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Política

Carluxo só sabe ser oposição


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Embora já tenha demonstrado diversas vezes que se trata de um fator de crise permanente, o presidente Jair Bolsonaro não vai “demitir”seu filho Carluxo do comando das suas redes sociais. Como escrevi antes por aqui, “há método no Golden Shower“. Carlos Bolsonaro é uma espécie de Grilo Falante ao contrário de Jair Bolsonaro. Se na fábula infantil o bichinho servia de consciência ao boneco de pau Pinóquio, cochichando no seu ouvido palavras de moderação, Carluxo berra radicalismo nas orelhas do pai presidente. Ele diz tudo o que o pai gostaria de dizer mas que, em função do cargo, não pode assumir.

O vídeo de Olavo de Carvalho criticando o vice-presidente Hamilton Mourão, o pivô da nova crise, não foi a primeira postagem a aparecer e depois ser retirada dos perfis de Jair Bolsonaro nas redes. Isso tem acontecido rotineiramente. Foi assim, por exemplo, no tal vídeo do ator que lia texto defendendo a ditadura militar. A postagem entra, provoca seus efeitos, depois sai como se fosse um engano. Mas os filhos de Bolsonaro – especialmente Carlos, e um pouco menos Eduardo. Flávio é o que menos entra nessa trama, embora tenha sugerido à turma do Hamas que se explodissem – seguem depois mantendo a tensão.

Fica claro que o papel de Carlos Bolsonaro é botar fogo no circo. Depois, o presidente sai de debaixo da lona a tempo e os dois ficam contemplando o incêndio. É uma experiência meio maluca, fruto desses novos tempos de comunicação via redes sociais que ainda desafia o entendimento dos analistas políticos. Nas redes sociais, a ideia de diálogo e concertação de ideias que sempre marcou as democracias é substituída por uma guerra. Ninguém quer convencer ninguém. Quer apenas derrotar os adversários, seguir em frente e deixar os corpos vencidos pelo caminho.

É um tipo de estratégia que funcionou muito bem para fazer Bolsonaro chegar com grande sucesso à Presidência da República. Da mesma forma como fizera com Donald Trump nos Estados Unidos. Nesse ambiente de guerra, permite a vitória não exatamente daqueles que tenham os exércitos maiores. Mas de quem tenha os exércitos mais organizados para a guerra virtual.

No caso de Bolsonaro, ele obteve assim os 15% mais radicais que são as tropas bolsonaristas mais fieis. Uma tropa que teve papel importantíssimo para dar ao presidente a musculatura inicial que o colocou de forma competitiva na campanha. Ao longo do tempo, para além disso, a candidatura foi se ampliando pela forma como colou como antípoda do petismo. Quando se consolidou na maioria do eleitorado o desejo de por fim à era do PT no poder, os demais eleitores além do bloco inicial consolidado de 15% de bolsonaristas aderiram ao projeto. E venceram a guerra.

O problema é que, vencida a guerra, é preciso construir tempos de paz. E é aí que o modelo de Carluxo não se encaixa. Ele não sabe viver em tempos de paz. Ao derrotar os inimigos da campanha, vai colecionando novos inimigos. Cola, então, no presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), que devia ser o avalista no Congresso das reformas estruturantes, a pecha de “velha política”. Enxerga em Gustavo Bebianno, que comandou o partido de Bolsonaro na campanha, o “vazador” de notícias para a velha imprensa. Enxerga nessa velha imprensa, cujos proprietários alinham-se inteiramente com a necessidade das reformas e com o pensamento liberal, “um bando de esquerdopatas comunistas”. E vê Hamilton Mourão como um inimigo que quer tomar do pai o poder. Escolhe Olavo de Carvalho como aliado, alguém que tem exatamente como especialidade tocar fogo nos circos. Nem no Brasil vive para não sofrer as consequências dos incêndios que provoca.

Parece mais do que evidente para qualquer grupo sensato que, vencida a guerra, Bolsonaro precisaria ampliar-se do seu grupo original de 15%. E os aliados óbvios seriam os grupos conservadores no Congresso – como o DEM de Rodrigo Maia -, os setores liberais da sociedade – do qual fazem parte os proprietários dos meios de comunicação -, e os militares – meio com o qual Bolsonaro, embora fora do Exército há mais de vinte anos, sempre procurou se identificar.

Não deixa de ser verdade o argumento, que parece definir o comportamento de Carlos e que Jair Bolsonaro endossa, de que esses grupos sempre pretenderam tutelar o atual governo. Especialmente os militares e os partidos conservadores tradicionais, como o DEM. Enxergam, sim, em Bolsonaro, uma janela de oportunidade. O presidente coloca seu filho Carluxo para resistir a isso a seu modo nas redes sociais. Provocando, porém, um estado de crise desnecessária. Que transforma os tempos que deveriam ser de paz em novos tempos de guerra.

No entanto, não há qualquer sinal – a não ser de quem cultive alucinações paranoicas – de que tais grupos tenham a intenção de apear Bolsonaro do poder para assumir em seu lugar. Parece mais claro um desejo de ascender pegando carona no fenômeno para colher os frutos mais tarde, nas disputas eleitorais do futuro.

Se Mourão preparou-se para, como vice, exercer um papel mais moderado do que o figurino que envergava antes como militar, palmas pra ele. Compreendeu como deve se comportar em tempos de paz. Talvez pudesse mesmo ser mais discreto. Mas isso deveria significar aceitar as excentricidades, para dizer o mínimo, de certas declarações e comportamentos do governo?

