Rodrigo Maia

Política

Saída pela direita?


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Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil – EBC

A pesquisa divulgada no primeiro dia do ano pelo Instituto Datafolha reforça impressões perigosas, que devem fazer acender um alerta na sociedade. Mas que também servem para apontar para qual rumo político deve continuar seguindo o país neste ano de 2020 e nos próximos.

De acordo com a pesquisa, diminuiu o apoio dos brasileiros à democracia. Felizmente, a maioria de nós continua considerando que a democracia é o melhor regime de governo. Ou, pelo menos, como dizia Winston Churchill, é o pior à exceção de todos os outros. Segundo o Datafolha, 62% dos brasileiros consideram que a democracia é sempre a melhor forma de governar. Em outubro de 2018, porém, quando foi feita a mesma pergunta, o apoio à democracia foi de 69%. Um outro dado que preocupa é que aumentou nove pontos percentuais a parcela daqueles que consideram que tanto faz se o governo seja democrático ou não: de 13% para 22%. Manteve-se o índice dos que disseram considerar que uma ditadura pode ser melhor que a democracia em certas circunstâncias: 12%.

Para além das chances de retorno de uma ditadura, que o maior percentual dos entrevistados considera uma possibilidade remota, os dados do Datafolha reforçam uma constatação: o Brasil endireitou. Não no sentido de que tenha deixado de ser torto. Mas no sentido de que guinou à direita.

Infelizmente, com as seguidas interrupções que tivemos ao longo da nossa vida na nossa democracia, não conseguimos amadurecer na nossa sociedade a aptidão democrática. Adquirimos um sentimento paternalista com relação aos nossos governantes. Esperamos que eles sejam uma espécie de redentores com a capacidade de resolver todos os nossos problemas com a força das suas canetas. Como nenhum deles, por melhor que seja, jamais terá tal capacidade, nos frustramos. E essa frustração nos leva a desprezar a democracia, imaginando que mais poder dará mais tinta à caneta. Depois, nos arrependemos. E seguimos assim nossa trágica sina.

Dificilmente, conservadores de países como os Estados Unidos, Inglaterra ou França diriam que tanto faz uma democracia ou uma ditadura. Os cidadãos de direita desses países, na sua ampla maioria, vão às urnas tentar eleger seus candidatos e perdem ou ganham, sabendo que ganhar ou perder faz parte do jogo. Mas, por aqui, infelizmente, o desapreço à democracia muitas vezes mistura-se com a tendência à direita.

De qualquer modo, o Datafolha mostra que tal percepção ainda é de uma minoria. O que importa é que o jogo segue democrático. Em um momento em que parece haver uma expressiva percepção mais à direita do jogo político. E é isso o que transparece nos primeiros movimentos do xadrez eleitoral nessas primeiras horas de 2020.

Talvez nunca tenha havido tamanha profusão de candidatos de perfil mais conservador ensaiando a entrada no jogo da sucessão presidencial. A começar pelo próprio Jair Bolsonaro, o mais de direita deles. Mas é pela mesma raia, com maior ou menor inclinação, que se ensaiam os governadores de São Paulo e do Rio, João Dória e Wilson Witzell. É por aí que vai o apresentador de TV Luciano Huck. Ou o ministro da Justiça, Sérgio Moro. Mesmo o movimento de valorização do centro político, que se esboça, tem inclinação mais à direita. Nada indica inclinações antidemocráticas no presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), mas, do ponto de vista econômico, ele é, sem dúvida, um conservador.

Enquanto isso, o campo da esquerda segue tendo sua alternativa concentrada em um Luiz Inácio Lula da Silva que, como em 2018, continua impedido de disputar a eleição, barrado que está pela Lei da Ficha Limpa. Parece cada vez mais improvável que ele consiga reverter as condenações contra ele. Então, candidato não será. Para onde, então, se reverterão os votos que não serão para ele? Terá Lula agora maior capacidade de transferir seus votos para outro candidato, talvez o mesmo Fernando Haddad, do que teve em 2018? Ou o provável recrudescimento da opção mais à direita do eleitorado enfraquecerá mais ainda a opção?

