Redes Sociais

Política

Acredite: há método no golden shower


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Uma coisa sobre a qual a ciência política ainda terá de se debruçar com mais profundidade é o efeito da atual era virtual e do crescimento da comunicação via redes sociais nas democracias. Até, então, parecia claro que as democracias, na busca do consenso a partir das maiorias, acabava na maioria das vezes fazendo com que os resultados eleitorais pendessem para o centro. No processo de diálogo, os extremos iam sendo limados. Há sinais bem claros de que o processo de construção política a partir das redes sociais altera esse comportamento.

As redes sociais não estimulam exatamente o diálogo. Geram muito mais uma guerra pesada de pontos de vista. E o propósito de uma guerra não é chegar a um consenso. É derrotar o inimigo. Numa guerra, os vencedores avançam e deixam pelo caminho os corpos dos seus adversários. Não parece haver outro motivo para explicar por que as eleições do ano passado acabaram por se transformar numa estridente disputa radical entre esquerda e direita, com a vitória de Jair Bolsonaro como a opção de direita.Nem sempre uma guerra é ganha por quem tem o maior exército. É ganha por aqueles que melhor se prepararam para ela. Que tiveram a melhor estratégia.

Talvez esteja aí a razão pela qual Bolsonaro seja hoje o presidente com pior avaliação da sociedade, de acordo com as pesquisas, entre os eleitos desde a redemocratização. A verdade é que ele nunca foi a opção da maioria. A maioria dividiu-se entre os demais candidatos na disputa. Pode-se argumentar que isso também aconteceu nas demais eleições, com os demais presidentes. Ocorre, porém, que Bolsonaro, nestes seus primeiros cem dias de governo, ao contrário dos demais, não procurou amenizar seu discurso para se aproximar dos demais setores da sociedade que não estão intimamente ligados a ele e ao seu discurso. Pelo contrário, até nos ambientes em que a busca do consenso é absolutamente vital e necessária – como no Parlamento, para aprovar a reforma da Previdência –, Bolsonaro alterna tentativas de diálogos com grossas caneladas. Diz, por exemplo, que não vai se submeter à “velha política”, e que não fará isso porque “não quer jogar dominó no xadrez com Lula e Michel Temer”.

É por isso que a reforma avança e recua, gerando desânimo entre empresários e os demais setores que a apoiam. Uma ala mais moderada dentro do governo aconselha que se pare com o debate mais polêmico. Que Bolsonaro retorne aos métodos tradicionais de governo e pare de sacar seu dedo explosivo no Twitter e no Facebook. A verdade, no entanto, é que Bolsonaro provavelmente não vai parar. Acredite: há método no golden shower.

A guerra virtual nas redes sociais não parou com a eleição. Nem vai parar. Ela é parte do novo modelo de comunicação. Se por um lado Bolsonaro precisa buscar consensos para aprovar no Congresso a reforma da Previdência ou o pacote anti-crime do ministro da Justiça, Sérgio Moro, por outro ele precisa manter mobilizados seus exércitos para a guerra virtual.

Esse novo modelo de comunicação sepultou a informação como seu bem maior. A informação foi trocada pela confirmação. Nas bolhas virtuais, o que cada um deseja é a confirmação do que já acredita. Está aí o método por trás do golden shower. Se o vídeo pornô divulgado por Bolsonaro choca quem está fora da bolha conservadora, dentro dela serve de confirmação. Para os que acham que carnaval é só sacanagem, putaria.

Dentro da esfera do governo, esse parece ser o papel de ministros como Damares Alves, dos Direitos Humanos, e Ernesto Araújo, das Relações Internacionais. Explica também porque o colombiano Ricardo Vélez Rodrigues foi substituído no Ministério da Educação por Abraham Weintraub. Em termos ideológicos, trocou-se media docena por meia dúzia.

