Donald Trump

Política

O grande risco é a falta de legimitidade…


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No mundo inteiro, os sistemas de representação política andam em xeque, aparentemente incapazes de acompanhar a velocidade e a quantidade de informações processadas nestes novos tempos da revolução informática. Fiquemos, porém, em dois países, o nosso Brasil e os Estados Unidos. Nos dois casos, as regras do jogo eleitoral parecem gerar neste momento certos questionamentos quanto à legitimidade do resultado final.

No caso dos Estados Unidos, o sistema indireto de votação sofre pela segunda vez questionamentos a partir da vitória de Donald Trump. A primeira vez na eleição de George W. Bush. Nos dois casos, os presidentes foram eleitos apesar de terem obtido menos votos que seus adversários do Partido Democrata. Pelo sistema indireto adotado lá, os cidadãos elegem delegados em cada estado. E quem obtém a maioria de delegados em um estado leve todos os votos daquele estado. Foi assim que Trump foi eleito mesmo tendo na totalidade menos votos que Hillary Clinton.

Em terras norte-americanas, tal situação parece explicar em parte os problemas de Trump. Ele reclama que é fortemente questionado pela imprensa. Sente o peso da forte oposição nos desabafos que faz nas redes sociais. E, diante do seu radicalismo histriônico e perigoso, acaba muitas vezes vendo suas intenções barradas. Como agora no caso dos filhos dos refugiados e migrantes ilegais.

Fora as características específicas do americano do topete dourado, que certamente contribuem para complicar a sua vida (e ainda bem que seja assim), há uma certa semelhança quanto à legitimidade com algo que acontece por aqui, e também como consequência das regras eleitorais. No nosso caso, por conta da regra que simplesmente elimina da contagem os votos não válidos. Ou seja: os votos nulos, brancos e as abstenções.

No Brasil, vamos tendo eleições nas quais, na verdade, os vencedores são eleitos pela minoria. Porque a soma dos votos no adversário do segundo turno com quem deixa de votar é que forma a maioria. Já foi assim no segundo turno das últimas eleições presidenciais. Dilma Rousseff venceu com 51% dos votos válidos. Então, quem votou em Aécio e quem deixou de votar ultrapassou a sua marca. No caso das eleições deste ano, o que hoje indicam as pesquisas mostra que essa tendência só tende a aumentar. Foi assim em várias das últimas eleições municipais. Foi assim na eleição extraordinária no Tocantins.

Ainda que muitos questionem os motivos para o impeachment, o fato é que Dilma não teve um minuto sequer de sossego enquanto foi presidente em seu segundo mandato. Não foi capaz de obter maioria no Congresso e seus índices de popularidade só foram caindo. Nada melhorou após a sua queda. Muito pelo contrário. Se ela já era questionada a partir da vitória apertada, imagine seu candidato a vice. Com exceção, talvez, de Marcela, ninguém deve ter votado em Dilma porque seu vice era Michel Temer.

Quem deixa de votar expressa um desejo de não se envolver na disputa eleitoral. Não se identifica com os candidatos, e isso é um posicionamento legítimo. Mas, embora a legislação eleitoral o exclua da conta, isso não é o que acontece na realidade. Quem não vota segue sendo cidadão. Esse é o risco. Um sistema no qual o vencedor não representa de fato a maioria pode ser um fator de crise permanente.

Política

The Post, o filme, e o anseio por informação de qualidade


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Foto: Divulgação/20th Century Fox

Termina a sessão de The Post, o filme de Steven Spielberg em cartaz, e a plateia do cinema começa a aplaudir entusiasticamente tão logo aparecem os créditos finais. Por melhores que sejam, não costuma ser uma reação comum das plateias aplaudir filmes. Afinal, seus realizadores não estão ali fisicamente para receber os cumprimentos. Somente filmes que mexem muito com a emoção dos espectadores costumam receber essa reação. Pelo que me contam, a reação nesta seção de cinema não foi algo isolado. As pessoas estão aplaudindo The Post.

