Jair Bolsonaro

Política

O vírus da política


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Foto: Isaac Nóbrega/PR

Há alguns dias, o governador Ibaneis Rocha, vendo o rumo que já vinha tomando a discussão sobre o novo coronavírus envolvendo o presidente Jair Bolsonaro e os governadores, especialmente o governador de São Paulo, João Dória, desabafou, irritado, com um interlocutor: “Fica todo mundo olhando só para o próprio umbigo. Politizando o que não é para politizar”.

Essa é a chave para explicar por que Ibaneis resolveu não participar da reunião de todos os demais governadores com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ). Nas últimas horas, desde o arriscadíssimo pronunciamento de Bolsonaro na televisão, sugerindo às pessoas que flexibilizassem o confinamento e voltassem ao trabalho para evitar um desastre econômico, o debate em torno da covid-19 foi deixando de ser um debate médico-sanitário para virar um debate político-eleitoral.

O governador do DF optou por não ser mais um no retrato dessa disputa que, no momento, em nada ajuda na prática a contenção da contaminação pelo coronavírus. Ao contrário, só expõe o mundo das autoridades à contaminação por outro bichinho: o vírus da política, aquele que, desde o célebre poema escrito no século 19 por Machado de Assis, a gente sabe que é transmitido pela mosca azul.

Não que Dória ou Rodrigo Maia a essa altura sejam os únicos responsáveis por essa politização do tema. Na verdade, quem começou com isso foi Bolsonaro. Ele é que, sentindo ficar numa posição coadjuvante nas ações para evitar a pandemia, optou por essa estratégia de fazer um discurso na contramão de todos os demais. Sua hesitação e inação levou ao protagonismo dos governadores e de seu ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. Não por acaso, seu pronunciamento aconteceu depois da divulgação da pesquisa Datafolha que mostrava maior grau de confiança da população nas ações dos chefes estaduais e do ministro da Saúde.

No caso de Ibaneis, na prática, não ter ido à reunião dos governadores com Maia em nada muda as suas ações. Ibaneis foi o pioneiro na adoção das medidas de restrição para evitar o contágio. Foi o primeiro a fechar escolas e lojas. Não teria sentido mudar de opinião quanto a isso agora. Pelo contrário, é possível que, ao final do decreto, que acaba em 4 de abril, ele acabe estendendo novamente as medidas de restrição caso haja necessidade.

Foi Ibaneis quem pediu à Justiça que exigisse do Hospital das Forças Armadas (HFA) a entrega da lista de nomes das pessoas que ali fizeram exames e testaram positivo para o coronavírus. E é estranho que o hospital informe que houve 17 testes positivos mas tenha omitido o nome de duas pessoas. Bolsonaro e sua mulher, Michelle, ali fizeram seus testes. Ou seja: na prática, a linha de Ibaneis neste momento vai no sentido oposto à adotada por Bolsonaro. E o governador do DF não se furta a situações de confronto como essa.

Quanto a, porém, discutir agora a contaminação pelo vírus da política e não pelo coronavírus, aí, é outra história…

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Em tempos de Ensaio sobre a Cegueira, há que se investir na lucidez


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Giselle Chassot*

Quando escreveu “Ensaio sobre a Cegueira”, o visionário escritor José Saramago imaginou uma epidemia se alastrando pelo mundo. Uma epidemia que deixava a todos cegos. Os contaminados eram encarcerados em locais semelhantes a antigos leprosários e tentavam sobreviver ao isolamento, ao preconceito e ao pânico. E a possibilidade de contágio despertava o que há de pior nas pessoas: o egoísmo, a loucura individualista.
O mundo agora se vê nas páginas de Saramago. O covid-19 se espalha sem fronteiras. E, no Brasil, temos talvez o único presidente do mundo que não só minimiza a doença, mas chama de histéricos quem busca evitar o caos. Ou seja: ao que parece, no caso do nosso presidente, a doença teve efeitos semelhantes aos do romance de Saramago, provoca certa cegueira.

