Olavo de Carvalho

Política

Os riscos da guerra total


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Reprodução/Vídeo

O vídeo estilo Rei Leão que o presidente Jair Bolsonaro nos impingiu durante um tempo e do qual depois se arrependeu é um veemente sincericídio. O presidente, com a ajuda dos seus assessores, aqueles a quem, em entrevista ao site Congresso em Foco, o ex-ministro Gustavo Bebianno chama com todas as letras de “loucos”, se coloca ali contra tudo e contra todos. Não adianta a essa altura ter se arrependido depois. Até porque, antes do seu arrependimento, seu assessor Filipe Martins já havia ratificado seu conteúdo. Ficou claro que aquilo é o que de fato pensa Bolsonaro e aqueles que o assessoram.

O vídeo demonstra que Bolsonaro hoje se sente atacado por todas as instituições brasileiras. Contra ele está o Judiciário, representado pelo Supremo Tribunal Federal. Está o Legislativo, a partir de diversos partidos – até o mesmo o seu próprio, o PSL. Está a imprensa, a partir dos seus principais veículos. Está a sociedade civil organizada, em grupamentos como o Movimento Brasil Livre (MBL) ou organizações classistas como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Bolsonaro só tem a seu favor um tal difuso “brasileiro patriota”.

Não sei se os “loucos”, como chama Bebianno, se inserem ou não nessa onda, mas já se estuda o surgimento pelo mundo de um certo anarquismo de direita. A tal nova onda, ao explicitar individualismos, coloca contra si todas as organizações da sociedade. E é daí que muitos passam a acreditar em tenebrosas conspirações, como a que envolveria toda a comunidade científica em torno de negar que a terra é plana, por exemplo. Enfim, um mundo delirante. Que fica perigoso se alguém com tais ideias chega ao poder. Espera-se que não seja o nosso caso…

O fato, porém, é que o vídeo Rei Leão de Bolsonaro é a mais explícita afirmação da existência dessa disposição contra a ordem institucional. De um sentimento, por parte de Bolsonaro e do grupo que o cerca, de isolamento e de perseguição. Que Bebianno, na entrevista, enxerga que possa desaguar mesmo futuramente em alguma tentativa de golpe.

Mas é justamente nesse ponto que qualquer arroubo golpista agora de Bolsonaro será completamente diferente da construção que se deu no golpe militar de 1964, que ele tanto venera e elogia. Em 1964, as instituições se uniram para depor João Goulart. Os militares tiveram o apoio da imprensa, do Congresso, de parte do Judiciário, de parte da sociedade civil organizada, para tomarem o poder. Se oposição dessas instituições houve, foi depois, diante da constatação de que a devolução prometida do poder não se daria e que a ditadura se consolidaria, como se consolidou, por vinte anos.

Se há por parte de Bolsonaro e de seus “loucos” – de novo, usando o termo de Bebianno – alguma estratégia, ela parece partir para uma opção de guerra total. Olavo de Carvalho e seus discípulos parecem ter percebido que a alternativa conservadora tomada não apenas aqui mas em diversos países da América do Sul por alguma razão se esfarinha. A Argentina optou por voltar para o peronismo. A Bolívia elegeu Evo Morales em primeiro turno – é preciso se verificar se com fraude ou não. O Equador protesta. O Chile nem se fala.

Seria, assim, necessária, na cabeça deles,  alguma reação. O problema é estabelecer uma reação contra tudo. Que elege todas as instituições como inimigas. Mesmo junto ao comando militar, Bolsonaro comprou diversas brigas. Reduziu o tamanho da participação de praticamente todos os seus generais. Mantém mudo o seu porta-voz, general Rego Barros. Difícil saber se contaria com a instituição Forças Armadas caso embarcasse em tal aventura. Fica, assim, com ele somente o tal “brasileiro patriota”.

E contra, as instituições. E esse é o risco da guerra total. Qual o tamanho do apoio de que dispõe Bolsonaro na sociedade? O que ele quer quando declara guerra ao Supremo? Aos demais governadores, como Wilson Witzel, do Rio? E, citando novamente Witzel e João Dória, de São Paulo, às demais forças do campo conservador? Ao seu próprio partido e aos demais? Aos movimentos sociais, incluindo aqueles que o elegeram, como o MBL? Ao final dessa guerra, sobrará o quê de pé?

