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Política

Nós jornalistas somos “os suspeitos de sempre”


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O filme “Casablanca” certamente reúne o maior conjunto de frases antológicas da história do cinema. Aquelas que vivemos repetindo, acrescentadas que ficam às nossas vidas e experiências. “Toque outra vez, Sam” (ainda que no filme Bogart diga apenas “Play it, Sam” e não “Play it again” como a gente vive repetindo…), “Sempre teremos Paris”… e por aí vai.

Mas de todas as frases antológicas de “Casablanca”, a melhor é a dita pelo Capitão Renault, o francês colaboracionista cínico e de caráter ambíguo, quando tem que reprimir uma confusão no Rick’s Café, onde se passa o filme. “Prendam os suspeitos de sempre”, diz ele.

Ou seja, em tempos de ditadura, de liberdade reprimida, as arbitrariedades vicejam. As autoridades amplificadas, multiplicadas nos seus egos, sem necessidade de prestar contas a ninguém, relaxam no rigor das suas apurações. Num mundo que enxerga inimigos de todos os lados, prende a torto e a direito os que incomodam. Pouco importa se efetivamente cometeram o crime. Suas prisões servem tão somente para manter aceso o medo. Para renovar o gosto de sangue que rapidamente se torna um vício. Os “suspeitos de sempre” não são aqueles que, nas sombras, cometem crimes. São aqueles que, às claras, alertam para a sua existência.

Na Alemanha nazistas e nos territórios que ocupava, como Casablanca, os “suspeitos de sempre” eram os judeus, as minorias, os comunistas, os amantes da liberdade que não se curvavam àqueles tempos sombrios. Na Alemanha nazista e em qualquer momento em que a liberdade de expressão começa a correr risco, os jornalistas sempre se juntam aos “suspeitos de sempre”.

A verdade é que, para qualquer governo em algum momento, jornalistas viram os “suspeitos de sempre”. O grande escritor George Orwell, autor de “Revolução dos Bichos” e “1984” dizia: “Jornalismo é publicar aquilo que alguém não quer que se publique. O resto é publicidade”.

Nas suas obras, George Orwell tratou de dissecar e alertar para o perigo dos regimes que se constroem a partir de verdades absolutas. Vivemos hoje um momento em que muitos pregam a necessidade de “radicalizar” como solução para vencer o inimigo que enxergam do outro lado. “Radicalizar” significa “tornar absoluto”. É considerar que a verdade se encontra somente consigo. E que tudo que não vai ao encontro do que você considera verdade se torna uma mentira perigosa, que precisa ser destruída. Em “1984”, o Ministério da Verdade refazia as manchetes dos jornais e retocava fotos refazendo a “verdade” de acordo com as conveniências políticas que mudavam. Ou seja: o Ministério da Verdade era, de fato, um “Ministério da Mentira”. Mas aquilo não era exatamente um produto da imaginação de Orwell: Stálin tinha feito exatamente assim na União Soviética, eliminando dos arquivos fotos em que León Trotski aparecia, por exemplo. Na “Revolução dos Bichos”, Orwell mostra como o porco, o líder revolucionário daquele movimento de animais, aos poucos vai ficando igual ao homem que ele derrubou.

O livro de memórias do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso é cheio de críticas a jornais e jornalistas quanto à passagem de seu governo. Menospreza alguns jornalistas dizendo que não os lê. Critica jornais que o criticavam. Os acusa de “sensacionalismo”. Nos tempos do PT no poder, criou-se a expressão “Partido da Imprensa Golpista”, e muitos militantes seguem na balada de considerar que jornais e jornalistas se associaram para reduzir pelo golpe do impeachment a era petista.

Em se julgando verdade, se houve alguém que tenha se beneficiado da criação artificial de um ambiente que vinculava a era petista à corrupção, esse alguém foi o atual presidente Jair Bolsonaro. Foi Bolsonaro quem, nas eleições, conseguiu colar à percepção da sociedade a ideia de que ele era o oposto daquilo que a sociedade não mais queria.

Mas, nove meses depois de tomar posse, é Bolsonaro quem vocifera pesado contra os jornais e os jornalistas. Com seu estilo que passa longe da sutileza, diz que os jornais “mentem”, “distorcem”, “difamam”. Com o propósito de derrubá-lo. Ou seja, com velocidade impressionante Bolsonaro incorpora ao seu discurso a tese de que a imprensa é “golpista”.

Assim, diante da tarefa que temos de expor problemas e mazelas, seguimos, nós jornalistas, sendo “os suspeitos de sempre”. Em tempos de ditadura, o preço pago é bem alto. “Suspeitos de sempre” são presos, muitas vezes torturados e até mortos. Jornais são sufocados, trabalha-se para desoxigenar suas fontes de financiamento. Felizmente, em tempos de democracia, o que ficam são somente as reclamações dos poderosos…

Política

The Post, o filme, e o anseio por informação de qualidade


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Foto: Divulgação/20th Century Fox

Termina a sessão de The Post, o filme de Steven Spielberg em cartaz, e a plateia do cinema começa a aplaudir entusiasticamente tão logo aparecem os créditos finais. Por melhores que sejam, não costuma ser uma reação comum das plateias aplaudir filmes. Afinal, seus realizadores não estão ali fisicamente para receber os cumprimentos. Somente filmes que mexem muito com a emoção dos espectadores costumam receber essa reação. Pelo que me contam, a reação nesta seção de cinema não foi algo isolado. As pessoas estão aplaudindo The Post.