De uma maneira inconsequente, lunática e bipolar, o mesmo Jair Bolsonaro que pediu às pessoas para não irem às ruas no dia 15 de março se misturou ao povo em frente aos palácios do Planalto e da Alvorada. Tirou fotos, apertou mãos. Esqueceu que ele mesmo fará um novo exame para descartar a presença do vírus que já chegou a 14 dos integrantes da comitiva presidencial que voltou há poucos dias dos Estados Unidos.
Calcula-se que o efeito do coronavírus será devastador. Num país já arrasado pela epidemia do desemprego e da economia sem rumo, o gasto previsto com UTis por conta do coronavírus é de R$ 1 bilhão.

É falta de lucidez, é cegueira voluntária fazer de conta que nada está acontecendo e que o vírus não chegará até nós. Ele já está entre nós, como o mal que causou a cegueira fictícia do livro de Saramago. Lançado em 1995, o romance narrava a cegueira branca que atingia primeiro um homem; depois uma cidade inteira. O governo não se importa e, quando decide agir, as pessoas infectadas são colocadas em uma quarentena com recursos limitado. Viver se torna um desafio.

O livro virou filme, dirigido por Fernando Meirelles. Muita gente assistiu e se apavorou. Saiu do cinema mexido, imaginando como seria viver nessa situação. Foi assim comigo. Achei, ingenuamente, que se tratava apenas de uma metáfora sobre as coisas que estavam no mundo e não queríamos ver. Sobre a cegueira branca diária de todos nós.

Mas era muito mais do que isso. Era a visão do que podemos viver agora. Se não prestarmos atenção, se não nos organizarmos, estaremos fadados ao mesmo destino.
É necessário, portanto, que mantenhamos a lucidez. Que tenhamos discernimento para compreender que não é o caso de nos apavorarmos e ficarmos parados esperando tudo passar. É momento de calma e, se não for pedir demais, é momento de autoridades serenas, que consigam encarar o desafio. Alguns países da Ásia já conseguiram. Os italianos encaram com galhardia e bom-humor o isolamento determinado. Os espanhóis ficam em casa.

É bonito assistir aos italianos cantando o hino nacional e a belíssima Bela Ciao de suas varandas. Aqui, temos um sistema de saúde pública que garante a todos o atendimento. Esse é nosso diferencial e nossa melhor arma. Um sistema inclusivo que, mesmo depauperado, garante que os menos favorecidos tenham atendimento nos hospitais e nas Unidades de Terapia Intensiva. Em outros países, não é assim. O SUS é a nossa resistência. Precisa ser respeitado.

Quem sabe essa epidemia nos ensine a ser mais generosos; a ver as pessoas ao nosso lado como seres humanos iguais a nós. Quem sabe essa epidemia nos ensine a pensar no coletivo, a recriar o país, a reintegrar um povo partido ao meio por convicções políticas.
Quem sabe a cegueira nos traga de volta a lucidez. A lucidez relatada também por Saramago cuja mensagem é que sob a democracia podem estar escondidos vetores de natureza autoritária. Lúcido é quem os enxerga.

  • Jornalista
Política

Notícias à Bolsolândia


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Foto: Reprodução/vídeo

Foi assustadora – não há outro termo possível – a total desconexão das declarações do presidente Jair Bolsonaro nos últimos dias do que a realidade mostrava não apenas no Brasil mas no planeta.

Enquanto as bolsas do mundo todo derretiam na segunda-feira, Bolsonaro pintava – com esmero e um óculos de sol verde-limão no rosto – os retângulos de um quadro de Romero Britto.

Aliás, Romero Britto, que também retratou em seus tempos Lula e Dilma Rousseff, é uma ótimo opção, com seus cachorrinhos, gatinhos e passarinhos coloridos, para pintar cenários descolados da realidade.

Na sequência da tarde de pintura, Bolsonaro disse que a disseminação do coronavírus era um “exagero da imprensa”, que a queda histórica das Bolsas de Valores no mundo era uma coisa episódica. Repetia uma dessas tolices da internet, ao dizer que a dengue mata muito mais do que o coronavírus.