O tamanho da briga comprada fica claro no desenrolar dos últimos acontecimentos. Bolsonaro foi citado pelo porteiro do seu prédio na investigação do assassinato de Marielle. Isso é fato. E, sabido, precisa ser noticiado. Mas Bolsonaro só aumentou o fogo da sua artilharia contra a TV Globo. E contra Witzel, que acusa de ter orientado tal menção aos investigadores. Aos investigadores, que teriam incitado o humilde porteiro. Menção que levará o caso ao Supremo, que ele retratou como hiena no tal vídeo.

O risco de declarar guerra contra todo mundo é se todo mundo aceitar a declaração de guerra…

Política

O governo mais ideológico da história?


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Foto: Valter Campanato/Agência Brasil-EBC

Talvez para todo o sempre – mas certamente até aqui -, o modelo que segue administrando nossa correlação de forças políticas ainda é o criado após o fim da ditadura de Getúlio Vargas em 1945. Naquele momento, e até o golpe militar de 1964, fomos regidos por um triunvirato formado por PSD, PTB e UDN. A UDN era o partido conservador, de direita, surgido com a ascensão da classe média urbana e de seus profissionais liberais. O PTB era o partido trabalhista, de esquerda, que unia sindicatos e movimentos de trabalhadores, braço do getulismo. E o PSD a grande conformação de centro, que unia os caciques regionais. Brilhantemente retratado no livro da cientista política Lucia Hippolyto – “PSD, de Raposas e Reformistas” -, era o partido que garantia a governabilidade, impedia maiores arroubos e mantinha a fórmula estável.

A ditadura militar acabou com os partidos pós-1945. Quando houve a redemocratização, surgiram novas legendas. Houve uma maior diluição, e a criação de partidos que não são absolutamente nada, não têm ideologia nenhuma e atuam como parasitas a sugar a seiva de quem quer que chegue ao poder. Mas, por trás dessa geleia, parece sobreviver o espírito do triunvirato PSB, PTB e UDN. A UDN está em todas essas conformações de direita. Não por acaso, num momento em que a direita ascende, há gente aí inclusive tentando ressuscitar a sigla. O PTB está no espírito trabalhista dos nossos principais partidos de esquerda. O PDT como herdeiro original, o PT tentando inicialmente fazer um contraponto ao antigo trabalhismo, para, na prática, não ser lá tão diferente.

Mas é principalmente o PSD que parece estar no cerne do espírito da busca da coalizão para a manutenção da governabilidade. E, aqui, não falamos necessariamente da coalizão distorcida. Da governabilidade mantida a partir do toma-lá-dá-cá, do fisiologismo, do “É dando que se recebe”. Mas da coalizão saudável. Da necessidade de concertação diante dessa multidão de partidos, numa sociedade multifacetada.

Até a eleição de Jânio Quadros, o PSD deu um jeito de manter a governabilidade apesar dos arroubos da direita extremada doida para dar um golpe. Quando Jânio se elegeu, imprevisível, o arranjo de concertação foi pro vinagre, e deu no que deu.

Não são poucos agora os que sentem um cheiro de Jânio no ar. Além do grau de imprevisibilidade parecido, soma-se agora a extrema casca ideológica do núcleo duro no poder. Possivelmente, temos hoje o governo mais ideológico da nossa história – incluídos aí os governos das ditaduras. O que tem feito bater na trave todas as tentativas de moderação vindas do centro. O resultado não poderia ser outro: instabilidade crônica.

Os episódios das demissões do general Santos Cruz da Secretaria de Governo e de Joaquim Levy da presidência do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) são fortes exemplos disso. Na campanha, Bolsonaro elegeu-se com o discurso da necessidade de retirar da vida das pessoas a influência ideológica. Afirma que isso acontece nas escolas, que é assim nas universidades, etc. Mas, na melhor das hipóteses, o presidente apenas trocou uma ideologia por outra. Na pior, e que está se mostrando mais provável, introduziu na nossa rotina uma ideologia forte como nunca antes se viu.

