Fake News

Política

Simonal, Janaina e Freixo


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Impressiona o amargo gosto de atualidade que há no filme Simonal, de Leonardo Domingues, em cartaz nos cinemas do país. Fabrício Boliveira interpreta Wilson Simonal, cantor que fez enorme sucesso no final da década de 1960 e início da década de 1970. Para muitos, talvez o maior cantor brasileiro de todos os tempos. Que ascendeu ao sucesso numa velocidade estonteante e conheceu o fracasso com igual velocidade, acusado de dedurar os colegas e contribuir com a repressão da ditadura militar.

A história de Simonal é uma das mais tristes da arte brasileira. Morador da favela do Morro do Pinto, no Leblon, Simonal incorporava todos os trejeitos do malandro carioca. Dono de um ego impressionante, considerou que seu talento e sua malandragem eram suficientes para navegar naqueles bicudos tempos da ditadura. Queria fazer sucesso afastado da disputa política do seu tempo. Achou que podia transitar bem com todo mundo. Ganhou dinheiro demais. Gastou dinheiro demais. Achou que estava sendo enganado por seu contador. Achou que seria uma boa ideia arranjar uns meganhas para dar uma surra nele. Achou que não teria nada demais se esses meganhas fossem ligados à repressão. Não contava que o contador fosse denunciar a surra à imprensa. Tolo, ingênuo, o típico malandro otário, arrotou contatos com a repressão que na verdade não tinha. Enrolado, foi abandonado tanto pela ditadura como pela classe artística.

O filme conta a história de Simonal sem fazer concessões à sua fraqueza de caráter e aos erros que ele cometeu. Mas mostrando como é possível se destruir a reputação de alguém adicionando falsidades a um fio de história. Logo, Simonal era apontado como dedo-duro, quando, na verdade, nunca entregou ninguém. Até porque, de fato, não tinha contato nenhum com ninguém da repressão. Diziam nas ruas que ele é quem tinha entregue Caetano Veloso e Gilberto Gil. Caetano e Gil foram presos porque suas atitudes tropicalistas incomodavam o regime. No mesmo dia, deveriam ter preso também Geraldo Vandré, mas ele conseguiu escapar. Anos depois, Caetano dirá em entrevista que Simonal nada teve a ver com a história.

Como mostra o filme, a ditadura largou Simonal à própria sorte, deixando vazar informações capazes de construir as fake news da época e destruir sua reputação. Simonal era também um incômodo aos padrões da época. O negro bem sucedido, milionário, com três Mercedes na garagem, casado com uma linda loura branca. Fazendo tributos a Martin Luther King. Destruindo o mito da igualdade racial que a ditadura queria preservar. Tempos de ditadura são tempos absolutos. Ou se é a favor ou se é contra. Ou se está do lado ou não se está. É, como dizia o slogan da época, “Ame-o ou deixe-o”.

Incrível é que hoje, em tempos considerados de plenitude democrática, esses valores absolutos pareçam estar de volta. Ou se é a favor ou se é contra. Ou se está do lado ou não se está. É “Ame-o ou deixe-o”. E da mesma forma há uma indústria de destruição de reputações. Baseada na disseminação de fake news. Uma usina de intolerância forçando posicionamentos. A principal autoridade da República reforçando todos os dias a manutenção do discurso do ódio, a eleição de inimigos.

Fica do passado o alerta da triste história do maior cantor brasileiro de todos os tempos. A gritar que os tempos precisam ser de menos intolerância. Felizmente, no mesmo momento em que o filme estreia nos cinemas brasileiros circula na internet um vídeo em que a deputada estadual Janaína Paschoal (PSL-SP) debate com o deputado federal Marcelo Freixo (PSol-RJ). É possível que esse seja o maior acontecimento político do ano.

Janaína foi a deputada mais votada do Brasil. Obteve mais votos para uma vaga na Assembleia Legislativa de São Paulo que Eduardo Bolsonaro consegiu para se eleger deputado federal. É uma das autoras do pedido de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. É uma das principais referências do atual pensamento de direita que se estabeleceu na política brasileira. Marcelo Freixo é, por sua vez, uma das principais referências do pensamento de esquerda na política brasileira. Referência na discussão sobre segurança pública. Parceiro de Marielle Franco, assassinada no Rio de Janeiro.