Além disso, outras opções de esquerda, como Ciro Gomes, do PDT, parecem pelo menos neste primeiro momento enfraquecidas. O partido de Ciro não tem nomes visíveis fortes para a disputa municipal deste ano, como forma de ir pavimentando seu caminho.

Pelo campo da direita, há ainda um último fator importante. Se Bolsonaro não for capaz de colocar em campo no pleito municipal seu novo partido, o Aliança, assanha ainda mais as pretensões dos demais nomes à direita no sentido de ocuparem esse vácuo. Ao que tudo indica, o jogo de outubro será mais intenso pelo lado direito…

Política

O hambúrguer diversionista


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Embora não seja, sem dúvida nenhuma, um bom tempero para hambúrguer, é impossível pensar na indicação do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) para a Embaixada dos Estados Unidos sem lembrar do “golden shower” do carnaval passado.

A divulgação do tal vídeo pornográfico acrescido do comentário constrangedor que perguntava aos brasileiros nas redes sociais o que é “golden shower” garantiu ao presidente Jair Bolsonaro espaços e mais espaços não só nas redes sociais mas também na imprensa tradicional.

Agora, temos a discussão em torno das qualidades de Eduardo Bolsonaro para assumir a principal representação diplomática brasileira nos Estados Unidos. Ele fala, diz o presidente, inglês fluente porque, como diversos rapazes de classe média, fez intercâmbio nos Estados Unidos. Então, aparece um vídeo no qual Eduardo começa a dar uma entrevista para uma TV americana, empaca no meio, e reage dizendo: “Deu um branco aqui, caralho!”. Além disso, ele mesmo, ao mencionar suas qualidades, conta que “já fritou hambúrguer no frio do Maine”. O Instituto Rio Branco provavelmente já cogita incluir o curso de chapeiro entre as cadeiras de formação diplomática.

Num jogo combinado, Bolsonaro solta a ideia da embaixada e Eduardo a replica, aceitando a honrosa tarefa. Então, Eduardo enumera seu currículo de intercambista chapeiro e quem replica aí é o presidente. E, nós, vamos na sequência também replicando a história, porque, afinal, palavra de presidente, mesmo que soe como patacoada, diante do seu grau de importância, vira assunto sério.

E porque, no caso, o balão lançado com a história de Eduardo Bolsonaro embaixador pode mesmo ganhar os ares e se concretizar de fato. Se der certo, Bolsonaro emplaca o filhote na embaixada. Se não der, se ele vier a ser rejeitado pelo Senado, se o Supremo julgar que é nepotismo, se a pressão o fizer mudar de ideia, seguirá a vida, dizendo que respeita a democracia e que não se pode ganhar todas.

Em uma ou outra hipótese, porém, o presidente terá desviado o foco de outros temas que lhe causam incômodo. A começar pela reforma da Previdência. Embora Bolsonaro a tenha encampado e pareça convencido da sua necessidade, desde a campanha ainda, a pauta das reformas pertence à ala liberal do seu governo, que não é a sua. Há mais de uma dezena de vídeos e reportagens do passado que mostram como Bolsonaro, pessoalmente, como parlamentar, sempre foi contra as tentativas anteriores de reformar a Previdência. Na votação, ficou claro como parte da sua base voltou-se contra o projeto, obrigando o próprio presidente a pedir tratamento especial para seus correligionários policiais. Quando o texto-base da reforma foi aprovado, quem foi elogiado e aplaudido foi o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ).

E há ministros e filhos enrolados em processos com laranjas. Há baixo crescimento da economia. Há desemprego crescente. Há Sérgio Moro e suas conversas comprometedoras. Contra tudo isso, envidemos, então, nossos esforços para fritar hambúrguer no número 3006 da Massachussetts Avenue em Washington, DC.

Política

Rodrigo Maia, o reformista. Será raposa?


