PT

Política

Datafolha é Maracanã em dia de FlaXFlu


Nenhum Comentário

Foto: Clauber Cleber Caetano/Agência Brasil-EBC

Quando o presidente Jair Bolsonaro adentrou o gramado do Maracanã para premiar os jogadores da Seleção Brasileira campeã da Copa América, metade do estádio o vaiou e outra metade o aplaudiu. Na fila para receber as medalhas, parte dos jogadores e o técnico da Seleção, Tite, demonstraram claro incômodo na proximidade com o presidente. Outros, porém, ficaram claramente orgulhosos, felizes, por estarem com Bolsonaro.

Um dia depois, o Instituto Datafolha espelhou em números precisos a sensação do domingo. O Brasil, assim como aconteceu com a torcida e com a delegação da Seleção Brasileira, divide-se exatamente entre os que amam Bolsonaro e os que odeiam. E outra parcela também do mesmo tamanho fica no meio entre as duas pontas, indiferente ou pelo menos distante dessas paixões exacerbadas. Quem andou nos últimos anos ouvindo as redes sociais falarem de “coxinhas”, “mortadelas” e “isentões”, é isso mesmo, levado à potência extrema.

Segundo o Datafolha, um terço dos brasileiros ama Bolsonaro. E certamente esse primeiro terço saiu daqueles que ao longo dos últimos anos foi classificado nas redes sociais como “coxinhas”. São o créme de la créme dos coxinhas. Outro terço odeia Bolsonaro. E sem dúvida essa parcela vem daqueles que as redes sociais andaram chamando de “mortadelas”. São a essência da mortadelice. E quem fica no meio é ainda aquela turma tida como “isentões”. Aqueles aos quais ou a política não apaixona tanto ou aqueles que entendem que não há assim tantos mocinhos e bandidos no mundo.

Ainda que a pesquisa Datafolha não tenha mostrado números muito diferentes da rodada anterior, ela impressiona por apresentar um país tão exatamente dividido entre as torcidas desse já bastante incômodo FlaXFlu político. É incrível que 33%  considere o governo ótimo ou bom e outros exatos 33% considerem o governo ruim ou péssimo. E que haja 31% que o considere regular. Ou seja: um país dividido em três partes exatamente iguais, uma vez que o percentual de 31% que fica no meio se iguala aos demais na margem de erro da pesquisa.

Para quem deseja um país menos convulsionado para que tenha a necessária tranquilidade para avançar, essa certamente não é uma boa notícia. A famosa cena do gramado da Esplanada na votação do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, que virou o cartaz do filme “Democracia em Vertigem”, continua dolorosamente atual. Somos aquele gramado dividido por um feio muro improvisado de metal verde, um terço de um lado, outro terço do outro. E outro terço em casa. De cada lado do muro, vamos ruminando nossos ódios para soltá-lo para o outro lado, como massa verde, ácida e gosmenta.

O quadro anima radicalismos. A Bolsonaro, demonstra que sua melhor estratégia é manter-se polarizado contra Lula e o PT. A Lula e ao PT, mostra que a melhor estatégia é igualmente radicalizar posições e polarizar-se contra Bolsonaro. E a outra parte isola-se, seja porque sempre se omite, seja porque não enxerga solução nos extremos, seja porque não encontra alternativa a esses extremos.

Talvez isso deságue nos próximos dias na votação da reforma da Previdência. Em vez da busca de consensos necessária na democracia, uma guerra entre extremos. O governo querendo atropelar uma reforma sem maiores discussões. A oposição tentando derrotá-la também sem apresentar soluções alternativas. Vitórias ou derrotas absolutas não é bem o jogo das democracias…

Política

O governo mais ideológico da história?


Nenhum Comentário

Foto: Valter Campanato/Agência Brasil-EBC

Talvez para todo o sempre – mas certamente até aqui -, o modelo que segue administrando nossa correlação de forças políticas ainda é o criado após o fim da ditadura de Getúlio Vargas em 1945. Naquele momento, e até o golpe militar de 1964, fomos regidos por um triunvirato formado por PSD, PTB e UDN. A UDN era o partido conservador, de direita, surgido com a ascensão da classe média urbana e de seus profissionais liberais. O PTB era o partido trabalhista, de esquerda, que unia sindicatos e movimentos de trabalhadores, braço do getulismo. E o PSD a grande conformação de centro, que unia os caciques regionais. Brilhantemente retratado no livro da cientista política Lucia Hippolyto – “PSD, de Raposas e Reformistas” -, era o partido que garantia a governabilidade, impedia maiores arroubos e mantinha a fórmula estável.

