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Política

Vazios da polarização


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Uma tentação à qual eu sempre resisti como jornalista e analista político foi de fazer previsões. Jornalista não é pitonisa. Não lê búzios nem bola de cristal. Jornalista não tem dom premonitório. Alguns têm imensa vaidade e presunção. O que os faz cair na tentação de arriscar a clarividência.

Dois anos antes da eleição de 2018, mais ou menos no mesmo período em que agora estamos da eleição de 2022, em um debate com jornalistas em uma universidade de Brasília, comentava, sem arriscar previsões de futuro, que parecia se acirrar cada vez mais o embate esquerdaXdireita com estridência de guerra de torcidas, de FlaXFlu. E que isso talvez pudesse fazer crescer a candidatura de Jair Bolsonaro contra o PT de Lula nas eleições presidenciais seguintes. Alguns jornalistas presentes minimizaram essa possibilidade, dizendo que o Brasil sempre tendia para o centro, e que Geraldo Alckmin, o candidato do PSDB, iria crescer e engolir tais pretensões. Se nenhum dos leitores aqui desembarcou agora de Marte, não é preciso lembrar o que de fato se deu dois anos depois.

Da mesma forma sem nenhuma pretensão de fazer previsões, é preciso dizer que o cenário atual, a dois anos das próximas eleições presidenciais, segue apontando para uma forte polarização entre Jair Bolsonaro e o PT de Lula. Novamente com a mesma limitação que em 2018 o próprio Lula se tornasse candidato: ele é inelegível, com base na Lei da Ficha Limpa, que ele mesmo sancionou como presidente, por estar condenado em segunda instância tanto no caso do tríplex do Guarujá como no caso do Sítio de Atibaia.

De forma ainda mais intensa que dois anos antes da eleição de 2018, Bolsonaro agora parece imprimir a estratégia de radicalizar na polarização ideológica, tendo Lula e o PT como seus antagonistas. A coisa ganha agora mais intensidade porque Bolsonaro é o presidente. Ou seja, tornou-se o grande protagonista do xadrez político e imprime o tom e as regras do jogo.

Por outro lado, se a intenção é radicalizar ao máximo, Lula e o PT parecem morder a isca. Ou considerar que essa polarização de alguma forma também os beneficia no jogo. O PT parece apostar no desgaste de Bolsonaro, que talvez possa se confirmar pela queda na sua popularidade e pelo afastamento de aliados. E apostar que a recuperação econômica amparada no liberalismo exacerbado do ministro da Fazenda, Paulo Guedes, não vai se reverter em ganhos concretos para a população.

É possível que Lula e o PT estejam certos quanto ao desgaste político de Bolsonaro daqui até 2022. Quanto ao desgaste econômico, dados os acenos de recuperação, pode ser mais incerto. Bolsonaro parece politicamente meio embananado com a história da criação do Aliança pelo Brasil e com a briga com o PSL. Ficou sem partido. Ficou sem base formal no Congresso. Talvez sem condições de oficializar o Aliança para as eleições municipais deste ano, pode se ver obrigado a construir alianças insólitas com diferentes partidos, formando um pavimento incerto para 2022.

Mas a opção de Lula e do PT de radicalizar o antagonismo também limite suas possibilidades de aliança. Neste momento, ou se está de cabeça no projeto Lula/PT para 2022 ou se é também considerado adversário. Ou seja: na aposta de confrontação radical, tanto Bolsonaro quanto Lula se escolhem como adversários e limitam o embate ao máximo entre os dois.

As pesquisas mostram a ambos com faixas em torno de 30% de simpatia do eleitorado. Fica, então, um vazio a ser conquistado por outras candidaturas. Ou que acabará no fim se omitindo da disputa ou em parte sendo atraído pelas duas opções radicais. É a movimentação em torno desse vazio que precisa ser observada.

Chama a atenção em recente pesquisa divulgada pelo Datafolha que Lula e o apresentador de TV Luciano Huck parecem correr na mesma raia de preferência do eleitorado. No país que se move menos por questões ideológicas do que gostaria a guerra das redes sociais, ambos têm seus cacifes principais nos eleitores do Nordeste e de baixa escolaridade. Por outro lado, a mesma pesquisa mostra que o ministro da Justiça, Sergio Moro, pode ser a pedra no sapato de Bolsonaro, crescendo beneficiário das brigas desnecessárias e do desgaste que o presidente promove entre seus aliados.

São dados que mostram que a manutenção da tendência mais conservadora na opção dos eleitores pode se dar novamente nos próximos pleitos. Se Huck pode roubar votos de Lula, essa hipótese fica evidente.