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Foto: Fabio Pozzebom/Agência Brasil-EBC

O choro do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), ao anunciar, na tarde da quarta-feira (10), o resultado da aprovação do texto-base da reforma da Previdência foi o retrato inconteste do triunfo da velha política. Pode-se comparar perfis, experiências, reputações, mas Maia recuava ali mais de 60 anos e recolocava o país na lógica do equilíbrio político que ainda hoje o caracteriza. Era o velho PSD da década de 1950 mostrando ainda as suas caras.

É incrível como o arranjo político desenhado no Brasil ao final da era Vargas seja ainda o desenho mais sólido do jogo de forças que mantém nossa estabilidade em tempos de democracia. Os partidos mudaram, novos grupos surgiram, novas pressões aconteceram, há hoje diversos elementos novos vindos de outras formas de participação da sociedade – a mais recente delas, a força de pressão direta via redes sociais. Mas a lógica que havia no tripé UDN-PSD-PTB naquele arranjo permanece. A UDN representando os grupos conservadores, de direita, à época ligados às novas categorias de profissionais liberais que surgiam com o crescimento urbano brasileiro. O PTB ligado à crescente organização sindical, dos trabalhadores que se aglutinavam com a industrialização do país e os embates do sindicalismo. E o PSD, ao centro, aglutinando os coroneis e raposas da política de líderes regionais da Velha República com novos representantes das forças moderadas.

Como mostra Lúcia Hippolito no seu ótimo livro “PSD, de Raposas e Reformistas”, o PSD foi fortemente responsável por manter a estabilidade política do final da era Vargas até o final da década de 1950, administrando e amaciando os conflitos entre esquerda e direita, partidariamente representados pelo PTB e pela UDN. Em tempos em que a Guerra Fria estimulava arroubos golpistas de um lado e de outro. Um trabalho que provavelmente atrasou em coisa de vinte anos o infeliz desfecho da ditadura militar com o golpe de 1964. Foi do PSD a última tentativa de manter as coisas estabilizadas, com a implementação do parlamentarismo para reduzir os poderes de João Goulart.

A vitória de Jair Bolsonaro após a longa era em que o PT se manteve no poder – a maior era de domínio de um partido na nossa história republicana – traz de volta para o cenário um tempo de embate forte entre direita e esquerda. Com todos os riscos de transformação disso num radical diálogo de surdos, em nada semelhante do que se espera de uma democracia. Por mais que se torça o nariz para o conteúdo da reforma da Previdência, o trabalho de Rodrigo Maia ao aprovar o texto-base trouxe a bola de novo para o centro do campo. No que isso pode significar de bom e de ruim. A lição que fica é que o jogo jogado continua a ser o da política, de quem negocia e cede. Não o de quem atropela.

De ruim, fica claro que em um país no qual hoje as forças políticas dividem-se numa miríade de partidos sem consistência ideológica, o jogo da negociação seguirá passando pelo velho toma-lá-dá da distribuição de verbas e cargos. O governo abriu firme a carteira para fazer passar o projeto. Fica claro também que seguirá conseguindo mais quem pode mais. A negociação suprimiu setores e categorias da reforma. O sistema previdenciário brasileiro seguirá sendo desigual, penalizando mais alguns e pesando bem menos sobre outros.

De bom, Rodrigo Maia mostra ao governo que o jogo da democracia não é o de vitórias ou derrotas absolutas. Não se atropela o Congresso. Não se desce goela abaixo projetos e imposições. Sempre o que se aprovará é o possível, não o totalmente desejado.

A outra lição é que,diante da constatação de situações contra as quais não há possibilidade de impedimento, quem não negocia perde totalmente. Logo no início do seu primeiro governo, o ex-presidente Lula fez uma reforma da Previdência. Ou seja: quando esteve no poder, o PT já constatou que, na prática, não se sustentava seu discurso anterior de que não era necessária uma mudança nos cálculos e nos formatos do nosso sistema previdenciário. Outros partidos de oposição, como o PDT, na campanha presidencial do ano passado, também já sustentavam a necessidade de reforma. No processo de discussão do projeto, as oposições apostaram que o governo, estabanado e de cintura dura, poderia acabar pondo tudo a perder e não aprovando nada. Acabou ficando fora da negociação. Não negociou. Não contribuiu para a formação de um projeto mais palatável. Correrá atrás agora, enfraquecido, na tentativa de emplacar algum destaque.

