federal. Foi em 2012. A indicação para o STF tem uma série de salamalaques políticos preliminares. Uma vez indicado pelo presidente, o futuro ministro tem de ser sabatinado e aprovado pelo Senado. Faz, assim, uma peregrinação por salas e gabinetes em busca de apoio. E foi assim que Fux foi parar na sala do ex-ministro da Casa Civil José Dirceu quando se delineava o julgamento do mensalão. E, sobre o julgamento, teria dito a Dirceu: “Mato no peito”. Se ao longo do tempo, Fux mudou suas convicções, pode ser até legítimo, diante das evidências que eventualmente possa ter encontrado sobre casos de corrupção. Mas há pelo menos esses dois episódios nos quais partes diferentes dos últimos processos rumorosos que correram no STF, “in Fux they trust”.

O novo trecho do WikiJato constrange e complica por jogar a Suprema Corte no triste jogo de radicalização e ação no limite da irresponsabilidade que tem marcado o país nos últimos tempos. Mais do que um episódio isolado envolvendo um único ministro do STF, o que ali transparece de forma mais nítida é a sensação de que a Suprema Corte tinha e tem seus camarotes luxuosos neste interminável, chatíssimo e aburdo FlaXFlu sem regras que virou a nossa existência.

Quando o senador Romero Jucá comentava com o ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado que era preciso fazer uma ação para estancar a escalada de combate à corrupção “com o Supremo, com tudo”, teria sido mais correto como avaliação se ele tivesse dito “com o Supremo, com todos”. Num jogo no qual ele poderia contar com parte daquelas capas pretas. E contra o qual se uniria a outra parte das togas.

A história da “turma que prende” contra a “turma que solta” é a face tragicômica dessa situação. A Suprema Corte, cuja essência da sua existência é dirimir as dúvidas constitucionais para dar aos processos segurança jurídica, virou hoje, ao contrário, a casa da insegurança jurídica, porque cada um ali decide conforme suas convicções e torcidas políticas e, nesse processo, não se constrange nem um pouco em desfazer a decisão anterior do ministro integrante da ala adversária. Um prende, o outro solta. Um faz, outro desfaz.

O segundo capítulo do WikiJato revela, assim, que do suposto conluio do juiz com o acusador poderia haver também conluio maior com aquele que, no final, iria dirimir as dúvidas constitucionais dos possíveis movimentos questionáveis que fossem surgindo.

O problema é que, ainda que não apareça nesses áudios, sabe-se claramente que há episódios e situações parecidas envolvendo os ministros que torcem o nariz para a Lava Jato e gostariam de parar as suas ações. “O juiz só fala nos autos” é hoje uma frase tão anacrônica quanto alguém dizer que “uma viagem do Rio a São Paulo dura dois dias em boa e confortável carruagem”. O ministro Gilmar Mendes, a essa altura, já anulou em entrevista a condenação de Lula. Outros ministros também já se manifestaram. E há diversos casos pregressos semelhantes para citar de exemplo.

Evidentemente, não é somente aqui que as cortes de Justiça agem politicamente. Em qualquer lugar do mundo, elas são formadas por seres humanos, que têm as suas convicções. Dificilmente, porém, se verá hoje, no entanto, exemplos mais contundentes de falta de sutileza. No atual FlaXFlu, os juízes já passaram da fase de marcar pênaltis e impedimentos inexistentes. Eles já andam pegando a bola e correndo com ela para o gol do adversário.

Política

Moro e o diabo de Al Pacino


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Foto: José Cruz/Agência Brasil-EBC

O Advogado do Diabo, filme de 1997 dirigido por Taylor Hackford, tornou-se um dos grandes clássicos do cinema do final do século passado. No filme, o grande Al Pacino interpreta John Milton, um advogado que é ninguém menos que o próprio Satanás. Keanu Reaves é Kevin Lomax, um jovem ambicioso que resolve ir trabalhar no luxuosíssimo escritório de Milton, o nosso diabo. John Milton é um desses famosos juristas que costumamos ver em sessões do Supremo defendendo políticos e empresários enrolados. Cobra caríssimo para livrar corruptos de colarinho branco da cadeia.

