Lula

Política

Além da nossa vertigem


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É difícil a essa altura saber exatamente que chances o documentário Democracia em Vertigem terá de sair da cerimônia do dia 24 de fevereiro em Los Angeles carregando a estatueta dourada e careca do Oscar. Importante agora é avaliar por que razão a Academia incluiu o filme entre os concorrentes. E certamente, apesar de nossas paixões interiores, isso nada tem a ver com a nossa guerra particular de torcidas.

Meio ingênuo ou muita pretensão da nossa parte imaginar que os intelectuais da Academia de Hollywood resolveram tomar partido na nossa guerrinha político-partidária-ideológica tupiniquim. Eles seguem desde sempre nos considerando somente mais uma republiqueta latino-americana, exótica e distante.

No caso, o que importa, e foi o motivo da escolha, é como o episódio particular brasileiro ali contado repercute em algo que ganha preocupação planetária. Que conversa com os Estados Unidos de Donald Trump e fenômenos que se replicam em diversos outros países do mundo: a agonia das democracias. Ou, pelo, menos, o forte questionamento dos modelos de democracia representativa a que nos acostumamos.

O tema está em um livro recente, “Como morrem as democracias”, de autoria de dois pesquisadores da Universidade de Harvard, Steven Levitsky e Daniel Ziblatt. E aí a famosa universidade da cidade de Cambridge, no estado de Massachussets, está mais próxima dos interesses e leituras dos intelectuais da Academia de Artes e Ciências de Hollywood que os nossos líderes e disputas locais.

O livro de Levitsky e Ziblatt mostra como as democracias podem se esgarçar a partir das suas próprias características particulares. Como a utilização de ferramentas e elementos político-institucionais dessas próprias democracias, aliada à formação de uma base popular disposta a isso, podem vir a trabalhar para demoli-las.

Em momentos de ambiente extremamente polarizado, excessivamente radicalizado, que ignora o centro e a construção de consensos, essa associação aparece. E aí a democracia não necessariamente corre riscos pela produção de um golpe armado, de tropas nas ruas depondo presidentes e outros líderes. Ou a partir de grandes revoluções. Ela se mina de dentro para fora.

São decisões de parlamentos ou mudanças constitucionais que multiplicam a possibilidade de mandatos sucessivos, perpetuando líderes e grupos, como acontece na Venezuela. São ondas de protesto e insatisfação que acabam sendo desvirtuadas e trabalhando contra o desejo inicial de quem protestava, como ocorreu em muitos dos países envolvidos na Primavera Árabe.

No fundo, essa associação entre a utilização das próprias ferramentas de uma democracia fragilizada com o apoio popular em uma sociedade polarizada não é muito diferente da situação que explica a ascensão de Adolf Hitler na Alemanha no final da década de 1930. O Partido Nazista de Hitler chegou ao poder por via democrática após a crise econômica na Alemanha. E foi o próprio Parlamento alemão que autorizou, em 1934, a transmissão de funções legislativas para o poder Executivo. No caso, fortalecendo Hitler.

No caso dos nossos episódios particulares, narrados em Democracia em Vertigem, o que preocupa fora das nossas fronteiras não é exatamente a disputa doméstica entre bolsomínios e petralhas. É se essa disputa doméstica seria parte do avanço mundial de um modelo político que compromete a democracia. Se aqui as ferramentas utilizadas para a deposição de Dilma Rousseff foram ou não comprometidas por propósitos e intenções antidemocráticas. Ou seja: se é um exemplo que faz parte desse processo de esgarçamento da democracia de dentro para fora.

E, para nós, especificamente, fora do clima de guerra de torcidas, o filme pode nos ajudar a entender diversas coisas, pela riqueza de imagens de bastidores que há nele. Nossa particular guerra de narrativas também prejudica seu entendimento. É fundamental para o entendimento do contexto, por exemplo, as falas de Gilberto Carvalho admitindo como o PT foi se afastando de suas bases populares e se inserindo cada vez mais com gosto no conchavo com seus aliados da política tradicional. Também importante o trecho em que Dilma tenta – com sua retórica por vezes confusa – explicar por que foi escolhida a sucessora de Lula. E conclui dizendo que “muitas vezes Lula trabalha com o fato consumado”. Ou seja: dando a entender que ela só foi a sucessora de Lula porque assim Lula quis.

