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Política

Torcer pode… Só não é jornalismo


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Foto: Fábio Pozzebon-Agência Brasil/EBC

A decisão tomada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que indeferiu a candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e impediu a sua campanha, não deveria ser surpresa para ninguém. Nós, na revista IstoÉ, antecipamos como seria a decisão do tribunal em reportagem de capa há três semanas. Em linhas gerais, salvo alguns detalhes, já se sabia desde então que a intenção do TSE era resolver a questão ainda em agosto, diante da convicção da maioria dos ministros de que gerava insegurança ao eleitor a campanha eleitoral se iniciar sem haver certeza sobre quem seriam ao final os candidatos no pleito. Insegurança que aumentava diante da certeza de que um dos candidatos não ia mesmo estar nas urnas em outubro. Depois disso, diversos outros veículos colheram as mesmas informações de fontes da Justiça Eleitoral.

Qualquer um tem o direito de torcer pelo desfecho que mais gosta. Pode desejar fervorosamente. Mas, ao escrever e publicar esses seus desejos, se eles não corresponderem ao que a realidade parece impor, não estará fazendo jornalismo. Pode-se questionar as razões da condenação que fazem com que Lula hoje cumpra pena preso na sede da Polícia Federal em Curitiba. Há até bons argumentos nesse sentido que devem ser levados em conta. Só não se deve propositalmente ignorar os fatos na construção de uma narrativa que iluda as pessoas.

Por isso segue parecendo de alto risco a estratégia adotada pelo PT. Se todos os fatos apontavam que o TSE decidiria a questão da inelegibilidade de Lula antes do início do horário eleitoral, a estratégia até agora só produziu ônus para o verdadeiro candidato, o ex-prefeito Fernando Haddad. Até agora não oficializado, Haddad ficou fora dos debates já realizados, ficou fora da rodada de entrevistas no Jornal Nacional, também não participou de outras entrevistas de outros veículos, sua agenda não aparece no noticiário no espaço reservado a divulgar as atividades dos candidatos. E o espaço de propaganda eleitoral dos presidenciáveis inicia-se sem a participação de Haddad e do PT. Impossível não questionar se tal estratégia não é mera egotrip de Lula. Se realmente é o melhor caminho para levar Haddad à principal cadeira do terceiro andar do Palácio do Planalto.

O PT poderá – e certamente fará isso – explorar a nova derrota dentro da narrativa que faz de perseguição política a Lula. Mas seus adversários certamente explorarão também o fato de que até agora Lula perdeu em todas as tentativas feitas por sua defesa na Justiça. No caso do TSE – que julga somente a questão da elegibilidade, sem entrar no mérito da condenação -, é preciso dizer que a convicção de que Lula não poderia disputar a eleição presidencial foi unânime. Até porque a Lei da Ficha Limpa não deixa muita margem para dúvida quanto à inelegibilidade de alguém condenado por órgão colegiado de segunda instância. Mesmo o ministro Edson Fachin fez questão de dizer que essa era a sua convicção. Considerava Lula inelegível.

A divergência de Fachin dizia respeito ao documento do Comitê de Direitos Humanos da ONU. Para ele, não era mera recomendação. Deveria ser obedecido. Ou seja: ele votou de modo diferente não porque era a sua convicção. Mas porque, na sua avaliação, havia uma determinação do comitê nesse sentido. O documento da ONU era, assim, o único trunfo que a defesa de Lula tinha. E, mesmo assim, revelou-se, ao final, frágil para reverter a convicção do tribunal.

Diificilmente um recurso ao STF, pelas manifestações que já fizeram diversos ministros, terá maior sucesso. Cada dia sem a oficialização de Haddad é um dia a menos de campanha para o PT e um dia a menos para que se busque fazer a transferência de votos de Lula para o verdadeiro candidato. Pesquisas mostram que tal transferência é possível. Mas ela precisa ser feita. Até agora, a maioria dos eleitores não sabe que Haddad é o candidato de Lula. Se o percentual de votos em Haddad aumenta quando ele é informado pelos pesquisadores de sua vinculação com Lula, é preciso que fique claro que tal informação não será dada pela Justiça Eleitoral. Ao aparecer a foto de Haddad, a urna não informará que ele é o nome apoiado por Lula. O eleitor precisará saber disso. E, até agora, a estratégia adotada não ajuda nesse propósito.

Ignorar os fatos diante de um desejo não costuma ser o melhor caminho para o sucesso de uma estratégia.

