Dilma Rousseff

Política

Notícias à Bolsolândia


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Foto: Reprodução/vídeo

Foi assustadora – não há outro termo possível – a total desconexão das declarações do presidente Jair Bolsonaro nos últimos dias do que a realidade mostrava não apenas no Brasil mas no planeta.

Enquanto as bolsas do mundo todo derretiam na segunda-feira, Bolsonaro pintava – com esmero e um óculos de sol verde-limão no rosto – os retângulos de um quadro de Romero Britto.

Aliás, Romero Britto, que também retratou em seus tempos Lula e Dilma Rousseff, é uma ótimo opção, com seus cachorrinhos, gatinhos e passarinhos coloridos, para pintar cenários descolados da realidade.

Na sequência da tarde de pintura, Bolsonaro disse que a disseminação do coronavírus era um “exagero da imprensa”, que a queda histórica das Bolsas de Valores no mundo era uma coisa episódica. Repetia uma dessas tolices da internet, ao dizer que a dengue mata muito mais do que o coronavírus.

Um dia depois, a Organização Mundial de Saúde decretava ser a disseminação do coronavírus uma pandemia. As bolsas voltaram a cair ontem no mundo inteiro. Houve novos casos de circuit breaker, mais de uma interrupção das atividades num único dia. O dólar ultrapassou no Brasil a perigosa casa dos R$ 5.  O ídolo de Bolsonaro, Donald Trump, anunciou drásticas medidas para tentar conter o avanço do vírus nos Estados Unidos. País do qual Bolsonaro voltou com integrantes da sua comitiva, como o secretário de Comunicação, Fabio Wajngarten, infectado. Ao final da semana, estava o presidente fazendo um pronunciamento usando máscara cirúrgica, em isolamento, seguindo a orientação do seu ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta.  Não era uma besteira, presidente.

Fora da Bolsolândia, esse mundo virtual que o presidente parece ter escolhido para si e para seus seguidores mais fieis, o mundo passa por um momento de grande perigo. O Brasil, por maior que seja o esforço contrário de Bolsonaro, não está desconectado do mundo. E seu governante deveria estar bem mais preocupado com isso.

Ao contrário da tolice repetida na internet, o problema do coronavírus não é se ele mata mais ou menos que a dengue ou outras doenças. O problema do coronavírus é que ele é conhecido há somente alguns meses e já infectou centenas de milhares de pessoas no planeta. O problema é, portanto, essa impressionante velocidade de disseminação.

Ele não é grave entre os mais jovens. Para eles, é letal em apenas 0,2% dos casos. Mas é muito grave entre os idosos, em torno de 18%. Um estudo publicado na edição de ontem do Jornal de Brasília mostra que, tomando-se por base o que aconteceu na China, em 15 dias poderá haver cerca de quatro mil pessoas infectadas no Brasil. Algumas centenas dessas pessoas serão idosos. Se esses idosos precisarem de leitos de UTI, que não existem nessa quantidade, temos aí um gravíssimo problema de saúde pública.

O que impressiona hoje é que a Bolsolândia não agrega sequer alguns dos próprios integrantes do governo. Ciente do tamanho do problema, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, montou um gabinete de crise há algumas semanas e vem fazendo um irrepreensível trabalho de monitoramento da situação.

O ministro da Economia, Paulo Guedes, demora a reagir, mas também parece ter sentido o tamanho da encrenca. O problema de saúde pública traz consigo um gravíssimo problema econômico. Os Estados Unidos proibiram na quarta-feira (11) voos para a Europa. Medidas restritivas como essas tomadas pelas economias do mundo certamente farão circular menos dinheiro. É o espectro ameaçador da crise em proporções mundiais.

A solução até então posta, de acelerar as reformas, deixa de ser solução nesse cenário. Não adianta somente criar um quadro que seja mais atraente para novos investimentos se o mundo, e com ele seus investidores, entrarem num momento de retração. Não haverá investimentos.

É aí que entra a face mais perigosa da desconexão de Bolsonaro. A negligência de uma autoridade no seu posto traz o risco de novas negligências e desconexões. Então, se Bolsonaro cria sua Bolsolândia, o Congresso, na esteira, cria a sua Congressolândia. E, num momento como esse, resolve aumentar em R$ 20 bilhões as despesas do governo com gastos sociais, derrubando um veto presidencial e ampliando os gastos com o Benefício de Prestação Continuada (BPC).