Mas isso é importante para as nossas leituras. Os intelectuais da Academia estão longe dessa nossa vertigem. A vertigem deles é outra.

Política

Vazios da polarização


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Uma tentação à qual eu sempre resisti como jornalista e analista político foi de fazer previsões. Jornalista não é pitonisa. Não lê búzios nem bola de cristal. Jornalista não tem dom premonitório. Alguns têm imensa vaidade e presunção. O que os faz cair na tentação de arriscar a clarividência.

Dois anos antes da eleição de 2018, mais ou menos no mesmo período em que agora estamos da eleição de 2022, em um debate com jornalistas em uma universidade de Brasília, comentava, sem arriscar previsões de futuro, que parecia se acirrar cada vez mais o embate esquerdaXdireita com estridência de guerra de torcidas, de FlaXFlu. E que isso talvez pudesse fazer crescer a candidatura de Jair Bolsonaro contra o PT de Lula nas eleições presidenciais seguintes. Alguns jornalistas presentes minimizaram essa possibilidade, dizendo que o Brasil sempre tendia para o centro, e que Geraldo Alckmin, o candidato do PSDB, iria crescer e engolir tais pretensões. Se nenhum dos leitores aqui desembarcou agora de Marte, não é preciso lembrar o que de fato se deu dois anos depois.

Da mesma forma sem nenhuma pretensão de fazer previsões, é preciso dizer que o cenário atual, a dois anos das próximas eleições presidenciais, segue apontando para uma forte polarização entre Jair Bolsonaro e o PT de Lula. Novamente com a mesma limitação que em 2018 o próprio Lula se tornasse candidato: ele é inelegível, com base na Lei da Ficha Limpa, que ele mesmo sancionou como presidente, por estar condenado em segunda instância tanto no caso do tríplex do Guarujá como no caso do Sítio de Atibaia.

De forma ainda mais intensa que dois anos antes da eleição de 2018, Bolsonaro agora parece imprimir a estratégia de radicalizar na polarização ideológica, tendo Lula e o PT como seus antagonistas. A coisa ganha agora mais intensidade porque Bolsonaro é o presidente. Ou seja, tornou-se o grande protagonista do xadrez político e imprime o tom e as regras do jogo.

Por outro lado, se a intenção é radicalizar ao máximo, Lula e o PT parecem morder a isca. Ou considerar que essa polarização de alguma forma também os beneficia no jogo. O PT parece apostar no desgaste de Bolsonaro, que talvez possa se confirmar pela queda na sua popularidade e pelo afastamento de aliados. E apostar que a recuperação econômica amparada no liberalismo exacerbado do ministro da Fazenda, Paulo Guedes, não vai se reverter em ganhos concretos para a população.

É possível que Lula e o PT estejam certos quanto ao desgaste político de Bolsonaro daqui até 2022. Quanto ao desgaste econômico, dados os acenos de recuperação, pode ser mais incerto. Bolsonaro parece politicamente meio embananado com a história da criação do Aliança pelo Brasil e com a briga com o PSL. Ficou sem partido. Ficou sem base formal no Congresso. Talvez sem condições de oficializar o Aliança para as eleições municipais deste ano, pode se ver obrigado a construir alianças insólitas com diferentes partidos, formando um pavimento incerto para 2022.

Mas a opção de Lula e do PT de radicalizar o antagonismo também limite suas possibilidades de aliança. Neste momento, ou se está de cabeça no projeto Lula/PT para 2022 ou se é também considerado adversário. Ou seja: na aposta de confrontação radical, tanto Bolsonaro quanto Lula se escolhem como adversários e limitam o embate ao máximo entre os dois.

