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Política

O governo declarou guerra ao crime. E está perdendo…


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Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil-EBC

É inútil tentar explicar àqueles que compartilham fake news e outras barbaridades nas redes sociais o que significa no contexto do combate à criminalidade no Rio e no Brasil a bárbara execução da vereadora Marielle Franco. Há aí uma tenebrosa combinação de canalhice com ignorância e burrice insolúvel que torna completamente inútil qualquer tentativa. Melhor não escrever para essa gente. Melhor ignorá-los. A nuvem de estupidez que baixou na atmosfera do Brasil e do mundo nos últimos tempos um dia há de se dissipar.

Quando resolveu depois do carnaval decretar intervenção federal no Rio de Janeiro e criar o Ministério da Segurança Pública, o presidente Michel Temer resolveu declarar guerra ao crime. Ele mesmo convenceu-se – como alíás chegou mesmo a declarar – que dava uma “jogada de mestre”. Se livrava da pauta impopular da reforma da Previdência, se livrava do tanto que aquela pauta o deixava refém dos parlamentares e partidos da sua base de sustentação, e focava as ações do governo naquilo que a população considera o maior problema atual do país: a sensação de insegurança, o medo de andar nas ruas. O problema de Temer é que tal decisão não tinha como ser apenas um lance político, uma jogada de marketing. O governo declarou guerra ao crime. O crime aceitou a declaração de guerra. E o governo até agora está perdendo feio a guerra. E Marielle é a principal vítima disso.

Assessores do Observatório da Segurança, que o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), criou para acompanhar a intervenção e as ações do novo ministério chefiado por Raul Jungmann estão absolutamente espantados. A impressão que têm até agora é de que tudo não passou mesmo de mera jogada de marketing político. Não há orçamento previsto para as ações, não há uma estratégia definida. Temer colocou no seu colo o complexo problema da segurança sem imaginar como lidaria com isso, quanto mais solucionar. Gerou imensa expectativa da população. E agora terá de dar resposta a isso. Marielle é responsabilidade sua. O bebê Benjamim, de apenas um ano, morto em tiroteio no Morro do Alemão, é responsabilidade sua. Cada dia em que a criminalidade no Rio ou em qualquer outro ponto do país segue igual e sem perspectiva de solução passou a ser responsabilidade sua.

No caso da intervenção no Rio, a mudança visível que o general Braga Nunes pôde fazer foi a mudança nos comandos das polícias. Atacar uma estrutura viciada e tentar saneá-la. Bobagem, porém, imaginar que isso não teria reação. O maior problema da criminalidade no Rio não está nos morros e nos seus traficantes. Está na estrutura muito mais poderosa que, fora dos morros, sustenta a ação desses traficantes. E boa parte disso está na corrompida, carcomida, estrutura das polícias. Os criminosos de farda nos seus conluios com o tráfico e no comando das milícias que instituem um Estado paralelo no Rio. Era na denúncia dessa situação que Marielle atuava. Seu assassinato foi um recado: não mexam nisso, não alterem a lógica dessa organização.

Fica o governo diante de duas alternativas. A primeira é enfrentar até o fim a guerra que declarou. Se tiver dinheiro, capacidade e inteligência estratégia para isso. Até agora, não há sinais muito evidentes de nada disso. Nesse caso,o sangue correrá, para nossa infelicidade, será o de inocentes como Benjamim. A outra é fazer o que sempre se fez: manter o triste acordo entre as autoridades e o crime que vai fazendo do Rio essa terra sem lei.

A segunda hipótese será a rendição. A primeira hipótese a derrota, caso não haja uma virada radical nos próximos dias face ao que se viu nas primeiras semanas da intervenção. Solucionar e prender os responsáveis pela execução de Marielle é o primeiro passo. Do contrário, o governo verá explodir de vez a bomba que ele mesmo colocou em seu colo.

Política

Rebelião no presídio mostra o alto risco da jogada de Temer


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Foto: Fábio Pozzebom/Agência Brasil-EBC

Ao decretar intervenção federal na segurança pública no Rio de Janeiro, o presidente Michel Temer resolveu declarar guerra ao crime organizado. E o crime organizado aceitou de pronto a declaração de guerra. Não hesitou nem um momento para reagir pesado e apresentar as suas armas, com a rebelião no presídio Milton Dias Moreira em Japeri, região da Baixada Fluminense. Logo nos primeiros dias da intervenção, o governo já é confrontado com a questão crucial: tem de fato cacife e estrutura para vencer a guerra que declarou?