O fato de Joaquim Levy ter sido ministro da Fazenda de Dilma Rousseff é um exemplo claro de que ideias mais conservadoras podiam habitar no universo anterior. Essa, aliás, foi a grande crítica que então se fez a Levy e a Dilma: ela passou a campanha dizendo que não havia crise, e botou um cara para fazer o choque fiscal da maneira mais conservadora possível na economia. Levy não foi parar como um clandestino na equipe de Paulo Guedes. Levy sempre foi muito mais próximo ao pensamento de economistas como Guedes do que da turma da esquerda.

Mas Levy cai somente por causa dessa sua vinculação passada. Porque Bolsonaro sonhou com uma devassa nas contas do BNDES, que mostraria monstruosas irregularidades cometidas com o nosso dinheiro. Levy não entregou a tal devassa. Agora, veremos se não fez isso por alguma lealdade aos antigos patrões ou porque não encontrou mesmo nada de tão grave assim. Levy sai do governo elogiado por Rodrigo Maia e outras figuras do centro.

Já Santos Cruz era, junto com Hamilton Mourão, o retrato de uma moderação militar que ninguém esperava muito antes da eleição. Era ele quem evitava na Secretaria de Governo que imperasse uma relação radical, que elegesse a imprensa como inimiga, só falasse com blogs amigos e jogasse o equilíbrio às favas. Ou seja: uma radicalização a um grau extremo de algo que os governos petistas ensaiaram, principalmente nos seus últimos momentos: imprensa como inimiga e ajuda aos blogs amigos.

Assim como aconteceu com o imprevisível e bagunçado Jânio, o centro faz agora ensaios de afastamento. Ou de ser afastado, o que neste momento parece ser a leitura mais correta. Na manhã desta terça-feira, faziam na Câmara do Rio uma homenagem a Mourão, e Carlos Bolsonaro deixou a sessão em protesto.

Na época de Jânio, o afastamento do centro representado pelo PSD desequilibrou a fórmula e permitiu a ascensão dos radicais, de um lado e de outro. O que levou ao golpe militar e a ausência de democracia por vinte anos nas nossas vidas.

Deus queira que nada de parecido aconteça agora. Mas o Brasil certamente não são os 15% mais radicais que aplaudem os posts incompreensíveis de Carlos Bolsonaro ou que riem das piadas escatológicas de Olavo de Carvalho. Se é verdade que o país precisa das reformas estruturantes, como a da Previdência, a aprovação delas passa pelo centro. Pelo PSD diluído hoje no Congresso e comandado pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia. A fórmula que nos mantém estáveis permanece a mesma.

Política

Balbúrdia nas estradas


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Tem razão o presidente da Comissão Especial da Reforma da Previdência, deputado Marcelo Ramos (PL-AM), quando diz que o presidente Jair Bolsonaro não parece ter noção de prioridade. A reforma, que o governo declara ser sua prioridade, avança aos trancos e barrancos no Congresso. Eis que, quando parece ter se vislumbrando um ambiente de maior entendimento depois da aprovação pelo Senado da Medida Provisória do combate às fraudes do Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS), Bolsonaro resolve atravessar a Praça dos Três Poderes para pessoalmente entregar no Parlamento, todo pimpão e orgulhoso, um projeto de lei que afrouxa o Código de Trânsito.

Em que medida isso é um ponto importante da sua agenda política? Desde quando passar a mão na cabeça de motoristas que cometam infração no trânsito se insere em um projeto de governo declaradamente de direita? Dar permissão para que alguém permaneça mais tempo fora da lei desde quando é um posicionamento conservador?

Fazer paralelos entre flexibilizar a condução de veículos e flexibilizar a posse e o uso de armas de fogo é um absurdo sem qualquer sentido, independentemente do que se ache de uma coisa ou outra. A turma na faixa dos 50 anos ou mais certamente vai se lembrar da Campanha de Segurança nas Estradas, instituída na década de 1970. No auge da ditadura militar, que Bolsonaro tanto louva e admira, a campanha é o embrião de todo o projeto seguinte que civilizou o trânsito de automóveis no país.

É na Campanha de Segurança nas Estradas, concebida e gerada pelo regime militar, que nasce o que viria a ser mais tarde o Código de Trânsito que Bolsonaro agora flexibiliza. Campanha que tinha como um dos seus slogans memoráveis: “Não faça do seu carro uma arma. A vítima pode ser você”. A mensagem era clara. O automóvel é um meio de transporte que, por pesar toneladas e ser veloz, pode se transformar em uma arma letal se for mal conduzido. Ocorre que essa arma é conduzida de dentro dela. Ou seja: quem faz do seu carro uma arma, além de distorcer o sentido do seu uso, se comporta como um piloto kamikaze, colocando em risco a sua vida e a vida das pessoas que ama. Além de errado, é burrice.