A ditadura militar acabou com os partidos pós-1945. Quando houve a redemocratização, surgiram novas legendas. Houve uma maior diluição, e a criação de partidos que não são absolutamente nada, não têm ideologia nenhuma e atuam como parasitas a sugar a seiva de quem quer que chegue ao poder. Mas, por trás dessa geleia, parece sobreviver o espírito do triunvirato PSB, PTB e UDN. A UDN está em todas essas conformações de direita. Não por acaso, num momento em que a direita ascende, há gente aí inclusive tentando ressuscitar a sigla. O PTB está no espírito trabalhista dos nossos principais partidos de esquerda. O PDT como herdeiro original, o PT tentando inicialmente fazer um contraponto ao antigo trabalhismo, para, na prática, não ser lá tão diferente.

Mas é principalmente o PSD que parece estar no cerne do espírito da busca da coalizão para a manutenção da governabilidade. E, aqui, não falamos necessariamente da coalizão distorcida. Da governabilidade mantida a partir do toma-lá-dá-cá, do fisiologismo, do “É dando que se recebe”. Mas da coalizão saudável. Da necessidade de concertação diante dessa multidão de partidos, numa sociedade multifacetada.

Até a eleição de Jânio Quadros, o PSD deu um jeito de manter a governabilidade apesar dos arroubos da direita extremada doida para dar um golpe. Quando Jânio se elegeu, imprevisível, o arranjo de concertação foi pro vinagre, e deu no que deu.

Não são poucos agora os que sentem um cheiro de Jânio no ar. Além do grau de imprevisibilidade parecido, soma-se agora a extrema casca ideológica do núcleo duro no poder. Possivelmente, temos hoje o governo mais ideológico da nossa história – incluídos aí os governos das ditaduras. O que tem feito bater na trave todas as tentativas de moderação vindas do centro. O resultado não poderia ser outro: instabilidade crônica.

Os episódios das demissões do general Santos Cruz da Secretaria de Governo e de Joaquim Levy da presidência do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) são fortes exemplos disso. Na campanha, Bolsonaro elegeu-se com o discurso da necessidade de retirar da vida das pessoas a influência ideológica. Afirma que isso acontece nas escolas, que é assim nas universidades, etc. Mas, na melhor das hipóteses, o presidente apenas trocou uma ideologia por outra. Na pior, e que está se mostrando mais provável, introduziu na nossa rotina uma ideologia forte como nunca antes se viu.

O fato de Joaquim Levy ter sido ministro da Fazenda de Dilma Rousseff é um exemplo claro de que ideias mais conservadoras podiam habitar no universo anterior. Essa, aliás, foi a grande crítica que então se fez a Levy e a Dilma: ela passou a campanha dizendo que não havia crise, e botou um cara para fazer o choque fiscal da maneira mais conservadora possível na economia. Levy não foi parar como um clandestino na equipe de Paulo Guedes. Levy sempre foi muito mais próximo ao pensamento de economistas como Guedes do que da turma da esquerda.

Mas Levy cai somente por causa dessa sua vinculação passada. Porque Bolsonaro sonhou com uma devassa nas contas do BNDES, que mostraria monstruosas irregularidades cometidas com o nosso dinheiro. Levy não entregou a tal devassa. Agora, veremos se não fez isso por alguma lealdade aos antigos patrões ou porque não encontrou mesmo nada de tão grave assim. Levy sai do governo elogiado por Rodrigo Maia e outras figuras do centro.

Já Santos Cruz era, junto com Hamilton Mourão, o retrato de uma moderação militar que ninguém esperava muito antes da eleição. Era ele quem evitava na Secretaria de Governo que imperasse uma relação radical, que elegesse a imprensa como inimiga, só falasse com blogs amigos e jogasse o equilíbrio às favas. Ou seja: uma radicalização a um grau extremo de algo que os governos petistas ensaiaram, principalmente nos seus últimos momentos: imprensa como inimiga e ajuda aos blogs amigos.