Janaína e Freixo, no vídeo, divergem em quase tudo. Discordam quase o tempo todo. Mas concordam num ponto fundamental. O diálogo é a pedra fundamental da democracia. Não existe democracia sem a busca de consensos. Democracia não convive com intolerância. Democracia não convive com falta de respeito. Democracia espera, busca, o relativo. Democracia não combina com o absoluto.

Do confronto violento, do ódio absoluto, da estratégia que busca vitórias e derrotas absolutas, não sairá país nenhum. Ou, pelo menos, não sairá país democrático. Os que dizem coisas como “é impossível dialogar com imbecis” autorizam seus adversários a dizerem de si o mesmo. É o diálogo de surdos remetendo um ambiente de ditadura a um tempo que se diz democrático. Que venham mais vídeos como os de Janaina e Freixo.

O filme de Simonal é um alerta. O vídeo de Jaanína e Freixo é um alento…

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Simonal, Janaina e Freixo


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Impressiona o amargo gosto de atualidade que há no filme Simonal, de Leonardo Domingues, em cartaz nos cinemas do país. Fabrício Boliveira interpreta Wilson Simonal, cantor que fez enorme sucesso no final da década de 1960 e início da década de 1970. Para muitos, talvez o maior cantor brasileiro de todos os tempos. Que ascendeu ao sucesso numa velocidade estonteante e conheceu o fracasso com igual velocidade, acusado de dedurar os colegas e contribuir com a repressão da ditadura militar.

A história de Simonal é uma das mais tristes da arte brasileira. Morador da favela do Morro do Pinto, no Leblon, Simonal incorporava todos os trejeitos do malandro carioca. Dono de um ego impressionante, considerou que seu talento e sua malandragem eram suficientes para navegar naqueles bicudos tempos da ditadura. Queria fazer sucesso afastado da disputa política do seu tempo. Achou que podia transitar bem com todo mundo. Ganhou dinheiro demais. Gastou dinheiro demais. Achou que estava sendo enganado por seu contador. Achou que seria uma boa ideia arranjar uns meganhas para dar uma surra nele. Achou que não teria nada demais se esses meganhas fossem ligados à repressão. Não contava que o contador fosse denunciar a surra à imprensa. Tolo, ingênuo, o típico malandro otário, arrotou contatos com a repressão que na verdade não tinha. Enrolado, foi abandonado tanto pela ditadura como pela classe artística.

O filme conta a história de Simonal sem fazer concessões à sua fraqueza de caráter e aos erros que ele cometeu. Mas mostrando como é possível se destruir a reputação de alguém adicionando falsidades a um fio de história. Logo, Simonal era apontado como dedo-duro, quando, na verdade, nunca entregou ninguém. Até porque, de fato, não tinha contato nenhum com ninguém da repressão. Diziam nas ruas que ele é quem tinha entregue Caetano Veloso e Gilberto Gil. Caetano e Gil foram presos porque suas atitudes tropicalistas incomodavam o regime. No mesmo dia, deveriam ter preso também Geraldo Vandré, mas ele conseguiu escapar. Anos depois, Caetano dirá em entrevista que Simonal nada teve a ver com a história.

Como mostra o filme, a ditadura largou Simonal à própria sorte, deixando vazar informações capazes de construir as fake news da época e destruir sua reputação. Simonal era também um incômodo aos padrões da época. O negro bem sucedido, milionário, com três Mercedes na garagem, casado com uma linda loura branca. Fazendo tributos a Martin Luther King. Destruindo o mito da igualdade racial que a ditadura queria preservar. Tempos de ditadura são tempos absolutos. Ou se é a favor ou se é contra. Ou se está do lado ou não se está. É, como dizia o slogan da época, “Ame-o ou deixe-o”.

Incrível é que hoje, em tempos considerados de plenitude democrática, esses valores absolutos pareçam estar de votos. Ou se é a favor ou se é contra. Ou se está do lado ou não se está. É “Ame-o ou deixe-o”. E da mesma forma há uma indústria de destruição de reputações. Baseada na disseminação de fake news. Uma usina de intolerância forçando posicionamentos. A principal autoridade da República reforçando todos os dias a manutenção do discurso do ódio, a eleição de inimigos.