Se o Congresso e os partidos tradicionais mais conservadores querem colher frutos de uma aproximação com o governo, também não é algo que devesse surpreender. Mesmo que ninguém aconselhe Bolsonaro a ser fisiológico e aceitar o toma-lá-dá-cá, é natural que o DEM e outros partidos queiram exercer poder de influência que sirva como cacife para voos eleitorais mais tarde. E se o governo precisa desse apoio para aprovar seus projetos no Congresso, precisa saber aceitar isso. Mais adiante, com o sucesso dos projetos, que dispute o papel de protagonista. Quem quer aprovar emenda constitucional tem de estar preparado para fazer esse jogo.

Vencida a guerra, em tempos de paz, o vencedor precisa se ampliar sobre os derrotados. Não pode imaginar que eliminará da face da Terra todos os demais e reduzir o Brasil aos seus 15% mais fieis. É onde esbarra a estratégia de Carlos Bolsonaro. Carluxo não sabe ser governo. Só sabe ser oposição.

 

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Acredite: há método no golden shower


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Uma coisa sobre a qual a ciência política ainda terá de se debruçar com mais profundidade é o efeito da atual era virtual e do crescimento da comunicação via redes sociais nas democracias. Até, então, parecia claro que as democracias, na busca do consenso a partir das maiorias, acabava na maioria das vezes fazendo com que os resultados eleitorais pendessem para o centro. No processo de diálogo, os extremos iam sendo limados. Há sinais bem claros de que o processo de construção política a partir das redes sociais altera esse comportamento.

As redes sociais não estimulam exatamente o diálogo. Geram muito mais uma guerra pesada de pontos de vista. E o propósito de uma guerra não é chegar a um consenso. É derrotar o inimigo. Numa guerra, os vencedores avançam e deixam pelo caminho os corpos dos seus adversários. Não parece haver outro motivo para explicar por que as eleições do ano passado acabaram por se transformar numa estridente disputa radical entre esquerda e direita, com a vitória de Jair Bolsonaro como a opção de direita.Nem sempre uma guerra é ganha por quem tem o maior exército. É ganha por aqueles que melhor se prepararam para ela. Que tiveram a melhor estratégia.

Talvez esteja aí a razão pela qual Bolsonaro seja hoje o presidente com pior avaliação da sociedade, de acordo com as pesquisas, entre os eleitos desde a redemocratização. A verdade é que ele nunca foi a opção da maioria. A maioria dividiu-se entre os demais candidatos na disputa. Pode-se argumentar que isso também aconteceu nas demais eleições, com os demais presidentes. Ocorre, porém, que Bolsonaro, nestes seus primeiros cem dias de governo, ao contrário dos demais, não procurou amenizar seu discurso para se aproximar dos demais setores da sociedade que não estão intimamente ligados a ele e ao seu discurso. Pelo contrário, até nos ambientes em que a busca do consenso é absolutamente vital e necessária – como no Parlamento, para aprovar a reforma da Previdência –, Bolsonaro alterna tentativas de diálogos com grossas caneladas. Diz, por exemplo, que não vai se submeter à “velha política”, e que não fará isso porque “não quer jogar dominó no xadrez com Lula e Michel Temer”.

É por isso que a reforma avança e recua, gerando desânimo entre empresários e os demais setores que a apoiam. Uma ala mais moderada dentro do governo aconselha que se pare com o debate mais polêmico. Que Bolsonaro retorne aos métodos tradicionais de governo e pare de sacar seu dedo explosivo no Twitter e no Facebook. A verdade, no entanto, é que Bolsonaro provavelmente não vai parar. Acredite: há método no golden shower.

A guerra virtual nas redes sociais não parou com a eleição. Nem vai parar. Ela é parte do novo modelo de comunicação. Se por um lado Bolsonaro precisa buscar consensos para aprovar no Congresso a reforma da Previdência ou o pacote anti-crime do ministro da Justiça, Sérgio Moro, por outro ele precisa manter mobilizados seus exércitos para a guerra virtual.

Esse novo modelo de comunicação sepultou a informação como seu bem maior. A informação foi trocada pela confirmação. Nas bolhas virtuais, o que cada um deseja é a confirmação do que já acredita. Está aí o método por trás do golden shower. Se o vídeo pornô divulgado por Bolsonaro choca quem está fora da bolha conservadora, dentro dela serve de confirmação. Para os que acham que carnaval é só sacanagem, putaria.

Dentro da esfera do governo, esse parece ser o papel de ministros como Damares Alves, dos Direitos Humanos, e Ernesto Araújo, das Relações Internacionais. Explica também porque o colombiano Ricardo Vélez Rodrigues foi substituído no Ministério da Educação por Abraham Weintraub. Em termos ideológicos, trocou-se media docena por meia dúzia.

Na comunicação, a manutenção desse caminho tem como expoente o filho do presidente, o vereador Carlos Bolsonaro. Se boa parte enxerga Carlos como fator de confusão – como se evidenciou no episódio da demissão de Gustavo Bebbiano – assim não parece ver o próprio Bolsonaro. Que, numa entrevista recente, voltou a elogiar o filho. Goste-se ou não, Carlos faz para o pai no mundo virtual exatamente o que combinou com ele.

A verdade é que, nesse processo, a parte mais estridente da oposição segue pelo mesmo caminho. O PT tem hoje um discurso radical que nunca teve quando foi governo. Esmera-se na produção de “tigrões” e “tcutchucas” que beiram a tolice. O desvio de foco e o diversionismo viraram a tônica do debate político.

Nestes primeiros cem dias de governo, essa opção pela guerra virtual mostrou-se motivo de desgaste e crise permanente. Mas, num processo cujo propósito não parece ser mesmo buscar consensos, ela mantém mobilizado o exército de Bolsonaro. E discursos parecidos mobilizam os exércitos de parte da oposição. Provavelmente, os próximos cem dias não serão diferentes. A tranquilidade é, assim, deixada de lado. Mas é assim que a banda agora toca. E nem podemos reclamar. Porque, nessa banda, nós também empunhamos entusiasmados nossos instrumentos.