Assim como aconteceu com o imprevisível e bagunçado Jânio, o centro faz agora ensaios de afastamento. Ou de ser afastado, o que neste momento parece ser a leitura mais correta. Na manhã desta terça-feira, faziam na Câmara do Rio uma homenagem a Mourão, e Carlos Bolsonaro deixou a sessão em protesto.

Na época de Jânio, o afastamento do centro representado pelo PSD desequilibrou a fórmula e permitiu a ascensão dos radicais, de um lado e de outro. O que levou ao golpe militar e a ausência de democracia por vinte anos nas nossas vidas.

Deus queira que nada de parecido aconteça agora. Mas o Brasil certamente não são os 15% mais radicais que aplaudem os posts incompreensíveis de Carlos Bolsonaro ou que riem das piadas escatológicas de Olavo de Carvalho. Se é verdade que o país precisa das reformas estruturantes, como a da Previdência, a aprovação delas passa pelo centro. Pelo PSD diluído hoje no Congresso e comandado pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia. A fórmula que nos mantém estáveis permanece a mesma.

Política

Quem paga o pacto?


Nenhum Comentário

Foto: Marcos Corrêa/PR

Não tem nada mais velho nessa ideia de “nova política” do que essa história de pacto nacional pelo país. Por isso, com o perdão dos leitores, vai aí acima um título que também é velho e já foi usado bem mais de uma vez em algum veículo nestes últimos mais de 30 anos desde a redemocratização.

Bem lá atrás, no começo dessa história, José Sarney propôs o primeiro pacto. Herdava de forma trágica e inesperada a Presidência com a doença e morte de Tancredo Neves. Tinha a correta convicção de que não estava legitimado pela sociedade. Morria de medo de um retrocesso pelas mãos e botas ainda muito poderosas dos militares. Propôs, então, o que se chamou de “pacto social”. Para reforçar o pacto, adotou como slogan o “Tudo pelo social”. Ao qual o jornal humorístico Planeta Diário rapidamente acrescentou: “E nós pela entrada de serviço…”

O pacto durou enquanto Sarney foi popular com o Plano Cruzado. Degringolou quando a população percebeu que o Cruzado era uma farsa sustentada por um artificial congelamento de preços. Por conta da farsa, o PMDB, partido de Sarney, elegeu todos os governadores do país, com exceção de Sergipe, onde foi eleito João Alves, do PDS. Logo em seguida, os preços foram descongelados e dispararam rapidamente. A população revoltou-se. Em Brasília, quebrou tudo na Rodoviária no episódio que ficou conhecido como “Badernaço”. E lá se foi o pacto… Sarney enfrentou uma CPI da Corrupção, perdeu um ano de mandato na Constituinte, inventou o Centrão que até hoje nos visita para negociar rádios e outras benesses para evitar outras perdas, levou o país a uma hiperinflação sem precedentes. Terminou o mandato como um dos presidentes mais impopulares da história.

Itamar Franco também propôs seu pacto. O então líder do governo, Pedro Simon, batizou-o de “condomínio da governabilidade”. Talvez tenha sido o que mais sucesso obteve com esse entendimento. Havia uma compreensão tácita entre os partidos políticos de que tinham responsabilidade grande em fazer com que o governo Itamar desse certo. Afinal, tinham derrubado num processo de impeachment logo o primeiro presidente eleito democraticamente por voto direto depois da ditadura militar. Precisavam mostrar que tinham tão somente se valido de um instrumento constitucional para dar solução política a uma crise. O “condomínio” uniu-se a Itamar. Mesmo o PT  – que ajudou a derrubar Collor, mas preferiu ficar oficialmente de fora – fazia uma oposição branda.

