Jair Bolsonaro

Política

Dias de São Bartolomeu


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Reprodução do quadro O Massacre de São Bartolomeu, de François Dubois

Esta eleição já está perto da centena de casos de agressão de pessoas por motivação política. O capoeirista Moa do Katendê foi assassinado em Salvador. Uma moça em Porto Alegre teve uma suástica marcada em canivete na sua própria pele. E um delegado teve o displante de dizer que se tratava do símbolo budista de paz e fraternidade. Que jamais chegue o dia em que paz e prosperidade precisem ser uma imposição autoritária gravada a canivete no corpo das pessoas.

Mas é preciso que jamais se deixe de lembrar que a escalada de violência nestas eleições perfurou o intestino de um dos candidatos com uma facada. Colocou-o na UTI em estado grave.  Causa ainda limitações e incômodos que agora se ajustam à perfeição à sua estratégia de faltar aos debates.

A violência domina as ruas de forma descontrolada como se saísse de uma panela de pressão que explodiu. É como se o resultado do primeiro turno autorizasse barbaridades, como se demonstrações de ódio e preconceitos estivessem agora chanceladas pelo resultado das urnas. Não há dúvida: venceu o lado mais violento. Porque é o lado que admite a violência como parte da solução. Na segurança pública, na educação de crianças, para obter determinadas “curas” de gênero. Mas importa dizer também que ensaios revanchistas, que trocavam a ideia de vitória eleitoral por “tomada de poder”, também se assanharam por aí. E também apontavam um dedo ameaçador para seus inimigos.

A opção pela tolice binária, maniqueísta, como forma de disputa política mostra agora a sua face monstruosa. Era óbvio que em algum momento a guerra de torcidas, o UFC intelectual, saísse do mundo virtual das redes sociais e fosse parar nas ruas. Se a disputa optava pelo preto contra o branco, era natural o choque do branco quando viesse a vitória do preto. E provavelmente o choque não teria sido diferente se fosse o contrário.

Quando um homem vira “mito” e o outro vira “ideia”, há muito tempo abandonou-se a argumentação racional que deveria pautar uma escolha política para substituí-la por um tipo de emoção de cunho religioso. Não há nuances possível quando um ser humano de símbolo de admiração passa a ser símbolo de culto. A ele, tudo passa a ser permitido.

A essa altura do segundo turno, a campanha presidencial passa por um momento curioso de se observar por quem alertou o tempo todo para o risco do FlaXFlu apaixonado. Reportagem publicada nesta segunda-feira, 15, pela Folha de S. Paulo fala das estratégias de informação militares usadas por Jair Bolsonaro, o candidato do PSL. Mostra como o bate-cabeças da sua campanha, onde o general Mourão e o economista Paulo Guedes dizem coisas para depois serem desautorizados. Vivêssemos um ambiente de serenidade racional, esses seriam sinais de falta de unidade e gerariam insegurança. Nos nossos tempos de devoção religiosa, contudo, servem para reforçar ainda mais a figura do “mito”. É ele quem chega com sua autoridade, desautoriza e coloca seus subordinados nos seus devidos lugares. Eles, humanos, são falhos. Bolsonaro, a essa altura mais que humano, a eles levará a luz.

As hostes lulistas, porém, não agiam de forma diferente. Enquanto Lula liderava com folga as pesquisas e transferia com velocidade ultrassônica suas intenções de voto para Fernando Haddad, de nada adiantava alertar que a estratégia era arriscada, que isolava o PT, que não admitia espaços para recuos e rearranjos. A estratégia de Lula era genial e levaria à vitória. Agora, por exemplo, o apresentador Luciano Huck escreve artigo criticando Bolsonaro e dizendo que suas ideias são retrógradas, sectárias, preconceituosas e belicistas. Aí, alguém imediatamente posta: “Um que acordou”. Acordou de quê? Alguma vez Huck declarou que apoiaria Bolsonaro? O fato de ter posições mais conservadoras e não apoiar o PT o faz, então, seguidor de Bolsonaro? Somente na cabeça binária que se instalou no Brasil. Quando quem não está de um lado está necessariamente do outro.