É algo curioso que o relato de uma situação vivida na redação de um jornal impresso na década de 1970, nos Estados Unidos, diante da tensa relação política do governo Richard Nixon naquela época, com a contestação que havia contra a Guerra do Vietnã, gere tal emoção nos dias de hoje. Para as novas gerações, talvez seja até difícil compreender os detalhes da rotina que o filme mostra nas redações dos jornais. Quantas pessoas conseguem reconhecer aquelas máquinas de linotipo ou os riscos dos desenhos de página feitos pelos diagramadores? Toda essa realidade quase extraterrena para qualquer um com menos de 40 anos aparece no filme sem qualquer preocupação didática maior de explicá-la. E mesmo assim o filme emociona. E é aplaudido no final.

Nas entrevistas sobre seu filme, Spielberg vem matando um pouco dessa charada. O que o motivou a desenvolver a história e transformá-la em filme foi o que ele chama de “tempo das fake news”. O atual ambiente, onde as pessoas informam-se pelas redes sociais, de forma rasa e descontextualizada. Não conseguem distinguir o que é falso ou verdadeiro. Nem conseguem informações mais detalhadas e aprofundadas sobre as questões que as afligem.

Em muitos momentos, a disseminação das informações é meramente militante. Os diversos grupos de interesse tratam de difundir o que lhes interessa, de forma distorcida e rasa, o mais próxima possível de mera palavra de ordem, de slogan de propaganda. A lógica das redes sociais trata de distorcer ainda mais a coisa, porque aproxima as informações ao que cada pessoa já pensa e aos seus interesses. No caso dos Estados Unidos, tendo agora um presidente com alta participação nesse jogo. Quando não está cuidando da tintura do cabelo, Donald Trump está nas redes sociais, desqualificando seus adversários e tendo como um de seus alvos preferenciais, a imprensa, que ele trata como sua adversária.

Por outro lado, a imprensa vive a maior crise da sua história. Viu esfarelar-se seu modelo anterior de negócios sem que esteja ainda construído um modelo novo. Nenhum veículo de comunicação de hoje poderia, como fez o Washington Post, como se mostra no filme, estabelecer como um de seus ativos numa reunião de negócios a atenção que dá para a manutenção de uma equipe de jornalistas de qualidade. Todos os atuais veículos de comunicação, por conta da crise, andam rifando seus jornalistas de qualidade, substituindo-os por outros mais jovens, menos experientes e mais baratos. Entregando cada vez mais reportagens aos cuidados de estagiários. Equipes menores e com menos tempo para apurar as informações que publica. No mundo do jornalismo on-line, não raro o tempo entre apuração e publicação não passa de alguns minutos. E não raro o veículo vê-se obrigado a corrigir logo depois, pela pressa, o que tinha acabado de informar.

E é preciso se reconhecer que não foram poucos os veículos que caíram na armadilha criada por eles mesmos de abandonar o antigo conceito de objetividade – esse dos tempos do filme – para declaradamente assumir posicionamentos que os fizeram pender claramente para um dos lados da disputa política. Claramente governistas ou oposicionistas, que credibilidade podem esperar ter diante do público que não professa das mesmas ideologias?

Contrapondo o jornalismo tradicional em crise, apresentam-se grupos de blogueiros voluntaristas, tentando fazer valer a ideia de que podem suprir, lobos solitários que são, as carências das cada vez menores equipes dos jornais, das revistas e emissoras de TV. Alguns falam somente para seus grupos. Outros, mal intencionados, achacam para fazer negócios. Muitos unem a isso o problema mencionado no parágrafo anterior: assumem declaradamente um lado do jogo político e não podem, assim, esperar receber, da mesma forma, credibilidade de qualquer um que não professe as mesmas ideologias. Alguns conseguem, pela experiência ou credibilidade de seus titulares, acrescentar algo. Todos, porém, carecem da estrutura mínima necessária para alimentar de forma plena seus leitores com notícias.

As reações a The Post parecem determinar um certo anseio das pessoas por informação de qualidade. Por algum tipo de contrato que lhes garanta obter um relato de confiança sobre o que lhes interessa, num quadro em que não parecem enxergar essa possibilidade vinda de lugar nenhum da imensa profusão de notícias que aparece hoje nos seus computadores, tablets e celulares.