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Lula e a sua anticandidatura


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Foto: Rovena Rosa – Agência Brasil/EBC

A insistência de Lula na sua candidatura à Presidência da República – completamente impossível, do ponto de vista legal – parece ter alguma inspiração na anticandidatura de Ulysses Guimarães à Presidência, em 1974, em plena ditadura militar. As duas têm um tom de afronta, de protesto. Como Ulysses na ditadura, Lula parece querer, com sua insistência, dizer da mesma forma que a vontade popular não está expressa no pleito.Se as intenções parecem ser as mesmas, a realidade, porém, é muito diferente. Se Ulysses àquela altura sabia que as regras não permitiam de modo algum a vitória de alguém que fizesse oposição ao regime, o gesto agora de Lula pode ajudar a tirar o campo de esquerda de uma disputa eleitoral que, ao contrário da outra, se faz dentro das regras democráticas.

Em 1974, Ulysses valeu-se das regras da eleição indireta inventada pelo regime militar para escancarar que aquele era um jogo de cartas marcadas. Enquanto pessoas eram torturadas, mortas e desapareciam por confrontar o regime, os militares no poder declaravam à população que aquilo tudo se tratava de democracia. O ápice daquela caricatura de democracia era o Colégio Eleitoral, onde um corpo de pouco mais de uma centena de pessoas ia chancelar o nome que o alto comando militar já havia escolhido.

A democracia brasileira ainda pode ter muitos defeitos. E Lula até tem o direito de dizer que entre esses defeitos está o processo que o condenou e o conduziu à prisão na sede da Polícia Federal em Curitiba. E o PT pode repetir esse mantra à exaustão. Mas Lula e o PT não podem dizer que o atual sistema eleitoral brasileiro seja, como o de 1974, um jogo de cartas marcadas. A imprevisibilidade total da atual eleição é um exemplo contundente. Outro é o fato de tal sistema ter feito exatamente do PT o partido político que mais tempo exerceu o poder na história republicana brasileira. A não ser que o PT venha agora admitir que o establishment brasileiro permitiu a Lula se eleger e se reeleger e eleger e reeleger Dilma Rousseff, não há como dizer que a eleição brasileira seja um jogo de cartas marcadas.

Mas as eleições respeitam regras e impõem condições. Em 1974, Ulysses podia se candidatar, mas não podia se eleger. Ficava claro, então, que o jogo não era democrático. Agora, Lula não pode se candidatar. Porque sua candidatura não se enquadra nas regras de elegibilidade previstas em lei, aprovadas pelo Congresso. Lula foi condenado por um tribunal colegiado em segunda instância. Essa é uma condição de inelegibilidade prevista na Lei da Ficha Limpa. A Lei da Ficha Limpa foi democraticamente aprovada no Congresso, teve o declarado apoio à época do PT. Mais do que isso, seu relator na Câmara foi um deputado do PT, José Eduardo Cardozo (SP), depois ministro da Justiça de Dilma e seu advogado no processo de impeachment. E, para completar, foi sancionada pelo presidente da República à época. Que era ninguém menos que Luiz Inácio Lula da Silva, que agora, da prisão em Curitiba, a questiona.

Os movimentos do fim de semana lançam, assim, Lula, o PT, os demais partidos de esquerda e o país como um todo numa jogada de alto risco. O PT lançou Lula à Presidência mesmo sabendo que em outubro ele não será candidato. Sob os conselhos dados por Lula de Curitiba, trabalhou para anular ao máximo da lista de votação outras opções de esquerda. Não queria que, à luz dessa impossibilidade legal, os possíveis eleitores de Lula optassem por outro candidato. Assim, desvitaminou ao máximo a candidatura de Ciro Gomes, do PDT, trabalhando para que o PSB não o apoiasse e ficasse neutro. Parece ter negociado – embora isso não tenha sido anunciado na convenção, como se chegou a noticiar – que Manuela D’Ávila, do PCdoB, seja a sua candidata a vice-presidente, tirando-a também da disputa. Tenta colar a ideia de que Marina Silva, da Rede, deslocou-se ideologicamente para uma posição mais de centro.

Lula trabalha com pesquisas que mostram que quando se informa ao eleitor que o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad seria a sua escolha caso ele mesmo não possa concorrer, as intenções de voto em Haddad pulam de uma faixa de cerca de 3% para cerca de 11%. É nisso que ele e o PT se fiam, na sua capacidade de transferência de votos. Mas 11% talvez não seja suficiente para garantir Haddad no segundo turno, se os números que ele pode alcançar são esses mesmos.

