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Política

Distopia?


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Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil-EBC
Logo depois do resultado das eleições que consagraram nas urnas o capitão da reserva Jair Bolsonaro, o canal da Paramount exibiu o novo episódio de O Conto da Aia. No episódio, o comandante Waterford viaja  com sua mulher ao Canadá. Vai numa viagem diplomática tentar vender a sua terrível ideologia misógina, reacionária, radical religiosa ao vizinho do Norte que prossegue seu caminho democrático e de respeito às mulheres e demais minorias. Uma das mais belas cenas é o deslumbramento maravilhado de sua mulher, trancada dentro do carro, olhando admirada as pessoas vivendo normalmente suas vidas nas ruas, os casais se beijando. O mundo perdido, para o qual ela entende que não há retorno, apesar da chance que durante o episódio lhe aparece.
Alguns minutos antes do episódio, Bolsonaro aparecia vitorioso nos noticiários da televisão. Primeiro, destacando o desprezo pela imprensa tradicional e seu apreço pela comunicação direta com a população via redes sociais, ele tenta, como fizera no primeiro turno, um pronunciamento ao vivo pela internet gravado pela câmera de um telefone celular. Com o sinal ruim, a mensagem sai truncada, cortada em muitos momentos. Mas fica clara a delimitação de seu território. Critica a mídia, que o teria colocado em “situações vexatórias”. Diz que vai afastar o país do “caminho do comunismo” e do “extremismo de esquerda”.
Em seguida, diante do fracasso técnico da mensagem, ele retorna, agora numa transmissão tradicional pela TV. Fala um pouco, mas o principal protagonista agora é o senador Magno Malta (PR-ES), que puxa uma oração. Eleito democraticamente, para governar um Estado laico, com cidadãos de diversas religiões e alguns sem religião alguma. Mas agora é “Deus acima de todos”, como diz o slogan de sua campanha.
O episódio na sequência de O Conto da Aia parecia ser a continuação da mesma distopia. O discurso entrecortado na transmissão via internet. A oração de Magno Malta. Depois, nova comunicação para dizer que tinha recebido telefonema de Donald Trump, o estranho presidente norte-americano com seu cabelo dourado e pele de curioso tom alaranjado, também com suas críticas à imprensa feitas com seu biquinho avantajado.
Lá nos Estados Unidos, aqui no Brasil e em outros lugares onde se dá essa reação conservadora, o eleitor certamente deve ter suas razões e motivações para assim ter decidido. No caso brasileiro, elas certamente decorrem de um desencanto quanto à opção de esquerda tomada anteriormente. Há algo desse desencanto que provavelmente é natural. A democracia tende à alternância. Em algum momento um grupo no poder conhece um ponto de desgaste. O PT foi o partido que mais tempo governou o país na sua história republicana.
No caso, porém, há todo um enredo que reforça o tom de distopia. Porque nada nessa narrativa, de um lado e de outro, corresponde de fato à verdade. Tudo foi construído num tom exagerado, caricatural, tendendo ao absurdo. Ao pesadelo.
Desde que Lula chegou ao poder em 2002, o que se estabeleceu foi a construção de uma coalizão. Que liderada por um partido de esquerda, tendia ao centro pelo fato de ter ao seu lado aliados de direita. A começar pelo próprio vice-presidente de Lula, o empresário José Alencar. Lula manteve a mesma estrutura de formação de aliança dos governos anteriores. Ao contrário, aprofundou a lógica dessas alianças, cimentadas com a argamassa do fisiologismo que deu no mensalão e depois no petrolão. Pode-se dizer que a corrupção e o fisiologismo já existiam antes. Tanto que em 2002 Lula elegeu-se prometendo ao eleitorado que acabaria com essa corrupção. Ficou famoso o comercial dos ratos roendo a bandeira brasileira. Mas Lula não acabou com a corrupção. Aos olhos da população, justa ou injustamente, ao contrário, pareceu ampliar os esquemas. Ser punido por isso talvez seja justo. Mas onde os governos petistas representavam uma “ameaça comunista” que precisava ser varrida, é difícil, quase impossível, perceber.
O problema do enredo caricatural construído pelo grupo que agora chega ao poder é que ele é uma contraposição ao enredo igualmente caricatural construído pelos que foram derrotados. Porque, se não exercia um governo de esquerda, se não pretendera em momento algum estabelecer algum regime comunista, o fato é que no momento em que passou a construir o discurso da vitimização, quando seus principais líderes, a começar pelo próprio Lula, foram parar na cadeia, o PT começou a montar para si uma imagem de algo que, na verdade, não era. No discurso, o PT era vítima das elites. Que eram conservadoras e, por isso, não aceitavam a condução de esquerda que o partido dizia adotar.
O PT não adotou uma condução de esquerda. Adotou uma condução de coalizão com diversos partidos e segmentos da sociedade que era comandada por um partido de esquerda, com algumas alas tendendo mesmo à centro-esquerda, especialmente a própria ala que era liderada por Lula. Nessa condução, aprofundou conquistas sociais importantes, que promoveram a ascensão das camadas mais pobres da população. Mas o fato é que durante diversos anos as elites conservadoras permitiram ao PT essa construção. Como já se disse, nenhum outro partido governou o país por mais tempo na sua história republicana. São tão profundos os alicerces desses programas sociais que mesmo o governo declaradamente de direita que será instituído por Bolsonaro não pretende destruí-los. Ele afirma que manterá o Bolsa-Família, inclusive ampliando o benefício. Seu programa de governo chega a falar em “renda mínima”, diz que ninguém terá no país renda menor que a instituída pelo Bolsa-Família.
O grande problema a ser ultrapassado agora, após a eleição de Bolsonaro, é que boa parte da sociedade, a começar hoje pelos próprios protagonistas de um lado e de outro, optou por viver nos mundos que construíram para si. A vítima injustiçada de esquerda enfrenta o monstro reacionário de direita, numa versão. O paladino justiceiro de direita derrota o monstro comunista radical de esquerda, na outra.
Se os protagonistas na disputa, com a responsabilidade que têm, não recolherem agora esses óbvios discursos de campanha que convenceram e animaram suas torcidas, o mundo distópico vai se tornar realidade. Uma horda enlouquecida já se anima a caçar por aí inexistentes comunistas. Por não compreender exatamente o que isso significa, enxerga comunismo em tudo. Até no eventual uso de um filtro vermelho para iluminar monumentos públicos durante a campanha de conscientização contra o câncer de mama. Se sente autorizada a perseguir minorias. A extrapolar da violência.
Há um breve, porém, contra a distopia. Ela se chama Constituição. Um governo eleito pelas urnas precisa respeitar as regras e os limites do Estado Democrático de Direito. E as instituições que o formam devem saber defender sua autoridade e os limites do poder constituído. É nesse mundo onde não se pode tudo, nesse mundo em que minorias precisam ser respeitadas e impõem às maiorias os limites democráticos que o país precisa continuar vivendo. As distopias como a de O Conto da Aia precisam continuar sendo somente obras de ficção.
Política

