PCdoB

Política

Ensaio sobre a cegueira


Nenhum Comentário

Foto: Valter Campanato/Agência Brasil – EBC

Paulo Delgado foi um dos primeiros deputados a ganhar destaque no PT. Um dos integrantes da bancada do partido na Constituinte, começou a se afastar ao final do primeiro governo Lula. Hoje, é um forte crítico de uma tendência da legenda do qual fez parte: uma certa cegueira crônica que faz o PT não enxergar os sinais das suas derrotas. Assim, o partido não aprende as lições que viriam desses resultados negativos. E não faz as autocríticas e revisões necessárias para seguir adiante. “Ao contrário, o PT tem mania de querer enxergar vitórias nas suas derrotas. É uma grave cegueira”, comenta ele.

Agora, o PT comemora o fato de ter eleito a maior bancada de deputados para a Câmara federal. E incensa Fernando Haddad como uma nova liderança surgida por seu desempenho na eleição que tornou Jair Bolsonaro o próximo presidente da República. Para a democracia brasileira, poderia ser um alento o PT ter eleito o maior número de deputados e obter sucesso em focos de resistência à onda que elegeu Bolsonaro. O problema é querer vender isso como uma vitória.

O PT entrou na disputa certo que a venceria. Mais do que isso: imaginava que ela serviria como julgamento político da sua era no poder. No cálculo petista, o que se daria era um plebiscito. Com a vitória, a sociedade daria ao ex-presidente Lula e a outros condenados e investigados petistas uma certa absolvição política, que arrefeceria a força das condenações na Justiça.

O PT perdeu as eleições presidenciais para Jair Bolsonaro. Especialmente porque se cristalizou no país uma fortíssima onda antipetista. Essa onda levou a maioria do eleitorado a escolher como presidente um radical de extrema direita, que se colocou como oposto do que o PT representava. Ou seja: além de vencer, Bolsonaro colou no PT um rótulo de extrema-esquerda que também está longe de figurar a realidade. Nesse sentido, parece mesmo ser um sintoma de cegueira querer enxergar vitória nisso.

Na sequência das eleições, os demais partidos do campo da esquerda conversam para formar blocos na Câmara e no Senado sem o PT. Impressiona a disposição e a velocidade como tais blocos estãos sendo montados. Até o PCdoB, da vice de Fernando Haddad, Manuela D’Ávila, alia-se ao bloco. Uma reação ao estilo de estratégia hegemonista que o PT sempre pretendeu sobre os demais partidos do seu campo. Se os dois blocos se formarem – e até agora, nada indica que isso não aconteça. Pelo contrário, as negociações seguem bem avançadas –, serão as duas maiores bancadas tanto na Câmara quanto no Senado. Com incrível força definidora. Tanto que o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ) já conversa com eles para garantir apoio à sua reeleição.

Por que esses partidos desejam formar um bloco sem o PT era algo sobre o qual deveria o PT refletir. Por que seus parceiros de anos querem agora caminhar sem os petistas. Que situações, especialmente as ocorridas nestas últimas eleições, levaram a esses sentimentos.

Mas, pelo que se vê de reação de militantes nas redes sociais, a sinalização não ensinou nada ao PT. Os militantes reclamam de Ciro Gomes, o principal artífice da formação dos dois blocos. O chamam de traidor. Apostam que os blocos não vão durar muito. Tentam vender a imagem do movimento como sendo de submissão ao novo governo eleito.

Independentemente do que se pense ou deixe de pensar sobre Ciro, os dois blocos já estão praticamente formalizados. E caso sejam mesmo grandes e com capacidade de definição nas negociações no Congresso, não há sentido em se pensar que vão se desfazer logo. Até porque há diversos partidos ali, como a Rede e o PCdoB, que terá de avançar na conversa em torno do bloco para uma conversa de fusão com outros partidos, por uma questão de sobrevivência em consequência da cláusula de barreira. Não é, portanto, uma questão somente de afinidade. É uma questão de necessidade. Que o PT também evita querer enxergar.

Ou seja: em vez de tentar se aproximar dos demais partidos que farão oposição ao governo Bolsonaro, o PT isola-se deles. Fica, portanto, mais solitário. Insiste na manutenção do discurso que o levou à derrota. Esse ensaio de cegueira vai cobrar seu preço. O mundo segue para quem quiser enxergar…

Joaquim Levy

Como explicar Joaquim Levy na presidência do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES)? Um governo que se vendeu como a chave para mudar “tudo isso que está aí, ok?” coloca na sua principal agência de desenvolvimento aquele que, como ministro da Fazenda da ex-presidente Dilma Rousseff, é apontado como responsável pela crise econômica que se abateu sobre o país. Aquele que estava à frente da equipe econômica que produziu as pedaladas fiscais, que levaram ao impeachment de Dilma e ao início da crise que produziu Bolsonaro. Esse governo parece ter nascido como Chacrinha: para confundir, não para explicar…

 

Política, Uncategorized

Lula e a sua anticandidatura


Nenhum Comentário

Foto: Rovena Rosa – Agência Brasil/EBC

A insistência de Lula na sua candidatura à Presidência da República – completamente impossível, do ponto de vista legal – parece ter alguma inspiração na anticandidatura de Ulysses Guimarães à Presidência, em 1974, em plena ditadura militar. As duas têm um tom de afronta, de protesto. Como Ulysses na ditadura, Lula parece querer, com sua insistência, dizer da mesma forma que a vontade popular não está expressa no pleito.Se as intenções parecem ser as mesmas, a realidade, porém, é muito diferente. Se Ulysses àquela altura sabia que as regras não permitiam de modo algum a vitória de alguém que fizesse oposição ao regime, o gesto agora de Lula pode ajudar a tirar o campo de esquerda de uma disputa eleitoral que, ao contrário da outra, se faz dentro das regras democráticas.