Na comunicação, a manutenção desse caminho tem como expoente o filho do presidente, o vereador Carlos Bolsonaro. Se boa parte enxerga Carlos como fator de confusão – como se evidenciou no episódio da demissão de Gustavo Bebbiano – assim não parece ver o próprio Bolsonaro. Que, numa entrevista recente, voltou a elogiar o filho. Goste-se ou não, Carlos faz para o pai no mundo virtual exatamente o que combinou com ele.

A verdade é que, nesse processo, a parte mais estridente da oposição segue pelo mesmo caminho. O PT tem hoje um discurso radical que nunca teve quando foi governo. Esmera-se na produção de “tigrões” e “tcutchucas” que beiram a tolice. O desvio de foco e o diversionismo viraram a tônica do debate político.

Nestes primeiros cem dias de governo, essa opção pela guerra virtual mostrou-se motivo de desgaste e crise permanente. Mas, num processo cujo propósito não parece ser mesmo buscar consensos, ela mantém mobilizado o exército de Bolsonaro. E discursos parecidos mobilizam os exércitos de parte da oposição. Provavelmente, os próximos cem dias não serão diferentes. A tranquilidade é, assim, deixada de lado. Mas é assim que a banda agora toca. E nem podemos reclamar. Porque, nessa banda, nós também empunhamos entusiasmados nossos instrumentos.

Política

A Ágora Virtual não existe


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Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil-EBC

Para saber em quem votaria na eleição para a Presidência do Senado, o senador Jorge Kajuru (PSB-GO) resolveu fazer uma enquete nas suas redes sociais. Um dos diversos parlamentares que nunca antes tinham exercido cargo político, fruto da onda de renovação que varreu o país nas últimas eleições, Kajuru explicita o processo, mas não é o único a agir assim. A afirmação de um compromisso maior com aqueles que o elegeram e menor com os partidos políticos e os governos é uma característica comum a boa parte desses novos políticos. Pode ser uma boa novidade. Mas tem grande chance de se transformar também em um grande perigo.

De fato, políticos como Kajuru e diversos outros, como Kim Kataguiri (DEM-SP), do Movimento Brasil Livre (MBL), devem muito pouco aos seus partidos e às estruturas tradicionais da política a sua eleição. Na maioria das vezes, eles receberam quantia pequena de seus partidos, fizeram campanha bem mais barata, não estão apoiados na velha lógica de conseguir verba pública, inaugurar obras e angariar assim os votos das suas bases. Eles primeiro amealharam uma quantidade imensa de seguidores nas redes sociais, passaram a influenciar esses seguidores e ser influenciados por eles. E a partir do burburinho que fazem nas redes sociais acabaram eleitos. Assim, julgam que poderão ser mais independentes das orientações partidárias e que não precisarão fazer alinhamentos automáticos com governos em troca de favores ou conveniências. É o cerne da tal “nova política”.

Não há dúvida de que era necessária uma sacudida nos velhos métodos de fazer política que se instalaram no país depois do fim da ditadura militar e da redemocratização. Os partidos e os parlamentares estavam mais do que acostumados às práticas do velho toma lá dá cá. Diversas legendas foram criadas sem qualquer compromisso ideológico somente para praticar esse “é dando que se recebe”. Houve partido criado que se vangloriava de não ter posição ideológica nenhuma. Depois de seguidos casos de corrupção que varreram diversos políticos graúdos e empresários para a cadeia, está mais do que claro que o modelo se esgotou. É preciso, porém, alertar que sua substituição por um novo modelo no qual o parlamentar preste contas ao eleitorado pela via virtual, pelas redes sociais, pode inaugurar um caminho ainda mais distorcido e perigoso.

Quando a internet e as redes sociais surgiram, os mais otimistas comemoravam o prenúncio de uma nova era na qual iria surgir um modelo de democracia direta. Era a criação da Ágora Virtual. A Ágora era a praça na qual os cidadãos da Grécia antiga praticavam a democracia direta. Pela internet, o cidadão poderia ser consultado diretamente sobre os assuntos que lhe afetavam e orientar a decisão a ser tomada. Os representantes no Parlamento passariam a ser de fato meros representantes. Apertariam o botão de acordo com o que os cidadãos lhe dissessem pelas redes. Em útima instância, talvez até se tornassem desnecessários. A consulta poderia passar a ser feita sem intermediários. Passada, porém, a euforia inicial, o que se verifica é que o mundo virtual é completamente diferente do mundo real. E que tomar decisões no mundo real a partir das impressões que se colhe no mundo virtual pode ser o caminho mais rápido para se cometer grandes equívocos. A Ágora Virtual não existe.