O problema disso tudo é que não há para nós a opção de nos abrigarmos na Bolsolândia. Nem na Congressolândia. Tudo o que não precisamos agora é de um presidente ou de parlamentares desconectados da realidade, repetindo frases lacradoras para seus seguidores nas redes sociais. Nem Romero Brito nem máscaras cirúrgicas sem necessidade. O que precisamos é de seriedade neste momento.

Política

Damares, Norte e Nordeste


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Foto: Fabio Pozzebom/Agência Brasil-EBC

Não resta a menor dúvida de que a ministra dos Direitos Humanos, Damares Alves, é polêmica. Mas não resta a menor dúvida também de que ela é o que o presidente Jair Bolsonaro chama de “terrivelmente evangélica”. Está totalmente identificada com o discurso conservador, especialmente nos costumes, que hoje ocupa o poder no país. E Damares é também a responsável por atacar os graves problemas sociais que ainda estão bem longe de resolvidos no Brasil. A combinação desses dois fatores faz com que, hoje, Damares esteja escalada pelos estrategistas políticos do governo para um importante papel: ser a cabeça de ponte a estourar o dique de votos e popularidade que o principal adversário do bolsonarismo, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seu PT, mantém nas regiões Norte e Nordeste. Não estranhe a linguagem militar, pois é esse o jargão usado principalmente pelos estrategistas do governo.

O raciocínio em torno de Damares vem da própria evolução de como Lula conquistou o seu cacife na parte norte do país. Na sua primeira eleição, em 2002, a maior parte dos votos do ex-presidente petista viera das regiões Sul e Sudeste. Foi somente na sequência do seu governo, na sua reeleição e nas duas eleições de Dilma Rousseff, que o cenário se inverteu e a principal reserva de votos petistas passou a vir do Norte e do Nordeste. Para os estrategistas do governo, isso não foi exatamente o resultado de uma guinada político-ideológica à esquerda vinda dos eleitores dessa região. Foi consequência da ampliação do Bolsa Família e do sucesso das políticas sociais dos governos do PT.

Resultado, portanto, da profunda carência social da população mais pobre dessas regiões. É claro que promover igualdade social está mais próximo do discurso da esquerda. Mas isso acontece na clássica visão mais econômica da divisão esquerda/direita. E o grande embate ideológico hoje no país está mais voltado à questão de costumes. Os conceitos que hoje a direita mais usa – como “ideologia de gênero” – estão mais voltados a uma ideia de que há uma indústria cultural de esquerda no mundo que quer minar os valores tradicionais ligados à família. E, nesse sentido, até Hollywood para boa parte dessas pessoas seria hoje de esquerda.

O grande paradoxo dessa história toda é que a maior parte da população diretamente beneficiada pelos programas sociais implementados pelo PT é conservadora nos costumes. Boa parte tornou-se, como Damares, “terrivelmente evangélica”. E, mesmo que não professe a mesma crença, não pensa de modo muito diferente. É aí que se une a conformação capaz de fazer da ministra dos Direitos Humanos a ferramenta para tentar minar o dique de Lula.

Desde o ano passado, Damares tem priorizado na sua agenda visitas ao Norte e ao Nordeste. Mais do que isso, começou a implantar laboratórios para ações mais efetivas na região. O mais avançado deles está sendo implementado na Ilha de Marajó, no Pará. A grande ilha fluvial tem um dos piores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) do país, ainda que possua a maior criação de búfalos do continente e tenha imenso potencial turístico. Há ali um sério problema que bate com as preocupações de Damares: uma incidência muito grande de casos de abuso sexual de crianças, especialmente dentro das famílias. Não é à toa a criação ali do mito do Boto, que tem muito a ver com isso.

O ministério de Damares está implementando ali um programa chamado Abrace o Marajó. Ela está liderando uma ação que envolve oito ministérios para levar investimentos e direitos sociais à ilha. Recursos do BNDES e da iniciativa privada – inclusive a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) – estão sendo movidos para construir um grande resort e levar turismo à região. O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas (Inep) doou um barco batizado de Navio dos Direitos, que viaja pelo rio dando orientações, fazendo documentos, cadastro para o Benefício de Prestação Continuada (BPC) e contendo uma Casa da Mulher Brasileira fluvial.

A partir dos resultados obtidos na Ilha de Marajó, a ideia é fazer outros laboratórios semelhantes em cidades do Norte e Nordeste, como Fortaleza e Aracaju e municípios menores.