The Post  demonstra que está longe de ser trivial, banal, o trabalho jornalístico. E que ele está longe também de ser dispensável numa sociedade moderna. Segue na mesma linha de mensagem assinalada há alguns anos por Spotlight. Primeiro, mostra como não é na verdade nada solitário o trabalho jornalístico que realmente faz diferença. Tanto em The Post como em Spotlight, fica claro como jornalismo é trabalho de equipe. Como tem resultado efetivo quanto mais toda a estrutura do jornal está envolvida. Desde o proprietário, ao dar a autorização para que a história seja investigada e publicada, até o foca mais novato. Quando envolve não apenas aqueles diretamente relacionados com a apuração, mas todo o corpo da empresa.

É um trabalho que exige dedicação, mas sobretudo estrutura. Não tem como ser bem feito nem por equipes enxutas e inexperientes nem pela ação voluntarista e individual de alguns. Ou seja: a maior parte de quem está hoje no jogo do jornalismo está a quilômetros de ser capaz de produzir informação de qualidade. E a profusão cada vez maior de informação rasa, distorcida, quando não falsa, que chega nas telas de cada um só faz provocar mais confusão e insegurança.

Por menos que compreenda as imagens dos linotipos, dos riscos dos diagramadores e das laudas das máquinas de escrever, o espectador compreende que o recebimento de informações de qualidade é algo que trabalha a seu favor. Que governante algum, seja de que partido for, jamais vai se agradar com o trabalho de uma imprensa livre, cumprindo o seu papel.  Que sempre tentará atacar ou relativizar o trabalho da imprensa.

Menos Google. Mais sola de sapato. Mais saliva gasta. Mais papel de bloquinho. Mais tinta de caneta. Não sou eu quem está pedindo. O pessoal é que está querendo…

Política, Uncategorized

As fake news são seculares… Seu terreno fértil é o ódio


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Que o exemplo da perversidade duradoura de uma mentira do século 19 nos alerte em 2018

“Sempre que um grupo de pessoas é ensinado a odiar outro grupo, inventa-se uma mentira para insuflar o ódio e justificar um complô”.

É com essa frase que começa “O Complô”, último álbum desenhado e escrito pelo grande cartunista americano Will Eisner. Criador do personagem The Spirit, Eisner é considerado pela grande maioria dos críticos o maior autor de histórias em quadrinhos de todos os tempos. Ninguém mais que ele teve a obsessão de transformar os quadrinhos em arte, ultrapassando as barreiras do mero entretenimento juvenil. Eisner é o principal criador do conceito da Graphic Novel, o romance gráfico, uma forma de contar histórias, profundas e adultas, associando texto e ilustração.

“O Complô”, obra concluída em 2004, publicada no Brasil pela Companhia das Letras, trata de “fake news”, embora o termo naquela ocasião ainda não estivesse tão disseminado como hoje. E mostra que as “fake news” são bem mais antigas do que supõe quem pensa se tratarem de um fenômeno contemporâneo, consequência das redes sociais. As “fake news” são seculares. E vicejam principalmente quando encontram, como terreno fértil, tempos de ódio. Quando o mundo se transforma numa disputa maniqueísta e tola entre “o bem e o mal” (bem e mal com todas as aspas possíveis), surge a mentira para alimentar e fortalecer esse ódio. Quando se quer ardentemente acreditar em algo, a racionalidade e bom senso são sempre os primeiros derrotados.

Em “O Complô”, Eisner conta a história de uma das mais bem produzidas e duradouras “fake news” de todos os tempos. Um documento surgido na Rússia tsarista com o título de “Protocolos dos Sábios de Sião”. Os tais protocolos seriam um documento escrito por líderes judeus que descreveriam uma articulação deles para dominar o mundo. O documento surgiu no final do século 19, quando o tsar Nicolau III começou a sofrer os primeiros sinais da revolta que em 1917 culminaria na Revolução Socialista. Surgiu,então, entre seus assessores políticos a ideia de produzir e disseminar um documento que mostrasse que, insuflando essa revolta, estavam judeus, cujo propósito era estabelecer a confusão para dominar o mundo.