Quem refletir sobre qual seria o perfil de alguém conservador, de direita, certamente vai imaginar um cidadão disciplinado, rigoroso cumpridor das regras e das leis. É para defender a Constituição e as regras que definem o seu país no seu extremo que as corporações militares essencialmente existem. O marechal Eurico Gaspar Dutra, um presidente militar do passado – daqueles que, como Bolsonaro, foram democraticamente eleitos – fazia do cumprimento estrito da Constituição o pilar único do seu mandato. Costumava dizer: “Se está no livrinho (como ele chamava a Carta), eu faço”. Por isso, soa tão estranho Bolsonaro se orgulhar tanto de propor um projeto de lei cuja base é passar a mão na cabeça de motoristas que descumprirem as regras de trânsito.

É que Bolsonaro – assim como seu guru do estrangeiro, Olavo de Carvalho – parece pertencer a uma estranha geração de pessoas que se dizem de direita. Uma certa direita anárquica. Com o perdão do ministro da Educação, Abraham Weintraub, parece ser o seu chefe quem gosta de balbúrdia. Há diversos momentos na vida de Bolsonaro em que ele parece se comportar como alguém que só respeita as leis e as regras de que ele gosta. Com as quais se identifica. As outras, ele desobedece solenemente.

A própria história da saída de Bolsonaro do Exército está inserida assim. Capitão do Exército, Bolsonaro primeiro escreveu um artigo para a revista Veja, no qual reclamava dos baixos salários pagos aos militares. A reivindicação podia até ser justa, mas afrontava a regra de que militares da ativa não devem fazer manifestações políticas públicas. Ele mesmo reconhecia no texto o risco de transgredir tal regra: “Corro o risco de ver minha carreira de devoto militar seriamente ameaçada, mas a imposição da crise e da falta de perspectivas que enfrentamos é maior”, dizia. Na sequência, de fato, foi preso por “transgressão grave”, por ter “ferido a ética, gerando clima de inquietação na corporação militar”.

Em seguida, a própria revista Veja revelou em reportagem que Bolsonaro e outro militar, Fábio Passos, tinham um plano de explodir bombas em unidades militares e em pontos do Rio de Janeiro para pressionar o comando. A ideia era que não houvesse vítimas: só se provocasse algum susto, para demonstrar a insatisfação que havia com relação aos baixos salários. Houve uma investigação, e Bolsonaro acabou no final inocentado pelo Superior Tribunal Militar (STM), porque as investigações não foram conclusivas. Pelo artigo inicial, porém, Bolsonaro ficou 15 dias preso. No mesmo ano, 1988, deixou o Exército.

Naqueles anos de início de redemocratização, embora fosse militar, Bolsonaro era um dos alvos da arapongagem do Serviço Nacional de Informações (SNI), que ainda existia. Documentos entregues por um ex-araponga à Comissão de Direitos Humanos da Câmara revelaram, entre outras coisas, que vigiar cada passo de Bolsonaro foi a primeira missão recebida por ele no Exército. Numa conversa no ano passado, durante a campanha presidencial, um general da cúpula do Exército me disse que havia grande resistência inicial ao nome de Bolsonaro como candidato justamente porque ele, como militar, nunca demonstrou muito apreço pela disciplina e pela hierarquia, comportando-se muito mais como um líder sindical da corporação.

Mais recentemente, quando era deputado federal, Bolsonaro foi flagrado pescando em uma área de proteção ambiental perto de Angra dos Reis e foi multado. Em dezembro do ano passado, quando já estava eleito presidente, a multa foi anulada. Em março, o servidor do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) que multou Bolsonaro foi exonerado sem maiores explicações.

São situações que parecem agregar à personalidade do presidente um certo gosto pela transgressão, quando eventualmente a regra o incomoda. Quem tem a caneta presidencial certamente tem muito mais poder para varrer do mapa legal toda regra que incomoda. Mas esse pode ser um comportamento bem perigoso. Como dizia o tio do Homem Aranha, um senhor que, a julgar pelos quadrinhos, em nada parecia ser de esquerda, “com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”.