Mas as urgências da disputa política também desmontaram o pacto. Inicialmente, Itamar cogitou lançar à Presidência na sua sucessão seu ministro da Previdência, o jornalista Antônio Britto, ex-porta-voz de Tancredo Neves. O hoje senador Tasso Jereissati (CE) costurava com o hoje presidiário Luiz Inácio Lula da Silva uma aliança entre o PSDB e o PT. Mas houve o Plano Real, e a sorte eleitoral e política mudou de lado. Lula, que então liderava todas as pesquisas para presidente, resolveu ficar contra o Real. O plano deu certo. Nunca mais houve hiperinflação no país. O país voltou a poder planejar sua vida financeira. O ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, que vinha de perder uma eleição para Jânio Quadros para prefeito de São Paulo e tivera dificuldades para se eleger senador, virou pule de dez na disputa presidencial e desbancou Lula. Iniciou-se aí a tola divisão entre coxinhas e petralhas que dominou o debate político e resultou na derrota de ambos com a vitória de Jair Bolsonaro.

Certamente, agora, Bolsonaro sentiu-se legitimado pelas manifestações de domingo. Que foram, sim, expressivas. Mas menores que os atos de protesto do dia 15 de maio pelos cortes na educação. Temos, portanto, uma população dividida. Mais, talvez, do que temer reações da sociedade quanto à manutenção dos velhos instrumentos da barganha ou outras palavras de ordem do tipo, o que pode ter movido os presidentes da Câmara, do Senado e do STF a aceitarem o tal pacto proposto foi o vislumbre de fogo alto no circo se os grupos organizados de um lado e de outro continuarem marchando nas ruas, num estranho e perigoso revesamento,  um em reação ao outro.

O que parece ter se acertado, portanto, é um pacto de não agressão. Bolsonaro para de criticar Rodrigo Maia. Que para de atiçar o Centrão para que coloque entraves ao governo nas votações no Congresso. José Antônio Dias Toffoli para, por sua vez, de colocar Alexandre de Moraes para perseguir inimigos e tentar censurar a imprensa. E segue-se, assim, o barco.

Aí, voltamos ao título surrado lá de cima, que já perguntava há mais de 30 anos quem perde quando se fazem esses entendimentos. Porque alguém sempre tem que ceder num pacto. E geralmente quem entra de candidato a ceder geralmente é a sociedade, que não participou dele. Quem entra, quem fica de fora na reforma da Previdência e outras reformas estruturantes que vierem a ser acertadas? O pacto suspende, arrefece ou ameniza as investigações de combate à corrupção? É “com o Supremo, com tudo”? Inclui, por exemplo, tirar o Coaf do Ministério da Justiça? O Coaf que investigou Fabrício Queiroz, o ex-assessor do senador Flávio Bolsonaro, filho do presidente?

Será algo à la João Gilberto? Será que a “voz do pacto” é “mesmo um desacato”?

Política

A oposição não foi aos atos do governo


Nenhum Comentário

Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil-EBC

Um dado curioso das manifestações de apoio ao governo Jair Bolsonaro no domingo foi a quase total ausência da oposição nos atos. Claro, ninguém está falando da presença física de opositores do governo nas ruas. Estamos falando dos alvos das manifestações. Com exceção de um pixuleco – o boneco do Lula presidiário – aqui ou ali, a turma gritou mesmo foi contra o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), o Centrão, o Supremo Tribunal Federal (STF) e a “mídia”.

Eis aí um ponto inusitado que une as hostes de Bolsonaro das do PT e de Lula. Eles podem pensar diferente em praticamente tudo, mas seus principais inimigos vão se tornando exatamente os mesmos.

Foi o Centrão de Rodrigo Maia, então sob o comando do ex-presidente da Câmara e agora presidiário Eduardo Cunha (MDB-RJ) que conduziu o processo de impeachment de Dilma Rousseff. Foi o Centrão de Maia e Cunha que tratou de inviabilizar completamente o segundo mandato de Dilma tornando o país ingovernável e criando as condições políticas para o seu afastamento. Foi o Supremo Tribunal Federal que conduziu primeiro o processo do Mensalão e depois os julgamentos provenientes da Lava Jato, esfarinhando o PT e condenando a sua cúpula à cadeia. O Supremo é instância máxima do Judiciário, que colocou e mantém na cadeia o ex-presidente Lula. E foi a “mídia”, a tal “mídia golpista” que distorceu fatos, criou versões com o propósito de desgastar o PT e tirar o partido do poder.

