Seleção brasileira

Política

Datafolha é Maracanã em dia de FlaXFlu


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Foto: Clauber Cleber Caetano/Agência Brasil-EBC

Quando o presidente Jair Bolsonaro adentrou o gramado do Maracanã para premiar os jogadores da Seleção Brasileira campeã da Copa América, metade do estádio o vaiou e outra metade o aplaudiu. Na fila para receber as medalhas, parte dos jogadores e o técnico da Seleção, Tite, demonstraram claro incômodo na proximidade com o presidente. Outros, porém, ficaram claramente orgulhosos, felizes, por estarem com Bolsonaro.

Um dia depois, o Instituto Datafolha espelhou em números precisos a sensação do domingo. O Brasil, assim como aconteceu com a torcida e com a delegação da Seleção Brasileira, divide-se exatamente entre os que amam Bolsonaro e os que odeiam. E outra parcela também do mesmo tamanho fica no meio entre as duas pontas, indiferente ou pelo menos distante dessas paixões exacerbadas. Quem andou nos últimos anos ouvindo as redes sociais falarem de “coxinhas”, “mortadelas” e “isentões”, é isso mesmo, levado à potência extrema.

Segundo o Datafolha, um terço dos brasileiros ama Bolsonaro. E certamente esse primeiro terço saiu daqueles que ao longo dos últimos anos foi classificado nas redes sociais como “coxinhas”. São o créme de la créme dos coxinhas. Outro terço odeia Bolsonaro. E sem dúvida essa parcela vem daqueles que as redes sociais andaram chamando de “mortadelas”. São a essência da mortadelice. E quem fica no meio é ainda aquela turma tida como “isentões”. Aqueles aos quais ou a política não apaixona tanto ou aqueles que entendem que não há assim tantos mocinhos e bandidos no mundo.

Ainda que a pesquisa Datafolha não tenha mostrado números muito diferentes da rodada anterior, ela impressiona por apresentar um país tão exatamente dividido entre as torcidas desse já bastante incômodo FlaXFlu político. É incrível que 33%  considere o governo ótimo ou bom e outros exatos 33% considerem o governo ruim ou péssimo. E que haja 31% que o considere regular. Ou seja: um país dividido em três partes exatamente iguais, uma vez que o percentual de 31% que fica no meio se iguala aos demais na margem de erro da pesquisa.

Para quem deseja um país menos convulsionado para que tenha a necessária tranquilidade para avançar, essa certamente não é uma boa notícia. A famosa cena do gramado da Esplanada na votação do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, que virou o cartaz do filme “Democracia em Vertigem”, continua dolorosamente atual. Somos aquele gramado dividido por um feio muro improvisado de metal verde, um terço de um lado, outro terço do outro. E outro terço em casa. De cada lado do muro, vamos ruminando nossos ódios para soltá-lo para o outro lado, como massa verde, ácida e gosmenta.

O quadro anima radicalismos. A Bolsonaro, demonstra que sua melhor estratégia é manter-se polarizado contra Lula e o PT. A Lula e ao PT, mostra que a melhor estatégia é igualmente radicalizar posições e polarizar-se contra Bolsonaro. E a outra parte isola-se, seja porque sempre se omite, seja porque não enxerga solução nos extremos, seja porque não encontra alternativa a esses extremos.

Talvez isso deságue nos próximos dias na votação da reforma da Previdência. Em vez da busca de consensos necessária na democracia, uma guerra entre extremos. O governo querendo atropelar uma reforma sem maiores discussões. A oposição tentando derrotá-la também sem apresentar soluções alternativas. Vitórias ou derrotas absolutas não é bem o jogo das democracias…

Política

É prudente respeitar os “idiotas”


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Lá do Texas, distante oito mil quilômetros das ruas brasileiras, o presidente Jair Bolsonaro tratou de chamar os milhares de manifestantes que protestaram contra os cortes no orçamento da Educação de “idiotas úteis”.

Governos minimizarem o efeito de manifestações contra eles é algo tão comum quanto técnicos da Seleção Brasileira minimizando as consequências de uma goleada num amistoso às vésperas da Copa do Mundo. Quem está de fora, porém, sente e sabe bem a diferença que há entre a realidade e o discurso.

