Bolsonaro

Política

O  perigoso morde-assopra do clã Bolsonaro


1 Comentário

Foto: Fábio Pozzebom/Agência Brasil-EBC

Numa interessante análise publicada há poucos dias no Poder 360, Leonardo Cavalcanti  avalia a possibilidade de o clã Bolsonaro se valer do que o professor de Antropologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Piero Leirner, chama de “estratégia militar dissonante”. De acordo com Leirner, trata-se da replicação de uma tática de guerra, na qual informações desencontradas são repassadas de modo a criar uma estratégia de confusão, que desorienta o inimigo.

Passa-se uma ideia de descontrole. De que não há unidade de pensamento. Uma coisa é dita. Outra é contradita. Desautorizada. Daí, recua-se do que foi dito. Até a criação da próxima controvérsia. Na estratégia, segundo avalia Leirner, o presidente Jair Bolsonaro acaba aparecendo como o elemento moderador. A tática gera mobilização dentro do governo e entre a militância mais próxima do presidente. E mantém acesa a polarização com a esquerda, o interminável FlaXFlu que tem sido o nosso pesadelo.

O morde-assopra ficou claro em dois momentos recentes. Primeiro, no vídeo do Rei Leão e das hienas. No vídeo, Bolsonaro aparece como o leão e as hienas são todas as demais instituições republicanas brasileiras: Judiciário, Legislativo, imprensa… Tratava-se de uma clara demonstração de guerra. De ruptura institucional. O que Bolsonaro pretendia com aquilo? Então, diante da repercussão negativa, ele declara que o vídeo foi um erro, retira o vídeo do ar e pede desculpas.

Então, alguns dias depois, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-RJ) critica a radicalização dos movimentos de protesto no Chile e diz que o governo deve se preparar para reagir caso algo semelhante se esboce ocorrer por aqui. Diz que o governo precisa ter instrumentos para essa reação. E fala numa possível volta do AI-5, um instrumento da ditadura que dava poderes fora da Constituição ao governo para fechar o Congresso, cassar pessoas, censurar a imprensa. Diante do evidente repúdio geral a tal absurdo, Bolsonaro desautoriza Eduardo. Que pede desculpas e recua.

Não tivesse sido, porém, por um modo patético, eis que depois o próprio Eduardo Bolsonaro volta ao tema novamente não para explicar, mas para confundir. Diz em outro vídeo que o que ele tinha querido dizer não era uma pregação da volta do AI-5, mas a necessidade de o governo ter instrumentos para agir de forma “energética” em caso de radicalização. O vídeo, felizmente, repercutiu pelo ridículo do uso errado do termo “energético”. O que pretendia Eduardo era transformar os protestos numa rave e distribuir Red Bull pra moçada?

Ou, levando a fala a sério: o que são instrumentos “energéticos”? Porque, se de fato houvesse uma radicalização de protestos fora dos preceitos da lei, que extrapolassem o direito de manifestação, a Constituição e as leis brasileiras possuem instrumentos enérgicos – este é o termo correto –  para coibir. Se os “energéticos” estão fora do limite legal e constitucional e denotam autorização para ações autoritárias, a democracia brasileira deve rechaçá-los.

Se há algo de pensado nesse morde-assopra, se é a adoção de uma tática diversionista de inspiração militar, é preciso dizer que tudo isso sai completamente dos manuais conhecidos de administração de um governo. Se der certo, vai obrigar uma profunda revisão de conceitos.

É interessante para quem disputa uma eleição – sobretudo se não está no governo – criar em torno do pleito um ambiente de confusão e desorientação. Especialmente se for capaz de fazer com que o caminho da solução ao final passe por ele. Nesse sentido, a tática de Bolsonaro para manter a polarização acesa durante o pleito do ano passado foi um sucesso absoluto. Mas governos precisam de tranquilidade. Precisam de um mínimo de estabilidade para ver avançarem seus projetos.