Um dia depois, a Organização Mundial de Saúde decretava ser a disseminação do coronavírus uma pandemia. As bolsas voltaram a cair ontem no mundo inteiro. Houve novos casos de circuit breaker, mais de uma interrupção das atividades num único dia. O dólar ultrapassou no Brasil a perigosa casa dos R$ 5.  O ídolo de Bolsonaro, Donald Trump, anunciou drásticas medidas para tentar conter o avanço do vírus nos Estados Unidos. País do qual Bolsonaro voltou com integrantes da sua comitiva, como o secretário de Comunicação, Fabio Wajngarten, infectado. Ao final da semana, estava o presidente fazendo um pronunciamento usando máscara cirúrgica, em isolamento, seguindo a orientação do seu ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta.  Não era uma besteira, presidente.

Fora da Bolsolândia, esse mundo virtual que o presidente parece ter escolhido para si e para seus seguidores mais fieis, o mundo passa por um momento de grande perigo. O Brasil, por maior que seja o esforço contrário de Bolsonaro, não está desconectado do mundo. E seu governante deveria estar bem mais preocupado com isso.

Ao contrário da tolice repetida na internet, o problema do coronavírus não é se ele mata mais ou menos que a dengue ou outras doenças. O problema do coronavírus é que ele é conhecido há somente alguns meses e já infectou centenas de milhares de pessoas no planeta. O problema é, portanto, essa impressionante velocidade de disseminação.

Ele não é grave entre os mais jovens. Para eles, é letal em apenas 0,2% dos casos. Mas é muito grave entre os idosos, em torno de 18%. Um estudo publicado na edição de ontem do Jornal de Brasília mostra que, tomando-se por base o que aconteceu na China, em 15 dias poderá haver cerca de quatro mil pessoas infectadas no Brasil. Algumas centenas dessas pessoas serão idosos. Se esses idosos precisarem de leitos de UTI, que não existem nessa quantidade, temos aí um gravíssimo problema de saúde pública.

O que impressiona hoje é que a Bolsolândia não agrega sequer alguns dos próprios integrantes do governo. Ciente do tamanho do problema, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, montou um gabinete de crise há algumas semanas e vem fazendo um irrepreensível trabalho de monitoramento da situação.

O ministro da Economia, Paulo Guedes, demora a reagir, mas também parece ter sentido o tamanho da encrenca. O problema de saúde pública traz consigo um gravíssimo problema econômico. Os Estados Unidos proibiram na quarta-feira (11) voos para a Europa. Medidas restritivas como essas tomadas pelas economias do mundo certamente farão circular menos dinheiro. É o espectro ameaçador da crise em proporções mundiais.

A solução até então posta, de acelerar as reformas, deixa de ser solução nesse cenário. Não adianta somente criar um quadro que seja mais atraente para novos investimentos se o mundo, e com ele seus investidores, entrarem num momento de retração. Não haverá investimentos.

É aí que entra a face mais perigosa da desconexão de Bolsonaro. A negligência de uma autoridade no seu posto traz o risco de novas negligências e desconexões. Então, se Bolsonaro cria sua Bolsolândia, o Congresso, na esteira, cria a sua Congressolândia. E, num momento como esse, resolve aumentar em R$ 20 bilhões as despesas do governo com gastos sociais, derrubando um veto presidencial e ampliando os gastos com o Benefício de Prestação Continuada (BPC).

O problema disso tudo é que não há para nós a opção de nos abrigarmos na Bolsolândia. Nem na Congressolândia. Tudo o que não precisamos agora é de um presidente ou de parlamentares desconectados da realidade, repetindo frases lacradoras para seus seguidores nas redes sociais. Nem Romero Brito nem máscaras cirúrgicas sem necessidade. O que precisamos é de seriedade neste momento.