Política

O mundo Bolsonaro no Aranhaverso


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No fim de semana, uma deputada da base do governo Jair Bolsonaro manifestou-se nas redes sociais contra uma reportagem publicada na revista IstoÉ que criticava a falta de critérios técnicos para a ascensão de apadrinhados no novo governo, a começar por Antônio Hamilton Rossell Mourão, filho do vice-presidente Hamilton Mourão, que conseguiu triplicar seu salário no Banco do Brasil em pouco mais de uma semana de governo. “Está muito fofo ver a extrema imprensa chamar de moralmente questionável o que não pode chamar de ilegal, quando nunca questionou as ilegalidades escancaradas dos governos petistas”, escreveu ela. Fica omitido o nome da deputada porque a intenção aqui não é iniciar uma polêmica diretamente com ela. Mas não era preciso recorrer sequer ao histórico de reportagens publicadas pela revista para verificar a falta de sentido do comentário.

A capa da mesma edição estampa uma foto de Rosemary Noronha, que foi assessora do ex-presidente Lula. A reportagem fala das investigações de falcatruas em que Rosemary teria se metido, apuradas na Operação Porto Seguro. Fala que ela tem fugido da Justiça para não ser notificada e intimada. E ainda traz uma entrevista na qual sua irmã diz com todas as letras que ela foi amante de Lula. Independentemente do que se pense sobre o conteúdo específico das reportagens, se são boas ou ruins, corretas ou incorretas, fica um bocado difícil, diante disso, afirmar que a revista, ou a “extrema imprensa” no caso por ela representada, “nunca questionou as ilegalidades escancaradas dos governos petistas”. Questionou na mesma edição.

É possível encontrar nas redes sociais petistas diversos comentários com o mesmo grau de indignação e ódio contra a reportagem que fala de Rosemary. Que ignoram da mesma forma solene a outra reportagem criticada pela deputada, e outras. São casos opostos de um mesmo fenômeno. As bolhas do mundo virtual simplesmente descartam da realidade que constroem tudo aquilo que não lhes convém. Ali, vive-se num universo paralelo, onde o sentido do mundo real é subvertido para construir um outro sentido, que só ali tem lógica.

É meio como o desenho animado do Homem Aranha, que está em cartaz nos cinemas, “Homem Aranha e o Aranhaverso”. A animação brinca com o conceito de universos paralelos, que faz sucesso no mundo dos quadrinhos mas ainda não tinha dado as caras no cinema. Ali, herois de diversos mundos unem-se para combater juntos uma ameaça. Entre as diversas formas de super-heroi aparece até um certo Porco Aranha, um porquinho com cara de desenho do Looney Tunes. Em um mundo em que o heroi é um porco de desenho animado fantasiado de aranha pode fazer sentido uma revista que traz a suposta ex-amante de Lula ser a mesma que “nunca questionou as ilegalidades escancaradas dos governos petistas”. Onde um porco de colant fantasiado de aranha distribui sopapos nos bandidos, tudo é possível.

Com todo o respeito à deputada, o problema do seu comentário é o grau de relevância que vai ganhando no mundo real as conclusões e decisões que são tomadas a partir de convicções formadas nesse mundo paralelo. A partir de convicções formadas sob o ponto de vista distorcido das bolhas virtuais – que não enxergam contrapontos, que não admitem visões diferentes -, vai-se consolidando uma radicalização que, se agrada às bolhas, pode ter efeitos muito perversos no mundo real.

Que vantagem prática, por exemplo, vislumbra-se com a decisão de o Brasil ser um dos primeiros países do mundo a seguir os Estados Unidos na troca da embaixada de Israel de Telaviv para Jerusalém? Se tal decisão viesse após o incremento de fato de uma parceria com Israel, da qual o Brasil estivesse desfrutando, tal movimento poderia ser considerado mais natural. Mas feito de forma gratuita, sem nenhuma negociação de contrapartida, torna-se incerto nos seus benefícios bem mais que a possibilidade de seus prejuízos, como a ameaça de o país acabar virando cenário do terrorismo islâmico.

Na outra linha, que vantagem o PT pode a essa altura auferir ao prestigiar a posse de Nicolás Maduro na Venezuela ou ao defender Cesare Battisti no episódio da sua extradição para a Itália? O partido não percebe que tais atos só reforçam os argumentos contrários que levaram à vitória de Jair Bolsonaro? Não percebe que isso o leva a uma imagem de extremismo que ao longo da sua história nunca desejou de fato?

Ainda vamos ter que avaliar muito sobre o novo mundo que se constroi a partir da vida paralela virtual que se amplia sobre a vida real. Nesse sentido, vale a leitura de um estudo coordenado por Christopher Paul para a Rand Corporation, intitulado “Firehose or Falsehood” sobre o modelo de enxurrada de fake news desenvolvido na Rússia e que migrou para os Estados Unidos na eleição de Donald Trump e pode ter desembarcado por aqui na eleição de Bolsonaro. O texto pode ser facilmente encontrado na internet. De acordo com o artigo, as estratégias que se valem dessa “enxurrada de fake news” estabelecem um clima de “campanha eleitoral permanente”, em que a racionalidade e o equilíbrio são substituídos por um ambiente crônico de ataque aos fantasmas de sempre.

