Ciro Gomes

Política

Saída pela direita?


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Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil – EBC

A pesquisa divulgada no primeiro dia do ano pelo Instituto Datafolha reforça impressões perigosas, que devem fazer acender um alerta na sociedade. Mas que também servem para apontar para qual rumo político deve continuar seguindo o país neste ano de 2020 e nos próximos.

De acordo com a pesquisa, diminuiu o apoio dos brasileiros à democracia. Felizmente, a maioria de nós continua considerando que a democracia é o melhor regime de governo. Ou, pelo menos, como dizia Winston Churchill, é o pior à exceção de todos os outros. Segundo o Datafolha, 62% dos brasileiros consideram que a democracia é sempre a melhor forma de governar. Em outubro de 2018, porém, quando foi feita a mesma pergunta, o apoio à democracia foi de 69%. Um outro dado que preocupa é que aumentou nove pontos percentuais a parcela daqueles que consideram que tanto faz se o governo seja democrático ou não: de 13% para 22%. Manteve-se o índice dos que disseram considerar que uma ditadura pode ser melhor que a democracia em certas circunstâncias: 12%.

Para além das chances de retorno de uma ditadura, que o maior percentual dos entrevistados considera uma possibilidade remota, os dados do Datafolha reforçam uma constatação: o Brasil endireitou. Não no sentido de que tenha deixado de ser torto. Mas no sentido de que guinou à direita.

Infelizmente, com as seguidas interrupções que tivemos ao longo da nossa vida na nossa democracia, não conseguimos amadurecer na nossa sociedade a aptidão democrática. Adquirimos um sentimento paternalista com relação aos nossos governantes. Esperamos que eles sejam uma espécie de redentores com a capacidade de resolver todos os nossos problemas com a força das suas canetas. Como nenhum deles, por melhor que seja, jamais terá tal capacidade, nos frustramos. E essa frustração nos leva a desprezar a democracia, imaginando que mais poder dará mais tinta à caneta. Depois, nos arrependemos. E seguimos assim nossa trágica sina.

Dificilmente, conservadores de países como os Estados Unidos, Inglaterra ou França diriam que tanto faz uma democracia ou uma ditadura. Os cidadãos de direita desses países, na sua ampla maioria, vão às urnas tentar eleger seus candidatos e perdem ou ganham, sabendo que ganhar ou perder faz parte do jogo. Mas, por aqui, infelizmente, o desapreço à democracia muitas vezes mistura-se com a tendência à direita.

De qualquer modo, o Datafolha mostra que tal percepção ainda é de uma minoria. O que importa é que o jogo segue democrático. Em um momento em que parece haver uma expressiva percepção mais à direita do jogo político. E é isso o que transparece nos primeiros movimentos do xadrez eleitoral nessas primeiras horas de 2020.

Talvez nunca tenha havido tamanha profusão de candidatos de perfil mais conservador ensaiando a entrada no jogo da sucessão presidencial. A começar pelo próprio Jair Bolsonaro, o mais de direita deles. Mas é pela mesma raia, com maior ou menor inclinação, que se ensaiam os governadores de São Paulo e do Rio, João Dória e Wilson Witzell. É por aí que vai o apresentador de TV Luciano Huck. Ou o ministro da Justiça, Sérgio Moro. Mesmo o movimento de valorização do centro político, que se esboça, tem inclinação mais à direita. Nada indica inclinações antidemocráticas no presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), mas, do ponto de vista econômico, ele é, sem dúvida, um conservador.

Enquanto isso, o campo da esquerda segue tendo sua alternativa concentrada em um Luiz Inácio Lula da Silva que, como em 2018, continua impedido de disputar a eleição, barrado que está pela Lei da Ficha Limpa. Parece cada vez mais improvável que ele consiga reverter as condenações contra ele. Então, candidato não será. Para onde, então, se reverterão os votos que não serão para ele? Terá Lula agora maior capacidade de transferir seus votos para outro candidato, talvez o mesmo Fernando Haddad, do que teve em 2018? Ou o provável recrudescimento da opção mais à direita do eleitorado enfraquecerá mais ainda a opção?

Além disso, outras opções de esquerda, como Ciro Gomes, do PDT, parecem pelo menos neste primeiro momento enfraquecidas. O partido de Ciro não tem nomes visíveis fortes para a disputa municipal deste ano, como forma de ir pavimentando seu caminho.

