Democracia em Vertigem

Política

Sobre vertigens e fábricas


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Enquanto a esquerda brasileira via-se decepcionada com a não premiação de “Democracia em Vertigem” com o Oscar de Melhor Documentário, os vencedores da noite na categoria, Steven Bognar e Julia Reichert, diretores de “Fábrica Americana”, subiam ao palco pomposo do Dolby Theatre e recitavam lá de cima a frase inicial do “Manifesto Comunista”, de Karl Marx e Friederich Engels: “Trabalhadores do Mundo, uni-vos!”.

O curto momento ocorrido na cerimônia de premiação do cinema resumiu os dilemas da esquerda. Daqui, mas não necessariamente somente a nossa esquerda. Mas os dilemas da esquerda do mundo inteiro diante dos desafios impostos pela revolução informática e as novas relações de trabalho.

Os diretores de “Fábrica Americana” não pareciam usar o slogan do Manifesto Comunista como uma celebração. Parecia mais um alerta.

Marx e Engels escreveram o Manifesto Comunista em 1848. Ou seja: no meio das mudanças que ocorriam no mundo em consequência da Revolução Industrial. Nas fábricas que surgiam, pessoas eram então submetidas a jornadas de trabalho que chegavam muitas vezes a 18 horas de trabalho. Sem folgas nos fins de semana. Crianças eram colocadas para trabalhar em minas de carvão, porque, pequenas, conseguiam penetrar em cavernas estreitas por onde os adultos não passavam.

Se, efetivamente, a opção pelo comunismo foi se dar em uma Rússia mais agrícola e ainda longe dos avanços industriais, ao contrário do que imaginavam Marx e Engels, a incitação da sua frase inicial de fato uniu trabalhadores pelo mundo e permitiu que eles se organizassem para obter condições mais dignas de trabalho. E foi dessa organização que surgiram sindicatos e, mais tarde, legendas como o Partido dos Trabalhadores, o PT, maior sigla de esquerda do Brasil.

Já comentamos por aqui as razões que levaram à indicação de “Democracia em Vertigem”. Menos do que uma adesão a um posicionamento de um lado do nosso FlaXFlu político ideológico particular, o que atrai a atenção sobre o filme é o fato de ele ser um relato de um fenômeno que preocupa o planeta: o ocaso das democracias representativas a partir da utilização de ferramentas da própria democracia. Em diversos lugares, percebe-se a utilização do apoio das maiorias para minar as democracias por dentro. Inclusive, para alguns, nos próprios Estados Unidos da era Donald Trump, e a pantomima do fracasso do seu processo de impeachment pode ter sido, muitos temem, um exemplo disso.

Mas, para além de toda a discussão sobre se a narrativa feita por Petra Costa é ou não fidedigna quanto ao que tenha ocorrido no Brasil, seu filme é um farol na popa. Aponta para trás. Enquanto “Fábrica Americana” aponta para a frente.

O documentário que ganhou o Oscar fala de uma realidade perturbadora: o esgarçamento profundo das relações de trabalho nestes novos tempos. Como aconteceu no século 19, a atual revolução trouxe novos modelos de relações que as regras antigas não previam. E vem daí o alerta feito pelos diretores a partir da frase do “Manifesto Comunista”. Ou os trabalhadores novamente se unem para compreender esses novos tempos e saber como lidar com eles ou serão atropelados pela História.

E é esse o dilema hoje do PT e da esquerda de um modo geral. Nosso principal partido de esquerda – e também os outros – não tem qualquer proposta para lidar com os desafios dessa nova revolução. Não sabem o que fazer diante de fenômenos que afastam as relações de trabalho do cenário ao qual se acostumaram e cresceram. Cada vez menos há portas de fábrica. Cartões de ponto. Jornadas estabelecidas. Carteira de trabalho.

Há o mundo do home office. Da pejotização. Dos motoristas de aplicativo. Das empresas que entregam comida. Do sujeito na Índia que se associa a outro no Canadá para juntos desenvolverem um aplicativo para uma empresa que está instalada no Japão.

