Jair Bolsonaro

Política

Vazios da polarização


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Uma tentação à qual eu sempre resisti como jornalista e analista político foi de fazer previsões. Jornalista não é pitonisa. Não lê búzios nem bola de cristal. Jornalista não tem dom premonitório. Alguns têm imensa vaidade e presunção. O que os faz cair na tentação de arriscar a clarividência.

Dois anos antes da eleição de 2018, mais ou menos no mesmo período em que agora estamos da eleição de 2022, em um debate com jornalistas em uma universidade de Brasília, comentava, sem arriscar previsões de futuro, que parecia se acirrar cada vez mais o embate esquerdaXdireita com estridência de guerra de torcidas, de FlaXFlu. E que isso talvez pudesse fazer crescer a candidatura de Jair Bolsonaro contra o PT de Lula nas eleições presidenciais seguintes. Alguns jornalistas presentes minimizaram essa possibilidade, dizendo que o Brasil sempre tendia para o centro, e que Geraldo Alckmin, o candidato do PSDB, iria crescer e engolir tais pretensões. Se nenhum dos leitores aqui desembarcou agora de Marte, não é preciso lembrar o que de fato se deu dois anos depois.

Da mesma forma sem nenhuma pretensão de fazer previsões, é preciso dizer que o cenário atual, a dois anos das próximas eleições presidenciais, segue apontando para uma forte polarização entre Jair Bolsonaro e o PT de Lula. Novamente com a mesma limitação que em 2018 o próprio Lula se tornasse candidato: ele é inelegível, com base na Lei da Ficha Limpa, que ele mesmo sancionou como presidente, por estar condenado em segunda instância tanto no caso do tríplex do Guarujá como no caso do Sítio de Atibaia.

De forma ainda mais intensa que dois anos antes da eleição de 2018, Bolsonaro agora parece imprimir a estratégia de radicalizar na polarização ideológica, tendo Lula e o PT como seus antagonistas. A coisa ganha agora mais intensidade porque Bolsonaro é o presidente. Ou seja, tornou-se o grande protagonista do xadrez político e imprime o tom e as regras do jogo.

Por outro lado, se a intenção é radicalizar ao máximo, Lula e o PT parecem morder a isca. Ou considerar que essa polarização de alguma forma também os beneficia no jogo. O PT parece apostar no desgaste de Bolsonaro, que talvez possa se confirmar pela queda na sua popularidade e pelo afastamento de aliados. E apostar que a recuperação econômica amparada no liberalismo exacerbado do ministro da Fazenda, Paulo Guedes, não vai se reverter em ganhos concretos para a população.

É possível que Lula e o PT estejam certos quanto ao desgaste político de Bolsonaro daqui até 2022. Quanto ao desgaste econômico, dados os acenos de recuperação, pode ser mais incerto. Bolsonaro parece politicamente meio embananado com a história da criação do Aliança pelo Brasil e com a briga com o PSL. Ficou sem partido. Ficou sem base formal no Congresso. Talvez sem condições de oficializar o Aliança para as eleições municipais deste ano, pode se ver obrigado a construir alianças insólitas com diferentes partidos, formando um pavimento incerto para 2022.

Mas a opção de Lula e do PT de radicalizar o antagonismo também limite suas possibilidades de aliança. Neste momento, ou se está de cabeça no projeto Lula/PT para 2022 ou se é também considerado adversário. Ou seja: na aposta de confrontação radical, tanto Bolsonaro quanto Lula se escolhem como adversários e limitam o embate ao máximo entre os dois.

As pesquisas mostram a ambos com faixas em torno de 30% de simpatia do eleitorado. Fica, então, um vazio a ser conquistado por outras candidaturas. Ou que acabará no fim se omitindo da disputa ou em parte sendo atraído pelas duas opções radicais. É a movimentação em torno desse vazio que precisa ser observada.

Chama a atenção em recente pesquisa divulgada pelo Datafolha que Lula e o apresentador de TV Luciano Huck parecem correr na mesma raia de preferência do eleitorado. No país que se move menos por questões ideológicas do que gostaria a guerra das redes sociais, ambos têm seus cacifes principais nos eleitores do Nordeste e de baixa escolaridade. Por outro lado, a mesma pesquisa mostra que o ministro da Justiça, Sergio Moro, pode ser a pedra no sapato de Bolsonaro, crescendo beneficiário das brigas desnecessárias e do desgaste que o presidente promove entre seus aliados.

São dados que mostram que a manutenção da tendência mais conservadora na opção dos eleitores pode se dar novamente nos próximos pleitos. Se Huck pode roubar votos de Lula, essa hipótese fica evidente.

