Guerra Fria

Política

Rodrigo Maia, o reformista. Será raposa?


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Foto: Fabio Pozzebom/Agência Brasil-EBC

O choro do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), ao anunciar, na tarde da quarta-feira (10), o resultado da aprovação do texto-base da reforma da Previdência foi o retrato inconteste do triunfo da velha política. Pode-se comparar perfis, experiências, reputações, mas Maia recuava ali mais de 60 anos e recolocava o país na lógica do equilíbrio político que ainda hoje o caracteriza. Era o velho PSD da década de 1950 mostrando ainda as suas caras.

É incrível como o arranjo político desenhado no Brasil ao final da era Vargas seja ainda o desenho mais sólido do jogo de forças que mantém nossa estabilidade em tempos de democracia. Os partidos mudaram, novos grupos surgiram, novas pressões aconteceram, há hoje diversos elementos novos vindos de outras formas de participação da sociedade – a mais recente delas, a força de pressão direta via redes sociais. Mas a lógica que havia no tripé UDN-PSD-PTB naquele arranjo permanece. A UDN representando os grupos conservadores, de direita, à época ligados às novas categorias de profissionais liberais que surgiam com o crescimento urbano brasileiro. O PTB ligado à crescente organização sindical, dos trabalhadores que se aglutinavam com a industrialização do país e os embates do sindicalismo. E o PSD, ao centro, aglutinando os coroneis e raposas da política de líderes regionais da Velha República com novos representantes das forças moderadas.

Como mostra Lúcia Hippolito no seu ótimo livro “PSD, de Raposas e Reformistas”, o PSD foi fortemente responsável por manter a estabilidade política do final da era Vargas até o final da década de 1950, administrando e amaciando os conflitos entre esquerda e direita, partidariamente representados pelo PTB e pela UDN. Em tempos em que a Guerra Fria estimulava arroubos golpistas de um lado e de outro. Um trabalho que provavelmente atrasou em coisa de vinte anos o infeliz desfecho da ditadura militar com o golpe de 1964. Foi do PSD a última tentativa de manter as coisas estabilizadas, com a implementação do parlamentarismo para reduzir os poderes de João Goulart.

A vitória de Jair Bolsonaro após a longa era em que o PT se manteve no poder – a maior era de domínio de um partido na nossa história republicana – traz de volta para o cenário um tempo de embate forte entre direita e esquerda. Com todos os riscos de transformação disso num radical diálogo de surdos, em nada semelhante do que se espera de uma democracia. Por mais que se torça o nariz para o conteúdo da reforma da Previdência, o trabalho de Rodrigo Maia ao aprovar o texto-base trouxe a bola de novo para o centro do campo. No que isso pode significar de bom e de ruim. A lição que fica é que o jogo jogado continua a ser o da política, de quem negocia e cede. Não o de quem atropela.

De ruim, fica claro que em um país no qual hoje as forças políticas dividem-se numa miríade de partidos sem consistência ideológica, o jogo da negociação seguirá passando pelo velho toma-lá-dá da distribuição de verbas e cargos. O governo abriu firme a carteira para fazer passar o projeto. Fica claro também que seguirá conseguindo mais quem pode mais. A negociação suprimiu setores e categorias da reforma. O sistema previdenciário brasileiro seguirá sendo desigual, penalizando mais alguns e pesando bem menos sobre outros.

De bom, Rodrigo Maia mostra ao governo que o jogo da democracia não é o de vitórias ou derrotas absolutas. Não se atropela o Congresso. Não se desce goela abaixo projetos e imposições. Sempre o que se aprovará é o possível, não o totalmente desejado.

A outra lição é que,diante da constatação de situações contra as quais não há possibilidade de impedimento, quem não negocia perde totalmente. Logo no início do seu primeiro governo, o ex-presidente Lula fez uma reforma da Previdência. Ou seja: quando esteve no poder, o PT já constatou que, na prática, não se sustentava seu discurso anterior de que não era necessária uma mudança nos cálculos e nos formatos do nosso sistema previdenciário. Outros partidos de oposição, como o PDT, na campanha presidencial do ano passado, também já sustentavam a necessidade de reforma. No processo de discussão do projeto, as oposições apostaram que o governo, estabanado e de cintura dura, poderia acabar pondo tudo a perder e não aprovando nada. Acabou ficando fora da negociação. Não negociou. Não contribuiu para a formação de um projeto mais palatável. Correrá atrás agora, enfraquecido, na tentativa de emplacar algum destaque.