Depois de seus dois mandatos como presidente, quando não pode se candidatar, Lula escolheu para seu lugar também uma desconhecida, Dilma Rousseff. Mas fez o oposto do que está fazendo agora. Dilma foi lançada como candidata mais de um ano antes das eleições. Como presidente, Lula criou uma intensa agenda de inaugurações e eventos, no qual apresentava Dilma ao povo como a “mãe do PAC”, o conjunto de obras do Programa de Aceleração do Crescimento. A população passou, então, a chamar Dilma não de “mãe do PAC”, mas de “a mulher do Lula”. E foi assim que ela venceu.

Desta vez, Lula está preso. Não poderá ele mesmo levar ninguém a lugar algum. Se a substituição fosse agora, seria já pouco mais de um mês para apresentar Haddad como seu substituto. Mas, ao contrário, Lula quer esticar ao máximo essa passagem de bastão. A não ser que Lula seja o maior gênio da política de todos os tempos e consiga reverter o que ele mesmo parecia achar lógico quando escolheu Dilma sua substituta. quanto mais tarde Haddad for apresentado como substituto mais difícil será apresentá-lo como a alternativa, pelo óbvio de que haverá menos tempo para essa tarefa.

Em vez da anticandidatura de Ulysses, Lula talvez devesse ter se mirado em outro momento e outro personagem do combate à ditadura: Tancredo Neves. Nos estertores da ditadura, quando percebeu que o regime se esfacelava, Tancredo lançou-se outra vez como candidato nas regras tortas de eleição da época. E trabalhou para vencer dentro daquelas regras, reconduzindo o país à democracia. Haddad ou outro nome poderiam ter sido já apresentados como o Tancredo a representar o PT dentro das regras da atual eleição. Pode-se questionar os argumentos da condenação de Lula. Mas não se pode questionar que ele está condenado, dentro das regras legais. Ao contrário de 1974, não é a regra que se questiona. Agora, é Lula quem está fora da regra.

 

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A sobrevivência de Lula e a sobrevivência do PT


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Foto: Elza Fiúza (Agência Brasil/EBC)

A decisão do PT do Ceará de rifar a candidatura de José Pimentel (PT) à reeleição para o Senado para abrigar na chapa o senador Eunício Oliveira (MDB) é um reflexo dramático da opção de manter Lula candidato à Presidência da República mesmo sabendo que ele é inelegível. O que aconteceu com Pimentel no Ceará acontece com o PT em outros estados na formação das chapas regionais para o pleito de outubro. É uma constatação de que a estratégia que tenta definir a sobrevivência política de Lula a partir da sua sala/cela na Polícia Federal de Curitiba não é exatamente a melhor estratégia para definir a sobrevivência política do PT nos estados. Mais do que isso: a manutenção da estratégia para Lula está longe, bem longe, de ser a melhor estratégia para os estados.

Independentemente do que possa haver de questionamento jurídico para a condenação que mantém Lula na prisão, há um fato que é inquestionável: à sombra da previsão legal, Lula está inelegível; ele não poderá disputar a eleição para a qual o PT insiste em mantê-lo candidato. Além da trajetória jurídica que pode ter, sim, pontos questionáveis, há uma trajetória legal. E essa, quando foi construída, o PT nunca questionou. Ao contrário até, sempre apoiou.

A possibilidade de prisão após condenação em segunda instância poderia hoje ser uma lei, mais do que uma interpretação constitucional do Supremo Tribunal Federal. Há um projeto de lei em tramitação no Congresso nesse sentido. E uma das subscritoras desse projeto é a hoje presidente do PT, senadora Gleisi Hoffmann (PR).

Mas nem é por isso que Lula está inelegível. Isso acontece porque a condenação por órgão colegiado em segunda instância é uma das condições de inelegibilidade prevista na Lei da Ficha Limpa. E a Lei da Ficha Limpa foi mais que apoiada pelo PT quando foi proposta e quando tramitou. Seu relator na Câmara foi ninguém menos que o então deputado José Eduardo Cardozo (PT-SP), que mais tarde seria ministro da Justiça de Dilma e seu advogado no processo de impeachment.

À margem de tudo isso, o PT mantém a candidatura de Lula à Presidência, mesmo sabendo que não há qualquer hipótese dela ser mantida até outubro, quando ocorrerão as eleições. Além disso, adia ao máximo o inevitável momento em que terá de substituir Lula por outro candidato. Quanto mais adia tal decisão, mais vai tornando imprevisível a hipótese de que Lula consiga transferir a votação que tem para o substituto. Os partidos têm de definir suas candidaturas e alianças até o dia 5 de agosto. Ou seja: na hora de definir as chapas nos estados e as alianças que farão, o PT e os demais partidos não saberão quem será o candidato do PT à Presidência. Sequer saberão de fato se o PT terá algum candidato à Presidência.