É algo curioso que o relato de uma situação vivida na redação de um jornal impresso na década de 1970, nos Estados Unidos, diante da tensa relação política do governo Richard Nixon naquela época, com a contestação que havia contra a Guerra do Vietnã, gere tal emoção nos dias de hoje. Para as novas gerações, talvez seja até difícil compreender os detalhes da rotina que o filme mostra nas redações dos jornais. Quantas pessoas conseguem reconhecer aquelas máquinas de linotipo ou os riscos dos desenhos de página feitos pelos diagramadores? Toda essa realidade quase extraterrena para qualquer um com menos de 40 anos aparece no filme sem qualquer preocupação didática maior de explicá-la. E mesmo assim o filme emociona. E é aplaudido no final.

Nas entrevistas sobre seu filme, Spielberg vem matando um pouco dessa charada. O que o motivou a desenvolver a história e transformá-la em filme foi o que ele chama de “tempo das fake news”. O atual ambiente, onde as pessoas informam-se pelas redes sociais, de forma rasa e descontextualizada. Não conseguem distinguir o que é falso ou verdadeiro. Nem conseguem informações mais detalhadas e aprofundadas sobre as questões que as afligem.

Em muitos momentos, a disseminação das informações é meramente militante. Os diversos grupos de interesse tratam de difundir o que lhes interessa, de forma distorcida e rasa, o mais próxima possível de mera palavra de ordem, de slogan de propaganda. A lógica das redes sociais trata de distorcer ainda mais a coisa, porque aproxima as informações ao que cada pessoa já pensa e aos seus interesses. No caso dos Estados Unidos, tendo agora um presidente com alta participação nesse jogo. Quando não está cuidando da tintura do cabelo, Donald Trump está nas redes sociais, desqualificando seus adversários e tendo como um de seus alvos preferenciais, a imprensa, que ele trata como sua adversária.

Por outro lado, a imprensa vive a maior crise da sua história. Viu esfarelar-se seu modelo anterior de negócios sem que esteja ainda construído um modelo novo. Nenhum veículo de comunicação de hoje poderia, como fez o Washington Post, como se mostra no filme, estabelecer como um de seus ativos numa reunião de negócios a atenção que dá para a manutenção de uma equipe de jornalistas de qualidade. Todos os atuais veículos de comunicação, por conta da crise, andam rifando seus jornalistas de qualidade, substituindo-os por outros mais jovens, menos experientes e mais baratos. Entregando cada vez mais reportagens aos cuidados de estagiários. Equipes menores e com menos tempo para apurar as informações que publica. No mundo do jornalismo on-line, não raro o tempo entre apuração e publicação não passa de alguns minutos. E não raro o veículo vê-se obrigado a corrigir logo depois, pela pressa, o que tinha acabado de informar.

E é preciso se reconhecer que não foram poucos os veículos que caíram na armadilha criada por eles mesmos de abandonar o antigo conceito de objetividade – esse dos tempos do filme – para declaradamente assumir posicionamentos que os fizeram pender claramente para um dos lados da disputa política. Claramente governistas ou oposicionistas, que credibilidade podem esperar ter diante do público que não professa das mesmas ideologias?

Contrapondo o jornalismo tradicional em crise, apresentam-se grupos de blogueiros voluntaristas, tentando fazer valer a ideia de que podem suprir, lobos solitários que são, as carências das cada vez menores equipes dos jornais, das revistas e emissoras de TV. Alguns falam somente para seus grupos. Outros, mal intencionados, achacam para fazer negócios. Muitos unem a isso o problema mencionado no parágrafo anterior: assumem declaradamente um lado do jogo político e não podem, assim, esperar receber, da mesma forma, credibilidade de qualquer um que não professe as mesmas ideologias. Alguns conseguem, pela experiência ou credibilidade de seus titulares, acrescentar algo. Todos, porém, carecem da estrutura mínima necessária para alimentar de forma plena seus leitores com notícias.

As reações a The Post parecem determinar um certo anseio das pessoas por informação de qualidade. Por algum tipo de contrato que lhes garanta obter um relato de confiança sobre o que lhes interessa, num quadro em que não parecem enxergar essa possibilidade vinda de lugar nenhum da imensa profusão de notícias que aparece hoje nos seus computadores, tablets e celulares.

The Post  demonstra que está longe de ser trivial, banal, o trabalho jornalístico. E que ele está longe também de ser dispensável numa sociedade moderna. Segue na mesma linha de mensagem assinalada há alguns anos por Spotlight. Primeiro, mostra como não é na verdade nada solitário o trabalho jornalístico que realmente faz diferença. Tanto em The Post como em Spotlight, fica claro como jornalismo é trabalho de equipe. Como tem resultado efetivo quanto mais toda a estrutura do jornal está envolvida. Desde o proprietário, ao dar a autorização para que a história seja investigada e publicada, até o foca mais novato. Quando envolve não apenas aqueles diretamente relacionados com a apuração, mas todo o corpo da empresa.

É um trabalho que exige dedicação, mas sobretudo estrutura. Não tem como ser bem feito nem por equipes enxutas e inexperientes nem pela ação voluntarista e individual de alguns. Ou seja: a maior parte de quem está hoje no jogo do jornalismo está a quilômetros de ser capaz de produzir informação de qualidade. E a profusão cada vez maior de informação rasa, distorcida, quando não falsa, que chega nas telas de cada um só faz provocar mais confusão e insegurança.

Por menos que compreenda as imagens dos linotipos, dos riscos dos diagramadores e das laudas das máquinas de escrever, o espectador compreende que o recebimento de informações de qualidade é algo que trabalha a seu favor. Que governante algum, seja de que partido for, jamais vai se agradar com o trabalho de uma imprensa livre, cumprindo o seu papel.  Que sempre tentará atacar ou relativizar o trabalho da imprensa.

Menos Google. Mais sola de sapato. Mais saliva gasta. Mais papel de bloquinho. Mais tinta de caneta. Não sou eu quem está pedindo. O pessoal é que está querendo…