O quadro após a eleição municipal no segundo semestre vai clarear o cenário. Qual será o saldo de Bolsonaro, se entrar na disputa sem partido? Até que ponto seus eventuais aliados poderão já a partir daí migrar para a construção de uma opção Moro? Lula consolida sua base no Nordeste ou a perde para outro nome conservador, como Huck? São as perspectivas em torno do vazio consequente da polarização que deverão mostrar os contornos do futuro.

Política

Saída pela direita?


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Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil – EBC

A pesquisa divulgada no primeiro dia do ano pelo Instituto Datafolha reforça impressões perigosas, que devem fazer acender um alerta na sociedade. Mas que também servem para apontar para qual rumo político deve continuar seguindo o país neste ano de 2020 e nos próximos.

De acordo com a pesquisa, diminuiu o apoio dos brasileiros à democracia. Felizmente, a maioria de nós continua considerando que a democracia é o melhor regime de governo. Ou, pelo menos, como dizia Winston Churchill, é o pior à exceção de todos os outros. Segundo o Datafolha, 62% dos brasileiros consideram que a democracia é sempre a melhor forma de governar. Em outubro de 2018, porém, quando foi feita a mesma pergunta, o apoio à democracia foi de 69%. Um outro dado que preocupa é que aumentou nove pontos percentuais a parcela daqueles que consideram que tanto faz se o governo seja democrático ou não: de 13% para 22%. Manteve-se o índice dos que disseram considerar que uma ditadura pode ser melhor que a democracia em certas circunstâncias: 12%.

Para além das chances de retorno de uma ditadura, que o maior percentual dos entrevistados considera uma possibilidade remota, os dados do Datafolha reforçam uma constatação: o Brasil endireitou. Não no sentido de que tenha deixado de ser torto. Mas no sentido de que guinou à direita.

Infelizmente, com as seguidas interrupções que tivemos ao longo da nossa vida na nossa democracia, não conseguimos amadurecer na nossa sociedade a aptidão democrática. Adquirimos um sentimento paternalista com relação aos nossos governantes. Esperamos que eles sejam uma espécie de redentores com a capacidade de resolver todos os nossos problemas com a força das suas canetas. Como nenhum deles, por melhor que seja, jamais terá tal capacidade, nos frustramos. E essa frustração nos leva a desprezar a democracia, imaginando que mais poder dará mais tinta à caneta. Depois, nos arrependemos. E seguimos assim nossa trágica sina.

Dificilmente, conservadores de países como os Estados Unidos, Inglaterra ou França diriam que tanto faz uma democracia ou uma ditadura. Os cidadãos de direita desses países, na sua ampla maioria, vão às urnas tentar eleger seus candidatos e perdem ou ganham, sabendo que ganhar ou perder faz parte do jogo. Mas, por aqui, infelizmente, o desapreço à democracia muitas vezes mistura-se com a tendência à direita.

De qualquer modo, o Datafolha mostra que tal percepção ainda é de uma minoria. O que importa é que o jogo segue democrático. Em um momento em que parece haver uma expressiva percepção mais à direita do jogo político. E é isso o que transparece nos primeiros movimentos do xadrez eleitoral nessas primeiras horas de 2020.

Talvez nunca tenha havido tamanha profusão de candidatos de perfil mais conservador ensaiando a entrada no jogo da sucessão presidencial. A começar pelo próprio Jair Bolsonaro, o mais de direita deles. Mas é pela mesma raia, com maior ou menor inclinação, que se ensaiam os governadores de São Paulo e do Rio, João Dória e Wilson Witzell. É por aí que vai o apresentador de TV Luciano Huck. Ou o ministro da Justiça, Sérgio Moro. Mesmo o movimento de valorização do centro político, que se esboça, tem inclinação mais à direita. Nada indica inclinações antidemocráticas no presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), mas, do ponto de vista econômico, ele é, sem dúvida, um conservador.

Enquanto isso, o campo da esquerda segue tendo sua alternativa concentrada em um Luiz Inácio Lula da Silva que, como em 2018, continua impedido de disputar a eleição, barrado que está pela Lei da Ficha Limpa. Parece cada vez mais improvável que ele consiga reverter as condenações contra ele. Então, candidato não será. Para onde, então, se reverterão os votos que não serão para ele? Terá Lula agora maior capacidade de transferir seus votos para outro candidato, talvez o mesmo Fernando Haddad, do que teve em 2018? Ou o provável recrudescimento da opção mais à direita do eleitorado enfraquecerá mais ainda a opção?

