Flávio Bolsonaro

Política

O efeito reverso das denúncias contra Moro


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Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil-EBC

O Instituto Paraná Pesquisas, do cientista político Murilo Hidalgo, divulgou nesta terça-feira (25) pesquisa que merece muita atenção. Murilo gosta de fazer curtas apurações sobre temas relevantes da nossa pauta política, que servem como bússolas importantes dos caminhos que o país tende a seguir. Desta vez, ele fez somente duas perguntas a 2.264 pessoas de 176 municípios dos 26 estados brasileiros e do Distrito Federal, entre os dias 17 e 21 de julho. A primeira pergunta foi se a pessoa tinha tomado conhecimento das denúncias do WikiJato do The Intercept Brasil, que apontam para um conluio entre o hoje ministro da Justiça, Sérgio Moro, quando era juiz e os procuradores da Lava Jato. A segunda pergunta foi: isso põe em dúvida os resultados da operação?

A resposta à primeira pergunta aponta para um nível bem alto de conhecimento dos diálogos que o site The Intercept Brasil vem publicando, agora em parceria com outros veículos. Nada menos que 86,7% dos entrevistados disseram ter tomado conhecimento das publicações. A segunda pergunta mostra que isso pode ter provocado certo abalo na credibilidade da Lava Jato, mas longe de ser o suficiente para mudar a convicção da maioria da sociedade quanto à sua importância. Para 38,1% dos entrevistados, o que vem sendo publicado põe, sim, em dúvida os resultados da operação. Mas para 56,1%, isso não aconteceu. Esse grupo, que constitui a maioria, continua convicto da importância da operação que engaiolou um expressivo número de políticos e empresários brasileiros.

Fica claro aí um efeito reverso das denúncias, do qual o presidente Jair Bolsonaro e Sérgio Moro já parecem ter se dado conta. As publicações do The Intercept parecem ter recolocado a disputa político no terreno que Bolsonaro mais gosta: o da polarização absoluta dele com Lula, de seu grupo com o do PT. E não é por outra razão que Bolsonaro animou-se a, desde já, lançar-se no terreno da reeleição.

Enquanto ficam completamente desaparecidos do noticiário os fatos que poderiam questionar o próprio Bolsonaro e seu grupo enquanto representantes da moralidade política como se pretendem – as histórias que envolvem laranjas, milícias, Fabrício Queiroz, o senador Flávio Bolsonaro, o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, etc – parte-se para cima de Sérgio Moro. Questiona-se de forma dura sua imparcialidade. Mostra-se que ele, de fato, no mínimo, flertou profundamente com os limites das suas funções para alcançar condenações, especialmente a do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

E eis que voltamos, então, àquele ponto que alçou Bolsonaro à Presidência. As denúncias reanimaram o Lula Livre. E a liberdade de Lula voltou a ser a referência da oposição. Ocorre que, se Lula aglutina os seus, é ele que aglutina também os que se opõem a ele. Foi a impressão de que Bolsonaro era o único capaz de derrotar o PT – e, consequentementemente, derrotar Lula – que fez com que seu eleitorado se ampliasse além dos 15% originais, angariando o empresariado, o meio militar, os liberais.

Por conta das trapalhadas de seu próprio estilo, Bolsonaro vinha perdendo o apoio além dos seus 15%. Porque insiste em falar somente para eles. Ainda perde, por conta de episódios como o da demissão do general Santos Cruz. Ou das brigas com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ). Mas a ameaça à Lava Jato cria um novo fator de união. Talvez nem pelos riscos ao combate à corrupção. Mas pelos riscos de se ver Lula novamente solto e em campanha.

As avaliações de que o episódio enfraquece Moro e o joga no colo de Bolsonaro talvez sejam um pouco simplistas. O que na verdade parece ter acontecido é que elas uniram novamente o presidente e seu ministro da Justiça. Se antes Bolsonaro vinha largando o ministro de lado, porque ele às vezes atrapalhava sua pretensão de falar somente para seus 15%, agora o presidente voltou a ver em Moro a chance de retornar ao velho FlaXFlu que ele gosta de jogar.

Lula é, ao mesmo tempo, o calo e o trunfo de Bolsonaro. Seu maior inimigo, mas também seu adversário predileto. Há algo nessa relação que lembra uma canção de João Bosco e Aldir Blanc, “Siameses”, cujos versos dizem: “Amiga inseparável/Rancores siameses/Nos unem pelo olhar/Infelizes pra sempre/Em comunhão de males”…

Política

Quem paga o pacto?


