Rodrigo Maia

Política

O vírus da política


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Foto: Isaac Nóbrega/PR

Há alguns dias, o governador Ibaneis Rocha, vendo o rumo que já vinha tomando a discussão sobre o novo coronavírus envolvendo o presidente Jair Bolsonaro e os governadores, especialmente o governador de São Paulo, João Dória, desabafou, irritado, com um interlocutor: “Fica todo mundo olhando só para o próprio umbigo. Politizando o que não é para politizar”.

Essa é a chave para explicar por que Ibaneis resolveu não participar da reunião de todos os demais governadores com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ). Nas últimas horas, desde o arriscadíssimo pronunciamento de Bolsonaro na televisão, sugerindo às pessoas que flexibilizassem o confinamento e voltassem ao trabalho para evitar um desastre econômico, o debate em torno da covid-19 foi deixando de ser um debate médico-sanitário para virar um debate político-eleitoral.

O governador do DF optou por não ser mais um no retrato dessa disputa que, no momento, em nada ajuda na prática a contenção da contaminação pelo coronavírus. Ao contrário, só expõe o mundo das autoridades à contaminação por outro bichinho: o vírus da política, aquele que, desde o célebre poema escrito no século 19 por Machado de Assis, a gente sabe que é transmitido pela mosca azul.

Não que Dória ou Rodrigo Maia a essa altura sejam os únicos responsáveis por essa politização do tema. Na verdade, quem começou com isso foi Bolsonaro. Ele é que, sentindo ficar numa posição coadjuvante nas ações para evitar a pandemia, optou por essa estratégia de fazer um discurso na contramão de todos os demais. Sua hesitação e inação levou ao protagonismo dos governadores e de seu ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. Não por acaso, seu pronunciamento aconteceu depois da divulgação da pesquisa Datafolha que mostrava maior grau de confiança da população nas ações dos chefes estaduais e do ministro da Saúde.

No caso de Ibaneis, na prática, não ter ido à reunião dos governadores com Maia em nada muda as suas ações. Ibaneis foi o pioneiro na adoção das medidas de restrição para evitar o contágio. Foi o primeiro a fechar escolas e lojas. Não teria sentido mudar de opinião quanto a isso agora. Pelo contrário, é possível que, ao final do decreto, que acaba em 4 de abril, ele acabe estendendo novamente as medidas de restrição caso haja necessidade.

Foi Ibaneis quem pediu à Justiça que exigisse do Hospital das Forças Armadas (HFA) a entrega da lista de nomes das pessoas que ali fizeram exames e testaram positivo para o coronavírus. E é estranho que o hospital informe que houve 17 testes positivos mas tenha omitido o nome de duas pessoas. Bolsonaro e sua mulher, Michelle, ali fizeram seus testes. Ou seja: na prática, a linha de Ibaneis neste momento vai no sentido oposto à adotada por Bolsonaro. E o governador do DF não se furta a situações de confronto como essa.

Quanto a, porém, discutir agora a contaminação pelo vírus da política e não pelo coronavírus, aí, é outra história…

Política

Freios e contrapesos de Rodrigo Maia


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Foto: Agência Brasil/EBC

A mais de um interlocutor nos últimos dias, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), disse que, se receber um pedido bem fundamentado de impeachment contra o presidente Jair Bolsonaro, ele poderá aceitá-lo e dar encaminhamento ao processo. Independentemente de qual seja o desfecho, é nesse pé que está hoje o perigoso flerte que Bolsonaro vem fazendo com o autoritarismo.

Em 1748, o filósofo francês Montesquieu publicou os 31 volumes da sua obra “O Espírito das Leis”. Nela, ele estabelece o que ficou conhecido como sistema de “freios e contrapesos” entre os poderes. Trata-se de um princípio basilar das democracias. Significa dizer que os poderes têm de trabalhar de uma forma em que um equilibre o outro. Numa democracia equilibrada, estabelece-se um sistema em que um poder terá ferramentas para impedir que um outro poder extrapole os seus limites. São os freios e contrapesos. Se um poder ultrapassa, os demais precisam ter condições de trazè-lo de volta para o lugar.