Enquanto isso, Rodrigo Maia estabelece como agenda seguinte a reforma tributária, a partir de projetos que já tramitavam e que tiveram iniciativa no Congresso. Ou seja, uma agenda sua, e não de iniciativa do Executivo. O tempo dirá se o presidente da Câmara de 49 anos será tão habilidoso quanto seus modelos do PSD da década de 1950. Se será capaz de segurar da mesma forma os embates entre os radicais de direita e esquerda trazendo a bola para o centro do campo. Veremos o quanto Rodrigo Maia será capaz de ser “raposa”, no seu projeto de ser “reformista”.

Política

Dr. Fantástico e o chanceler


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Há alguns anos, falando de “Dr. Fantástico”, de Stanley Kubrick, um crítico classificava o filme como “genial”, embora “datado” por tratar da paranoia nuclear da Guerra Fria. Passado o tempo, percebe-se que o que ficou datado foi a crítica. “Dr. Fantástico” continua sendo não apenas um filme genial. Continua, ou voltou a ser, assustadoramente atual. Não pelo contexto da Guerra Fria, mas pelos perigos que acontecem quando pessoas com poder começam a acreditar em teorias conspiratórias malucas.

Interpretado por Sterling Hayden, o brigadeiro Jack D. Ripper (o nome é uma clara piada com Jack, o Estripador), acredita que o acréscimo de flúor à água oferecida aos norte-americanos é um “plano comunista”. Segundo ele, o flúor interfere nos “fluidos corporais” do ser humano, permitindo que eles passem a ser controlados pelos comunistas. Por isso, Ripper só toma água de chuva, para “poder manter intactos os seus fluidos corporais”. O brigadeiro comanda a base que abriga os bombardeios B-52, que levam nas suas barrigas as mais potentes bombas nucleares do arsenal americano. Assim, para dar cabo ao terrível plano comunista, ele ordena um ataque à União Soviética. O ataque só pode ser parado com o acionamento de um código. Mas a única pessoa que conhece o tal código é o próprio Ripper.

O genial humorista Peter Sellers interpreta três diferentes papeis no filme. Um  deles é o capitão Lionel Mandrake, que, trancado na mesma sala com Ripper, tenta demovê-lo da sua loucura. O desalento de Mandrake ao tentar entender a mente de Ripper e evitar a guerra nuclear pontua o filme. Em outro cenário do filme, um espaço de comando do Estado Maior americano, o presidente dos Estados Unidos, Muffley, também interpretado por Sellers, reúne seus generais para discutir a crise. Entre os conselheiros de Muffley, está um engenheiro alemão, sequestrado durante a Segunda Guerra, que não consegue esconder seu passado nazista. O engenheiro, conhecido por Dr. Fantástico (na versão original, Dr. Strangelove), o terceiro papel de Peter Sellers, tem um braço mecânico que, de vez em quando, trava e se estica involuntariamente fazendo a saudação a Hitler.

De uma forma que provoca no espectador profundo desconforto e nervosismo nas risadas diante do absurdo, Kubrick vai conduzindo o non-sense que não consegue impedir o fim dos tempos. Permitam-me o spoyler: numa das cenas finais, o comandante de um dos bombardeiros termina montado com chapeu de vaqueiro em cima de uma bomba atômica rumo ao seu alvo.

O futuro chanceler brasileiro, Ernesto Araújo, acredita na existência de uma teoria da conspiração batizada de “globalismo”. Segundo ela, o comunismo, na sua nova face, criaria “agendas globais” para combater o capitalismo. Essas “agendas” incluiriam a questão do aquecimento global, o feminismo, as questões de gênero, entre outras. Tais temas enfraqueceriam o pensamento cristão ocidental até destruí-lo.

Como servidor público que era, o brigadeiro Ripper do filme de Kubrick deveria saber que quem colocava – e segue colocando – flúor na água que os norte-americanos bebem são os funcionários das companhias de abastecimento dos governos dos Estados Unidos. E certamente não há muita hipótese de todos eles – ou mesmo que um deles – seja um comunista infiltrado. Da mesma forma, impressiona que um servidor público que atua nas relações internacionais acredite que esses temas sejam introduzidos no debate no mundo por comunistas infiltrados. Já que estão nas agendas dos organismos internacionais que atuam em cada área.