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Foto: Marcos Corrêa/PR

Não tem nada mais velho nessa ideia de “nova política” do que essa história de pacto nacional pelo país. Por isso, com o perdão dos leitores, vai aí acima um título que também é velho e já foi usado bem mais de uma vez em algum veículo nestes últimos mais de 30 anos desde a redemocratização.

Bem lá atrás, no começo dessa história, José Sarney propôs o primeiro pacto. Herdava de forma trágica e inesperada a Presidência com a doença e morte de Tancredo Neves. Tinha a correta convicção de que não estava legitimado pela sociedade. Morria de medo de um retrocesso pelas mãos e botas ainda muito poderosas dos militares. Propôs, então, o que se chamou de “pacto social”. Para reforçar o pacto, adotou como slogan o “Tudo pelo social”. Ao qual o jornal humorístico Planeta Diário rapidamente acrescentou: “E nós pela entrada de serviço…”

O pacto durou enquanto Sarney foi popular com o Plano Cruzado. Degringolou quando a população percebeu que o Cruzado era uma farsa sustentada por um artificial congelamento de preços. Por conta da farsa, o PMDB, partido de Sarney, elegeu todos os governadores do país, com exceção de Sergipe, onde foi eleito João Alves, do PDS. Logo em seguida, os preços foram descongelados e dispararam rapidamente. A população revoltou-se. Em Brasília, quebrou tudo na Rodoviária no episódio que ficou conhecido como “Badernaço”. E lá se foi o pacto… Sarney enfrentou uma CPI da Corrupção, perdeu um ano de mandato na Constituinte, inventou o Centrão que até hoje nos visita para negociar rádios e outras benesses para evitar outras perdas, levou o país a uma hiperinflação sem precedentes. Terminou o mandato como um dos presidentes mais impopulares da história.

Itamar Franco também propôs seu pacto. O então líder do governo, Pedro Simon, batizou-o de “condomínio da governabilidade”. Talvez tenha sido o que mais sucesso obteve com esse entendimento. Havia uma compreensão tácita entre os partidos políticos de que tinham responsabilidade grande em fazer com que o governo Itamar desse certo. Afinal, tinham derrubado num processo de impeachment logo o primeiro presidente eleito democraticamente por voto direto depois da ditadura militar. Precisavam mostrar que tinham tão somente se valido de um instrumento constitucional para dar solução política a uma crise. O “condomínio” uniu-se a Itamar. Mesmo o PT  – que ajudou a derrubar Collor, mas preferiu ficar oficialmente de fora – fazia uma oposição branda.

Mas as urgências da disputa política também desmontaram o pacto. Inicialmente, Itamar cogitou lançar à Presidência na sua sucessão seu ministro da Previdência, o jornalista Antônio Britto, ex-porta-voz de Tancredo Neves. O hoje senador Tasso Jereissati (CE) costurava com o hoje presidiário Luiz Inácio Lula da Silva uma aliança entre o PSDB e o PT. Mas houve o Plano Real, e a sorte eleitoral e política mudou de lado. Lula, que então liderava todas as pesquisas para presidente, resolveu ficar contra o Real. O plano deu certo. Nunca mais houve hiperinflação no país. O país voltou a poder planejar sua vida financeira. O ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, que vinha de perder uma eleição para Jânio Quadros para prefeito de São Paulo e tivera dificuldades para se eleger senador, virou pule de dez na disputa presidencial e desbancou Lula. Iniciou-se aí a tola divisão entre coxinhas e petralhas que dominou o debate político e resultou na derrota de ambos com a vitória de Jair Bolsonaro.

Certamente, agora, Bolsonaro sentiu-se legitimado pelas manifestações de domingo. Que foram, sim, expressivas. Mas menores que os atos de protesto do dia 15 de maio pelos cortes na educação. Temos, portanto, uma população dividida. Mais, talvez, do que temer reações da sociedade quanto à manutenção dos velhos instrumentos da barganha ou outras palavras de ordem do tipo, o que pode ter movido os presidentes da Câmara, do Senado e do STF a aceitarem o tal pacto proposto foi o vislumbre de fogo alto no circo se os grupos organizados de um lado e de outro continuarem marchando nas ruas, num estranho e perigoso revesamento,  um em reação ao outro.