Pelo campo da direita, há ainda um último fator importante. Se Bolsonaro não for capaz de colocar em campo no pleito municipal seu novo partido, o Aliança, assanha ainda mais as pretensões dos demais nomes à direita no sentido de ocuparem esse vácuo. Ao que tudo indica, o jogo de outubro será mais intenso pelo lado direito…

Política

Em tempos radicais, os inimigos dormem ao lado


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Antes da posse de Jair Bolsonaro, nem o vidente mais insano seria capaz de prever que o capitão reformado que passou toda a sua vida política a defender a ditadura militar viria a, depois de eleito, eleger justamente os militares de seu governo como adversários. Da mesma forma, nem o vidente louco iria projetar que seriam esses militares – com a sombra que certamente trariam da memória desses tempos de ditadura – as figuras mais sensatas e moderadas desse futuro governo.

Na terça-feira (8), Bolsonaro almoçou com a cúpula militar, e, de acordo com as informações que saíram depois do encontro, combinou-se jogar água fria na fervura para acabar com a brigalhada. Mas, nas redes sociais, militares já combinavam chamar os ataques do dublê de filósofo e astrólogo Olavo de Carvalho de “favelagem”. É óbvio que a troca de chumbo não vai parar. Mais do que isso, por mais que publicamente Jair Bolsonaro faça apelos em nome da trégua ou tente minimizar a potência dos ataques, a verdade é que a lógica de seu governo incentiva esse ambiente. Nunca é demais lembrar o que já dissemos: há método no golden shower.

Desde que a campanha de Jair Bolsonaro à Presidência ganhou musculatura, sua principal força motriz são as redes sociais. Como acontecera com Donald Trump nos Estados Unidos, Bolsonaro inaugurou no Brasil o momento em que o mundo virtual passou de fato a comandar a evolução política. E as redes sociais trouxeram para o ambiente político alguns novos aspectos que ainda não são compreendidos e precisam de maior análise. Um deles, porém, já ficou claro: o que impulsiona os movimentos nas redes sociais não é necessariamente a adesão da maioria da sociedade. Nas redes sociais, prevalecem os grupos mais aguerridos e organizados. Que não necessariamente representam a maioria, mas, sim, as parcelas mais radicais. Na disputa renhida e mal educada que se estabeleceu nos Facebooks da vida, os mais moderados – que, de fato, são a maioria – acabam saindo do debate. Boa parte nem entra na discussão. O restante para quando sobe o nível de agressão e quando a turma mais organizada entra em grupo para o ataque.

No caso de Bolsonaro, esse grupo mais radical garantiu-lhe a força inicial para se colocar como candidato competitivo. No total de brasileiros que o elegeram, essa turma representa em torno de 15%. À medida que Bolsonaro foi aparecendo para os demais como o antípoda do PT, outros grupos começaram a aderir a ele. Não por concordância com suas posições mais radicais. Mas porque enxergaram que ele é que ganhava mais força para derrotar o PT, que tais grupos já não mais queriam no comando do país. Esse grupo inicial mais radical de 15% parece bem próximo às ideias do filósofo de Richmond, Olavo de Carvalho. Aí estão os filhos 01,02 e 03 de Bolsonaro. E não estão os liberais ligados ao ministro da Economia, Paulo Guedes. Nem boa parte dos defensores da Operação Lava-Jato e do super-juiz e agora ministro da Justiça, Sérgio Moro. E, para surpresa de muitos, não está também a cúpula militar.

O que parece estar acontecendo é que, na estridência das redes sociais, os grupos que dominam o debate elegem como seus inimigos não seus opositores, mas os aliados que podem ameaçar a sua hegemonia no debate. A prudência e a moderação da cúpula militar ameaça o avanço das ideias mais radicais desses grupos. Que não enxergam o que, no caso, têm visto os militares: tais posições não têm apoio da maioria da sociedade, só têm amparo entre os radicais.

Em tempos autoritários, já se viu tal tipo de comportamento. Na União Soviética, o ditador Joseph Stálin não sossegou enquanto não prendeu e matou todos aqueles que estiveram ao lado de Lênin na revolução socialista, a começar por León Trotski. Quando radicalizou, Stálin começou a vê-los um por um como inimigos. Por aqui, o grupo mais radical jogou bombas em bancas de revista e tentou explodir o Riocentro para sabotar o processo de abertura política. O que as redes sociais parecem inaugurar é um tempo que proporciona aos radicais ferramentas para prosperar mesmo na democracia.