É o Centrão de Rodrigo Maia que agora cria dificuldades para que sejam aprovados os projetos de Jair Bolsonaro. É o Centrão de Rodrigo Maia que trata de inviabilizar o governo para achacá-lo, pressioná-lo e garantir a manutenção dos expedientes da “velha política”. O Supremo Tribunal Federal agora quer livrar da cadeia criminosos da Lava Jato. Mas ao mesmo tempo incentiva investigações contra o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) com o propósito de constranger e desgastar o governo de seu pai, o presidente Jair Bolsonaro. E a mídia – que parece, então, ser sempre golpista não importa quem seja o presidente – distorce fatos e inventa versões com o propósito de criar embaraços para o atual governo.

Ainda que a motivação para os atos de domingo tenha sido promover uma reação às manifestações de 15 de maio, quando a oposição levou gente às ruas para protestar contra os cortes na educação, é impressionante essa coincidência de inimigos. No domingo, somaram-se ao Centrão, ao STF e à mídia nos protestos importantes aliados de um passado recente que contribuíram para derrubar o PT e permitir a ascensão de Bolsonaro. O Movimento Brasil Livre (MBL) era o mais visível deles.

Nós já dizíamos aqui antes que as manifestações de apoio ao governo seriam expressivas. Bolsonaro conta com um grupo organizado e aguerrido, com forte capacidade de mobilização. Representa, porém, os 15% originais que deram a musculatura inicial para a sua candidatura. Sem a presença do MBL e outros grupos mais moderados, não estavam presentes de forma maciça as forças que aderiram depois a Bolsonaro quando perceberam nele a chance maior de tirar o PT do poder.

Boa parte desses grupos está no Centrão e em outras forças que o discurso dos bolsonaristas mais radicais afasta. Fica claro que Bolsonaro quer usar a opinião pública como instrumento de pressão sobre o Congresso para não sucumbir às ferramentas do velho toma-lá-dá-cá. Em princípio, essa poderia ser uma estratégia saudável. É uma constatação de muitos – não somente na direita – que foram os expedientes fisiológicos do nosso presidencialismo de coalizão que levaram o Brasil à crise que vive.

O problema é que as pesquisas mostram que Bolsonaro hoje não tem o apoio da maioria. E se ele ajuda com seus atos e discursos a prioritariamente afastar parte daqueles que nas eleições estiveram com ele, vai-se apoiando mais e mais numa minoria. Como dissemos antes,o risco que havia era, com as manifestações, a criação de um aval enganoso que corroborasse a radicalização ainda maior do discurso do governo.

Como as manifestações foram expressivas mas não tão grandes como o próprio governo esperava, esse risco talvez esteja agora afastado. O prudente seria tanto o governo como seus novos inimigos, especialmente o Centrão e o Congresso, avaliarem os atos de domingo exatamente pelo seu valor de face. Expressivos para mostrar que há uma parcela forte da população que rechaça qualquer tipo de esforço conjunto da elite política para parar as investigações sobre corrupção e que cansou das velhas práticas do fisiologismo. Mas não forte o suficiente para que o governo imagine que pode tudo e que vai atropelar Congresso e outras instituições para fazer valer o que deseja, sem negociação e sem diálogo.

Política

O capitão em seu labirinto


Nenhum Comentário

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil-EBC

A semana tem ares de decisiva para o governo do capitão presidente Jair Bolsonaro, por conta das manifestações de apoio que ele convocou para domingo. Mas é bom alertar que os impactos do que vier a acontecer no início da próxima semana poderão ser um pouco enganosos.

Depois da série de tsunamis da semana passada, Bolsonaro quer testar a sua popularidade. O texto que ele postou em que um economista dizia ser o Brasil ingovernável caso o governante não aceite sucumbir aos conchavos e barganhas que a classe política impõe parecia ter um tom meio de carta de renúncia à Jânio Quadros. A evocação de “forças terríveis” ou “ocultas” estava toda lá. Mas era, na verdade, mais um ataque à tal “velha política”.

Era de novo Bolsonaro falando aos seus que foi eleito para fazer um governo diferente. No fim da semana, o presidente tratou de turbinar ainda mais essa história, cometendo o exagero de se dizer alguém com uma missão divina. Publicou um vídeo de um pastor africano dizendo que ele é um “escolhido de Deus”. O governo tem quase seis meses e o presidente segue nas redes sociais construindo a ideia do “mito” da campanha.