Política

O contraponto é com as raposas…


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Movimentos na política às vezes são bastante sutis. Há a impressão de que nada de novo aconteceu. Mas as camadas subterrâneas se movem, e os resultados concretos irão aparecer mais adiante. Para se antecipar às coisas, é preciso observar com lupa e atenção esses movimentos.
À primeira vista, a história da convocação feita pelo presidente Jair Bolsonaro para as manifestações do dia 15 de março não parece ter tido maiores consequências. Pelo menos para aqueles que esperavam grandes reações ou até mesmo, na visão dos mais exaltados, o início de um processo de impeachment. Mas houve alguns movimentos menores nesse processo que têm algum significado.
O primeiro deles foi a ida ao Palácio do Planalto no início da semana do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, para dar a Bolsonaro o recado de que o Poder Legislativo “não toleraria” novo ataque semelhante.
É claro: precisamos ver que efeitos concretos decorrerão disso. Primeiro, Bolsonaro não é dado a sutilezas. Então, é preciso esperar para ver se ele de fato entendeu o recado. Segundo, também é preciso esperar para ter certeza se o ultimado feito por Alcolumbre era para valer mesmo.
O segundo movimento foi a nota conjunta feita também no início da semana pelos partidos de oposição. Há muito tempo, não apareciam unidos em uma mesma ação partidos como o PT, o PDT, o PSB, o PCdoB, o PSOL e a Rede. Se a nota significa como desdobramento algum tipo de ação conjunta mais efetiva, também só o tempo dirá.
O que já se pode inferir de concreto dos dois episódios, porém, é avaliar de onde, efetivamente, virá mais efetivamente um contraponto aos excessos de Bolsonaro. E, neste momento, parece mais claro que ele venha do centro, de Alcolumbre e seus demais representantes.
Primeiro, esses partidos de centro estão atuando em bloco na Câmara, reunindo 297 deputados, o que é mais do que suficiente para definir qualquer situação. Ao final da semana, conseguiram estabelecer o acordo com o governo em torno do orçamento impositivo. Uma solução salomônica bem ao gosto das velhas raposas do antigo PSD que parecem lhes servir de inspiração. Havia um impasse sobre o controle dos R$ 30 bilhões de verbas, dividiu-se o problema ao meio: R$ 15 bilhões para cada um.
Do centro, saiu a solução. No tresloucado governo Bolsonaro, dois ministros hoje se destacam: Teresa Cristina, da Agricultura, e Luiz Henrique Mandetta, da Saúde. Ambos são do DEM, o líder dessas movimentações do centro.
Enquanto isso, a oposição de esquerda parece encontrar dificuldades para ir além da construção de uma nota conjunta. De novo, por exemplo, há problemas no momento da escolha de quem seria o líder da minoria na Câmara. Na primeira vez, o PCdoB deu um tombo no PSB. Os socialistas esperavam ter como líder Alessandro Molon (RJ) e o cargo foi para a comunista Jandira Feghali (RJ). Agora, era o PDT quem aspirava a vaga. E o tombo quem dá é o PT, que articulou para que o líder seja o petista José Guimarães (CE).
Alguém que participou da última reunião da oposição de esquerda, conta o seguinte bastidor. Em determinado momento, um deputado avaliou: “O apoiamento a Bolsonaro não existe mais. Ele está isolado”. Um outro deputado, diante do que via nas redes sociais, rebateu de pronto: “Não sei onde ele está vendo esse tal isolamento”.
Diante de uma esquerda perdida, goste-se ou não do estilo, é do rabo felpudo das raposas de centro que vai se dando, por enquanto, o contraponto…

Política

Água mole em pedra dura…


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Foto: Valter Campanato/Agência Brasil – EBC

Não foram poucas as vezes, na sua longa carreira parlamentar, em que o então deputado Jair Bolsonaro viu-se às voltas com a discussão sobre se teria ou não quebrado o decoro. Em todas as ocasiões em que se discutiu a possível abertura de um processo de cassação do seu mandato, ao final seus pares acabaram passando a mão na sua cabeça e Bolsonaro acabou se safando.