No fundo, isso não acontece somente no lado do governo. Durante a campanha, no lado do que virou oposição, o único movimento de sucesso foi o que desidratou as possibilidades de Ciro Gomes, no PDT, apresentar-se como alternativa de esquerda a Fernando Haddad, do PT, que entrou na disputa como desconfortável reserva de Luiz Inácio Lula da Silva, numa candidatura que obviamente, por essa natureza, iria perder a parada. Agora mesmo, boa parte do exército de esquerda nas redes sociais gasta mais tempo apontando contradições e atacando a deputado Tábata Amaral (PDT-SP) do que atacando o governo Bolsonaro, desde que ela começou a despontar.

Os tempos loucos das redes sociais dão, assim, sobrevida à polarização que marcou a campanha. E os dois lados dessa polarização seguem considerando ser mais importante manter essa radicalização acesa do que seguir à frente com o país. Por isso, elegem como inimigos os parceiros mais moderados. Seus inimigos dormem ao lado.

Política

Ensaio sobre a cegueira


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Foto: Valter Campanato/Agência Brasil – EBC

Paulo Delgado foi um dos primeiros deputados a ganhar destaque no PT. Um dos integrantes da bancada do partido na Constituinte, começou a se afastar ao final do primeiro governo Lula. Hoje, é um forte crítico de uma tendência da legenda do qual fez parte: uma certa cegueira crônica que faz o PT não enxergar os sinais das suas derrotas. Assim, o partido não aprende as lições que viriam desses resultados negativos. E não faz as autocríticas e revisões necessárias para seguir adiante. “Ao contrário, o PT tem mania de querer enxergar vitórias nas suas derrotas. É uma grave cegueira”, comenta ele.

Agora, o PT comemora o fato de ter eleito a maior bancada de deputados para a Câmara federal. E incensa Fernando Haddad como uma nova liderança surgida por seu desempenho na eleição que tornou Jair Bolsonaro o próximo presidente da República. Para a democracia brasileira, poderia ser um alento o PT ter eleito o maior número de deputados e obter sucesso em focos de resistência à onda que elegeu Bolsonaro. O problema é querer vender isso como uma vitória.

O PT entrou na disputa certo que a venceria. Mais do que isso: imaginava que ela serviria como julgamento político da sua era no poder. No cálculo petista, o que se daria era um plebiscito. Com a vitória, a sociedade daria ao ex-presidente Lula e a outros condenados e investigados petistas uma certa absolvição política, que arrefeceria a força das condenações na Justiça.

O PT perdeu as eleições presidenciais para Jair Bolsonaro. Especialmente porque se cristalizou no país uma fortíssima onda antipetista. Essa onda levou a maioria do eleitorado a escolher como presidente um radical de extrema direita, que se colocou como oposto do que o PT representava. Ou seja: além de vencer, Bolsonaro colou no PT um rótulo de extrema-esquerda que também está longe de figurar a realidade. Nesse sentido, parece mesmo ser um sintoma de cegueira querer enxergar vitória nisso.

Na sequência das eleições, os demais partidos do campo da esquerda conversam para formar blocos na Câmara e no Senado sem o PT. Impressiona a disposição e a velocidade como tais blocos estãos sendo montados. Até o PCdoB, da vice de Fernando Haddad, Manuela D’Ávila, alia-se ao bloco. Uma reação ao estilo de estratégia hegemonista que o PT sempre pretendeu sobre os demais partidos do seu campo. Se os dois blocos se formarem – e até agora, nada indica que isso não aconteça. Pelo contrário, as negociações seguem bem avançadas –, serão as duas maiores bancadas tanto na Câmara quanto no Senado. Com incrível força definidora. Tanto que o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ) já conversa com eles para garantir apoio à sua reeleição.

Por que esses partidos desejam formar um bloco sem o PT era algo sobre o qual deveria o PT refletir. Por que seus parceiros de anos querem agora caminhar sem os petistas. Que situações, especialmente as ocorridas nestas últimas eleições, levaram a esses sentimentos.

Mas, pelo que se vê de reação de militantes nas redes sociais, a sinalização não ensinou nada ao PT. Os militantes reclamam de Ciro Gomes, o principal artífice da formação dos dois blocos. O chamam de traidor. Apostam que os blocos não vão durar muito. Tentam vender a imagem do movimento como sendo de submissão ao novo governo eleito.

Independentemente do que se pense ou deixe de pensar sobre Ciro, os dois blocos já estão praticamente formalizados. E caso sejam mesmo grandes e com capacidade de definição nas negociações no Congresso, não há sentido em se pensar que vão se desfazer logo. Até porque há diversos partidos ali, como a Rede e o PCdoB, que terá de avançar na conversa em torno do bloco para uma conversa de fusão com outros partidos, por uma questão de sobrevivência em consequência da cláusula de barreira. Não é, portanto, uma questão somente de afinidade. É uma questão de necessidade. Que o PT também evita querer enxergar.