Essa é a grande dificuldade vivida agora por Haddad. Ele precisa ampliar sua votação quando, durante anos, o PT optou por esse tipo de pensamento binário, que adotava o termo “fascistas” para todos a quem se opunha. Da mesma forma como Bolsonaro chama de “comunistas” todos os que não estão com ele. Agora, Haddad busca, por exemplo, apoio do ex-ministro do STF Joaquim Barbosa. Aquele que já foi o suprassumo do mal por condenar autoridades petistas envolvidas no mensalão. É complicado precisar agora dos matizes quem vinha pintando ignorando que existem mais de 50 tons de cinza…

São tristes e sangrentos os momentos em que os embates políticos se tornam religiosos. Na história da França, um dos mais horrorosos desses momentos foi a Noite de São Bartolomeu, quando católicos, apoiados pelo próprio rei, saíram às ruas assassinando protestantes. Os relatos dizem que somente naquela noite, mais de duas mil pessoas foram assassinadas pelas ruas de Paris. Como os episódios seguiram-se por outras cidades francesas por semanas, meses e até anos, há quem compute quase cem mil mortes associadas com a Noite de São Bartolomeu.

Foram, na verdade, dias de São Bartolomeu. Dias em que a certeza absoluta numa verdade única transformava-se em ódio contra os que pensavam de forma diferente. Quando o ódio virava preconceito. E se transformava em violência. Autorizadas pelo júbilo de vitórias. Os dias de São Bartolomeu estão de volta…

Política

O PT encolheu-se no primeiro turno. O que fará no segundo?


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Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil – EBC

Na construção das eleições deste ano, desde sempre Jair Bolsonaro, do PSL, escolheu o PT como seu adversário. Ele não saberia e provavelmente não teria tido o mesmo resultado se sua disputa não fosse com alguém do partido da estrela. E, no caminho contrário, o PT também desde sempre escolheu Bolsonaro como seu adversário. Assustou-se ao final quando viu o tamanho do antipetismo, mas seu adversário predileto sempre foi Bolsonaro. Da mesma forma, dificilmente também venceria um segundo turno contra algum candidato mais moderado.

Na verdade, Bolsonaro é, em grande parte, fruto das escolhas feitas pelo PT desde que começou a ser enredado pelos escândalos de corrupção e começou a construir a narrativa de que era tudo mentira e de que não passava de vítima das elites. Até o mensalão, o PT estava de braços dados com as elites. As elites aceitavam com disposição a ideia de fazer com os petistas um governo de coalizão. Henrique Meirelles saíra do Banco de Boston e de uma eleição como deputado federal pelo PSDB para virar presidente do Banco Central de Lula. Giselle Bündchen doava valiosos diamantes de sua coleção para o programa Fome Zero. Jorge Gerdau, Benjamin Steinbruk, Marisa Serrano (das Lojas Marisa) e Paulo Skaf estavam no Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social.

Logo depois do mensalão, o PT esboçou fazer uma autocrítica e uma correção de rumos. Expulsou Delúbio Soares dos seus quadros. Tirou José Dirceu da Casa Civil. Sob a presidência de Tarso Genro, ensaiava expulsar outros e fazer o que Genro chamava de “refundação”. Lula chegou a pedir “desculpas” à Nação. Mas, contido o escândalo, o presidente começou a recuperar sua popularidade. Confiante, reintegrou Delúbio, trouxe Dirceu de volta ao centro. A balada foi se aprofundando após o petrolão.

É verdade que fragilidades e abusos da Justiça e dos investigadores ajudaram na escolha do PT. Dilma fazia um governo desastroso que mergulhava o país numa crise sem precedentes. Mas os motivos para o seu impeachment sempre foram difusos e frágeis. E o arranjo matreiro final que cassou o seu mandato mas manteve os seus direitos políticos só piorou as coisas. A condenação de Lula por conta da história do apartamento do Guarujá é igualmente fraca. Embora haja elementos mais fortes em outras histórias, como a do Sítio de Atibaia, que ainda não foi julgada.