Assim, ao tentar definir alianças, o PT ofereceu aos demais partidos uma aposta no escuro. Políticos têm muitos defeitos. Mas entre eles certamente não está rasgar dinheiro ou abrir mão de poder. Ninguém aceitou a oferta da aposta no escuro. O PT caminha sozinho na fantasia do Lula presidente. E os partidos que poderiam ser aliados foram tratar das suas vidas, ou avaliando outras alianças ou lançando eles mesmos seus candidatos à Presidência.

Se o PT tivesse de fato um candidato à Presidência que de fato liderasse as pesquisas de intenção de voto (Lula as lidera, mas não poderá ser candidato), tal candidatura provavelmente definiria a composição das alianças estaduais. Diante da perspectiva real de poder, outros partidos buscariam apoiar o PT nas condições que o PT oferecesse. Como não há esse candidato, as formações de chapa do PT nos estados se viram obrigadas a inverter tal situação. Vão em busca dos apoios para sobreviver nas condições que tais aliados oferecem.

Assim, o governador Camilo Santana, do PT, rifa José Pimentel no Ceará porque precisa do dinheiro, da estrutura e da capilaridade do MDB de Eunício Oliveira. Assim como faz Wellington Dias, também do PT no Piauí, com relação à chapa que monta com o senador Ciro Nogueira, do PP. Ciro levou caminhões e caminhões de dinheiro do orçamento do Ministério da Saúde para o Piauí. São dois exemplos. Há outros.

Diante da boa vantagem que Lula tem nas pesquisas, pode ser até possível que ao final funcione a estratégia pensada de levar sua candidatura o máximo possível e entregá-la a outro candidato dizendo ao eleitor que ele a partir daquele momento é Lula. Agora, porém, isso é para eventuais aliados um jogo de roleta na qual só se permite uma única aposta em um único número. Risco demais para quem tem a natureza pragmática do político. Por mais solidários que sejam a Lula, os governadores petistas não têm a menor intenção de trocar seus palácios pela sala/cela do ex-presidente em Curitiba…

 

Política

Rastros de ódio – algumas lembranças


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O governo de Luiz Inácio Lula da Silva estava em seus primeiros dias. O presidente convoca uma reunião com governadores para discutir reformas que faria, especialmente a reforma da Previdência. Repetia ali algo que acontecera no governo anterior, de Fernando Henrique Cardoso, que realizara reuniões semelhantes com os governadores. Na reunião anterior, com FHC, reservou-se uma parte da Granja dos Torto, onde os jornalistas puderam se acomodar e ter dali inclusive acesso a assessores e secretários que acompanhavam a conversa.

Agora, na mesma Granja do Torto, todos os jornalistas se viram obrigados a ficar do lado de fora da cerca, no sol, longe de fontes que pudessem esclarecer o que se discutia e estava sendo acertado. Colunista na época no Correio Braziliense, anotei no meu espaço que ali começava a se produzir uma relação que tinha tudo para azedar. Nada parecia justificar a mudança de tratamento.

Na época, o então secretário de Comunicação, Ricardo Kotscho, reagiu, dizendo que a imprensa seria tratada com o mesmo respeito. Devo reconhecer que com Kotscho sempre tive de fato uma relação de máximo respeito. No meu caso, de admiração mesmo diante do memorável repórter que ele é. Assim como foram de respeito – e em alguns casos mesmo de grande amizade – as relações com os demais responsáveis pela comunicação dos governos petistas, como Franklin Martins, Helena Chagas e Olímpio Cruz Neto. Mas a verdade é que, muitas vezes à revelia até desses meus amigos, algo de estranho na relação dos governos petistas com a imprensa acontecia. E não seria justo reputar tal estranheza somente ao comportamento da imprensa.

A leitura de qualquer um dos veículos de comunicação brasileiros no início do primeiro governo Lula vai mostrar uma cobertura na ampla maioria das vezes favorável ao governo. A capa da revista IstoÉ, por exemplo, mostra o Rolls Royce presidencial descendo a rampa do Congresso Nacional, em registro belíssimo do fotógrafo Leopoldo Silva. Ladeado por manifestantes, o automóvel de Lula parece abrir as águas do lago do Congresso, antecipando uma imagem messiânica que Lula depois muito exploraria. O título na capa era: “O povo no poder”. A capa da revista Veja mostra uma foto de Lula sorridente, empunhando a bandeira brasileira, sob o título: “Triunfo histórico”. Acima, registrava-se ser “o primeiro presidente de origem popular”.