No contexto do filme de Kubrick, acreditar em teorias conspiratórias envolvendo comunistas até tinha alguma explicação. O mundo de fato era dividido em dois blocos, cada um comandado por uma superpotência. Os Estados Unidos representavam o bloco capitalista ocidental. E a União Soviética era a superpotência comunista. De fato, o plano comunista consistia mesmo em fomentar revoluções nos diversos países a fim de, ao final, formar um único planeta. O fim do processo revolucionário mundial compreenderia de fato o fim das fronteiras.

Acontece que hoje, porém, não há mais nenhuma superpotência a liderar tais ideias. Conformação concreta da divisão do mundo em dois blocos, o Muro de Berlim foi derrubado em 1989. A superpotência comunista, a União Soviética, acabou-se em 1991. Hoje, a Rússia, o país que sobrou, abriga alguns dos maiores bilionários do planeta. A China segue sendo um país totalitário, mas, no plano do comércio internacional, é um agressivo player capitalista. Cuba poderia permanecer como espécie de amostra do comunismo se lá também ele não arrefecesse e a possibilidade de iniciativa privada não fosse a cada dia mais crescente. Quem poderia, então, liderar esse plano maquiavélico comunista? A Venezuela, que nem declaradamente comunista é, e não consegue resolver minimamente seus próprios problemas?

Se muito do que existe hoje no mundo é global, isso é consequência não de um tal “globalismo”, mas da globalização. Fenômeno ligado às relações econômicas, e cerne do liberalismo, que o “Posto Ipiranga” de Jair Bolsonaro, Paulo Guedes, professa com ardor. A globalização sugere uma espécie de divisão de tarefas do mundo, e a criação de uma sociedade de consumo global. Por ela, os países mais desenvolvidos ficam com a produção dos produtos mais elaborados, de maior tecnologia. Tal divisão tornou o Brasil potência do agronegócio. Mas fez com que nosso país perdesse grande parte da força industrial que já teve. Setores como o de calçados, vestuário ou brinquedos perderam a capacidade de competir com países onde o custo da mão-de-obra é muito mais barato. Nesse processo de incentivo do consumo, alguns grupos, como as comunidades LGBT, ganharam destaque muitas vezes por razões meramente capitalistas e mercadológicas. Como muitas vezes não constituem famílias e usam o que ganham com o trabalho apenas para o custo deles próprios, os integrantes desses grupos se tornam grandes consumidores. Cruzeiros de navio, hoteis e outros produtos LGBT não surgiram com o propósito maquiavélico de suberverter a família ocidental cristã. Surgiram porque dão dinheiro.

Ocorre, porém, que algumas áreas do mundo, como parte da África ou da América Latina, depois de exploradas até o osso, perderam função nessa divisão de tarefas do mundo proposta pela globalização. Até se inviabilizarem completamente. Sem alternativa de sobrevivência, hordas de migrantes dessas regiões buscam alguma chance nos países desenvolvidos. O que gerou nesses países uma reação  conservadora, protecionista, nacionalista, que gera tais teorias conspiratórias. Parte do mundo desenvolvido não quer mais brincar de globalização. Não nos termos propostos até agora. Daí, criam-se e estimulam-se essas paranoias que hoje se disseminam muito mais facilmente, por conta de ferramentas criadas novamente por capitalistas e não por comunistas, que são as redes sociais.

Se o bom senso ainda estivesse na moda, não se perderia dois segundos com tais teorias. No filme de Kubrick, a paranoia instala-se em alguém com poder para iniciar uma guerra nuclear. No caso brasileiro, ela estará em alguém que comandará as relações internacionais do país. Na paranoia que ele consome, está a perigosa ideia de enfraquecimento dos organismos e blocos internacionais, supostos propagadores das ideias perigosas. Sem organismos internacionais e sem blocos, os países mais fracos terão mais e mais que resolver seus problemas bilateralmente. De igual para igual para as superpotências, perderão todas. O que produz algum equilíbrio no mundo globalizado é justamente a possibilidade de negociar em bloco ou de recorrer às cortes dos organismos internacionais. O Brasil pode ser grande. Mas forte não é. Em Dr. Fantástico, todos perdem com a paranoia do brigadeiro Ripper. No mundo real, quem ganha com as novas paranoias surgidas?

P.S: Agradeço ao mano Gustavo Lago a lembrança de Dr. Fantástico.