Além disso, outras opções de esquerda, como Ciro Gomes, do PDT, parecem pelo menos neste primeiro momento enfraquecidas. O partido de Ciro não tem nomes visíveis fortes para a disputa municipal deste ano, como forma de ir pavimentando seu caminho.

Pelo campo da direita, há ainda um último fator importante. Se Bolsonaro não for capaz de colocar em campo no pleito municipal seu novo partido, o Aliança, assanha ainda mais as pretensões dos demais nomes à direita no sentido de ocuparem esse vácuo. Ao que tudo indica, o jogo de outubro será mais intenso pelo lado direito…

Política

A peleja do Mito contra a Ideia


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Foto: Benedita da Silva

Nas últimas semanas, circulava pelas redes sociais um meme divertido. Nele, aparecia uma foto do presidente Jair Bolsonaro com seus filhos 01, 02 e 03. E a seguinte legenda: “Pressionado pela crise, Bolsonaro resolveu se reunir com sua oposição”.

Eis no meme o resumo do que representará o retorno de Luiz Inácio Lula da Silva ao cenário político agora que deixou a sala/cela que ocupava na sede da Polícia Federal em Curitiba. Até então, Bolsonaro mantivera no Palácio do Planalto um inusitado modelo de autossuficiência: ao mesmo tempo em que governava, tratava de fazer oposição a si mesmo.

Alguns chegaram mesmo a concluir que se tratava de estratégia – e já tratamos disso por aqui. Mas o fato é que a usina de crises que acompanha o governo desde quando o vereador Carlos Bolsonaro se aboletou na mala do Rolls Royce presidencial e meteu a sola dos seus sapatos no delicado couro do banco daquela joia da mecânica britânica é instalada dentro do próprio governo. Com Lula de volta à cena, pela primeira vez Bolsonaro enfrentará de fato uma oposição externa, realmente vinda daqueles que lhe são adversários.

Se da prisão, Lula tivera a capacidade de se manter no debate político, essa capacidade multiplica-se de forma incomensurável com ele livre. Lula sairá pelo país amplificando com a inegável capacidade de retórica que sempre teve as bobagens e crises desnecessárias que Bolsonaro cria. Se era estratégia diversionista, agora haverá quem possa capitalizá-la. Se era estratégia diversionista, ela já implicava riscos, porque diminuíra a base de apoio do governo, dividira o campo conservador, jogara o presidente contra seu próprio partido, o PSL. Agora, há quem possa vir a lucrar com tudo isso.

Um dos maiores efeitos da vitória de Bolsonaro foi provocar a desarticulação da esquerda que poderia lhe fazer oposição. Um efeito natural: é normal que quem perca se desarticule. Vale lembrar que quando Lula foi eleito presidente, a composição anterior também se desarticulou e quase se esfacelou. Num primeiro momento, o PFL, antes de trocar o nome para DEM, chegou a cogitar a sua extinção.

A desarticulação da esquerda vinha fazendo com que os partidos de oposição muitas vezes somente assistissem à confusão que o próprio Bolsonaro e sua trinca de filhos provocava no governo. Há uma grande possibilidade de que, agora, os contendores nessa disputa não sejam mais Carluxo e algum general. Ou ex-aliados como Gustavo Bebianno, Alexandre Frota ou Joice Hasselmann.

Na euforia provocada pelo seu lado no FlaXFlu, tem sido ignorado um fato que ainda persiste apesar da liberdade de Lula. Ele está solto, mas segue não podendo ser candidato à Presidência da República. A condenação em segunda instância o impede. Não por conta de uma interpretação como acontecida no caso da prisão. O que o impede é uma lei aprovada pelo Congresso e sancionada pelo próprio Lula quando era presidente: a Lei da Ficha Limpa. A legislação estabelece que alguém condenado em segunda instância não pode disputar cargo eletivo. O impedimento não é automático. Lançadas as candidaturas, a Justiça Eleitoral tem de se debruçar sobre cada caso e analisar se há ou não as chamadas condições de elegibilidade. Mas não há nenhuma razão para imaginar que o Tribunal Superior Eleitoral, diante da condenação que agora já é em terceira instância mude o entendimento que teve nas últimas eleições presidenciais quando, por seis votos a um, indeferiu a sua candidatura.

Assim, mais do que aparecer como o possível adversário de Bolsonaro nas próximas eleições, não é de se descartar que o grande papel que Lula exercerá agora fora da prisão será o de reaglutinador da esquerda, das forças que se opõem ao atual governo. Em entrevistas anteriores à sua liberdade, ele já fizera alguns acenos nesse sentido.