Enquanto isso, Rodrigo Maia estabelece como agenda seguinte a reforma tributária, a partir de projetos que já tramitavam e que tiveram iniciativa no Congresso. Ou seja, uma agenda sua, e não de iniciativa do Executivo. O tempo dirá se o presidente da Câmara de 49 anos será tão habilidoso quanto seus modelos do PSD da década de 1950. Se será capaz de segurar da mesma forma os embates entre os radicais de direita e esquerda trazendo a bola para o centro do campo. Veremos o quanto Rodrigo Maia será capaz de ser “raposa”, no seu projeto de ser “reformista”.

Política

O efeito reverso das denúncias contra Moro


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Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil-EBC

O Instituto Paraná Pesquisas, do cientista político Murilo Hidalgo, divulgou nesta terça-feira (25) pesquisa que merece muita atenção. Murilo gosta de fazer curtas apurações sobre temas relevantes da nossa pauta política, que servem como bússolas importantes dos caminhos que o país tende a seguir. Desta vez, ele fez somente duas perguntas a 2.264 pessoas de 176 municípios dos 26 estados brasileiros e do Distrito Federal, entre os dias 17 e 21 de julho. A primeira pergunta foi se a pessoa tinha tomado conhecimento das denúncias do WikiJato do The Intercept Brasil, que apontam para um conluio entre o hoje ministro da Justiça, Sérgio Moro, quando era juiz e os procuradores da Lava Jato. A segunda pergunta foi: isso põe em dúvida os resultados da operação?

A resposta à primeira pergunta aponta para um nível bem alto de conhecimento dos diálogos que o site The Intercept Brasil vem publicando, agora em parceria com outros veículos. Nada menos que 86,7% dos entrevistados disseram ter tomado conhecimento das publicações. A segunda pergunta mostra que isso pode ter provocado certo abalo na credibilidade da Lava Jato, mas longe de ser o suficiente para mudar a convicção da maioria da sociedade quanto à sua importância. Para 38,1% dos entrevistados, o que vem sendo publicado põe, sim, em dúvida os resultados da operação. Mas para 56,1%, isso não aconteceu. Esse grupo, que constitui a maioria, continua convicto da importância da operação que engaiolou um expressivo número de políticos e empresários brasileiros.

Fica claro aí um efeito reverso das denúncias, do qual o presidente Jair Bolsonaro e Sérgio Moro já parecem ter se dado conta. As publicações do The Intercept parecem ter recolocado a disputa político no terreno que Bolsonaro mais gosta: o da polarização absoluta dele com Lula, de seu grupo com o do PT. E não é por outra razão que Bolsonaro animou-se a, desde já, lançar-se no terreno da reeleição.

Enquanto ficam completamente desaparecidos do noticiário os fatos que poderiam questionar o próprio Bolsonaro e seu grupo enquanto representantes da moralidade política como se pretendem – as histórias que envolvem laranjas, milícias, Fabrício Queiroz, o senador Flávio Bolsonaro, o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, etc – parte-se para cima de Sérgio Moro. Questiona-se de forma dura sua imparcialidade. Mostra-se que ele, de fato, no mínimo, flertou profundamente com os limites das suas funções para alcançar condenações, especialmente a do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

E eis que voltamos, então, àquele ponto que alçou Bolsonaro à Presidência. As denúncias reanimaram o Lula Livre. E a liberdade de Lula voltou a ser a referência da oposição. Ocorre que, se Lula aglutina os seus, é ele que aglutina também os que se opõem a ele. Foi a impressão de que Bolsonaro era o único capaz de derrotar o PT – e, consequentementemente, derrotar Lula – que fez com que seu eleitorado se ampliasse além dos 15% originais, angariando o empresariado, o meio militar, os liberais.

