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Política

O governo mais ideológico da história?


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Foto: Valter Campanato/Agência Brasil-EBC

Talvez para todo o sempre – mas certamente até aqui -, o modelo que segue administrando nossa correlação de forças políticas ainda é o criado após o fim da ditadura de Getúlio Vargas em 1945. Naquele momento, e até o golpe militar de 1964, fomos regidos por um triunvirato formado por PSD, PTB e UDN. A UDN era o partido conservador, de direita, surgido com a ascensão da classe média urbana e de seus profissionais liberais. O PTB era o partido trabalhista, de esquerda, que unia sindicatos e movimentos de trabalhadores, braço do getulismo. E o PSD a grande conformação de centro, que unia os caciques regionais. Brilhantemente retratado no livro da cientista política Lucia Hippolyto – “PSD, de Raposas e Reformistas” -, era o partido que garantia a governabilidade, impedia maiores arroubos e mantinha a fórmula estável.

A ditadura militar acabou com os partidos pós-1945. Quando houve a redemocratização, surgiram novas legendas. Houve uma maior diluição, e a criação de partidos que não são absolutamente nada, não têm ideologia nenhuma e atuam como parasitas a sugar a seiva de quem quer que chegue ao poder. Mas, por trás dessa geleia, parece sobreviver o espírito do triunvirato PSB, PTB e UDN. A UDN está em todas essas conformações de direita. Não por acaso, num momento em que a direita ascende, há gente aí inclusive tentando ressuscitar a sigla. O PTB está no espírito trabalhista dos nossos principais partidos de esquerda. O PDT como herdeiro original, o PT tentando inicialmente fazer um contraponto ao antigo trabalhismo, para, na prática, não ser lá tão diferente.

Mas é principalmente o PSD que parece estar no cerne do espírito da busca da coalizão para a manutenção da governabilidade. E, aqui, não falamos necessariamente da coalizão distorcida. Da governabilidade mantida a partir do toma-lá-dá-cá, do fisiologismo, do “É dando que se recebe”. Mas da coalizão saudável. Da necessidade de concertação diante dessa multidão de partidos, numa sociedade multifacetada.

Até a eleição de Jânio Quadros, o PSD deu um jeito de manter a governabilidade apesar dos arroubos da direita extremada doida para dar um golpe. Quando Jânio se elegeu, imprevisível, o arranjo de concertação foi pro vinagre, e deu no que deu.

Não são poucos agora os que sentem um cheiro de Jânio no ar. Além do grau de imprevisibilidade parecido, soma-se agora a extrema casca ideológica do núcleo duro no poder. Possivelmente, temos hoje o governo mais ideológico da nossa história – incluídos aí os governos das ditaduras. O que tem feito bater na trave todas as tentativas de moderação vindas do centro. O resultado não poderia ser outro: instabilidade crônica.

Os episódios das demissões do general Santos Cruz da Secretaria de Governo e de Joaquim Levy da presidência do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) são fortes exemplos disso. Na campanha, Bolsonaro elegeu-se com o discurso da necessidade de retirar da vida das pessoas a influência ideológica. Afirma que isso acontece nas escolas, que é assim nas universidades, etc. Mas, na melhor das hipóteses, o presidente apenas trocou uma ideologia por outra. Na pior, e que está se mostrando mais provável, introduziu na nossa rotina uma ideologia forte como nunca antes se viu.

O fato de Joaquim Levy ter sido ministro da Fazenda de Dilma Rousseff é um exemplo claro de que ideias mais conservadoras podiam habitar no universo anterior. Essa, aliás, foi a grande crítica que então se fez a Levy e a Dilma: ela passou a campanha dizendo que não havia crise, e botou um cara para fazer o choque fiscal da maneira mais conservadora possível na economia. Levy não foi parar como um clandestino na equipe de Paulo Guedes. Levy sempre foi muito mais próximo ao pensamento de economistas como Guedes do que da turma da esquerda.

Mas Levy cai somente por causa dessa sua vinculação passada. Porque Bolsonaro sonhou com uma devassa nas contas do BNDES, que mostraria monstruosas irregularidades cometidas com o nosso dinheiro. Levy não entregou a tal devassa. Agora, veremos se não fez isso por alguma lealdade aos antigos patrões ou porque não encontrou mesmo nada de tão grave assim. Levy sai do governo elogiado por Rodrigo Maia e outras figuras do centro.

Já Santos Cruz era, junto com Hamilton Mourão, o retrato de uma moderação militar que ninguém esperava muito antes da eleição. Era ele quem evitava na Secretaria de Governo que imperasse uma relação radical, que elegesse a imprensa como inimiga, só falasse com blogs amigos e jogasse o equilíbrio às favas. Ou seja: uma radicalização a um grau extremo de algo que os governos petistas ensaiaram, principalmente nos seus últimos momentos: imprensa como inimiga e ajuda aos blogs amigos.

Assim como aconteceu com o imprevisível e bagunçado Jânio, o centro faz agora ensaios de afastamento. Ou de ser afastado, o que neste momento parece ser a leitura mais correta. Na manhã desta terça-feira, faziam na Câmara do Rio uma homenagem a Mourão, e Carlos Bolsonaro deixou a sessão em protesto.

Na época de Jânio, o afastamento do centro representado pelo PSD desequilibrou a fórmula e permitiu a ascensão dos radicais, de um lado e de outro. O que levou ao golpe militar e a ausência de democracia por vinte anos nas nossas vidas.