Além disso, sempre vale se observar essa incrível capacidade que o continente sul-americano tem de se replicar. Quando o continente se encheu de caudilhos no final da primeira metade do século passado, tivemos Getúlio Vargas como o nosso por aqui. Quando os coturnos e as fardas verdes deram as caras por aqui, havia coturnos e fardas verdes espalhadas por toda a América do Sul. Quando um desses países se redemocratizou, se redemocratizaram os outros. Quando um guinou à esquerda, viraram também os outros. Quando resolveram, então, desviar-se à direita, eis Bolsonaro acompanhado de colegas conservadores por aí.

Na imensa velocidade das mudanças nesses tempos da revolução informática, em diversos países da América do Sul, esboça-se já uma reação à guinada conservadora. E o caso mais concreto deu-se na Argentina, com o retorno do peronismo.

Lá, Cristina Kirchner abriu mão de ser a candidata à Presidência e montou a vitoriosa manobra que colocou um nome mais moderado, mais palatável que ela, Alberto Fernández, à frente da chapa. Cristina sabia que reunia ao mesmo tempo grande popularidade e grande impopularidade. Era ao mesmo tempo forte e imensamente rejeitada. Assim, saiu do primeiro plano para ser candidata a vice-presidente. Deu certo.

Além da impossibilidade legal, Lula carrega características semelhantes. É popular e impopular. Forte por um lado e imensamente rejeitado por outro. Talvez possa emprestar sua capacidade aglutinadora da mesma forma a uma composição na qual não esteja à frente.

Por outro lado, Lula traz de volta a polarização que, em 2018, beneficiou mais Bolsonaro. O hoje presidente tratou de querer ter sempre Lula como seu adversário, porque sabia que Lula aglutinava os ódios que podiam reverter a seu favor. Hoje, porém, Bolsonaro está desgastado pelo motor da usina de crises que ele próprio alimentou no Palácio do Planalto. Se Lula será capaz de reverter tal desgaste a seu favor e a favor do grupo oposicionista, veremos a partir de agora. O fato, porém, é que há um senhor de barba branca agora a ocupar o espaço de oposição que até então eram do 01, do 02 e do 03.

Política

O  perigoso morde-assopra do clã Bolsonaro


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Foto: Fábio Pozzebom/Agência Brasil-EBC

Numa interessante análise publicada há poucos dias no Poder 360, Leonardo Cavalcanti  avalia a possibilidade de o clã Bolsonaro se valer do que o professor de Antropologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Piero Leirner, chama de “estratégia militar dissonante”. De acordo com Leirner, trata-se da replicação de uma tática de guerra, na qual informações desencontradas são repassadas de modo a criar uma estratégia de confusão, que desorienta o inimigo.

Passa-se uma ideia de descontrole. De que não há unidade de pensamento. Uma coisa é dita. Outra é contradita. Desautorizada. Daí, recua-se do que foi dito. Até a criação da próxima controvérsia. Na estratégia, segundo avalia Leirner, o presidente Jair Bolsonaro acaba aparecendo como o elemento moderador. A tática gera mobilização dentro do governo e entre a militância mais próxima do presidente. E mantém acesa a polarização com a esquerda, o interminável FlaXFlu que tem sido o nosso pesadelo.

O morde-assopra ficou claro em dois momentos recentes. Primeiro, no vídeo do Rei Leão e das hienas. No vídeo, Bolsonaro aparece como o leão e as hienas são todas as demais instituições republicanas brasileiras: Judiciário, Legislativo, imprensa… Tratava-se de uma clara demonstração de guerra. De ruptura institucional. O que Bolsonaro pretendia com aquilo? Então, diante da repercussão negativa, ele declara que o vídeo foi um erro, retira o vídeo do ar e pede desculpas.

Então, alguns dias depois, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-RJ) critica a radicalização dos movimentos de protesto no Chile e diz que o governo deve se preparar para reagir caso algo semelhante se esboce ocorrer por aqui. Diz que o governo precisa ter instrumentos para essa reação. E fala numa possível volta do AI-5, um instrumento da ditadura que dava poderes fora da Constituição ao governo para fechar o Congresso, cassar pessoas, censurar a imprensa. Diante do evidente repúdio geral a tal absurdo, Bolsonaro desautoriza Eduardo. Que pede desculpas e recua.