Damares está em contato com candidatos a prefeito que tenham identificação com seus projetos para ajudá-los nas eleições municipais e trazê-los para o projeto de reeleição de Jair Bolsonaro em 2022. Ainda que o presidente esteja hoje sem partido, pensa-se que esse pode ser um caminho para pavimentar a tentativa de segundo mandato.

Se a ministra for capaz de unir uma efetiva ação social a um discurso mais conservador que, na verdade, hoje parece mais próximo da forma de pensar de quem precisa dessa ação, avalia o governo que poderá trazer grandes danos ao dique de Lula no Norte e no Nordeste.

Política

Além da nossa vertigem


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É difícil a essa altura saber exatamente que chances o documentário Democracia em Vertigem terá de sair da cerimônia do dia 24 de fevereiro em Los Angeles carregando a estatueta dourada e careca do Oscar. Importante agora é avaliar por que razão a Academia incluiu o filme entre os concorrentes. E certamente, apesar de nossas paixões interiores, isso nada tem a ver com a nossa guerra particular de torcidas.

Meio ingênuo ou muita pretensão da nossa parte imaginar que os intelectuais da Academia de Hollywood resolveram tomar partido na nossa guerrinha político-partidária-ideológica tupiniquim. Eles seguem desde sempre nos considerando somente mais uma republiqueta latino-americana, exótica e distante.

No caso, o que importa, e foi o motivo da escolha, é como o episódio particular brasileiro ali contado repercute em algo que ganha preocupação planetária. Que conversa com os Estados Unidos de Donald Trump e fenômenos que se replicam em diversos outros países do mundo: a agonia das democracias. Ou, pelo, menos, o forte questionamento dos modelos de democracia representativa a que nos acostumamos.

O tema está em um livro recente, “Como morrem as democracias”, de autoria de dois pesquisadores da Universidade de Harvard, Steven Levitsky e Daniel Ziblatt. E aí a famosa universidade da cidade de Cambridge, no estado de Massachussets, está mais próxima dos interesses e leituras dos intelectuais da Academia de Artes e Ciências de Hollywood que os nossos líderes e disputas locais.

O livro de Levitsky e Ziblatt mostra como as democracias podem se esgarçar a partir das suas próprias características particulares. Como a utilização de ferramentas e elementos político-institucionais dessas próprias democracias, aliada à formação de uma base popular disposta a isso, podem vir a trabalhar para demoli-las.

Em momentos de ambiente extremamente polarizado, excessivamente radicalizado, que ignora o centro e a construção de consensos, essa associação aparece. E aí a democracia não necessariamente corre riscos pela produção de um golpe armado, de tropas nas ruas depondo presidentes e outros líderes. Ou a partir de grandes revoluções. Ela se mina de dentro para fora.

São decisões de parlamentos ou mudanças constitucionais que multiplicam a possibilidade de mandatos sucessivos, perpetuando líderes e grupos, como acontece na Venezuela. São ondas de protesto e insatisfação que acabam sendo desvirtuadas e trabalhando contra o desejo inicial de quem protestava, como ocorreu em muitos dos países envolvidos na Primavera Árabe.

No fundo, essa associação entre a utilização das próprias ferramentas de uma democracia fragilizada com o apoio popular em uma sociedade polarizada não é muito diferente da situação que explica a ascensão de Adolf Hitler na Alemanha no final da década de 1930. O Partido Nazista de Hitler chegou ao poder por via democrática após a crise econômica na Alemanha. E foi o próprio Parlamento alemão que autorizou, em 1934, a transmissão de funções legislativas para o poder Executivo. No caso, fortalecendo Hitler.

No caso dos nossos episódios particulares, narrados em Democracia em Vertigem, o que preocupa fora das nossas fronteiras não é exatamente a disputa doméstica entre bolsomínios e petralhas. É se essa disputa doméstica seria parte do avanço mundial de um modelo político que compromete a democracia. Se aqui as ferramentas utilizadas para a deposição de Dilma Rousseff foram ou não comprometidas por propósitos e intenções antidemocráticas. Ou seja: se é um exemplo que faz parte desse processo de esgarçamento da democracia de dentro para fora.

