Donald Trump

Política

Notícias à Bolsolândia


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Foto: Reprodução/vídeo

Foi assustadora – não há outro termo possível – a total desconexão das declarações do presidente Jair Bolsonaro nos últimos dias do que a realidade mostrava não apenas no Brasil mas no planeta.

Enquanto as bolsas do mundo todo derretiam na segunda-feira, Bolsonaro pintava – com esmero e um óculos de sol verde-limão no rosto – os retângulos de um quadro de Romero Britto.

Aliás, Romero Britto, que também retratou em seus tempos Lula e Dilma Rousseff, é uma ótimo opção, com seus cachorrinhos, gatinhos e passarinhos coloridos, para pintar cenários descolados da realidade.

Na sequência da tarde de pintura, Bolsonaro disse que a disseminação do coronavírus era um “exagero da imprensa”, que a queda histórica das Bolsas de Valores no mundo era uma coisa episódica. Repetia uma dessas tolices da internet, ao dizer que a dengue mata muito mais do que o coronavírus.

Um dia depois, a Organização Mundial de Saúde decretava ser a disseminação do coronavírus uma pandemia. As bolsas voltaram a cair ontem no mundo inteiro. Houve novos casos de circuit breaker, mais de uma interrupção das atividades num único dia. O dólar ultrapassou no Brasil a perigosa casa dos R$ 5.  O ídolo de Bolsonaro, Donald Trump, anunciou drásticas medidas para tentar conter o avanço do vírus nos Estados Unidos. País do qual Bolsonaro voltou com integrantes da sua comitiva, como o secretário de Comunicação, Fabio Wajngarten, infectado. Ao final da semana, estava o presidente fazendo um pronunciamento usando máscara cirúrgica, em isolamento, seguindo a orientação do seu ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta.  Não era uma besteira, presidente.

Fora da Bolsolândia, esse mundo virtual que o presidente parece ter escolhido para si e para seus seguidores mais fieis, o mundo passa por um momento de grande perigo. O Brasil, por maior que seja o esforço contrário de Bolsonaro, não está desconectado do mundo. E seu governante deveria estar bem mais preocupado com isso.

Ao contrário da tolice repetida na internet, o problema do coronavírus não é se ele mata mais ou menos que a dengue ou outras doenças. O problema do coronavírus é que ele é conhecido há somente alguns meses e já infectou centenas de milhares de pessoas no planeta. O problema é, portanto, essa impressionante velocidade de disseminação.

Ele não é grave entre os mais jovens. Para eles, é letal em apenas 0,2% dos casos. Mas é muito grave entre os idosos, em torno de 18%. Um estudo publicado na edição de ontem do Jornal de Brasília mostra que, tomando-se por base o que aconteceu na China, em 15 dias poderá haver cerca de quatro mil pessoas infectadas no Brasil. Algumas centenas dessas pessoas serão idosos. Se esses idosos precisarem de leitos de UTI, que não existem nessa quantidade, temos aí um gravíssimo problema de saúde pública.

O que impressiona hoje é que a Bolsolândia não agrega sequer alguns dos próprios integrantes do governo. Ciente do tamanho do problema, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, montou um gabinete de crise há algumas semanas e vem fazendo um irrepreensível trabalho de monitoramento da situação.

O ministro da Economia, Paulo Guedes, demora a reagir, mas também parece ter sentido o tamanho da encrenca. O problema de saúde pública traz consigo um gravíssimo problema econômico. Os Estados Unidos proibiram na quarta-feira (11) voos para a Europa. Medidas restritivas como essas tomadas pelas economias do mundo certamente farão circular menos dinheiro. É o espectro ameaçador da crise em proporções mundiais.

A solução até então posta, de acelerar as reformas, deixa de ser solução nesse cenário. Não adianta somente criar um quadro que seja mais atraente para novos investimentos se o mundo, e com ele seus investidores, entrarem num momento de retração. Não haverá investimentos.

É aí que entra a face mais perigosa da desconexão de Bolsonaro. A negligência de uma autoridade no seu posto traz o risco de novas negligências e desconexões. Então, se Bolsonaro cria sua Bolsolândia, o Congresso, na esteira, cria a sua Congressolândia. E, num momento como esse, resolve aumentar em R$ 20 bilhões as despesas do governo com gastos sociais, derrubando um veto presidencial e ampliando os gastos com o Benefício de Prestação Continuada (BPC).

O problema disso tudo é que não há para nós a opção de nos abrigarmos na Bolsolândia. Nem na Congressolândia. Tudo o que não precisamos agora é de um presidente ou de parlamentares desconectados da realidade, repetindo frases lacradoras para seus seguidores nas redes sociais. Nem Romero Brito nem máscaras cirúrgicas sem necessidade. O que precisamos é de seriedade neste momento.