As pesquisas mostram a ambos com faixas em torno de 30% de simpatia do eleitorado. Fica, então, um vazio a ser conquistado por outras candidaturas. Ou que acabará no fim se omitindo da disputa ou em parte sendo atraído pelas duas opções radicais. É a movimentação em torno desse vazio que precisa ser observada.

Chama a atenção em recente pesquisa divulgada pelo Datafolha que Lula e o apresentador de TV Luciano Huck parecem correr na mesma raia de preferência do eleitorado. No país que se move menos por questões ideológicas do que gostaria a guerra das redes sociais, ambos têm seus cacifes principais nos eleitores do Nordeste e de baixa escolaridade. Por outro lado, a mesma pesquisa mostra que o ministro da Justiça, Sergio Moro, pode ser a pedra no sapato de Bolsonaro, crescendo beneficiário das brigas desnecessárias e do desgaste que o presidente promove entre seus aliados.

São dados que mostram que a manutenção da tendência mais conservadora na opção dos eleitores pode se dar novamente nos próximos pleitos. Se Huck pode roubar votos de Lula, essa hipótese fica evidente.

O quadro após a eleição municipal no segundo semestre vai clarear o cenário. Qual será o saldo de Bolsonaro, se entrar na disputa sem partido? Até que ponto seus eventuais aliados poderão já a partir daí migrar para a construção de uma opção Moro? Lula consolida sua base no Nordeste ou a perde para outro nome conservador, como Huck? São as perspectivas em torno do vazio consequente da polarização que deverão mostrar os contornos do futuro.

Política

Saída pela direita?


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Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil – EBC

A pesquisa divulgada no primeiro dia do ano pelo Instituto Datafolha reforça impressões perigosas, que devem fazer acender um alerta na sociedade. Mas que também servem para apontar para qual rumo político deve continuar seguindo o país neste ano de 2020 e nos próximos.

De acordo com a pesquisa, diminuiu o apoio dos brasileiros à democracia. Felizmente, a maioria de nós continua considerando que a democracia é o melhor regime de governo. Ou, pelo menos, como dizia Winston Churchill, é o pior à exceção de todos os outros. Segundo o Datafolha, 62% dos brasileiros consideram que a democracia é sempre a melhor forma de governar. Em outubro de 2018, porém, quando foi feita a mesma pergunta, o apoio à democracia foi de 69%. Um outro dado que preocupa é que aumentou nove pontos percentuais a parcela daqueles que consideram que tanto faz se o governo seja democrático ou não: de 13% para 22%. Manteve-se o índice dos que disseram considerar que uma ditadura pode ser melhor que a democracia em certas circunstâncias: 12%.

Para além das chances de retorno de uma ditadura, que o maior percentual dos entrevistados considera uma possibilidade remota, os dados do Datafolha reforçam uma constatação: o Brasil endireitou. Não no sentido de que tenha deixado de ser torto. Mas no sentido de que guinou à direita.

Infelizmente, com as seguidas interrupções que tivemos ao longo da nossa vida na nossa democracia, não conseguimos amadurecer na nossa sociedade a aptidão democrática. Adquirimos um sentimento paternalista com relação aos nossos governantes. Esperamos que eles sejam uma espécie de redentores com a capacidade de resolver todos os nossos problemas com a força das suas canetas. Como nenhum deles, por melhor que seja, jamais terá tal capacidade, nos frustramos. E essa frustração nos leva a desprezar a democracia, imaginando que mais poder dará mais tinta à caneta. Depois, nos arrependemos. E seguimos assim nossa trágica sina.

Dificilmente, conservadores de países como os Estados Unidos, Inglaterra ou França diriam que tanto faz uma democracia ou uma ditadura. Os cidadãos de direita desses países, na sua ampla maioria, vão às urnas tentar eleger seus candidatos e perdem ou ganham, sabendo que ganhar ou perder faz parte do jogo. Mas, por aqui, infelizmente, o desapreço à democracia muitas vezes mistura-se com a tendência à direita.

