João Dória

Política

Ódio e ignorância


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Foto: Marcos Corrêa/PR

Nas últimas semanas, o presidente Jair Bolsonaro vem incrementando em velocidade perigosíssima a adição de dois ingredientes explosivos ao seu discurso. Esses ingredientes são o ódio e a ignorância.

Difícil saber a essa altura se a inclusão em doses cavalares desses dois temperos na sopa que vai ficando cada vez mais indigesta é fruto de estratégia ou da personalidade de Bolsonaro que aflora e que não mais ele consegue controlar.

Parece haver, sim, estratégia diversionista na profusão de frases absurdas que o presidente parece declamar sem maiores constrangimentos. Já havia no carnaval na história do “golden shower”. Houve em outros episódios, em clara combinação com outros personagens, como no caso da indicação de seu filho, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) para a embaixada dos Estados Unidos. O problema é quando o absurdo diversionista ultrapassa a produção de piadinhas sem graça e de mau gosto para ingressar no terreno das duas palavras escritas no primeiro parágrafo: ódio e ignorância.

Aí, não temos mais o Bolsonaro rindo de suas próprias piadas. Temos um presidente tenso, trincado, distribuindo à população que o apoia doses cavalares de raiva e de preconceito. A frase sobre o pai do presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Felipe Santa Cruz, não teve outro propósito senão machucar, agredir, abrir feridas e trazer de volta os traumas de uma criança de pouco mais de dois anos de idade que viu seu pai desaparecer depois de ser preso pela ditadura militar. Ao dizer saber o que acontecera com Fernando Santa Cruz, o pai do presidente da OAB, Bolsonaro agiu como agente da repressão capaz de acrescentar informações a uma família que no passado foi alijada do luto. Se concretamente, como demonstrou na sequência, não tem absolutamente nada de novo a acrescentar, só o que restou foi a crueldade. O golpe baixo contra o adversário.

Como tática, prossegue, assim, na disputa maniqueísta com seus inimigos de esquerda, mais notadamente no PT. Um tipo de disputa que o beneficiou nas eleições do ano passado. Bolsonaro imagina encontrar terreno fértil nesse jogo sem nuances. E tem alguns antagonistas que aceitam o jogo nesses termos. Por outro lado, vai levando seu discurso ao máximo extremo. Perde a cada dia o apoio dos elementos mais moderados que se puseram ao seu lado na eleição. Nesse sentido, talvez a agressão ao presidente da OAB possa ser mesmo um ponto de inflexão, dada a reação de nomes como o governador de São Paulo, João Dória, e o jurista Miguel Reale Jr., um dos autores do pedido de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff.

Mas o presidente que cultiva o ódio como estratégia repassa tal comportamento àqueles que o seguem e admiram. Cabe uma reflexão sobre até que ponto tal opção não influi em certos comportamentos violentos que pareceram crescer nos últimos seis meses. O aumento expressivo do número de feminicídios. De violência contra a mulher. De intolerância religiosa que queima, por exemplo, templos umbandistas. Até mesmo de violência contra crianças. Pessoas que começam a se sentir autorizadas, pelo ambiente construído, a libertar seus demônios interiores.

O outro elemento explosivo e perigoso que se soma é a ignorância. Bolsonaro parece muitas vezes orientar suas decisões e ações a certas impressões particulares que, quando se chocam com as evidências científicas, recebem dele autorização para mandar as evidências às favas. Lembra um dos personagens apresentados no documentário “A Terra é Plana”, que promove experimentos para provar a sua tese de que o planeta não é redondo. Todos os experimentos falham, reforçando as evidências de que ele está errado, que não há nada plano na superfície terrena. Mas ele segue repetindo que a Terra não é redonda.

A briga de Bolsonaro com o diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Ricardo Magnus Osório, é o exemplo mais veemente. Diante das evidências demonstradas pelo instituto de aumento do desmatamento na Amazônia, o presidente manda às favas as evidências.

O problema é tomar decisões de governo baseadas em achismos que desprezam as evidências. Essa parece ser uma opção rumo a perigoso obscurantismo de certa forma inédita. Há uma tendência – novamente desprovida de evidência – de que a Academia é formada unicamente por um bloco de esquerda que conspira ali para impor sua linha de pensamento. É bem diferente da linha adotada por pensadores de direita no passado. Não consta que Roberto Campos, ao discorrer sobre suas convicções de que um estatismo exagerado levaria o Brasil à bancarrota, mandasse às favas as evidências e as teorias que aprendera nos seus estudos acadêmicos. Ele, que era economista, diplomata, professor, formado em Filosofia e Teologia, pós-graduado em Economia pela Universidade de Colúmbia.