O problema, porém, é que na campanha deste ano o PT muitas vezes pareceu mais preocupado em reconstruir a narrativa, especialmente a narrativa de Lula, do que efetivamente em ganhar as eleições. Partiu para uma campanha que em muitos momentos foi de afronta às instituições. Instigou sua militância a ir às ruas contra o Judiciário, contra o Congresso, contra o Ministério Público, contra a imprensa. Em vez de personalizar eventuais posições politizadas de alguns, preferiu generalizar. Era um complô das instituições.

Todas as pesquisas de opinião desde o ano passado já mostravam que Lula tinha grande potencial eleitoral, produto da sua popularidade e carisma, especialmente no Nordeste. Mas tinha também rejeição alta. A reeleição de Dilma já tinha mostrado um país dividido. Assim, desde sempre ser novamente candidato era opção de alto risco. Risco ainda mais alto pela opção de construir sua candidatura como uma reação à “perseguição” que o partido dizia sofrer. Era, portanto, uma opção construída com raiva.

As denúncias de corrupção contra ele indicaram também já desde o ano passado que era muito grande a possibilidade de Lula não poder ser candidato, porque acabaria condenado. Indicava-se com muita clareza a necessidade de construção de uma alternativa. Ciro Gomes, do PDT, colocou-se sempre de forma clara como desejoso de se tornar essa alternativa. O PT desdenhou-o. Mais do que isso, trabalhou depois para esvaziar suas chances eleitorais, fazendo um acordo com o PSB, que agora é difícil saber se para o PT realmente valeu a pena.

Esboçou logo Fernando Haddad como uma de suas alternativas internas. Mas levou a definição para os 45 minutos do segundo tempo. Estabeleceu claramente, portanto, que Haddad era um reserva de Lula. Alguém sem luz própria. Alguém que seguiria as orientações do mestre preso.

Adotou-se, assim, uma estratégia extrema. Que muitos militantes do PT entenderam como revanchista. Se vencessem, reconstruíram as narrativas, enquadrando Judiciário, imprensa, inocentando seus líderes considerados culpados, Lula acima de todos. Algo que Ciro Gomes classificou em mais de um momento como um “baile à beira do precipício”.

Cada passo dado a caminho dessa radicalização, fortalecia mais Bolsonaro como a sua antítese. O PT parecia esquecer-se de algumas lições do estudo que fizera André Singer antes da eleição de 2002, e que serviu de bíblia para a construção do perfil “Lulinha Paz e Amor”. Mostrava Singer que o povo brasileiro, em sua maioria, é conservador. Dizia, além disso, que esse povo “não gosta de bagunça”. O discurso do PT afrontava instituições. Bolsonaro, por seu lado, falava em “ordem” e “autoridade”. Seus eleitores falavam também em “intervenção militar”. Que é golpe. E golpe é bagunça. Mas, ante os olhos conservadores, é como se fosse uma bagunça organizada, feita por quem tem a autoridade das armas. Mais tarde, o discurso evoluiu para o que chamaram de “intervenção pelo voto”. Ou seja: uma guinada conservadora pela via democrática. O que é algo perfeitamente dentro das regras.

Além disso, o resultado das urnas ao final deste primeiro turno indica de forma clara que o PT pode até ter o apoio de parte da população para retornar ao poder. Mas não tem para reconstruir como gostaria a narrativa que o inocenta. Toda vez que os institutos de pesquisa perguntaram, a maioria dos entrevistados disse apoiar a Lava Jato e a prisão de Lula. E a derrota de Dilma Rousseff para o Senado em Minas demonstra pouca disposição de avalizar a solução matreira dada no seu impeachment e trazê-la de volta à cena.

Agora, para crescer no segundo turno, precisará o PT refazer toda a sua estratégia. Precisará mostrar que é Bolsonaro quem a vida inteira declarou e demonstrou apreço a governos e soluções antidemocráticas. Mas seu enrosco está no fato de também ter flertado com a afronta às instituições. Precisará mostrar que a vitória eleitoral está acima da eventual reconstrução da sua narrativa. Que essa vitória não inclui planos revanchistas que poderão pegar mesmo alguns daqueles que tenta agora conquistar no segundo turno. Que não quer “tomar o poder”, como disse José Dirceu, mas exercê-lo em nome da sociedade. Terá, enfim, usando a expressão de Ciro Gomes, encontrar outro lugar para o seu baile, que não seja a beira do precipício.