De qualquer modo, o Datafolha mostra que tal percepção ainda é de uma minoria. O que importa é que o jogo segue democrático. Em um momento em que parece haver uma expressiva percepção mais à direita do jogo político. E é isso o que transparece nos primeiros movimentos do xadrez eleitoral nessas primeiras horas de 2020.

Talvez nunca tenha havido tamanha profusão de candidatos de perfil mais conservador ensaiando a entrada no jogo da sucessão presidencial. A começar pelo próprio Jair Bolsonaro, o mais de direita deles. Mas é pela mesma raia, com maior ou menor inclinação, que se ensaiam os governadores de São Paulo e do Rio, João Dória e Wilson Witzell. É por aí que vai o apresentador de TV Luciano Huck. Ou o ministro da Justiça, Sérgio Moro. Mesmo o movimento de valorização do centro político, que se esboça, tem inclinação mais à direita. Nada indica inclinações antidemocráticas no presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), mas, do ponto de vista econômico, ele é, sem dúvida, um conservador.

Enquanto isso, o campo da esquerda segue tendo sua alternativa concentrada em um Luiz Inácio Lula da Silva que, como em 2018, continua impedido de disputar a eleição, barrado que está pela Lei da Ficha Limpa. Parece cada vez mais improvável que ele consiga reverter as condenações contra ele. Então, candidato não será. Para onde, então, se reverterão os votos que não serão para ele? Terá Lula agora maior capacidade de transferir seus votos para outro candidato, talvez o mesmo Fernando Haddad, do que teve em 2018? Ou o provável recrudescimento da opção mais à direita do eleitorado enfraquecerá mais ainda a opção?

Além disso, outras opções de esquerda, como Ciro Gomes, do PDT, parecem pelo menos neste primeiro momento enfraquecidas. O partido de Ciro não tem nomes visíveis fortes para a disputa municipal deste ano, como forma de ir pavimentando seu caminho.

Pelo campo da direita, há ainda um último fator importante. Se Bolsonaro não for capaz de colocar em campo no pleito municipal seu novo partido, o Aliança, assanha ainda mais as pretensões dos demais nomes à direita no sentido de ocuparem esse vácuo. Ao que tudo indica, o jogo de outubro será mais intenso pelo lado direito…

Política

Rodrigo Maia, o reformista. Será raposa?


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Foto: Fabio Pozzebom/Agência Brasil-EBC

O choro do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), ao anunciar, na tarde da quarta-feira (10), o resultado da aprovação do texto-base da reforma da Previdência foi o retrato inconteste do triunfo da velha política. Pode-se comparar perfis, experiências, reputações, mas Maia recuava ali mais de 60 anos e recolocava o país na lógica do equilíbrio político que ainda hoje o caracteriza. Era o velho PSD da década de 1950 mostrando ainda as suas caras.

É incrível como o arranjo político desenhado no Brasil ao final da era Vargas seja ainda o desenho mais sólido do jogo de forças que mantém nossa estabilidade em tempos de democracia. Os partidos mudaram, novos grupos surgiram, novas pressões aconteceram, há hoje diversos elementos novos vindos de outras formas de participação da sociedade – a mais recente delas, a força de pressão direta via redes sociais. Mas a lógica que havia no tripé UDN-PSD-PTB naquele arranjo permanece. A UDN representando os grupos conservadores, de direita, à época ligados às novas categorias de profissionais liberais que surgiam com o crescimento urbano brasileiro. O PTB ligado à crescente organização sindical, dos trabalhadores que se aglutinavam com a industrialização do país e os embates do sindicalismo. E o PSD, ao centro, aglutinando os coroneis e raposas da política de líderes regionais da Velha República com novos representantes das forças moderadas.

Como mostra Lúcia Hippolito no seu ótimo livro “PSD, de Raposas e Reformistas”, o PSD foi fortemente responsável por manter a estabilidade política do final da era Vargas até o final da década de 1950, administrando e amaciando os conflitos entre esquerda e direita, partidariamente representados pelo PTB e pela UDN. Em tempos em que a Guerra Fria estimulava arroubos golpistas de um lado e de outro. Um trabalho que provavelmente atrasou em coisa de vinte anos o infeliz desfecho da ditadura militar com o golpe de 1964. Foi do PSD a última tentativa de manter as coisas estabilizadas, com a implementação do parlamentarismo para reduzir os poderes de João Goulart.