E, para nós, especificamente, fora do clima de guerra de torcidas, o filme pode nos ajudar a entender diversas coisas, pela riqueza de imagens de bastidores que há nele. Nossa particular guerra de narrativas também prejudica seu entendimento. É fundamental para o entendimento do contexto, por exemplo, as falas de Gilberto Carvalho admitindo como o PT foi se afastando de suas bases populares e se inserindo cada vez mais com gosto no conchavo com seus aliados da política tradicional. Também importante o trecho em que Dilma tenta – com sua retórica por vezes confusa – explicar por que foi escolhida a sucessora de Lula. E conclui dizendo que “muitas vezes Lula trabalha com o fato consumado”. Ou seja: dando a entender que ela só foi a sucessora de Lula porque assim Lula quis.

Mas isso é importante para as nossas leituras. Os intelectuais da Academia estão longe dessa nossa vertigem. A vertigem deles é outra.

Política

Impressões a partir de Santiago


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Saímos do Chile às 6h da manhã da quarta-feira, 23 de outubro, com a certeza de que tão cedo as coisas não irão amenizar totalmente no país. E o mais de milhão de pessoas nas ruas alguns dias depois foi a demonstração veemente disso. As coisas já começavam a se espalhar além de Santiago e seus arredores. Na pacata cidade turística de Pucón, onde estávamos antes, e onde normalmente a rotina só é interrompida de vez em quando pelas erupções do vulcão Villa Rica, que assoma sobre a cidade, ou por um e outro tremor de terra, as passeatas se iniciavam. Como também em Temuco, onde está o aeroporto mais próximo de Pucón.

Até então, pareciam maiores ali as preocupações, entre os índios Mapuche, com a possível construção de hidrelétricas que os ameaçam de remoção das terras ancestrais que ocupam há milênios. Ou, entre a população local, de novas estradas asfaltadas que facilitem demais o acesso aos rios, lagos e vulcões que dão nome à região, ameaçando o controle de um tipo de turismo sustentável que respeita a natureza.

A ira que se iniciou no fim de semana em Santiago, porém, avança sobre a faixa estreita e comprida de terra, a tripa que forma o Chile na parte oeste do continente sul-americano. Ira que, após a linda manifestação de 1,2 milhões de pessoas nas ruas da capital, ganha ares de protesto mais pacífico – é inesquecível a cena do policial que dança com a manifestante que ganhou as redes sociais.

Porque, da mesma forma, pouco tem a ver com a causa inicial, o aumento de 30 pesos na passagem do metrô, algo em torno de R$ 0,20. Curioso que seja o mesmo valor do aumento das passagens de ônibus em São Paulo que marcaram o início das manifestações de protesto no governo Dilma Rousseff. Porque, no Chile agora como no Brasil de Dilma, os protestos não eram só pelos R$ 0,20. O que estourou foi um poço de insatisfação que vinha latente desde que o país optou pela implantação das medidas neoliberais que até então eram um modelo de sucesso a ser seguido por outros neoliberais do planeta – como nosso ministro da Economia, Paulo Guedes – e se tornam agora um vigoroso sinal de alerta.

Formávamos um grupo de quatro jornalistas que viemos ao Chile a convite da Latam no voo inaugural da linha direta que agora liga Brasília a Santiago três vezes por semana, às terças, quintas e sábados. O voo foi inaugurado na terça-feira, dia 15. Na programação conferida para o Press Tour, tivemos a sorte de deixar Santiago um dia antes do início dos protestos. Nada parecia indicar que a cidade estouraria, agora já com 18 mortos desde o princípio das manifestações. Em Pucón, o que chegava eram reflexos. Como o cancelamento e atraso de voos, que nos obrigou a ficar no Chile dois dias a mais que o previsto inicialmente.

No momento da nossa saída do país, ficava claro o pavor do presidente Sebastián Piñera na sua tentativa de acalmar a situação após a sua desastrada reação inicial. Quando os protestos estouraram, Piñera resolveu ser duro. Decretou Estado de Emergência. Colocou as tropas militares na rua para reprimir as manifestações. Decretou toques de recolher que variam de extensão conforme as coisas melhoram ou pioram em cada região. No desastre inicial, chegou a dizer que o país vivia uma situação de guerra. Não poderia ter dito nada pior. Afinal, ele tenta conter manifestações do próprio povo do Chile. Declarara, então, guerra aos próprios concidadãos que preside. As ruas fervem aos gritos de “Fuera Piñera!”