Fica do passado o alerta da triste história do maior cantor brasileiro de todos os tempos. A gritar que os tempos precisam ser de menos intolerância. Felizmente, no mesmo momento em que o filme estreia nos cinemas brasileiros circula na internet um vídeo em que a deputada estadual Janaína Paschoal (PSL-SP) debate com o deputado federal Marcelo Freixo (PSol-RJ). É possível que esse seja o maior acontecimento político do ano.

Janaína foi a deputada mais votada do Brasil. Obteve mais votos para uma vaga na Assembleia Legislativa de São Paulo que Eduardo Bolsonaro consegiu para se eleger deputado federal. É uma das autoras do pedido de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. É uma das principais referências do atual pensamento de direita que se estabeleceu na política brasileira. Marcelo Freixo é, por sua vez, uma das principais referências do pensamento de esquerda na política brasileira. Referência na discussão sobre segurança pública. Parceiro de Marielle Franco, assassinada no Rio de Janeiro.

Janaína e Freixo, no vídeo, divergem em quase tudo. Discordam quase o tempo todo. Mas concordam num ponto fundamental. O diálogo é a pedra fundamental da democracia. Não existe democracia sem a busca de consensos. Democracia não convive com intolerância. Democracia não convive com falta de respeito. Democracia espera, busca, o relativo. Democracia não combina com o absoluto.

Do confronto violento, do ódio absoluto, da estratégia que busca vitórias e derrotas absolutas, não sairá país nenhum. Ou, pelo menos, não sairá país democrático. Os que dizem coisas como “é impossível dialogar com imbecis” autorizam seus adversários a dizerem de si o mesmo. É o diálogo de surdos remetendo um ambiente de ditadura a um tempo que se diz democrático. Que venham mais vídeos como os de Janaina e Freixo.

O filme de Simonal é um alerta. O vídeo de Jaanína e Freixo é um alento…

Política

A triste eleição da mentira


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Foto: Fabio Pozzebom/Agência Brasil-EBC

O vídeo em que o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do candidato do PSL, Jair Bolsonaro, aparece dizendo que basta “um soldado e um cabo” para fechar o Supremo Tribunal Federal é chocante. É chocante pela revelação explícita da falta de apreço com a democracia e suas instituições. É chocante, embora nada tenha de surpreendente. Porque em muito pouco difere das coisas que seu pai disse e repetiu ao longo dos últimos vinte anos como deputado federal.

Assim, certamente terá pouquíssimo efeito no resultado eleitoral, que hoje indica vitória de Jair Bolsonaro no próximo domingo. Terá pouquíssimo efeito porque nada do que disse Jair Bolsonaro ao longo do tempo teve qualquer efeito para evitar que hoje ele seja o virtual próximo presidente do Brasil. Pelo contrário, tudo o que Bolsonaro disse e fez ao longo dos últimos vinte anos é que hoje o projeta para a vitória sobre Fernando Haddad. Não serão, então, os eleitores de Bolsonaro os que darão um freio a essas inclinações autoritárias. Esse freio terá que vir das instituições. De uma reação forte como a que já ensaiaram agora os ministros do STF. Algo que diga: “O senhor venceu as eleições democraticamente. Essa é a vontade do povo. Mas isso aqui é uma democracia. E os limites da democracia o senhor terá que respeitar”.

O que será preciso agora é compreender como se construiu o ambiente que tornou possível a vitória de Bolsonaro. Ainda que seja muito grave a denúncia da rede construída para a disseminação de fake news pelas redes sociais, especialmente pelo whatsapp, é mais um esforço ingênuo do PT e da oposição querer explicar tudo o que houve a partir simplesmente daí. Seria uma boa sinopse de filme B, mas Bolsonaro não é o produto de uma ardilosa trama de hipnose coletiva. Porque não bastaria disseminar mentiras. É necessária a existência de um ambiente favorável a acreditar nessas mentiras. Só vamos entender o que se deu em 2018 quando conseguirmos entender quais foram as verdades que produziram o campo fértil para a disseminação das tais mentiras. O certo é que a eleição de 2018 ficou marcada como a triste eleição da mentira. E a mentira foi ferramenta usada pelos dois lados.