Cria-se, assim, um ambiente de disputa, no qual se aponta para inimigos à espreita prontos todo o tempo para sabotar projetos. Uma das características dessa situação é a quantidade. Diversas, inúmeras postagens martelando as ideias em caráter repetitivo. Múltiplas fontes. Se uma história não cola, cria-se outra imediatamente. Ou se refaz a primeira. O trabalho da Rand Corporation chega a aferir que determinada quantidade de influenciadores digitais consegue anular a palavra de um especialista. Por exemplo: a questão das vacinas. Uma quantidade de depoimentos de pessoas comuns dizendo que as vacinas fazem mal anula o depoimento de um Prêmio Nobel que afirme que elas fazem bem. Até porque se embala tudo numa argumentação de que há uma conspiração planetária em torno do tema. Assim, o especialista que defende as vacinas foi credenciado por instituições que fazem parte da mesma conspiração. Tal argumentação relativiza as suas credenciais.

Muito do que se vê hoje nas redes sociais é deliberado. Há empresas operando essa rede de informações falsas ou distorcidas. Que é retroalimentada pela convicção e fé dos grupos nas suas bolhas. Estimulada por uns, cresce pela crença dos outros. E vice-versa. No caso brasileiro, é necessária mais investigação para saber o que prevaleceu ou aconteceu. Se a deliberação intencional ou a distorção a partir de grupos que deixaram de enxergar o todo isolados que estavam – e estão – nas suas bolhas.

Voltando ao desenho animado do “Aranhaverso”, nesse rolo todo a imprensa parece identificar-se com o personagem do Homem Aranha cansado e fora de forma de um dos universos. Espancada pela crise e por um mundo onde a verdade e o bom senso andam fora de moda, a imprensa luta, com seus erros e limitações, para manter as suas convicções, que incluem o combate sempre a governos que desviam dinheiro público e facilitam exceções e privilégios. Seja de que lado estiverem.

Política

Será um novo marco na saúde?


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Foto: Mariana Raphael – Secretaria de Saúde do DF

A notícia de que o Ministério da Saúde já encontrou médicos para substituir 90% dos profissionais cubanos e de que pode, então, rapidamente suprir totalmente a sua ausência pode vir a ser um marco importantíssimo para a saúde pública do país. A substituição por profissionais brasileiros pode significar a quebra de uma resistência histórica da maioria da categoria ao modelo de Medicina da Família que o Ministério da Saúde preconiza para a atenção básica. Se de fato for quebrada essa resistência, a saúde pública brasileira tem a chance de dar um salto gigantesco em termos de qualidade na sua saúde pública, aproximando-se de países como a Inglaterra, o Canadá e Portugal.

Se isso vier acontecer, o presidente eleito Jair Bolsonaro terá dado um tiro ideológico no que viu e acertado no que não viu. Sua ação que levou à reação de Cuba, de romper com o acordo que tinha para o Programa Mais Médicos, tinha por intenção atingir o PT, na linha que vem preconizando de imprimir uma agenda ideológica às suas relações internacionais, o que já preocupa muita gente no campo da diplomacia. Mas se acreditava inicialmente que a retirada dos médicos cubanos produziria um buraco no atendimento de saúde básica no país. Caso isso não aconteça, para além da briga ideológica, o tiro pode resultar de fato na consolidação finalmente de um modelo de saúde pública que hoje os principais especialistas consideram o mais indicado para enfrentar os problemas dos tempos modernos na área.

A Medicina de Família, que atua na atenção básica dentro do programa Mais Médicos, é uma especialidade médica. O médico de família é preparado para chefiar uma equipe que vai atuar numa comunidade sempre com as mesmas pessoas, cerca de quatro mil. Nas cidades em que a saúde básica funciona com Estratégia Saúde da Família, a área do município é esquadrinhada para permitir que esse atendimento ocorra dessa forma. Ali, ele passa a conhecer profundamente a realidade dos pacientes que atende de forma rotineira. O foco do atendimento não se dá, assim, na doença, mas na manutenção da saúde de cada paciente.

Se um paciente vai à emergência de um hospital se queixando de alguma dor, o médico que ali o atende foca nos sintomas da sua doença. Ele não conhece o ambiente em que o paciente vive, nem sua rotina e nem em que condições vive sua família. Na Estratégia Saúde da Família, todas essas características são levadas em conta. Ao fazer o acompanhamento de saúde de uma gestante, sabe-se, por exemplo, que ela vive em um casebre em condições insalubres. Que seu marido é, digamos, alcóolatra. Que há registro de uso de drogas na família. Condições que, conhecidas, vão sem dúvida afetar o desenvolvimento do bebê que está sendo gestado e a saúde da mãe. Se uma criança aparece com bronquite, digamos, sabe-se que ela mora, por exemplo, próxima de uma fábrica de cimento, o que compromete sua condição respiratória. Em um hospital, um médico só saberá de tal situação se a paciente contar, o que quase nunca acontece.

Auxiliado pelos agentes comunitários de saúde, a Equipe de Saúde da Família faz um acompanhamento rotineiro dessas quatro mil pessoas que recebem a sua atenção. Assim, antes de tratar especificamente da doença, essa equipe trata de manter seus pacientes com saúde. É mais barato e mais eficiente. Os especialistas estimam que uma Equipe de Saúde da Família consegue resolver 80% dos casos da comunidade que ela assiste.

O modelo que se centra nos hospitais, que ainda é forte no imaginário das pessoas, fazia sentido até a primeira metade do século passado, quando a maior parte dos problemas de saúde de uma população se relacionava a doenças infectocontagiosas. Assim, a solução era mesmo internar e isolar os pacientes até que se curassem. Hoje, os principais problemas de saúde estão relacionados a doenças crônicas, como hipertensão e diabetes. Pacientes que têm tais doenças vão conviver com elas para sempre. Mas na maior parte dos casos vão seguir normalmente com suas vidas. Só são internadas em casos de agravamento agudo dos seus males. Se forem de forma rotineira ao médico, se estiveram com suas taxas normais, se a medicação prescrita estiver fazendo resultado, nada de mais grave acontece com elas. As emergências dos hospitais não são para essas pessoas. Para elas, o que funciona é algo que lhes garanta esse atendimento rotineiro.