O que parece ter se acertado, portanto, é um pacto de não agressão. Bolsonaro para de criticar Rodrigo Maia. Que para de atiçar o Centrão para que coloque entraves ao governo nas votações no Congresso. José Antônio Dias Toffoli para, por sua vez, de colocar Alexandre de Moraes para perseguir inimigos e tentar censurar a imprensa. E segue-se, assim, o barco.

Aí, voltamos ao título surrado lá de cima, que já perguntava há mais de 30 anos quem perde quando se fazem esses entendimentos. Porque alguém sempre tem que ceder num pacto. E geralmente quem entra de candidato a ceder geralmente é a sociedade, que não participou dele. Quem entra, quem fica de fora na reforma da Previdência e outras reformas estruturantes que vierem a ser acertadas? O pacto suspende, arrefece ou ameniza as investigações de combate à corrupção? É “com o Supremo, com tudo”? Inclui, por exemplo, tirar o Coaf do Ministério da Justiça? O Coaf que investigou Fabrício Queiroz, o ex-assessor do senador Flávio Bolsonaro, filho do presidente?

Será algo à la João Gilberto? Será que a “voz do pacto” é “mesmo um desacato”?

Política

A oposição não foi aos atos do governo


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Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil-EBC

Um dado curioso das manifestações de apoio ao governo Jair Bolsonaro no domingo foi a quase total ausência da oposição nos atos. Claro, ninguém está falando da presença física de opositores do governo nas ruas. Estamos falando dos alvos das manifestações. Com exceção de um pixuleco – o boneco do Lula presidiário – aqui ou ali, a turma gritou mesmo foi contra o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), o Centrão, o Supremo Tribunal Federal (STF) e a “mídia”.

Eis aí um ponto inusitado que une as hostes de Bolsonaro das do PT e de Lula. Eles podem pensar diferente em praticamente tudo, mas seus principais inimigos vão se tornando exatamente os mesmos.

Foi o Centrão de Rodrigo Maia, então sob o comando do ex-presidente da Câmara e agora presidiário Eduardo Cunha (MDB-RJ) que conduziu o processo de impeachment de Dilma Rousseff. Foi o Centrão de Maia e Cunha que tratou de inviabilizar completamente o segundo mandato de Dilma tornando o país ingovernável e criando as condições políticas para o seu afastamento. Foi o Supremo Tribunal Federal que conduziu primeiro o processo do Mensalão e depois os julgamentos provenientes da Lava Jato, esfarinhando o PT e condenando a sua cúpula à cadeia. O Supremo é instância máxima do Judiciário, que colocou e mantém na cadeia o ex-presidente Lula. E foi a “mídia”, a tal “mídia golpista” que distorceu fatos, criou versões com o propósito de desgastar o PT e tirar o partido do poder.

É o Centrão de Rodrigo Maia que agora cria dificuldades para que sejam aprovados os projetos de Jair Bolsonaro. É o Centrão de Rodrigo Maia que trata de inviabilizar o governo para achacá-lo, pressioná-lo e garantir a manutenção dos expedientes da “velha política”. O Supremo Tribunal Federal agora quer livrar da cadeia criminosos da Lava Jato. Mas ao mesmo tempo incentiva investigações contra o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) com o propósito de constranger e desgastar o governo de seu pai, o presidente Jair Bolsonaro. E a mídia – que parece, então, ser sempre golpista não importa quem seja o presidente – distorce fatos e inventa versões com o propósito de criar embaraços para o atual governo.

Ainda que a motivação para os atos de domingo tenha sido promover uma reação às manifestações de 15 de maio, quando a oposição levou gente às ruas para protestar contra os cortes na educação, é impressionante essa coincidência de inimigos. No domingo, somaram-se ao Centrão, ao STF e à mídia nos protestos importantes aliados de um passado recente que contribuíram para derrubar o PT e permitir a ascensão de Bolsonaro. O Movimento Brasil Livre (MBL) era o mais visível deles.

Nós já dizíamos aqui antes que as manifestações de apoio ao governo seriam expressivas. Bolsonaro conta com um grupo organizado e aguerrido, com forte capacidade de mobilização. Representa, porém, os 15% originais que deram a musculatura inicial para a sua candidatura. Sem a presença do MBL e outros grupos mais moderados, não estavam presentes de forma maciça as forças que aderiram depois a Bolsonaro quando perceberam nele a chance maior de tirar o PT do poder.