Talvez uma das primeiras conclusões a que vamos chegar é que o ambiente virtual das redes sociais é mais do que propício não apenas para a propagação da mentira. Mas também para que a mentira se converta em verdade. Primeiro, é um mundo de relações falsas, artificiais. Ninguém ali é “amigo” de verdade. Ninguém ali cultiva relações de fato. Todo mundo se esconde por trás de avatares que cria de si mesmos. É todo mundo mais feliz, mais rico, mais forte, mais corajoso, mais confiante do que de verdade. E todo mundo vive numa bolha. Que exclui os que pensam de forma muito diferente. Uma bolha que vai se aprofundando no que tem de semelhante entre seus integrantes e no que tem de diferente dos habitantes das outras bolhas. Esse mundo virtual busca a sua perfeição ao excluir seus diferentes e depurar suas similitudes. Ao escolher seus ídolos, os torna perfeitos. Eles não falham, não erram. E há explicações para todos os seus feitos. Não por acaso, esses ídolos ultrapassam a dimensão humana. Um é “mito”. Outro é “ideia”.

O que torna hoje complicada a tentativa de desfazer o mito criado em torno de Bolsonaro é o fato de que o lado escolhido para contrapô-lo também construiu todo o seu perfil a partir de uma narrativa em boa parte dela falsa. Que começou a ser construída há mais de dez anos. Ao contrário do que muitos passaram a repetir como um mantra, o mensalão não foi “uma farsa”. José Dirceu nunca foi exatamente um “guerreiro do povo brasileiro”. É verdade que a corrupção na Petrobras não começou nos governos do PT. Mas é verdade também que ela não parou nos governos do PT; ao contrário, aumentou. O impeachment de Dilma Rousseff não foi um “golpe”. Foi uma ação parlamentar com diversos pontos questionáveis, mas toda tomada dentro das normas previstas na Constituição. Lula não é um “preso político”. Pode até estar condenado a partir de um processo com provas frágeis e, ainda que tenha havido motivação política por parte de alguns, ele é alguém condenado pelos juízes em todas as instâncias por que passou. Se está preso hoje, é por conta de uma interpretação do Supremo Tribunal Federal que possibilita a prisão após condenação em segunda instância que é anterior ao seu caso e tomada quando ainda era impossível prevê-lo. Se não pode ser candidato à Presidência, é por conta da Lei da Ficha Limpa, que teve como relator um deputado do PT (José Eduardo Cardozo) e que o próprio Lula sancionou como presidente.

Se boa parte das pessoas acredita ou diz acreditar em toda essa narrativa acima, não pode reclamar dos que acreditam ou dizem acreditar na narrativa falsa construída em torno de Jair Bolsonaro. Porque o “mito” e a “ideia” são construções distantes da realidade. E nada de muito concreto se quis fazer para evitar as suas ascensões.

Circula nas redes sociais um texto atribuído a um eleitor de Bolsonaro que é exemplar na explicação de como as pessoas constroem a partir de premissas falsas aquilo em que desejam acreditar. O autor do texto faz-se de consciente dos defeitos de seu candidato à Presidência para depois despejar uma série de ingenuidades:

“Bolsonaro, meu véio, você tem oportunidade de entrar para a história. A mesma que o Collor teve e jogou fora. A mesma que o Lula teve e desperdiçou. A chance de você fazer a mesma merda é gigante. Mas a gente fica aqui torcendo pro patriotismo, pro Brasil acima de tudo… A gente sabe que quando chega lá é foda, mas se lembra sempre que mais de 50% dos teus votos  te odeiam. Ao mesmo tempo estão loucos para estarem errados. Os primeiros 6 meses serão fundamentais para definir a tua história. Cuida primeiro da economia e da segurança. Deixa o aborto e o sexo dos anjos, dos gays, etc… pra depois. Isso não muda nada agora. Só traz os pentelhos pra rua. Depois você vira extrema direita, mas primeiro resolve o Brasil. Você tem o congresso na mão agora. O que você fizer agora é que vai definir. Dá uma porrada na cara em quem te chama desses “ismos” todos e governa para todos. A gente tá louco para trabalhar, investir, cair dentro, empreender, empregar, gastar, fazer… a gente não aguenta mais. Por isso mesmo estamos colocando, contra a nossa própria vontade, um maluco que nem você no planalto. Vai lá, maluco, e mostra que você é mito e não o ‘minto'”.