Política

Além da nossa vertigem


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É difícil a essa altura saber exatamente que chances o documentário Democracia em Vertigem terá de sair da cerimônia do dia 24 de fevereiro em Los Angeles carregando a estatueta dourada e careca do Oscar. Importante agora é avaliar por que razão a Academia incluiu o filme entre os concorrentes. E certamente, apesar de nossas paixões interiores, isso nada tem a ver com a nossa guerra particular de torcidas.

Meio ingênuo ou muita pretensão da nossa parte imaginar que os intelectuais da Academia de Hollywood resolveram tomar partido na nossa guerrinha político-partidária-ideológica tupiniquim. Eles seguem desde sempre nos considerando somente mais uma republiqueta latino-americana, exótica e distante.

No caso, o que importa, e foi o motivo da escolha, é como o episódio particular brasileiro ali contado repercute em algo que ganha preocupação planetária. Que conversa com os Estados Unidos de Donald Trump e fenômenos que se replicam em diversos outros países do mundo: a agonia das democracias. Ou, pelo, menos, o forte questionamento dos modelos de democracia representativa a que nos acostumamos.

O tema está em um livro recente, “Como morrem as democracias”, de autoria de dois pesquisadores da Universidade de Harvard, Steven Levitsky e Daniel Ziblatt. E aí a famosa universidade da cidade de Cambridge, no estado de Massachussets, está mais próxima dos interesses e leituras dos intelectuais da Academia de Artes e Ciências de Hollywood que os nossos líderes e disputas locais.

O livro de Levitsky e Ziblatt mostra como as democracias podem se esgarçar a partir das suas próprias características particulares. Como a utilização de ferramentas e elementos político-institucionais dessas próprias democracias, aliada à formação de uma base popular disposta a isso, podem vir a trabalhar para demoli-las.

Em momentos de ambiente extremamente polarizado, excessivamente radicalizado, que ignora o centro e a construção de consensos, essa associação aparece. E aí a democracia não necessariamente corre riscos pela produção de um golpe armado, de tropas nas ruas depondo presidentes e outros líderes. Ou a partir de grandes revoluções. Ela se mina de dentro para fora.

São decisões de parlamentos ou mudanças constitucionais que multiplicam a possibilidade de mandatos sucessivos, perpetuando líderes e grupos, como acontece na Venezuela. São ondas de protesto e insatisfação que acabam sendo desvirtuadas e trabalhando contra o desejo inicial de quem protestava, como ocorreu em muitos dos países envolvidos na Primavera Árabe.

No fundo, essa associação entre a utilização das próprias ferramentas de uma democracia fragilizada com o apoio popular em uma sociedade polarizada não é muito diferente da situação que explica a ascensão de Adolf Hitler na Alemanha no final da década de 1930. O Partido Nazista de Hitler chegou ao poder por via democrática após a crise econômica na Alemanha. E foi o próprio Parlamento alemão que autorizou, em 1934, a transmissão de funções legislativas para o poder Executivo. No caso, fortalecendo Hitler.

No caso dos nossos episódios particulares, narrados em Democracia em Vertigem, o que preocupa fora das nossas fronteiras não é exatamente a disputa doméstica entre bolsomínios e petralhas. É se essa disputa doméstica seria parte do avanço mundial de um modelo político que compromete a democracia. Se aqui as ferramentas utilizadas para a deposição de Dilma Rousseff foram ou não comprometidas por propósitos e intenções antidemocráticas. Ou seja: se é um exemplo que faz parte desse processo de esgarçamento da democracia de dentro para fora.

E, para nós, especificamente, fora do clima de guerra de torcidas, o filme pode nos ajudar a entender diversas coisas, pela riqueza de imagens de bastidores que há nele. Nossa particular guerra de narrativas também prejudica seu entendimento. É fundamental para o entendimento do contexto, por exemplo, as falas de Gilberto Carvalho admitindo como o PT foi se afastando de suas bases populares e se inserindo cada vez mais com gosto no conchavo com seus aliados da política tradicional. Também importante o trecho em que Dilma tenta – com sua retórica por vezes confusa – explicar por que foi escolhida a sucessora de Lula. E conclui dizendo que “muitas vezes Lula trabalha com o fato consumado”. Ou seja: dando a entender que ela só foi a sucessora de Lula porque assim Lula quis.

Mas isso é importante para as nossas leituras. Os intelectuais da Academia estão longe dessa nossa vertigem. A vertigem deles é outra.

Política

Ainda é a política, estúpido!