O desfecho dessas situações acabou sendo esse por conta de dois possíveis aspectos, não necessariamente excludentes. O primeiro: testar os limites das instituições e da democracia tornou-se uma espécie de esporte para Bolsonaro. O segundo: muitas vezes, os demais deputados o consideraram um ser exótico, um integrante exaltado do baixo clero, a quem eventualmente dar muita importância ao que ele dizia seria talvez dar ainda mais projeção a ele.

Quanto ao primeiro aspecto, não resta a menor dúvida de que Bolsonaro segue semanalmente testando os limites das instituições e da democracia. Ele parece agir como uma equipe de Fórmula Um que corre o tempo todo com o regulamento debaixo do braço, não para respeitá-lo integralmente, mas para descobrir que brechas existem nele e de que forma elas podem auxiliá-lo a transgredi-lo.

E aí entra o segundo aspecto. Se as transgressões ao regulamento não produzirem qualquer efeito prático, é bem possível que as equipes adversárias não prestem muita atenção a isso. Mas e a brecha encontrada colocar a equipe na liderança do campeonato, certamente isso vai gerar reação dos adversários.

Se ao longo da vida parlamentar de Bolsonaro, transgressões à regra foram toleradas por seus pares porque eles o consideraram um exótico a quem não se deveria dar importância, fica claro que isso, se aconteceu, terá sido um erro estratégico. Foi isso que permitiu a ele criar a ideia do “Mito”, o político lacrador, que diz o que pensa, sem papas na língua. Aquele que traz, como ele mesmo diz, a “verdade”, para citar em seguida o trecho da Bíblia que diz que a verdade “libertará”.

Bolsonaro é hoje presidente da República. Portanto, quando ele testa os limites das instituições e da própria democracia, o efeito possível de tal ato é diretamente proporcional ao tamanho do cargo que ocupa.

Por outro lado, Bolsonaro parece bom no esporte que pratica. Ao testar os limites, ele parece sempre deixar suas próprias brechas. Ou suas opções de recuo. Se fica possível avançar a partir do limite estabelecido, avança-se. Se as instituições reagem, recua-se. Isso já aconteceu várias vezes. E parece ter acontecido de novo com a história do compartilhamento dos vídeos que convidam para as manifestações contra o Congresso.

Bolsonaro constroi a tese de que fez compartilhamentos de “cunho pessoal”, entre amigos no whatsapp. Não institucionalmente, como presidente. É difícil separar o pessoal em alguém que, presidente da República, representa uma instituição. Diz também que os vídeos que ele compartilhou criticam, mas não falam em fechamento do Congresso. Mais que tudo, ele adota como postura apoio a uma manifestação em favor do seu governo, e não contra os demais poderes. Diante da reação dos demais poderes, houve um recuo.

Neste momento, o aspecto positivo de tudo isso foi a pronta reação das autoridades que representam os demais poderes e outras instituições. Demonstraram que parecem estar funcionando os famosos freios e contrapesos que mantêm os poderes equilibrados e impedem que um extrapole sobre o outro. O problema é saber que resiliência tem de fato uma democracia ainda não totalmente madura como a brasileira ao se ver testada o tempo inteiro. É saber se esse constante teste dos limites não equivale àquele velho ditado: “Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”.

Política

Freios e contrapesos de Rodrigo Maia


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Foto: Agência Brasil/EBC

A mais de um interlocutor nos últimos dias, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), disse que, se receber um pedido bem fundamentado de impeachment contra o presidente Jair Bolsonaro, ele poderá aceitá-lo e dar encaminhamento ao processo. Independentemente de qual seja o desfecho, é nesse pé que está hoje o perigoso flerte que Bolsonaro vem fazendo com o autoritarismo.

Em 1748, o filósofo francês Montesquieu publicou os 31 volumes da sua obra “O Espírito das Leis”. Nela, ele estabelece o que ficou conhecido como sistema de “freios e contrapesos” entre os poderes. Trata-se de um princípio basilar das democracias. Significa dizer que os poderes têm de trabalhar de uma forma em que um equilibre o outro. Numa democracia equilibrada, estabelece-se um sistema em que um poder terá ferramentas para impedir que um outro poder extrapole os seus limites. São os freios e contrapesos. Se um poder ultrapassa, os demais precisam ter condições de trazè-lo de volta para o lugar.