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veja

Antes da posse, a festa da vitória nas eleições deu-se na avenida Paulista, em São Paulo. Lula reservou uma sala de um hotel nas imediações para sua primeira coletiva após a vitória. Eu estava na coletiva. E ficamos todos esperando por alguns diversos minutos Lula conceder antes uma exclusiva que entrou ao vivo no programa Fantástico, da TV Globo.

Voltando aos primeiros momentos do governo, eu e outros jornalistas conseguimos estabelecer o hábito de almoçar com um dos ministros que despachava no Palácio do Planalto. Eram conversas em off, destinadas a compreender a lógica por trás das decisões que o governo tomava. Resultava na produção de espaços importantes para o governo, ainda que independentes, equidistantes, sem qualquer compromisso de elogio chapa-branca. Em determinado momento, sem qualquer explicação, os almoços findaram. Houve rumores de que fora uma ordem da Casa Civil…

Pouco depois, uma reportagem foi publicada em um veículo dizendo que a Casa Civil desconfiava que dois assessores jornalistas da Presidência seriam “espiões” do candidato tucano derrotado por Lula, José Serra. Em algum momento do passado, esses dois jornalistas, seríssimos, tinham de fato trabalhado com Serra. Hoje, trabalhavam com a mesma competência com Lula. A reportagem atribuía a informação a “fontes do Planalto”. Inaugurava-se com essa reportagem o chamado “fogo amigo”.

A partir daí, fechamentos de espaço para o trabalho jornalístico foram se sentindo. Produziram-se manuais para estabelecer a relação com jornalistas e o cuidado que se deveria ter no repasse de “informações estratégicas”. Mesmo assim, qualquer leitura honesta dos jornais demonstrará uma imprensa mais favorável que crítica ao governo até estourar o episódio do mensalão.

Sobre o mensalão, é bom adicionar nova lembrança. Roberto Jefferson sempre teve certeza que a fonte da matéria de capa da Veja que denunciava o recebimento de propina pelo ex-diretor dos Correios Maurício Marinho teve o então ministro da Casa Civil, José Dirceu, como fonte. Foi por conta dessa matéria – e da certeza que tinha sobre a fonte – que Jefferson resolveu procurar a jornalista Renata Lo Prete, então na Folha de S. Paulo, e denunciar a existência do mensalão.

A cobertura do mensalão foi a última a ter como fonte principal o Congresso Nacional e uma Comissão Parlamentar de Inquérito, a CPI dos Correios. CPI presidida pelo então senador Delcídio Amaral, que pertencia ao PT do Mato Grosso do Sul. Hoje, Delcídio está preso e denuncia o PT, que trata de lembrar de sua origem política ao lado de Jader Barbalho, do MDB, e depois no PSDB. Mas na época Delcídio era respeitada liderança petista. Que ajudava a imprensa a se alimentar das apurações da CPI que na maioria dos seus momentos fustigavam o PT.

O julgamento do mensalão, mais adiante, já trazia a história de “Partido da Imprensa Golpista” e a narrativa petista de que tudo não passava de uma invenção da imprensa.

Invenção nunca houve. Ou não teria havido CPI dos Correios e um julgamento no qual todos os ministros do Supremo Tribunal Federal consideraram a existência de crimes. A discussão ali se deu em torno de que crimes e quais penas. Nunca, por parte de nenhum dos ministros do STF, da inexistência de qualquer delito.

Houve, sim, exageros em alguns momentos por parte de determinados veículos de imprensa. Vieses se acentuaram. O equilíbrio foi perdido por muitos em muitos momentos.

Agora, ignorar as lembranças acima na construção desses “rastros de ódio” é agressão à inteligência e à memória. O país não rachou pela vontade de apenas um dos lados. E só seguirá rachado se assim os dois lados continuarem querendo. Azar de quem – e essa é a imensa maioria do país – prefere não ficar de lado nenhum…

Em tempo: “Rastros de ódio”, o maravilhoso western de John Ford, por muitos considerado um dos melhores filmes de todos os tempos, é ótima pedida para se entender como ódios se constroem e como suas motivações são tolas e sem sentido no final…

Política

De golpe em golpe


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Foto: Antônio Cruz (Agência Brasil/EBC)

Os fatos ainda são muito recentes para que saibamos como a história vai lidar com eles. As recentes iniciativas de algumas universidades de pautar cadeiras para estudar o “golpe” contra a ex-presidente Dilma Rousseff – todos nós sabemos – são atos políticos. Não têm exatamente rigor científico. Uma ideia, porém, começa a habitar a cabeça de alguns analistas: a de que tenha havido não um golpe, mas uma sequência de golpes.