Ocorre, porém, que quando esse modelo dá certo, a saúde dos pacientes não se agrava. Porém, é quando a saúde do paciente se agrava que a medicina se torna de fato lucrativa. Controlar a hipertensão não dá dinheiro ao médico. Tratar um infarto que exija a colocação de pontes de safena, dá.

Se a Medicina de Família é uma especialidade, o médico precisa optar por ela. Se ela trata de manter seus pacientes sãos, não será o Médico de Família aquele que será chamado se o quadro se agravar. Assim, é uma especialidade onde o médico optará por viver do seu salário. Não tem cirurgias complexas, colocação de próteses caríssimas e sofisticadas. Poucos são os médicos que fazem essa opção. A grande maioria vai virar cirurgião plástico, ortopedista, oncologista.

A Estratégia Saúde da Família sofre grande resistência de boa parte da classe médica. Pude testemunhar isso quando assessorei a Secretaria de Saúde do Distrito Federal. Tanto que, pressionado pela categoria, o governador eleito Ibaneis Rocha disse que retornaria ao modelo tradicional, colocando especialistas de outras áreas, e não médicos de família, nos postos de saúde. Se o fizer, cometerá um grande erro, indo na contramão do que preconiza e incentiva o Ministério da Saúde e as organizações internacionais do setor.

Quando lançou o programa Mais Médicos, a então presidente Dilma Rousseff disse que se valia da parceria com os médicos estrangeiros pelo desinteresse dos médicos brasileiros. Não apenas em ir para o interior, discurso que ficou mais conhecido, mas também pelo desinteresse pela Medicina de Família. Agora, o jornal Folha de S. Paulo revela a existência de emails que reforçam o discurso de que pode ter havido uma opção política e ideológica no acordo com Cuba.

A rápida substituição dos médicos cubanos vai reforçar esse discurso. Mas, para além da disputa política e ideológica, o que há de importante é a possibilidade de consolidação da Estratégia Saúde da Família com profissionais locais, o que poderá lhe dar uma garantia maior de fixação e permanência. Será um avanço inestimável, caso realmente aconteça.

 

Política

Ensaio sobre a cegueira


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Foto: Valter Campanato/Agência Brasil – EBC

Paulo Delgado foi um dos primeiros deputados a ganhar destaque no PT. Um dos integrantes da bancada do partido na Constituinte, começou a se afastar ao final do primeiro governo Lula. Hoje, é um forte crítico de uma tendência da legenda do qual fez parte: uma certa cegueira crônica que faz o PT não enxergar os sinais das suas derrotas. Assim, o partido não aprende as lições que viriam desses resultados negativos. E não faz as autocríticas e revisões necessárias para seguir adiante. “Ao contrário, o PT tem mania de querer enxergar vitórias nas suas derrotas. É uma grave cegueira”, comenta ele.

Agora, o PT comemora o fato de ter eleito a maior bancada de deputados para a Câmara federal. E incensa Fernando Haddad como uma nova liderança surgida por seu desempenho na eleição que tornou Jair Bolsonaro o próximo presidente da República. Para a democracia brasileira, poderia ser um alento o PT ter eleito o maior número de deputados e obter sucesso em focos de resistência à onda que elegeu Bolsonaro. O problema é querer vender isso como uma vitória.

O PT entrou na disputa certo que a venceria. Mais do que isso: imaginava que ela serviria como julgamento político da sua era no poder. No cálculo petista, o que se daria era um plebiscito. Com a vitória, a sociedade daria ao ex-presidente Lula e a outros condenados e investigados petistas uma certa absolvição política, que arrefeceria a força das condenações na Justiça.

O PT perdeu as eleições presidenciais para Jair Bolsonaro. Especialmente porque se cristalizou no país uma fortíssima onda antipetista. Essa onda levou a maioria do eleitorado a escolher como presidente um radical de extrema direita, que se colocou como oposto do que o PT representava. Ou seja: além de vencer, Bolsonaro colou no PT um rótulo de extrema-esquerda que também está longe de figurar a realidade. Nesse sentido, parece mesmo ser um sintoma de cegueira querer enxergar vitória nisso.

Na sequência das eleições, os demais partidos do campo da esquerda conversam para formar blocos na Câmara e no Senado sem o PT. Impressiona a disposição e a velocidade como tais blocos estãos sendo montados. Até o PCdoB, da vice de Fernando Haddad, Manuela D’Ávila, alia-se ao bloco. Uma reação ao estilo de estratégia hegemonista que o PT sempre pretendeu sobre os demais partidos do seu campo. Se os dois blocos se formarem – e até agora, nada indica que isso não aconteça. Pelo contrário, as negociações seguem bem avançadas –, serão as duas maiores bancadas tanto na Câmara quanto no Senado. Com incrível força definidora. Tanto que o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ) já conversa com eles para garantir apoio à sua reeleição.

Por que esses partidos desejam formar um bloco sem o PT era algo sobre o qual deveria o PT refletir. Por que seus parceiros de anos querem agora caminhar sem os petistas. Que situações, especialmente as ocorridas nestas últimas eleições, levaram a esses sentimentos.

Mas, pelo que se vê de reação de militantes nas redes sociais, a sinalização não ensinou nada ao PT. Os militantes reclamam de Ciro Gomes, o principal artífice da formação dos dois blocos. O chamam de traidor. Apostam que os blocos não vão durar muito. Tentam vender a imagem do movimento como sendo de submissão ao novo governo eleito.