Ou seja: em vez de tentar se aproximar dos demais partidos que farão oposição ao governo Bolsonaro, o PT isola-se deles. Fica, portanto, mais solitário. Insiste na manutenção do discurso que o levou à derrota. Esse ensaio de cegueira vai cobrar seu preço. O mundo segue para quem quiser enxergar…

Joaquim Levy

Como explicar Joaquim Levy na presidência do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES)? Um governo que se vendeu como a chave para mudar “tudo isso que está aí, ok?” coloca na sua principal agência de desenvolvimento aquele que, como ministro da Fazenda da ex-presidente Dilma Rousseff, é apontado como responsável pela crise econômica que se abateu sobre o país. Aquele que estava à frente da equipe econômica que produziu as pedaladas fiscais, que levaram ao impeachment de Dilma e ao início da crise que produziu Bolsonaro. Esse governo parece ter nascido como Chacrinha: para confundir, não para explicar…

 

Política

O PT encolheu-se no primeiro turno. O que fará no segundo?


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Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil – EBC

Na construção das eleições deste ano, desde sempre Jair Bolsonaro, do PSL, escolheu o PT como seu adversário. Ele não saberia e provavelmente não teria tido o mesmo resultado se sua disputa não fosse com alguém do partido da estrela. E, no caminho contrário, o PT também desde sempre escolheu Bolsonaro como seu adversário. Assustou-se ao final quando viu o tamanho do antipetismo, mas seu adversário predileto sempre foi Bolsonaro. Da mesma forma, dificilmente também venceria um segundo turno contra algum candidato mais moderado.

Na verdade, Bolsonaro é, em grande parte, fruto das escolhas feitas pelo PT desde que começou a ser enredado pelos escândalos de corrupção e começou a construir a narrativa de que era tudo mentira e de que não passava de vítima das elites. Até o mensalão, o PT estava de braços dados com as elites. As elites aceitavam com disposição a ideia de fazer com os petistas um governo de coalizão. Henrique Meirelles saíra do Banco de Boston e de uma eleição como deputado federal pelo PSDB para virar presidente do Banco Central de Lula. Giselle Bündchen doava valiosos diamantes de sua coleção para o programa Fome Zero. Jorge Gerdau, Benjamin Steinbruk, Marisa Serrano (das Lojas Marisa) e Paulo Skaf estavam no Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social.

Logo depois do mensalão, o PT esboçou fazer uma autocrítica e uma correção de rumos. Expulsou Delúbio Soares dos seus quadros. Tirou José Dirceu da Casa Civil. Sob a presidência de Tarso Genro, ensaiava expulsar outros e fazer o que Genro chamava de “refundação”. Lula chegou a pedir “desculpas” à Nação. Mas, contido o escândalo, o presidente começou a recuperar sua popularidade. Confiante, reintegrou Delúbio, trouxe Dirceu de volta ao centro. A balada foi se aprofundando após o petrolão.

É verdade que fragilidades e abusos da Justiça e dos investigadores ajudaram na escolha do PT. Dilma fazia um governo desastroso que mergulhava o país numa crise sem precedentes. Mas os motivos para o seu impeachment sempre foram difusos e frágeis. E o arranjo matreiro final que cassou o seu mandato mas manteve os seus direitos políticos só piorou as coisas. A condenação de Lula por conta da história do apartamento do Guarujá é igualmente fraca. Embora haja elementos mais fortes em outras histórias, como a do Sítio de Atibaia, que ainda não foi julgada.

O problema, porém, é que na campanha deste ano o PT muitas vezes pareceu mais preocupado em reconstruir a narrativa, especialmente a narrativa de Lula, do que efetivamente em ganhar as eleições. Partiu para uma campanha que em muitos momentos foi de afronta às instituições. Instigou sua militância a ir às ruas contra o Judiciário, contra o Congresso, contra o Ministério Público, contra a imprensa. Em vez de personalizar eventuais posições politizadas de alguns, preferiu generalizar. Era um complô das instituições.

Todas as pesquisas de opinião desde o ano passado já mostravam que Lula tinha grande potencial eleitoral, produto da sua popularidade e carisma, especialmente no Nordeste. Mas tinha também rejeição alta. A reeleição de Dilma já tinha mostrado um país dividido. Assim, desde sempre ser novamente candidato era opção de alto risco. Risco ainda mais alto pela opção de construir sua candidatura como uma reação à “perseguição” que o partido dizia sofrer. Era, portanto, uma opção construída com raiva.