O ex-senador Marco Maciel, vice-presidente da República no governo Fernando Henrique Cardoso gostava de chamar o princípio estabelecido por Montesquieu de “equipotência dos poderes”. Os americanos e ingleses chamam de “check and balances”. Qualquer nome que se dê, os freios e contrapesos existem e são fundamentais em qualquer democracia.

Admirador declarado dos tempos nada democráticos da ditadura militar, o presidente Bolsonaro age na democracia como uma criança mimada que a todo momento testa os limites da autoridade dos seus país. Se os pais cedem, ele avança testando novos limites. Se os pais reagem, ele recua. Daí, a necessidade sempre da utilização no momento dos tais freios e contrapesos propostos pelo iluminista francês.

No nosso caso atual, quem tem se valido com gosto da prerrogativa de contrabalançar os excessos do presidente tem sido Rodrigo Maia. Naturalmente, na linha do que propôs Montesquieu, isso faz parte do seu papel. Mas também seria ingênuo supor que Maia assim age somente movido por suas convicções democráticas. O presidente da Câmara viu no comportamento de Bolsonaro uma janela de oportunidade. E é por ela que ele ensaia passar.

A profunda polarização ideológica das últimas eleições parece ter afundado o Brasil num tempo de insanidade. O contraponto de um presidente que ofende, difama e dá bananas para jornalistas virou, por exemplo, um senador, Cid Gomes (PDT-CE), avançando com uma retroescavadeira contra policiais militares. Que, diga-se, também extrapolam de seus direitos assombrando cidadãos, fechando lojas do Ceará encapuzados.

Rodrigo Maia prega que o antídoto para o hospício do radicalismo é a recuperação do centro democrático. Na sua avaliação, foi quando o país optou por esse centro que ele encontrou as melhores condições de estabilidade para avançar. Desde o ano passado, ele patrocina filmes divulgados na internet com essa ideia, dirigidos com competência pelo marqueteiro Chico Mendez.

Reuniões rotineiras têm sido feitas por Rodrigo Maia com políticos do centro democrático. Mesmo nomes do PT, como o deputado Paulo Pimenta (PT-RS) e o senador Jaques Wagner (PT-BA), têm participado das conversas. Na prática hoje, elas servem para manter Maia com o comando da Câmara, de onde ativa seus freios e contrapesos para evitar maiores arroubos do Executivo. Ele espera que tais ações redundem em alguma coisa na sucessão presidencial de 2022.  Pouco provável que elas tragam como consequência a própria candidatura de Maia. Mas ele pelo menos espera ter um papel preponderante na construção de um nome de centro para oferecer aos eleitores na ocasião.

O presidente da Câmara tem, por exemplo, conversado quase diariamente com o apresentador de TV Luciano Huck, nome que hoje também tem a simpatia do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Como alternativa, Huck tem um potencial curioso: mais do que com Bolsonaro, ele disputa votos entre a população mais pobre que hoje é eleitora de Luiz Inácio Lula da Silva, que, barrado pela Lei da Ficha Limpa, não disputará a eleição.

Tudo isso, é claro, se a racionalidade e o respeito à democracia for mantido daqui até 2022. Para isso, a democracia possui seus instrumentos. Os freios e contrapesos estabelecidos por Montesquieu. Nesse sentido, Rodrigo Maia abre sua caixa de ferramentas.

Política

Saída pela direita?


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Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil – EBC

A pesquisa divulgada no primeiro dia do ano pelo Instituto Datafolha reforça impressões perigosas, que devem fazer acender um alerta na sociedade. Mas que também servem para apontar para qual rumo político deve continuar seguindo o país neste ano de 2020 e nos próximos.

De acordo com a pesquisa, diminuiu o apoio dos brasileiros à democracia. Felizmente, a maioria de nós continua considerando que a democracia é o melhor regime de governo. Ou, pelo menos, como dizia Winston Churchill, é o pior à exceção de todos os outros. Segundo o Datafolha, 62% dos brasileiros consideram que a democracia é sempre a melhor forma de governar. Em outubro de 2018, porém, quando foi feita a mesma pergunta, o apoio à democracia foi de 69%. Um outro dado que preocupa é que aumentou nove pontos percentuais a parcela daqueles que consideram que tanto faz se o governo seja democrático ou não: de 13% para 22%. Manteve-se o índice dos que disseram considerar que uma ditadura pode ser melhor que a democracia em certas circunstâncias: 12%.