O quadro após a eleição municipal no segundo semestre vai clarear o cenário. Qual será o saldo de Bolsonaro, se entrar na disputa sem partido? Até que ponto seus eventuais aliados poderão já a partir daí migrar para a construção de uma opção Moro? Lula consolida sua base no Nordeste ou a perde para outro nome conservador, como Huck? São as perspectivas em torno do vazio consequente da polarização que deverão mostrar os contornos do futuro.

Política

Dias de São Bartolomeu


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Reprodução do quadro O Massacre de São Bartolomeu, de François Dubois

Esta eleição já está perto da centena de casos de agressão de pessoas por motivação política. O capoeirista Moa do Katendê foi assassinado em Salvador. Uma moça em Porto Alegre teve uma suástica marcada em canivete na sua própria pele. E um delegado teve o displante de dizer que se tratava do símbolo budista de paz e fraternidade. Que jamais chegue o dia em que paz e prosperidade precisem ser uma imposição autoritária gravada a canivete no corpo das pessoas.

Mas é preciso que jamais se deixe de lembrar que a escalada de violência nestas eleições perfurou o intestino de um dos candidatos com uma facada. Colocou-o na UTI em estado grave.  Causa ainda limitações e incômodos que agora se ajustam à perfeição à sua estratégia de faltar aos debates.

A violência domina as ruas de forma descontrolada como se saísse de uma panela de pressão que explodiu. É como se o resultado do primeiro turno autorizasse barbaridades, como se demonstrações de ódio e preconceitos estivessem agora chanceladas pelo resultado das urnas. Não há dúvida: venceu o lado mais violento. Porque é o lado que admite a violência como parte da solução. Na segurança pública, na educação de crianças, para obter determinadas “curas” de gênero. Mas importa dizer também que ensaios revanchistas, que trocavam a ideia de vitória eleitoral por “tomada de poder”, também se assanharam por aí. E também apontavam um dedo ameaçador para seus inimigos.

A opção pela tolice binária, maniqueísta, como forma de disputa política mostra agora a sua face monstruosa. Era óbvio que em algum momento a guerra de torcidas, o UFC intelectual, saísse do mundo virtual das redes sociais e fosse parar nas ruas. Se a disputa optava pelo preto contra o branco, era natural o choque do branco quando viesse a vitória do preto. E provavelmente o choque não teria sido diferente se fosse o contrário.

Quando um homem vira “mito” e o outro vira “ideia”, há muito tempo abandonou-se a argumentação racional que deveria pautar uma escolha política para substituí-la por um tipo de emoção de cunho religioso. Não há nuances possível quando um ser humano de símbolo de admiração passa a ser símbolo de culto. A ele, tudo passa a ser permitido.

A essa altura do segundo turno, a campanha presidencial passa por um momento curioso de se observar por quem alertou o tempo todo para o risco do FlaXFlu apaixonado. Reportagem publicada nesta segunda-feira, 15, pela Folha de S. Paulo fala das estratégias de informação militares usadas por Jair Bolsonaro, o candidato do PSL. Mostra como o bate-cabeças da sua campanha, onde o general Mourão e o economista Paulo Guedes dizem coisas para depois serem desautorizados. Vivêssemos um ambiente de serenidade racional, esses seriam sinais de falta de unidade e gerariam insegurança. Nos nossos tempos de devoção religiosa, contudo, servem para reforçar ainda mais a figura do “mito”. É ele quem chega com sua autoridade, desautoriza e coloca seus subordinados nos seus devidos lugares. Eles, humanos, são falhos. Bolsonaro, a essa altura mais que humano, a eles levará a luz.

As hostes lulistas, porém, não agiam de forma diferente. Enquanto Lula liderava com folga as pesquisas e transferia com velocidade ultrassônica suas intenções de voto para Fernando Haddad, de nada adiantava alertar que a estratégia era arriscada, que isolava o PT, que não admitia espaços para recuos e rearranjos. A estratégia de Lula era genial e levaria à vitória. Agora, por exemplo, o apresentador Luciano Huck escreve artigo criticando Bolsonaro e dizendo que suas ideias são retrógradas, sectárias, preconceituosas e belicistas. Aí, alguém imediatamente posta: “Um que acordou”. Acordou de quê? Alguma vez Huck declarou que apoiaria Bolsonaro? O fato de ter posições mais conservadoras e não apoiar o PT o faz, então, seguidor de Bolsonaro? Somente na cabeça binária que se instalou no Brasil. Quando quem não está de um lado está necessariamente do outro.