A vitória de Jair Bolsonaro após a longa era em que o PT se manteve no poder – a maior era de domínio de um partido na nossa história republicana – traz de volta para o cenário um tempo de embate forte entre direita e esquerda. Com todos os riscos de transformação disso num radical diálogo de surdos, em nada semelhante do que se espera de uma democracia. Por mais que se torça o nariz para o conteúdo da reforma da Previdência, o trabalho de Rodrigo Maia ao aprovar o texto-base trouxe a bola de novo para o centro do campo. No que isso pode significar de bom e de ruim. A lição que fica é que o jogo jogado continua a ser o da política, de quem negocia e cede. Não o de quem atropela.

De ruim, fica claro que em um país no qual hoje as forças políticas dividem-se numa miríade de partidos sem consistência ideológica, o jogo da negociação seguirá passando pelo velho toma-lá-dá da distribuição de verbas e cargos. O governo abriu firme a carteira para fazer passar o projeto. Fica claro também que seguirá conseguindo mais quem pode mais. A negociação suprimiu setores e categorias da reforma. O sistema previdenciário brasileiro seguirá sendo desigual, penalizando mais alguns e pesando bem menos sobre outros.

De bom, Rodrigo Maia mostra ao governo que o jogo da democracia não é o de vitórias ou derrotas absolutas. Não se atropela o Congresso. Não se desce goela abaixo projetos e imposições. Sempre o que se aprovará é o possível, não o totalmente desejado.

A outra lição é que,diante da constatação de situações contra as quais não há possibilidade de impedimento, quem não negocia perde totalmente. Logo no início do seu primeiro governo, o ex-presidente Lula fez uma reforma da Previdência. Ou seja: quando esteve no poder, o PT já constatou que, na prática, não se sustentava seu discurso anterior de que não era necessária uma mudança nos cálculos e nos formatos do nosso sistema previdenciário. Outros partidos de oposição, como o PDT, na campanha presidencial do ano passado, também já sustentavam a necessidade de reforma. No processo de discussão do projeto, as oposições apostaram que o governo, estabanado e de cintura dura, poderia acabar pondo tudo a perder e não aprovando nada. Acabou ficando fora da negociação. Não negociou. Não contribuiu para a formação de um projeto mais palatável. Correrá atrás agora, enfraquecido, na tentativa de emplacar algum destaque.

Enquanto isso, Rodrigo Maia estabelece como agenda seguinte a reforma tributária, a partir de projetos que já tramitavam e que tiveram iniciativa no Congresso. Ou seja, uma agenda sua, e não de iniciativa do Executivo. O tempo dirá se o presidente da Câmara de 49 anos será tão habilidoso quanto seus modelos do PSD da década de 1950. Se será capaz de segurar da mesma forma os embates entre os radicais de direita e esquerda trazendo a bola para o centro do campo. Veremos o quanto Rodrigo Maia será capaz de ser “raposa”, no seu projeto de ser “reformista”.

Política

Datafolha é Maracanã em dia de FlaXFlu


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Foto: Clauber Cleber Caetano/Agência Brasil-EBC

Quando o presidente Jair Bolsonaro adentrou o gramado do Maracanã para premiar os jogadores da Seleção Brasileira campeã da Copa América, metade do estádio o vaiou e outra metade o aplaudiu. Na fila para receber as medalhas, parte dos jogadores e o técnico da Seleção, Tite, demonstraram claro incômodo na proximidade com o presidente. Outros, porém, ficaram claramente orgulhosos, felizes, por estarem com Bolsonaro.