O ex-senador Marco Maciel, vice-presidente da República no governo Fernando Henrique Cardoso gostava de chamar o princípio estabelecido por Montesquieu de “equipotência dos poderes”. Os americanos e ingleses chamam de “check and balances”. Qualquer nome que se dê, os freios e contrapesos existem e são fundamentais em qualquer democracia.

Admirador declarado dos tempos nada democráticos da ditadura militar, o presidente Bolsonaro age na democracia como uma criança mimada que a todo momento testa os limites da autoridade dos seus país. Se os pais cedem, ele avança testando novos limites. Se os pais reagem, ele recua. Daí, a necessidade sempre da utilização no momento dos tais freios e contrapesos propostos pelo iluminista francês.

No nosso caso atual, quem tem se valido com gosto da prerrogativa de contrabalançar os excessos do presidente tem sido Rodrigo Maia. Naturalmente, na linha do que propôs Montesquieu, isso faz parte do seu papel. Mas também seria ingênuo supor que Maia assim age somente movido por suas convicções democráticas. O presidente da Câmara viu no comportamento de Bolsonaro uma janela de oportunidade. E é por ela que ele ensaia passar.

A profunda polarização ideológica das últimas eleições parece ter afundado o Brasil num tempo de insanidade. O contraponto de um presidente que ofende, difama e dá bananas para jornalistas virou, por exemplo, um senador, Cid Gomes (PDT-CE), avançando com uma retroescavadeira contra policiais militares. Que, diga-se, também extrapolam de seus direitos assombrando cidadãos, fechando lojas do Ceará encapuzados.

Rodrigo Maia prega que o antídoto para o hospício do radicalismo é a recuperação do centro democrático. Na sua avaliação, foi quando o país optou por esse centro que ele encontrou as melhores condições de estabilidade para avançar. Desde o ano passado, ele patrocina filmes divulgados na internet com essa ideia, dirigidos com competência pelo marqueteiro Chico Mendez.

Reuniões rotineiras têm sido feitas por Rodrigo Maia com políticos do centro democrático. Mesmo nomes do PT, como o deputado Paulo Pimenta (PT-RS) e o senador Jaques Wagner (PT-BA), têm participado das conversas. Na prática hoje, elas servem para manter Maia com o comando da Câmara, de onde ativa seus freios e contrapesos para evitar maiores arroubos do Executivo. Ele espera que tais ações redundem em alguma coisa na sucessão presidencial de 2022.  Pouco provável que elas tragam como consequência a própria candidatura de Maia. Mas ele pelo menos espera ter um papel preponderante na construção de um nome de centro para oferecer aos eleitores na ocasião.

O presidente da Câmara tem, por exemplo, conversado quase diariamente com o apresentador de TV Luciano Huck, nome que hoje também tem a simpatia do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Como alternativa, Huck tem um potencial curioso: mais do que com Bolsonaro, ele disputa votos entre a população mais pobre que hoje é eleitora de Luiz Inácio Lula da Silva, que, barrado pela Lei da Ficha Limpa, não disputará a eleição.

Tudo isso, é claro, se a racionalidade e o respeito à democracia for mantido daqui até 2022. Para isso, a democracia possui seus instrumentos. Os freios e contrapesos estabelecidos por Montesquieu. Nesse sentido, Rodrigo Maia abre sua caixa de ferramentas.

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Damares, Norte e Nordeste


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Foto: Fabio Pozzebom/Agência Brasil-EBC

Não resta a menor dúvida de que a ministra dos Direitos Humanos, Damares Alves, é polêmica. Mas não resta a menor dúvida também de que ela é o que o presidente Jair Bolsonaro chama de “terrivelmente evangélica”. Está totalmente identificada com o discurso conservador, especialmente nos costumes, que hoje ocupa o poder no país. E Damares é também a responsável por atacar os graves problemas sociais que ainda estão bem longe de resolvidos no Brasil. A combinação desses dois fatores faz com que, hoje, Damares esteja escalada pelos estrategistas políticos do governo para um importante papel: ser a cabeça de ponte a estourar o dique de votos e popularidade que o principal adversário do bolsonarismo, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seu PT, mantém nas regiões Norte e Nordeste. Não estranhe a linguagem militar, pois é esse o jargão usado principalmente pelos estrategistas do governo.