Por conta das trapalhadas de seu próprio estilo, Bolsonaro vinha perdendo o apoio além dos seus 15%. Porque insiste em falar somente para eles. Ainda perde, por conta de episódios como o da demissão do general Santos Cruz. Ou das brigas com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ). Mas a ameaça à Lava Jato cria um novo fator de união. Talvez nem pelos riscos ao combate à corrupção. Mas pelos riscos de se ver Lula novamente solto e em campanha.

As avaliações de que o episódio enfraquece Moro e o joga no colo de Bolsonaro talvez sejam um pouco simplistas. O que na verdade parece ter acontecido é que elas uniram novamente o presidente e seu ministro da Justiça. Se antes Bolsonaro vinha largando o ministro de lado, porque ele às vezes atrapalhava sua pretensão de falar somente para seus 15%, agora o presidente voltou a ver em Moro a chance de retornar ao velho FlaXFlu que ele gosta de jogar.

Lula é, ao mesmo tempo, o calo e o trunfo de Bolsonaro. Seu maior inimigo, mas também seu adversário predileto. Há algo nessa relação que lembra uma canção de João Bosco e Aldir Blanc, “Siameses”, cujos versos dizem: “Amiga inseparável/Rancores siameses/Nos unem pelo olhar/Infelizes pra sempre/Em comunhão de males”…

Política

A oposição não foi aos atos do governo


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Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil-EBC

Um dado curioso das manifestações de apoio ao governo Jair Bolsonaro no domingo foi a quase total ausência da oposição nos atos. Claro, ninguém está falando da presença física de opositores do governo nas ruas. Estamos falando dos alvos das manifestações. Com exceção de um pixuleco – o boneco do Lula presidiário – aqui ou ali, a turma gritou mesmo foi contra o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), o Centrão, o Supremo Tribunal Federal (STF) e a “mídia”.

Eis aí um ponto inusitado que une as hostes de Bolsonaro das do PT e de Lula. Eles podem pensar diferente em praticamente tudo, mas seus principais inimigos vão se tornando exatamente os mesmos.

Foi o Centrão de Rodrigo Maia, então sob o comando do ex-presidente da Câmara e agora presidiário Eduardo Cunha (MDB-RJ) que conduziu o processo de impeachment de Dilma Rousseff. Foi o Centrão de Maia e Cunha que tratou de inviabilizar completamente o segundo mandato de Dilma tornando o país ingovernável e criando as condições políticas para o seu afastamento. Foi o Supremo Tribunal Federal que conduziu primeiro o processo do Mensalão e depois os julgamentos provenientes da Lava Jato, esfarinhando o PT e condenando a sua cúpula à cadeia. O Supremo é instância máxima do Judiciário, que colocou e mantém na cadeia o ex-presidente Lula. E foi a “mídia”, a tal “mídia golpista” que distorceu fatos, criou versões com o propósito de desgastar o PT e tirar o partido do poder.

É o Centrão de Rodrigo Maia que agora cria dificuldades para que sejam aprovados os projetos de Jair Bolsonaro. É o Centrão de Rodrigo Maia que trata de inviabilizar o governo para achacá-lo, pressioná-lo e garantir a manutenção dos expedientes da “velha política”. O Supremo Tribunal Federal agora quer livrar da cadeia criminosos da Lava Jato. Mas ao mesmo tempo incentiva investigações contra o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) com o propósito de constranger e desgastar o governo de seu pai, o presidente Jair Bolsonaro. E a mídia – que parece, então, ser sempre golpista não importa quem seja o presidente – distorce fatos e inventa versões com o propósito de criar embaraços para o atual governo.

Ainda que a motivação para os atos de domingo tenha sido promover uma reação às manifestações de 15 de maio, quando a oposição levou gente às ruas para protestar contra os cortes na educação, é impressionante essa coincidência de inimigos. No domingo, somaram-se ao Centrão, ao STF e à mídia nos protestos importantes aliados de um passado recente que contribuíram para derrubar o PT e permitir a ascensão de Bolsonaro. O Movimento Brasil Livre (MBL) era o mais visível deles.