Deus queira que nada de parecido aconteça agora. Mas o Brasil certamente não são os 15% mais radicais que aplaudem os posts incompreensíveis de Carlos Bolsonaro ou que riem das piadas escatológicas de Olavo de Carvalho. Se é verdade que o país precisa das reformas estruturantes, como a da Previdência, a aprovação delas passa pelo centro. Pelo PSD diluído hoje no Congresso e comandado pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia. A fórmula que nos mantém estáveis permanece a mesma.

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Nunca mais!


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Por uma dessas coincidências da vida, termino justamente hoje a leitura de “Silêncio na Cidade”, romance do meu amigo, o jornalista Roberto Seabra. Meu querido amigo Beto construiu o que os franceses chamam de “roman à clef” – numa tradução livre, “romance com chave”, formato no qual se usam personagens fictícios em substituição aos personagens reais – para retratar o caso Ana Lídia. Neste 31 de março, o golpe militar que mergulhou o país por vinte anos numa ditadura completa 55 anos. Em setembro, o assassinato de Ana Lídia completará 46 anos.

Nestes estranhos tempos, há quem sugira comemorar os 55 anos do dia que virou uma noite de vinte anos. Rememorar aquele dia e suas consequências certamente é algo muito necessário. Rememorar, lembrar, para que nunca mais se repita. Comemorar… Não há nada a comemorar…

Há dezenas de tristes histórias de torturas, assassinatos, desaparecimentos que poderiam ser lembradas para mostrar que não há nada a comemorar. Serão histórias que mostrarão a covardia de um regime que impôs força absolutamente desproporcional contra seus opositores, contra seus adversários. Serão histórias de um regime que se impôs pelo medo, pela sombra, pela violência.

Mas, em todos esses casos, se contarão histórias de violência – ainda que desproporcional – contra adversários do regime. O caso Ana Lídia mostra, porém, como a sombra da ditadura não atinge somente seus adversários. Ela cai, gelada, sobre qualquer um. Ela vitima também os inocentes. Ana Lídia era uma menina de apenas 7 anos. Seus pais, funcionários públicos. E seu bárbaro assassinato nada teve a ver com a forma como eles pensavam ou atuavam. Linda, loura, de olhos azuis, Ana Lídia parecia um anjo de igreja barroca. Nada poderia emoldurar mais que seu rosto a imagem da absoluta inocência.

Às 13h do dia 12 de setembro de 1973, Ana Lídia foi encontrada nua em um matagal próximo à Universidade de Brasília, semienterrada numa vala próxima a marcas de pneus e duas camisinhas. Seus cabelos tinham sido cortados e havia marcas de cigarro em diversas partes do seu corpo.

Em “Silêncio na Cidade”,  Beto Seabra descreve como as investigações chegaram ao irmão de Ana Lídia, Álvaro Henrique Braga. Ele e sua namorada, Gilma Varela de Albuquerque, teriam cometido a barbaridade de entregar a menina como pagamento de uma dívida de drogas junto a traficantes. Venderam a menina pra pagar uma dívida de drogas!

Um dia antes de ser encontrada morta, Ana Lídia foi levada para um sítio nas proximidades de Brasília. Foi nesse sítio que todo tipo de barbaridade foi cometida contra a menina. E é aí que ela deixa de ser somente a vítima de um crime bárbaro para se tornar uma vítima da ditadura.

O sítio pertencia ao então vice-líder da Arena, partido que apoiava a ditadura, no Senado, Eurico Rezende. Entre os suspeitos de terem assassinado Ana Lídia, estavam o filho de Eurico Rezende, Eduardo Ribeiro Rezende, e o filho do então ministro da Justiça, Alfredo Buzaid, Alfredo Buzaid Júnior, conhecido como Buzaidinho. O terceiro suspeito era o traficante  Raimundo Lacerda Duque.

Como narra Beto Seabra em seu romance, o Estado, com a força que só têm as ditaduras, trabalhou para abafar o caso e impedir que as investigações avançassem sobre o filho do senador e o filho do ministro da Justiça. No dia 20 de maio de 1974, a Polícia Federal emitiu um notificado que somente as ditaduras emitem: “De ordem superior, fica terminantemente proibida a divulgação através de meios de comunicação social escrito, falado, televisado, comentários, transcrição, referências e outras matérias sobre caso Ana Lídia”.

Até hoje, não houve um desfecho para o caso. Ninguém foi punido. Há quem ainda leve flores ao túmulo de Ana Lídia. Há quem a considere uma santa. Talvez alguns poucos se lembrem, ao passar pelo escorregador em forma de foguete que há no Parque da Cidade, que ele foi batizado com o nome de Ana Lídia.

Esses que se lembram percebem que há uma chaga viva no coração da cidade que nunca vai se fechar. Chaga que se abriu no dia em que uma menina de sete anos foi violentada até a morte por rapazes que se julgavam capazes de tudo somente porque eram filhos de altas autoridades da República em tempos sem Justiça e sem democracia. O dia também em que pelos louros cachos e pelos olhos azuis de Ana Lídia a cidade perdeu sua inocência. E percebeu que todos, sem distinção, eram vítimas da sombra que escurecia aqueles dias.

As ditaduras assombram. As ditaduras gelam. As ditaduras amedrontam. As ditaduras violentam. As ditaduras disseminam o ódio. As ditaduras impedem o diálogo. As ditaduras dividem as pessoas. As ditaduras fazem chorar e ranger os dentes. As ditaduras nada comemoram. As ditaduras não podem voltar. Nunca mais!