Nicolás Maduro

Política

O barril de pólvora venezuelano mora ao lado


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Foto: Antonio Cruz-EBC/Agência Brasil

Na reunião na terça-feira, 30, em que o governo avaliou a situação da Venezuela, o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, levou informações colhidas com o secretário de Estado dos Estados Unidos, Mike Pompeo, que davam conta de que Juan Guaidó poderia sair vitorioso da rebelião que plantava no país. O vice-presidente Hamilton Mourão, o ministro da Defesa, general Fernando Azevedo, e o chefe do Gabinete de Segurança Institucional, general Augusto Heleno, ficaram mais reticentes. E a posição de prudência dos três militares acabou prevalecendo. Guaidó não derrubou Nicolás Maduro. A crise na Venezuela prossegue. Pode descambar para uma guerra civil, mas não há qualquer indício que aponte de forma clara qual dos lados sairá vitorioso.

A diferença entre as posições de Araújo e dos ministros militares é mais um dos vários episódios a mostrar maior equilíbrio e prudência da ala militar. Araújo – e provavelmente não era muito diferente a posição de Mike Pompeo – mais torcia do que avaliava cenários. Os militares traziam a impressão que colheram ouvindo seus próprios colegas das Forças Armadas venezuelanas. Especialmente Mourão, que foi adido militar na Venezuela por dois anos e ainda tem contatos por lá. Mourão tinha informações de que o apoio a Guaidó dentro das Forças Armadas venezuelanas era pequeno, e que ele não teria suporte para sustentar a rebelião que pregava. Talvez não conseguisse também arregimentar apoio popular na proporção necessária para tomar o poder.

Mourão conhece as características do barril de pólvora venezuelano. Sabe que o país está cindido ao meio desde que Hugo Chávez ascendeu ao poder. Ali já havia uma clara divisão. Desde então, a crise instalou-se no país e não houve mais momento de paz. Sabe também das dificuldades de uma rebelião popular mais sólida em um país com grande concentração populacional nas grandes cidades, como Caracas. Nas regiões mais isoladas, mais pobres, os governos chavistas mal ou bem melhoraram as condições de vida da população.

Em uma conversa recente, Mourão já me falava dos riscos que envolviam a presença da Rússia e de Cuba na Venezuela. Desde que a crise se instalou, o governo de Vladimir Putin enviou tropas e armamentos para dentro do país. No caso de Cuba, é forte a infiltração  nos serviços de inteligência do governo de Maduro. Ali, a partir dos cubanos, estabeleceu-se um certo poder de milícia, que hoje conversa com organizações criminosas, tráfico de drogas. Fala-se na presença de 20 mil a 60 mil cubanos atuando nas áreas de inteligência da Venezuela. Alas militares venezuelanas estão misturadas nisso. Extremamente difícil desfazer.

Desde que os americanos se enfiaram no Vietnã na década de 1970, ou no Iraque mais recentemente, sabe-se bem o tamanho do desgaste que provoca uma guerra perdida. Cuja necessidade não fica clara para a população. Baseada em dados falsos ou distorcidos. Criados mais por um desejo de torcida que pela real avaliação dos fatos e do cenário.

A opção pragmática da diplomacia brasileira, que hoje parece correr sérios riscos com Araújo, não se deu somente por escolha. É, de fato, a opção mais sensata para um país com o tamanho que o Brasil tem nas relações internacionais – não se trata aqui do seu tamanho físico, territorial. Se o apoio a guerras insensatas desgastou os Estados Unidos, a maior potência bélica mundial, imagine o que faria conosco.

Conhecedor da Venezuela, Mourão não parece acreditar muito que a saída ali se dará pelas ingerências externas. Considera muito mais que os próprios venezuelanos acharão um caminho diante da total insolvência do país. Um país que não aguentará mais por muito tempo a crise em que vive. A pressão externa, assim, deve se dar pela via diplomática. Há um barril de pólvora prestes a estourar na nossa fronteira norte. Seria uma irresponsabilidade sermos nós a acender o pavio.

Política

O mundo Bolsonaro no Aranhaverso


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No fim de semana, uma deputada da base do governo Jair Bolsonaro manifestou-se nas redes sociais contra uma reportagem publicada na revista IstoÉ que criticava a falta de critérios técnicos para a ascensão de apadrinhados no novo governo, a começar por Antônio Hamilton Rossell Mourão, filho do vice-presidente Hamilton Mourão, que conseguiu triplicar seu salário no Banco do Brasil em pouco mais de uma semana de governo. “Está muito fofo ver a extrema imprensa chamar de moralmente questionável o que não pode chamar de ilegal, quando nunca questionou as ilegalidades escancaradas dos governos petistas”, escreveu ela. Fica omitido o nome da deputada porque a intenção aqui não é iniciar uma polêmica diretamente com ela. Mas não era preciso recorrer sequer ao histórico de reportagens publicadas pela revista para verificar a falta de sentido do comentário.

A capa da mesma edição estampa uma foto de Rosemary Noronha, que foi assessora do ex-presidente Lula. A reportagem fala das investigações de falcatruas em que Rosemary teria se metido, apuradas na Operação Porto Seguro. Fala que ela tem fugido da Justiça para não ser notificada e intimada. E ainda traz uma entrevista na qual sua irmã diz com todas as letras que ela foi amante de Lula. Independentemente do que se pense sobre o conteúdo específico das reportagens, se são boas ou ruins, corretas ou incorretas, fica um bocado difícil, diante disso, afirmar que a revista, ou a “extrema imprensa” no caso por ela representada, “nunca questionou as ilegalidades escancaradas dos governos petistas”. Questionou na mesma edição.