Política

Os plebiscitos do próximo domingo


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Foto: Antônio Cruz/Agência Brasil – EBC

Em Brasília, uma moça circulava entre as cerca de 30 mil pessoas que se manifestavam contra o candidato do PSL à Presidência, Jair Bolsonaro, com o seguinte cartaz: “Sou coxinha. Mas ele não!”

A julgar pelos acontecimentos deste sábado, 29, talvez seja preciso rever em parte o que escrevi na edição desta semana da revista IstoÉ, a partir da avaliação feita pelo diretor do Insituto Sensus, Ricardo Guedes. Para Guedes, a polarização que as pesquisas demonstram entre Bolsonaro e o candidato do PT, Fernando Haddad, indica que a eleição será um plebiscito sobre os últimos 16 anos do país. PT X anti-PT, segundo a sua análise.

As manifestações deste sábado talvez indiquem que, além do julgamento sobre a era PT, um outro plebiscito esteja sendo feito também no próximo domingo, 7 de outubro, quando os brasileiros irão às urnas. Um plebiscito sobre o valor que o cidadão deste país dá à manutenção dos princípios que fundaram a nossa democracia após os mais de 20 anos de ditadura militar. Princípios contidos na Constituição que completa agora 30 anos.

Se a Constituição de 1988 tem entre seus defeitos o fato de ser prolixa demais, esse defeito muito decorre da preocupação que havia entre os constituintes de reforçar como princípios o respeito às minorias, a garantia da igualdade de direitos e a preocupação social. Aparentemente, acendeu em parte da população o sinal de que tais princípios correm sérios riscos.

A partir daí, diante do claro quadro de polarização, boa parte dos cidadãos passa a fazer suas escolhas diante do risco de ameaça que sente com relação à manutenção desses princípios. Como a moça que se declara “coxinha”, mas sai para a manifestação junto aos eleitores tradicionais do PT de Fernando Haddad.

Não que esteja fora do foco da eleição de domingo a avaliação da era petista. Ou, mais que a era petista, a era lulista. Ela levou à polarização. O crescimento de Fernando Haddad herdando os votos que eram dados a Lula, barrado pela Lei da Ficha Limpa, se explica por isso. E, de outro lado, os eleitores concentraram seus votos anti-PT e anti-Lula naquele que mais fortemente parecia ser a sua antítese: Jair Bolsonaro.

A partir de agora, porém, se houver ampliação da intenção de voto em Haddad, ela não se dará mais tanto por essa motivação. Ela se dará porque, diante do quadro polarizado e das reduzidas chances dos demais candidatos, Haddad seria o antídoto a evitar o que se teme em Bolsonaro.

As manifestações contrárias ao candidato do PSL foram significativamente maiores que as manifestações a seu favor. A favor de Bolsonaro, a maior parece ter sido a da praia de Copacabana no Rio de Janeiro. Não fosse pelo fato de ter tido alta do hospital, o sábado não seria um dia de boas notícias para ele. Bolsonaro poderá voltar à sua campanha, ainda que com limitações. Seu grande desafio agora será tentar provar que não representa os riscos que levaram por todo o país multidões às ruas.

Nesse sentido, porém, ele começa mal. Quando seguidamente Bolsonaro declara desconfiança do sistema eletrônico de votação, e diz que não acreditará em nenhum outro resultado que não seja a sua vitória, ele atiça o temor de que prevaleçam seus pendores antidemocráticos. Ofusca-se o candidato que se submete democraticamente ao pleito. Sobressai aquele que elogiou o golpe de 1964 e seus personagens, como Carlos Alberto Brilhante Ustra. No sábado, Bolsonaro foi brindado com um editorial da TV Globo, no Jornal Nacional, reafirmando a necessidade de os candidatos respeitarem as regras a que aceitaram se submeter, inclusive quanto ao resultado final do pleito.