Jair Bolsonaro é fruto dos movimentos de protesto que começaram na Copa das Confederações ainda no primeiro governo Dilma Rousseff. Movimentos que depois nunca mais pararam e foram crescendo até inviabilizar completamente a permanência de Dilma e da era petista. Deveria, portanto, ser o primeiro a identificar os efeitos dessas ondas de insatisfação.

Mas Bolsonaro foi bem mais além que minimizar. Ele resolveu provocar os manifestantes. Chamou-os de “idiotas”, de “massa de manobra”. Seria bem mais prudente ao presidente respeitar esses “idiotas” que foram às ruas. A situação de Bolsonaro não anda das mais confortáveis.

Há no modus operandi de Bolsonaro e da turma mais próxima a ele – incluindo seus filhos – uma necessidade atávica de agredir sempre os adversários. É o clima de guerra permanente das redes sociais. E já comentamos sobre isso por aqui. Algo que Bolsonaro importa de outros governantes que antes dele tinham descoberto o poder das redes sociais. É assim que faz Vladimir Putin na Rússia. É assim que faz Donald Trump nos Estados Unidos.

Ocorre que a Rússia é um país onde o Estado é muito forte. Não é exatamente uma democracia. Nos Estados Unidos e aqui, o estilo da agressividade crônica atiça os adversários. Mantém um clima de confronto e crise permanente. E já começa a ficar evidente que essa intranquilidade permanente não exatamente ajuda o “capitão eleito”, para repetir uma expressão usada por seu filho, Carlos Bolsonaro.

Enquanto pessoas foram às ruas em número longe de ser desprezível, Bolsonaro reagia chamando-o de “idiotas”. Na Câmara, o ministro da Educação, Abraham Weintraub, igualmente reagia insinuando chamar os deputados de “vagabundos”, que nunca na vida tiveram uma carteira assinada. Ou seja: é guerra permanente contra os supostos adversários.

Mais uma vez guardando o espaço da sensatez no governo, o vice-presidente Hamilton Mourão disse que as reações aos cortes na Educação foram um problema de comunicação. Foram mesmo. Se o governo desde o início tivesse dito que o corte era necessário porque os governos anteriores, de Dilma e de Michel Temer, tinham quebrado o país, o que não deixava alternativas, talvez tivesse conseguido a partir daí criar um outro ambiente. Primeiro, obrigaria os adversários a se debruçarem nos números. Segundo, números sempre são mais difíceis de compreender. Não geram disposição para palavras de ordem. Terceiro, poderiam arregimentar grupos em efeito contrário, que reclamariam dos desmandos e trapalhadas da era petista.

Mas Weintraub resolveu dizer que estava cortando o dinheiro porque as universidades faziam “balbúrdia”. Mesmo tendo tornado depois o corte generalizado, foi essa primeira mensagem que ficou. Quem nunca frequentou uma universidade pode mesmo pensar – até por despeito – que ali só se faz bagunça. Quem, porém, sentou nas cadeiras de um curso superior e dá valor ao diploma que recebeu, sabe o que exatamente fez para merecê-lo. O que inclui boa parte da elite conservadora brasileira. Ou seja: boa parte dela não vai comprar esse discurso para desmerecer o valor do seu próprio esforço.

Assim, construiu a palavra de ordem que ontem foi às ruas. Foi chamado à Câmara para se explicar numa clara molecagem do Centrão. Passou o recibo. Chegou no plenário e agrediu os deputados. Nem se ajudou nem ajudou o governo que patina no Congresso colecionando derrotas.

Nas atitudes de Bolsonaro e de Weintraub há a esperança de que arregimentaram seus exércitos. E que um dia esses exércitos possam sair às ruas, se necessário, em sua defesa. Mas é sempre bom lembrar. A turma aguerrida de Bolsonaro nas redes é o seu grupo inicial, de uns 15%. Não é a maioria mesmo daqueles que o elegeram. Falar o tempo todo somente para esses grupos não é falar para a maioria da sociedade. Esse erro vem sendo repetido seguidamente.