Já dissemos por aqui que o exemplo mais concreto desse risco parece ter sido a decisão que a Inglaterra tomou de sair da Comunidade Europeia, o tal “Brexit”. A forma como os ingleses hoje debatem o tema parece demonstrar que a decisão foi tomada de forma emocional a partir de palavras de ordem e posicionamentos propositalmente distorcidos alimentados nas redes sociais. Tomada a decisão, veio o choque de realidade. Agora, os ingleses tentam desfazer o que fizeram, mas o retorno é bem mais difícil.

O primeiro grande problema é que os mundos virtuais não conseguem enxergar a totalidade do mundo real. Os tais algoritmos vão aproximando os que pensam de forma parecida e afastando os que pensam de forma diferente. Formam, então, as tais bolhas. Com o tempo, as pessoas começam a imaginar que o mundo inteiro pensa como suas bolhas. Muitas vezes de forma mal intencionada, outras por ingenuidade, vão-se consolidando nas bolhas impressões e pontos de vista que não se sustentam no mundo real. Pessoas são idolatradas ou demonizadas de acordo com as conveniências. Premissas falsas detonam determinadas ações ou incensam outras.

O parlamentar nas redes sociais inevitavelmente acabará fazendo parte de alguma bolha. Acabará ignorando todo tipo de pensamento que esteja fora da sua bolha. Assim, quando consultar sua bolha para tomar uma decisão no Congresso, ele vai correr grande risco de contrariar os interesses da sociedade, se a sua bolha for minoria. Vai agradar à sua bolha. Isso talvez lhe garanta seguidas reeleições. Mas radicalizará sua posição cada vez mais, distante do interesse coletivo.

O segundo problema é a imensa capacidade de manipulação e distorção desses mundos virtuais. O uso de robôs e perfis falsos nas redes para fazer prevalecer determinadas ideias, pontos de vistas e personagens hoje já não é nem mais novidade. É um processo que já se desenvolve há mais de uma década. Que já tem diversos especialistas enriquecendo. A disseminação, assim, da prática de consulta virtual pelos parlamentares tem boa chance de não vir a produzir um resultado que, como se deseja, espelhe mais a vontade da sociedade. É grande o risco de que ele somente espelhe a vontade do lobista que conseguir usar de forma mais ampla e eficiente as redes sociais para distorcê-la a seu favor. O lobista engravida as redes sociais de perfis falsos e muito ativos conforme seu interesse e ganha o debate legislativo. Elege os seus. Se perpetua.

Há dois anos, Emma Watson, a Hermione do Harry Potter, protagonizou um filme de ficcção cientítica que pode parecer uma despretensiosa sessão da tarde, mas que faz um alerta importante. Chama-se “O Círculo”, foi dirigido por James Ponsoldt, e tem também Tom Hanks no elenco. No filme, os Estados Unidos aceitam terceirizar suas eleições e tomadas de decisão a uma rede social do tipo Facebook. Como todo mundo está conectado nela, parece uma forma mais eficiente e barata de fazer democracia. Ao final, se descobre que os donos da rede recebiam vultosa grana de corporações para orientar as decisões.

A democracia representativa pode estar em crise. Ela só não pode vir a ser substituída por uma espécie de tirania virtual corporativa. Porque não há jeito de se mudar para a bolha. No mundo real, a bolha não existe.