Um dia depois, o Instituto Datafolha espelhou em números precisos a sensação do domingo. O Brasil, assim como aconteceu com a torcida e com a delegação da Seleção Brasileira, divide-se exatamente entre os que amam Bolsonaro e os que odeiam. E outra parcela também do mesmo tamanho fica no meio entre as duas pontas, indiferente ou pelo menos distante dessas paixões exacerbadas. Quem andou nos últimos anos ouvindo as redes sociais falarem de “coxinhas”, “mortadelas” e “isentões”, é isso mesmo, levado à potência extrema.

Segundo o Datafolha, um terço dos brasileiros ama Bolsonaro. E certamente esse primeiro terço saiu daqueles que ao longo dos últimos anos foi classificado nas redes sociais como “coxinhas”. São o créme de la créme dos coxinhas. Outro terço odeia Bolsonaro. E sem dúvida essa parcela vem daqueles que as redes sociais andaram chamando de “mortadelas”. São a essência da mortadelice. E quem fica no meio é ainda aquela turma tida como “isentões”. Aqueles aos quais ou a política não apaixona tanto ou aqueles que entendem que não há assim tantos mocinhos e bandidos no mundo.

Ainda que a pesquisa Datafolha não tenha mostrado números muito diferentes da rodada anterior, ela impressiona por apresentar um país tão exatamente dividido entre as torcidas desse já bastante incômodo FlaXFlu político. É incrível que 33%  considere o governo ótimo ou bom e outros exatos 33% considerem o governo ruim ou péssimo. E que haja 31% que o considere regular. Ou seja: um país dividido em três partes exatamente iguais, uma vez que o percentual de 31% que fica no meio se iguala aos demais na margem de erro da pesquisa.

Para quem deseja um país menos convulsionado para que tenha a necessária tranquilidade para avançar, essa certamente não é uma boa notícia. A famosa cena do gramado da Esplanada na votação do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, que virou o cartaz do filme “Democracia em Vertigem”, continua dolorosamente atual. Somos aquele gramado dividido por um feio muro improvisado de metal verde, um terço de um lado, outro terço do outro. E outro terço em casa. De cada lado do muro, vamos ruminando nossos ódios para soltá-lo para o outro lado, como massa verde, ácida e gosmenta.

O quadro anima radicalismos. A Bolsonaro, demonstra que sua melhor estratégia é manter-se polarizado contra Lula e o PT. A Lula e ao PT, mostra que a melhor estatégia é igualmente radicalizar posições e polarizar-se contra Bolsonaro. E a outra parte isola-se, seja porque sempre se omite, seja porque não enxerga solução nos extremos, seja porque não encontra alternativa a esses extremos.

Talvez isso deságue nos próximos dias na votação da reforma da Previdência. Em vez da busca de consensos necessária na democracia, uma guerra entre extremos. O governo querendo atropelar uma reforma sem maiores discussões. A oposição tentando derrotá-la também sem apresentar soluções alternativas. Vitórias ou derrotas absolutas não é bem o jogo das democracias…

Política

O efeito reverso das denúncias contra Moro


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Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil-EBC

O Instituto Paraná Pesquisas, do cientista político Murilo Hidalgo, divulgou nesta terça-feira (25) pesquisa que merece muita atenção. Murilo gosta de fazer curtas apurações sobre temas relevantes da nossa pauta política, que servem como bússolas importantes dos caminhos que o país tende a seguir. Desta vez, ele fez somente duas perguntas a 2.264 pessoas de 176 municípios dos 26 estados brasileiros e do Distrito Federal, entre os dias 17 e 21 de julho. A primeira pergunta foi se a pessoa tinha tomado conhecimento das denúncias do WikiJato do The Intercept Brasil, que apontam para um conluio entre o hoje ministro da Justiça, Sérgio Moro, quando era juiz e os procuradores da Lava Jato. A segunda pergunta foi: isso põe em dúvida os resultados da operação?