Boa parte desses grupos está no Centrão e em outras forças que o discurso dos bolsonaristas mais radicais afasta. Fica claro que Bolsonaro quer usar a opinião pública como instrumento de pressão sobre o Congresso para não sucumbir às ferramentas do velho toma-lá-dá-cá. Em princípio, essa poderia ser uma estratégia saudável. É uma constatação de muitos – não somente na direita – que foram os expedientes fisiológicos do nosso presidencialismo de coalizão que levaram o Brasil à crise que vive.

O problema é que as pesquisas mostram que Bolsonaro hoje não tem o apoio da maioria. E se ele ajuda com seus atos e discursos a prioritariamente afastar parte daqueles que nas eleições estiveram com ele, vai-se apoiando mais e mais numa minoria. Como dissemos antes,o risco que havia era, com as manifestações, a criação de um aval enganoso que corroborasse a radicalização ainda maior do discurso do governo.

Como as manifestações foram expressivas mas não tão grandes como o próprio governo esperava, esse risco talvez esteja agora afastado. O prudente seria tanto o governo como seus novos inimigos, especialmente o Centrão e o Congresso, avaliarem os atos de domingo exatamente pelo seu valor de face. Expressivos para mostrar que há uma parcela forte da população que rechaça qualquer tipo de esforço conjunto da elite política para parar as investigações sobre corrupção e que cansou das velhas práticas do fisiologismo. Mas não forte o suficiente para que o governo imagine que pode tudo e que vai atropelar Congresso e outras instituições para fazer valer o que deseja, sem negociação e sem diálogo.

Política

Flávio, sigilos e milícias


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Na lista das 98 pessoas com ligações com o presidente Jair Bolsonaro e com o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), que tiveram os sigilos quebrados na investigação do caso Queiroz há dois nomes que precisam ser observados com o máximo de atenção.

São Valdenice de Oliveira Meliga e Alessandra Cristina de Oliveira. Valdenice era a tesoureira do PSL do Rio de Janeiro nas eleições do ano passado. Alessandra é a atual primeira-tesoureira. Em princípio, as investigações apuram a existência de esquemas de rachadinha. Ou seja: quando o político combina com o funcionário contratado ficar com parte do salário acertado entre os dois. Um tipo de esquema muito comum entre políticos do baixo clero. E que se desconfia fosse a razão da movimentação estranha que o Conselho de Controle da Atividade Financeira (Coaf) identificou nas contas de Fabrício Queiroz, o assessor/motorista de Flávio que, como o personagem na música de Chico Buarque, “assim como veio, partiu não se sabe pra onde”.

Na campanha, Valdenice e Alessandra tinham autorização para assinar cheques em nome de Flávio Bolsonaro. É normal que tal autorização seja dada a tesoureiras, que são as pessoas que oficialmente estão designadas para lidar com o dinheiro do partido. O problema são as ligações que existem entre elas e entre elas e as milícias que atuam no Rio de Janeiro. É no aprofundamento dessas investigações que reside o perigo.

É, no mínimo, curioso que Bolsonaro tenha inventado essa perigosa aposta em manifestações justamente uma semana depois da autorização da Justiça de quebra de sigilo de Flávio. Se ele já tinha ou não informações prévias sobre essa possibilidade, é difícil saber. Mas que foi esse o grande tsunami que houve, não há dúvida. Que tipo de teste de popularidade Bolsonaro pretende, que tipo de confronto pode vir daí, só o tempo dirá.

Val Meliga, como é chamada Valdenice, é irmã dos gêmeos Alan e Alex Rodrigues Oliveira, que foram presos na Operação Quarto Elemento do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) e do Ministério Público do Rio de Janeiro. Foram encontrados pelo menos dois cheques da campanha de Flávio assinados por Val, nos valores de R$ 3,5 mil e R$ 5 mil.

Um dos cheques assinados por Val foi para a empresa Alê Soluções e Eventos Ltda. Que pertence a ninguém menos que Alessandra. A empresa de Alessandra estava contratada para fazer a contabilidade da campanha de Flávio. E não apenas dele, mas de outros 42 candidatos do PSL no Rio. Além disso, Alessandra era funcionária do gabinete de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio, com um salário de R$ 5 mil.

Então, temos aí o seguinte. Um de cada cinco candidatos a cargo eletivo do PSL do Rio nas últimas eleições entregou a contabilidade da sua campanha para a hoje primeira-tesoureira do partido. Que era funcionária no gabinete de Flávio, que também a contratou. No mínimo, há aí uma complicada mistura de funções e responsabilidades.

Mas o cheque de Flávio que pagou Alessandra foi assinado por Val, irmã de milicianos.