A essa altura, Bolsonaro briga com seu partido, briga com outros partidos conservadores do Congresso, não consegue formar uma base, joga suas fichas na formação de um novo partido quando ele precisa de votos agora, não no futuro. Briga com o Judiciário. Briga com a imprensa. Briga com os setores mais organizados da sociedade civil de perfil mais conservador, como o Movimento Brasil Livre (MBL). Qual a garantia de tranquilidade mínima que isso lhe traz para a aprovação dos seus projetos?

Se há por trás de tudo isso uma intenção não democrática, golpista, como se preocupam alguns, de que forma Bolsonaro encontrará respaldo para tal aventura se dispensa as instituições? Em 1964, militares não tomaram o poder sozinhos. Precisaram – e tiveram – o apoio de instituições como boa parte do Legislativo, do Judiciário, da imprensa, da sociedade civil.

Há, por último, uma outra avaliação que devem fazer os que defendem soluções mais conservadoras, de direita, para o país. Ao vencer as eleições, Bolsonaro deu a esse gupo mais conservador a chance de propor seu modelo pela via democrática. Alternância de poder, como se espera que ocorra em qualquer democracia madura. Dez meses depois da posse, o esboço de qualquer sugestão autoritária e não democrática seria a admissão de que, no Brasil, tal grupo conservador não consegue manter seu modelo pela via institucional. Seria uma admissão de fracasso, do ponto de vista democrático.

De 1954 a 1960, o grupo conservador viu esbarrar as suas chances na moderação que era feita pelo PSD. O partido, como bem explicou Lucia Hippolito no seu “PSD: de Raposas e Reformistas”, evitava os extremismos. A lógica se rompeu com Jânio Quadros. E não deu certo, pela via democrática, após a sua renúncia. O golpe jogou às favas a tentativa de sucesso pelo caminho democrático. A direita brasileira pagou seu preço. Afastou-se do debate até conseguir emergir de novo com a construção da eleição de Bolsonaro. Já vai admitir de novo a impossibilidade de sucesso de suas ideias pelo debate democrático? Vai de novo fazer descer goela abaixo por vias autoritárias? É o que propõe o clã Bolsonaro antes de pedir desculpas? Ou tudo não passa de um mal entendido? Ainda  que seja um planejado e estratégico mal entendido…

Política

Nós jornalistas somos “os suspeitos de sempre”


Nenhum Comentário

O filme “Casablanca” certamente reúne o maior conjunto de frases antológicas da história do cinema. Aquelas que vivemos repetindo, acrescentadas que ficam às nossas vidas e experiências. “Toque outra vez, Sam” (ainda que no filme Bogart diga apenas “Play it, Sam” e não “Play it again” como a gente vive repetindo…), “Sempre teremos Paris”… e por aí vai.

Mas de todas as frases antológicas de “Casablanca”, a melhor é a dita pelo Capitão Renault, o francês colaboracionista cínico e de caráter ambíguo, quando tem que reprimir uma confusão no Rick’s Café, onde se passa o filme. “Prendam os suspeitos de sempre”, diz ele.

Ou seja, em tempos de ditadura, de liberdade reprimida, as arbitrariedades vicejam. As autoridades amplificadas, multiplicadas nos seus egos, sem necessidade de prestar contas a ninguém, relaxam no rigor das suas apurações. Num mundo que enxerga inimigos de todos os lados, prende a torto e a direito os que incomodam. Pouco importa se efetivamente cometeram o crime. Suas prisões servem tão somente para manter aceso o medo. Para renovar o gosto de sangue que rapidamente se torna um vício. Os “suspeitos de sempre” não são aqueles que, nas sombras, cometem crimes. São aqueles que, às claras, alertam para a sua existência.

Na Alemanha nazistas e nos territórios que ocupava, como Casablanca, os “suspeitos de sempre” eram os judeus, as minorias, os comunistas, os amantes da liberdade que não se curvavam àqueles tempos sombrios. Na Alemanha nazista e em qualquer momento em que a liberdade de expressão começa a correr risco, os jornalistas sempre se juntam aos “suspeitos de sempre”.