Durante o filme, Kevin Lomax vai ascendendo no escritório do diabo, ao mesmo tempo em que seu trabalho além do limite do que é correto e ético vai pesando na sua consciência. Até que se rebela e se livra das tentações do patrão satânico. No final do filme, está defendendo uma pessoa pobre, vítima de injustiça, em uma causa humanitária. Ao final do julgamento, que vence, ele é abordado por um repórter, que começa a incensá-lo com o intuito de transformá-lo em herói. Como não tem sentido evitar spoiler de um filme com 20 anos de idade, e até porque é o que vem a seguir que importa comentar no momento, lá vai. O repórter é, na verdade, nosso velho diabo disfarçado. Depois que entrevista o personagem de Keanu Reaves, ele transmuta-se para Al Pacino, que se vira para a plateia e diz a frase que se tornou célebre: “A vaidade é meu pecado preferido”.

A troca de mensagens de Instagram entre o ministro da Justiça, Sergio Moro, e o procurador da Lava Jato, Deltan Dallagnol, publicadas pelo site The Intercept, parecem reforçar a impressão do diabo de Al Pacino. A vaidade deve, de fato, ser o pecado preferido do demônio, dada a forma como ele coloca em risco mesmo o mais bem intencionado dos bem intencionados.

Muito vai se discutir daqui para a frente sobre os limites legais e éticos que tenham sido ultrapassados na troca de mensagens. E de outros trechos contendo novas e talvez mais graves ultrapassagens, dado que o site do jornalista americano Glenn Greenwald promete novas publicações. Independentemente, porém, do que venha a se concluir, o que as conversas já reforçam é a impressão de que o grande erro de Sérgio Moro na condução da Lava Jato parece ter sido mesmo sucumbir à vaidade.

No momento das conversas, Moro era ainda o juiz da Lava Jato às vésperas de fisgar seu peixe grande: o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Havia, e há, uma série de investigações contra o ex-presidente, algumas com indícios mais graves, outras com indícios menores. O primeiro caso a chegar à conclusão era o do tríplex no Guarujá que, segundo a acusação, lhe teria sido dado como propina pela empreiteira OAS. Ainda que sobre o caso haja uma série de dúvidas e questionamentos, é preciso lembrar que a condenação de Lula neste momento já foi confirmada por outros juízes e instâncias superiores a Moro.

Mas as conversas mostram como a expectativa da condenação excitava Moro e Dallagnol. O juiz, então, orienta ações dos procuradores, divide estratégias. Trabalha em conjunto para que não houvesse reveses no caminho da iminente condenação. Estabelece-se entre juiz e acusador um grau absolutamente indevido de promiscuidade, muito distante da imparcialidade que um juiz deve buscar. E, um parênteses: deveria buscar também o jornalista, só para deixar marcado aqui um ponto para o qual este jornalista não se cansa de insistir.

Após a condenação de Lula, Moro galga novo degrau na escalada da submissão à vaidade. Aceita ser ministro da Justiça de Jair Bolsonaro. Além do sentido de Justiça, parece prevalecer em Moro o seu próprio projeto político, algo que ele almejava ao partir na sua cruzada contra a corrupção na Lava Jato. Ser ministro do Supremo? Presidente da República?

Difícil saber até que ponto Moro foi enredado pelo pecado da vaidade. Mas os clássicos da literatura ou do cinema que falam sobre pecados contam sempre que há um preço a se pagar em um eventual pacto com o diabo. E que todo o sucesso obtido com tal pacto acaba, ao final, em arrependimento dos Faustos e outros personagens dessas histórias. Moro disse ter aceito ser ministro porque considerava que, no Executivo, poderia aprofundar a aprovação e utilização das ferramentas de combate à corrupção. Desde que entrou no governo, porém, ele muito mais coleciona dissabores que vitórias

. Seu projeto anticrime patina no Congresso. Claramente não são suas e ele torce o nariz para propostas como a que flexibiliza a porte e a posse de armas nos termos em que foi feita ou a que passa a mão na cabeça dos motoristas infratores.

A vaidade cobra seu preço. A vaidade, dizia o diabo de Al Pacino, é o seu pecado preferido…

Política

O “patinho horroroso” enfrenta a procela


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Foto: Antônio Cruz/Agência Brasil-EBC

Ao comentar a enxurrada de derrotas que o Congresso lhe impôs na quinta-feira (9), o presidente Jair Bolsonaro disse que poderia vir na semana que vem contra ele um “tsunami”. Não ficou claro se ele falava de forma genérica ou se de fato espera mesmo que alguma onda gigantesca lhe afogue. A verdade é que o que não falta é candidata a vaga a lhe atingir a proa.