Para além das chances de retorno de uma ditadura, que o maior percentual dos entrevistados considera uma possibilidade remota, os dados do Datafolha reforçam uma constatação: o Brasil endireitou. Não no sentido de que tenha deixado de ser torto. Mas no sentido de que guinou à direita.

Infelizmente, com as seguidas interrupções que tivemos ao longo da nossa vida na nossa democracia, não conseguimos amadurecer na nossa sociedade a aptidão democrática. Adquirimos um sentimento paternalista com relação aos nossos governantes. Esperamos que eles sejam uma espécie de redentores com a capacidade de resolver todos os nossos problemas com a força das suas canetas. Como nenhum deles, por melhor que seja, jamais terá tal capacidade, nos frustramos. E essa frustração nos leva a desprezar a democracia, imaginando que mais poder dará mais tinta à caneta. Depois, nos arrependemos. E seguimos assim nossa trágica sina.

Dificilmente, conservadores de países como os Estados Unidos, Inglaterra ou França diriam que tanto faz uma democracia ou uma ditadura. Os cidadãos de direita desses países, na sua ampla maioria, vão às urnas tentar eleger seus candidatos e perdem ou ganham, sabendo que ganhar ou perder faz parte do jogo. Mas, por aqui, infelizmente, o desapreço à democracia muitas vezes mistura-se com a tendência à direita.

De qualquer modo, o Datafolha mostra que tal percepção ainda é de uma minoria. O que importa é que o jogo segue democrático. Em um momento em que parece haver uma expressiva percepção mais à direita do jogo político. E é isso o que transparece nos primeiros movimentos do xadrez eleitoral nessas primeiras horas de 2020.

Talvez nunca tenha havido tamanha profusão de candidatos de perfil mais conservador ensaiando a entrada no jogo da sucessão presidencial. A começar pelo próprio Jair Bolsonaro, o mais de direita deles. Mas é pela mesma raia, com maior ou menor inclinação, que se ensaiam os governadores de São Paulo e do Rio, João Dória e Wilson Witzell. É por aí que vai o apresentador de TV Luciano Huck. Ou o ministro da Justiça, Sérgio Moro. Mesmo o movimento de valorização do centro político, que se esboça, tem inclinação mais à direita. Nada indica inclinações antidemocráticas no presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), mas, do ponto de vista econômico, ele é, sem dúvida, um conservador.

Enquanto isso, o campo da esquerda segue tendo sua alternativa concentrada em um Luiz Inácio Lula da Silva que, como em 2018, continua impedido de disputar a eleição, barrado que está pela Lei da Ficha Limpa. Parece cada vez mais improvável que ele consiga reverter as condenações contra ele. Então, candidato não será. Para onde, então, se reverterão os votos que não serão para ele? Terá Lula agora maior capacidade de transferir seus votos para outro candidato, talvez o mesmo Fernando Haddad, do que teve em 2018? Ou o provável recrudescimento da opção mais à direita do eleitorado enfraquecerá mais ainda a opção?

Além disso, outras opções de esquerda, como Ciro Gomes, do PDT, parecem pelo menos neste primeiro momento enfraquecidas. O partido de Ciro não tem nomes visíveis fortes para a disputa municipal deste ano, como forma de ir pavimentando seu caminho.

Pelo campo da direita, há ainda um último fator importante. Se Bolsonaro não for capaz de colocar em campo no pleito municipal seu novo partido, o Aliança, assanha ainda mais as pretensões dos demais nomes à direita no sentido de ocuparem esse vácuo. Ao que tudo indica, o jogo de outubro será mais intenso pelo lado direito…

Política

O hambúrguer diversionista


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Embora não seja, sem dúvida nenhuma, um bom tempero para hambúrguer, é impossível pensar na indicação do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) para a Embaixada dos Estados Unidos sem lembrar do “golden shower” do carnaval passado.

A divulgação do tal vídeo pornográfico acrescido do comentário constrangedor que perguntava aos brasileiros nas redes sociais o que é “golden shower” garantiu ao presidente Jair Bolsonaro espaços e mais espaços não só nas redes sociais mas também na imprensa tradicional.