Política

O “patinho horroroso” enfrenta a procela


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Foto: Antônio Cruz/Agência Brasil-EBC

Ao comentar a enxurrada de derrotas que o Congresso lhe impôs na quinta-feira (9), o presidente Jair Bolsonaro disse que poderia vir na semana que vem contra ele um “tsunami”. Não ficou claro se ele falava de forma genérica ou se de fato espera mesmo que alguma onda gigantesca lhe afogue. A verdade é que o que não falta é candidata a vaga a lhe atingir a proa.

Bolsonaro poderia estar se referindo à possibilidade de o plenário do Congresso confirmar a retirada do Conselho de Controle da Atividade Financeira (Coaf) do Ministério da Justiça ao votar a MP da Reforma Administrativa. Do fato de o juiz Sérgio Moro ter estabelecido como uma das condições para assumir o Ministério da Justiça justamente ter o controle do Coaf. Que a confirmação da ida do Coaf para o Ministério da Economia – somada aos demais reveses que Moro vem enfrentando – acabe levando o juiz da Lava Jato a deixar o governo.

Pode ser ainda que ele estivesse se referindo ao fato de, diante desse rolo todo, o Congresso não conseguir o ambiente necessário para votar a MP, e ela acabe caducando. O que demoliria a mudança administrativa toda. Nada de super Ministério da Economia. Nada de Cultura misturada com Esporte, etc.

Ou o tsunami a que ele se referia pode ser a possível derrubada do Decreto das Armas. Que chocou até mesmo a Bancada Evangélica tão próxima de Bolsonaro, avalista da ministra dos Direitos Humanos, Damares Alves. Decreto que permite que crianças treinem tiro. Que concede revólveres a jornalistas. Parecer encomendado pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), aponta inconstitucionalidades do decreto. O Supremo Tribunal Federal (STF) quer explicações.

Enfim, o mar onde Bolsonaro navega é de procela. O que não lhe falta são ondas gigantes. Ocorre, porém, que boa parte dessa confusão é responsabilidade dele mesmo. Ou dos candidatos a Netuno que ele carrega ao lado, agitando seus tridentes nas redes sociais. Especialmente o dublê de filósofo e astrólogo de Richmond Olavo de Carvalho e o filho 02, Carlos Bolsonaro, o popular Carluxo.

Na mesma fala em que previu tsunamis, Bolsonaro avaliou-se como um “patinho feio”, aliás, “horroroso”, que paga por estar tentando “mudar o país”. Diz que recebeu uma “missão de Deus” nesse sentido. Há certamente aí um esforço do presidente de buscar entre seus admiradores na sociedade o apoio de que necessita. Mostrando-o novamente como alguém que luta contra as velhas práticas da política. Por isso, ele acrescentou na fala que suas dificuldades decorrem de não aceitar fazer as indicações políticas que os partidos impõem. Uma resistência a sucumbir ao antigo toma-lá-dá-cá. Diz ainda Bolsonaro que as mudanças no país que ele implementa são “para todos”.

É aí, porém, que parece se dar a fábrica de ondas gigantes que vem engolindo o governo. Parece haver uma certa falta de compreensão de qual seja de fato o interesse desses “todos” a quem Bolsonaro destina as mudanças que tenta fazer. Seria natural que Bolsonaro excluísse desses “todos” as parcelas que fazem oposição ao seu governo. O problema é que não são elas que vêm produzindo as ondas e tsunamis. O governo hoje se afoga dentro da sua própria piscina.

Os votos contrários que imprimiram a enxurrada de derrotas do governo na comissão especial da Reforma Administrativa vieram do DEM, do PP, do MDB… De deputados que compõem o Centrão. Sozinhos, os partidos de esquerda não seriam capazes de produzir as derrotas. Bolsonaro deve ter razão ao argumentar que tais partidos querem tutelá-lo e voltar ao “dando que se recebe” com que se acostumaram. Mas não é somente aí que o problema do presidente reside.