O raciocínio em torno de Damares vem da própria evolução de como Lula conquistou o seu cacife na parte norte do país. Na sua primeira eleição, em 2002, a maior parte dos votos do ex-presidente petista viera das regiões Sul e Sudeste. Foi somente na sequência do seu governo, na sua reeleição e nas duas eleições de Dilma Rousseff, que o cenário se inverteu e a principal reserva de votos petistas passou a vir do Norte e do Nordeste. Para os estrategistas do governo, isso não foi exatamente o resultado de uma guinada político-ideológica à esquerda vinda dos eleitores dessa região. Foi consequência da ampliação do Bolsa Família e do sucesso das políticas sociais dos governos do PT.

Resultado, portanto, da profunda carência social da população mais pobre dessas regiões. É claro que promover igualdade social está mais próximo do discurso da esquerda. Mas isso acontece na clássica visão mais econômica da divisão esquerda/direita. E o grande embate ideológico hoje no país está mais voltado à questão de costumes. Os conceitos que hoje a direita mais usa – como “ideologia de gênero” – estão mais voltados a uma ideia de que há uma indústria cultural de esquerda no mundo que quer minar os valores tradicionais ligados à família. E, nesse sentido, até Hollywood para boa parte dessas pessoas seria hoje de esquerda.

O grande paradoxo dessa história toda é que a maior parte da população diretamente beneficiada pelos programas sociais implementados pelo PT é conservadora nos costumes. Boa parte tornou-se, como Damares, “terrivelmente evangélica”. E, mesmo que não professe a mesma crença, não pensa de modo muito diferente. É aí que se une a conformação capaz de fazer da ministra dos Direitos Humanos a ferramenta para tentar minar o dique de Lula.

Desde o ano passado, Damares tem priorizado na sua agenda visitas ao Norte e ao Nordeste. Mais do que isso, começou a implantar laboratórios para ações mais efetivas na região. O mais avançado deles está sendo implementado na Ilha de Marajó, no Pará. A grande ilha fluvial tem um dos piores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) do país, ainda que possua a maior criação de búfalos do continente e tenha imenso potencial turístico. Há ali um sério problema que bate com as preocupações de Damares: uma incidência muito grande de casos de abuso sexual de crianças, especialmente dentro das famílias. Não é à toa a criação ali do mito do Boto, que tem muito a ver com isso.

O ministério de Damares está implementando ali um programa chamado Abrace o Marajó. Ela está liderando uma ação que envolve oito ministérios para levar investimentos e direitos sociais à ilha. Recursos do BNDES e da iniciativa privada – inclusive a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) – estão sendo movidos para construir um grande resort e levar turismo à região. O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas (Inep) doou um barco batizado de Navio dos Direitos, que viaja pelo rio dando orientações, fazendo documentos, cadastro para o Benefício de Prestação Continuada (BPC) e contendo uma Casa da Mulher Brasileira fluvial.

A partir dos resultados obtidos na Ilha de Marajó, a ideia é fazer outros laboratórios semelhantes em cidades do Norte e Nordeste, como Fortaleza e Aracaju e municípios menores.

Damares está em contato com candidatos a prefeito que tenham identificação com seus projetos para ajudá-los nas eleições municipais e trazê-los para o projeto de reeleição de Jair Bolsonaro em 2022. Ainda que o presidente esteja hoje sem partido, pensa-se que esse pode ser um caminho para pavimentar a tentativa de segundo mandato.

Se a ministra for capaz de unir uma efetiva ação social a um discurso mais conservador que, na verdade, hoje parece mais próximo da forma de pensar de quem precisa dessa ação, avalia o governo que poderá trazer grandes danos ao dique de Lula no Norte e no Nordeste.