Não um golpe como a narrativa do PT tenta imprimir, na qual uma inacreditável conjunção de forças tenha se unido para apear o partido do poder: Polícia Federal, Ministério Público, Tribunal de Contas, Judiciário em todas as suas instâncias, Congresso Nacional… A outra hipótese que fermenta aponta para a possibilidade de autoridades bem postas no processo terem enxergado em vários momentos janelas de oportunidade para tirarem proveito próprio do que acontecia. Produzindo, assim, uma diversidade de golpes. Alguns bem sucedidos, outros frustrados. Por essa razão é que estaríamos vivendo esse longo período de instabilidade política.

O “golpe” 1 foi o dado contra Dilma. Não que a ex-presidente tenha deixado de produzir as tais “pedaladas fiscais”. Ela se aproveitou sim de um tipo de malabarismo contábil que já se fazia e abusou dele em quantidades mastodônticas. Uma reportagem assinada por Leandra Peres no jornal Valor Econômico mostra em detalhes e documentos como Dilma foi diversas vezes alertada de que sua opção pelo ciclismo fiscal iria dar problemas. Dilma ignorou os alertas. Resolveu se arriscar. Deu no que deu.

O rito do impeachment de Dilma seguiu rigorosamente todos os passos determinados pelo Supremo Tribunal Federal. Perto dele, o impeachment anterior, de Fernando Collor, é que parece ter atropelado etapas. Collor teve bem menos tempo para se defender entre uma etapa e outra do seu processo. O impeachment de Collor concluiu-se em quatro meses. No caso de Dilma, se for considerado o momento em que o então presidente da Câmara, Eduardo Cunha, aceitou a abertura do processo, até a cassação do seu mandato, foram dez meses. Se for considerado o momento da aprovação na Câmara, foram seis meses.

Mas é evidente que muito mais do que convicções jurídicas sobre se Dilma teria ou não cometido crime de responsabilidade, o que prevaleceu foi uma conjugação de conveniências políticas, diante de um governo que, àquela altura, não tinha mais qualquer sustentação parlamentar. Uma das maiores demonstrações de que a conveniência política prevaleceu foi a estranha decisão do Senado de conferir a ela apenas metade da pena prevista na Constituição: cassou seu mandato, mas manteve os seus direitos políticos.

O “golpe” 2 foi imaginado por Eduardo Cunha. Ele acreditava que, da mesma forma que o impeachment, prosperaria na Justiça Eleitoral o entendimento de que houve abuso de poder econômico na eleição da chapa Dilma/Michel Temer. Nessa hipótese, a chapa seria cassada, e Eduardo Cunha se tornaria presidente da República convocando, àquela altura, novas eleições diretas. O TSE não cassou a chapa. E quem acabou derrotado foi o próprio Eduardo Cunha.

Derrotado pelo “golpe” 3. Figura central no processo de impeachment de Dilma e no seu desgaste político, criando e pondo em prática as tais “pautas bombas” que foram inviabilizando seu governo, Eduardo Cunha caiu na rede da Operação Lava-Jato. Cunha conseguiu protelar por onze meses o processo contra ele. Mas quem valeu-se de Cunha para tirar de Dilma sabia agora que ele também tramara. Assim, quando Cunha caiu, viu esvaziar-se de maneira retumbante todo o poder que tinha amealhado no Parlamento. Eduardo Cunha foi cassado com 450 votos a favor contra apenas dez contra. O acerto posterior tirou “da planície” – como discursou na quinta-feira na convenção do DEM o ex-presidente do partido, senador José Agipino Maia (RN) – o deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ) para guindá-lo ao posto de presidente da Câmara no lugar de Cunha.

Numa inacreditável busca por identificação mútua, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse em entrevista à jornalista Mônica Bergamo que o presidente Michel Temer teria sido vítima de uma tentativa de “golpe” no episódio da delação premiada dos irmãos Friboi, Joesley e Wesley Batista. Esteja Lula certo ou não, o fato é que os irmãos Friboi encontraram no processo de delações da Lava Jato uma janela de oportunidade para ganhar dinheiro. Especularam com suas delações. Conseguiram um estranho acordo pelo qual confessavam seus crimes e ganhavam por conta da colaboração um milionário exílio em Nova York. As investigações contra Temer não pararam. Mas o esquema dos Friboi foi descoberto, ainda que eles já tenham se livrado a essa altura da cadeia. Talvez não na linha da narrativa de Lula, temos aí o “golpe” 4.