Agora, por outro lado Haddad tem também o desafio de segurar as línguas de alguns de seus aliados. Se, para além do plebiscito sobre a era petista, há mesmo no domingo um plebiscito sobre nossos princípios democráticos, certamente não ajuda nem um pouco uma declaração como a dada por José Dirceu, ao dizer que o que haverá, no caso de uma vitória de Haddad, será não uma eleição, mas uma “tomada de poder”.

Não, José Dirceu. Não será uma tomada de poder. O Brasil democrático se governa a partir de uma harmonia entre os três Poderes. O Poder Executivo precisa se entender e governar em conjunto com o Legislativo e o Judiciário. Então, o presidente eleito não “toma o poder”. Ele recebe da sociedade uma procuração para, democraticamente, agir em nome dela. Quando age de modo diferente da sua vontade, há diversos instrumentos para que a vontade da maioria prevaleça. A começar pela necessidade de aprovação de seus atos pelo Legislativo. Da mesma forma, não ajuda o questionamento de decisões judiciais e afrontas ao Judiciário, pelos mesmos motivos. Como diz a Constituição que completa 30 anos, “todo poder emana do povo”. O poder não será do PT ou de quem vencer a eleição. O poder continuará sendo do povo.

Àqueles que estão à frente do duelo marcado para o próximo domingo, é precisam que compreendam muito bem quais serão as motivações dos eleitores. O país vive momento delicado. Está dividido. Interpretar de forma errada os recados que vêm das ruas poderá ser algo de potencial extremamente perigoso.

Política

No FlaXFlu, é o “ai, Jesus!” 


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Foto: EBC/Agência Brasil

Na sua primeira entrevista como presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), o ministro Antônio Dias Toffoli viu-se obrigado a declarar que, qualquer que seja o resultado das eleições deste ano, ele será “respeitado”. Terminada a ditadura militar, o Brasil vem votando rotineiramente para presidente da República desde 1989. Ninguém jamais tinha antes achado necessário afirmar que o resultado das urnas seria “respeitado” qualquer que fosse ele. Porque, se vivemos numa democracia, tal frase seria óbvia. Se ela se torna necessária, é por conta dos tempos estranhos que vivemos. Tempos de ódio. Tempos de radicalização. De maniqueísmo. De polarização absoluta. Tempos de FlaXFlu. E, no FlaXFlu, como disse Lamartine Babo na letra do hino do Flamengo, “é o ai, Jesus!”

A pesquisa do Ibope divulgada nesta segunda-feira, 24, reforça a polarização. A não ser que haja uma reviravolta muito grande, o segundo turno será disputado por Jair Bolsonaro, do PSL, e Fernando Haddad, do PT. Neste momento, cerca de dois milhões de mulheres encontram-se nas redes sociais em franca campanha contra Jair Bolsonaro, do PSL, a quem não dizem o nome, chamam de “Coiso” e algumas outras denominações, como os personagens dos livros de Harry Potter faziam com Voldemort. Do outro lado, os apoiadores de Bolsonaro aprofundam os motivos para que seus adversários o chamem de “Coiso” cantando nas ruas que feministas, caso ele ganhe, vão “comer na tigela” porque têm “mais pelos do que cadela”. É nesse clima que caminhamos para o primeiro turno no dia 7 de outubro.

Foi por volta do julgamento do Mensalão, um pouco antes, um pouco depois, que a polarização começou a se esboçar. Que grupos começaram a se dividir nas redes sociais como se fossem torcidas de times de futebol. O início do FlaXFlu. Durante um tempo, era claro que a guerra de torcidas era travada por grupos mais radicais de cada lado. Mas o ativismo dos grupos foi contaminando o debate, colocando, de fato, a maioria da sociedade nessa disputa louca. É de forma absoluta, sim ou não, preto ou branco, que hoje a sociedade parece ver a disputa política. Assim a sociedade parece querer. Assim tudo indica que ela irá votar. Que assuma, então, as consequências depois. Consequências que já levam antes do pleito o presidente da Suprema Corte a dizer que o resultado das eleições “será respeitado”.