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Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

No auge da crise que acabou levando ao impeachment de Dilma Rousseff, ousei inverter em um artigo a famosa frase do marqueteiro de Bill Clinton, James Carville. Nas eleições de 1992, ele apontou que George Bush não era favorito, apesar da popularidade conquistado após ter vencido a Guerra do Golfo. “É a economia, estúpido!”, disse ele. Seu raciocínio era que a definição política de uma eleição dependia fundamental dos humores da população quanto aos aspectos econômicos: recessão, inflação, etc.

No período anterior à queda de Dilma, estava claro que acontecia o contrário. Por mais que se tentasse alguma coisa, a economia seguiria morro abaixo. Por causa da política. Ou seja, invertendo a máxima de Carville, no caso, era “a política, estúpido!”.

Na terça-feira, o dólar bateu a casa dos R$ 4. Os boletins do Banco Central e de outros analistas apontam para crescimento pífio, ou crescimento nenhum, do país este ano. Um comunicado interno da Receita Federal apontou que os cortes no orçamento previstos para este ano poderiam comprometer serviços como a emissão de CPF e a próprio restituição do imposto de renda. O governo enviou uma série de projetos ao Congresso de suplementação orçamentária que não caminham. Ou seja: estamos em crise.

E certamente não estamos em crise por conta dos pressupostos da equipe comandada pelo ministro da Economia, Paulo Guedes. O que Guedes propõe e procura fazer é o que consideram o caminho correto nove entre dez empresários e financistas do país e do lado capitalista do planeta. O governo aprovou com imensa facilidade na Câmara a reforma da Previdência e nada indica que venha a sofrer algum tipo de dificuldade agora no Senado. Nunca houve ambiente tão propício para a discussão e aprovação das chamadas reformas estruturantes no Congresso.

E, no entanto, o país segue empacado. E, se isso acontece, é prudente jogar a culpa na política. No tal “presidencialismo de colisão”, como cunhou com felicidade meu amigo Melillo Diniz, escolhido pelo presidente Jair Bolsonaro para substituir o criticado “presidencialismo de coalizão”, apontado por ele e por aqueles que o elegeram como  a chave do fisiologismo e da corrupção que prejudicam o país.

No caso de Dilma, ela colocou um ortodoxo no comando da economia, Joaquim Levy, e nada aconteceu. Certamente porque o ambiente de instabilidade e de incerteza política não aconselhava investimentos. Com seu temperamento forte e estabanado, Dilma não conseguia fazer os arranjos políticos para serenar o país. Isso somado ao fato de que o então presidente da Câmara, na prática no comando então do Congresso, não fazia a menor questão de ajudar nessa tentativa de serenar ânimos.

Agora, Bolsonaro pisa ao máximo no acelerador e joga às calendas qualquer tentativa de serenar os ânimos. Ao contrário, seu “presidencialismo de colisão”, elege inimigos todos os dias, afasta ex-aliados, entorna diariamente o caldo de qualquer entendimento. Não exatamente por ser estabanado. A tática tem método. Visa consolidar os apoios que já são mais sólidos. Fortalecer o “mito”, mantendo acesa a polarização radical do país.

Apesar de ter método, a estratégia é arriscada. É como apostar num incêndio imaginando ser possível controlá-lo. Ao enxergar tamanho cenário de instabilidade e incerteza, o investidor fica tentado a considerar se não é melhor esperar um pouco, manter o dinheiro fechado na carteira, dentro do bolso, enquanto o cenário não clareia.

Somam-se a isso guerras comerciais e posicionamentos internacionais que ganham um viés ideológico como nunca tiveram, nem mesmo no tempo da ditadura militar (quando as empreiteiras brasileiras, por exemplo, ganharam rios de dinheiro construindo hidrelétricas na União Soviética comunista). A Noruega tira seus recursos do Fundo Amazônia. A Alemanha ameaça boicotar produtos brasileiros. O Irã e outros países do Oriente Médio preocupam-se com o alinhamento aos Estados Unidos. Mesmo os agricultores brasileiros, que nunca se pautaram pelo ativismo ambiental, mostram-se preocupados com o exagero de certos posicionamentos, que fazem com que os produtos do país corram o risco de perder os chamados “selos verdes”, condicionamentos de compromisso ecológico que são cada vez mais frequentes em diversos países que importam do Brasil.

Peitar posicionamentos e mudanças de conceito muito fora do pensamento global pode dar mais certo em um país como os Estados Unidos na era Donald Trump, no qual Bolsonaro se espelha. Afinal, os Estados Unidos são a maior potência do mundo, com capacidade para serem autossuficientes. Podem bancar suas guerras. O emergente Brasil é dependente dos humores de seus parceiros. Geralmente, precisa de uma jamanta para subir a ladeira. E corre sempre o risco de rolar abaixo por um sopro ou um peteleco fora de hora. Se não conciliar política e economia, a política derruba a economia, estúpido!