Em 1974, Ulysses valeu-se das regras da eleição indireta inventada pelo regime militar para escancarar que aquele era um jogo de cartas marcadas. Enquanto pessoas eram torturadas, mortas e desapareciam por confrontar o regime, os militares no poder declaravam à população que aquilo tudo se tratava de democracia. O ápice daquela caricatura de democracia era o Colégio Eleitoral, onde um corpo de pouco mais de uma centena de pessoas ia chancelar o nome que o alto comando militar já havia escolhido.

A democracia brasileira ainda pode ter muitos defeitos. E Lula até tem o direito de dizer que entre esses defeitos está o processo que o condenou e o conduziu à prisão na sede da Polícia Federal em Curitiba. E o PT pode repetir esse mantra à exaustão. Mas Lula e o PT não podem dizer que o atual sistema eleitoral brasileiro seja, como o de 1974, um jogo de cartas marcadas. A imprevisibilidade total da atual eleição é um exemplo contundente. Outro é o fato de tal sistema ter feito exatamente do PT o partido político que mais tempo exerceu o poder na história republicana brasileira. A não ser que o PT venha agora admitir que o establishment brasileiro permitiu a Lula se eleger e se reeleger e eleger e reeleger Dilma Rousseff, não há como dizer que a eleição brasileira seja um jogo de cartas marcadas.

Mas as eleições respeitam regras e impõem condições. Em 1974, Ulysses podia se candidatar, mas não podia se eleger. Ficava claro, então, que o jogo não era democrático. Agora, Lula não pode se candidatar. Porque sua candidatura não se enquadra nas regras de elegibilidade previstas em lei, aprovadas pelo Congresso. Lula foi condenado por um tribunal colegiado em segunda instância. Essa é uma condição de inelegibilidade prevista na Lei da Ficha Limpa. A Lei da Ficha Limpa foi democraticamente aprovada no Congresso, teve o declarado apoio à época do PT. Mais do que isso, seu relator na Câmara foi um deputado do PT, José Eduardo Cardozo (SP), depois ministro da Justiça de Dilma e seu advogado no processo de impeachment. E, para completar, foi sancionada pelo presidente da República à época. Que era ninguém menos que Luiz Inácio Lula da Silva, que agora, da prisão em Curitiba, a questiona.

Os movimentos do fim de semana lançam, assim, Lula, o PT, os demais partidos de esquerda e o país como um todo numa jogada de alto risco. O PT lançou Lula à Presidência mesmo sabendo que em outubro ele não será candidato. Sob os conselhos dados por Lula de Curitiba, trabalhou para anular ao máximo da lista de votação outras opções de esquerda. Não queria que, à luz dessa impossibilidade legal, os possíveis eleitores de Lula optassem por outro candidato. Assim, desvitaminou ao máximo a candidatura de Ciro Gomes, do PDT, trabalhando para que o PSB não o apoiasse e ficasse neutro. Parece ter negociado – embora isso não tenha sido anunciado na convenção, como se chegou a noticiar – que Manuela D’Ávila, do PCdoB, seja a sua candidata a vice-presidente, tirando-a também da disputa. Tenta colar a ideia de que Marina Silva, da Rede, deslocou-se ideologicamente para uma posição mais de centro.

Lula trabalha com pesquisas que mostram que quando se informa ao eleitor que o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad seria a sua escolha caso ele mesmo não possa concorrer, as intenções de voto em Haddad pulam de uma faixa de cerca de 3% para cerca de 11%. É nisso que ele e o PT se fiam, na sua capacidade de transferência de votos. Mas 11% talvez não seja suficiente para garantir Haddad no segundo turno, se os números que ele pode alcançar são esses mesmos.

Depois de seus dois mandatos como presidente, quando não pode se candidatar, Lula escolheu para seu lugar também uma desconhecida, Dilma Rousseff. Mas fez o oposto do que está fazendo agora. Dilma foi lançada como candidata mais de um ano antes das eleições. Como presidente, Lula criou uma intensa agenda de inaugurações e eventos, no qual apresentava Dilma ao povo como a “mãe do PAC”, o conjunto de obras do Programa de Aceleração do Crescimento. A população passou, então, a chamar Dilma não de “mãe do PAC”, mas de “a mulher do Lula”. E foi assim que ela venceu.

Desta vez, Lula está preso. Não poderá ele mesmo levar ninguém a lugar algum. Se a substituição fosse agora, seria já pouco mais de um mês para apresentar Haddad como seu substituto. Mas, ao contrário, Lula quer esticar ao máximo essa passagem de bastão. A não ser que Lula seja o maior gênio da política de todos os tempos e consiga reverter o que ele mesmo parecia achar lógico quando escolheu Dilma sua substituta. quanto mais tarde Haddad for apresentado como substituto mais difícil será apresentá-lo como a alternativa, pelo óbvio de que haverá menos tempo para essa tarefa.

Em vez da anticandidatura de Ulysses, Lula talvez devesse ter se mirado em outro momento e outro personagem do combate à ditadura: Tancredo Neves. Nos estertores da ditadura, quando percebeu que o regime se esfacelava, Tancredo lançou-se outra vez como candidato nas regras tortas de eleição da época. E trabalhou para vencer dentro daquelas regras, reconduzindo o país à democracia. Haddad ou outro nome poderiam ter sido já apresentados como o Tancredo a representar o PT dentro das regras da atual eleição. Pode-se questionar os argumentos da condenação de Lula. Mas não se pode questionar que ele está condenado, dentro das regras legais. Ao contrário de 1974, não é a regra que se questiona. Agora, é Lula quem está fora da regra.