A resposta à primeira pergunta aponta para um nível bem alto de conhecimento dos diálogos que o site The Intercept Brasil vem publicando, agora em parceria com outros veículos. Nada menos que 86,7% dos entrevistados disseram ter tomado conhecimento das publicações. A segunda pergunta mostra que isso pode ter provocado certo abalo na credibilidade da Lava Jato, mas longe de ser o suficiente para mudar a convicção da maioria da sociedade quanto à sua importância. Para 38,1% dos entrevistados, o que vem sendo publicado põe, sim, em dúvida os resultados da operação. Mas para 56,1%, isso não aconteceu. Esse grupo, que constitui a maioria, continua convicto da importância da operação que engaiolou um expressivo número de políticos e empresários brasileiros.

Fica claro aí um efeito reverso das denúncias, do qual o presidente Jair Bolsonaro e Sérgio Moro já parecem ter se dado conta. As publicações do The Intercept parecem ter recolocado a disputa político no terreno que Bolsonaro mais gosta: o da polarização absoluta dele com Lula, de seu grupo com o do PT. E não é por outra razão que Bolsonaro animou-se a, desde já, lançar-se no terreno da reeleição.

Enquanto ficam completamente desaparecidos do noticiário os fatos que poderiam questionar o próprio Bolsonaro e seu grupo enquanto representantes da moralidade política como se pretendem – as histórias que envolvem laranjas, milícias, Fabrício Queiroz, o senador Flávio Bolsonaro, o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, etc – parte-se para cima de Sérgio Moro. Questiona-se de forma dura sua imparcialidade. Mostra-se que ele, de fato, no mínimo, flertou profundamente com os limites das suas funções para alcançar condenações, especialmente a do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

E eis que voltamos, então, àquele ponto que alçou Bolsonaro à Presidência. As denúncias reanimaram o Lula Livre. E a liberdade de Lula voltou a ser a referência da oposição. Ocorre que, se Lula aglutina os seus, é ele que aglutina também os que se opõem a ele. Foi a impressão de que Bolsonaro era o único capaz de derrotar o PT – e, consequentementemente, derrotar Lula – que fez com que seu eleitorado se ampliasse além dos 15% originais, angariando o empresariado, o meio militar, os liberais.

Por conta das trapalhadas de seu próprio estilo, Bolsonaro vinha perdendo o apoio além dos seus 15%. Porque insiste em falar somente para eles. Ainda perde, por conta de episódios como o da demissão do general Santos Cruz. Ou das brigas com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ). Mas a ameaça à Lava Jato cria um novo fator de união. Talvez nem pelos riscos ao combate à corrupção. Mas pelos riscos de se ver Lula novamente solto e em campanha.

As avaliações de que o episódio enfraquece Moro e o joga no colo de Bolsonaro talvez sejam um pouco simplistas. O que na verdade parece ter acontecido é que elas uniram novamente o presidente e seu ministro da Justiça. Se antes Bolsonaro vinha largando o ministro de lado, porque ele às vezes atrapalhava sua pretensão de falar somente para seus 15%, agora o presidente voltou a ver em Moro a chance de retornar ao velho FlaXFlu que ele gosta de jogar.

Lula é, ao mesmo tempo, o calo e o trunfo de Bolsonaro. Seu maior inimigo, mas também seu adversário predileto. Há algo nessa relação que lembra uma canção de João Bosco e Aldir Blanc, “Siameses”, cujos versos dizem: “Amiga inseparável/Rancores siameses/Nos unem pelo olhar/Infelizes pra sempre/Em comunhão de males”…

Política

Moro e o diabo de Al Pacino


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Foto: José Cruz/Agência Brasil-EBC

O Advogado do Diabo, filme de 1997 dirigido por Taylor Hackford, tornou-se um dos grandes clássicos do cinema do final do século passado. No filme, o grande Al Pacino interpreta John Milton, um advogado que é ninguém menos que o próprio Satanás. Keanu Reaves é Kevin Lomax, um jovem ambicioso que resolve ir trabalhar no luxuosíssimo escritório de Milton, o nosso diabo. John Milton é um desses famosos juristas que costumamos ver em sessões do Supremo defendendo políticos e empresários enrolados. Cobra caríssimo para livrar corruptos de colarinho branco da cadeia.