O PT encolheu-se no primeiro turno. O que fará no segundo?


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Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil – EBC

Na construção das eleições deste ano, desde sempre Jair Bolsonaro, do PSL, escolheu o PT como seu adversário. Ele não saberia e provavelmente não teria tido o mesmo resultado se sua disputa não fosse com alguém do partido da estrela. E, no caminho contrário, o PT também desde sempre escolheu Bolsonaro como seu adversário. Assustou-se ao final quando viu o tamanho do antipetismo, mas seu adversário predileto sempre foi Bolsonaro. Da mesma forma, dificilmente também venceria um segundo turno contra algum candidato mais moderado.

Na verdade, Bolsonaro é, em grande parte, fruto das escolhas feitas pelo PT desde que começou a ser enredado pelos escândalos de corrupção e começou a construir a narrativa de que era tudo mentira e de que não passava de vítima das elites. Até o mensalão, o PT estava de braços dados com as elites. As elites aceitavam com disposição a ideia de fazer com os petistas um governo de coalizão. Henrique Meirelles saíra do Banco de Boston e de uma eleição como deputado federal pelo PSDB para virar presidente do Banco Central de Lula. Giselle Bündchen doava valiosos diamantes de sua coleção para o programa Fome Zero. Jorge Gerdau, Benjamin Steinbruk, Marisa Serrano (das Lojas Marisa) e Paulo Skaf estavam no Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social.

Logo depois do mensalão, o PT esboçou fazer uma autocrítica e uma correção de rumos. Expulsou Delúbio Soares dos seus quadros. Tirou José Dirceu da Casa Civil. Sob a presidência de Tarso Genro, ensaiava expulsar outros e fazer o que Genro chamava de “refundação”. Lula chegou a pedir “desculpas” à Nação. Mas, contido o escândalo, o presidente começou a recuperar sua popularidade. Confiante, reintegrou Delúbio, trouxe Dirceu de volta ao centro. A balada foi se aprofundando após o petrolão.

É verdade que fragilidades e abusos da Justiça e dos investigadores ajudaram na escolha do PT. Dilma fazia um governo desastroso que mergulhava o país numa crise sem precedentes. Mas os motivos para o seu impeachment sempre foram difusos e frágeis. E o arranjo matreiro final que cassou o seu mandato mas manteve os seus direitos políticos só piorou as coisas. A condenação de Lula por conta da história do apartamento do Guarujá é igualmente fraca. Embora haja elementos mais fortes em outras histórias, como a do Sítio de Atibaia, que ainda não foi julgada.

