João Goulart

Política

Os riscos da guerra total


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Reprodução/Vídeo

O vídeo estilo Rei Leão que o presidente Jair Bolsonaro nos impingiu durante um tempo e do qual depois se arrependeu é um veemente sincericídio. O presidente, com a ajuda dos seus assessores, aqueles a quem, em entrevista ao site Congresso em Foco, o ex-ministro Gustavo Bebianno chama com todas as letras de “loucos”, se coloca ali contra tudo e contra todos. Não adianta a essa altura ter se arrependido depois. Até porque, antes do seu arrependimento, seu assessor Filipe Martins já havia ratificado seu conteúdo. Ficou claro que aquilo é o que de fato pensa Bolsonaro e aqueles que o assessoram.

O vídeo demonstra que Bolsonaro hoje se sente atacado por todas as instituições brasileiras. Contra ele está o Judiciário, representado pelo Supremo Tribunal Federal. Está o Legislativo, a partir de diversos partidos – até o mesmo o seu próprio, o PSL. Está a imprensa, a partir dos seus principais veículos. Está a sociedade civil organizada, em grupamentos como o Movimento Brasil Livre (MBL) ou organizações classistas como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Bolsonaro só tem a seu favor um tal difuso “brasileiro patriota”.

Não sei se os “loucos”, como chama Bebianno, se inserem ou não nessa onda, mas já se estuda o surgimento pelo mundo de um certo anarquismo de direita. A tal nova onda, ao explicitar individualismos, coloca contra si todas as organizações da sociedade. E é daí que muitos passam a acreditar em tenebrosas conspirações, como a que envolveria toda a comunidade científica em torno de negar que a terra é plana, por exemplo. Enfim, um mundo delirante. Que fica perigoso se alguém com tais ideias chega ao poder. Espera-se que não seja o nosso caso…

O fato, porém, é que o vídeo Rei Leão de Bolsonaro é a mais explícita afirmação da existência dessa disposição contra a ordem institucional. De um sentimento, por parte de Bolsonaro e do grupo que o cerca, de isolamento e de perseguição. Que Bebianno, na entrevista, enxerga que possa desaguar mesmo futuramente em alguma tentativa de golpe.

Mas é justamente nesse ponto que qualquer arroubo golpista agora de Bolsonaro será completamente diferente da construção que se deu no golpe militar de 1964, que ele tanto venera e elogia. Em 1964, as instituições se uniram para depor João Goulart. Os militares tiveram o apoio da imprensa, do Congresso, de parte do Judiciário, de parte da sociedade civil organizada, para tomarem o poder. Se oposição dessas instituições houve, foi depois, diante da constatação de que a devolução prometida do poder não se daria e que a ditadura se consolidaria, como se consolidou, por vinte anos.

Se há por parte de Bolsonaro e de seus “loucos” – de novo, usando o termo de Bebianno – alguma estratégia, ela parece partir para uma opção de guerra total. Olavo de Carvalho e seus discípulos parecem ter percebido que a alternativa conservadora tomada não apenas aqui mas em diversos países da América do Sul por alguma razão se esfarinha. A Argentina optou por voltar para o peronismo. A Bolívia elegeu Evo Morales em primeiro turno – é preciso se verificar se com fraude ou não. O Equador protesta. O Chile nem se fala.

Seria, assim, necessária, na cabeça deles,  alguma reação. O problema é estabelecer uma reação contra tudo. Que elege todas as instituições como inimigas. Mesmo junto ao comando militar, Bolsonaro comprou diversas brigas. Reduziu o tamanho da participação de praticamente todos os seus generais. Mantém mudo o seu porta-voz, general Rego Barros. Difícil saber se contaria com a instituição Forças Armadas caso embarcasse em tal aventura. Fica, assim, com ele somente o tal “brasileiro patriota”.

E contra, as instituições. E esse é o risco da guerra total. Qual o tamanho do apoio de que dispõe Bolsonaro na sociedade? O que ele quer quando declara guerra ao Supremo? Aos demais governadores, como Wilson Witzel, do Rio? E, citando novamente Witzel e João Dória, de São Paulo, às demais forças do campo conservador? Ao seu próprio partido e aos demais? Aos movimentos sociais, incluindo aqueles que o elegeram, como o MBL? Ao final dessa guerra, sobrará o quê de pé?

O tamanho da briga comprada fica claro no desenrolar dos últimos acontecimentos. Bolsonaro foi citado pelo porteiro do seu prédio na investigação do assassinato de Marielle. Isso é fato. E, sabido, precisa ser noticiado. Mas Bolsonaro só aumentou o fogo da sua artilharia contra a TV Globo. E contra Witzel, que acusa de ter orientado tal menção aos investigadores. Aos investigadores, que teriam incitado o humilde porteiro. Menção que levará o caso ao Supremo, que ele retratou como hiena no tal vídeo.

O risco de declarar guerra contra todo mundo é se todo mundo aceitar a declaração de guerra…

Política

Rodrigo Maia, o reformista. Será raposa?