Vale, no caso, repetir o que por aqui já se disse. Ao lançar sua candidatura, Bolsonaro contava com um grupo que lhe é mais fiel e sólido ideologicamente e que lhe garantiu cerca de 15% de apoio. Musculatura suficiente para que ele se apresentasse como o grande contraponto ao risco de retorno do PT ao poder. Foi essa característica que fez com que ele se tornasse, então, o opção do restante dos seus eleitores. Leitores que estão fora desses 15% originais. São os empresários liberais ligados ao ministro da Economia, Paulo Guedes, que já andou também levando uns cascudos de Carluxo. Os admiradores de Sérgio Moro e da Lava Jato. Os militares que se mostram mais sensatos e moderados do que se esperava inicialmente. Os evangélicos, como se vê agora com relação ao Decreto das Armas. Os políticos e partidos do Centrão.

Em entrevista recente, Rodrigo Maia avaliava como Bolsonaro é fiel a essa parcela original de 15% que deu o primeiro impulso à sua candidatura. Apontava isso mesmo como uma qualidade. Ocorre, porém, que essa parcela está longe de representar a maioria. Excluir quem lhe faz oposição é algo normal, e não comprometeria seu governo. Olhar, porém, somente para a agenda da minoria daqueles que nas eleições se colocaram ao seu lado é tornar perigosamente incerta a navegação. De tsunami em tsunami, alguma hora uma onda o engole.

Política

Em tempos radicais, os inimigos dormem ao lado


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Antes da posse de Jair Bolsonaro, nem o vidente mais insano seria capaz de prever que o capitão reformado que passou toda a sua vida política a defender a ditadura militar viria a, depois de eleito, eleger justamente os militares de seu governo como adversários. Da mesma forma, nem o vidente louco iria projetar que seriam esses militares – com a sombra que certamente trariam da memória desses tempos de ditadura – as figuras mais sensatas e moderadas desse futuro governo.

Na terça-feira (8), Bolsonaro almoçou com a cúpula militar, e, de acordo com as informações que saíram depois do encontro, combinou-se jogar água fria na fervura para acabar com a brigalhada. Mas, nas redes sociais, militares já combinavam chamar os ataques do dublê de filósofo e astrólogo Olavo de Carvalho de “favelagem”. É óbvio que a troca de chumbo não vai parar. Mais do que isso, por mais que publicamente Jair Bolsonaro faça apelos em nome da trégua ou tente minimizar a potência dos ataques, a verdade é que a lógica de seu governo incentiva esse ambiente. Nunca é demais lembrar o que já dissemos: há método no golden shower.

Desde que a campanha de Jair Bolsonaro à Presidência ganhou musculatura, sua principal força motriz são as redes sociais. Como acontecera com Donald Trump nos Estados Unidos, Bolsonaro inaugurou no Brasil o momento em que o mundo virtual passou de fato a comandar a evolução política. E as redes sociais trouxeram para o ambiente político alguns novos aspectos que ainda não são compreendidos e precisam de maior análise. Um deles, porém, já ficou claro: o que impulsiona os movimentos nas redes sociais não é necessariamente a adesão da maioria da sociedade. Nas redes sociais, prevalecem os grupos mais aguerridos e organizados. Que não necessariamente representam a maioria, mas, sim, as parcelas mais radicais. Na disputa renhida e mal educada que se estabeleceu nos Facebooks da vida, os mais moderados – que, de fato, são a maioria – acabam saindo do debate. Boa parte nem entra na discussão. O restante para quando sobe o nível de agressão e quando a turma mais organizada entra em grupo para o ataque.

No caso de Bolsonaro, esse grupo mais radical garantiu-lhe a força inicial para se colocar como candidato competitivo. No total de brasileiros que o elegeram, essa turma representa em torno de 15%. À medida que Bolsonaro foi aparecendo para os demais como o antípoda do PT, outros grupos começaram a aderir a ele. Não por concordância com suas posições mais radicais. Mas porque enxergaram que ele é que ganhava mais força para derrotar o PT, que tais grupos já não mais queriam no comando do país. Esse grupo inicial mais radical de 15% parece bem próximo às ideias do filósofo de Richmond, Olavo de Carvalho. Aí estão os filhos 01,02 e 03 de Bolsonaro. E não estão os liberais ligados ao ministro da Economia, Paulo Guedes. Nem boa parte dos defensores da Operação Lava-Jato e do super-juiz e agora ministro da Justiça, Sérgio Moro. E, para surpresa de muitos, não está também a cúpula militar.