Essa é a grande dificuldade vivida agora por Haddad. Ele precisa ampliar sua votação quando, durante anos, o PT optou por esse tipo de pensamento binário, que adotava o termo “fascistas” para todos a quem se opunha. Da mesma forma como Bolsonaro chama de “comunistas” todos os que não estão com ele. Agora, Haddad busca, por exemplo, apoio do ex-ministro do STF Joaquim Barbosa. Aquele que já foi o suprassumo do mal por condenar autoridades petistas envolvidas no mensalão. É complicado precisar agora dos matizes quem vinha pintando ignorando que existem mais de 50 tons de cinza…

São tristes e sangrentos os momentos em que os embates políticos se tornam religiosos. Na história da França, um dos mais horrorosos desses momentos foi a Noite de São Bartolomeu, quando católicos, apoiados pelo próprio rei, saíram às ruas assassinando protestantes. Os relatos dizem que somente naquela noite, mais de duas mil pessoas foram assassinadas pelas ruas de Paris. Como os episódios seguiram-se por outras cidades francesas por semanas, meses e até anos, há quem compute quase cem mil mortes associadas com a Noite de São Bartolomeu.

Foram, na verdade, dias de São Bartolomeu. Dias em que a certeza absoluta numa verdade única transformava-se em ódio contra os que pensavam de forma diferente. Quando o ódio virava preconceito. E se transformava em violência. Autorizadas pelo júbilo de vitórias. Os dias de São Bartolomeu estão de volta…

Política

O PT encolheu-se no primeiro turno. O que fará no segundo?


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Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil – EBC

Na construção das eleições deste ano, desde sempre Jair Bolsonaro, do PSL, escolheu o PT como seu adversário. Ele não saberia e provavelmente não teria tido o mesmo resultado se sua disputa não fosse com alguém do partido da estrela. E, no caminho contrário, o PT também desde sempre escolheu Bolsonaro como seu adversário. Assustou-se ao final quando viu o tamanho do antipetismo, mas seu adversário predileto sempre foi Bolsonaro. Da mesma forma, dificilmente também venceria um segundo turno contra algum candidato mais moderado.

Na verdade, Bolsonaro é, em grande parte, fruto das escolhas feitas pelo PT desde que começou a ser enredado pelos escândalos de corrupção e começou a construir a narrativa de que era tudo mentira e de que não passava de vítima das elites. Até o mensalão, o PT estava de braços dados com as elites. As elites aceitavam com disposição a ideia de fazer com os petistas um governo de coalizão. Henrique Meirelles saíra do Banco de Boston e de uma eleição como deputado federal pelo PSDB para virar presidente do Banco Central de Lula. Giselle Bündchen doava valiosos diamantes de sua coleção para o programa Fome Zero. Jorge Gerdau, Benjamin Steinbruk, Marisa Serrano (das Lojas Marisa) e Paulo Skaf estavam no Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social.

Logo depois do mensalão, o PT esboçou fazer uma autocrítica e uma correção de rumos. Expulsou Delúbio Soares dos seus quadros. Tirou José Dirceu da Casa Civil. Sob a presidência de Tarso Genro, ensaiava expulsar outros e fazer o que Genro chamava de “refundação”. Lula chegou a pedir “desculpas” à Nação. Mas, contido o escândalo, o presidente começou a recuperar sua popularidade. Confiante, reintegrou Delúbio, trouxe Dirceu de volta ao centro. A balada foi se aprofundando após o petrolão.

É verdade que fragilidades e abusos da Justiça e dos investigadores ajudaram na escolha do PT. Dilma fazia um governo desastroso que mergulhava o país numa crise sem precedentes. Mas os motivos para o seu impeachment sempre foram difusos e frágeis. E o arranjo matreiro final que cassou o seu mandato mas manteve os seus direitos políticos só piorou as coisas. A condenação de Lula por conta da história do apartamento do Guarujá é igualmente fraca. Embora haja elementos mais fortes em outras histórias, como a do Sítio de Atibaia, que ainda não foi julgada.

O problema, porém, é que na campanha deste ano o PT muitas vezes pareceu mais preocupado em reconstruir a narrativa, especialmente a narrativa de Lula, do que efetivamente em ganhar as eleições. Partiu para uma campanha que em muitos momentos foi de afronta às instituições. Instigou sua militância a ir às ruas contra o Judiciário, contra o Congresso, contra o Ministério Público, contra a imprensa. Em vez de personalizar eventuais posições politizadas de alguns, preferiu generalizar. Era um complô das instituições.