Agora, temos a discussão em torno das qualidades de Eduardo Bolsonaro para assumir a principal representação diplomática brasileira nos Estados Unidos. Ele fala, diz o presidente, inglês fluente porque, como diversos rapazes de classe média, fez intercâmbio nos Estados Unidos. Então, aparece um vídeo no qual Eduardo começa a dar uma entrevista para uma TV americana, empaca no meio, e reage dizendo: “Deu um branco aqui, caralho!”. Além disso, ele mesmo, ao mencionar suas qualidades, conta que “já fritou hambúrguer no frio do Maine”. O Instituto Rio Branco provavelmente já cogita incluir o curso de chapeiro entre as cadeiras de formação diplomática.

Num jogo combinado, Bolsonaro solta a ideia da embaixada e Eduardo a replica, aceitando a honrosa tarefa. Então, Eduardo enumera seu currículo de intercambista chapeiro e quem replica aí é o presidente. E, nós, vamos na sequência também replicando a história, porque, afinal, palavra de presidente, mesmo que soe como patacoada, diante do seu grau de importância, vira assunto sério.

E porque, no caso, o balão lançado com a história de Eduardo Bolsonaro embaixador pode mesmo ganhar os ares e se concretizar de fato. Se der certo, Bolsonaro emplaca o filhote na embaixada. Se não der, se ele vier a ser rejeitado pelo Senado, se o Supremo julgar que é nepotismo, se a pressão o fizer mudar de ideia, seguirá a vida, dizendo que respeita a democracia e que não se pode ganhar todas.

Em uma ou outra hipótese, porém, o presidente terá desviado o foco de outros temas que lhe causam incômodo. A começar pela reforma da Previdência. Embora Bolsonaro a tenha encampado e pareça convencido da sua necessidade, desde a campanha ainda, a pauta das reformas pertence à ala liberal do seu governo, que não é a sua. Há mais de uma dezena de vídeos e reportagens do passado que mostram como Bolsonaro, pessoalmente, como parlamentar, sempre foi contra as tentativas anteriores de reformar a Previdência. Na votação, ficou claro como parte da sua base voltou-se contra o projeto, obrigando o próprio presidente a pedir tratamento especial para seus correligionários policiais. Quando o texto-base da reforma foi aprovado, quem foi elogiado e aplaudido foi o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ).

E há ministros e filhos enrolados em processos com laranjas. Há baixo crescimento da economia. Há desemprego crescente. Há Sérgio Moro e suas conversas comprometedoras. Contra tudo isso, envidemos, então, nossos esforços para fritar hambúrguer no número 3006 da Massachussetts Avenue em Washington, DC.

Política

Rodrigo Maia, o reformista. Será raposa?


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Foto: Fabio Pozzebom/Agência Brasil-EBC

O choro do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), ao anunciar, na tarde da quarta-feira (10), o resultado da aprovação do texto-base da reforma da Previdência foi o retrato inconteste do triunfo da velha política. Pode-se comparar perfis, experiências, reputações, mas Maia recuava ali mais de 60 anos e recolocava o país na lógica do equilíbrio político que ainda hoje o caracteriza. Era o velho PSD da década de 1950 mostrando ainda as suas caras.

É incrível como o arranjo político desenhado no Brasil ao final da era Vargas seja ainda o desenho mais sólido do jogo de forças que mantém nossa estabilidade em tempos de democracia. Os partidos mudaram, novos grupos surgiram, novas pressões aconteceram, há hoje diversos elementos novos vindos de outras formas de participação da sociedade – a mais recente delas, a força de pressão direta via redes sociais. Mas a lógica que havia no tripé UDN-PSD-PTB naquele arranjo permanece. A UDN representando os grupos conservadores, de direita, à época ligados às novas categorias de profissionais liberais que surgiam com o crescimento urbano brasileiro. O PTB ligado à crescente organização sindical, dos trabalhadores que se aglutinavam com a industrialização do país e os embates do sindicalismo. E o PSD, ao centro, aglutinando os coroneis e raposas da política de líderes regionais da Velha República com novos representantes das forças moderadas.