Não tivesse sido, porém, por um modo patético, eis que depois o próprio Eduardo Bolsonaro volta ao tema novamente não para explicar, mas para confundir. Diz em outro vídeo que o que ele tinha querido dizer não era uma pregação da volta do AI-5, mas a necessidade de o governo ter instrumentos para agir de forma “energética” em caso de radicalização. O vídeo, felizmente, repercutiu pelo ridículo do uso errado do termo “energético”. O que pretendia Eduardo era transformar os protestos numa rave e distribuir Red Bull pra moçada?

Ou, levando a fala a sério: o que são instrumentos “energéticos”? Porque, se de fato houvesse uma radicalização de protestos fora dos preceitos da lei, que extrapolassem o direito de manifestação, a Constituição e as leis brasileiras possuem instrumentos enérgicos – este é o termo correto –  para coibir. Se os “energéticos” estão fora do limite legal e constitucional e denotam autorização para ações autoritárias, a democracia brasileira deve rechaçá-los.

Se há algo de pensado nesse morde-assopra, se é a adoção de uma tática diversionista de inspiração militar, é preciso dizer que tudo isso sai completamente dos manuais conhecidos de administração de um governo. Se der certo, vai obrigar uma profunda revisão de conceitos.

É interessante para quem disputa uma eleição – sobretudo se não está no governo – criar em torno do pleito um ambiente de confusão e desorientação. Especialmente se for capaz de fazer com que o caminho da solução ao final passe por ele. Nesse sentido, a tática de Bolsonaro para manter a polarização acesa durante o pleito do ano passado foi um sucesso absoluto. Mas governos precisam de tranquilidade. Precisam de um mínimo de estabilidade para ver avançarem seus projetos.

A essa altura, Bolsonaro briga com seu partido, briga com outros partidos conservadores do Congresso, não consegue formar uma base, joga suas fichas na formação de um novo partido quando ele precisa de votos agora, não no futuro. Briga com o Judiciário. Briga com a imprensa. Briga com os setores mais organizados da sociedade civil de perfil mais conservador, como o Movimento Brasil Livre (MBL). Qual a garantia de tranquilidade mínima que isso lhe traz para a aprovação dos seus projetos?

Se há por trás de tudo isso uma intenção não democrática, golpista, como se preocupam alguns, de que forma Bolsonaro encontrará respaldo para tal aventura se dispensa as instituições? Em 1964, militares não tomaram o poder sozinhos. Precisaram – e tiveram – o apoio de instituições como boa parte do Legislativo, do Judiciário, da imprensa, da sociedade civil.

Há, por último, uma outra avaliação que devem fazer os que defendem soluções mais conservadoras, de direita, para o país. Ao vencer as eleições, Bolsonaro deu a esse gupo mais conservador a chance de propor seu modelo pela via democrática. Alternância de poder, como se espera que ocorra em qualquer democracia madura. Dez meses depois da posse, o esboço de qualquer sugestão autoritária e não democrática seria a admissão de que, no Brasil, tal grupo conservador não consegue manter seu modelo pela via institucional. Seria uma admissão de fracasso, do ponto de vista democrático.

De 1954 a 1960, o grupo conservador viu esbarrar as suas chances na moderação que era feita pelo PSD. O partido, como bem explicou Lucia Hippolito no seu “PSD: de Raposas e Reformistas”, evitava os extremismos. A lógica se rompeu com Jânio Quadros. E não deu certo, pela via democrática, após a sua renúncia. O golpe jogou às favas a tentativa de sucesso pelo caminho democrático. A direita brasileira pagou seu preço. Afastou-se do debate até conseguir emergir de novo com a construção da eleição de Bolsonaro. Já vai admitir de novo a impossibilidade de sucesso de suas ideias pelo debate democrático? Vai de novo fazer descer goela abaixo por vias autoritárias? É o que propõe o clã Bolsonaro antes de pedir desculpas? Ou tudo não passa de um mal entendido? Ainda  que seja um planejado e estratégico mal entendido…

Política

Os riscos da guerra total


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Reprodução/Vídeo

O vídeo estilo Rei Leão que o presidente Jair Bolsonaro nos impingiu durante um tempo e do qual depois se arrependeu é um veemente sincericídio. O presidente, com a ajuda dos seus assessores, aqueles a quem, em entrevista ao site Congresso em Foco, o ex-ministro Gustavo Bebianno chama com todas as letras de “loucos”, se coloca ali contra tudo e contra todos. Não adianta a essa altura ter se arrependido depois. Até porque, antes do seu arrependimento, seu assessor Filipe Martins já havia ratificado seu conteúdo. Ficou claro que aquilo é o que de fato pensa Bolsonaro e aqueles que o assessoram.