Todas as pesquisas de opinião desde o ano passado já mostravam que Lula tinha grande potencial eleitoral, produto da sua popularidade e carisma, especialmente no Nordeste. Mas tinha também rejeição alta. A reeleição de Dilma já tinha mostrado um país dividido. Assim, desde sempre ser novamente candidato era opção de alto risco. Risco ainda mais alto pela opção de construir sua candidatura como uma reação à “perseguição” que o partido dizia sofrer. Era, portanto, uma opção construída com raiva.

As denúncias de corrupção contra ele indicaram também já desde o ano passado que era muito grande a possibilidade de Lula não poder ser candidato, porque acabaria condenado. Indicava-se com muita clareza a necessidade de construção de uma alternativa. Ciro Gomes, do PDT, colocou-se sempre de forma clara como desejoso de se tornar essa alternativa. O PT desdenhou-o. Mais do que isso, trabalhou depois para esvaziar suas chances eleitorais, fazendo um acordo com o PSB, que agora é difícil saber se para o PT realmente valeu a pena.

Esboçou logo Fernando Haddad como uma de suas alternativas internas. Mas levou a definição para os 45 minutos do segundo tempo. Estabeleceu claramente, portanto, que Haddad era um reserva de Lula. Alguém sem luz própria. Alguém que seguiria as orientações do mestre preso.

Adotou-se, assim, uma estratégia extrema. Que muitos militantes do PT entenderam como revanchista. Se vencessem, reconstruíram as narrativas, enquadrando Judiciário, imprensa, inocentando seus líderes considerados culpados, Lula acima de todos. Algo que Ciro Gomes classificou em mais de um momento como um “baile à beira do precipício”.

Cada passo dado a caminho dessa radicalização, fortalecia mais Bolsonaro como a sua antítese. O PT parecia esquecer-se de algumas lições do estudo que fizera André Singer antes da eleição de 2002, e que serviu de bíblia para a construção do perfil “Lulinha Paz e Amor”. Mostrava Singer que o povo brasileiro, em sua maioria, é conservador. Dizia, além disso, que esse povo “não gosta de bagunça”. O discurso do PT afrontava instituições. Bolsonaro, por seu lado, falava em “ordem” e “autoridade”. Seus eleitores falavam também em “intervenção militar”. Que é golpe. E golpe é bagunça. Mas, ante os olhos conservadores, é como se fosse uma bagunça organizada, feita por quem tem a autoridade das armas. Mais tarde, o discurso evoluiu para o que chamaram de “intervenção pelo voto”. Ou seja: uma guinada conservadora pela via democrática. O que é algo perfeitamente dentro das regras.

Além disso, o resultado das urnas ao final deste primeiro turno indica de forma clara que o PT pode até ter o apoio de parte da população para retornar ao poder. Mas não tem para reconstruir como gostaria a narrativa que o inocenta. Toda vez que os institutos de pesquisa perguntaram, a maioria dos entrevistados disse apoiar a Lava Jato e a prisão de Lula. E a derrota de Dilma Rousseff para o Senado em Minas demonstra pouca disposição de avalizar a solução matreira dada no seu impeachment e trazê-la de volta à cena.

Agora, para crescer no segundo turno, precisará o PT refazer toda a sua estratégia. Precisará mostrar que é Bolsonaro quem a vida inteira declarou e demonstrou apreço a governos e soluções antidemocráticas. Mas seu enrosco está no fato de também ter flertado com a afronta às instituições. Precisará mostrar que a vitória eleitoral está acima da eventual reconstrução da sua narrativa. Que essa vitória não inclui planos revanchistas que poderão pegar mesmo alguns daqueles que tenta agora conquistar no segundo turno. Que não quer “tomar o poder”, como disse José Dirceu, mas exercê-lo em nome da sociedade. Terá, enfim, usando a expressão de Ciro Gomes, encontrar outro lugar para o seu baile, que não seja a beira do precipício.

Política

Os plebiscitos do próximo domingo


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Foto: Antônio Cruz/Agência Brasil – EBC

Em Brasília, uma moça circulava entre as cerca de 30 mil pessoas que se manifestavam contra o candidato do PSL à Presidência, Jair Bolsonaro, com o seguinte cartaz: “Sou coxinha. Mas ele não!”

A julgar pelos acontecimentos deste sábado, 29, talvez seja preciso rever em parte o que escrevi na edição desta semana da revista IstoÉ, a partir da avaliação feita pelo diretor do Insituto Sensus, Ricardo Guedes. Para Guedes, a polarização que as pesquisas demonstram entre Bolsonaro e o candidato do PT, Fernando Haddad, indica que a eleição será um plebiscito sobre os últimos 16 anos do país. PT X anti-PT, segundo a sua análise.