O que parece estar acontecendo é que, na estridência das redes sociais, os grupos que dominam o debate elegem como seus inimigos não seus opositores, mas os aliados que podem ameaçar a sua hegemonia no debate. A prudência e a moderação da cúpula militar ameaça o avanço das ideias mais radicais desses grupos. Que não enxergam o que, no caso, têm visto os militares: tais posições não têm apoio da maioria da sociedade, só têm amparo entre os radicais.

Em tempos autoritários, já se viu tal tipo de comportamento. Na União Soviética, o ditador Joseph Stálin não sossegou enquanto não prendeu e matou todos aqueles que estiveram ao lado de Lênin na revolução socialista, a começar por León Trotski. Quando radicalizou, Stálin começou a vê-los um por um como inimigos. Por aqui, o grupo mais radical jogou bombas em bancas de revista e tentou explodir o Riocentro para sabotar o processo de abertura política. O que as redes sociais parecem inaugurar é um tempo que proporciona aos radicais ferramentas para prosperar mesmo na democracia.

No fundo, isso não acontece somente no lado do governo. Durante a campanha, no lado do que virou oposição, o único movimento de sucesso foi o que desidratou as possibilidades de Ciro Gomes, no PDT, apresentar-se como alternativa de esquerda a Fernando Haddad, do PT, que entrou na disputa como desconfortável reserva de Luiz Inácio Lula da Silva, numa candidatura que obviamente, por essa natureza, iria perder a parada. Agora mesmo, boa parte do exército de esquerda nas redes sociais gasta mais tempo apontando contradições e atacando a deputado Tábata Amaral (PDT-SP) do que atacando o governo Bolsonaro, desde que ela começou a despontar.

Os tempos loucos das redes sociais dão, assim, sobrevida à polarização que marcou a campanha. E os dois lados dessa polarização seguem considerando ser mais importante manter essa radicalização acesa do que seguir à frente com o país. Por isso, elegem como inimigos os parceiros mais moderados. Seus inimigos dormem ao lado.

Política

Carluxo só sabe ser oposição


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Embora já tenha demonstrado diversas vezes que se trata de um fator de crise permanente, o presidente Jair Bolsonaro não vai “demitir”seu filho Carluxo do comando das suas redes sociais. Como escrevi antes por aqui, “há método no Golden Shower“. Carlos Bolsonaro é uma espécie de Grilo Falante ao contrário de Jair Bolsonaro. Se na fábula infantil o bichinho servia de consciência ao boneco de pau Pinóquio, cochichando no seu ouvido palavras de moderação, Carluxo berra radicalismo nas orelhas do pai presidente. Ele diz tudo o que o pai gostaria de dizer mas que, em função do cargo, não pode assumir.

O vídeo de Olavo de Carvalho criticando o vice-presidente Hamilton Mourão, o pivô da nova crise, não foi a primeira postagem a aparecer e depois ser retirada dos perfis de Jair Bolsonaro nas redes. Isso tem acontecido rotineiramente. Foi assim, por exemplo, no tal vídeo do ator que lia texto defendendo a ditadura militar. A postagem entra, provoca seus efeitos, depois sai como se fosse um engano. Mas os filhos de Bolsonaro – especialmente Carlos, e um pouco menos Eduardo. Flávio é o que menos entra nessa trama, embora tenha sugerido à turma do Hamas que se explodissem – seguem depois mantendo a tensão.

Fica claro que o papel de Carlos Bolsonaro é botar fogo no circo. Depois, o presidente sai de debaixo da lona a tempo e os dois ficam contemplando o incêndio. É uma experiência meio maluca, fruto desses novos tempos de comunicação via redes sociais que ainda desafia o entendimento dos analistas políticos. Nas redes sociais, a ideia de diálogo e concertação de ideias que sempre marcou as democracias é substituída por uma guerra. Ninguém quer convencer ninguém. Quer apenas derrotar os adversários, seguir em frente e deixar os corpos vencidos pelo caminho.

É um tipo de estratégia que funcionou muito bem para fazer Bolsonaro chegar com grande sucesso à Presidência da República. Da mesma forma como fizera com Donald Trump nos Estados Unidos. Nesse ambiente de guerra, permite a vitória não exatamente daqueles que tenham os exércitos maiores. Mas de quem tenha os exércitos mais organizados para a guerra virtual.