Nós já dizíamos aqui antes que as manifestações de apoio ao governo seriam expressivas. Bolsonaro conta com um grupo organizado e aguerrido, com forte capacidade de mobilização. Representa, porém, os 15% originais que deram a musculatura inicial para a sua candidatura. Sem a presença do MBL e outros grupos mais moderados, não estavam presentes de forma maciça as forças que aderiram depois a Bolsonaro quando perceberam nele a chance maior de tirar o PT do poder.

Boa parte desses grupos está no Centrão e em outras forças que o discurso dos bolsonaristas mais radicais afasta. Fica claro que Bolsonaro quer usar a opinião pública como instrumento de pressão sobre o Congresso para não sucumbir às ferramentas do velho toma-lá-dá-cá. Em princípio, essa poderia ser uma estratégia saudável. É uma constatação de muitos – não somente na direita – que foram os expedientes fisiológicos do nosso presidencialismo de coalizão que levaram o Brasil à crise que vive.

O problema é que as pesquisas mostram que Bolsonaro hoje não tem o apoio da maioria. E se ele ajuda com seus atos e discursos a prioritariamente afastar parte daqueles que nas eleições estiveram com ele, vai-se apoiando mais e mais numa minoria. Como dissemos antes,o risco que havia era, com as manifestações, a criação de um aval enganoso que corroborasse a radicalização ainda maior do discurso do governo.

Como as manifestações foram expressivas mas não tão grandes como o próprio governo esperava, esse risco talvez esteja agora afastado. O prudente seria tanto o governo como seus novos inimigos, especialmente o Centrão e o Congresso, avaliarem os atos de domingo exatamente pelo seu valor de face. Expressivos para mostrar que há uma parcela forte da população que rechaça qualquer tipo de esforço conjunto da elite política para parar as investigações sobre corrupção e que cansou das velhas práticas do fisiologismo. Mas não forte o suficiente para que o governo imagine que pode tudo e que vai atropelar Congresso e outras instituições para fazer valer o que deseja, sem negociação e sem diálogo.

Política

O “patinho horroroso” enfrenta a procela


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Foto: Antônio Cruz/Agência Brasil-EBC

Ao comentar a enxurrada de derrotas que o Congresso lhe impôs na quinta-feira (9), o presidente Jair Bolsonaro disse que poderia vir na semana que vem contra ele um “tsunami”. Não ficou claro se ele falava de forma genérica ou se de fato espera mesmo que alguma onda gigantesca lhe afogue. A verdade é que o que não falta é candidata a vaga a lhe atingir a proa.

Bolsonaro poderia estar se referindo à possibilidade de o plenário do Congresso confirmar a retirada do Conselho de Controle da Atividade Financeira (Coaf) do Ministério da Justiça ao votar a MP da Reforma Administrativa. Do fato de o juiz Sérgio Moro ter estabelecido como uma das condições para assumir o Ministério da Justiça justamente ter o controle do Coaf. Que a confirmação da ida do Coaf para o Ministério da Economia – somada aos demais reveses que Moro vem enfrentando – acabe levando o juiz da Lava Jato a deixar o governo.

Pode ser ainda que ele estivesse se referindo ao fato de, diante desse rolo todo, o Congresso não conseguir o ambiente necessário para votar a MP, e ela acabe caducando. O que demoliria a mudança administrativa toda. Nada de super Ministério da Economia. Nada de Cultura misturada com Esporte, etc.

Ou o tsunami a que ele se referia pode ser a possível derrubada do Decreto das Armas. Que chocou até mesmo a Bancada Evangélica tão próxima de Bolsonaro, avalista da ministra dos Direitos Humanos, Damares Alves. Decreto que permite que crianças treinem tiro. Que concede revólveres a jornalistas. Parecer encomendado pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), aponta inconstitucionalidades do decreto. O Supremo Tribunal Federal (STF) quer explicações.