As manifestações deste sábado talvez indiquem que, além do julgamento sobre a era PT, um outro plebiscito esteja sendo feito também no próximo domingo, 7 de outubro, quando os brasileiros irão às urnas. Um plebiscito sobre o valor que o cidadão deste país dá à manutenção dos princípios que fundaram a nossa democracia após os mais de 20 anos de ditadura militar. Princípios contidos na Constituição que completa agora 30 anos.

Se a Constituição de 1988 tem entre seus defeitos o fato de ser prolixa demais, esse defeito muito decorre da preocupação que havia entre os constituintes de reforçar como princípios o respeito às minorias, a garantia da igualdade de direitos e a preocupação social. Aparentemente, acendeu em parte da população o sinal de que tais princípios correm sérios riscos.

A partir daí, diante do claro quadro de polarização, boa parte dos cidadãos passa a fazer suas escolhas diante do risco de ameaça que sente com relação à manutenção desses princípios. Como a moça que se declara “coxinha”, mas sai para a manifestação junto aos eleitores tradicionais do PT de Fernando Haddad.

Não que esteja fora do foco da eleição de domingo a avaliação da era petista. Ou, mais que a era petista, a era lulista. Ela levou à polarização. O crescimento de Fernando Haddad herdando os votos que eram dados a Lula, barrado pela Lei da Ficha Limpa, se explica por isso. E, de outro lado, os eleitores concentraram seus votos anti-PT e anti-Lula naquele que mais fortemente parecia ser a sua antítese: Jair Bolsonaro.

A partir de agora, porém, se houver ampliação da intenção de voto em Haddad, ela não se dará mais tanto por essa motivação. Ela se dará porque, diante do quadro polarizado e das reduzidas chances dos demais candidatos, Haddad seria o antídoto a evitar o que se teme em Bolsonaro.

As manifestações contrárias ao candidato do PSL foram significativamente maiores que as manifestações a seu favor. A favor de Bolsonaro, a maior parece ter sido a da praia de Copacabana no Rio de Janeiro. Não fosse pelo fato de ter tido alta do hospital, o sábado não seria um dia de boas notícias para ele. Bolsonaro poderá voltar à sua campanha, ainda que com limitações. Seu grande desafio agora será tentar provar que não representa os riscos que levaram por todo o país multidões às ruas.

Nesse sentido, porém, ele começa mal. Quando seguidamente Bolsonaro declara desconfiança do sistema eletrônico de votação, e diz que não acreditará em nenhum outro resultado que não seja a sua vitória, ele atiça o temor de que prevaleçam seus pendores antidemocráticos. Ofusca-se o candidato que se submete democraticamente ao pleito. Sobressai aquele que elogiou o golpe de 1964 e seus personagens, como Carlos Alberto Brilhante Ustra. No sábado, Bolsonaro foi brindado com um editorial da TV Globo, no Jornal Nacional, reafirmando a necessidade de os candidatos respeitarem as regras a que aceitaram se submeter, inclusive quanto ao resultado final do pleito.

Agora, por outro lado Haddad tem também o desafio de segurar as línguas de alguns de seus aliados. Se, para além do plebiscito sobre a era petista, há mesmo no domingo um plebiscito sobre nossos princípios democráticos, certamente não ajuda nem um pouco uma declaração como a dada por José Dirceu, ao dizer que o que haverá, no caso de uma vitória de Haddad, será não uma eleição, mas uma “tomada de poder”.

Não, José Dirceu. Não será uma tomada de poder. O Brasil democrático se governa a partir de uma harmonia entre os três Poderes. O Poder Executivo precisa se entender e governar em conjunto com o Legislativo e o Judiciário. Então, o presidente eleito não “toma o poder”. Ele recebe da sociedade uma procuração para, democraticamente, agir em nome dela. Quando age de modo diferente da sua vontade, há diversos instrumentos para que a vontade da maioria prevaleça. A começar pela necessidade de aprovação de seus atos pelo Legislativo. Da mesma forma, não ajuda o questionamento de decisões judiciais e afrontas ao Judiciário, pelos mesmos motivos. Como diz a Constituição que completa 30 anos, “todo poder emana do povo”. O poder não será do PT ou de quem vencer a eleição. O poder continuará sendo do povo.

Àqueles que estão à frente do duelo marcado para o próximo domingo, é precisam que compreendam muito bem quais serão as motivações dos eleitores. O país vive momento delicado. Está dividido. Interpretar de forma errada os recados que vêm das ruas poderá ser algo de potencial extremamente perigoso.

