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Política

Em tempos radicais, os inimigos dormem ao lado


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Antes da posse de Jair Bolsonaro, nem o vidente mais insano seria capaz de prever que o capitão reformado que passou toda a sua vida política a defender a ditadura militar viria a, depois de eleito, eleger justamente os militares de seu governo como adversários. Da mesma forma, nem o vidente louco iria projetar que seriam esses militares – com a sombra que certamente trariam da memória desses tempos de ditadura – as figuras mais sensatas e moderadas desse futuro governo.

Na terça-feira (8), Bolsonaro almoçou com a cúpula militar, e, de acordo com as informações que saíram depois do encontro, combinou-se jogar água fria na fervura para acabar com a brigalhada. Mas, nas redes sociais, militares já combinavam chamar os ataques do dublê de filósofo e astrólogo Olavo de Carvalho de “favelagem”. É óbvio que a troca de chumbo não vai parar. Mais do que isso, por mais que publicamente Jair Bolsonaro faça apelos em nome da trégua ou tente minimizar a potência dos ataques, a verdade é que a lógica de seu governo incentiva esse ambiente. Nunca é demais lembrar o que já dissemos: há método no golden shower.

Desde que a campanha de Jair Bolsonaro à Presidência ganhou musculatura, sua principal força motriz são as redes sociais. Como acontecera com Donald Trump nos Estados Unidos, Bolsonaro inaugurou no Brasil o momento em que o mundo virtual passou de fato a comandar a evolução política. E as redes sociais trouxeram para o ambiente político alguns novos aspectos que ainda não são compreendidos e precisam de maior análise. Um deles, porém, já ficou claro: o que impulsiona os movimentos nas redes sociais não é necessariamente a adesão da maioria da sociedade. Nas redes sociais, prevalecem os grupos mais aguerridos e organizados. Que não necessariamente representam a maioria, mas, sim, as parcelas mais radicais. Na disputa renhida e mal educada que se estabeleceu nos Facebooks da vida, os mais moderados – que, de fato, são a maioria – acabam saindo do debate. Boa parte nem entra na discussão. O restante para quando sobe o nível de agressão e quando a turma mais organizada entra em grupo para o ataque.

No caso de Bolsonaro, esse grupo mais radical garantiu-lhe a força inicial para se colocar como candidato competitivo. No total de brasileiros que o elegeram, essa turma representa em torno de 15%. À medida que Bolsonaro foi aparecendo para os demais como o antípoda do PT, outros grupos começaram a aderir a ele. Não por concordância com suas posições mais radicais. Mas porque enxergaram que ele é que ganhava mais força para derrotar o PT, que tais grupos já não mais queriam no comando do país. Esse grupo inicial mais radical de 15% parece bem próximo às ideias do filósofo de Richmond, Olavo de Carvalho. Aí estão os filhos 01,02 e 03 de Bolsonaro. E não estão os liberais ligados ao ministro da Economia, Paulo Guedes. Nem boa parte dos defensores da Operação Lava-Jato e do super-juiz e agora ministro da Justiça, Sérgio Moro. E, para surpresa de muitos, não está também a cúpula militar.

O que parece estar acontecendo é que, na estridência das redes sociais, os grupos que dominam o debate elegem como seus inimigos não seus opositores, mas os aliados que podem ameaçar a sua hegemonia no debate. A prudência e a moderação da cúpula militar ameaça o avanço das ideias mais radicais desses grupos. Que não enxergam o que, no caso, têm visto os militares: tais posições não têm apoio da maioria da sociedade, só têm amparo entre os radicais.

Em tempos autoritários, já se viu tal tipo de comportamento. Na União Soviética, o ditador Joseph Stálin não sossegou enquanto não prendeu e matou todos aqueles que estiveram ao lado de Lênin na revolução socialista, a começar por León Trotski. Quando radicalizou, Stálin começou a vê-los um por um como inimigos. Por aqui, o grupo mais radical jogou bombas em bancas de revista e tentou explodir o Riocentro para sabotar o processo de abertura política. O que as redes sociais parecem inaugurar é um tempo que proporciona aos radicais ferramentas para prosperar mesmo na democracia.

No fundo, isso não acontece somente no lado do governo. Durante a campanha, no lado do que virou oposição, o único movimento de sucesso foi o que desidratou as possibilidades de Ciro Gomes, no PDT, apresentar-se como alternativa de esquerda a Fernando Haddad, do PT, que entrou na disputa como desconfortável reserva de Luiz Inácio Lula da Silva, numa candidatura que obviamente, por essa natureza, iria perder a parada. Agora mesmo, boa parte do exército de esquerda nas redes sociais gasta mais tempo apontando contradições e atacando a deputado Tábata Amaral (PDT-SP) do que atacando o governo Bolsonaro, desde que ela começou a despontar.

