Operação Mãos Limpas

Política

O jornalismo e as torcidas


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Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil-EBC

Para muitos, a década de 1990 marcou o melhor momento do jornalismo político brasileiro. Dois episódios destacaram o trabalho de repórteres a partir de Brasília e mudaram os rumos do poder e da política do país. O primeiro foi o caso PC Farias, que levou ao impeachment do então presidente Fernando Collor. O segundo foi o escândalo dos anões do Orçamento, que obrigou o Congresso Nacional a sair de seu corporativismo cortando na própria carne, cassando e punindo deputados e senadores.

Os dois episódios caracterizam-se pelo total protagonismo da imprensa. Os fatos foram desvendados e detalhados pelos jornalistas. E foi a partir das informações impressas em jornais e revistas que vieram depois os desdobramentos em Comissões Parlamentares de Inquérito, em investigações na Polícia Federal e no Ministério Público e em eventuais ações na Justiça.

Uma mudança significativa ocorrida com o fortalecimento do Ministério Público e da Polícia Federal e com o enfraquecimento da imprensa a partir da atual crise do jornalismo é que esse protagonismo inverteu-se. Hoje, na maioria das vezes, os repórteres têm somente publicado o resultado das apurações e investigações que são feitas por procuradores e policiais que, a partir de uma relação de confiança, lhes vazam o conteúdo.

O caso da Vaza Jato, como se batizou a série de reportagens que vem sendo publicada pelo site The Intercept e outros veículos, trouxe mais uma novidade nesse relacionamento. Conteúdos obtidos a partir da ação de hackers nas redes de relacionamento que hoje todos nós temos na internet. É, evidentemente, uma novidade, não um ponto fora da curva. Basta lembrar, por exemplo, que os relatos da união de um jornalista veterano com uma jovem hacker são o mote de uma das mais celebradas séries de bestsellers do momento, a saga sueca Millenium.

Qualquer que seja, porém, o caminho, seja maior ou menor o protagonismo do trabalho do repórter, em todas as situações há sempre a discussão sobre os limites éticos e legais que envolvem o cada vez mais necessário exercício do jornalismo. E, não se engane: quanto mais questionado e criticado por autoridades, quanto mais ódio gerar entre as torcidas, mais necessário vai se tornar o jornalismo de qualidade. E, em linhas gerais, a primeira coisa a nortear esses limites será o interesse público. Se tais informações são de interesse público, elas devem ser publicadas.

No caso que envolve diretamente agora o site The Intercept e o jornalista GlennSe Greenwald, é justamente a manutenção da lamentável guerra de torcidas que outra vez vai empanando a compreensão do que é a função e o trabalho dos jornalistas. Na relação entre jornalistas e fontes e na discussão sobre quais seriam os limites da relação dos repórteres com as suas fontes para a obtenção das informações que consideram de interesse público, a discussão não deveria ser contaminada pela paixão das torcidas do nosso FlaXFlu político. Não é justo questionar determinadas relações e relativizar outras.

Uma das últimas reportagens publicadas pelo Intercept a partir do material da Vaza Jato trata justamente da relação entre jornalistas e os procuradores da força-tarefa da Lava Jato. A reportagem questiona essa relação, e afirma que jornalistas, no acerto com suas fontes, poderiam ter ultrapassado limites éticos. É fato que a Lava Jato procurou desde o início cercar-se de jornalistas numa estratégia de fazer com que suas investigações ganhassem mais notoriedade. Dez anos antes da investigação começar, o juiz Sergio Moro, hoje ministro da Justiça, já destacava a importância dessa parceria em um famoso artigo da sua autoria onde analisa as razões do sucesso da Operação Mãos Limpas na Itália.