Visto que tal reação só fazia colocar na sua conta mortos que já vão a 19, Piñera procurou negociar. Anunciou na noite de terça-feira, um pacote de contrarreformas que começa a ameaçar colocar por terra o ideário neoliberal chileno que tanto encanta a outros economistas como Paulo Guedes. Melhora no valor de aposentadorias, redução do valor de contribuições pagas, foram coisas que ele anunciou em seu discurso. Que não arrefeceram a disposição da oposição, que agora sugere uma greve geral no país. Agora, Piñera sugere a renúncia coletiva de seus ministros em mais uma tentativa de solução conciliada.

O belo palácio que serve como sede do governo chileno foi em seu início a Casa da Moeda. É por isso batizado de Palacio de La Moneda. A política neoliberal adotada pelo Chile é como as moedas que ali já foram cunhadas: tem dois lados. Fez o país dar um grande salto de desenvolvimento. O Produto Interno Bruto (PIB) per capita chileno é 60% superior ao brasileiro. As projeções indicam um crescimento de 3% na economia do país, enquanto as previsões no Brasil ficam abaixo de 1%.

Em contrapartida, tal modelo aprofundou fortemente a desigualdade social. Uma desigualdade que as ruas de Santiago não mais conseguem esconder. Há dezenas de acampamentos de sem teto espalhados em praças da cidade. Muitos são migrantes haitianos e venezuelanos. Mas há ali chilenos também. Grandes favelas distribuem-se em diversos pontos da periferia da capital do Chile. É o resultado de toda uma rede de proteção social que desmoronou nos últimos anos.

O Chile gasta 25% menos que o Brasil na educação pública, por exemplo. O modelo de capitalização da previdência passa os seguros para a iniciativa privada, aumentando os gastos individuais e reduzindo benefícios. Tudo isso resultou num grande aumento da desigualdade social. O Chile hoje só perde para o Qatar e para o Brasil em termos de desigualdade entre o conjunto da população em comparação com o 1% mais rico.

A insatisfação latente com a situação estourou no fim de semana. E pode resultar em um conjunto de contrarreformas que, de alguma forma, retomem ao menos parte da rede de proteção social do país. Caso contrário, as ruas chilenas poderão pegar fogo novamente.

O que parece claro neste momento é a sensação de que o governo compreendeu os recados das ruas. Embora Piñera reclame das manifestações mais violentas, que levaram a saques e às mortes, cujos responsáveis o presidente chileno chamou de “delinquentes”, o chamado à negociação contrasta com a posição inicial do governo ao decretar o Estado de Emergência.

Para alguns analistas, ao decretar o Estado de Emergência e entregar a segurança aos militares, Piñera teria pretendido trazer de volta a sensação de terror dos tempos da ditadura militar de Augusto Pinochet para amedrontar os manifestantes. O problema: quem protestava não viveu tal tempo, não tinha memória dele e pagou para ver.

No caso dos voos domésticos e internacionais, a situação ainda está longe de se normalizar. No Aeroporto de Santiago, foram instaladas diversas camas de campanha onde dormem passageiros de voos cancelados. Somente da Latam, desde o início dos protestos, mais de 300 voos tiveram cancelamento. A situação já se normaliza, com cerca de 98% da operação retomada. Mas é preciso realocar passageiros que perderam suas conexões.

Chile 0473

Para esses passageiros, se deslocar para fora do aeroporto era até a quarta-feira, quando deixamos o Chile, tarefa complicada. Os hoteis mais próximos do aeroporto estavam lotados. E o toque de recolher então decretado entre 20h e 6h da manhã complicava ainda mais o deslocamento. Para chegar ao aeroporto, os bilhetes de passagem servem de salvo conduto. Para sair, porém, é preciso pegar um documento no posto dos Carabineiros justificando a necessidade do trânsito. Do contrário, sair é risco de prisão. Na terça-feira, muitas lojas do aeroporto ainda estavam fechadas porque os funcionários não conseguiram chegar para trabalhar. Na quarta, ainda havia lojas fechadas, mas a situação já estava mais perto do normal.

Ainda que as coisas tendam a se normalizar, o Chile é uma panela de pressão. Aparentemente, o governo chileno compreendeu isso e recua da tentação repressora inicial. Se, para os países vizinhos que ensaiam arroubos liberais semelhantes, a situação serve de alerta, que se preste, então, atenção também a isso. Piñera aprendeu em poucos dias que a cara feia dos carabineiros não era o melhor caminho para diminuir a pressão da sua panela.

Política

Ainda é a política, estúpido!