O vídeo demonstra que Bolsonaro hoje se sente atacado por todas as instituições brasileiras. Contra ele está o Judiciário, representado pelo Supremo Tribunal Federal. Está o Legislativo, a partir de diversos partidos – até o mesmo o seu próprio, o PSL. Está a imprensa, a partir dos seus principais veículos. Está a sociedade civil organizada, em grupamentos como o Movimento Brasil Livre (MBL) ou organizações classistas como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Bolsonaro só tem a seu favor um tal difuso “brasileiro patriota”.

Não sei se os “loucos”, como chama Bebianno, se inserem ou não nessa onda, mas já se estuda o surgimento pelo mundo de um certo anarquismo de direita. A tal nova onda, ao explicitar individualismos, coloca contra si todas as organizações da sociedade. E é daí que muitos passam a acreditar em tenebrosas conspirações, como a que envolveria toda a comunidade científica em torno de negar que a terra é plana, por exemplo. Enfim, um mundo delirante. Que fica perigoso se alguém com tais ideias chega ao poder. Espera-se que não seja o nosso caso…

O fato, porém, é que o vídeo Rei Leão de Bolsonaro é a mais explícita afirmação da existência dessa disposição contra a ordem institucional. De um sentimento, por parte de Bolsonaro e do grupo que o cerca, de isolamento e de perseguição. Que Bebianno, na entrevista, enxerga que possa desaguar mesmo futuramente em alguma tentativa de golpe.

Mas é justamente nesse ponto que qualquer arroubo golpista agora de Bolsonaro será completamente diferente da construção que se deu no golpe militar de 1964, que ele tanto venera e elogia. Em 1964, as instituições se uniram para depor João Goulart. Os militares tiveram o apoio da imprensa, do Congresso, de parte do Judiciário, de parte da sociedade civil organizada, para tomarem o poder. Se oposição dessas instituições houve, foi depois, diante da constatação de que a devolução prometida do poder não se daria e que a ditadura se consolidaria, como se consolidou, por vinte anos.

Se há por parte de Bolsonaro e de seus “loucos” – de novo, usando o termo de Bebianno – alguma estratégia, ela parece partir para uma opção de guerra total. Olavo de Carvalho e seus discípulos parecem ter percebido que a alternativa conservadora tomada não apenas aqui mas em diversos países da América do Sul por alguma razão se esfarinha. A Argentina optou por voltar para o peronismo. A Bolívia elegeu Evo Morales em primeiro turno – é preciso se verificar se com fraude ou não. O Equador protesta. O Chile nem se fala.

Seria, assim, necessária, na cabeça deles,  alguma reação. O problema é estabelecer uma reação contra tudo. Que elege todas as instituições como inimigas. Mesmo junto ao comando militar, Bolsonaro comprou diversas brigas. Reduziu o tamanho da participação de praticamente todos os seus generais. Mantém mudo o seu porta-voz, general Rego Barros. Difícil saber se contaria com a instituição Forças Armadas caso embarcasse em tal aventura. Fica, assim, com ele somente o tal “brasileiro patriota”.

E contra, as instituições. E esse é o risco da guerra total. Qual o tamanho do apoio de que dispõe Bolsonaro na sociedade? O que ele quer quando declara guerra ao Supremo? Aos demais governadores, como Wilson Witzel, do Rio? E, citando novamente Witzel e João Dória, de São Paulo, às demais forças do campo conservador? Ao seu próprio partido e aos demais? Aos movimentos sociais, incluindo aqueles que o elegeram, como o MBL? Ao final dessa guerra, sobrará o quê de pé?

O tamanho da briga comprada fica claro no desenrolar dos últimos acontecimentos. Bolsonaro foi citado pelo porteiro do seu prédio na investigação do assassinato de Marielle. Isso é fato. E, sabido, precisa ser noticiado. Mas Bolsonaro só aumentou o fogo da sua artilharia contra a TV Globo. E contra Witzel, que acusa de ter orientado tal menção aos investigadores. Aos investigadores, que teriam incitado o humilde porteiro. Menção que levará o caso ao Supremo, que ele retratou como hiena no tal vídeo.