Política

No FlaXFlu, é o “ai, Jesus!” 


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Foto: EBC/Agência Brasil

Na sua primeira entrevista como presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), o ministro Antônio Dias Toffoli viu-se obrigado a declarar que, qualquer que seja o resultado das eleições deste ano, ele será “respeitado”. Terminada a ditadura militar, o Brasil vem votando rotineiramente para presidente da República desde 1989. Ninguém jamais tinha antes achado necessário afirmar que o resultado das urnas seria “respeitado” qualquer que fosse ele. Porque, se vivemos numa democracia, tal frase seria óbvia. Se ela se torna necessária, é por conta dos tempos estranhos que vivemos. Tempos de ódio. Tempos de radicalização. De maniqueísmo. De polarização absoluta. Tempos de FlaXFlu. E, no FlaXFlu, como disse Lamartine Babo na letra do hino do Flamengo, “é o ai, Jesus!”

A pesquisa do Ibope divulgada nesta segunda-feira, 24, reforça a polarização. A não ser que haja uma reviravolta muito grande, o segundo turno será disputado por Jair Bolsonaro, do PSL, e Fernando Haddad, do PT. Neste momento, cerca de dois milhões de mulheres encontram-se nas redes sociais em franca campanha contra Jair Bolsonaro, do PSL, a quem não dizem o nome, chamam de “Coiso” e algumas outras denominações, como os personagens dos livros de Harry Potter faziam com Voldemort. Do outro lado, os apoiadores de Bolsonaro aprofundam os motivos para que seus adversários o chamem de “Coiso” cantando nas ruas que feministas, caso ele ganhe, vão “comer na tigela” porque têm “mais pelos do que cadela”. É nesse clima que caminhamos para o primeiro turno no dia 7 de outubro.

Foi por volta do julgamento do Mensalão, um pouco antes, um pouco depois, que a polarização começou a se esboçar. Que grupos começaram a se dividir nas redes sociais como se fossem torcidas de times de futebol. O início do FlaXFlu. Durante um tempo, era claro que a guerra de torcidas era travada por grupos mais radicais de cada lado. Mas o ativismo dos grupos foi contaminando o debate, colocando, de fato, a maioria da sociedade nessa disputa louca. É de forma absoluta, sim ou não, preto ou branco, que hoje a sociedade parece ver a disputa política. Assim a sociedade parece querer. Assim tudo indica que ela irá votar. Que assuma, então, as consequências depois. Consequências que já levam antes do pleito o presidente da Suprema Corte a dizer que o resultado das eleições “será respeitado”.

Em entrevista ao jornal Valor, José Dirceu, um dos principais estrategistas do PT, diz que o Brasil está dividido ao meio. Segundo ele, 45% estão com o PT e 45% estão com Bolsonaro e outros candidatos conservadores. E que esses conservadores irão votar em Bolsonaro como votaram antes em Fernando Collor e Jânio Quadros, porque jamais votarão num projeto de esquerda. José Dirceu é, sem dúvida, um bom estrategista político. Mas há problemas em seu raciocínio.

Primeiro problema: os conservadores já votaram no PT em eleições anteriores. Como governo, o PT jamais se propôs a ser radical, no extremo da esquerda, como a atual polarização tenta impor. Os governos petistas foram governos de coalizão. Que agregavam partidos que iam da esquerda à direita, como, por exemplo, o PP. Lula teve como seu vice um empresário conservador, José Alencar. Tinha ministros de esquerda na reforma agrária e de direita, defensores do agronegócio, como Kátia Abreu, na Agricultura. Mesmo hoje, seria difícil considerar boa parte dos eleitores das classes mais baixas, especialmente no Nordeste, como de esquerda. Eles são eleitores que o PT não tinha e conquistou no governo com seus programas sociais que representaram melhora nas suas vidas. Não pessoas de esquerda. E certamente não são de esquerda diversos políticos aliados ao PT no Nordeste, como Renan Calheiros (MDB-AL) ou Ciro Nogueira (PP-PI).

O que o PT fez desde o Mensalão foi construir uma narrativa no qual se colocava como vítima das forças conservadoras (que, em parte estavam e anda estão do seu lado). Um discurso que foi aprofundando cada vez mais a ideia de que vivíamos um “nós contra eles”. A elite conservadora, os “louros de olhos azuis”, como chegou a dizer o ex-presidente Lula certa vez, de um lado, e a classe trabalhadora de outro.