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Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

No auge da crise que acabou levando ao impeachment de Dilma Rousseff, ousei inverter em um artigo a famosa frase do marqueteiro de Bill Clinton, James Carville. Nas eleições de 1992, ele apontou que George Bush não era favorito, apesar da popularidade conquistado após ter vencido a Guerra do Golfo. “É a economia, estúpido!”, disse ele. Seu raciocínio era que a definição política de uma eleição dependia fundamental dos humores da população quanto aos aspectos econômicos: recessão, inflação, etc.

No período anterior à queda de Dilma, estava claro que acontecia o contrário. Por mais que se tentasse alguma coisa, a economia seguiria morro abaixo. Por causa da política. Ou seja, invertendo a máxima de Carville, no caso, era “a política, estúpido!”.

Na terça-feira, o dólar bateu a casa dos R$ 4. Os boletins do Banco Central e de outros analistas apontam para crescimento pífio, ou crescimento nenhum, do país este ano. Um comunicado interno da Receita Federal apontou que os cortes no orçamento previstos para este ano poderiam comprometer serviços como a emissão de CPF e a próprio restituição do imposto de renda. O governo enviou uma série de projetos ao Congresso de suplementação orçamentária que não caminham. Ou seja: estamos em crise.

E certamente não estamos em crise por conta dos pressupostos da equipe comandada pelo ministro da Economia, Paulo Guedes. O que Guedes propõe e procura fazer é o que consideram o caminho correto nove entre dez empresários e financistas do país e do lado capitalista do planeta. O governo aprovou com imensa facilidade na Câmara a reforma da Previdência e nada indica que venha a sofrer algum tipo de dificuldade agora no Senado. Nunca houve ambiente tão propício para a discussão e aprovação das chamadas reformas estruturantes no Congresso.

E, no entanto, o país segue empacado. E, se isso acontece, é prudente jogar a culpa na política. No tal “presidencialismo de colisão”, como cunhou com felicidade meu amigo Melillo Diniz, escolhido pelo presidente Jair Bolsonaro para substituir o criticado “presidencialismo de coalizão”, apontado por ele e por aqueles que o elegeram como  a chave do fisiologismo e da corrupção que prejudicam o país.

No caso de Dilma, ela colocou um ortodoxo no comando da economia, Joaquim Levy, e nada aconteceu. Certamente porque o ambiente de instabilidade e de incerteza política não aconselhava investimentos. Com seu temperamento forte e estabanado, Dilma não conseguia fazer os arranjos políticos para serenar o país. Isso somado ao fato de que o então presidente da Câmara, na prática no comando então do Congresso, não fazia a menor questão de ajudar nessa tentativa de serenar ânimos.

Agora, Bolsonaro pisa ao máximo no acelerador e joga às calendas qualquer tentativa de serenar os ânimos. Ao contrário, seu “presidencialismo de colisão”, elege inimigos todos os dias, afasta ex-aliados, entorna diariamente o caldo de qualquer entendimento. Não exatamente por ser estabanado. A tática tem método. Visa consolidar os apoios que já são mais sólidos. Fortalecer o “mito”, mantendo acesa a polarização radical do país.

Apesar de ter método, a estratégia é arriscada. É como apostar num incêndio imaginando ser possível controlá-lo. Ao enxergar tamanho cenário de instabilidade e incerteza, o investidor fica tentado a considerar se não é melhor esperar um pouco, manter o dinheiro fechado na carteira, dentro do bolso, enquanto o cenário não clareia.

Somam-se a isso guerras comerciais e posicionamentos internacionais que ganham um viés ideológico como nunca tiveram, nem mesmo no tempo da ditadura militar (quando as empreiteiras brasileiras, por exemplo, ganharam rios de dinheiro construindo hidrelétricas na União Soviética comunista). A Noruega tira seus recursos do Fundo Amazônia. A Alemanha ameaça boicotar produtos brasileiros. O Irã e outros países do Oriente Médio preocupam-se com o alinhamento aos Estados Unidos. Mesmo os agricultores brasileiros, que nunca se pautaram pelo ativismo ambiental, mostram-se preocupados com o exagero de certos posicionamentos, que fazem com que os produtos do país corram o risco de perder os chamados “selos verdes”, condicionamentos de compromisso ecológico que são cada vez mais frequentes em diversos países que importam do Brasil.

Peitar posicionamentos e mudanças de conceito muito fora do pensamento global pode dar mais certo em um país como os Estados Unidos na era Donald Trump, no qual Bolsonaro se espelha. Afinal, os Estados Unidos são a maior potência do mundo, com capacidade para serem autossuficientes. Podem bancar suas guerras. O emergente Brasil é dependente dos humores de seus parceiros. Geralmente, precisa de uma jamanta para subir a ladeira. E corre sempre o risco de rolar abaixo por um sopro ou um peteleco fora de hora. Se não conciliar política e economia, a política derruba a economia, estúpido!