Enquanto a cerimônia do Oscar acontecia, “Democracia em Vertigem” perdia e “Fábrica Americana” vencia, o PT fazia 40 anos. E, num contundente e amargo artigo, o ex-presidente do partido e ex-ministro da Justiça Tarso Genro dizia por que ele resolvera não ir à festa. No artigo, publicado no site UOL, Tarso avalia, com todas as letras, que “o PT ficou obsoleto”. “Não adianta, por exemplo, o PT prometer se renovar e pregar a restauração da CLT. Os processos de trabalho foram fragmentados e hoje temos autônomos, horistas, PJs, precários, intermitentes… Trata-se, neste caso, de organizar um outro sistema público protetivo que envolva estes excluídos das legislações trabalhistas, que irão aumentar”, escreve Tarso.

Ele conclui: “Acho que o PT não acompanhou essas mudanças”. Na verdade, aparentemente, nem o PT nem a grande maioria dos partidos de esquerda. Foi esse o alerta feito na cerimônia do Oscar. Um alerta que ajuda a explicar muita coisa…

Política

Além da nossa vertigem


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É difícil a essa altura saber exatamente que chances o documentário Democracia em Vertigem terá de sair da cerimônia do dia 24 de fevereiro em Los Angeles carregando a estatueta dourada e careca do Oscar. Importante agora é avaliar por que razão a Academia incluiu o filme entre os concorrentes. E certamente, apesar de nossas paixões interiores, isso nada tem a ver com a nossa guerra particular de torcidas.

Meio ingênuo ou muita pretensão da nossa parte imaginar que os intelectuais da Academia de Hollywood resolveram tomar partido na nossa guerrinha político-partidária-ideológica tupiniquim. Eles seguem desde sempre nos considerando somente mais uma republiqueta latino-americana, exótica e distante.

No caso, o que importa, e foi o motivo da escolha, é como o episódio particular brasileiro ali contado repercute em algo que ganha preocupação planetária. Que conversa com os Estados Unidos de Donald Trump e fenômenos que se replicam em diversos outros países do mundo: a agonia das democracias. Ou, pelo, menos, o forte questionamento dos modelos de democracia representativa a que nos acostumamos.

O tema está em um livro recente, “Como morrem as democracias”, de autoria de dois pesquisadores da Universidade de Harvard, Steven Levitsky e Daniel Ziblatt. E aí a famosa universidade da cidade de Cambridge, no estado de Massachussets, está mais próxima dos interesses e leituras dos intelectuais da Academia de Artes e Ciências de Hollywood que os nossos líderes e disputas locais.

O livro de Levitsky e Ziblatt mostra como as democracias podem se esgarçar a partir das suas próprias características particulares. Como a utilização de ferramentas e elementos político-institucionais dessas próprias democracias, aliada à formação de uma base popular disposta a isso, podem vir a trabalhar para demoli-las.

Em momentos de ambiente extremamente polarizado, excessivamente radicalizado, que ignora o centro e a construção de consensos, essa associação aparece. E aí a democracia não necessariamente corre riscos pela produção de um golpe armado, de tropas nas ruas depondo presidentes e outros líderes. Ou a partir de grandes revoluções. Ela se mina de dentro para fora.

São decisões de parlamentos ou mudanças constitucionais que multiplicam a possibilidade de mandatos sucessivos, perpetuando líderes e grupos, como acontece na Venezuela. São ondas de protesto e insatisfação que acabam sendo desvirtuadas e trabalhando contra o desejo inicial de quem protestava, como ocorreu em muitos dos países envolvidos na Primavera Árabe.

No fundo, essa associação entre a utilização das próprias ferramentas de uma democracia fragilizada com o apoio popular em uma sociedade polarizada não é muito diferente da situação que explica a ascensão de Adolf Hitler na Alemanha no final da década de 1930. O Partido Nazista de Hitler chegou ao poder por via democrática após a crise econômica na Alemanha. E foi o próprio Parlamento alemão que autorizou, em 1934, a transmissão de funções legislativas para o poder Executivo. No caso, fortalecendo Hitler.

No caso dos nossos episódios particulares, narrados em Democracia em Vertigem, o que preocupa fora das nossas fronteiras não é exatamente a disputa doméstica entre bolsomínios e petralhas. É se essa disputa doméstica seria parte do avanço mundial de um modelo político que compromete a democracia. Se aqui as ferramentas utilizadas para a deposição de Dilma Rousseff foram ou não comprometidas por propósitos e intenções antidemocráticas. Ou seja: se é um exemplo que faz parte desse processo de esgarçamento da democracia de dentro para fora.