Mas é justamente a possível ultrapassagem de limites na relação com as fontes que fez com que o procurador Wellington Oliveira considerasse poder apresentar denúncia contra Greenwald. Da mesma forma, foi a partir da obtenção de conversas do hacker Luiz Molição com Greenwald que ele chegou a essa conclusão. Nas conversas, Molição negocia a publicação das informações que obtivera e pergunta a Greenwald se ele deveria apagar as mensagens para não deixar rastros. O procurador entendeu que o jornalista dava orientações de procedimento aos hackers, o que caracterizaria o seu envolvimento.

A reação de autoridades e outros à denúncia contra Greenwald é mais do que correta. Acendeu-se um sinal mais do que amarelo de ameaça no caso à liberdade de imprensa. Porém, da mesma forma, nada parece indicar muito claramente que os jornalistas que tinham relação com os procuradores da Lava Jato da mesma forma tenham avançado além dos seus limites legais e éticos. Nos dois casos, as conversas parecem fazer parte do tipo de negociação comum que há entre jornalistas e fontes antes da publicação de matérias. Em um ou outro caso, para se concluir acerca de limites ultrapassados ou não, é preciso que as avaliações não se contaminem pelas paixões.

Em 1917,o senador americano Hiran Warren Johnson disse que, “numa guerra, a primeira vítima é a verdade”. Na atual guerra de torcidas que virou o debate político brasileiro, perderemos todos nós se a vítima se tornar a verdade.

Política

Moro e a fogueira das vaidades


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Foto: Walter Campanato – Agência Brasil/EBC

O filme Patton – Rebelde ou Herói? é um dos mais vigorosos ensaios já feitos sobre a vaidade humana. Já nas suas primeiras cenas, o general George Smith Patton aparece todo empavonado, envergando uniforme que ele mesmo desenhou, à frente de uma imensa bandeira estática dos Estados Unidos. Maravilhosamente interpretado por George C. Scott, ele capricha no uso de frases fortes, recheadas de palavrões. Como: “Nenhum filho da puta venceu uma guerra morrendo pelo seu país. Venceu fazendo o outro filho da puta morrer pelo país dele”. Enquanto fala, a câmera dá closes em partes da sua exagerada vestimenta: as medalhas enormes e espalhafatosas, o capacete, o revólver com cabo de madrepérola. O filme segue mostrando o personagem controverso e as diversas vezes durante a Segunda Guerra Mundial em que ele é traído pelo seu ego gigantesco.

Primeiro, quando resolve apostar corrida com o general britânico Bernard Montgomery durante a invasão da Sicília para ver quem chegava primeira à cidade de Messina, ponto fundamental para a tomada da Itália. Depois, em nova carreira desta vez contra os soviéticos para entrar primeiro em Berlim e dar fim à guerra da Europa. Na primeira disputa particular com Montgomery, que vence, Patton submete suas tropas a imensas dificuldades nas batalhas nas montanhas. Ao visitar uma enfermaria repleta de soldados feridos, esbofeteia e chama de “covarde” um soldado em surto, com estresse pós-traumático. Na segunda corrida com os soviéticos, que perde, insulta o comandante as tropas do país aliado.

Apesar de ter entrado para a história como brilhante estrategista militar, Patton paga nos dois episódios o preço da sua vaidade. A agressão ao soldado lhe rende um período na geladeira. Por isso, acaba tendo somente papel secundário na Operação Overlord, do desembarque na Normandia, o Dia D, e chega mesmo a fazer somente marketing de guerra em palestras para senhoras na Inglaterra. Ao final da guerra na Europa, com as agressões aos soviéticos, é forçado à aposentadoria, sem participar, como pretendia, da Guerra do Pacífico contra os japoneses. Patton era um profundo estudioso da história militar. Assim, o filme termina com ele passeando com seu cachorro bull terrier enquanto uma narração em off lembra o costume dos antigos generais romanos nos desfiles que faziam em triunfo depois de suas vitórias. Atrás do comandante, postava-se durante o desfile um escravo ou soldado que durante todo o percurso sussurrava no seu ouvido que “as glórias são efêmeras”.