As denúncias de corrupção contra ele indicaram também já desde o ano passado que era muito grande a possibilidade de Lula não poder ser candidato, porque acabaria condenado. Indicava-se com muita clareza a necessidade de construção de uma alternativa. Ciro Gomes, do PDT, colocou-se sempre de forma clara como desejoso de se tornar essa alternativa. O PT desdenhou-o. Mais do que isso, trabalhou depois para esvaziar suas chances eleitorais, fazendo um acordo com o PSB, que agora é difícil saber se para o PT realmente valeu a pena.

Esboçou logo Fernando Haddad como uma de suas alternativas internas. Mas levou a definição para os 45 minutos do segundo tempo. Estabeleceu claramente, portanto, que Haddad era um reserva de Lula. Alguém sem luz própria. Alguém que seguiria as orientações do mestre preso.

Adotou-se, assim, uma estratégia extrema. Que muitos militantes do PT entenderam como revanchista. Se vencessem, reconstruíram as narrativas, enquadrando Judiciário, imprensa, inocentando seus líderes considerados culpados, Lula acima de todos. Algo que Ciro Gomes classificou em mais de um momento como um “baile à beira do precipício”.

Cada passo dado a caminho dessa radicalização, fortalecia mais Bolsonaro como a sua antítese. O PT parecia esquecer-se de algumas lições do estudo que fizera André Singer antes da eleição de 2002, e que serviu de bíblia para a construção do perfil “Lulinha Paz e Amor”. Mostrava Singer que o povo brasileiro, em sua maioria, é conservador. Dizia, além disso, que esse povo “não gosta de bagunça”. O discurso do PT afrontava instituições. Bolsonaro, por seu lado, falava em “ordem” e “autoridade”. Seus eleitores falavam também em “intervenção militar”. Que é golpe. E golpe é bagunça. Mas, ante os olhos conservadores, é como se fosse uma bagunça organizada, feita por quem tem a autoridade das armas. Mais tarde, o discurso evoluiu para o que chamaram de “intervenção pelo voto”. Ou seja: uma guinada conservadora pela via democrática. O que é algo perfeitamente dentro das regras.

Além disso, o resultado das urnas ao final deste primeiro turno indica de forma clara que o PT pode até ter o apoio de parte da população para retornar ao poder. Mas não tem para reconstruir como gostaria a narrativa que o inocenta. Toda vez que os institutos de pesquisa perguntaram, a maioria dos entrevistados disse apoiar a Lava Jato e a prisão de Lula. E a derrota de Dilma Rousseff para o Senado em Minas demonstra pouca disposição de avalizar a solução matreira dada no seu impeachment e trazê-la de volta à cena.

Agora, para crescer no segundo turno, precisará o PT refazer toda a sua estratégia. Precisará mostrar que é Bolsonaro quem a vida inteira declarou e demonstrou apreço a governos e soluções antidemocráticas. Mas seu enrosco está no fato de também ter flertado com a afronta às instituições. Precisará mostrar que a vitória eleitoral está acima da eventual reconstrução da sua narrativa. Que essa vitória não inclui planos revanchistas que poderão pegar mesmo alguns daqueles que tenta agora conquistar no segundo turno. Que não quer “tomar o poder”, como disse José Dirceu, mas exercê-lo em nome da sociedade. Terá, enfim, usando a expressão de Ciro Gomes, encontrar outro lugar para o seu baile, que não seja a beira do precipício.

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Lula e a sua anticandidatura


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Foto: Rovena Rosa – Agência Brasil/EBC

A insistência de Lula na sua candidatura à Presidência da República – completamente impossível, do ponto de vista legal – parece ter alguma inspiração na anticandidatura de Ulysses Guimarães à Presidência, em 1974, em plena ditadura militar. As duas têm um tom de afronta, de protesto. Como Ulysses na ditadura, Lula parece querer, com sua insistência, dizer da mesma forma que a vontade popular não está expressa no pleito.Se as intenções parecem ser as mesmas, a realidade, porém, é muito diferente. Se Ulysses àquela altura sabia que as regras não permitiam de modo algum a vitória de alguém que fizesse oposição ao regime, o gesto agora de Lula pode ajudar a tirar o campo de esquerda de uma disputa eleitoral que, ao contrário da outra, se faz dentro das regras democráticas.

Em 1974, Ulysses valeu-se das regras da eleição indireta inventada pelo regime militar para escancarar que aquele era um jogo de cartas marcadas. Enquanto pessoas eram torturadas, mortas e desapareciam por confrontar o regime, os militares no poder declaravam à população que aquilo tudo se tratava de democracia. O ápice daquela caricatura de democracia era o Colégio Eleitoral, onde um corpo de pouco mais de uma centena de pessoas ia chancelar o nome que o alto comando militar já havia escolhido.