Política

A Copa que estamos amando odiar


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Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil-EBC

Antes, era uma certa indiferença. As ruas não foram pintadas tanto de verde e amarelo como nos últimos anos. A camisa amarelinha tornou-se vítima do estúpido maniqueísmo FlaXFlu que transforma ultimamente tudo em disputa política. Depois do empate contra a Suíça e da demora em conseguir o primeiro gol contra a Costa Rica, a indiferença parece ter se transformado em ódio contra a Seleção para muitos brasileiros. Se tomadas como sentimento genuíno algumas considerações vistas nas redes sociais, muita gente parece estar torcendo contra a equipe canarinho apenas como forma de reforçar seus pontos de vista e comprovar seus vaticínios.

Não me atrevo a querer aqui aprofundar avaliações futebolísticas e esportivas. Isso fica a anos-luz das minhas especialidades. Mas numa Copa em que a Alemanha começou perdendo para o México, em que a Argentina empatou com a Islândia e perdeu feio para a Croácia, e times com França e Uruguai venceram seus adversários com apenas um gol de vantagem, estamos tão mal assim? Por que nosso sufoco para abrir o placar contra a Costa Rica é sinal de que não vamos longe e o sufoco da Alemanha para abrir o placar contra a Suécia é espelho da sua garra e vontade de vencer o jogo? Além da avaliação de performance esportiva, a resposta parece a seguinte: o Brasil está com ódio de si mesmo. E espelha esse ódio na sua relação com a Seleção Brasileira.

Alguém disse uma vez que o brasileiro não gosta de esporte, ele gosta de ganhar. Isso explica as atenções eventuais que dá a determinados esportes e depois os abandona. Acordava cedo para ver Fórmula Um quando havia Ayrton Senna. Aprendeu tudo sobre tênis para acompanhar Gustavo Kuerten. No caso do futebol, o brasileiro desenvolveu relação diferente. Identifica-se completamente com o jogo. Se apaixonou por ele. Mas sua obsessão pela vitória tornou-o implacável com a Seleção. O time brasileiro não pode nada a não ser ganhar. E ganhar com imensa superioridade.

Eterna promessa de progresso e prosperidade que nunca chega, o Brasil tornou-se soberano apenas no futebol. E, num tempo em que o jogo tornou-se mais equilibrado, em que não há a moleza de antes para os outrora gigantes do futebol – como vem mostrando nessa Copa a trajetória da Alemanha e da Argentina -, isso para nós tem sido insuportável. Já não fazemos a diferença nem mesmo com a bola nos pés.

A Seleção canarinho é espelho do que somos e do que desejamos ser. E não estamos felizes conosco. Depois de ter vivido momentos de prosperidade, o Brasil mergulhou numa profunda espiral negativa. Viu seu segundo presidente sofrer processo de impeachment. Tem hoje um presidente com índices baixíssimos de popularidade. Não enxerga perspectivas. Qualquer dúvida quanto a isso, é só observar as pesquisas de intenção de voto, com seus índices entre 60% e 70% de pessoas que ainda não têm candidato nas eleições de outubro.

Numa entrevista recente com Romário, o grande craque da Copa de 1994, hoje senador, ele disse coisas importantes que vão nessa linha. Em 1992, lembrava ele, o Brasil tinha perdido um dos maiores ídolos da sua história, Ayrton Senna, e Fernando Collor havia sido deposto num processo de impeachment marcado por denúncias de corrupção. Não estávamos felizes conosco, e a conquista da Copa nos proporcionou certa redenção.

Em outra pergunta, Romário foi questionado sobre se exageramos a relação entre futebol e política. “Muito pelo contrário”, respondeu ele. Para Romário, essa relação é muito forte, pelo peso que o futebol tem na nossa formação cultural e de caráter. Para o bem e para o mal. Para o mal, na força da corrupção que se verificou nas recentes investigações sobre a CBF. Para o bem, na forma como nossas características se decalcam no estilo de jogar bola do brasileiro, que o torna único.

Espelho, portanto, das nossas características, a Seleção terá o amor brasileiro caso se ofereça como redenção para os nossos pecados e tristezas. Como em 1994. Ou nas conquistas anteriores. E nosso ódio caso sirva apenas para reforçar aos olhos do mundo nossos defeitos. Somos Neymar. Queremos nos enxergar nas suas virtudes. Mas temos ódio quando nos enxergamos nos seus defeitos…

P.S: por uma série de razões, fiquei um pouco afastado do site nos últimos tempos. Peço, assim, desculpas, aos poucos que por aqui me acompanhavam. Prometo que retornarei aqui agora com mais assiduidade…