A intervenção federal na segurança foi uma jogada de Temer visando matar dois coelhos com uma cajadada só. Retiraria de cena a reforma da Previdência, diante da constatação de que não tem votos para aprová-la, e entraria de sola no tema que todas as pesquisas hoje apontam como o de maior preocupação do cidadão: o crescimento do crime e da violência em praticamente todas as cidades do país. Foi, porém, uma jogada de altíssimo risco. Temer corre o risco de errar os dois coelhos e ainda acertar o cajado no próprio pé.

Temer flerta com o tema da segurança pública desde os primeiros dias de seu governo, após assumir com o impeachment de Dilma Rousseff. Desde o início, sempre esteve nas suas avaliações o anseio da sociedade por uma política de segurança mais efetiva. Mas também desde o início ele vinha sendo alertado pelos especialistas para o risco que corria ao entrar de forma mais aprofundada na questão. Esse debate começou a acontecer internamente quando o governo começou a esquadrinhar seu Plano Nacional de Segurança.

Cada uma das medidas anunciadas na ocasião passava anteriormente por uma bem medida estratégia na sua comunicação. Na qual se dizia que o governo passava a apoiar a segurança de forma mais efetiva, mas que ela continuava a ser responsabilidade dos estados. A crise financeira atingiu os estados de forma certeira. Endividados e com a criminalidade crescendo, diversos governadores começaram a ter grande dificuldade para lidar com o tema da segurança. E era cômodo para eles jogar a responsabilidade pelo tema no colo do governo federal. Começaram a chover pedidos de uso da Força Nacional, recursos para presídios, ajuda orçamentária. O governo começava a se enredar na rede que criara para si.

Os acontecimentos dos últimos dias mostraram que a estratégia até agora, de apoio mais efetivo e com o uso da Força Nacional e das Forças Armadas a pedido dos governadores, a tal Garantia da Lei e da Ordem, não vinha trazendo os resultados esperados. Daí, a ideia de uma ação mais efetiva no Rio, com a intervenção federal.

O problema para o governo é que, agora, passa a estar no seu colo mesmo a solução para o problema no Rio. Se o governador Luiz Fernando Pezão resistiu no começo, agora, na verdade, começa a se sentir aliviado. O maior problema que o Rio de Janeiro enfrenta agora já não é mais responsabilidade sua.

Como ficará o governo Temer se outros governadores agora começaram a achar também que pode ser uma ideia boa voluntariamente terem seu poder enfraquecido entregando nas mãos do governo suas estruturas de segurança? Governadores dos estados vizinhos ao Rio já procuraram o governo temendo que chefes do crime fujam para lá caso se acirre a guerra nos morros. Pedirão também ajuda ao governo? O governo poderá negar essa ajuda? E é melhor a situação de criminalidade em estados como o Ceará ou o Rio Grande do Norte? Se os governadores declararem não ter mais condições de lidar com o problema, o governo fará novas intervenções? O governo federal tem condições de assumir nacionalmente a segurança pública? As Forças Armadas têm efetivo e treinamento para assumir o combate à criminalidade?

Desde sexta-feira, fontes das Forças Armadas já têm admitido que não se prepararam com antecedência para a situação. O plano, por enquanto, segue sendo o mesmo que já era executado no Rio, dentro da Garantia da Lei e da Ordem. Ou seja, será modificado de forma improvisada, a partir das decisões agora do interventor, general Braga Nunes. Se não havia um planejamento prévio para essa primeira ação, como será lidar com a ampliação disso, se houver demanda semelhante de outros estados?

Se a jogada de Temer der certo, sem dúvida ele entra no páreo eleitoral. Terá apresentado soluções para uma das maiores tragédias brasileiras. Mas, se der errado, na melhor das hipóteses Temer fica no mesmo quadro de impopularidade em que já se encontra. Mas há, no entanto, um risco grande de piora. Se começarem a surgir episódios sangrentos. E se tais episódios sangrentos representarem derrota para o governo na sua intervenção? Será uma espécie de Vietnã dentro de casa.