O que se verifica como reação nas redes sociais é que os movimentos de Bolsonaro pareceram solidificar ainda mais a sua base de apoio original. E afastaram um pouco mais os grupos moderados que optaram pelo capitão nas eleições do ano passado quando enxergaram que ele era a escolha mais clara para derrotar um novo mandato do PT, que não queriam. Ou seja: Bolsonaro outra vez resolveu falar somente para os seus. Deu nova demonstração de que é com seu grupo original que ele se sente compromissado.

Estima-se que o grupo original mais radical que deu a musculatura inicial para a candidatura de Bolsonaro gire em torno de 15% da população. É a turma aguerrida que ganhou da sua oposição o apelido de bolsomínions. É essa turma que poderá ir às ruas no domingo caso a convocação feita por Bolsonaro der certo.

É aí que os números podem ser enganosos. Se Bolsonaro tiver a capacidade de arregimentar seu grupo mais próximo, esses 15% têm ainda o potencial de fazer manifestações expressivas nas ruas. Vão passar a impressão de que é massiva a popularidade do presidente. São grupos organizados, o que torna esse cenário possível.

Ocorre que são 15%. Portanto, são minoria mesmo dentro das forças que hoje estão mais próximas ao governo, que compõem a ala conservadora da sociedade. Há, por exemplo, hoje um claro descolamento da parcela mais liberal. A maior evidência disso está nas críticas que vêm sendo feitas pelo Movimento Brasil Livre (MBL).

Assim, um sucesso das manifestações de domingo poderá levar a um quadro enganoso de apoio popular. Que pode fazer Bolsonaro radicalizar ainda mais o seu discurso. Afastando ainda mais liberais, empresários, o Centrão, etc. Mantendo a crise. O outro cenário está na possibilidade de as manifestações serem um fracasso. Aí, Bolsonaro se verá realmente em apuros…

Política

O “patinho horroroso” enfrenta a procela


Nenhum Comentário

Foto: Antônio Cruz/Agência Brasil-EBC

Ao comentar a enxurrada de derrotas que o Congresso lhe impôs na quinta-feira (9), o presidente Jair Bolsonaro disse que poderia vir na semana que vem contra ele um “tsunami”. Não ficou claro se ele falava de forma genérica ou se de fato espera mesmo que alguma onda gigantesca lhe afogue. A verdade é que o que não falta é candidata a vaga a lhe atingir a proa.

Bolsonaro poderia estar se referindo à possibilidade de o plenário do Congresso confirmar a retirada do Conselho de Controle da Atividade Financeira (Coaf) do Ministério da Justiça ao votar a MP da Reforma Administrativa. Do fato de o juiz Sérgio Moro ter estabelecido como uma das condições para assumir o Ministério da Justiça justamente ter o controle do Coaf. Que a confirmação da ida do Coaf para o Ministério da Economia – somada aos demais reveses que Moro vem enfrentando – acabe levando o juiz da Lava Jato a deixar o governo.

Pode ser ainda que ele estivesse se referindo ao fato de, diante desse rolo todo, o Congresso não conseguir o ambiente necessário para votar a MP, e ela acabe caducando. O que demoliria a mudança administrativa toda. Nada de super Ministério da Economia. Nada de Cultura misturada com Esporte, etc.

Ou o tsunami a que ele se referia pode ser a possível derrubada do Decreto das Armas. Que chocou até mesmo a Bancada Evangélica tão próxima de Bolsonaro, avalista da ministra dos Direitos Humanos, Damares Alves. Decreto que permite que crianças treinem tiro. Que concede revólveres a jornalistas. Parecer encomendado pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), aponta inconstitucionalidades do decreto. O Supremo Tribunal Federal (STF) quer explicações.

Enfim, o mar onde Bolsonaro navega é de procela. O que não lhe falta são ondas gigantes. Ocorre, porém, que boa parte dessa confusão é responsabilidade dele mesmo. Ou dos candidatos a Netuno que ele carrega ao lado, agitando seus tridentes nas redes sociais. Especialmente o dublê de filósofo e astrólogo de Richmond Olavo de Carvalho e o filho 02, Carlos Bolsonaro, o popular Carluxo.