A democracia brasileira ainda pode ter muitos defeitos. E Lula até tem o direito de dizer que entre esses defeitos está o processo que o condenou e o conduziu à prisão na sede da Polícia Federal em Curitiba. E o PT pode repetir esse mantra à exaustão. Mas Lula e o PT não podem dizer que o atual sistema eleitoral brasileiro seja, como o de 1974, um jogo de cartas marcadas. A imprevisibilidade total da atual eleição é um exemplo contundente. Outro é o fato de tal sistema ter feito exatamente do PT o partido político que mais tempo exerceu o poder na história republicana brasileira. A não ser que o PT venha agora admitir que o establishment brasileiro permitiu a Lula se eleger e se reeleger e eleger e reeleger Dilma Rousseff, não há como dizer que a eleição brasileira seja um jogo de cartas marcadas.

Mas as eleições respeitam regras e impõem condições. Em 1974, Ulysses podia se candidatar, mas não podia se eleger. Ficava claro, então, que o jogo não era democrático. Agora, Lula não pode se candidatar. Porque sua candidatura não se enquadra nas regras de elegibilidade previstas em lei, aprovadas pelo Congresso. Lula foi condenado por um tribunal colegiado em segunda instância. Essa é uma condição de inelegibilidade prevista na Lei da Ficha Limpa. A Lei da Ficha Limpa foi democraticamente aprovada no Congresso, teve o declarado apoio à época do PT. Mais do que isso, seu relator na Câmara foi um deputado do PT, José Eduardo Cardozo (SP), depois ministro da Justiça de Dilma e seu advogado no processo de impeachment. E, para completar, foi sancionada pelo presidente da República à época. Que era ninguém menos que Luiz Inácio Lula da Silva, que agora, da prisão em Curitiba, a questiona.

Os movimentos do fim de semana lançam, assim, Lula, o PT, os demais partidos de esquerda e o país como um todo numa jogada de alto risco. O PT lançou Lula à Presidência mesmo sabendo que em outubro ele não será candidato. Sob os conselhos dados por Lula de Curitiba, trabalhou para anular ao máximo da lista de votação outras opções de esquerda. Não queria que, à luz dessa impossibilidade legal, os possíveis eleitores de Lula optassem por outro candidato. Assim, desvitaminou ao máximo a candidatura de Ciro Gomes, do PDT, trabalhando para que o PSB não o apoiasse e ficasse neutro. Parece ter negociado – embora isso não tenha sido anunciado na convenção, como se chegou a noticiar – que Manuela D’Ávila, do PCdoB, seja a sua candidata a vice-presidente, tirando-a também da disputa. Tenta colar a ideia de que Marina Silva, da Rede, deslocou-se ideologicamente para uma posição mais de centro.

Lula trabalha com pesquisas que mostram que quando se informa ao eleitor que o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad seria a sua escolha caso ele mesmo não possa concorrer, as intenções de voto em Haddad pulam de uma faixa de cerca de 3% para cerca de 11%. É nisso que ele e o PT se fiam, na sua capacidade de transferência de votos. Mas 11% talvez não seja suficiente para garantir Haddad no segundo turno, se os números que ele pode alcançar são esses mesmos.

Depois de seus dois mandatos como presidente, quando não pode se candidatar, Lula escolheu para seu lugar também uma desconhecida, Dilma Rousseff. Mas fez o oposto do que está fazendo agora. Dilma foi lançada como candidata mais de um ano antes das eleições. Como presidente, Lula criou uma intensa agenda de inaugurações e eventos, no qual apresentava Dilma ao povo como a “mãe do PAC”, o conjunto de obras do Programa de Aceleração do Crescimento. A população passou, então, a chamar Dilma não de “mãe do PAC”, mas de “a mulher do Lula”. E foi assim que ela venceu.

Desta vez, Lula está preso. Não poderá ele mesmo levar ninguém a lugar algum. Se a substituição fosse agora, seria já pouco mais de um mês para apresentar Haddad como seu substituto. Mas, ao contrário, Lula quer esticar ao máximo essa passagem de bastão. A não ser que Lula seja o maior gênio da política de todos os tempos e consiga reverter o que ele mesmo parecia achar lógico quando escolheu Dilma sua substituta. quanto mais tarde Haddad for apresentado como substituto mais difícil será apresentá-lo como a alternativa, pelo óbvio de que haverá menos tempo para essa tarefa.