A verdade é que, para qualquer governo em algum momento, jornalistas viram os “suspeitos de sempre”. O grande escritor George Orwell, autor de “Revolução dos Bichos” e “1984” dizia: “Jornalismo é publicar aquilo que alguém não quer que se publique. O resto é publicidade”.

Nas suas obras, George Orwell tratou de dissecar e alertar para o perigo dos regimes que se constroem a partir de verdades absolutas. Vivemos hoje um momento em que muitos pregam a necessidade de “radicalizar” como solução para vencer o inimigo que enxergam do outro lado. “Radicalizar” significa “tornar absoluto”. É considerar que a verdade se encontra somente consigo. E que tudo que não vai ao encontro do que você considera verdade se torna uma mentira perigosa, que precisa ser destruída. Em “1984”, o Ministério da Verdade refazia as manchetes dos jornais e retocava fotos refazendo a “verdade” de acordo com as conveniências políticas que mudavam. Ou seja: o Ministério da Verdade era, de fato, um “Ministério da Mentira”. Mas aquilo não era exatamente um produto da imaginação de Orwell: Stálin tinha feito exatamente assim na União Soviética, eliminando dos arquivos fotos em que León Trotski aparecia, por exemplo. Na “Revolução dos Bichos”, Orwell mostra como o porco, o líder revolucionário daquele movimento de animais, aos poucos vai ficando igual ao homem que ele derrubou.

O livro de memórias do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso é cheio de críticas a jornais e jornalistas quanto à passagem de seu governo. Menospreza alguns jornalistas dizendo que não os lê. Critica jornais que o criticavam. Os acusa de “sensacionalismo”. Nos tempos do PT no poder, criou-se a expressão “Partido da Imprensa Golpista”, e muitos militantes seguem na balada de considerar que jornais e jornalistas se associaram para reduzir pelo golpe do impeachment a era petista.

Em se julgando verdade, se houve alguém que tenha se beneficiado da criação artificial de um ambiente que vinculava a era petista à corrupção, esse alguém foi o atual presidente Jair Bolsonaro. Foi Bolsonaro quem, nas eleições, conseguiu colar à percepção da sociedade a ideia de que ele era o oposto daquilo que a sociedade não mais queria.

Mas, nove meses depois de tomar posse, é Bolsonaro quem vocifera pesado contra os jornais e os jornalistas. Com seu estilo que passa longe da sutileza, diz que os jornais “mentem”, “distorcem”, “difamam”. Com o propósito de derrubá-lo. Ou seja, com velocidade impressionante Bolsonaro incorpora ao seu discurso a tese de que a imprensa é “golpista”.

Assim, diante da tarefa que temos de expor problemas e mazelas, seguimos, nós jornalistas, sendo “os suspeitos de sempre”. Em tempos de ditadura, o preço pago é bem alto. “Suspeitos de sempre” são presos, muitas vezes torturados e até mortos. Jornais são sufocados, trabalha-se para desoxigenar suas fontes de financiamento. Felizmente, em tempos de democracia, o que ficam são somente as reclamações dos poderosos…

Política

Bolsonaro começou tão velho quanto todo mundo


Nenhum Comentário

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil – EBC

Dado o fato de aparecer incólume em segundo lugar em todas as pesquisas eleitorais, abaixo apenas de Luiz Inácio Lula da Silva, é curioso que não tenha chamado mais atenção a história da negociação frustrada de Jair Bolsonaro com o Partido Ecológico Nacional (PEN). Porque ela tem diversos elementos da velha política que aparentemente os eleitores de Bolsonaro não enxergam nele. Ao definir o PSL como o partido para a empreitada eleitoral de outubro, Bolsonaro segue pelo mesmo rumo de todo mundo. Nada de novo…

E muito menos de novo há na reação de Bolsonaro ao ser confrontado para dar explicações sobre o aumento de seu patrimônio desde que se tornou político. Ao ser questionado sobre por que recebia auxílio-moradia como deputado se ele tinha um imóvel próprio em Brasília, Bolsonaro respondeu que usava o auxílio “para comer gente”. Responder atacando é tática igualmente antiga, de quem se sente acima da sociedade e acha que não carece de dar satisfações. No caso, ele foi apenas grosseiro, mal-educado, misógino, machista. Talvez agrade a parte do seu eleitorado. Mas não há nada de novo nisso. Mas vamos nos concentrar na história da tratativa frustrada com o PEN.