Agora, enreda-se contra Temer novo episódio, que o relaciona com supostas irregularidades e recebimento de propina no Porto de Santos. Na semana passada, articuladores da campanha de Rodrigo Maia à Presidência da República raciocinavam sobre o novo caso. Avaliavam que ele poderá ensejar um novo pedido de investigação contra Temer que, como os outros dois anteriores, terá que ser aprovado pela Câmara dos Deputados. Nas duas primeiras vezes, os pedidos de investigação foram negados, o segundo com bem maior dificuldade que o primeiro. Se vier um terceiro pedido, ele virá em cima do pleito de outubro, com os deputados tentando a reeleição ou a eleição para outros cargos diante de um presidente que tem hoje seu governo muito mal avaliado. Tendo à frente do processo Rodrigo Maia candidato à Presidência. Essa conjunção de fatores fermenta a possibilidade do “golpe” 5. Se bem sucedido ou frustrado, só vamos saber lá adiante. E, assim, de golpe em golpe seguiremos…

 

Política

E Temer, quem diria, deu início ao jogo da sua sucessão…


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Foto: Marcos Corrêa (Agência Brasil-EBC)

Ele é extremamente impopular. As pesquisas lhe dão somente cerca de 1% das intenções de voto. Mas tem o poder da caneta presidencial. A semana que passou demonstra o quanto isso tem força. Ao resolver dar uma guinada na sua plataforma de governo, abandonando as reformas e elegendo como principal agenda o combate à criminalidade, o presidente Michel Temer, mesmo com toda essa carga de impopularidade, fez girar para valer a roda da sua sucessão. A partir da intervenção no Rio de Janeiro, as peças começaram a se mexer no tabuleiro. Candidaturas se afirmaram, e outras chegaram ao fim.

Temer pode não ter chance alguma no jogo da sua sucessão. Mas, ao tomar atitudes que claramente o colocam como candidato, o presidente levou os demais a se mexerem também. A começar pelos mais próximos. Principal incomodado com a intervenção, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), reagiu de imediato. Demonstrou sua contrariedade por não ter sido previamente consultado. Criticou a agenda de medidas econômicas que Temer propôs para substituir a finada reforma da Previdência. Acelerou na Câmara pacote próprio de medidas na área de segurança. Na semana que começa, Maia ainda não é um candidato declarado à Presidência. Mas já acertou até quem serão os marqueteiros da sua campanha.

Da mesma forma, o ministro da Fazenda, Henrique Meireles tratou de se mexer. Com o enterro da Previdência, perdeu o que seria a sua agenda: a aprovação das reformas estruturantes que ele e seu eleitorado – o empresariado e o mercado financeiro – julgam ser essenciais. Sem a reforma, Meireles tratou de declarar sua aspiração presidencial. E trabalha, tendo como interlocutor o senador Romero Jucá, para trocar seu atual partido, o PSD, pelo MDB, para por ali vir a ser candidato. Temer tratou de dar um freio à articulação: antes, diz ele, Meireles tem de demonstrar sua viabilidade. Um por cento nas pesquisas, Temer também tem.

No campo da oposição, as peças também se mexeram no tabuleiro. O candidato do PDT, Ciro Gomes, reuniu-se com o plano B do PT, Fernando Haddad, para tratar de possíveis alianças. Uma conversa em torno de possíveis uniões, ainda que saiam separados no primeiro turno. Unidade de discurso, compromissos no segundo turno. Haddad foi desautorizado pela presidente do PT, senadora Gleisi Hoffmann (PR). O candidato oficial petista é Lula. Haddad não deveria fazer tais conversas. Para outro petista que não quis se identificar, uma bobagem a censura de Gleisi. Lula não será candidato, até os pombos da Praça dos Três Poderes já sabem disso. Ele pode seguir seu plano de abandonar oficialmente a disputa somente aos 45 minutos do segundo tempo. Mas as conversas têm de acontecer, até porque por maior que seja sua capacidade de transferência de votos, sua alternativa não terá os mesmos votos que ele teria. Para esse outro petista, ou a reação de Gleisi foi mero jogo de cena ou desespero do grupo mais radical do partido, que não vem compreendendo bem o jogo.

Na extrema-direita, Jair Bolsonaro estrilou. Foi às redes sociais dizer que Temer pode roubar muita coisa. Só não vai roubar seu discurso. Bem, o discurso Temer já roubou. A não ser que a intervenção dê com os burros n’água. Outros roubos, se Bolsonaro não for capaz de provar, poderiam ainda lhe proporcionar um processo. Sem provas, ficam por conta do estilo boquirroto do capitão.