Contrataram, então, um falsário chamado Mathieu Golovinski para produzir o tal documento. Golovinski pegou como base um livro desconhecido e perdido escrito em 1864 pelo francês Maurice Joly para atacar o imperador Napoleão III. Chamava-se “O Diálogo no Inferno entre Maquiavel e Montesquieu”. O objetivo era aproximar as ideias e ações de Napoleão III das de Maquiavel para apontá-lo como um déspota. Para tanto, Joly distorceu as ideias originais de Maquiavel. Como aparece em um diálogo do álbum de Eisner: “Mas você inventou as palavras de Maquiavel… Para provar seu argumento”, diz um interlocutor. “Exato! Mas continuo próximo das ideias dele… Foram necessárias poucas alterações”, responde Joly. O francês acabou preso e condenado por difamação. Seu livro foi apreendido e sua circulação proibida. Joly suicidou-se em 1878.

Em 1898, Golovinski praticamente copia, com algumas alterações, o “Diálogo no Inferno entre Maquiavel e Montesquieu” para produzir “Os Protocolos dos Sábios de Sião”. As mesmas palavras são usadas agora como se seus autores fossem líderes judeus. No “Diálogo no Inferno”: “Todo homem busca o poder, e não há nem mesmo um homem que não seria opressor caso pudesse”.Em “Os Protocolos”: “Todo homem almeja o poder, todos se tornariam ditadores se pudessem”.  Ou no “Diálogo”: “Esses tigres têm alma de ovelha, cabeça cheia de vento. Seu sonho é a absorção do indivíduo numa unidade simbólica”. Em “Os Protocolos”: “Esses tigres na aparência têm alma de ovelha e o vento circulando livremente pela cabeça. Nós os deixamos com a ideia fantasiosa da absorção da individualidade pela unidade simbólica do Coletivismo”. Os dois livros foram escritos num intervalo de tempo de 40 anos.

Em 1921, o jornal inglês The Times publica os dois textos mostrando claramente que “Os Protocolos dos Sábios de Sião” são uma farsa, plágio descarado do “Diálogo no Inferno entre Maquiavel e Montesquieu”. O que moveu Will Eisner a contar a história dessa farsa na sua última obra foi o fato de ter deparado, quase cem anos depois, com os “Protocolos” circulando, como se verdadeiros fossem, em sites antissemitas na internet.

Eisner mostrava a força que a mentira tem quando se deseja acreditar nela, e o quanto ela é alimentada pelo ódio. Como viceja especialmente nos ambientes onde a discussão equilibrada e respeitosa não é bem-vinda. Onde ela é forjada pelo preconceito e pelo desejo apenas de encontrar novas ideias e textos que somente corroborem o que já se pensa.

As redes sociais rodeiam as pessoas de outras que pensam de maneira igual, formando pequenos mundinhos. Surgidas para ampliar, as redes sociais têm o perverso dom de muitas vezes limitar. O ex-presidente americano Barak Obama tem investido muito no alerta para isso, nas suas palestras depois que deixou o governo. A disseminação de notícias falsas e distorcidas nos Estados Unidos pautou fortemente a última eleição, na qual Donald Trump venceu Hillary Clinton.

Certamente, como aconteceu nos Estados Unidos e também em outras eleições recentes, na França ou na Alemanha, as redes sociais serão a ferramenta mais importante de disseminação de ideias na nossa campanha eleitoral no ano que vem. E, aqui como lá, certamente disseminarão uma tonelada de notícias falsas. Não pode haver maior perigo do que a vitória do falso para depois governar de verdade. Tirando sua máscara de falsidade para mostrar sua face verdadeira. “Os Protocolos dos Sábios de Sião” são uma “fake news” secular. Que o exemplo da sua perversidade duradoura nos alerte em 2018. Procurem nas livrarias “O Complô”, de Will Eisner. Feliz 2018!