Os tempos loucos das redes sociais dão, assim, sobrevida à polarização que marcou a campanha. E os dois lados dessa polarização seguem considerando ser mais importante manter essa radicalização acesa do que seguir à frente com o país. Por isso, elegem como inimigos os parceiros mais moderados. Seus inimigos dormem ao lado.

Política

O estranho triunfo do totalitarismo nas redes sociais


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Durante os dias de folga na duas primeiras semanas de janeiro, foi meu companheiro O Homem que Amava os Cachorros, de Leonardo Padura. Neste romance, o escritor cubano faz um paralelo entre as circunstâncias do assassinato de León Trotski, a mando de Stálin, e a situação em Cuba no início dos anos 1970. Para concluir que o pendor pelo totalitarismo, pela repressão desmedida, acabou por colaborar fortemente para que os sonhos socialistas desmoronassem, seja na União Soviética seja na ilha caribenha. No silêncio do refúgio escolhido para esses dias de folga, foi nascendo uma reflexão: talvez os pendores totalitaristas nas redes sociais estejam agora colaborando de forma parecida para que desmoronem, em vários pontos do planeta, os sonhos de democracia.

Padura mostra em seu livro que em determinado momento parecia ser mais importante em Cuba vigiar o comprimento dos cortes de cabelo, se as calças estavam ou não demasiadamente justas ou se as preferências sexuais de cada um eram condizentes com o “ideal revolucionário”. Na União Soviética da ascensão do stalinismo, a atenção se voltou aos inimigos internos. O foco do esforço era apontar o dedo, execrar, deportar, exilar, fuzilar antigos companheiros que levantassem um senão sequer aos planos e ideias do governo. A começar pelo próprio Trotski, camarada de primeira hora, amigo de Lênin, criador do Exército Vermelho. O mesmo tipo de sufocamento que Padura percebe em Cuba, um pouco depois de uma década de revolução.

Quando o socialismo sofre os seus abalos, nos dois países não se encontrou talvez o apoio da população para alguma resistência maior. Porque, em vez de se buscar forjar a sociedade pelo convencimento, o que se fez foi mantê-la silenciada pelo medo, pela repressão, pelo sufocamento. Forjou-se uma sociedade cínica ou acovardada. A Rússia, terminada a União Soviética, um dos países mais corruptos do mundo. Cuba, a ilha, com as rachaduras literais da sua ruína impressos nos casarões e prédios de La Habana.

No “admirável mundo novo” das redes sociais, parece que o pendor pelo totalitarismo caminha para levar ao mesmo estado de ruína dos sonhos. Cada grupo seja no Facebook, no whatsapp ou qualquer outra rede social segue a mesma linha limitadora que Padura descreve. A qualquer senão, a qualquer divergência, produz-se o mesmo caminho, que começa na perseguição, passa pela execração, pelo exílio e termina no fuzilamento. Seja o grupo de esquerda ou de direita, ninguém que minimamente destoe dos ideais daquele grupo é bem-vindo.

A coisa extrapola para além de cada uma dessas ilhas e republiquetas virtuais quando seus integrantes elegem inimigos externos e se unem para destruí-los. Quando possível, maximizando fatos e defeitos verdadeiros. Quando não encontrados esses fatos, criando mesmo, inventando, falsidades.

Esse mundo totalitário facilita o triunfo dos extremos. É um mundo no qual pensamentos mais sofisticados não encontram abrigo. É um mundo que precisa caber na meia dúzia, se tanto, de expressões de uma palavra de ordem. Um mundo sem nuances. Preto ou branco. Não é por acaso que extremistas ensaiam seus voos não somente por aqui, mas em boa parte do mundo. E muitas vezes acabam vencedores.

A contribuição para a cristalização desse estado de coisas vem preocupando os criadores desses mundos virtuais. As mudanças de algoritmo definidas pelo Facebook no final do ano parecem ir na linha da mesma preocupação (há mais detalhes por aqui). O Face pretende reduzir a presença na linha do tempo de cada um de postagens noticiosas, com medo da proliferação de fake news e, especialmente, da manutenção do espaço de ódio e divisão política que a rede social virou.

Não deixa de ser uma forma estranha de reagir ao fenômeno: restringir o acesso às informações para evitar que as informações sejam falseadas ou distorcidas. Antes de mandar assassinar Trotski, Stálin já tratava de retocar fotografias e notícias de jornal de modo a removê-lo da história da União Soviética. O Homem que Amava os Cachorros é leitura mais que recomendada…