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A oposição não foi aos atos do governo


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Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil-EBC

Um dado curioso das manifestações de apoio ao governo Jair Bolsonaro no domingo foi a quase total ausência da oposição nos atos. Claro, ninguém está falando da presença física de opositores do governo nas ruas. Estamos falando dos alvos das manifestações. Com exceção de um pixuleco – o boneco do Lula presidiário – aqui ou ali, a turma gritou mesmo foi contra o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), o Centrão, o Supremo Tribunal Federal (STF) e a “mídia”.

Eis aí um ponto inusitado que une as hostes de Bolsonaro das do PT e de Lula. Eles podem pensar diferente em praticamente tudo, mas seus principais inimigos vão se tornando exatamente os mesmos.

Foi o Centrão de Rodrigo Maia, então sob o comando do ex-presidente da Câmara e agora presidiário Eduardo Cunha (MDB-RJ) que conduziu o processo de impeachment de Dilma Rousseff. Foi o Centrão de Maia e Cunha que tratou de inviabilizar completamente o segundo mandato de Dilma tornando o país ingovernável e criando as condições políticas para o seu afastamento. Foi o Supremo Tribunal Federal que conduziu primeiro o processo do Mensalão e depois os julgamentos provenientes da Lava Jato, esfarinhando o PT e condenando a sua cúpula à cadeia. O Supremo é instância máxima do Judiciário, que colocou e mantém na cadeia o ex-presidente Lula. E foi a “mídia”, a tal “mídia golpista” que distorceu fatos, criou versões com o propósito de desgastar o PT e tirar o partido do poder.

É o Centrão de Rodrigo Maia que agora cria dificuldades para que sejam aprovados os projetos de Jair Bolsonaro. É o Centrão de Rodrigo Maia que trata de inviabilizar o governo para achacá-lo, pressioná-lo e garantir a manutenção dos expedientes da “velha política”. O Supremo Tribunal Federal agora quer livrar da cadeia criminosos da Lava Jato. Mas ao mesmo tempo incentiva investigações contra o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) com o propósito de constranger e desgastar o governo de seu pai, o presidente Jair Bolsonaro. E a mídia – que parece, então, ser sempre golpista não importa quem seja o presidente – distorce fatos e inventa versões com o propósito de criar embaraços para o atual governo.

Ainda que a motivação para os atos de domingo tenha sido promover uma reação às manifestações de 15 de maio, quando a oposição levou gente às ruas para protestar contra os cortes na educação, é impressionante essa coincidência de inimigos. No domingo, somaram-se ao Centrão, ao STF e à mídia nos protestos importantes aliados de um passado recente que contribuíram para derrubar o PT e permitir a ascensão de Bolsonaro. O Movimento Brasil Livre (MBL) era o mais visível deles.

Nós já dizíamos aqui antes que as manifestações de apoio ao governo seriam expressivas. Bolsonaro conta com um grupo organizado e aguerrido, com forte capacidade de mobilização. Representa, porém, os 15% originais que deram a musculatura inicial para a sua candidatura. Sem a presença do MBL e outros grupos mais moderados, não estavam presentes de forma maciça as forças que aderiram depois a Bolsonaro quando perceberam nele a chance maior de tirar o PT do poder.

Boa parte desses grupos está no Centrão e em outras forças que o discurso dos bolsonaristas mais radicais afasta. Fica claro que Bolsonaro quer usar a opinião pública como instrumento de pressão sobre o Congresso para não sucumbir às ferramentas do velho toma-lá-dá-cá. Em princípio, essa poderia ser uma estratégia saudável. É uma constatação de muitos – não somente na direita – que foram os expedientes fisiológicos do nosso presidencialismo de coalizão que levaram o Brasil à crise que vive.

O problema é que as pesquisas mostram que Bolsonaro hoje não tem o apoio da maioria. E se ele ajuda com seus atos e discursos a prioritariamente afastar parte daqueles que nas eleições estiveram com ele, vai-se apoiando mais e mais numa minoria. Como dissemos antes,o risco que havia era, com as manifestações, a criação de um aval enganoso que corroborasse a radicalização ainda maior do discurso do governo.

Como as manifestações foram expressivas mas não tão grandes como o próprio governo esperava, esse risco talvez esteja agora afastado. O prudente seria tanto o governo como seus novos inimigos, especialmente o Centrão e o Congresso, avaliarem os atos de domingo exatamente pelo seu valor de face. Expressivos para mostrar que há uma parcela forte da população que rechaça qualquer tipo de esforço conjunto da elite política para parar as investigações sobre corrupção e que cansou das velhas práticas do fisiologismo. Mas não forte o suficiente para que o governo imagine que pode tudo e que vai atropelar Congresso e outras instituições para fazer valer o que deseja, sem negociação e sem diálogo.