Como mostra Lúcia Hippolito no seu ótimo livro “PSD, de Raposas e Reformistas”, o PSD foi fortemente responsável por manter a estabilidade política do final da era Vargas até o final da década de 1950, administrando e amaciando os conflitos entre esquerda e direita, partidariamente representados pelo PTB e pela UDN. Em tempos em que a Guerra Fria estimulava arroubos golpistas de um lado e de outro. Um trabalho que provavelmente atrasou em coisa de vinte anos o infeliz desfecho da ditadura militar com o golpe de 1964. Foi do PSD a última tentativa de manter as coisas estabilizadas, com a implementação do parlamentarismo para reduzir os poderes de João Goulart.

A vitória de Jair Bolsonaro após a longa era em que o PT se manteve no poder – a maior era de domínio de um partido na nossa história republicana – traz de volta para o cenário um tempo de embate forte entre direita e esquerda. Com todos os riscos de transformação disso num radical diálogo de surdos, em nada semelhante do que se espera de uma democracia. Por mais que se torça o nariz para o conteúdo da reforma da Previdência, o trabalho de Rodrigo Maia ao aprovar o texto-base trouxe a bola de novo para o centro do campo. No que isso pode significar de bom e de ruim. A lição que fica é que o jogo jogado continua a ser o da política, de quem negocia e cede. Não o de quem atropela.

De ruim, fica claro que em um país no qual hoje as forças políticas dividem-se numa miríade de partidos sem consistência ideológica, o jogo da negociação seguirá passando pelo velho toma-lá-dá da distribuição de verbas e cargos. O governo abriu firme a carteira para fazer passar o projeto. Fica claro também que seguirá conseguindo mais quem pode mais. A negociação suprimiu setores e categorias da reforma. O sistema previdenciário brasileiro seguirá sendo desigual, penalizando mais alguns e pesando bem menos sobre outros.

De bom, Rodrigo Maia mostra ao governo que o jogo da democracia não é o de vitórias ou derrotas absolutas. Não se atropela o Congresso. Não se desce goela abaixo projetos e imposições. Sempre o que se aprovará é o possível, não o totalmente desejado.

A outra lição é que,diante da constatação de situações contra as quais não há possibilidade de impedimento, quem não negocia perde totalmente. Logo no início do seu primeiro governo, o ex-presidente Lula fez uma reforma da Previdência. Ou seja: quando esteve no poder, o PT já constatou que, na prática, não se sustentava seu discurso anterior de que não era necessária uma mudança nos cálculos e nos formatos do nosso sistema previdenciário. Outros partidos de oposição, como o PDT, na campanha presidencial do ano passado, também já sustentavam a necessidade de reforma. No processo de discussão do projeto, as oposições apostaram que o governo, estabanado e de cintura dura, poderia acabar pondo tudo a perder e não aprovando nada. Acabou ficando fora da negociação. Não negociou. Não contribuiu para a formação de um projeto mais palatável. Correrá atrás agora, enfraquecido, na tentativa de emplacar algum destaque.

Enquanto isso, Rodrigo Maia estabelece como agenda seguinte a reforma tributária, a partir de projetos que já tramitavam e que tiveram iniciativa no Congresso. Ou seja, uma agenda sua, e não de iniciativa do Executivo. O tempo dirá se o presidente da Câmara de 49 anos será tão habilidoso quanto seus modelos do PSD da década de 1950. Se será capaz de segurar da mesma forma os embates entre os radicais de direita e esquerda trazendo a bola para o centro do campo. Veremos o quanto Rodrigo Maia será capaz de ser “raposa”, no seu projeto de ser “reformista”.

Política

O efeito reverso das denúncias contra Moro


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Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil-EBC

O Instituto Paraná Pesquisas, do cientista político Murilo Hidalgo, divulgou nesta terça-feira (25) pesquisa que merece muita atenção. Murilo gosta de fazer curtas apurações sobre temas relevantes da nossa pauta política, que servem como bússolas importantes dos caminhos que o país tende a seguir. Desta vez, ele fez somente duas perguntas a 2.264 pessoas de 176 municípios dos 26 estados brasileiros e do Distrito Federal, entre os dias 17 e 21 de julho. A primeira pergunta foi se a pessoa tinha tomado conhecimento das denúncias do WikiJato do The Intercept Brasil, que apontam para um conluio entre o hoje ministro da Justiça, Sérgio Moro, quando era juiz e os procuradores da Lava Jato. A segunda pergunta foi: isso põe em dúvida os resultados da operação?