Enfim, o mar onde Bolsonaro navega é de procela. O que não lhe falta são ondas gigantes. Ocorre, porém, que boa parte dessa confusão é responsabilidade dele mesmo. Ou dos candidatos a Netuno que ele carrega ao lado, agitando seus tridentes nas redes sociais. Especialmente o dublê de filósofo e astrólogo de Richmond Olavo de Carvalho e o filho 02, Carlos Bolsonaro, o popular Carluxo.

Na mesma fala em que previu tsunamis, Bolsonaro avaliou-se como um “patinho feio”, aliás, “horroroso”, que paga por estar tentando “mudar o país”. Diz que recebeu uma “missão de Deus” nesse sentido. Há certamente aí um esforço do presidente de buscar entre seus admiradores na sociedade o apoio de que necessita. Mostrando-o novamente como alguém que luta contra as velhas práticas da política. Por isso, ele acrescentou na fala que suas dificuldades decorrem de não aceitar fazer as indicações políticas que os partidos impõem. Uma resistência a sucumbir ao antigo toma-lá-dá-cá. Diz ainda Bolsonaro que as mudanças no país que ele implementa são “para todos”.

É aí, porém, que parece se dar a fábrica de ondas gigantes que vem engolindo o governo. Parece haver uma certa falta de compreensão de qual seja de fato o interesse desses “todos” a quem Bolsonaro destina as mudanças que tenta fazer. Seria natural que Bolsonaro excluísse desses “todos” as parcelas que fazem oposição ao seu governo. O problema é que não são elas que vêm produzindo as ondas e tsunamis. O governo hoje se afoga dentro da sua própria piscina.

Os votos contrários que imprimiram a enxurrada de derrotas do governo na comissão especial da Reforma Administrativa vieram do DEM, do PP, do MDB… De deputados que compõem o Centrão. Sozinhos, os partidos de esquerda não seriam capazes de produzir as derrotas. Bolsonaro deve ter razão ao argumentar que tais partidos querem tutelá-lo e voltar ao “dando que se recebe” com que se acostumaram. Mas não é somente aí que o problema do presidente reside.

Vale, no caso, repetir o que por aqui já se disse. Ao lançar sua candidatura, Bolsonaro contava com um grupo que lhe é mais fiel e sólido ideologicamente e que lhe garantiu cerca de 15% de apoio. Musculatura suficiente para que ele se apresentasse como o grande contraponto ao risco de retorno do PT ao poder. Foi essa característica que fez com que ele se tornasse, então, o opção do restante dos seus eleitores. Leitores que estão fora desses 15% originais. São os empresários liberais ligados ao ministro da Economia, Paulo Guedes, que já andou também levando uns cascudos de Carluxo. Os admiradores de Sérgio Moro e da Lava Jato. Os militares que se mostram mais sensatos e moderados do que se esperava inicialmente. Os evangélicos, como se vê agora com relação ao Decreto das Armas. Os políticos e partidos do Centrão.

Em entrevista recente, Rodrigo Maia avaliava como Bolsonaro é fiel a essa parcela original de 15% que deu o primeiro impulso à sua candidatura. Apontava isso mesmo como uma qualidade. Ocorre, porém, que essa parcela está longe de representar a maioria. Excluir quem lhe faz oposição é algo normal, e não comprometeria seu governo. Olhar, porém, somente para a agenda da minoria daqueles que nas eleições se colocaram ao seu lado é tornar perigosamente incerta a navegação. De tsunami em tsunami, alguma hora uma onda o engole.

Política

Falta gasolina no Posto Ipiranga


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Com a enquadrada que levou a respeito do imposto previdenciário, é a segunda vez que o secretário de Receita, Marcos Cintra, é desautorizado pelo presidente Jair Bolsonaro. A primeira vez foi em novembro, Bolsonaro ainda nem tinha tomado posse, quando Cintra era assessor de Paulo Guedes na transição e propôs a criação de um imposto sobre movimentação financeira. Na ocasião, diante da reação do então presidente eleito, chegou-se a dizer que Cintra talvez nem virasse secretário. Agora, não será surpresa se ele acabar demitido.