Bolsonaro poderia estar se referindo à possibilidade de o plenário do Congresso confirmar a retirada do Conselho de Controle da Atividade Financeira (Coaf) do Ministério da Justiça ao votar a MP da Reforma Administrativa. Do fato de o juiz Sérgio Moro ter estabelecido como uma das condições para assumir o Ministério da Justiça justamente ter o controle do Coaf. Que a confirmação da ida do Coaf para o Ministério da Economia – somada aos demais reveses que Moro vem enfrentando – acabe levando o juiz da Lava Jato a deixar o governo.

Pode ser ainda que ele estivesse se referindo ao fato de, diante desse rolo todo, o Congresso não conseguir o ambiente necessário para votar a MP, e ela acabe caducando. O que demoliria a mudança administrativa toda. Nada de super Ministério da Economia. Nada de Cultura misturada com Esporte, etc.

Ou o tsunami a que ele se referia pode ser a possível derrubada do Decreto das Armas. Que chocou até mesmo a Bancada Evangélica tão próxima de Bolsonaro, avalista da ministra dos Direitos Humanos, Damares Alves. Decreto que permite que crianças treinem tiro. Que concede revólveres a jornalistas. Parecer encomendado pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), aponta inconstitucionalidades do decreto. O Supremo Tribunal Federal (STF) quer explicações.

Enfim, o mar onde Bolsonaro navega é de procela. O que não lhe falta são ondas gigantes. Ocorre, porém, que boa parte dessa confusão é responsabilidade dele mesmo. Ou dos candidatos a Netuno que ele carrega ao lado, agitando seus tridentes nas redes sociais. Especialmente o dublê de filósofo e astrólogo de Richmond Olavo de Carvalho e o filho 02, Carlos Bolsonaro, o popular Carluxo.

Na mesma fala em que previu tsunamis, Bolsonaro avaliou-se como um “patinho feio”, aliás, “horroroso”, que paga por estar tentando “mudar o país”. Diz que recebeu uma “missão de Deus” nesse sentido. Há certamente aí um esforço do presidente de buscar entre seus admiradores na sociedade o apoio de que necessita. Mostrando-o novamente como alguém que luta contra as velhas práticas da política. Por isso, ele acrescentou na fala que suas dificuldades decorrem de não aceitar fazer as indicações políticas que os partidos impõem. Uma resistência a sucumbir ao antigo toma-lá-dá-cá. Diz ainda Bolsonaro que as mudanças no país que ele implementa são “para todos”.

É aí, porém, que parece se dar a fábrica de ondas gigantes que vem engolindo o governo. Parece haver uma certa falta de compreensão de qual seja de fato o interesse desses “todos” a quem Bolsonaro destina as mudanças que tenta fazer. Seria natural que Bolsonaro excluísse desses “todos” as parcelas que fazem oposição ao seu governo. O problema é que não são elas que vêm produzindo as ondas e tsunamis. O governo hoje se afoga dentro da sua própria piscina.

Os votos contrários que imprimiram a enxurrada de derrotas do governo na comissão especial da Reforma Administrativa vieram do DEM, do PP, do MDB… De deputados que compõem o Centrão. Sozinhos, os partidos de esquerda não seriam capazes de produzir as derrotas. Bolsonaro deve ter razão ao argumentar que tais partidos querem tutelá-lo e voltar ao “dando que se recebe” com que se acostumaram. Mas não é somente aí que o problema do presidente reside.

Vale, no caso, repetir o que por aqui já se disse. Ao lançar sua candidatura, Bolsonaro contava com um grupo que lhe é mais fiel e sólido ideologicamente e que lhe garantiu cerca de 15% de apoio. Musculatura suficiente para que ele se apresentasse como o grande contraponto ao risco de retorno do PT ao poder. Foi essa característica que fez com que ele se tornasse, então, o opção do restante dos seus eleitores. Leitores que estão fora desses 15% originais. São os empresários liberais ligados ao ministro da Economia, Paulo Guedes, que já andou também levando uns cascudos de Carluxo. Os admiradores de Sérgio Moro e da Lava Jato. Os militares que se mostram mais sensatos e moderados do que se esperava inicialmente. Os evangélicos, como se vê agora com relação ao Decreto das Armas. Os políticos e partidos do Centrão.