O primeiro problema do raciocínio é que se o eleitor está conscientemente colocando na Presidência “um maluco”, não poderá ficar surpreso depois se o ‘maluco” fizer maluquices. Se ele sabe que a chance de se “fazer a mesma merda é grande”, se isso acontecer, não vai poder fugir da responsabilidade. Segundo, se o candidato prestes a ganhar a Presidência é de extrema direita, não vai guardar essa característica e virar “extrema direita” mais tarde. Ao “torcer para dar certo”, ele tenta se afastar da responsabilidade que tem com sua escolha e os riscos de tal escolha dar errado.

O que fica claro é que o eleitor imagina dar uma chacoalhada radical em tudo o que lhe incomoda. Incomodado com o estado de coisas que não o deixa progredir, evoluir, que toma seu emprego, sua renda, fica irritado. Fica com raiva. Vota com raiva.

E constroi a partir do seu mundo virtual uma realidade paralela, um mundo de mentirinha no qual só enxerga a parte que quer enxergar. Onde não cabe nada do que não lhe interessa. Onde não tem lugar nada que não construa a narrativa que deseja para deixar sua cabeça em paz.

Acontece que o próximo presidente irá governar fora da bolha. O próximo presidente não governa nas redes sociais. Não governa nos mundos virtuais onde somos fortes, corajosos, felizes e decididos. Ele governa nesse mundo de verdade em que todos nós vivemos misturados. Para este mundo de verdade, nenhum dos lados do FlaXFlu se preparou. Ambos escolheram essa eleição plebiscitária, essa disputa polarizada. Ambos optaram por transformar os eleitores em torcedores. Acabado o jogo, recolhidas nossas bandeiras e anunciado o placar, quando voltarmos para casa, só vai nos restar dizer: “E agora?”

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As fake news são seculares… Seu terreno fértil é o ódio


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Que o exemplo da perversidade duradoura de uma mentira do século 19 nos alerte em 2018

“Sempre que um grupo de pessoas é ensinado a odiar outro grupo, inventa-se uma mentira para insuflar o ódio e justificar um complô”.

É com essa frase que começa “O Complô”, último álbum desenhado e escrito pelo grande cartunista americano Will Eisner. Criador do personagem The Spirit, Eisner é considerado pela grande maioria dos críticos o maior autor de histórias em quadrinhos de todos os tempos. Ninguém mais que ele teve a obsessão de transformar os quadrinhos em arte, ultrapassando as barreiras do mero entretenimento juvenil. Eisner é o principal criador do conceito da Graphic Novel, o romance gráfico, uma forma de contar histórias, profundas e adultas, associando texto e ilustração.

“O Complô”, obra concluída em 2004, publicada no Brasil pela Companhia das Letras, trata de “fake news”, embora o termo naquela ocasião ainda não estivesse tão disseminado como hoje. E mostra que as “fake news” são bem mais antigas do que supõe quem pensa se tratarem de um fenômeno contemporâneo, consequência das redes sociais. As “fake news” são seculares. E vicejam principalmente quando encontram, como terreno fértil, tempos de ódio. Quando o mundo se transforma numa disputa maniqueísta e tola entre “o bem e o mal” (bem e mal com todas as aspas possíveis), surge a mentira para alimentar e fortalecer esse ódio. Quando se quer ardentemente acreditar em algo, a racionalidade e bom senso são sempre os primeiros derrotados.

Em “O Complô”, Eisner conta a história de uma das mais bem produzidas e duradouras “fake news” de todos os tempos. Um documento surgido na Rússia tsarista com o título de “Protocolos dos Sábios de Sião”. Os tais protocolos seriam um documento escrito por líderes judeus que descreveriam uma articulação deles para dominar o mundo. O documento surgiu no final do século 19, quando o tsar Nicolau III começou a sofrer os primeiros sinais da revolta que em 1917 culminaria na Revolução Socialista. Surgiu,então, entre seus assessores políticos a ideia de produzir e disseminar um documento que mostrasse que, insuflando essa revolta, estavam judeus, cujo propósito era estabelecer a confusão para dominar o mundo.