Temer agora precisa que a intervenção alcance algum resultado concreto. Por enquanto, ela não saiu muito dos três andares do Palácio do Planalto. A população do Rio espera resultado. E as dos demais estados que também sofrem com a violência, ações semelhantes a partir da criação do Ministério da Segurança Pública. Temer botou o maior problema do país no seu colo. Como jogada política, parece ter funcionado no primeiro momento. O problema agora é combinar com os morros, bairros e ruas da Cidade Maravilhosa…

 

 

Política

O futuro de Lula a Sepúlveda pertence?


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Foto: José Eduardo Cardozo com Sepúlveda Pertence – José Cruz (Agência Brasil-EBC)

A entrada de Sepúlveda Pertence no corpo de advogados de defesa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva vem sendo saudada pelos petistas como uma lufada de esperança. Ex-presidente do Supremo Tribunal Federal, jurista e advogado respeitado, Sepúlveda é visto como alguém com capacidade de influência sobre os demais ministros do STF para reverter o destino de Lula. A verdade, porém, é que, nas suas avaliações internas que não vão afirmar publicamente, os integrantes da cúpula do PT já sabem que mesmo Sepúlveda dificilmente será capaz de mudar o desfecho dessa história.

Evitar sua prisão é a tarefa à qual Lula e sua defesa se centram agora desesperadamente. O PT já sabe que, a essa altura, já não há mais a menor possibilidade jurídica de Lula ser candidato à Presidência em outubro. A Lei da Ficha Limpa é clara ao negar a candidatura a quem é condenado pela Justiça em segunda instância. E a Lei da Ficha Limpa não será alterada até outubro.

Além disso, é complicado para o PT ensaiar um discurso contrário à Ficha Limpa. O partido foi favorável a ela quando da sua tramitação pelo Congresso. Mais do que isso, o relator da lei foi o então deputado José Eduardo Cardozo, depois ministro da Justiça e principal advogado de defesa de Dilma em seu processo de impeachment.

Assim, já era claro à cúpula petista que quando Lula viesse a ser condenado em segunda instância, sua candidatura à Presidência estaria inviabilizada. A estratégia, então, era manter-se no páreo o máximo de tempo possível. Sustentar publicamente a candidatura até os 45 minutos do segundo tempo para, ao mesmo tempo, dar condições de construção do seu plano B, garantindo a ele a transferência de votos.

A última pesquisa Datafolha, feita depois da condenação de Lula, mostra que ele teria boa capacidade de transferência de votos. Boa parte de seus eleitores declara que poderia votar em outro nome que o ex-presidente indicasse. Assim, o que Lula pretendia era se manter o máximo de tempo possível no jogo para, no momento em que ficasse definitivamente impedido, já em franca campanha, declarar que por força das circunstâncias saía para apoiar então o candidato alternativo.

O problema é que a Justiça acelerou o timing da condenação de Lula, comprometendo a sua estratégia. Os petistas esperavam que o julgamento no Tribunal Regional da 4a Região acontecesse somente no final de fevereiro ou março. O julgamento foi ainda em janeiro. Os petistas acreditavam que houvesse divergência no julgamento, com algum dos desembargadores votando a favor de Lula. O julgamento foi unânime. E os ministros, avaliam, ainda combinaram seus votos para que fossem o mais convergentes possíveis. Assim, reduziu-se ao mínimo a possibilidade de recursos.

Quando o TRF4 concluir definitivamente o julgamento, avaliando o embargo de declaração feito pelo PT, a candidatura fica inviabilizada. Caberia a Lula correr ao máximo com uma campanha de presidente até o Tribunal Superior Eleitoral determinar definitivamente a sua candidatura. Era esticar esse tempo ao máximo o que Lula pretendia. Aí, surge a possibilidade da prisão.

Para esticar o tempo de campanha, mantendo-se ao máximo no páreo para depois passar o bastão a seu plano B, Lula, evidentemente, não pode estar preso. Preso, terá menos chance de falar, dar declarações, aparecer interferindo no processo eleitoral. A aceleração do processo de condenação tende a acelerar também a prisão.

Mesmo com a possível capacidade de influência de Sepúlveda sobre os ministros, os sinais dos últimos dias dão a entender que a posição do STF quanto à prisão para condenados em segunda instância não vai mudar. Como que para confirmar essa impressão, duas prisões de condenados em segunda instância aconteceram na semana passada: o deputado João Rodrigues (PSD-SC) e o irmão do ex-ministro José Dirceu, Luiz Eduardo de Oliveira e Silva. Assim, o trocadilho de Sepúlveda com seu sobrenome, acerca do destino de Lula, além de infame, talvez vá ficando mais difícil…