Governar desprezando as evidências é como optar por acelerar um automóvel na direção de um muro. Governar com ódio é ir acrescentando tijolos ao muro enquanto se acelera em direção a ele. Não acreditar na existência do muro não fará o muro desaparecer. E aumentar o tamanho do muro só torna ainda maior o risco grave de colisão.

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Política

Que tiro será esse? Próximo presidente pode ser uma bala perdida


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Foto: Agência Brasil-EBC

A primeira pesquisa Datafolha após a condenação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva veio mais para confundir do que para explicar. Quando ele é retirado das opções, aparece um quadro no qual Jair Bolsonaro lidera, mas sem grande consistência: sua intenção de voto diminuiu e ele perde em várias situações de segundo turno. Especialmente, a pesquisa não aponta ninguém que claramente vá se beneficiar ou ser o repositório dos votos que seriam dados a Lula no caso, bastante provável, dele não disputar a eleição. Ou seja: embolou o jogo.

Vamos admitir, apenas por hipótese, que todo esse processo,  que envolve o Ministério Público, a Polícia Federal, o Poder Judiciário em várias instâncias – que, de acordo com o site do Ministério Público, levando-se em conta somente a sua vertente no Paraná já expediu 888 mandatos de busca e apreensão, 222 mandados de condução coercitiva, 101 mandados de prisão preventiva, 111 mandados de prisão temporária, 117 condenações contra 113 pessoas, que somam 1.753 anos de prisão, entre outros números –, de fato tenha sido movido com o único propósito de impedir Lula de disputar a eleição.  Se tal conspiração for verdade, todos esses conspiradores correm o risco, a julgar pela Datafolha, de atirar no que viram e acertar o que não viram.

Parafraseando a Jojo Todynho (perdoem, sinal dos nossos tempos), há uma chance de nos perguntarmos em outubro que tiro será esse. No quadro embolado que a pesquisa Datafolha demonstra, há uma grande chance de o próximo presidente ser uma bala perdida. Ou seja: alguém completamente fora do quadro anteriormente previsto.

E, se havia nisso tudo de fato alguma conspiração de “centro-direita”, a pesquisa aponta uma grande chance do resultado final não vir desse campo.

Ao longo dos últimos dias, enquanto se desenrolava a condenação de Lula, Bolsonaro também viu sua situação ser questionada por denúncias de uso indevido de verba de moradia. Às quais respondeu de forma absolutamente grosseira. Assim, o que a pesquisa mostra é uma situação cristalizada. Como polarizava com Lula, sem ele Bolsonaro lidera. Mas com os mesmos índices que já tinha, até um pouco menos.

E quem parece mais se beneficiar da saída são outros candidatos identificados com o mesmo campo da centro-esquerda de Lula: Marina Silva e Ciro Gomes. Marina irá para a sua terceira eleição presidencial, e sempre apareceu em posição de destaque. Nas últimas eleições, chegou a liderar por um momento depois da morte de Eduardo Campos (era a sua candidata a vice). Parte da sua força vem desse recall. E parte vem de certo perfil próximo do de Lula (de mulher pobre que ascendeu, ex-petista, com preocupações parecidas). Mas, desde que saiu do PT, Marina só aumentou seu afastamento do partido, a ponto de apoiar Aécio Neves no segundo turno nas últimas eleições. Isso faz com que não herde votos da militância. Mas o eleitorado de Lula é muito maior que a militância petista.

Já Ciro faz um movimento pendular no apoio a Lula. Há tempos trabalha para ser o Plano B de Lula. Ora Ciro viu-se mais próximo disso, ora mais longe. Então, ora ele defendeu Lula mais fortemente, ora afastou-se para atacar mais duramente a ele e ao PT. O fato é que Ciro foi construindo ao longo do tempo um perfil de “sincerão”, que agrada a parte do eleitorado. E “sincerão” numa linha que coincide com certos pontos do discurso lulista e petista, de enxergar erros e disposição político-partidária nas ações da Lava-Jato, ao mesmo tempo em que por vezes aponta para erros do PT, especialmente na forma como construiu suas alianças e imiscuiu-se com elas. Se o macho man não se enrolar nas respostas como aconteceu em outras ocasiões…

A profusão de diferentes cenários testados pelo Datafolha, trazendo de volta nomes que pareciam já fora da disputa como o prefeito de São Paulo, João Dória, e o apresentador Luciano Huck, é outro elemento a reforçar como o quadro está embolado.

Dentro, portanto, dessa imprevisibilidade, alguém pode fazer um momento inesperado e tomar o tiro que os estrategistas imaginavam que iria acertar outra pessoa. Ainda vamos ter que esperar mais um pouco para saber que tiro será esse…