Em entrevista recente, Rodrigo Maia avaliava como Bolsonaro é fiel a essa parcela original de 15% que deu o primeiro impulso à sua candidatura. Apontava isso mesmo como uma qualidade. Ocorre, porém, que essa parcela está longe de representar a maioria. Excluir quem lhe faz oposição é algo normal, e não comprometeria seu governo. Olhar, porém, somente para a agenda da minoria daqueles que nas eleições se colocaram ao seu lado é tornar perigosamente incerta a navegação. De tsunami em tsunami, alguma hora uma onda o engole.

Política

Esse incrível governo sanfona…


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Foto: Marcelo Camargo – Agência Brasil/EBC

Seguidamente, os atos e declarações do atual governo têm efeito parecido ao das tempestades de verão. São breves, mas são fortes. Sabe-se que vai passar, mas sabe-se que deixará diversos efeitos deletérios pelo caminho: alagamentos, desabrigados, transtornos…

É o caso da declaração do ministro da Educação, Abraham Weintraub, de que determinaria corte em verbas de universidades pela avaliação absolutamente subjetiva e discricionária de que elas promoveriam “balbúrdia”. Promovida de fato a “balbúrdia” a partir da declaração do ministro, recuou-se do critério selecionador e estabeleceu-se um corte linear para todas as universidades. Continua sendo uma péssima notícia para o ensino superior. Mas, pelo menos, não haverá aí nenhum tipo de critério que pareça perseguição ou censura.

Mas a declaração de Weintraub produziu e produz ainda seus efeitos, como uma tempestade de verão. As redes sociais se coalharam de um lado de defesas veementes das universidades atacadas e da sua produção acadêmica. E de outro por fotos de festas provavelmente falsas e não comprovadas com gente pelada e outros excessos.

Não foi a primeira e certamente não será a última vez que o governo declara que fará uma coisa e recua depois. Essa tem sido uma rotina. Que, talvez, faça parte de uma estratégia, dentro desse novo formato estranho de comunicação via redes sociais, que ainda muito espanta e que precisa muito ser melhor estudado. Antes da volta aos Divergentes, já conversávamos que há método no Golden Shower. Também falamos sobre isso aqui .

A fala de Weintraub mobilizou os exércitos virtuais. E essa parece ser a primeira função de fato. Uma necessidade de manter a guerra nas redes. Uma necessidade de busca de manutenção do ambiente de polarização que levou à vitória do atual governo. Do outro lado, a oposição mais radical parece sentir que também somente a manutenção dessa polarização preserva sua chama acesa.

O segundo ponto a dirigir esse avança e recua é a manutenção de certa tática diversionista. Desvia-se o foco para esses temas que o próprio governo mais tarde não sustenta. Se não sustenta, os torna de fato periféricos. Mas eles, ainda que não produzam efeitos, tratam de encher de assunto e argumentos os exércitos virtuais. Que deixam de lado os temas essenciais. A predileção pelo diversionismo mantém vivo um governo ainda de muito poucos resultados práticos.

O grande problema dessa prática é que, alimentadora de conflitos, ela nutre também diversos embates internos. É um governo em crise interna permanente. Olavistas brigam com militares. Que brigam com evangélicos. Que brigam com mais alguém.

Uns noticiam que o ministro da Justiça, Sérgio Moro, está insatisfeito e quer sair do governo. Outros noticiam que quem vai sair é Damares Alves, dos Direitos Humanos. Ambos, porém, permanecem. Desmente-se a notícia. Mas ninguém tenha dúvida de que as informações iniciais saíram de fontes de dentro do próprio governo. Ou porque as insatisfações existem ou porque determinados grupos querem desgastar determinados ministros. Ou porque informações ditas e desmentidas também ajudam na tática diversionista.

E segue, assim, o baile. Um baile que, nesse avança e recua, vai sendo regido por um solo de sanfona. É abrindo e fechando o fole bem rapidamente que hoje se governa.

Política

Falta gasolina no Posto Ipiranga


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Com a enquadrada que levou a respeito do imposto previdenciário, é a segunda vez que o secretário de Receita, Marcos Cintra, é desautorizado pelo presidente Jair Bolsonaro. A primeira vez foi em novembro, Bolsonaro ainda nem tinha tomado posse, quando Cintra era assessor de Paulo Guedes na transição e propôs a criação de um imposto sobre movimentação financeira. Na ocasião, diante da reação do então presidente eleito, chegou-se a dizer que Cintra talvez nem virasse secretário. Agora, não será surpresa se ele acabar demitido.