Quatro meses depois da posse, vão caindo alguns mitos construídos na campanha em torno do “Mito”. Um deles é quanto à autonomia que seria dada a determinados ministros, especialmente Paulo Guedes, o “Posto Ipiranga” da economia. Quem esperava um Bolsonaro tutelado por certos setores de seu governo, rápido vai percebendo que estava equivocado. Bolsonaro exerce a sua Presidência. O que não quer dizer exatamente que isso seja de todo bom.

No caso da economia, o apelo a Paulo Guedes como o Posto Ipiranga era uma forma de se esquivar das questões mais técnicas. Bolsonaro admitia não entender de economia. E dizia que, nesse quesito, quem quisesses as respostas devia procurá-las diretamente no Ministério da Economia. No seu Posto Ipiranga.

A Guedes o recado parecer ter sido entendido da seguinte forma. Economia é um tema complexo. O país vive uma crise grave, que precisa de remédios amargos para ser contornada. Guedes imagina ter o caminho para tirar a carroça do atoleiro. Mas é um caminho que exige sacrifícios. Imaginava construir uma pasta forte, com técnicos decididos como ele, para desatolar a carroça. Se achava que conseguiria fazer isso sem intervenções, vai se frustrando um bocado. Falta gasolina no Posto Ipiranga.

Como qualquer outro político que se elege, por menos que admita, Bolsonaro tem seus compromissos. E é por conta desses compromissos que ele intervém. E é por conta desses compromissos que alas que imaginavam poder tutelá-lo não conseguem.

Em entrevista recente, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), fez uma acertada avaliação dos dilemas que cercam Jair Bolsonaro. Ao listar defeitos e qualidades do presidente, Maia enxergou uma forte fidelidade dele ao núcleo central do seu eleitorado. Uma parcela mais radical e sólida que lhe garantiu os 15% iniciais na campanha e que lhe deram a musculatura necessária para ser um candidato competitivo. Ao se apresentar como o grande antípoda do PT, Bolsonaro ampliou-se para além desses 15%, angariando outros segmentos que também não desejavam os petistas de volta. Empresários, gente do sistema financeiro, enfim, os liberais. Os militares. Políticos de partidos de centro-direita, como o DEM. Esses segmentos esperavam ter capacidade maior de influência no governo. Para Maia, batem-se contra o núcleo central do bolsonarismo. E Bolsonaro, por muitas vezes, tem se mantido fiel a esse núcleo. Ainda que ao final ele tenha se tornado minoria no seu eleitorado. E na sociedade.

Nas duas vezes, Cintra sugeriu impostos não discricionários. Pagos por todo mundo. E, nas duas vezes, Bolsonaro reagiu pela pressão da sua base mais sólida. No caso agora, por pressão das igrejas evangélicas. Cintra não pretendia criar um imposto só para elas. Citou-as para dizer que o tributo que pretendia seria pago por todos. Mas mexeu em um vespeiro. Para além dos evangélicos, também é tema tabu entre o eleitorado de classe média – igualmente forte na base bolsonarista – falar em novos impostos. Já basta o sacrifício que haverá na Previdência. E assim o próprio Maia acabou saindo também contra Marcos Cintra.

Fica, porém, demarcado que nenhum dos setores que julgavam ter poder e autonomia dentro do governo na verdade os têm. Quem manda no Posto Ipiranga é Bolsonaro. Como se viu no episódio da destituição de Ilona Szabó do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária, quem manda no Ministério da Justiça é também Bolsonaro, e não Sério Moro. Como se viu no episódio do aumento do óleo diesel e da propaganda do Banco do Brasil, é Bolsonaro também quem manda nas estatais. E como se vê nas constantes pendengas com o vice-presidente Hamilton Mourão ou com o secretário de governo, general Santos Cruz, os militares também não tutelam o presidente.

No fundo, não pode ser uma surpresa perceber que um presidente com o perfil de Bolsonaro queira exercer autoridade. O risco ocorrerá se ele não perceber que o Brasil é bem maior e mais complexo que sua base sólida de 15%.