O problema, porém, é que na campanha deste ano o PT muitas vezes pareceu mais preocupado em reconstruir a narrativa, especialmente a narrativa de Lula, do que efetivamente em ganhar as eleições. Partiu para uma campanha que em muitos momentos foi de afronta às instituições. Instigou sua militância a ir às ruas contra o Judiciário, contra o Congresso, contra o Ministério Público, contra a imprensa. Em vez de personalizar eventuais posições politizadas de alguns, preferiu generalizar. Era um complô das instituições.

Todas as pesquisas de opinião desde o ano passado já mostravam que Lula tinha grande potencial eleitoral, produto da sua popularidade e carisma, especialmente no Nordeste. Mas tinha também rejeição alta. A reeleição de Dilma já tinha mostrado um país dividido. Assim, desde sempre ser novamente candidato era opção de alto risco. Risco ainda mais alto pela opção de construir sua candidatura como uma reação à “perseguição” que o partido dizia sofrer. Era, portanto, uma opção construída com raiva.

As denúncias de corrupção contra ele indicaram também já desde o ano passado que era muito grande a possibilidade de Lula não poder ser candidato, porque acabaria condenado. Indicava-se com muita clareza a necessidade de construção de uma alternativa. Ciro Gomes, do PDT, colocou-se sempre de forma clara como desejoso de se tornar essa alternativa. O PT desdenhou-o. Mais do que isso, trabalhou depois para esvaziar suas chances eleitorais, fazendo um acordo com o PSB, que agora é difícil saber se para o PT realmente valeu a pena.

Esboçou logo Fernando Haddad como uma de suas alternativas internas. Mas levou a definição para os 45 minutos do segundo tempo. Estabeleceu claramente, portanto, que Haddad era um reserva de Lula. Alguém sem luz própria. Alguém que seguiria as orientações do mestre preso.

Adotou-se, assim, uma estratégia extrema. Que muitos militantes do PT entenderam como revanchista. Se vencessem, reconstruíram as narrativas, enquadrando Judiciário, imprensa, inocentando seus líderes considerados culpados, Lula acima de todos. Algo que Ciro Gomes classificou em mais de um momento como um “baile à beira do precipício”.

Cada passo dado a caminho dessa radicalização, fortalecia mais Bolsonaro como a sua antítese. O PT parecia esquecer-se de algumas lições do estudo que fizera André Singer antes da eleição de 2002, e que serviu de bíblia para a construção do perfil “Lulinha Paz e Amor”. Mostrava Singer que o povo brasileiro, em sua maioria, é conservador. Dizia, além disso, que esse povo “não gosta de bagunça”. O discurso do PT afrontava instituições. Bolsonaro, por seu lado, falava em “ordem” e “autoridade”. Seus eleitores falavam também em “intervenção militar”. Que é golpe. E golpe é bagunça. Mas, ante os olhos conservadores, é como se fosse uma bagunça organizada, feita por quem tem a autoridade das armas. Mais tarde, o discurso evoluiu para o que chamaram de “intervenção pelo voto”. Ou seja: uma guinada conservadora pela via democrática. O que é algo perfeitamente dentro das regras.

Além disso, o resultado das urnas ao final deste primeiro turno indica de forma clara que o PT pode até ter o apoio de parte da população para retornar ao poder. Mas não tem para reconstruir como gostaria a narrativa que o inocenta. Toda vez que os institutos de pesquisa perguntaram, a maioria dos entrevistados disse apoiar a Lava Jato e a prisão de Lula. E a derrota de Dilma Rousseff para o Senado em Minas demonstra pouca disposição de avalizar a solução matreira dada no seu impeachment e trazê-la de volta à cena.

Agora, para crescer no segundo turno, precisará o PT refazer toda a sua estratégia. Precisará mostrar que é Bolsonaro quem a vida inteira declarou e demonstrou apreço a governos e soluções antidemocráticas. Mas seu enrosco está no fato de também ter flertado com a afronta às instituições. Precisará mostrar que a vitória eleitoral está acima da eventual reconstrução da sua narrativa. Que essa vitória não inclui planos revanchistas que poderão pegar mesmo alguns daqueles que tenta agora conquistar no segundo turno. Que não quer “tomar o poder”, como disse José Dirceu, mas exercê-lo em nome da sociedade. Terá, enfim, usando a expressão de Ciro Gomes, encontrar outro lugar para o seu baile, que não seja a beira do precipício.