E, para nós, especificamente, fora do clima de guerra de torcidas, o filme pode nos ajudar a entender diversas coisas, pela riqueza de imagens de bastidores que há nele. Nossa particular guerra de narrativas também prejudica seu entendimento. É fundamental para o entendimento do contexto, por exemplo, as falas de Gilberto Carvalho admitindo como o PT foi se afastando de suas bases populares e se inserindo cada vez mais com gosto no conchavo com seus aliados da política tradicional. Também importante o trecho em que Dilma tenta – com sua retórica por vezes confusa – explicar por que foi escolhida a sucessora de Lula. E conclui dizendo que “muitas vezes Lula trabalha com o fato consumado”. Ou seja: dando a entender que ela só foi a sucessora de Lula porque assim Lula quis.

Mas isso é importante para as nossas leituras. Os intelectuais da Academia estão longe dessa nossa vertigem. A vertigem deles é outra.

Política

Datafolha é Maracanã em dia de FlaXFlu


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Foto: Clauber Cleber Caetano/Agência Brasil-EBC

Quando o presidente Jair Bolsonaro adentrou o gramado do Maracanã para premiar os jogadores da Seleção Brasileira campeã da Copa América, metade do estádio o vaiou e outra metade o aplaudiu. Na fila para receber as medalhas, parte dos jogadores e o técnico da Seleção, Tite, demonstraram claro incômodo na proximidade com o presidente. Outros, porém, ficaram claramente orgulhosos, felizes, por estarem com Bolsonaro.

Um dia depois, o Instituto Datafolha espelhou em números precisos a sensação do domingo. O Brasil, assim como aconteceu com a torcida e com a delegação da Seleção Brasileira, divide-se exatamente entre os que amam Bolsonaro e os que odeiam. E outra parcela também do mesmo tamanho fica no meio entre as duas pontas, indiferente ou pelo menos distante dessas paixões exacerbadas. Quem andou nos últimos anos ouvindo as redes sociais falarem de “coxinhas”, “mortadelas” e “isentões”, é isso mesmo, levado à potência extrema.

Segundo o Datafolha, um terço dos brasileiros ama Bolsonaro. E certamente esse primeiro terço saiu daqueles que ao longo dos últimos anos foi classificado nas redes sociais como “coxinhas”. São o créme de la créme dos coxinhas. Outro terço odeia Bolsonaro. E sem dúvida essa parcela vem daqueles que as redes sociais andaram chamando de “mortadelas”. São a essência da mortadelice. E quem fica no meio é ainda aquela turma tida como “isentões”. Aqueles aos quais ou a política não apaixona tanto ou aqueles que entendem que não há assim tantos mocinhos e bandidos no mundo.

Ainda que a pesquisa Datafolha não tenha mostrado números muito diferentes da rodada anterior, ela impressiona por apresentar um país tão exatamente dividido entre as torcidas desse já bastante incômodo FlaXFlu político. É incrível que 33%  considere o governo ótimo ou bom e outros exatos 33% considerem o governo ruim ou péssimo. E que haja 31% que o considere regular. Ou seja: um país dividido em três partes exatamente iguais, uma vez que o percentual de 31% que fica no meio se iguala aos demais na margem de erro da pesquisa.

Para quem deseja um país menos convulsionado para que tenha a necessária tranquilidade para avançar, essa certamente não é uma boa notícia. A famosa cena do gramado da Esplanada na votação do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, que virou o cartaz do filme “Democracia em Vertigem”, continua dolorosamente atual. Somos aquele gramado dividido por um feio muro improvisado de metal verde, um terço de um lado, outro terço do outro. E outro terço em casa. De cada lado do muro, vamos ruminando nossos ódios para soltá-lo para o outro lado, como massa verde, ácida e gosmenta.

O quadro anima radicalismos. A Bolsonaro, demonstra que sua melhor estratégia é manter-se polarizado contra Lula e o PT. A Lula e ao PT, mostra que a melhor estatégia é igualmente radicalizar posições e polarizar-se contra Bolsonaro. E a outra parte isola-se, seja porque sempre se omite, seja porque não enxerga solução nos extremos, seja porque não encontra alternativa a esses extremos.

Talvez isso deságue nos próximos dias na votação da reforma da Previdência. Em vez da busca de consensos necessária na democracia, uma guerra entre extremos. O governo querendo atropelar uma reforma sem maiores discussões. A oposição tentando derrotá-la também sem apresentar soluções alternativas. Vitórias ou derrotas absolutas não é bem o jogo das democracias…