Em entrevista ao jornal Valor, José Dirceu, um dos principais estrategistas do PT, diz que o Brasil está dividido ao meio. Segundo ele, 45% estão com o PT e 45% estão com Bolsonaro e outros candidatos conservadores. E que esses conservadores irão votar em Bolsonaro como votaram antes em Fernando Collor e Jânio Quadros, porque jamais votarão num projeto de esquerda. José Dirceu é, sem dúvida, um bom estrategista político. Mas há problemas em seu raciocínio.

Primeiro problema: os conservadores já votaram no PT em eleições anteriores. Como governo, o PT jamais se propôs a ser radical, no extremo da esquerda, como a atual polarização tenta impor. Os governos petistas foram governos de coalizão. Que agregavam partidos que iam da esquerda à direita, como, por exemplo, o PP. Lula teve como seu vice um empresário conservador, José Alencar. Tinha ministros de esquerda na reforma agrária e de direita, defensores do agronegócio, como Kátia Abreu, na Agricultura. Mesmo hoje, seria difícil considerar boa parte dos eleitores das classes mais baixas, especialmente no Nordeste, como de esquerda. Eles são eleitores que o PT não tinha e conquistou no governo com seus programas sociais que representaram melhora nas suas vidas. Não pessoas de esquerda. E certamente não são de esquerda diversos políticos aliados ao PT no Nordeste, como Renan Calheiros (MDB-AL) ou Ciro Nogueira (PP-PI).

O que o PT fez desde o Mensalão foi construir uma narrativa no qual se colocava como vítima das forças conservadoras (que, em parte estavam e anda estão do seu lado). Um discurso que foi aprofundando cada vez mais a ideia de que vivíamos um “nós contra eles”. A elite conservadora, os “louros de olhos azuis”, como chegou a dizer o ex-presidente Lula certa vez, de um lado, e a classe trabalhadora de outro.

Se a ideia do antipetismo refluiu para Jair Bolsonaro, alguém que não demonstra apreço pela democracia, que a vida inteira flertou com o autoritarismo, defendendo o período da ditadura militar e torturadores como Brilhante Ustra, é impossível não considerar que isso em parte tenha se dado porque, na sua defesa, o PT não raras vezes colocou-se como mais de esquerda do que realmente era.

Se houve excessos, erros ou injustiças cometidos nos processos contra o PT, precisaria o PT também em algum momento avaliar em que medida seu próprio comportamento dividiu o país e colocou da forma como colocou metade do país contra ele. E fez com que essa outra metade admitisse da forma como hoje parece admitir ungir alguém que pode mesmo vir a comprometer toda a longa reconstrução democrática que o país vem fazendo desde o fim do regime militar.

Talvez a racionalidade, de um lado e de outro, possa ao final corrigir os rumos e evitar essa tragédia. Fazendo com que o caminho da democracia seja mantido. Segurando os arroubos mais apaixonados das torcidas. Que foram construindo um mundo cuja máxima tem sido: “quem não está comigo, é meu inimigo”. É um mundo de “sim” ou “não”. De preto ou branco. E o mundo real é cheio de matizes. Tem bem mais de 50 tons de cinza. Ignorá-los é um perigo. Ignorância é sempre um perigo. E sempre cobra seu preço.

Política

Que tiro será esse? Próximo presidente pode ser uma bala perdida


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Foto: Agência Brasil-EBC

A primeira pesquisa Datafolha após a condenação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva veio mais para confundir do que para explicar. Quando ele é retirado das opções, aparece um quadro no qual Jair Bolsonaro lidera, mas sem grande consistência: sua intenção de voto diminuiu e ele perde em várias situações de segundo turno. Especialmente, a pesquisa não aponta ninguém que claramente vá se beneficiar ou ser o repositório dos votos que seriam dados a Lula no caso, bastante provável, dele não disputar a eleição. Ou seja: embolou o jogo.