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Foto: Fabio Pozzebom/Agência Brasil-EBC

O choro do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), ao anunciar, na tarde da quarta-feira (10), o resultado da aprovação do texto-base da reforma da Previdência foi o retrato inconteste do triunfo da velha política. Pode-se comparar perfis, experiências, reputações, mas Maia recuava ali mais de 60 anos e recolocava o país na lógica do equilíbrio político que ainda hoje o caracteriza. Era o velho PSD da década de 1950 mostrando ainda as suas caras.

É incrível como o arranjo político desenhado no Brasil ao final da era Vargas seja ainda o desenho mais sólido do jogo de forças que mantém nossa estabilidade em tempos de democracia. Os partidos mudaram, novos grupos surgiram, novas pressões aconteceram, há hoje diversos elementos novos vindos de outras formas de participação da sociedade – a mais recente delas, a força de pressão direta via redes sociais. Mas a lógica que havia no tripé UDN-PSD-PTB naquele arranjo permanece. A UDN representando os grupos conservadores, de direita, à época ligados às novas categorias de profissionais liberais que surgiam com o crescimento urbano brasileiro. O PTB ligado à crescente organização sindical, dos trabalhadores que se aglutinavam com a industrialização do país e os embates do sindicalismo. E o PSD, ao centro, aglutinando os coroneis e raposas da política de líderes regionais da Velha República com novos representantes das forças moderadas.

Como mostra Lúcia Hippolito no seu ótimo livro “PSD, de Raposas e Reformistas”, o PSD foi fortemente responsável por manter a estabilidade política do final da era Vargas até o final da década de 1950, administrando e amaciando os conflitos entre esquerda e direita, partidariamente representados pelo PTB e pela UDN. Em tempos em que a Guerra Fria estimulava arroubos golpistas de um lado e de outro. Um trabalho que provavelmente atrasou em coisa de vinte anos o infeliz desfecho da ditadura militar com o golpe de 1964. Foi do PSD a última tentativa de manter as coisas estabilizadas, com a implementação do parlamentarismo para reduzir os poderes de João Goulart.

A vitória de Jair Bolsonaro após a longa era em que o PT se manteve no poder – a maior era de domínio de um partido na nossa história republicana – traz de volta para o cenário um tempo de embate forte entre direita e esquerda. Com todos os riscos de transformação disso num radical diálogo de surdos, em nada semelhante do que se espera de uma democracia. Por mais que se torça o nariz para o conteúdo da reforma da Previdência, o trabalho de Rodrigo Maia ao aprovar o texto-base trouxe a bola de novo para o centro do campo. No que isso pode significar de bom e de ruim. A lição que fica é que o jogo jogado continua a ser o da política, de quem negocia e cede. Não o de quem atropela.

De ruim, fica claro que em um país no qual hoje as forças políticas dividem-se numa miríade de partidos sem consistência ideológica, o jogo da negociação seguirá passando pelo velho toma-lá-dá da distribuição de verbas e cargos. O governo abriu firme a carteira para fazer passar o projeto. Fica claro também que seguirá conseguindo mais quem pode mais. A negociação suprimiu setores e categorias da reforma. O sistema previdenciário brasileiro seguirá sendo desigual, penalizando mais alguns e pesando bem menos sobre outros.

De bom, Rodrigo Maia mostra ao governo que o jogo da democracia não é o de vitórias ou derrotas absolutas. Não se atropela o Congresso. Não se desce goela abaixo projetos e imposições. Sempre o que se aprovará é o possível, não o totalmente desejado.

A outra lição é que,diante da constatação de situações contra as quais não há possibilidade de impedimento, quem não negocia perde totalmente. Logo no início do seu primeiro governo, o ex-presidente Lula fez uma reforma da Previdência. Ou seja: quando esteve no poder, o PT já constatou que, na prática, não se sustentava seu discurso anterior de que não era necessária uma mudança nos cálculos e nos formatos do nosso sistema previdenciário. Outros partidos de oposição, como o PDT, na campanha presidencial do ano passado, também já sustentavam a necessidade de reforma. No processo de discussão do projeto, as oposições apostaram que o governo, estabanado e de cintura dura, poderia acabar pondo tudo a perder e não aprovando nada. Acabou ficando fora da negociação. Não negociou. Não contribuiu para a formação de um projeto mais palatável. Correrá atrás agora, enfraquecido, na tentativa de emplacar algum destaque.

Enquanto isso, Rodrigo Maia estabelece como agenda seguinte a reforma tributária, a partir de projetos que já tramitavam e que tiveram iniciativa no Congresso. Ou seja, uma agenda sua, e não de iniciativa do Executivo. O tempo dirá se o presidente da Câmara de 49 anos será tão habilidoso quanto seus modelos do PSD da década de 1950. Se será capaz de segurar da mesma forma os embates entre os radicais de direita e esquerda trazendo a bola para o centro do campo. Veremos o quanto Rodrigo Maia será capaz de ser “raposa”, no seu projeto de ser “reformista”.