Política

É prudente respeitar os “idiotas”


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Lá do Texas, distante oito mil quilômetros das ruas brasileiras, o presidente Jair Bolsonaro tratou de chamar os milhares de manifestantes que protestaram contra os cortes no orçamento da Educação de “idiotas úteis”.

Governos minimizarem o efeito de manifestações contra eles é algo tão comum quanto técnicos da Seleção Brasileira minimizando as consequências de uma goleada num amistoso às vésperas da Copa do Mundo. Quem está de fora, porém, sente e sabe bem a diferença que há entre a realidade e o discurso.

Jair Bolsonaro é fruto dos movimentos de protesto que começaram na Copa das Confederações ainda no primeiro governo Dilma Rousseff. Movimentos que depois nunca mais pararam e foram crescendo até inviabilizar completamente a permanência de Dilma e da era petista. Deveria, portanto, ser o primeiro a identificar os efeitos dessas ondas de insatisfação.

Mas Bolsonaro foi bem mais além que minimizar. Ele resolveu provocar os manifestantes. Chamou-os de “idiotas”, de “massa de manobra”. Seria bem mais prudente ao presidente respeitar esses “idiotas” que foram às ruas. A situação de Bolsonaro não anda das mais confortáveis.

Há no modus operandi de Bolsonaro e da turma mais próxima a ele – incluindo seus filhos – uma necessidade atávica de agredir sempre os adversários. É o clima de guerra permanente das redes sociais. E já comentamos sobre isso por aqui. Algo que Bolsonaro importa de outros governantes que antes dele tinham descoberto o poder das redes sociais. É assim que faz Vladimir Putin na Rússia. É assim que faz Donald Trump nos Estados Unidos.

Ocorre que a Rússia é um país onde o Estado é muito forte. Não é exatamente uma democracia. Nos Estados Unidos e aqui, o estilo da agressividade crônica atiça os adversários. Mantém um clima de confronto e crise permanente. E já começa a ficar evidente que essa intranquilidade permanente não exatamente ajuda o “capitão eleito”, para repetir uma expressão usada por seu filho, Carlos Bolsonaro.

Enquanto pessoas foram às ruas em número longe de ser desprezível, Bolsonaro reagia chamando-o de “idiotas”. Na Câmara, o ministro da Educação, Abraham Weintraub, igualmente reagia insinuando chamar os deputados de “vagabundos”, que nunca na vida tiveram uma carteira assinada. Ou seja: é guerra permanente contra os supostos adversários.

Mais uma vez guardando o espaço da sensatez no governo, o vice-presidente Hamilton Mourão disse que as reações aos cortes na Educação foram um problema de comunicação. Foram mesmo. Se o governo desde o início tivesse dito que o corte era necessário porque os governos anteriores, de Dilma e de Michel Temer, tinham quebrado o país, o que não deixava alternativas, talvez tivesse conseguido a partir daí criar um outro ambiente. Primeiro, obrigaria os adversários a se debruçarem nos números. Segundo, números sempre são mais difíceis de compreender. Não geram disposição para palavras de ordem. Terceiro, poderiam arregimentar grupos em efeito contrário, que reclamariam dos desmandos e trapalhadas da era petista.

Mas Weintraub resolveu dizer que estava cortando o dinheiro porque as universidades faziam “balbúrdia”. Mesmo tendo tornado depois o corte generalizado, foi essa primeira mensagem que ficou. Quem nunca frequentou uma universidade pode mesmo pensar – até por despeito – que ali só se faz bagunça. Quem, porém, sentou nas cadeiras de um curso superior e dá valor ao diploma que recebeu, sabe o que exatamente fez para merecê-lo. O que inclui boa parte da elite conservadora brasileira. Ou seja: boa parte dela não vai comprar esse discurso para desmerecer o valor do seu próprio esforço.

Assim, construiu a palavra de ordem que ontem foi às ruas. Foi chamado à Câmara para se explicar numa clara molecagem do Centrão. Passou o recibo. Chegou no plenário e agrediu os deputados. Nem se ajudou nem ajudou o governo que patina no Congresso colecionando derrotas.

Nas atitudes de Bolsonaro e de Weintraub há a esperança de que arregimentaram seus exércitos. E que um dia esses exércitos possam sair às ruas, se necessário, em sua defesa. Mas é sempre bom lembrar. A turma aguerrida de Bolsonaro nas redes é o seu grupo inicial, de uns 15%. Não é a maioria mesmo daqueles que o elegeram. Falar o tempo todo somente para esses grupos não é falar para a maioria da sociedade. Esse erro vem sendo repetido seguidamente.