É possível encontrar nas redes sociais petistas diversos comentários com o mesmo grau de indignação e ódio contra a reportagem que fala de Rosemary. Que ignoram da mesma forma solene a outra reportagem criticada pela deputada, e outras. São casos opostos de um mesmo fenômeno. As bolhas do mundo virtual simplesmente descartam da realidade que constroem tudo aquilo que não lhes convém. Ali, vive-se num universo paralelo, onde o sentido do mundo real é subvertido para construir um outro sentido, que só ali tem lógica.

É meio como o desenho animado do Homem Aranha, que está em cartaz nos cinemas, “Homem Aranha e o Aranhaverso”. A animação brinca com o conceito de universos paralelos, que faz sucesso no mundo dos quadrinhos mas ainda não tinha dado as caras no cinema. Ali, herois de diversos mundos unem-se para combater juntos uma ameaça. Entre as diversas formas de super-heroi aparece até um certo Porco Aranha, um porquinho com cara de desenho do Looney Tunes. Em um mundo em que o heroi é um porco de desenho animado fantasiado de aranha pode fazer sentido uma revista que traz a suposta ex-amante de Lula ser a mesma que “nunca questionou as ilegalidades escancaradas dos governos petistas”. Onde um porco de colant fantasiado de aranha distribui sopapos nos bandidos, tudo é possível.

Com todo o respeito à deputada, o problema do seu comentário é o grau de relevância que vai ganhando no mundo real as conclusões e decisões que são tomadas a partir de convicções formadas nesse mundo paralelo. A partir de convicções formadas sob o ponto de vista distorcido das bolhas virtuais – que não enxergam contrapontos, que não admitem visões diferentes -, vai-se consolidando uma radicalização que, se agrada às bolhas, pode ter efeitos muito perversos no mundo real.

Que vantagem prática, por exemplo, vislumbra-se com a decisão de o Brasil ser um dos primeiros países do mundo a seguir os Estados Unidos na troca da embaixada de Israel de Telaviv para Jerusalém? Se tal decisão viesse após o incremento de fato de uma parceria com Israel, da qual o Brasil estivesse desfrutando, tal movimento poderia ser considerado mais natural. Mas feito de forma gratuita, sem nenhuma negociação de contrapartida, torna-se incerto nos seus benefícios bem mais que a possibilidade de seus prejuízos, como a ameaça de o país acabar virando cenário do terrorismo islâmico.

Na outra linha, que vantagem o PT pode a essa altura auferir ao prestigiar a posse de Nicolás Maduro na Venezuela ou ao defender Cesare Battisti no episódio da sua extradição para a Itália? O partido não percebe que tais atos só reforçam os argumentos contrários que levaram à vitória de Jair Bolsonaro? Não percebe que isso o leva a uma imagem de extremismo que ao longo da sua história nunca desejou de fato?

Ainda vamos ter que avaliar muito sobre o novo mundo que se constroi a partir da vida paralela virtual que se amplia sobre a vida real. Nesse sentido, vale a leitura de um estudo coordenado por Christopher Paul para a Rand Corporation, intitulado “Firehose or Falsehood” sobre o modelo de enxurrada de fake news desenvolvido na Rússia e que migrou para os Estados Unidos na eleição de Donald Trump e pode ter desembarcado por aqui na eleição de Bolsonaro. O texto pode ser facilmente encontrado na internet. De acordo com o artigo, as estratégias que se valem dessa “enxurrada de fake news” estabelecem um clima de “campanha eleitoral permanente”, em que a racionalidade e o equilíbrio são substituídos por um ambiente crônico de ataque aos fantasmas de sempre.

Cria-se, assim, um ambiente de disputa, no qual se aponta para inimigos à espreita prontos todo o tempo para sabotar projetos. Uma das características dessa situação é a quantidade. Diversas, inúmeras postagens martelando as ideias em caráter repetitivo. Múltiplas fontes. Se uma história não cola, cria-se outra imediatamente. Ou se refaz a primeira. O trabalho da Rand Corporation chega a aferir que determinada quantidade de influenciadores digitais consegue anular a palavra de um especialista. Por exemplo: a questão das vacinas. Uma quantidade de depoimentos de pessoas comuns dizendo que as vacinas fazem mal anula o depoimento de um Prêmio Nobel que afirme que elas fazem bem. Até porque se embala tudo numa argumentação de que há uma conspiração planetária em torno do tema. Assim, o especialista que defende as vacinas foi credenciado por instituições que fazem parte da mesma conspiração. Tal argumentação relativiza as suas credenciais.

Muito do que se vê hoje nas redes sociais é deliberado. Há empresas operando essa rede de informações falsas ou distorcidas. Que é retroalimentada pela convicção e fé dos grupos nas suas bolhas. Estimulada por uns, cresce pela crença dos outros. E vice-versa. No caso brasileiro, é necessária mais investigação para saber o que prevaleceu ou aconteceu. Se a deliberação intencional ou a distorção a partir de grupos que deixaram de enxergar o todo isolados que estavam – e estão – nas suas bolhas.

Voltando ao desenho animado do “Aranhaverso”, nesse rolo todo a imprensa parece identificar-se com o personagem do Homem Aranha cansado e fora de forma de um dos universos. Espancada pela crise e por um mundo onde a verdade e o bom senso andam fora de moda, a imprensa luta, com seus erros e limitações, para manter as suas convicções, que incluem o combate sempre a governos que desviam dinheiro público e facilitam exceções e privilégios. Seja de que lado estiverem.