Onde vai parar esse novelo, somente as investigações que se iniciam com as quebras dos sigilos vai dizer. Bolsonaro pai e Bolsonaro filho dizem que não há nada a esconder. Afirmam ser vítimas de uma perseguição do Ministério Público.

Só não dá para dizer que os dois não estejam preocupados. O presidente pede socorro à militância. No domingo, saberemos se esse socorro virá. E até onde tal fidelidade se estende.

Política

Um tsunami chamado Flávio


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Foto: Wilson Dias/Agência Brasil-EBC

Ninguém sabe se quando previu na semana passada a ocorrência de um tsunami o presidente Jair Bolsonaro se referia à decisão da Justiça de quebrar o sigilo bancário de seu filho, o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ). Talvez os organismos de inteligência do governo já tivessem detectado a possibilidade de que isso viesse a acontecer. Talvez tenha sido por isso que Flávio decidiu partir para cima do Ministério Público na entrevista que deu ao jornal O Estado de S. Paulo alegando ser vítima de uma perseguição política que visa desestabilizar o governo do seu pai. Talvez ambos já estivessem preparando o terreno para justificar o ocorrido.

Tenha sido esse ou não o tsunami previsto pelo presidente, é inegável, porém, que se trata de uma onda imensa. Com enormes possibilidades de estrago. Já seria bem grave apenas se saber que a Justiça determinou a quebra do sigilo bancário de um senador da República que é também filho do presidente da República. Mas, para além disso, há uma série de outras questões envolvendo a investigação que apontam para a possibilidade de o tsunami varrer com força a costa do planeta Bolsonaro.

Desde que o Conselho de Controle da Atividade Financeira (Coaf) detectou que Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio movimentou de forma suspeita R$ 1,2 milhão nas suas contas, o caso só ganha em gravidade. Em vez de dar alguma explicação sobre o que fazia para justificar a bolada que movimentou, Fabrício Queiroz simplesmente desapareceu. Convocado, não compareceu para dar explicações. E ninguém hoje sabe do seu paradeiro. Flávio, da mesma forma, foi instado a se explicar ao Ministério Público e também não fez isso. Ao determinar a quebra do sigilo dos dois e de outros envolvidos, a Justiça chegou a cogitar a hipótese de decretar também a prisão de Fabrício Queiroz. Pode ser que isso ainda venha a acontecer.

Se os dois não explicam, a investigação certamente em algum momento dirá qual foi a origem do dinheiro movimentado por Queiroz. Se ele agia sozinho. Ou sob ordem de alguém. Se há dinheiro público envolvido. Dinheiro dos salários dos demais assessores do gabinete ou não. Dinheiro de outros ou não.

Há, tanto no caso como em outros, uma série de indícios de que Bolsonaro e seus filhos, na atividade parlamentar, podem ter se valido de alguns expedientes pouco republicanos comuns no chamado baixo clero da política. Contratação de funcionários fantasmas. Uso de laranjas. Formação de caixinha com dinheiro dos servidores para financiar campanhas. Rachadinhas, que é o esquema pelo qual o parlamentar recebe de volta parte do salário que combina com os funcionários. Se era isso o que acontecia, é um delito comum a vários vereadores e deputados de diversos gabinetes. Mas a comprovação da ocorrência desses expedientes já vai empanar um bocado o discurso de moralização do presidente, muito baseado na dita intolerância ao fisiologismo, ao toma-lá-dá-cá, à velha política. Deixaria clara a prática da pequena corrupção por parte do filho do presidente. A pequena corrupção do baixo clero. E o baixo clero pratica a pequena corrupção somente porque não tem acesso à grande corrupção.  O que ocorre com quem pratica a pequena corrupção quando passa a ter acesso à grande?

Mas há alguns indícios de coisa mais grave. Ligados à possibilidade relações tanto de Flávio quanto de Queiroz com as milícias do Rio de Janeiro. Há algum tempo, reportagem da revista IstoÉ mostrou que Val Meliga, irmã de dois milicianos presos, Alan e Alex Rodrigues Oliveira, tinha autorização de Flávio para assinar cheques em nome dele na sua campanha para o Senado.

As investigações que serão feitas após a determinação de quebra do sigilo de Flávio e de Queiroz deverão identificar o rastro do dinheiro. De onde saiu e onde foi parar. É preciso aguardar o que elas dirão. Mas a onda se forma. E não parece que será uma simples marolinha.