A resposta à primeira pergunta aponta para um nível bem alto de conhecimento dos diálogos que o site The Intercept Brasil vem publicando, agora em parceria com outros veículos. Nada menos que 86,7% dos entrevistados disseram ter tomado conhecimento das publicações. A segunda pergunta mostra que isso pode ter provocado certo abalo na credibilidade da Lava Jato, mas longe de ser o suficiente para mudar a convicção da maioria da sociedade quanto à sua importância. Para 38,1% dos entrevistados, o que vem sendo publicado põe, sim, em dúvida os resultados da operação. Mas para 56,1%, isso não aconteceu. Esse grupo, que constitui a maioria, continua convicto da importância da operação que engaiolou um expressivo número de políticos e empresários brasileiros.

Fica claro aí um efeito reverso das denúncias, do qual o presidente Jair Bolsonaro e Sérgio Moro já parecem ter se dado conta. As publicações do The Intercept parecem ter recolocado a disputa político no terreno que Bolsonaro mais gosta: o da polarização absoluta dele com Lula, de seu grupo com o do PT. E não é por outra razão que Bolsonaro animou-se a, desde já, lançar-se no terreno da reeleição.

Enquanto ficam completamente desaparecidos do noticiário os fatos que poderiam questionar o próprio Bolsonaro e seu grupo enquanto representantes da moralidade política como se pretendem – as histórias que envolvem laranjas, milícias, Fabrício Queiroz, o senador Flávio Bolsonaro, o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, etc – parte-se para cima de Sérgio Moro. Questiona-se de forma dura sua imparcialidade. Mostra-se que ele, de fato, no mínimo, flertou profundamente com os limites das suas funções para alcançar condenações, especialmente a do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

E eis que voltamos, então, àquele ponto que alçou Bolsonaro à Presidência. As denúncias reanimaram o Lula Livre. E a liberdade de Lula voltou a ser a referência da oposição. Ocorre que, se Lula aglutina os seus, é ele que aglutina também os que se opõem a ele. Foi a impressão de que Bolsonaro era o único capaz de derrotar o PT – e, consequentementemente, derrotar Lula – que fez com que seu eleitorado se ampliasse além dos 15% originais, angariando o empresariado, o meio militar, os liberais.

Por conta das trapalhadas de seu próprio estilo, Bolsonaro vinha perdendo o apoio além dos seus 15%. Porque insiste em falar somente para eles. Ainda perde, por conta de episódios como o da demissão do general Santos Cruz. Ou das brigas com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ). Mas a ameaça à Lava Jato cria um novo fator de união. Talvez nem pelos riscos ao combate à corrupção. Mas pelos riscos de se ver Lula novamente solto e em campanha.

As avaliações de que o episódio enfraquece Moro e o joga no colo de Bolsonaro talvez sejam um pouco simplistas. O que na verdade parece ter acontecido é que elas uniram novamente o presidente e seu ministro da Justiça. Se antes Bolsonaro vinha largando o ministro de lado, porque ele às vezes atrapalhava sua pretensão de falar somente para seus 15%, agora o presidente voltou a ver em Moro a chance de retornar ao velho FlaXFlu que ele gosta de jogar.

Lula é, ao mesmo tempo, o calo e o trunfo de Bolsonaro. Seu maior inimigo, mas também seu adversário predileto. Há algo nessa relação que lembra uma canção de João Bosco e Aldir Blanc, “Siameses”, cujos versos dizem: “Amiga inseparável/Rancores siameses/Nos unem pelo olhar/Infelizes pra sempre/Em comunhão de males”…

Política

A oposição não foi aos atos do governo


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Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil-EBC

Um dado curioso das manifestações de apoio ao governo Jair Bolsonaro no domingo foi a quase total ausência da oposição nos atos. Claro, ninguém está falando da presença física de opositores do governo nas ruas. Estamos falando dos alvos das manifestações. Com exceção de um pixuleco – o boneco do Lula presidiário – aqui ou ali, a turma gritou mesmo foi contra o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), o Centrão, o Supremo Tribunal Federal (STF) e a “mídia”.