Na mesma fala em que previu tsunamis, Bolsonaro avaliou-se como um “patinho feio”, aliás, “horroroso”, que paga por estar tentando “mudar o país”. Diz que recebeu uma “missão de Deus” nesse sentido. Há certamente aí um esforço do presidente de buscar entre seus admiradores na sociedade o apoio de que necessita. Mostrando-o novamente como alguém que luta contra as velhas práticas da política. Por isso, ele acrescentou na fala que suas dificuldades decorrem de não aceitar fazer as indicações políticas que os partidos impõem. Uma resistência a sucumbir ao antigo toma-lá-dá-cá. Diz ainda Bolsonaro que as mudanças no país que ele implementa são “para todos”.

É aí, porém, que parece se dar a fábrica de ondas gigantes que vem engolindo o governo. Parece haver uma certa falta de compreensão de qual seja de fato o interesse desses “todos” a quem Bolsonaro destina as mudanças que tenta fazer. Seria natural que Bolsonaro excluísse desses “todos” as parcelas que fazem oposição ao seu governo. O problema é que não são elas que vêm produzindo as ondas e tsunamis. O governo hoje se afoga dentro da sua própria piscina.

Os votos contrários que imprimiram a enxurrada de derrotas do governo na comissão especial da Reforma Administrativa vieram do DEM, do PP, do MDB… De deputados que compõem o Centrão. Sozinhos, os partidos de esquerda não seriam capazes de produzir as derrotas. Bolsonaro deve ter razão ao argumentar que tais partidos querem tutelá-lo e voltar ao “dando que se recebe” com que se acostumaram. Mas não é somente aí que o problema do presidente reside.

Vale, no caso, repetir o que por aqui já se disse. Ao lançar sua candidatura, Bolsonaro contava com um grupo que lhe é mais fiel e sólido ideologicamente e que lhe garantiu cerca de 15% de apoio. Musculatura suficiente para que ele se apresentasse como o grande contraponto ao risco de retorno do PT ao poder. Foi essa característica que fez com que ele se tornasse, então, o opção do restante dos seus eleitores. Leitores que estão fora desses 15% originais. São os empresários liberais ligados ao ministro da Economia, Paulo Guedes, que já andou também levando uns cascudos de Carluxo. Os admiradores de Sérgio Moro e da Lava Jato. Os militares que se mostram mais sensatos e moderados do que se esperava inicialmente. Os evangélicos, como se vê agora com relação ao Decreto das Armas. Os políticos e partidos do Centrão.

Em entrevista recente, Rodrigo Maia avaliava como Bolsonaro é fiel a essa parcela original de 15% que deu o primeiro impulso à sua candidatura. Apontava isso mesmo como uma qualidade. Ocorre, porém, que essa parcela está longe de representar a maioria. Excluir quem lhe faz oposição é algo normal, e não comprometeria seu governo. Olhar, porém, somente para a agenda da minoria daqueles que nas eleições se colocaram ao seu lado é tornar perigosamente incerta a navegação. De tsunami em tsunami, alguma hora uma onda o engole.

Política

Em tempos radicais, os inimigos dormem ao lado


Nenhum Comentário

Antes da posse de Jair Bolsonaro, nem o vidente mais insano seria capaz de prever que o capitão reformado que passou toda a sua vida política a defender a ditadura militar viria a, depois de eleito, eleger justamente os militares de seu governo como adversários. Da mesma forma, nem o vidente louco iria projetar que seriam esses militares – com a sombra que certamente trariam da memória desses tempos de ditadura – as figuras mais sensatas e moderadas desse futuro governo.

Na terça-feira (8), Bolsonaro almoçou com a cúpula militar, e, de acordo com as informações que saíram depois do encontro, combinou-se jogar água fria na fervura para acabar com a brigalhada. Mas, nas redes sociais, militares já combinavam chamar os ataques do dublê de filósofo e astrólogo Olavo de Carvalho de “favelagem”. É óbvio que a troca de chumbo não vai parar. Mais do que isso, por mais que publicamente Jair Bolsonaro faça apelos em nome da trégua ou tente minimizar a potência dos ataques, a verdade é que a lógica de seu governo incentiva esse ambiente. Nunca é demais lembrar o que já dissemos: há método no golden shower.