O risco de declarar guerra contra todo mundo é se todo mundo aceitar a declaração de guerra…

Política

Bolsonaro testa limites do MP e da PF. Pode ver testados os seus…


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Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr

Na entrevista exclusiva que me concedeu no Jornal de Brasília o ex-secretário de Governo Gustavo Bebbiano, ele alerta de forma muito dura para o que considera grave risco de “suicídio político” do presidente Jair Bolsonaro. Esse risco, na avaliação dele, está relacionado à impressão que Bolsonaro passa de temer o grau de independência e de autonomia que conquistaram o Ministério Público e a Polícia Federal. Para Bebbiano, ao agir assim, Bolsonaro ensaia um flerte com a turma que já há algum tempo anseia por travar a escalada de combate à corrupção no país. Foi para derrotar essa turma que boa parte do eleitorado de Bolsonaro optou por ele. Bebbiano, assim, aponta tal fator como o componente que pode desidratar o apoio ao presidente mesmo junto ao seu círculo mais fiel. Trava a essa altura ao combate à corrupção, no entender de Bebbiano, é coisa que a sociedade brasileira não mais aceita.

Curioso alguém imaginar que Bebbiano seja “cachorro morto” por ter sido demitido do governo. Bebbiano foi o coordenador da campanha vitoriosa que levou Bolsonaro à Presidência. Pouca gente sabe melhor do que ele que sentimentos e motivações têm o eleitorado que o escolheu presidente. Quais as características que, no imaginário das pessoas, separam o capitão Bolsonaro do “mito”. Quando Bebbiano analisa o que já vem derretendo o presidente e o que pode terminar de desmilinguí-lo, parece prudente prestar atenção.

Bolsonaro vem testando fortemente os limites de autonomia dos nossos dois principais mecanismos de investigação. Primeiro o Ministério Público e, mais recentemente, a Polícia Federal, foram construindo desde a Constituição de 1988 um caminho sólido para se firmarem no seu trabalho acima dos humores ocasionais dos governos para realizar seus trabalhos.

Não que não haja certa razão em algumas críticas feitas ao poder excessivo dado especialmente aos procuradores da República. Não são raras, de fato, as vezes, em que eles misturam suas convicções ideológicas ao exercício das suas funções. E as conversas reveladas pelo site The Intercept Brasil mostram isso claramente. Diversos gestores em variados níveis reclamam que hoje é praticamente impossível passar por uma administração sem responder a um processo. Um grau de desgaste, dizem, que muitas vezes produz efeito oposto à moralização. Diante da radicalização que criminaliza todo mundo, os honestos se intimidam e ficam aqueles que assumem o risco pelos lucros pouco republicanos que vislumbram.

A possibilidade de um freio de arrumação nisso, porém, pode vir por meios legais. Dificilmente virá pelo posicionamento de um presidente que imagina poder ter ingerência mais forte para barrar tal processo de independência. Que, no caso do Ministério Público, tem previsão legal – ele não é subordinado a nenhum poder. E, no caso da Polícia Federal, ganha musculatura de fato, ainda que legalmente exista a subordinação ao Ministério da Justiça.

Ao escolher Augusto Aras fora da lista tríplice, Bolsonaro parece estar em busca do seu Geraldo Brindeiro particular. Do seu engavetador geral da República. É preciso verificar até que ponto a corporação hoje, diante dos avanços que ocorreram desde o governo Fernando Henrique Cardoso, está disposta a respeitar um novo engavetador como chefe e até onde pode agir à sua revelia. As reações à decisão de Bolsonaro de ignorar a lista tríplice já se esboçam.

Já a Polícia Federal deu algumas seguidas mostras da pouquíssima disposição de ver suas investigações barradas por ordens de comando. Isso alimentou diversas rusgas nos governos petistas, à medida em que a Operação Lava Jato avançou. E rebelião mesmo quando Michel Temer escolheu para diretor da PF Fernando Segóvia. A tentativa agora de demitir Mauricio Valeixo produz suas reações.

Ao testar esses limites, Bolsonaro corre dois riscos. O primeiro é a desidratação política de que fala Bebbiano. O segundo é o da produção de novas rebeliões em grau bem mais agudo tanto no Ministério Públlico quanto na PF. E, aí, o risco é de ruptura institucional. De quebra de hierarquia. Uma das lições da democracia é que presidentes podem muito. Mas presidentes não podem tudo. E as democracias, quando consolidadas, às vezes se revelam um bocado fortes…

Política

Ainda é a política, estúpido!


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Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

No auge da crise que acabou levando ao impeachment de Dilma Rousseff, ousei inverter em um artigo a famosa frase do marqueteiro de Bill Clinton, James Carville. Nas eleições de 1992, ele apontou que George Bush não era favorito, apesar da popularidade conquistado após ter vencido a Guerra do Golfo. “É a economia, estúpido!”, disse ele. Seu raciocínio era que a definição política de uma eleição dependia fundamental dos humores da população quanto aos aspectos econômicos: recessão, inflação, etc.