Durante o filme, Kevin Lomax vai ascendendo no escritório do diabo, ao mesmo tempo em que seu trabalho além do limite do que é correto e ético vai pesando na sua consciência. Até que se rebela e se livra das tentações do patrão satânico. No final do filme, está defendendo uma pessoa pobre, vítima de injustiça, em uma causa humanitária. Ao final do julgamento, que vence, ele é abordado por um repórter, que começa a incensá-lo com o intuito de transformá-lo em herói. Como não tem sentido evitar spoiler de um filme com 20 anos de idade, e até porque é o que vem a seguir que importa comentar no momento, lá vai. O repórter é, na verdade, nosso velho diabo disfarçado. Depois que entrevista o personagem de Keanu Reaves, ele transmuta-se para Al Pacino, que se vira para a plateia e diz a frase que se tornou célebre: “A vaidade é meu pecado preferido”.

A troca de mensagens de Instagram entre o ministro da Justiça, Sergio Moro, e o procurador da Lava Jato, Deltan Dallagnol, publicadas pelo site The Intercept, parecem reforçar a impressão do diabo de Al Pacino. A vaidade deve, de fato, ser o pecado preferido do demônio, dada a forma como ele coloca em risco mesmo o mais bem intencionado dos bem intencionados.

Muito vai se discutir daqui para a frente sobre os limites legais e éticos que tenham sido ultrapassados na troca de mensagens. E de outros trechos contendo novas e talvez mais graves ultrapassagens, dado que o site do jornalista americano Glenn Greenwald promete novas publicações. Independentemente, porém, do que venha a se concluir, o que as conversas já reforçam é a impressão de que o grande erro de Sérgio Moro na condução da Lava Jato parece ter sido mesmo sucumbir à vaidade.

No momento das conversas, Moro era ainda o juiz da Lava Jato às vésperas de fisgar seu peixe grande: o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Havia, e há, uma série de investigações contra o ex-presidente, algumas com indícios mais graves, outras com indícios menores. O primeiro caso a chegar à conclusão era o do tríplex no Guarujá que, segundo a acusação, lhe teria sido dado como propina pela empreiteira OAS. Ainda que sobre o caso haja uma série de dúvidas e questionamentos, é preciso lembrar que a condenação de Lula neste momento já foi confirmada por outros juízes e instâncias superiores a Moro.

Mas as conversas mostram como a expectativa da condenação excitava Moro e Dallagnol. O juiz, então, orienta ações dos procuradores, divide estratégias. Trabalha em conjunto para que não houvesse reveses no caminho da iminente condenação. Estabelece-se entre juiz e acusador um grau absolutamente indevido de promiscuidade, muito distante da imparcialidade que um juiz deve buscar. E, um parênteses: deveria buscar também o jornalista, só para deixar marcado aqui um ponto para o qual este jornalista não se cansa de insistir.

Após a condenação de Lula, Moro galga novo degrau na escalada da submissão à vaidade. Aceita ser ministro da Justiça de Jair Bolsonaro. Além do sentido de Justiça, parece prevalecer em Moro o seu próprio projeto político, algo que ele almejava ao partir na sua cruzada contra a corrupção na Lava Jato. Ser ministro do Supremo? Presidente da República?

Difícil saber até que ponto Moro foi enredado pelo pecado da vaidade. Mas os clássicos da literatura ou do cinema que falam sobre pecados contam sempre que há um preço a se pagar em um eventual pacto com o diabo. E que todo o sucesso obtido com tal pacto acaba, ao final, em arrependimento dos Faustos e outros personagens dessas histórias. Moro disse ter aceito ser ministro porque considerava que, no Executivo, poderia aprofundar a aprovação e utilização das ferramentas de combate à corrupção. Desde que entrou no governo, porém, ele muito mais coleciona dissabores que vitórias

. Seu projeto anticrime patina no Congresso. Claramente não são suas e ele torce o nariz para propostas como a que flexibiliza a porte e a posse de armas nos termos em que foi feita ou a que passa a mão na cabeça dos motoristas infratores.

A vaidade cobra seu preço. A vaidade, dizia o diabo de Al Pacino, é o seu pecado preferido…