Desde que a campanha de Jair Bolsonaro à Presidência ganhou musculatura, sua principal força motriz são as redes sociais. Como acontecera com Donald Trump nos Estados Unidos, Bolsonaro inaugurou no Brasil o momento em que o mundo virtual passou de fato a comandar a evolução política. E as redes sociais trouxeram para o ambiente político alguns novos aspectos que ainda não são compreendidos e precisam de maior análise. Um deles, porém, já ficou claro: o que impulsiona os movimentos nas redes sociais não é necessariamente a adesão da maioria da sociedade. Nas redes sociais, prevalecem os grupos mais aguerridos e organizados. Que não necessariamente representam a maioria, mas, sim, as parcelas mais radicais. Na disputa renhida e mal educada que se estabeleceu nos Facebooks da vida, os mais moderados – que, de fato, são a maioria – acabam saindo do debate. Boa parte nem entra na discussão. O restante para quando sobe o nível de agressão e quando a turma mais organizada entra em grupo para o ataque.

No caso de Bolsonaro, esse grupo mais radical garantiu-lhe a força inicial para se colocar como candidato competitivo. No total de brasileiros que o elegeram, essa turma representa em torno de 15%. À medida que Bolsonaro foi aparecendo para os demais como o antípoda do PT, outros grupos começaram a aderir a ele. Não por concordância com suas posições mais radicais. Mas porque enxergaram que ele é que ganhava mais força para derrotar o PT, que tais grupos já não mais queriam no comando do país. Esse grupo inicial mais radical de 15% parece bem próximo às ideias do filósofo de Richmond, Olavo de Carvalho. Aí estão os filhos 01,02 e 03 de Bolsonaro. E não estão os liberais ligados ao ministro da Economia, Paulo Guedes. Nem boa parte dos defensores da Operação Lava-Jato e do super-juiz e agora ministro da Justiça, Sérgio Moro. E, para surpresa de muitos, não está também a cúpula militar.

O que parece estar acontecendo é que, na estridência das redes sociais, os grupos que dominam o debate elegem como seus inimigos não seus opositores, mas os aliados que podem ameaçar a sua hegemonia no debate. A prudência e a moderação da cúpula militar ameaça o avanço das ideias mais radicais desses grupos. Que não enxergam o que, no caso, têm visto os militares: tais posições não têm apoio da maioria da sociedade, só têm amparo entre os radicais.

Em tempos autoritários, já se viu tal tipo de comportamento. Na União Soviética, o ditador Joseph Stálin não sossegou enquanto não prendeu e matou todos aqueles que estiveram ao lado de Lênin na revolução socialista, a começar por León Trotski. Quando radicalizou, Stálin começou a vê-los um por um como inimigos. Por aqui, o grupo mais radical jogou bombas em bancas de revista e tentou explodir o Riocentro para sabotar o processo de abertura política. O que as redes sociais parecem inaugurar é um tempo que proporciona aos radicais ferramentas para prosperar mesmo na democracia.

No fundo, isso não acontece somente no lado do governo. Durante a campanha, no lado do que virou oposição, o único movimento de sucesso foi o que desidratou as possibilidades de Ciro Gomes, no PDT, apresentar-se como alternativa de esquerda a Fernando Haddad, do PT, que entrou na disputa como desconfortável reserva de Luiz Inácio Lula da Silva, numa candidatura que obviamente, por essa natureza, iria perder a parada. Agora mesmo, boa parte do exército de esquerda nas redes sociais gasta mais tempo apontando contradições e atacando a deputado Tábata Amaral (PDT-SP) do que atacando o governo Bolsonaro, desde que ela começou a despontar.

Os tempos loucos das redes sociais dão, assim, sobrevida à polarização que marcou a campanha. E os dois lados dessa polarização seguem considerando ser mais importante manter essa radicalização acesa do que seguir à frente com o país. Por isso, elegem como inimigos os parceiros mais moderados. Seus inimigos dormem ao lado.