Política

Em tempos radicais, os inimigos dormem ao lado


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Antes da posse de Jair Bolsonaro, nem o vidente mais insano seria capaz de prever que o capitão reformado que passou toda a sua vida política a defender a ditadura militar viria a, depois de eleito, eleger justamente os militares de seu governo como adversários. Da mesma forma, nem o vidente louco iria projetar que seriam esses militares – com a sombra que certamente trariam da memória desses tempos de ditadura – as figuras mais sensatas e moderadas desse futuro governo.

Na terça-feira (8), Bolsonaro almoçou com a cúpula militar, e, de acordo com as informações que saíram depois do encontro, combinou-se jogar água fria na fervura para acabar com a brigalhada. Mas, nas redes sociais, militares já combinavam chamar os ataques do dublê de filósofo e astrólogo Olavo de Carvalho de “favelagem”. É óbvio que a troca de chumbo não vai parar. Mais do que isso, por mais que publicamente Jair Bolsonaro faça apelos em nome da trégua ou tente minimizar a potência dos ataques, a verdade é que a lógica de seu governo incentiva esse ambiente. Nunca é demais lembrar o que já dissemos: há método no golden shower.

Desde que a campanha de Jair Bolsonaro à Presidência ganhou musculatura, sua principal força motriz são as redes sociais. Como acontecera com Donald Trump nos Estados Unidos, Bolsonaro inaugurou no Brasil o momento em que o mundo virtual passou de fato a comandar a evolução política. E as redes sociais trouxeram para o ambiente político alguns novos aspectos que ainda não são compreendidos e precisam de maior análise. Um deles, porém, já ficou claro: o que impulsiona os movimentos nas redes sociais não é necessariamente a adesão da maioria da sociedade. Nas redes sociais, prevalecem os grupos mais aguerridos e organizados. Que não necessariamente representam a maioria, mas, sim, as parcelas mais radicais. Na disputa renhida e mal educada que se estabeleceu nos Facebooks da vida, os mais moderados – que, de fato, são a maioria – acabam saindo do debate. Boa parte nem entra na discussão. O restante para quando sobe o nível de agressão e quando a turma mais organizada entra em grupo para o ataque.

No caso de Bolsonaro, esse grupo mais radical garantiu-lhe a força inicial para se colocar como candidato competitivo. No total de brasileiros que o elegeram, essa turma representa em torno de 15%. À medida que Bolsonaro foi aparecendo para os demais como o antípoda do PT, outros grupos começaram a aderir a ele. Não por concordância com suas posições mais radicais. Mas porque enxergaram que ele é que ganhava mais força para derrotar o PT, que tais grupos já não mais queriam no comando do país. Esse grupo inicial mais radical de 15% parece bem próximo às ideias do filósofo de Richmond, Olavo de Carvalho. Aí estão os filhos 01,02 e 03 de Bolsonaro. E não estão os liberais ligados ao ministro da Economia, Paulo Guedes. Nem boa parte dos defensores da Operação Lava-Jato e do super-juiz e agora ministro da Justiça, Sérgio Moro. E, para surpresa de muitos, não está também a cúpula militar.

O que parece estar acontecendo é que, na estridência das redes sociais, os grupos que dominam o debate elegem como seus inimigos não seus opositores, mas os aliados que podem ameaçar a sua hegemonia no debate. A prudência e a moderação da cúpula militar ameaça o avanço das ideias mais radicais desses grupos. Que não enxergam o que, no caso, têm visto os militares: tais posições não têm apoio da maioria da sociedade, só têm amparo entre os radicais.

Em tempos autoritários, já se viu tal tipo de comportamento. Na União Soviética, o ditador Joseph Stálin não sossegou enquanto não prendeu e matou todos aqueles que estiveram ao lado de Lênin na revolução socialista, a começar por León Trotski. Quando radicalizou, Stálin começou a vê-los um por um como inimigos. Por aqui, o grupo mais radical jogou bombas em bancas de revista e tentou explodir o Riocentro para sabotar o processo de abertura política. O que as redes sociais parecem inaugurar é um tempo que proporciona aos radicais ferramentas para prosperar mesmo na democracia.

No fundo, isso não acontece somente no lado do governo. Durante a campanha, no lado do que virou oposição, o único movimento de sucesso foi o que desidratou as possibilidades de Ciro Gomes, no PDT, apresentar-se como alternativa de esquerda a Fernando Haddad, do PT, que entrou na disputa como desconfortável reserva de Luiz Inácio Lula da Silva, numa candidatura que obviamente, por essa natureza, iria perder a parada. Agora mesmo, boa parte do exército de esquerda nas redes sociais gasta mais tempo apontando contradições e atacando a deputado Tábata Amaral (PDT-SP) do que atacando o governo Bolsonaro, desde que ela começou a despontar.