Independentemente do que se pense ou deixe de pensar sobre Ciro, os dois blocos já estão praticamente formalizados. E caso sejam mesmo grandes e com capacidade de definição nas negociações no Congresso, não há sentido em se pensar que vão se desfazer logo. Até porque há diversos partidos ali, como a Rede e o PCdoB, que terá de avançar na conversa em torno do bloco para uma conversa de fusão com outros partidos, por uma questão de sobrevivência em consequência da cláusula de barreira. Não é, portanto, uma questão somente de afinidade. É uma questão de necessidade. Que o PT também evita querer enxergar.

Ou seja: em vez de tentar se aproximar dos demais partidos que farão oposição ao governo Bolsonaro, o PT isola-se deles. Fica, portanto, mais solitário. Insiste na manutenção do discurso que o levou à derrota. Esse ensaio de cegueira vai cobrar seu preço. O mundo segue para quem quiser enxergar…

Joaquim Levy

Como explicar Joaquim Levy na presidência do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES)? Um governo que se vendeu como a chave para mudar “tudo isso que está aí, ok?” coloca na sua principal agência de desenvolvimento aquele que, como ministro da Fazenda da ex-presidente Dilma Rousseff, é apontado como responsável pela crise econômica que se abateu sobre o país. Aquele que estava à frente da equipe econômica que produziu as pedaladas fiscais, que levaram ao impeachment de Dilma e ao início da crise que produziu Bolsonaro. Esse governo parece ter nascido como Chacrinha: para confundir, não para explicar…

 

Política

Distopia?


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Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil-EBC
Logo depois do resultado das eleições que consagraram nas urnas o capitão da reserva Jair Bolsonaro, o canal da Paramount exibiu o novo episódio de O Conto da Aia. No episódio, o comandante Waterford viaja  com sua mulher ao Canadá. Vai numa viagem diplomática tentar vender a sua terrível ideologia misógina, reacionária, radical religiosa ao vizinho do Norte que prossegue seu caminho democrático e de respeito às mulheres e demais minorias. Uma das mais belas cenas é o deslumbramento maravilhado de sua mulher, trancada dentro do carro, olhando admirada as pessoas vivendo normalmente suas vidas nas ruas, os casais se beijando. O mundo perdido, para o qual ela entende que não há retorno, apesar da chance que durante o episódio lhe aparece.
Alguns minutos antes do episódio, Bolsonaro aparecia vitorioso nos noticiários da televisão. Primeiro, destacando o desprezo pela imprensa tradicional e seu apreço pela comunicação direta com a população via redes sociais, ele tenta, como fizera no primeiro turno, um pronunciamento ao vivo pela internet gravado pela câmera de um telefone celular. Com o sinal ruim, a mensagem sai truncada, cortada em muitos momentos. Mas fica clara a delimitação de seu território. Critica a mídia, que o teria colocado em “situações vexatórias”. Diz que vai afastar o país do “caminho do comunismo” e do “extremismo de esquerda”.
Em seguida, diante do fracasso técnico da mensagem, ele retorna, agora numa transmissão tradicional pela TV. Fala um pouco, mas o principal protagonista agora é o senador Magno Malta (PR-ES), que puxa uma oração. Eleito democraticamente, para governar um Estado laico, com cidadãos de diversas religiões e alguns sem religião alguma. Mas agora é “Deus acima de todos”, como diz o slogan de sua campanha.
O episódio na sequência de O Conto da Aia parecia ser a continuação da mesma distopia. O discurso entrecortado na transmissão via internet. A oração de Magno Malta. Depois, nova comunicação para dizer que tinha recebido telefonema de Donald Trump, o estranho presidente norte-americano com seu cabelo dourado e pele de curioso tom alaranjado, também com suas críticas à imprensa feitas com seu biquinho avantajado.
Lá nos Estados Unidos, aqui no Brasil e em outros lugares onde se dá essa reação conservadora, o eleitor certamente deve ter suas razões e motivações para assim ter decidido. No caso brasileiro, elas certamente decorrem de um desencanto quanto à opção de esquerda tomada anteriormente. Há algo desse desencanto que provavelmente é natural. A democracia tende à alternância. Em algum momento um grupo no poder conhece um ponto de desgaste. O PT foi o partido que mais tempo governou o país na sua história republicana.
No caso, porém, há todo um enredo que reforça o tom de distopia. Porque nada nessa narrativa, de um lado e de outro, corresponde de fato à verdade. Tudo foi construído num tom exagerado, caricatural, tendendo ao absurdo. Ao pesadelo.
Desde que Lula chegou ao poder em 2002, o que se estabeleceu foi a construção de uma coalizão. Que liderada por um partido de esquerda, tendia ao centro pelo fato de ter ao seu lado aliados de direita. A começar pelo próprio vice-presidente de Lula, o empresário José Alencar. Lula manteve a mesma estrutura de formação de aliança dos governos anteriores. Ao contrário, aprofundou a lógica dessas alianças, cimentadas com a argamassa do fisiologismo que deu no mensalão e depois no petrolão. Pode-se dizer que a corrupção e o fisiologismo já existiam antes. Tanto que em 2002 Lula elegeu-se prometendo ao eleitorado que acabaria com essa corrupção. Ficou famoso o comercial dos ratos roendo a bandeira brasileira. Mas Lula não acabou com a corrupção. Aos olhos da população, justa ou injustamente, ao contrário, pareceu ampliar os esquemas. Ser punido por isso talvez seja justo. Mas onde os governos petistas representavam uma “ameaça comunista” que precisava ser varrida, é difícil, quase impossível, perceber.
O problema do enredo caricatural construído pelo grupo que agora chega ao poder é que ele é uma contraposição ao enredo igualmente caricatural construído pelos que foram derrotados. Porque, se não exercia um governo de esquerda, se não pretendera em momento algum estabelecer algum regime comunista, o fato é que no momento em que passou a construir o discurso da vitimização, quando seus principais líderes, a começar pelo próprio Lula, foram parar na cadeia, o PT começou a montar para si uma imagem de algo que, na verdade, não era. No discurso, o PT era vítima das elites. Que eram conservadoras e, por isso, não aceitavam a condução de esquerda que o partido dizia adotar.
O PT não adotou uma condução de esquerda. Adotou uma condução de coalizão com diversos partidos e segmentos da sociedade que era comandada por um partido de esquerda, com algumas alas tendendo mesmo à centro-esquerda, especialmente a própria ala que era liderada por Lula. Nessa condução, aprofundou conquistas sociais importantes, que promoveram a ascensão das camadas mais pobres da população. Mas o fato é que durante diversos anos as elites conservadoras permitiram ao PT essa construção. Como já se disse, nenhum outro partido governou o país por mais tempo na sua história republicana. São tão profundos os alicerces desses programas sociais que mesmo o governo declaradamente de direita que será instituído por Bolsonaro não pretende destruí-los. Ele afirma que manterá o Bolsa-Família, inclusive ampliando o benefício. Seu programa de governo chega a falar em “renda mínima”, diz que ninguém terá no país renda menor que a instituída pelo Bolsa-Família.
O grande problema a ser ultrapassado agora, após a eleição de Bolsonaro, é que boa parte da sociedade, a começar hoje pelos próprios protagonistas de um lado e de outro, optou por viver nos mundos que construíram para si. A vítima injustiçada de esquerda enfrenta o monstro reacionário de direita, numa versão. O paladino justiceiro de direita derrota o monstro comunista radical de esquerda, na outra.
Se os protagonistas na disputa, com a responsabilidade que têm, não recolherem agora esses óbvios discursos de campanha que convenceram e animaram suas torcidas, o mundo distópico vai se tornar realidade. Uma horda enlouquecida já se anima a caçar por aí inexistentes comunistas. Por não compreender exatamente o que isso significa, enxerga comunismo em tudo. Até no eventual uso de um filtro vermelho para iluminar monumentos públicos durante a campanha de conscientização contra o câncer de mama. Se sente autorizada a perseguir minorias. A extrapolar da violência.
Há um breve, porém, contra a distopia. Ela se chama Constituição. Um governo eleito pelas urnas precisa respeitar as regras e os limites do Estado Democrático de Direito. E as instituições que o formam devem saber defender sua autoridade e os limites do poder constituído. É nesse mundo onde não se pode tudo, nesse mundo em que minorias precisam ser respeitadas e impõem às maiorias os limites democráticos que o país precisa continuar vivendo. As distopias como a de O Conto da Aia precisam continuar sendo somente obras de ficção.
Política