No período anterior à queda de Dilma, estava claro que acontecia o contrário. Por mais que se tentasse alguma coisa, a economia seguiria morro abaixo. Por causa da política. Ou seja, invertendo a máxima de Carville, no caso, era “a política, estúpido!”.

Na terça-feira, o dólar bateu a casa dos R$ 4. Os boletins do Banco Central e de outros analistas apontam para crescimento pífio, ou crescimento nenhum, do país este ano. Um comunicado interno da Receita Federal apontou que os cortes no orçamento previstos para este ano poderiam comprometer serviços como a emissão de CPF e a próprio restituição do imposto de renda. O governo enviou uma série de projetos ao Congresso de suplementação orçamentária que não caminham. Ou seja: estamos em crise.

E certamente não estamos em crise por conta dos pressupostos da equipe comandada pelo ministro da Economia, Paulo Guedes. O que Guedes propõe e procura fazer é o que consideram o caminho correto nove entre dez empresários e financistas do país e do lado capitalista do planeta. O governo aprovou com imensa facilidade na Câmara a reforma da Previdência e nada indica que venha a sofrer algum tipo de dificuldade agora no Senado. Nunca houve ambiente tão propício para a discussão e aprovação das chamadas reformas estruturantes no Congresso.

E, no entanto, o país segue empacado. E, se isso acontece, é prudente jogar a culpa na política. No tal “presidencialismo de colisão”, como cunhou com felicidade meu amigo Melillo Diniz, escolhido pelo presidente Jair Bolsonaro para substituir o criticado “presidencialismo de coalizão”, apontado por ele e por aqueles que o elegeram como  a chave do fisiologismo e da corrupção que prejudicam o país.

No caso de Dilma, ela colocou um ortodoxo no comando da economia, Joaquim Levy, e nada aconteceu. Certamente porque o ambiente de instabilidade e de incerteza política não aconselhava investimentos. Com seu temperamento forte e estabanado, Dilma não conseguia fazer os arranjos políticos para serenar o país. Isso somado ao fato de que o então presidente da Câmara, na prática no comando então do Congresso, não fazia a menor questão de ajudar nessa tentativa de serenar ânimos.

Agora, Bolsonaro pisa ao máximo no acelerador e joga às calendas qualquer tentativa de serenar os ânimos. Ao contrário, seu “presidencialismo de colisão”, elege inimigos todos os dias, afasta ex-aliados, entorna diariamente o caldo de qualquer entendimento. Não exatamente por ser estabanado. A tática tem método. Visa consolidar os apoios que já são mais sólidos. Fortalecer o “mito”, mantendo acesa a polarização radical do país.

Apesar de ter método, a estratégia é arriscada. É como apostar num incêndio imaginando ser possível controlá-lo. Ao enxergar tamanho cenário de instabilidade e incerteza, o investidor fica tentado a considerar se não é melhor esperar um pouco, manter o dinheiro fechado na carteira, dentro do bolso, enquanto o cenário não clareia.

Somam-se a isso guerras comerciais e posicionamentos internacionais que ganham um viés ideológico como nunca tiveram, nem mesmo no tempo da ditadura militar (quando as empreiteiras brasileiras, por exemplo, ganharam rios de dinheiro construindo hidrelétricas na União Soviética comunista). A Noruega tira seus recursos do Fundo Amazônia. A Alemanha ameaça boicotar produtos brasileiros. O Irã e outros países do Oriente Médio preocupam-se com o alinhamento aos Estados Unidos. Mesmo os agricultores brasileiros, que nunca se pautaram pelo ativismo ambiental, mostram-se preocupados com o exagero de certos posicionamentos, que fazem com que os produtos do país corram o risco de perder os chamados “selos verdes”, condicionamentos de compromisso ecológico que são cada vez mais frequentes em diversos países que importam do Brasil.

Peitar posicionamentos e mudanças de conceito muito fora do pensamento global pode dar mais certo em um país como os Estados Unidos na era Donald Trump, no qual Bolsonaro se espelha. Afinal, os Estados Unidos são a maior potência do mundo, com capacidade para serem autossuficientes. Podem bancar suas guerras. O emergente Brasil é dependente dos humores de seus parceiros. Geralmente, precisa de uma jamanta para subir a ladeira. E corre sempre o risco de rolar abaixo por um sopro ou um peteleco fora de hora. Se não conciliar política e economia, a política derruba a economia, estúpido!