Política

Ódio e ignorância


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Foto: Marcos Corrêa/PR

Nas últimas semanas, o presidente Jair Bolsonaro vem incrementando em velocidade perigosíssima a adição de dois ingredientes explosivos ao seu discurso. Esses ingredientes são o ódio e a ignorância.

Difícil saber a essa altura se a inclusão em doses cavalares desses dois temperos na sopa que vai ficando cada vez mais indigesta é fruto de estratégia ou da personalidade de Bolsonaro que aflora e que não mais ele consegue controlar.

Parece haver, sim, estratégia diversionista na profusão de frases absurdas que o presidente parece declamar sem maiores constrangimentos. Já havia no carnaval na história do “golden shower”. Houve em outros episódios, em clara combinação com outros personagens, como no caso da indicação de seu filho, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) para a embaixada dos Estados Unidos. O problema é quando o absurdo diversionista ultrapassa a produção de piadinhas sem graça e de mau gosto para ingressar no terreno das duas palavras escritas no primeiro parágrafo: ódio e ignorância.

Aí, não temos mais o Bolsonaro rindo de suas próprias piadas. Temos um presidente tenso, trincado, distribuindo à população que o apoia doses cavalares de raiva e de preconceito. A frase sobre o pai do presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Felipe Santa Cruz, não teve outro propósito senão machucar, agredir, abrir feridas e trazer de volta os traumas de uma criança de pouco mais de dois anos de idade que viu seu pai desaparecer depois de ser preso pela ditadura militar. Ao dizer saber o que acontecera com Fernando Santa Cruz, o pai do presidente da OAB, Bolsonaro agiu como agente da repressão capaz de acrescentar informações a uma família que no passado foi alijada do luto. Se concretamente, como demonstrou na sequência, não tem absolutamente nada de novo a acrescentar, só o que restou foi a crueldade. O golpe baixo contra o adversário.

Como tática, prossegue, assim, na disputa maniqueísta com seus inimigos de esquerda, mais notadamente no PT. Um tipo de disputa que o beneficiou nas eleições do ano passado. Bolsonaro imagina encontrar terreno fértil nesse jogo sem nuances. E tem alguns antagonistas que aceitam o jogo nesses termos. Por outro lado, vai levando seu discurso ao máximo extremo. Perde a cada dia o apoio dos elementos mais moderados que se puseram ao seu lado na eleição. Nesse sentido, talvez a agressão ao presidente da OAB possa ser mesmo um ponto de inflexão, dada a reação de nomes como o governador de São Paulo, João Dória, e o jurista Miguel Reale Jr., um dos autores do pedido de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff.

Mas o presidente que cultiva o ódio como estratégia repassa tal comportamento àqueles que o seguem e admiram. Cabe uma reflexão sobre até que ponto tal opção não influi em certos comportamentos violentos que pareceram crescer nos últimos seis meses. O aumento expressivo do número de feminicídios. De violência contra a mulher. De intolerância religiosa que queima, por exemplo, templos umbandistas. Até mesmo de violência contra crianças. Pessoas que começam a se sentir autorizadas, pelo ambiente construído, a libertar seus demônios interiores.

O outro elemento explosivo e perigoso que se soma é a ignorância. Bolsonaro parece muitas vezes orientar suas decisões e ações a certas impressões particulares que, quando se chocam com as evidências científicas, recebem dele autorização para mandar as evidências às favas. Lembra um dos personagens apresentados no documentário “A Terra é Plana”, que promove experimentos para provar a sua tese de que o planeta não é redondo. Todos os experimentos falham, reforçando as evidências de que ele está errado, que não há nada plano na superfície terrena. Mas ele segue repetindo que a Terra não é redonda.

A briga de Bolsonaro com o diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Ricardo Magnus Osório, é o exemplo mais veemente. Diante das evidências demonstradas pelo instituto de aumento do desmatamento na Amazônia, o presidente manda às favas as evidências.