Quatro meses depois da posse, vão caindo alguns mitos construídos na campanha em torno do “Mito”. Um deles é quanto à autonomia que seria dada a determinados ministros, especialmente Paulo Guedes, o “Posto Ipiranga” da economia. Quem esperava um Bolsonaro tutelado por certos setores de seu governo, rápido vai percebendo que estava equivocado. Bolsonaro exerce a sua Presidência. O que não quer dizer exatamente que isso seja de todo bom.

No caso da economia, o apelo a Paulo Guedes como o Posto Ipiranga era uma forma de se esquivar das questões mais técnicas. Bolsonaro admitia não entender de economia. E dizia que, nesse quesito, quem quisesses as respostas devia procurá-las diretamente no Ministério da Economia. No seu Posto Ipiranga.

A Guedes o recado parecer ter sido entendido da seguinte forma. Economia é um tema complexo. O país vive uma crise grave, que precisa de remédios amargos para ser contornada. Guedes imagina ter o caminho para tirar a carroça do atoleiro. Mas é um caminho que exige sacrifícios. Imaginava construir uma pasta forte, com técnicos decididos como ele, para desatolar a carroça. Se achava que conseguiria fazer isso sem intervenções, vai se frustrando um bocado. Falta gasolina no Posto Ipiranga.

Como qualquer outro político que se elege, por menos que admita, Bolsonaro tem seus compromissos. E é por conta desses compromissos que ele intervém. E é por conta desses compromissos que alas que imaginavam poder tutelá-lo não conseguem.

Em entrevista recente, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), fez uma acertada avaliação dos dilemas que cercam Jair Bolsonaro. Ao listar defeitos e qualidades do presidente, Maia enxergou uma forte fidelidade dele ao núcleo central do seu eleitorado. Uma parcela mais radical e sólida que lhe garantiu os 15% iniciais na campanha e que lhe deram a musculatura necessária para ser um candidato competitivo. Ao se apresentar como o grande antípoda do PT, Bolsonaro ampliou-se para além desses 15%, angariando outros segmentos que também não desejavam os petistas de volta. Empresários, gente do sistema financeiro, enfim, os liberais. Os militares. Políticos de partidos de centro-direita, como o DEM. Esses segmentos esperavam ter capacidade maior de influência no governo. Para Maia, batem-se contra o núcleo central do bolsonarismo. E Bolsonaro, por muitas vezes, tem se mantido fiel a esse núcleo. Ainda que ao final ele tenha se tornado minoria no seu eleitorado. E na sociedade.

Nas duas vezes, Cintra sugeriu impostos não discricionários. Pagos por todo mundo. E, nas duas vezes, Bolsonaro reagiu pela pressão da sua base mais sólida. No caso agora, por pressão das igrejas evangélicas. Cintra não pretendia criar um imposto só para elas. Citou-as para dizer que o tributo que pretendia seria pago por todos. Mas mexeu em um vespeiro. Para além dos evangélicos, também é tema tabu entre o eleitorado de classe média – igualmente forte na base bolsonarista – falar em novos impostos. Já basta o sacrifício que haverá na Previdência. E assim o próprio Maia acabou saindo também contra Marcos Cintra.

Fica, porém, demarcado que nenhum dos setores que julgavam ter poder e autonomia dentro do governo na verdade os têm. Quem manda no Posto Ipiranga é Bolsonaro. Como se viu no episódio da destituição de Ilona Szabó do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária, quem manda no Ministério da Justiça é também Bolsonaro, e não Sério Moro. Como se viu no episódio do aumento do óleo diesel e da propaganda do Banco do Brasil, é Bolsonaro também quem manda nas estatais. E como se vê nas constantes pendengas com o vice-presidente Hamilton Mourão ou com o secretário de governo, general Santos Cruz, os militares também não tutelam o presidente.

No fundo, não pode ser uma surpresa perceber que um presidente com o perfil de Bolsonaro queira exercer autoridade. O risco ocorrerá se ele não perceber que o Brasil é bem maior e mais complexo que sua base sólida de 15%.