Como mostra o diretor Franklin J. Shaffner nesse filme magistral, a vaidade pode ser o maior inimigo da glória. No Brasil dos nossos tempos, recomenda-se o filme ao juiz Sérgio Moro. Ao aceitar tornar-se ministro da Justiça do futuro governo Jair Bolsonaro, Moro corre o risco de ultrapassar esse ponto no qual a vaidade se torna o maior inimigo da glória.

É impressionante como Moro pauta de forma absoluta sua trajetória pela experiência da Operação Mãos Limpas, na Itália, que ele gosta de tratar pelo termo original em italiano, Mani Pulite. O célebre artigo escrito por ele ainda em 2004 sobre a Operação Mãos Limpas já foi tema deste colunista algumas vezes. Impressiona pelo tom premonitório do que ele usaria depois na Operação Lava-Jato: as delações premiadas; os vazamentos para a imprensa como forma de pressionar as investigações com a ajuda da opinião pública; as táticas para colocar um implicado contra o outro, etc.

Agora, ao aceitar o convite de Bolsonaro para assumir o Ministério da Justiça, novamente Moro inspira-se na Operação Mãos Limpas. No caso, encarna o juiz Giovanni Falcone. Falcone comandou a Mãos Limpas e desbaratou a Cosa Nostra, a máfia siciliana. Foi o responsável pela delação do mafioso Tommaso Buscetta, uma das principais testemunhas da famosa operação italiana. Depois, Falcone aceitou assumir o cargo de diretor de Assuntos Penais no Ministério da Justiça italiano, como forma de consolidar uma política anticorrupção.

O problema é que, como diz o próprio Moro em seu artigo de 2004, a Operação Mãos Limpas não foi perfeita. Na Itália, o vácuo de poder deixado pelo desmantelamento dos antigos partidos tradicionais que sucumbiram com a investigação foi ocupado pelo empresário Sergio Berlusconi. Que, depois, acaba sendo ele mesmo investigado por corrupção. “Tendo ou não Berlusconi alguma responsabilidade criminal, não deixa de ser um paradoxo que ele tenha atingido tal posição na Itália mesmo após a operação mani pulite”, admite Sérgio Moro em seu artigo.

Por mais semelhanças que haja, a história nunca se repete do mesmo jeito. Ainda que não seja referência para o grupo que daqui a dois meses estará no poder, Karl Marx dizia que a história se repete “como farsa ou como tragédia”. Como Falcone, Moro acredita que, no Ministério da Justiça, possa estabelecer uma estrutura no Executivo e um arcabouço de normas aprovadas pelo Legislativo que torne irreversível o combate à corrupção. Antes mesmo de assumir, já começa a articular no Congresso esse pacote de medidas.

O primeiro problema para Moro é escapar da ideia da motivação política das suas ações como juiz na Lava-Jato quando aceita se tornar ministro daquele que foi o beneficiário dessas ações. Moro considera que seus adversários já lhe impunham essa pecha. Portanto, na sua avaliação, vale o risco. Num caminho que claramente visa o gabinete principal do terceiro andar do Palácio do Planalto. Bolsonaro tem dito que não disputará a reeleição. Se isso for verdade, Moro já vislumbra o posto daqui a quatro anos.

Virá daí seu segundo problema: como se desvencilhar caso o governo Bolsonaro não atinja a expectativa que criou e fracasse. Como reconhece Moro, na Itália não houve exatamente o desejado fim da corrupção política. Lá, Falcone acabou não assistindo a esse fracasso. Foi assassinado em 1992, ao lado de sua mulher, a procuradora Francesca Morvillo. O carro em que viajavam explodiu na estrada, numa operação orquestrada pela própria máfia siciliana. Os tempos brasileiros não parecem tão violentos, e dificilmente tal destino se repetiria por aqui. Se não se repetirá como tragédia, o tempo dirá como se dará por aqui o futuro de Sérgio Moro.