A triste eleição da mentira


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Foto: Fabio Pozzebom/Agência Brasil-EBC

O vídeo em que o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do candidato do PSL, Jair Bolsonaro, aparece dizendo que basta “um soldado e um cabo” para fechar o Supremo Tribunal Federal é chocante. É chocante pela revelação explícita da falta de apreço com a democracia e suas instituições. É chocante, embora nada tenha de surpreendente. Porque em muito pouco difere das coisas que seu pai disse e repetiu ao longo dos últimos vinte anos como deputado federal.

Assim, certamente terá pouquíssimo efeito no resultado eleitoral, que hoje indica vitória de Jair Bolsonaro no próximo domingo. Terá pouquíssimo efeito porque nada do que disse Jair Bolsonaro ao longo do tempo teve qualquer efeito para evitar que hoje ele seja o virtual próximo presidente do Brasil. Pelo contrário, tudo o que Bolsonaro disse e fez ao longo dos últimos vinte anos é que hoje o projeta para a vitória sobre Fernando Haddad. Não serão, então, os eleitores de Bolsonaro os que darão um freio a essas inclinações autoritárias. Esse freio terá que vir das instituições. De uma reação forte como a que já ensaiaram agora os ministros do STF. Algo que diga: “O senhor venceu as eleições democraticamente. Essa é a vontade do povo. Mas isso aqui é uma democracia. E os limites da democracia o senhor terá que respeitar”.

O que será preciso agora é compreender como se construiu o ambiente que tornou possível a vitória de Bolsonaro. Ainda que seja muito grave a denúncia da rede construída para a disseminação de fake news pelas redes sociais, especialmente pelo whatsapp, é mais um esforço ingênuo do PT e da oposição querer explicar tudo o que houve a partir simplesmente daí. Seria uma boa sinopse de filme B, mas Bolsonaro não é o produto de uma ardilosa trama de hipnose coletiva. Porque não bastaria disseminar mentiras. É necessária a existência de um ambiente favorável a acreditar nessas mentiras. Só vamos entender o que se deu em 2018 quando conseguirmos entender quais foram as verdades que produziram o campo fértil para a disseminação das tais mentiras. O certo é que a eleição de 2018 ficou marcada como a triste eleição da mentira. E a mentira foi ferramenta usada pelos dois lados.