Vamos admitir, apenas por hipótese, que todo esse processo,  que envolve o Ministério Público, a Polícia Federal, o Poder Judiciário em várias instâncias – que, de acordo com o site do Ministério Público, levando-se em conta somente a sua vertente no Paraná já expediu 888 mandatos de busca e apreensão, 222 mandados de condução coercitiva, 101 mandados de prisão preventiva, 111 mandados de prisão temporária, 117 condenações contra 113 pessoas, que somam 1.753 anos de prisão, entre outros números –, de fato tenha sido movido com o único propósito de impedir Lula de disputar a eleição.  Se tal conspiração for verdade, todos esses conspiradores correm o risco, a julgar pela Datafolha, de atirar no que viram e acertar o que não viram.

Parafraseando a Jojo Todynho (perdoem, sinal dos nossos tempos), há uma chance de nos perguntarmos em outubro que tiro será esse. No quadro embolado que a pesquisa Datafolha demonstra, há uma grande chance de o próximo presidente ser uma bala perdida. Ou seja: alguém completamente fora do quadro anteriormente previsto.

E, se havia nisso tudo de fato alguma conspiração de “centro-direita”, a pesquisa aponta uma grande chance do resultado final não vir desse campo.

Ao longo dos últimos dias, enquanto se desenrolava a condenação de Lula, Bolsonaro também viu sua situação ser questionada por denúncias de uso indevido de verba de moradia. Às quais respondeu de forma absolutamente grosseira. Assim, o que a pesquisa mostra é uma situação cristalizada. Como polarizava com Lula, sem ele Bolsonaro lidera. Mas com os mesmos índices que já tinha, até um pouco menos.

E quem parece mais se beneficiar da saída são outros candidatos identificados com o mesmo campo da centro-esquerda de Lula: Marina Silva e Ciro Gomes. Marina irá para a sua terceira eleição presidencial, e sempre apareceu em posição de destaque. Nas últimas eleições, chegou a liderar por um momento depois da morte de Eduardo Campos (era a sua candidata a vice). Parte da sua força vem desse recall. E parte vem de certo perfil próximo do de Lula (de mulher pobre que ascendeu, ex-petista, com preocupações parecidas). Mas, desde que saiu do PT, Marina só aumentou seu afastamento do partido, a ponto de apoiar Aécio Neves no segundo turno nas últimas eleições. Isso faz com que não herde votos da militância. Mas o eleitorado de Lula é muito maior que a militância petista.

Já Ciro faz um movimento pendular no apoio a Lula. Há tempos trabalha para ser o Plano B de Lula. Ora Ciro viu-se mais próximo disso, ora mais longe. Então, ora ele defendeu Lula mais fortemente, ora afastou-se para atacar mais duramente a ele e ao PT. O fato é que Ciro foi construindo ao longo do tempo um perfil de “sincerão”, que agrada a parte do eleitorado. E “sincerão” numa linha que coincide com certos pontos do discurso lulista e petista, de enxergar erros e disposição político-partidária nas ações da Lava-Jato, ao mesmo tempo em que por vezes aponta para erros do PT, especialmente na forma como construiu suas alianças e imiscuiu-se com elas. Se o macho man não se enrolar nas respostas como aconteceu em outras ocasiões…

A profusão de diferentes cenários testados pelo Datafolha, trazendo de volta nomes que pareciam já fora da disputa como o prefeito de São Paulo, João Dória, e o apresentador Luciano Huck, é outro elemento a reforçar como o quadro está embolado.

Dentro, portanto, dessa imprevisibilidade, alguém pode fazer um momento inesperado e tomar o tiro que os estrategistas imaginavam que iria acertar outra pessoa. Ainda vamos ter que esperar mais um pouco para saber que tiro será esse…

Política

O importante ABC de Bóris Fausto


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Foto: Dilma no dia em que deixou o Palácio da Alvorada (Wilson Dias/Agência Brasil – EBC)

Quer uma dica? Não termine a semana sem ler a entrevista do historiador Bóris Fausto publicada neste sábado no UOL. Deixe de lado as preferências políticas pessoais dele, tão legítimas como as suas. Abandone as luvas de boxe com que participa desse inútil e triste UFC intelectual que virou o país e reflita a partir do pensamento de um dos maiores historiadores deste país (aliás, se você não possui nem deixa próximo de sua mesa de cabeceira, procure nas livrarias a fundamental História do Brasil de Bóris Fausto).