Os tempos loucos das redes sociais dão, assim, sobrevida à polarização que marcou a campanha. E os dois lados dessa polarização seguem considerando ser mais importante manter essa radicalização acesa do que seguir à frente com o país. Por isso, elegem como inimigos os parceiros mais moderados. Seus inimigos dormem ao lado.

Política

Carluxo só sabe ser oposição


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Embora já tenha demonstrado diversas vezes que se trata de um fator de crise permanente, o presidente Jair Bolsonaro não vai “demitir”seu filho Carluxo do comando das suas redes sociais. Como escrevi antes por aqui, “há método no Golden Shower“. Carlos Bolsonaro é uma espécie de Grilo Falante ao contrário de Jair Bolsonaro. Se na fábula infantil o bichinho servia de consciência ao boneco de pau Pinóquio, cochichando no seu ouvido palavras de moderação, Carluxo berra radicalismo nas orelhas do pai presidente. Ele diz tudo o que o pai gostaria de dizer mas que, em função do cargo, não pode assumir.

O vídeo de Olavo de Carvalho criticando o vice-presidente Hamilton Mourão, o pivô da nova crise, não foi a primeira postagem a aparecer e depois ser retirada dos perfis de Jair Bolsonaro nas redes. Isso tem acontecido rotineiramente. Foi assim, por exemplo, no tal vídeo do ator que lia texto defendendo a ditadura militar. A postagem entra, provoca seus efeitos, depois sai como se fosse um engano. Mas os filhos de Bolsonaro – especialmente Carlos, e um pouco menos Eduardo. Flávio é o que menos entra nessa trama, embora tenha sugerido à turma do Hamas que se explodissem – seguem depois mantendo a tensão.

Fica claro que o papel de Carlos Bolsonaro é botar fogo no circo. Depois, o presidente sai de debaixo da lona a tempo e os dois ficam contemplando o incêndio. É uma experiência meio maluca, fruto desses novos tempos de comunicação via redes sociais que ainda desafia o entendimento dos analistas políticos. Nas redes sociais, a ideia de diálogo e concertação de ideias que sempre marcou as democracias é substituída por uma guerra. Ninguém quer convencer ninguém. Quer apenas derrotar os adversários, seguir em frente e deixar os corpos vencidos pelo caminho.

É um tipo de estratégia que funcionou muito bem para fazer Bolsonaro chegar com grande sucesso à Presidência da República. Da mesma forma como fizera com Donald Trump nos Estados Unidos. Nesse ambiente de guerra, permite a vitória não exatamente daqueles que tenham os exércitos maiores. Mas de quem tenha os exércitos mais organizados para a guerra virtual.

No caso de Bolsonaro, ele obteve assim os 15% mais radicais que são as tropas bolsonaristas mais fieis. Uma tropa que teve papel importantíssimo para dar ao presidente a musculatura inicial que o colocou de forma competitiva na campanha. Ao longo do tempo, para além disso, a candidatura foi se ampliando pela forma como colou como antípoda do petismo. Quando se consolidou na maioria do eleitorado o desejo de por fim à era do PT no poder, os demais eleitores além do bloco inicial consolidado de 15% de bolsonaristas aderiram ao projeto. E venceram a guerra.

O problema é que, vencida a guerra, é preciso construir tempos de paz. E é aí que o modelo de Carluxo não se encaixa. Ele não sabe viver em tempos de paz. Ao derrotar os inimigos da campanha, vai colecionando novos inimigos. Cola, então, no presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), que devia ser o avalista no Congresso das reformas estruturantes, a pecha de “velha política”. Enxerga em Gustavo Bebianno, que comandou o partido de Bolsonaro na campanha, o “vazador” de notícias para a velha imprensa. Enxerga nessa velha imprensa, cujos proprietários alinham-se inteiramente com a necessidade das reformas e com o pensamento liberal, “um bando de esquerdopatas comunistas”. E vê Hamilton Mourão como um inimigo que quer tomar do pai o poder. Escolhe Olavo de Carvalho como aliado, alguém que tem exatamente como especialidade tocar fogo nos circos. Nem no Brasil vive para não sofrer as consequências dos incêndios que provoca.

Parece mais do que evidente para qualquer grupo sensato que, vencida a guerra, Bolsonaro precisaria ampliar-se do seu grupo original de 15%. E os aliados óbvios seriam os grupos conservadores no Congresso – como o DEM de Rodrigo Maia -, os setores liberais da sociedade – do qual fazem parte os proprietários dos meios de comunicação -, e os militares – meio com o qual Bolsonaro, embora fora do Exército há mais de vinte anos, sempre procurou se identificar.