O problema é tomar decisões de governo baseadas em achismos que desprezam as evidências. Essa parece ser uma opção rumo a perigoso obscurantismo de certa forma inédita. Há uma tendência – novamente desprovida de evidência – de que a Academia é formada unicamente por um bloco de esquerda que conspira ali para impor sua linha de pensamento. É bem diferente da linha adotada por pensadores de direita no passado. Não consta que Roberto Campos, ao discorrer sobre suas convicções de que um estatismo exagerado levaria o Brasil à bancarrota, mandasse às favas as evidências e as teorias que aprendera nos seus estudos acadêmicos. Ele, que era economista, diplomata, professor, formado em Filosofia e Teologia, pós-graduado em Economia pela Universidade de Colúmbia.

Governar desprezando as evidências é como optar por acelerar um automóvel na direção de um muro. Governar com ódio é ir acrescentando tijolos ao muro enquanto se acelera em direção a ele. Não acreditar na existência do muro não fará o muro desaparecer. E aumentar o tamanho do muro só torna ainda maior o risco grave de colisão.

Política

Datafolha é Maracanã em dia de FlaXFlu


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Foto: Clauber Cleber Caetano/Agência Brasil-EBC

Quando o presidente Jair Bolsonaro adentrou o gramado do Maracanã para premiar os jogadores da Seleção Brasileira campeã da Copa América, metade do estádio o vaiou e outra metade o aplaudiu. Na fila para receber as medalhas, parte dos jogadores e o técnico da Seleção, Tite, demonstraram claro incômodo na proximidade com o presidente. Outros, porém, ficaram claramente orgulhosos, felizes, por estarem com Bolsonaro.

Um dia depois, o Instituto Datafolha espelhou em números precisos a sensação do domingo. O Brasil, assim como aconteceu com a torcida e com a delegação da Seleção Brasileira, divide-se exatamente entre os que amam Bolsonaro e os que odeiam. E outra parcela também do mesmo tamanho fica no meio entre as duas pontas, indiferente ou pelo menos distante dessas paixões exacerbadas. Quem andou nos últimos anos ouvindo as redes sociais falarem de “coxinhas”, “mortadelas” e “isentões”, é isso mesmo, levado à potência extrema.

Segundo o Datafolha, um terço dos brasileiros ama Bolsonaro. E certamente esse primeiro terço saiu daqueles que ao longo dos últimos anos foi classificado nas redes sociais como “coxinhas”. São o créme de la créme dos coxinhas. Outro terço odeia Bolsonaro. E sem dúvida essa parcela vem daqueles que as redes sociais andaram chamando de “mortadelas”. São a essência da mortadelice. E quem fica no meio é ainda aquela turma tida como “isentões”. Aqueles aos quais ou a política não apaixona tanto ou aqueles que entendem que não há assim tantos mocinhos e bandidos no mundo.

Ainda que a pesquisa Datafolha não tenha mostrado números muito diferentes da rodada anterior, ela impressiona por apresentar um país tão exatamente dividido entre as torcidas desse já bastante incômodo FlaXFlu político. É incrível que 33%  considere o governo ótimo ou bom e outros exatos 33% considerem o governo ruim ou péssimo. E que haja 31% que o considere regular. Ou seja: um país dividido em três partes exatamente iguais, uma vez que o percentual de 31% que fica no meio se iguala aos demais na margem de erro da pesquisa.

Para quem deseja um país menos convulsionado para que tenha a necessária tranquilidade para avançar, essa certamente não é uma boa notícia. A famosa cena do gramado da Esplanada na votação do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, que virou o cartaz do filme “Democracia em Vertigem”, continua dolorosamente atual. Somos aquele gramado dividido por um feio muro improvisado de metal verde, um terço de um lado, outro terço do outro. E outro terço em casa. De cada lado do muro, vamos ruminando nossos ódios para soltá-lo para o outro lado, como massa verde, ácida e gosmenta.

O quadro anima radicalismos. A Bolsonaro, demonstra que sua melhor estratégia é manter-se polarizado contra Lula e o PT. A Lula e ao PT, mostra que a melhor estatégia é igualmente radicalizar posições e polarizar-se contra Bolsonaro. E a outra parte isola-se, seja porque sempre se omite, seja porque não enxerga solução nos extremos, seja porque não encontra alternativa a esses extremos.

Talvez isso deságue nos próximos dias na votação da reforma da Previdência. Em vez da busca de consensos necessária na democracia, uma guerra entre extremos. O governo querendo atropelar uma reforma sem maiores discussões. A oposição tentando derrotá-la também sem apresentar soluções alternativas. Vitórias ou derrotas absolutas não é bem o jogo das democracias…