Em vez da anticandidatura de Ulysses, Lula talvez devesse ter se mirado em outro momento e outro personagem do combate à ditadura: Tancredo Neves. Nos estertores da ditadura, quando percebeu que o regime se esfacelava, Tancredo lançou-se outra vez como candidato nas regras tortas de eleição da época. E trabalhou para vencer dentro daquelas regras, reconduzindo o país à democracia. Haddad ou outro nome poderiam ter sido já apresentados como o Tancredo a representar o PT dentro das regras da atual eleição. Pode-se questionar os argumentos da condenação de Lula. Mas não se pode questionar que ele está condenado, dentro das regras legais. Ao contrário de 1974, não é a regra que se questiona. Agora, é Lula quem está fora da regra.

 

Política

E Temer, quem diria, deu início ao jogo da sua sucessão…


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Foto: Marcos Corrêa (Agência Brasil-EBC)

Ele é extremamente impopular. As pesquisas lhe dão somente cerca de 1% das intenções de voto. Mas tem o poder da caneta presidencial. A semana que passou demonstra o quanto isso tem força. Ao resolver dar uma guinada na sua plataforma de governo, abandonando as reformas e elegendo como principal agenda o combate à criminalidade, o presidente Michel Temer, mesmo com toda essa carga de impopularidade, fez girar para valer a roda da sua sucessão. A partir da intervenção no Rio de Janeiro, as peças começaram a se mexer no tabuleiro. Candidaturas se afirmaram, e outras chegaram ao fim.

Temer pode não ter chance alguma no jogo da sua sucessão. Mas, ao tomar atitudes que claramente o colocam como candidato, o presidente levou os demais a se mexerem também. A começar pelos mais próximos. Principal incomodado com a intervenção, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), reagiu de imediato. Demonstrou sua contrariedade por não ter sido previamente consultado. Criticou a agenda de medidas econômicas que Temer propôs para substituir a finada reforma da Previdência. Acelerou na Câmara pacote próprio de medidas na área de segurança. Na semana que começa, Maia ainda não é um candidato declarado à Presidência. Mas já acertou até quem serão os marqueteiros da sua campanha.

Da mesma forma, o ministro da Fazenda, Henrique Meireles tratou de se mexer. Com o enterro da Previdência, perdeu o que seria a sua agenda: a aprovação das reformas estruturantes que ele e seu eleitorado – o empresariado e o mercado financeiro – julgam ser essenciais. Sem a reforma, Meireles tratou de declarar sua aspiração presidencial. E trabalha, tendo como interlocutor o senador Romero Jucá, para trocar seu atual partido, o PSD, pelo MDB, para por ali vir a ser candidato. Temer tratou de dar um freio à articulação: antes, diz ele, Meireles tem de demonstrar sua viabilidade. Um por cento nas pesquisas, Temer também tem.

No campo da oposição, as peças também se mexeram no tabuleiro. O candidato do PDT, Ciro Gomes, reuniu-se com o plano B do PT, Fernando Haddad, para tratar de possíveis alianças. Uma conversa em torno de possíveis uniões, ainda que saiam separados no primeiro turno. Unidade de discurso, compromissos no segundo turno. Haddad foi desautorizado pela presidente do PT, senadora Gleisi Hoffmann (PR). O candidato oficial petista é Lula. Haddad não deveria fazer tais conversas. Para outro petista que não quis se identificar, uma bobagem a censura de Gleisi. Lula não será candidato, até os pombos da Praça dos Três Poderes já sabem disso. Ele pode seguir seu plano de abandonar oficialmente a disputa somente aos 45 minutos do segundo tempo. Mas as conversas têm de acontecer, até porque por maior que seja sua capacidade de transferência de votos, sua alternativa não terá os mesmos votos que ele teria. Para esse outro petista, ou a reação de Gleisi foi mero jogo de cena ou desespero do grupo mais radical do partido, que não vem compreendendo bem o jogo.

Na extrema-direita, Jair Bolsonaro estrilou. Foi às redes sociais dizer que Temer pode roubar muita coisa. Só não vai roubar seu discurso. Bem, o discurso Temer já roubou. A não ser que a intervenção dê com os burros n’água. Outros roubos, se Bolsonaro não for capaz de provar, poderiam ainda lhe proporcionar um processo. Sem provas, ficam por conta do estilo boquirroto do capitão.