Contrataram, então, um falsário chamado Mathieu Golovinski para produzir o tal documento. Golovinski pegou como base um livro desconhecido e perdido escrito em 1864 pelo francês Maurice Joly para atacar o imperador Napoleão III. Chamava-se “O Diálogo no Inferno entre Maquiavel e Montesquieu”. O objetivo era aproximar as ideias e ações de Napoleão III das de Maquiavel para apontá-lo como um déspota. Para tanto, Joly distorceu as ideias originais de Maquiavel. Como aparece em um diálogo do álbum de Eisner: “Mas você inventou as palavras de Maquiavel… Para provar seu argumento”, diz um interlocutor. “Exato! Mas continuo próximo das ideias dele… Foram necessárias poucas alterações”, responde Joly. O francês acabou preso e condenado por difamação. Seu livro foi apreendido e sua circulação proibida. Joly suicidou-se em 1878.

Em 1898, Golovinski praticamente copia, com algumas alterações, o “Diálogo no Inferno entre Maquiavel e Montesquieu” para produzir “Os Protocolos dos Sábios de Sião”. As mesmas palavras são usadas agora como se seus autores fossem líderes judeus. No “Diálogo no Inferno”: “Todo homem busca o poder, e não há nem mesmo um homem que não seria opressor caso pudesse”.Em “Os Protocolos”: “Todo homem almeja o poder, todos se tornariam ditadores se pudessem”.  Ou no “Diálogo”: “Esses tigres têm alma de ovelha, cabeça cheia de vento. Seu sonho é a absorção do indivíduo numa unidade simbólica”. Em “Os Protocolos”: “Esses tigres na aparência têm alma de ovelha e o vento circulando livremente pela cabeça. Nós os deixamos com a ideia fantasiosa da absorção da individualidade pela unidade simbólica do Coletivismo”. Os dois livros foram escritos num intervalo de tempo de 40 anos.

Em 1921, o jornal inglês The Times publica os dois textos mostrando claramente que “Os Protocolos dos Sábios de Sião” são uma farsa, plágio descarado do “Diálogo no Inferno entre Maquiavel e Montesquieu”. O que moveu Will Eisner a contar a história dessa farsa na sua última obra foi o fato de ter deparado, quase cem anos depois, com os “Protocolos” circulando, como se verdadeiros fossem, em sites antissemitas na internet.

Eisner mostrava a força que a mentira tem quando se deseja acreditar nela, e o quanto ela é alimentada pelo ódio. Como viceja especialmente nos ambientes onde a discussão equilibrada e respeitosa não é bem-vinda. Onde ela é forjada pelo preconceito e pelo desejo apenas de encontrar novas ideias e textos que somente corroborem o que já se pensa.

As redes sociais rodeiam as pessoas de outras que pensam de maneira igual, formando pequenos mundinhos. Surgidas para ampliar, as redes sociais têm o perverso dom de muitas vezes limitar. O ex-presidente americano Barak Obama tem investido muito no alerta para isso, nas suas palestras depois que deixou o governo. A disseminação de notícias falsas e distorcidas nos Estados Unidos pautou fortemente a última eleição, na qual Donald Trump venceu Hillary Clinton.

Certamente, como aconteceu nos Estados Unidos e também em outras eleições recentes, na França ou na Alemanha, as redes sociais serão a ferramenta mais importante de disseminação de ideias na nossa campanha eleitoral no ano que vem. E, aqui como lá, certamente disseminarão uma tonelada de notícias falsas. Não pode haver maior perigo do que a vitória do falso para depois governar de verdade. Tirando sua máscara de falsidade para mostrar sua face verdadeira. “Os Protocolos dos Sábios de Sião” são uma “fake news” secular. Que o exemplo da sua perversidade duradoura nos alerte em 2018. Procurem nas livrarias “O Complô”, de Will Eisner. Feliz 2018!