Política

O estranho triunfo do totalitarismo nas redes sociais


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Durante os dias de folga na duas primeiras semanas de janeiro, foi meu companheiro O Homem que Amava os Cachorros, de Leonardo Padura. Neste romance, o escritor cubano faz um paralelo entre as circunstâncias do assassinato de León Trotski, a mando de Stálin, e a situação em Cuba no início dos anos 1970. Para concluir que o pendor pelo totalitarismo, pela repressão desmedida, acabou por colaborar fortemente para que os sonhos socialistas desmoronassem, seja na União Soviética seja na ilha caribenha. No silêncio do refúgio escolhido para esses dias de folga, foi nascendo uma reflexão: talvez os pendores totalitaristas nas redes sociais estejam agora colaborando de forma parecida para que desmoronem, em vários pontos do planeta, os sonhos de democracia.

Padura mostra em seu livro que em determinado momento parecia ser mais importante em Cuba vigiar o comprimento dos cortes de cabelo, se as calças estavam ou não demasiadamente justas ou se as preferências sexuais de cada um eram condizentes com o “ideal revolucionário”. Na União Soviética da ascensão do stalinismo, a atenção se voltou aos inimigos internos. O foco do esforço era apontar o dedo, execrar, deportar, exilar, fuzilar antigos companheiros que levantassem um senão sequer aos planos e ideias do governo. A começar pelo próprio Trotski, camarada de primeira hora, amigo de Lênin, criador do Exército Vermelho. O mesmo tipo de sufocamento que Padura percebe em Cuba, um pouco depois de uma década de revolução.

Quando o socialismo sofre os seus abalos, nos dois países não se encontrou talvez o apoio da população para alguma resistência maior. Porque, em vez de se buscar forjar a sociedade pelo convencimento, o que se fez foi mantê-la silenciada pelo medo, pela repressão, pelo sufocamento. Forjou-se uma sociedade cínica ou acovardada. A Rússia, terminada a União Soviética, um dos países mais corruptos do mundo. Cuba, a ilha, com as rachaduras literais da sua ruína impressos nos casarões e prédios de La Habana.

No “admirável mundo novo” das redes sociais, parece que o pendor pelo totalitarismo caminha para levar ao mesmo estado de ruína dos sonhos. Cada grupo seja no Facebook, no whatsapp ou qualquer outra rede social segue a mesma linha limitadora que Padura descreve. A qualquer senão, a qualquer divergência, produz-se o mesmo caminho, que começa na perseguição, passa pela execração, pelo exílio e termina no fuzilamento. Seja o grupo de esquerda ou de direita, ninguém que minimamente destoe dos ideais daquele grupo é bem-vindo.

A coisa extrapola para além de cada uma dessas ilhas e republiquetas virtuais quando seus integrantes elegem inimigos externos e se unem para destruí-los. Quando possível, maximizando fatos e defeitos verdadeiros. Quando não encontrados esses fatos, criando mesmo, inventando, falsidades.

Esse mundo totalitário facilita o triunfo dos extremos. É um mundo no qual pensamentos mais sofisticados não encontram abrigo. É um mundo que precisa caber na meia dúzia, se tanto, de expressões de uma palavra de ordem. Um mundo sem nuances. Preto ou branco. Não é por acaso que extremistas ensaiam seus voos não somente por aqui, mas em boa parte do mundo. E muitas vezes acabam vencedores.

A contribuição para a cristalização desse estado de coisas vem preocupando os criadores desses mundos virtuais. As mudanças de algoritmo definidas pelo Facebook no final do ano parecem ir na linha da mesma preocupação (há mais detalhes por aqui). O Face pretende reduzir a presença na linha do tempo de cada um de postagens noticiosas, com medo da proliferação de fake news e, especialmente, da manutenção do espaço de ódio e divisão política que a rede social virou.

Não deixa de ser uma forma estranha de reagir ao fenômeno: restringir o acesso às informações para evitar que as informações sejam falseadas ou distorcidas. Antes de mandar assassinar Trotski, Stálin já tratava de retocar fotografias e notícias de jornal de modo a removê-lo da história da União Soviética. O Homem que Amava os Cachorros é leitura mais que recomendada…