Se a ideia do antipetismo refluiu para Jair Bolsonaro, alguém que não demonstra apreço pela democracia, que a vida inteira flertou com o autoritarismo, defendendo o período da ditadura militar e torturadores como Brilhante Ustra, é impossível não considerar que isso em parte tenha se dado porque, na sua defesa, o PT não raras vezes colocou-se como mais de esquerda do que realmente era.

Se houve excessos, erros ou injustiças cometidos nos processos contra o PT, precisaria o PT também em algum momento avaliar em que medida seu próprio comportamento dividiu o país e colocou da forma como colocou metade do país contra ele. E fez com que essa outra metade admitisse da forma como hoje parece admitir ungir alguém que pode mesmo vir a comprometer toda a longa reconstrução democrática que o país vem fazendo desde o fim do regime militar.

Talvez a racionalidade, de um lado e de outro, possa ao final corrigir os rumos e evitar essa tragédia. Fazendo com que o caminho da democracia seja mantido. Segurando os arroubos mais apaixonados das torcidas. Que foram construindo um mundo cuja máxima tem sido: “quem não está comigo, é meu inimigo”. É um mundo de “sim” ou “não”. De preto ou branco. E o mundo real é cheio de matizes. Tem bem mais de 50 tons de cinza. Ignorá-los é um perigo. Ignorância é sempre um perigo. E sempre cobra seu preço.

Política

O grande risco é a falta de legimitidade…


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No mundo inteiro, os sistemas de representação política andam em xeque, aparentemente incapazes de acompanhar a velocidade e a quantidade de informações processadas nestes novos tempos da revolução informática. Fiquemos, porém, em dois países, o nosso Brasil e os Estados Unidos. Nos dois casos, as regras do jogo eleitoral parecem gerar neste momento certos questionamentos quanto à legitimidade do resultado final.

No caso dos Estados Unidos, o sistema indireto de votação sofre pela segunda vez questionamentos a partir da vitória de Donald Trump. A primeira vez na eleição de George W. Bush. Nos dois casos, os presidentes foram eleitos apesar de terem obtido menos votos que seus adversários do Partido Democrata. Pelo sistema indireto adotado lá, os cidadãos elegem delegados em cada estado. E quem obtém a maioria de delegados em um estado leve todos os votos daquele estado. Foi assim que Trump foi eleito mesmo tendo na totalidade menos votos que Hillary Clinton.

Em terras norte-americanas, tal situação parece explicar em parte os problemas de Trump. Ele reclama que é fortemente questionado pela imprensa. Sente o peso da forte oposição nos desabafos que faz nas redes sociais. E, diante do seu radicalismo histriônico e perigoso, acaba muitas vezes vendo suas intenções barradas. Como agora no caso dos filhos dos refugiados e migrantes ilegais.

Fora as características específicas do americano do topete dourado, que certamente contribuem para complicar a sua vida (e ainda bem que seja assim), há uma certa semelhança quanto à legitimidade com algo que acontece por aqui, e também como consequência das regras eleitorais. No nosso caso, por conta da regra que simplesmente elimina da contagem os votos não válidos. Ou seja: os votos nulos, brancos e as abstenções.

No Brasil, vamos tendo eleições nas quais, na verdade, os vencedores são eleitos pela minoria. Porque a soma dos votos no adversário do segundo turno com quem deixa de votar é que forma a maioria. Já foi assim no segundo turno das últimas eleições presidenciais. Dilma Rousseff venceu com 51% dos votos válidos. Então, quem votou em Aécio e quem deixou de votar ultrapassou a sua marca. No caso das eleições deste ano, o que hoje indicam as pesquisas mostra que essa tendência só tende a aumentar. Foi assim em várias das últimas eleições municipais. Foi assim na eleição extraordinária no Tocantins.

Ainda que muitos questionem os motivos para o impeachment, o fato é que Dilma não teve um minuto sequer de sossego enquanto foi presidente em seu segundo mandato. Não foi capaz de obter maioria no Congresso e seus índices de popularidade só foram caindo. Nada melhorou após a sua queda. Muito pelo contrário. Se ela já era questionada a partir da vitória apertada, imagine seu candidato a vice. Com exceção, talvez, de Marcela, ninguém deve ter votado em Dilma porque seu vice era Michel Temer.

Quem deixa de votar expressa um desejo de não se envolver na disputa eleitoral. Não se identifica com os candidatos, e isso é um posicionamento legítimo. Mas, embora a legislação eleitoral o exclua da conta, isso não é o que acontece na realidade. Quem não vota segue sendo cidadão. Esse é o risco. Um sistema no qual o vencedor não representa de fato a maioria pode ser um fator de crise permanente.