Para abrigar Bolsonaro, o tal PEN deixou de ser Ecológico para ser Patriota. Escolheu o nome exato para abrigar ali uma imitação eleitoral e tupiniquim do Capitão América. Ao final, Bolsonaro preferiu deixar o PEN de lado e se filiar ao PSL.

Segundo Adilson Barroso, o presidente do PEN – ou Patriota, ainda que em termos marqueteiros a mudança do nome sem Bolsonaro faça bem menos sentido -, o acordo gorou porque Bolsonaro foi revelando um apetite mais e mais voraz por poder à medida em que as pesquisas o consolidavam como eventual principal adversário de Lula nas eleições de outubro. De acordo com Barroso, Bolsonaro foi aumentando as exigências por espaço, a ponto de, antes do fracasso final das negociações, já querer o comando de praticamente todos os diretórios regionais do partido.

Fica registrado, então, que a escolha do capitão quanto à legenda com a qual vai enfrentar a disputa eleitoral nada teve de ideológica, em algo que melhor se encaixasse ao seu discurso, à sua plataforma. Seguiu a mesma lógica da velha política, da política pequena, aquela na qual os interesses particulares menores se sobrepõem aos interesses maiores, nacionais.

Com o controle dos diretórios regionais, Bolsonaro comandaria os acertos do PEN nas eleições eleitorais, as coligações em cada estado. Especialmente, no comando do partido, teria o controle da distribuição das verbas destinadas ao partido, ao Fundo Partidário. Nas declarações que fez sobre o acordo frustrado, Adilson Barroso passa sempre a impressão de que não foram exatamente as mais republicanas as conversas com o grupo de Bolsonaro.

Na verdade, não é nenhuma grande surpresa. Como deputado há duas décadas, Bolsonaro certamente seguiu até aqui os mesmos caminhos tradicionais nas suas candidaturas. Entre o discurso mais radical que agrada a parte do eleitorado e o comportamento no jogo da pequena política, Bolsonaro, nesse segundo quesito, é tão velho como todos os seus demais adversários.

O que talvez tenha levado o PEN a não ceder a todas as exigências é que o jogo eleitoral envolve sempre um risco, que as atuais posições de Bolsonaro na corrida não dissipam totalmente. PEN ou PSL, ele disputará a eleição por um partido menor. Sua primeira dificuldade serão os poucos segundos de propaganda eleitoral. Mais exíguos ainda para as disputas que envolvem os comandos dos diretórios regionais, especialmente nas eleições proporcionais.

As mudanças na regra do Fundo Partidário deixarão menores as verbas para os partidos pequenos, com a exigência de uma cláusula de desempenho para a sua distribuição. Os recursos privados deverão ser menores – não haverá doação de empresas, mas somente doações individuais, limitadas a no máximo 10% dos rendimentos brutos de cada doador declarados no exercício anterior.

Estabeleceu-se um teto para o gasto de cada campanha: R$ 70 milhões para a eleição presidencial; R$ 2,5 milhões para deputado federal e R$ 1 milhão para deputado estadual. No caso de governadores e senadores, varia de acordo com o tamanho do estado (no caso de governador, de R$ 2,8 milhões a R$ 21 milhões, e no caso de senador, de R$ 2,5 milhões a R$ 5,6 milhões). Claro que há sempre a hipótese de caixa dois – e essa hipótese sempre houve. Mas tudo isso tornará a eleição bem mais barata e bem menor a possibilidade de arrecadação de dinheiro.

Assim, talvez o risco de entregar o partido de porteira fechada a Bolsonaro tenha pesado ao final para o PEN. O PSL aparentemente resolveu pagar para ver. De qualquer modo, na largada a novidade de direita que promete que fará diferente fez tudo igual a todo mundo.