No caso de Bolsonaro, ele obteve assim os 15% mais radicais que são as tropas bolsonaristas mais fieis. Uma tropa que teve papel importantíssimo para dar ao presidente a musculatura inicial que o colocou de forma competitiva na campanha. Ao longo do tempo, para além disso, a candidatura foi se ampliando pela forma como colou como antípoda do petismo. Quando se consolidou na maioria do eleitorado o desejo de por fim à era do PT no poder, os demais eleitores além do bloco inicial consolidado de 15% de bolsonaristas aderiram ao projeto. E venceram a guerra.

O problema é que, vencida a guerra, é preciso construir tempos de paz. E é aí que o modelo de Carluxo não se encaixa. Ele não sabe viver em tempos de paz. Ao derrotar os inimigos da campanha, vai colecionando novos inimigos. Cola, então, no presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), que devia ser o avalista no Congresso das reformas estruturantes, a pecha de “velha política”. Enxerga em Gustavo Bebianno, que comandou o partido de Bolsonaro na campanha, o “vazador” de notícias para a velha imprensa. Enxerga nessa velha imprensa, cujos proprietários alinham-se inteiramente com a necessidade das reformas e com o pensamento liberal, “um bando de esquerdopatas comunistas”. E vê Hamilton Mourão como um inimigo que quer tomar do pai o poder. Escolhe Olavo de Carvalho como aliado, alguém que tem exatamente como especialidade tocar fogo nos circos. Nem no Brasil vive para não sofrer as consequências dos incêndios que provoca.

Parece mais do que evidente para qualquer grupo sensato que, vencida a guerra, Bolsonaro precisaria ampliar-se do seu grupo original de 15%. E os aliados óbvios seriam os grupos conservadores no Congresso – como o DEM de Rodrigo Maia -, os setores liberais da sociedade – do qual fazem parte os proprietários dos meios de comunicação -, e os militares – meio com o qual Bolsonaro, embora fora do Exército há mais de vinte anos, sempre procurou se identificar.

Não deixa de ser verdade o argumento, que parece definir o comportamento de Carlos e que Jair Bolsonaro endossa, de que esses grupos sempre pretenderam tutelar o atual governo. Especialmente os militares e os partidos conservadores tradicionais, como o DEM. Enxergam, sim, em Bolsonaro, uma janela de oportunidade. O presidente coloca seu filho Carluxo para resistir a isso a seu modo nas redes sociais. Provocando, porém, um estado de crise desnecessária. Que transforma os tempos que deveriam ser de paz em novos tempos de guerra.

No entanto, não há qualquer sinal – a não ser de quem cultive alucinações paranoicas – de que tais grupos tenham a intenção de apear Bolsonaro do poder para assumir em seu lugar. Parece mais claro um desejo de ascender pegando carona no fenômeno para colher os frutos mais tarde, nas disputas eleitorais do futuro.

Se Mourão preparou-se para, como vice, exercer um papel mais moderado do que o figurino que envergava antes como militar, palmas pra ele. Compreendeu como deve se comportar em tempos de paz. Talvez pudesse mesmo ser mais discreto. Mas isso deveria significar aceitar as excentricidades, para dizer o mínimo, de certas declarações e comportamentos do governo?

Se o Congresso e os partidos tradicionais mais conservadores querem colher frutos de uma aproximação com o governo, também não é algo que devesse surpreender. Mesmo que ninguém aconselhe Bolsonaro a ser fisiológico e aceitar o toma-lá-dá-cá, é natural que o DEM e outros partidos queiram exercer poder de influência que sirva como cacife para voos eleitorais mais tarde. E se o governo precisa desse apoio para aprovar seus projetos no Congresso, precisa saber aceitar isso. Mais adiante, com o sucesso dos projetos, que dispute o papel de protagonista. Quem quer aprovar emenda constitucional tem de estar preparado para fazer esse jogo.

Vencida a guerra, em tempos de paz, o vencedor precisa se ampliar sobre os derrotados. Não pode imaginar que eliminará da face da Terra todos os demais e reduzir o Brasil aos seus 15% mais fieis. É onde esbarra a estratégia de Carlos Bolsonaro. Carluxo não sabe ser governo. Só sabe ser oposição.