Política

É prudente respeitar os “idiotas”


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Lá do Texas, distante oito mil quilômetros das ruas brasileiras, o presidente Jair Bolsonaro tratou de chamar os milhares de manifestantes que protestaram contra os cortes no orçamento da Educação de “idiotas úteis”.

Governos minimizarem o efeito de manifestações contra eles é algo tão comum quanto técnicos da Seleção Brasileira minimizando as consequências de uma goleada num amistoso às vésperas da Copa do Mundo. Quem está de fora, porém, sente e sabe bem a diferença que há entre a realidade e o discurso.

Jair Bolsonaro é fruto dos movimentos de protesto que começaram na Copa das Confederações ainda no primeiro governo Dilma Rousseff. Movimentos que depois nunca mais pararam e foram crescendo até inviabilizar completamente a permanência de Dilma e da era petista. Deveria, portanto, ser o primeiro a identificar os efeitos dessas ondas de insatisfação.

Mas Bolsonaro foi bem mais além que minimizar. Ele resolveu provocar os manifestantes. Chamou-os de “idiotas”, de “massa de manobra”. Seria bem mais prudente ao presidente respeitar esses “idiotas” que foram às ruas. A situação de Bolsonaro não anda das mais confortáveis.

Há no modus operandi de Bolsonaro e da turma mais próxima a ele – incluindo seus filhos – uma necessidade atávica de agredir sempre os adversários. É o clima de guerra permanente das redes sociais. E já comentamos sobre isso por aqui. Algo que Bolsonaro importa de outros governantes que antes dele tinham descoberto o poder das redes sociais. É assim que faz Vladimir Putin na Rússia. É assim que faz Donald Trump nos Estados Unidos.

Ocorre que a Rússia é um país onde o Estado é muito forte. Não é exatamente uma democracia. Nos Estados Unidos e aqui, o estilo da agressividade crônica atiça os adversários. Mantém um clima de confronto e crise permanente. E já começa a ficar evidente que essa intranquilidade permanente não exatamente ajuda o “capitão eleito”, para repetir uma expressão usada por seu filho, Carlos Bolsonaro.

Enquanto pessoas foram às ruas em número longe de ser desprezível, Bolsonaro reagia chamando-o de “idiotas”. Na Câmara, o ministro da Educação, Abraham Weintraub, igualmente reagia insinuando chamar os deputados de “vagabundos”, que nunca na vida tiveram uma carteira assinada. Ou seja: é guerra permanente contra os supostos adversários.

Mais uma vez guardando o espaço da sensatez no governo, o vice-presidente Hamilton Mourão disse que as reações aos cortes na Educação foram um problema de comunicação. Foram mesmo. Se o governo desde o início tivesse dito que o corte era necessário porque os governos anteriores, de Dilma e de Michel Temer, tinham quebrado o país, o que não deixava alternativas, talvez tivesse conseguido a partir daí criar um outro ambiente. Primeiro, obrigaria os adversários a se debruçarem nos números. Segundo, números sempre são mais difíceis de compreender. Não geram disposição para palavras de ordem. Terceiro, poderiam arregimentar grupos em efeito contrário, que reclamariam dos desmandos e trapalhadas da era petista.

Mas Weintraub resolveu dizer que estava cortando o dinheiro porque as universidades faziam “balbúrdia”. Mesmo tendo tornado depois o corte generalizado, foi essa primeira mensagem que ficou. Quem nunca frequentou uma universidade pode mesmo pensar – até por despeito – que ali só se faz bagunça. Quem, porém, sentou nas cadeiras de um curso superior e dá valor ao diploma que recebeu, sabe o que exatamente fez para merecê-lo. O que inclui boa parte da elite conservadora brasileira. Ou seja: boa parte dela não vai comprar esse discurso para desmerecer o valor do seu próprio esforço.

Assim, construiu a palavra de ordem que ontem foi às ruas. Foi chamado à Câmara para se explicar numa clara molecagem do Centrão. Passou o recibo. Chegou no plenário e agrediu os deputados. Nem se ajudou nem ajudou o governo que patina no Congresso colecionando derrotas.

Nas atitudes de Bolsonaro e de Weintraub há a esperança de que arregimentaram seus exércitos. E que um dia esses exércitos possam sair às ruas, se necessário, em sua defesa. Mas é sempre bom lembrar. A turma aguerrida de Bolsonaro nas redes é o seu grupo inicial, de uns 15%. Não é a maioria mesmo daqueles que o elegeram. Falar o tempo todo somente para esses grupos não é falar para a maioria da sociedade. Esse erro vem sendo repetido seguidamente.