Política

A Copa que estamos amando odiar


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Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil-EBC

Antes, era uma certa indiferença. As ruas não foram pintadas tanto de verde e amarelo como nos últimos anos. A camisa amarelinha tornou-se vítima do estúpido maniqueísmo FlaXFlu que transforma ultimamente tudo em disputa política. Depois do empate contra a Suíça e da demora em conseguir o primeiro gol contra a Costa Rica, a indiferença parece ter se transformado em ódio contra a Seleção para muitos brasileiros. Se tomadas como sentimento genuíno algumas considerações vistas nas redes sociais, muita gente parece estar torcendo contra a equipe canarinho apenas como forma de reforçar seus pontos de vista e comprovar seus vaticínios.

Não me atrevo a querer aqui aprofundar avaliações futebolísticas e esportivas. Isso fica a anos-luz das minhas especialidades. Mas numa Copa em que a Alemanha começou perdendo para o México, em que a Argentina empatou com a Islândia e perdeu feio para a Croácia, e times com França e Uruguai venceram seus adversários com apenas um gol de vantagem, estamos tão mal assim? Por que nosso sufoco para abrir o placar contra a Costa Rica é sinal de que não vamos longe e o sufoco da Alemanha para abrir o placar contra a Suécia é espelho da sua garra e vontade de vencer o jogo? Além da avaliação de performance esportiva, a resposta parece a seguinte: o Brasil está com ódio de si mesmo. E espelha esse ódio na sua relação com a Seleção Brasileira.

Alguém disse uma vez que o brasileiro não gosta de esporte, ele gosta de ganhar. Isso explica as atenções eventuais que dá a determinados esportes e depois os abandona. Acordava cedo para ver Fórmula Um quando havia Ayrton Senna. Aprendeu tudo sobre tênis para acompanhar Gustavo Kuerten. No caso do futebol, o brasileiro desenvolveu relação diferente. Identifica-se completamente com o jogo. Se apaixonou por ele. Mas sua obsessão pela vitória tornou-o implacável com a Seleção. O time brasileiro não pode nada a não ser ganhar. E ganhar com imensa superioridade.

Eterna promessa de progresso e prosperidade que nunca chega, o Brasil tornou-se soberano apenas no futebol. E, num tempo em que o jogo tornou-se mais equilibrado, em que não há a moleza de antes para os outrora gigantes do futebol – como vem mostrando nessa Copa a trajetória da Alemanha e da Argentina -, isso para nós tem sido insuportável. Já não fazemos a diferença nem mesmo com a bola nos pés.

A Seleção canarinho é espelho do que somos e do que desejamos ser. E não estamos felizes conosco. Depois de ter vivido momentos de prosperidade, o Brasil mergulhou numa profunda espiral negativa. Viu seu segundo presidente sofrer processo de impeachment. Tem hoje um presidente com índices baixíssimos de popularidade. Não enxerga perspectivas. Qualquer dúvida quanto a isso, é só observar as pesquisas de intenção de voto, com seus índices entre 60% e 70% de pessoas que ainda não têm candidato nas eleições de outubro.

Numa entrevista recente com Romário, o grande craque da Copa de 1994, hoje senador, ele disse coisas importantes que vão nessa linha. Em 1992, lembrava ele, o Brasil tinha perdido um dos maiores ídolos da sua história, Ayrton Senna, e Fernando Collor havia sido deposto num processo de impeachment marcado por denúncias de corrupção. Não estávamos felizes conosco, e a conquista da Copa nos proporcionou certa redenção.

Em outra pergunta, Romário foi questionado sobre se exageramos a relação entre futebol e política. “Muito pelo contrário”, respondeu ele. Para Romário, essa relação é muito forte, pelo peso que o futebol tem na nossa formação cultural e de caráter. Para o bem e para o mal. Para o mal, na força da corrupção que se verificou nas recentes investigações sobre a CBF. Para o bem, na forma como nossas características se decalcam no estilo de jogar bola do brasileiro, que o torna único.

Espelho, portanto, das nossas características, a Seleção terá o amor brasileiro caso se ofereça como redenção para os nossos pecados e tristezas. Como em 1994. Ou nas conquistas anteriores. E nosso ódio caso sirva apenas para reforçar aos olhos do mundo nossos defeitos. Somos Neymar. Queremos nos enxergar nas suas virtudes. Mas temos ódio quando nos enxergamos nos seus defeitos…

P.S: por uma série de razões, fiquei um pouco afastado do site nos últimos tempos. Peço, assim, desculpas, aos poucos que por aqui me acompanhavam. Prometo que retornarei aqui agora com mais assiduidade…