Não deixa de ser verdade o argumento, que parece definir o comportamento de Carlos e que Jair Bolsonaro endossa, de que esses grupos sempre pretenderam tutelar o atual governo. Especialmente os militares e os partidos conservadores tradicionais, como o DEM. Enxergam, sim, em Bolsonaro, uma janela de oportunidade. O presidente coloca seu filho Carluxo para resistir a isso a seu modo nas redes sociais. Provocando, porém, um estado de crise desnecessária. Que transforma os tempos que deveriam ser de paz em novos tempos de guerra.

No entanto, não há qualquer sinal – a não ser de quem cultive alucinações paranoicas – de que tais grupos tenham a intenção de apear Bolsonaro do poder para assumir em seu lugar. Parece mais claro um desejo de ascender pegando carona no fenômeno para colher os frutos mais tarde, nas disputas eleitorais do futuro.

Se Mourão preparou-se para, como vice, exercer um papel mais moderado do que o figurino que envergava antes como militar, palmas pra ele. Compreendeu como deve se comportar em tempos de paz. Talvez pudesse mesmo ser mais discreto. Mas isso deveria significar aceitar as excentricidades, para dizer o mínimo, de certas declarações e comportamentos do governo?

Se o Congresso e os partidos tradicionais mais conservadores querem colher frutos de uma aproximação com o governo, também não é algo que devesse surpreender. Mesmo que ninguém aconselhe Bolsonaro a ser fisiológico e aceitar o toma-lá-dá-cá, é natural que o DEM e outros partidos queiram exercer poder de influência que sirva como cacife para voos eleitorais mais tarde. E se o governo precisa desse apoio para aprovar seus projetos no Congresso, precisa saber aceitar isso. Mais adiante, com o sucesso dos projetos, que dispute o papel de protagonista. Quem quer aprovar emenda constitucional tem de estar preparado para fazer esse jogo.

Vencida a guerra, em tempos de paz, o vencedor precisa se ampliar sobre os derrotados. Não pode imaginar que eliminará da face da Terra todos os demais e reduzir o Brasil aos seus 15% mais fieis. É onde esbarra a estratégia de Carlos Bolsonaro. Carluxo não sabe ser governo. Só sabe ser oposição.

 

Política

O mundo Bolsonaro no Aranhaverso


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No fim de semana, uma deputada da base do governo Jair Bolsonaro manifestou-se nas redes sociais contra uma reportagem publicada na revista IstoÉ que criticava a falta de critérios técnicos para a ascensão de apadrinhados no novo governo, a começar por Antônio Hamilton Rossell Mourão, filho do vice-presidente Hamilton Mourão, que conseguiu triplicar seu salário no Banco do Brasil em pouco mais de uma semana de governo. “Está muito fofo ver a extrema imprensa chamar de moralmente questionável o que não pode chamar de ilegal, quando nunca questionou as ilegalidades escancaradas dos governos petistas”, escreveu ela. Fica omitido o nome da deputada porque a intenção aqui não é iniciar uma polêmica diretamente com ela. Mas não era preciso recorrer sequer ao histórico de reportagens publicadas pela revista para verificar a falta de sentido do comentário.

A capa da mesma edição estampa uma foto de Rosemary Noronha, que foi assessora do ex-presidente Lula. A reportagem fala das investigações de falcatruas em que Rosemary teria se metido, apuradas na Operação Porto Seguro. Fala que ela tem fugido da Justiça para não ser notificada e intimada. E ainda traz uma entrevista na qual sua irmã diz com todas as letras que ela foi amante de Lula. Independentemente do que se pense sobre o conteúdo específico das reportagens, se são boas ou ruins, corretas ou incorretas, fica um bocado difícil, diante disso, afirmar que a revista, ou a “extrema imprensa” no caso por ela representada, “nunca questionou as ilegalidades escancaradas dos governos petistas”. Questionou na mesma edição.

É possível encontrar nas redes sociais petistas diversos comentários com o mesmo grau de indignação e ódio contra a reportagem que fala de Rosemary. Que ignoram da mesma forma solene a outra reportagem criticada pela deputada, e outras. São casos opostos de um mesmo fenômeno. As bolhas do mundo virtual simplesmente descartam da realidade que constroem tudo aquilo que não lhes convém. Ali, vive-se num universo paralelo, onde o sentido do mundo real é subvertido para construir um outro sentido, que só ali tem lógica.