O ponto central da entrevista é a avaliação de Bóris Fausto de que o processo de impeachment contra a ex-presidente Dilma Rousseff abriu sobre o Brasil uma Caixa de Pandora. De onde saem fatos e monstros de consequências imprevisíveis e incontroláveis.

Como afirma já ao final da sua entrevista, Fausto não foi contra o impeachment de Dilma. Menos pelas tais pedaladas fiscais e mais pelo estado de total ingovernabilidade em que se encontrava o país. O problema é que o impeachment não trouxe tal governabilidade de volta. Pelo contrário, desprendeu do país reações complicadas e violentas, cujas consequências são impossíveis de se prever.

Começa pelo fato, diz o historiador, de as motivações de cada um dos parlamentares que participou do processo terem sido muito mais pessoais que cívicas. Pesou no processo como o impeachment poderiam salvar a própria pele de muitos, ou de que forma aquilo poderia contribuir para as ambições futuras de cada um. Aquilo que ficou patente na já célebre conversa do senador Romero Jucá (PMDB-RR) com o ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado: a construção de um grande “acordo nacional” que limitasse o processo da Lava-Jato no PT e o concluísse em Dilma, livrando a cara dos demais.

Ocorre que nem todo mundo aceitou participar do tal “acordo”. Bóris Fausto observa que a Lava-Jato pode estar correndo perigos, mas ela não parou. Ao contrário: como um dos primeiros fatos que veio na sequência, o próprio presidente Michel Temer viu-se como um dos principais alvos das denúncias. Assim, um governo que não era legitimado pelo voto viu-se com imensas dificuldades de se legitimar de alguma outra forma, já que seu comandante encontra-se enrolado na mesma teia que enredou sua antecessora e o partido dela.

Uma situação que leva a um desencanto generalizado com a política, com seus atores e partidos. Partidos que já eram enfraquecidos pelo fato de não terem, a quase totalidade, sequer a sombra da consistência ideológica que chegaram ter os partidos da nossa experiência democrática anterior, de 1945 a 1964. Desse caldo emerge uma figura como Jair Bolsonaro, como expressão de certa vocação autoritária brasileira, que em outras épocas subiu ao poder pelo golpe, mas que talvez agora tenha alguma chance de se legitimar pelo voto.

Que leva à total desarmonia entre os Poderes. Um Legislativo já de algum tempo desmoralizado. Um Executivo com os problemas apontados acima de legitimidade. E um Judiciário que ocupa o vácuo, legislando e tomando decisões administrativas (como a decisão de impedir a posse da deputada Cristiane Brasil no Ministério do Trabalho).

Num cenário onde tudo se torna questionável, partidarizado, politizado ao extremo, lidera as pesquisas de intenção de voto o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, condenado em segunda instância, num quadro, portanto, de total incerteza jurídica. Numa estratégia de desafio e confronto que, em alguns momentos e por conta de alguns personagens, derrapa para o perigoso flerte com a desobediência civil.

Bóris Fausto observa que estamos longe de ter no Brasil “uma democracia plena e consolidada”. Até porque tivemos o mau hábito de seguidamente interromper esse processo com aventuras autoritárias. Assim, esse quadro todo coloca em risco tudo pelo que se lutou e que se conquistou desde 1985, quando se derrubou a ditadura militar.

Ele mostra-se otimista com a possibilidade de as eleições de outubro conseguirem dar um freio de arrumação nisso tudo, com a eleição de um presidente legitimado pelo voto. Tomara que Bóris Fausto tenha razão. A leitura desapaixonada das avaliações de pessoas com o grau de conhecimento e a capacidade de análise como Bóris Fausto nos ajudaria. Mais reflexão e menos FlaXFlu nos ajudará a sair desse enrosco.