Talvez uma das primeiras conclusões a que vamos chegar é que o ambiente virtual das redes sociais é mais do que propício não apenas para a propagação da mentira. Mas também para que a mentira se converta em verdade. Primeiro, é um mundo de relações falsas, artificiais. Ninguém ali é “amigo” de verdade. Ninguém ali cultiva relações de fato. Todo mundo se esconde por trás de avatares que cria de si mesmos. É todo mundo mais feliz, mais rico, mais forte, mais corajoso, mais confiante do que de verdade. E todo mundo vive numa bolha. Que exclui os que pensam de forma muito diferente. Uma bolha que vai se aprofundando no que tem de semelhante entre seus integrantes e no que tem de diferente dos habitantes das outras bolhas. Esse mundo virtual busca a sua perfeição ao excluir seus diferentes e depurar suas similitudes. Ao escolher seus ídolos, os torna perfeitos. Eles não falham, não erram. E há explicações para todos os seus feitos. Não por acaso, esses ídolos ultrapassam a dimensão humana. Um é “mito”. Outro é “ideia”.

O que torna hoje complicada a tentativa de desfazer o mito criado em torno de Bolsonaro é o fato de que o lado escolhido para contrapô-lo também construiu todo o seu perfil a partir de uma narrativa em boa parte dela falsa. Que começou a ser construída há mais de dez anos. Ao contrário do que muitos passaram a repetir como um mantra, o mensalão não foi “uma farsa”. José Dirceu nunca foi exatamente um “guerreiro do povo brasileiro”. É verdade que a corrupção na Petrobras não começou nos governos do PT. Mas é verdade também que ela não parou nos governos do PT; ao contrário, aumentou. O impeachment de Dilma Rousseff não foi um “golpe”. Foi uma ação parlamentar com diversos pontos questionáveis, mas toda tomada dentro das normas previstas na Constituição. Lula não é um “preso político”. Pode até estar condenado a partir de um processo com provas frágeis e, ainda que tenha havido motivação política por parte de alguns, ele é alguém condenado pelos juízes em todas as instâncias por que passou. Se está preso hoje, é por conta de uma interpretação do Supremo Tribunal Federal que possibilita a prisão após condenação em segunda instância que é anterior ao seu caso e tomada quando ainda era impossível prevê-lo. Se não pode ser candidato à Presidência, é por conta da Lei da Ficha Limpa, que teve como relator um deputado do PT (José Eduardo Cardozo) e que o próprio Lula sancionou como presidente.

Se boa parte das pessoas acredita ou diz acreditar em toda essa narrativa acima, não pode reclamar dos que acreditam ou dizem acreditar na narrativa falsa construída em torno de Jair Bolsonaro. Porque o “mito” e a “ideia” são construções distantes da realidade. E nada de muito concreto se quis fazer para evitar as suas ascensões.

Circula nas redes sociais um texto atribuído a um eleitor de Bolsonaro que é exemplar na explicação de como as pessoas constroem a partir de premissas falsas aquilo em que desejam acreditar. O autor do texto faz-se de consciente dos defeitos de seu candidato à Presidência para depois despejar uma série de ingenuidades:

“Bolsonaro, meu véio, você tem oportunidade de entrar para a história. A mesma que o Collor teve e jogou fora. A mesma que o Lula teve e desperdiçou. A chance de você fazer a mesma merda é gigante. Mas a gente fica aqui torcendo pro patriotismo, pro Brasil acima de tudo… A gente sabe que quando chega lá é foda, mas se lembra sempre que mais de 50% dos teus votos  te odeiam. Ao mesmo tempo estão loucos para estarem errados. Os primeiros 6 meses serão fundamentais para definir a tua história. Cuida primeiro da economia e da segurança. Deixa o aborto e o sexo dos anjos, dos gays, etc… pra depois. Isso não muda nada agora. Só traz os pentelhos pra rua. Depois você vira extrema direita, mas primeiro resolve o Brasil. Você tem o congresso na mão agora. O que você fizer agora é que vai definir. Dá uma porrada na cara em quem te chama desses “ismos” todos e governa para todos. A gente tá louco para trabalhar, investir, cair dentro, empreender, empregar, gastar, fazer… a gente não aguenta mais. Por isso mesmo estamos colocando, contra a nossa própria vontade, um maluco que nem você no planalto. Vai lá, maluco, e mostra que você é mito e não o ‘minto'”.

O primeiro problema do raciocínio é que se o eleitor está conscientemente colocando na Presidência “um maluco”, não poderá ficar surpreso depois se o ‘maluco” fizer maluquices. Se ele sabe que a chance de se “fazer a mesma merda é grande”, se isso acontecer, não vai poder fugir da responsabilidade. Segundo, se o candidato prestes a ganhar a Presidência é de extrema direita, não vai guardar essa característica e virar “extrema direita” mais tarde. Ao “torcer para dar certo”, ele tenta se afastar da responsabilidade que tem com sua escolha e os riscos de tal escolha dar errado.

O que fica claro é que o eleitor imagina dar uma chacoalhada radical em tudo o que lhe incomoda. Incomodado com o estado de coisas que não o deixa progredir, evoluir, que toma seu emprego, sua renda, fica irritado. Fica com raiva. Vota com raiva.

E constroi a partir do seu mundo virtual uma realidade paralela, um mundo de mentirinha no qual só enxerga a parte que quer enxergar. Onde não cabe nada do que não lhe interessa. Onde não tem lugar nada que não construa a narrativa que deseja para deixar sua cabeça em paz.

Acontece que o próximo presidente irá governar fora da bolha. O próximo presidente não governa nas redes sociais. Não governa nos mundos virtuais onde somos fortes, corajosos, felizes e decididos. Ele governa nesse mundo de verdade em que todos nós vivemos misturados. Para este mundo de verdade, nenhum dos lados do FlaXFlu se preparou. Ambos escolheram essa eleição plebiscitária, essa disputa polarizada. Ambos optaram por transformar os eleitores em torcedores. Acabado o jogo, recolhidas nossas bandeiras e anunciado o placar, quando voltarmos para casa, só vai nos restar dizer: “E agora?”