É meio como o desenho animado do Homem Aranha, que está em cartaz nos cinemas, “Homem Aranha e o Aranhaverso”. A animação brinca com o conceito de universos paralelos, que faz sucesso no mundo dos quadrinhos mas ainda não tinha dado as caras no cinema. Ali, herois de diversos mundos unem-se para combater juntos uma ameaça. Entre as diversas formas de super-heroi aparece até um certo Porco Aranha, um porquinho com cara de desenho do Looney Tunes. Em um mundo em que o heroi é um porco de desenho animado fantasiado de aranha pode fazer sentido uma revista que traz a suposta ex-amante de Lula ser a mesma que “nunca questionou as ilegalidades escancaradas dos governos petistas”. Onde um porco de colant fantasiado de aranha distribui sopapos nos bandidos, tudo é possível.

Com todo o respeito à deputada, o problema do seu comentário é o grau de relevância que vai ganhando no mundo real as conclusões e decisões que são tomadas a partir de convicções formadas nesse mundo paralelo. A partir de convicções formadas sob o ponto de vista distorcido das bolhas virtuais – que não enxergam contrapontos, que não admitem visões diferentes -, vai-se consolidando uma radicalização que, se agrada às bolhas, pode ter efeitos muito perversos no mundo real.

Que vantagem prática, por exemplo, vislumbra-se com a decisão de o Brasil ser um dos primeiros países do mundo a seguir os Estados Unidos na troca da embaixada de Israel de Telaviv para Jerusalém? Se tal decisão viesse após o incremento de fato de uma parceria com Israel, da qual o Brasil estivesse desfrutando, tal movimento poderia ser considerado mais natural. Mas feito de forma gratuita, sem nenhuma negociação de contrapartida, torna-se incerto nos seus benefícios bem mais que a possibilidade de seus prejuízos, como a ameaça de o país acabar virando cenário do terrorismo islâmico.

Na outra linha, que vantagem o PT pode a essa altura auferir ao prestigiar a posse de Nicolás Maduro na Venezuela ou ao defender Cesare Battisti no episódio da sua extradição para a Itália? O partido não percebe que tais atos só reforçam os argumentos contrários que levaram à vitória de Jair Bolsonaro? Não percebe que isso o leva a uma imagem de extremismo que ao longo da sua história nunca desejou de fato?

Ainda vamos ter que avaliar muito sobre o novo mundo que se constroi a partir da vida paralela virtual que se amplia sobre a vida real. Nesse sentido, vale a leitura de um estudo coordenado por Christopher Paul para a Rand Corporation, intitulado “Firehose or Falsehood” sobre o modelo de enxurrada de fake news desenvolvido na Rússia e que migrou para os Estados Unidos na eleição de Donald Trump e pode ter desembarcado por aqui na eleição de Bolsonaro. O texto pode ser facilmente encontrado na internet. De acordo com o artigo, as estratégias que se valem dessa “enxurrada de fake news” estabelecem um clima de “campanha eleitoral permanente”, em que a racionalidade e o equilíbrio são substituídos por um ambiente crônico de ataque aos fantasmas de sempre.

Cria-se, assim, um ambiente de disputa, no qual se aponta para inimigos à espreita prontos todo o tempo para sabotar projetos. Uma das características dessa situação é a quantidade. Diversas, inúmeras postagens martelando as ideias em caráter repetitivo. Múltiplas fontes. Se uma história não cola, cria-se outra imediatamente. Ou se refaz a primeira. O trabalho da Rand Corporation chega a aferir que determinada quantidade de influenciadores digitais consegue anular a palavra de um especialista. Por exemplo: a questão das vacinas. Uma quantidade de depoimentos de pessoas comuns dizendo que as vacinas fazem mal anula o depoimento de um Prêmio Nobel que afirme que elas fazem bem. Até porque se embala tudo numa argumentação de que há uma conspiração planetária em torno do tema. Assim, o especialista que defende as vacinas foi credenciado por instituições que fazem parte da mesma conspiração. Tal argumentação relativiza as suas credenciais.

Muito do que se vê hoje nas redes sociais é deliberado. Há empresas operando essa rede de informações falsas ou distorcidas. Que é retroalimentada pela convicção e fé dos grupos nas suas bolhas. Estimulada por uns, cresce pela crença dos outros. E vice-versa. No caso brasileiro, é necessária mais investigação para saber o que prevaleceu ou aconteceu. Se a deliberação intencional ou a distorção a partir de grupos que deixaram de enxergar o todo isolados que estavam – e estão – nas suas bolhas.

Voltando ao desenho animado do “Aranhaverso”, nesse rolo todo a imprensa parece identificar-se com o personagem do Homem Aranha cansado e fora de forma de um dos universos. Espancada pela crise e por um mundo onde a verdade e o bom senso andam fora de moda, a imprensa luta, com seus erros e limitações, para manter as suas convicções, que incluem o combate sempre a governos que desviam dinheiro público e facilitam exceções e privilégios. Seja de que lado estiverem.