Eis aí um ponto inusitado que une as hostes de Bolsonaro das do PT e de Lula. Eles podem pensar diferente em praticamente tudo, mas seus principais inimigos vão se tornando exatamente os mesmos.

Foi o Centrão de Rodrigo Maia, então sob o comando do ex-presidente da Câmara e agora presidiário Eduardo Cunha (MDB-RJ) que conduziu o processo de impeachment de Dilma Rousseff. Foi o Centrão de Maia e Cunha que tratou de inviabilizar completamente o segundo mandato de Dilma tornando o país ingovernável e criando as condições políticas para o seu afastamento. Foi o Supremo Tribunal Federal que conduziu primeiro o processo do Mensalão e depois os julgamentos provenientes da Lava Jato, esfarinhando o PT e condenando a sua cúpula à cadeia. O Supremo é instância máxima do Judiciário, que colocou e mantém na cadeia o ex-presidente Lula. E foi a “mídia”, a tal “mídia golpista” que distorceu fatos, criou versões com o propósito de desgastar o PT e tirar o partido do poder.

É o Centrão de Rodrigo Maia que agora cria dificuldades para que sejam aprovados os projetos de Jair Bolsonaro. É o Centrão de Rodrigo Maia que trata de inviabilizar o governo para achacá-lo, pressioná-lo e garantir a manutenção dos expedientes da “velha política”. O Supremo Tribunal Federal agora quer livrar da cadeia criminosos da Lava Jato. Mas ao mesmo tempo incentiva investigações contra o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) com o propósito de constranger e desgastar o governo de seu pai, o presidente Jair Bolsonaro. E a mídia – que parece, então, ser sempre golpista não importa quem seja o presidente – distorce fatos e inventa versões com o propósito de criar embaraços para o atual governo.

Ainda que a motivação para os atos de domingo tenha sido promover uma reação às manifestações de 15 de maio, quando a oposição levou gente às ruas para protestar contra os cortes na educação, é impressionante essa coincidência de inimigos. No domingo, somaram-se ao Centrão, ao STF e à mídia nos protestos importantes aliados de um passado recente que contribuíram para derrubar o PT e permitir a ascensão de Bolsonaro. O Movimento Brasil Livre (MBL) era o mais visível deles.

Nós já dizíamos aqui antes que as manifestações de apoio ao governo seriam expressivas. Bolsonaro conta com um grupo organizado e aguerrido, com forte capacidade de mobilização. Representa, porém, os 15% originais que deram a musculatura inicial para a sua candidatura. Sem a presença do MBL e outros grupos mais moderados, não estavam presentes de forma maciça as forças que aderiram depois a Bolsonaro quando perceberam nele a chance maior de tirar o PT do poder.

Boa parte desses grupos está no Centrão e em outras forças que o discurso dos bolsonaristas mais radicais afasta. Fica claro que Bolsonaro quer usar a opinião pública como instrumento de pressão sobre o Congresso para não sucumbir às ferramentas do velho toma-lá-dá-cá. Em princípio, essa poderia ser uma estratégia saudável. É uma constatação de muitos – não somente na direita – que foram os expedientes fisiológicos do nosso presidencialismo de coalizão que levaram o Brasil à crise que vive.

O problema é que as pesquisas mostram que Bolsonaro hoje não tem o apoio da maioria. E se ele ajuda com seus atos e discursos a prioritariamente afastar parte daqueles que nas eleições estiveram com ele, vai-se apoiando mais e mais numa minoria. Como dissemos antes,o risco que havia era, com as manifestações, a criação de um aval enganoso que corroborasse a radicalização ainda maior do discurso do governo.

Como as manifestações foram expressivas mas não tão grandes como o próprio governo esperava, esse risco talvez esteja agora afastado. O prudente seria tanto o governo como seus novos inimigos, especialmente o Centrão e o Congresso, avaliarem os atos de domingo exatamente pelo seu valor de face. Expressivos para mostrar que há uma parcela forte da população que rechaça qualquer tipo de esforço conjunto da elite política para parar as investigações sobre corrupção e que cansou das velhas práticas do fisiologismo. Mas não forte o suficiente para que o governo imagine que pode tudo e que vai atropelar Congresso e outras instituições para fazer valer o que deseja, sem negociação e sem diálogo.