Temer agora precisa que a intervenção alcance algum resultado concreto. Por enquanto, ela não saiu muito dos três andares do Palácio do Planalto. A população do Rio espera resultado. E as dos demais estados que também sofrem com a violência, ações semelhantes a partir da criação do Ministério da Segurança Pública. Temer botou o maior problema do país no seu colo. Como jogada política, parece ter funcionado no primeiro momento. O problema agora é combinar com os morros, bairros e ruas da Cidade Maravilhosa…

 

 

Política

Que tiro será esse? Próximo presidente pode ser uma bala perdida


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Foto: Agência Brasil-EBC

A primeira pesquisa Datafolha após a condenação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva veio mais para confundir do que para explicar. Quando ele é retirado das opções, aparece um quadro no qual Jair Bolsonaro lidera, mas sem grande consistência: sua intenção de voto diminuiu e ele perde em várias situações de segundo turno. Especialmente, a pesquisa não aponta ninguém que claramente vá se beneficiar ou ser o repositório dos votos que seriam dados a Lula no caso, bastante provável, dele não disputar a eleição. Ou seja: embolou o jogo.

Vamos admitir, apenas por hipótese, que todo esse processo,  que envolve o Ministério Público, a Polícia Federal, o Poder Judiciário em várias instâncias – que, de acordo com o site do Ministério Público, levando-se em conta somente a sua vertente no Paraná já expediu 888 mandatos de busca e apreensão, 222 mandados de condução coercitiva, 101 mandados de prisão preventiva, 111 mandados de prisão temporária, 117 condenações contra 113 pessoas, que somam 1.753 anos de prisão, entre outros números –, de fato tenha sido movido com o único propósito de impedir Lula de disputar a eleição.  Se tal conspiração for verdade, todos esses conspiradores correm o risco, a julgar pela Datafolha, de atirar no que viram e acertar o que não viram.

Parafraseando a Jojo Todynho (perdoem, sinal dos nossos tempos), há uma chance de nos perguntarmos em outubro que tiro será esse. No quadro embolado que a pesquisa Datafolha demonstra, há uma grande chance de o próximo presidente ser uma bala perdida. Ou seja: alguém completamente fora do quadro anteriormente previsto.

E, se havia nisso tudo de fato alguma conspiração de “centro-direita”, a pesquisa aponta uma grande chance do resultado final não vir desse campo.

Ao longo dos últimos dias, enquanto se desenrolava a condenação de Lula, Bolsonaro também viu sua situação ser questionada por denúncias de uso indevido de verba de moradia. Às quais respondeu de forma absolutamente grosseira. Assim, o que a pesquisa mostra é uma situação cristalizada. Como polarizava com Lula, sem ele Bolsonaro lidera. Mas com os mesmos índices que já tinha, até um pouco menos.

E quem parece mais se beneficiar da saída são outros candidatos identificados com o mesmo campo da centro-esquerda de Lula: Marina Silva e Ciro Gomes. Marina irá para a sua terceira eleição presidencial, e sempre apareceu em posição de destaque. Nas últimas eleições, chegou a liderar por um momento depois da morte de Eduardo Campos (era a sua candidata a vice). Parte da sua força vem desse recall. E parte vem de certo perfil próximo do de Lula (de mulher pobre que ascendeu, ex-petista, com preocupações parecidas). Mas, desde que saiu do PT, Marina só aumentou seu afastamento do partido, a ponto de apoiar Aécio Neves no segundo turno nas últimas eleições. Isso faz com que não herde votos da militância. Mas o eleitorado de Lula é muito maior que a militância petista.

Já Ciro faz um movimento pendular no apoio a Lula. Há tempos trabalha para ser o Plano B de Lula. Ora Ciro viu-se mais próximo disso, ora mais longe. Então, ora ele defendeu Lula mais fortemente, ora afastou-se para atacar mais duramente a ele e ao PT. O fato é que Ciro foi construindo ao longo do tempo um perfil de “sincerão”, que agrada a parte do eleitorado. E “sincerão” numa linha que coincide com certos pontos do discurso lulista e petista, de enxergar erros e disposição político-partidária nas ações da Lava-Jato, ao mesmo tempo em que por vezes aponta para erros do PT, especialmente na forma como construiu suas alianças e imiscuiu-se com elas. Se o macho man não se enrolar nas respostas como aconteceu em outras ocasiões…

A profusão de diferentes cenários testados pelo Datafolha, trazendo de volta nomes que pareciam já fora da disputa como o prefeito de São Paulo, João Dória, e o apresentador Luciano Huck, é outro elemento a reforçar como o quadro está embolado.

Dentro, portanto, dessa imprevisibilidade, alguém pode fazer um momento inesperado e tomar o tiro que os estrategistas imaginavam que iria acertar outra pessoa. Ainda vamos ter que esperar mais um pouco para saber que tiro será esse…