Política

A triste eleição da mentira


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Foto: Fabio Pozzebom/Agência Brasil-EBC

O vídeo em que o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do candidato do PSL, Jair Bolsonaro, aparece dizendo que basta “um soldado e um cabo” para fechar o Supremo Tribunal Federal é chocante. É chocante pela revelação explícita da falta de apreço com a democracia e suas instituições. É chocante, embora nada tenha de surpreendente. Porque em muito pouco difere das coisas que seu pai disse e repetiu ao longo dos últimos vinte anos como deputado federal.

Assim, certamente terá pouquíssimo efeito no resultado eleitoral, que hoje indica vitória de Jair Bolsonaro no próximo domingo. Terá pouquíssimo efeito porque nada do que disse Jair Bolsonaro ao longo do tempo teve qualquer efeito para evitar que hoje ele seja o virtual próximo presidente do Brasil. Pelo contrário, tudo o que Bolsonaro disse e fez ao longo dos últimos vinte anos é que hoje o projeta para a vitória sobre Fernando Haddad. Não serão, então, os eleitores de Bolsonaro os que darão um freio a essas inclinações autoritárias. Esse freio terá que vir das instituições. De uma reação forte como a que já ensaiaram agora os ministros do STF. Algo que diga: “O senhor venceu as eleições democraticamente. Essa é a vontade do povo. Mas isso aqui é uma democracia. E os limites da democracia o senhor terá que respeitar”.

O que será preciso agora é compreender como se construiu o ambiente que tornou possível a vitória de Bolsonaro. Ainda que seja muito grave a denúncia da rede construída para a disseminação de fake news pelas redes sociais, especialmente pelo whatsapp, é mais um esforço ingênuo do PT e da oposição querer explicar tudo o que houve a partir simplesmente daí. Seria uma boa sinopse de filme B, mas Bolsonaro não é o produto de uma ardilosa trama de hipnose coletiva. Porque não bastaria disseminar mentiras. É necessária a existência de um ambiente favorável a acreditar nessas mentiras. Só vamos entender o que se deu em 2018 quando conseguirmos entender quais foram as verdades que produziram o campo fértil para a disseminação das tais mentiras. O certo é que a eleição de 2018 ficou marcada como a triste eleição da mentira. E a mentira foi ferramenta usada pelos dois lados.

Talvez uma das primeiras conclusões a que vamos chegar é que o ambiente virtual das redes sociais é mais do que propício não apenas para a propagação da mentira. Mas também para que a mentira se converta em verdade. Primeiro, é um mundo de relações falsas, artificiais. Ninguém ali é “amigo” de verdade. Ninguém ali cultiva relações de fato. Todo mundo se esconde por trás de avatares que cria de si mesmos. É todo mundo mais feliz, mais rico, mais forte, mais corajoso, mais confiante do que de verdade. E todo mundo vive numa bolha. Que exclui os que pensam de forma muito diferente. Uma bolha que vai se aprofundando no que tem de semelhante entre seus integrantes e no que tem de diferente dos habitantes das outras bolhas. Esse mundo virtual busca a sua perfeição ao excluir seus diferentes e depurar suas similitudes. Ao escolher seus ídolos, os torna perfeitos. Eles não falham, não erram. E há explicações para todos os seus feitos. Não por acaso, esses ídolos ultrapassam a dimensão humana. Um é “mito”. Outro é “ideia”.

O que torna hoje complicada a tentativa de desfazer o mito criado em torno de Bolsonaro é o fato de que o lado escolhido para contrapô-lo também construiu todo o seu perfil a partir de uma narrativa em boa parte dela falsa. Que começou a ser construída há mais de dez anos. Ao contrário do que muitos passaram a repetir como um mantra, o mensalão não foi “uma farsa”. José Dirceu nunca foi exatamente um “guerreiro do povo brasileiro”. É verdade que a corrupção na Petrobras não começou nos governos do PT. Mas é verdade também que ela não parou nos governos do PT; ao contrário, aumentou. O impeachment de Dilma Rousseff não foi um “golpe”. Foi uma ação parlamentar com diversos pontos questionáveis, mas toda tomada dentro das normas previstas na Constituição. Lula não é um “preso político”. Pode até estar condenado a partir de um processo com provas frágeis e, ainda que tenha havido motivação política por parte de alguns, ele é alguém condenado pelos juízes em todas as instâncias por que passou. Se está preso hoje, é por conta de uma interpretação do Supremo Tribunal Federal que possibilita a prisão após condenação em segunda instância que é anterior ao seu caso e tomada quando ainda era impossível prevê-lo. Se não pode ser candidato à Presidência, é por conta da Lei da Ficha Limpa, que teve como relator um deputado do PT (José Eduardo Cardozo) e que o próprio Lula sancionou como presidente.

Se boa parte das pessoas acredita ou diz acreditar em toda essa narrativa acima, não pode reclamar dos que acreditam ou dizem acreditar na narrativa falsa construída em torno de Jair Bolsonaro. Porque o “mito” e a “ideia” são construções distantes da realidade. E nada de muito concreto se quis fazer para evitar as suas ascensões.

Circula nas redes sociais um texto atribuído a um eleitor de Bolsonaro que é exemplar na explicação de como as pessoas constroem a partir de premissas falsas aquilo em que desejam acreditar. O autor do texto faz-se de consciente dos defeitos de seu candidato à Presidência para depois despejar uma série de ingenuidades:

“Bolsonaro, meu véio, você tem oportunidade de entrar para a história. A mesma que o Collor teve e jogou fora. A mesma que o Lula teve e desperdiçou. A chance de você fazer a mesma merda é gigante. Mas a gente fica aqui torcendo pro patriotismo, pro Brasil acima de tudo… A gente sabe que quando chega lá é foda, mas se lembra sempre que mais de 50% dos teus votos  te odeiam. Ao mesmo tempo estão loucos para estarem errados. Os primeiros 6 meses serão fundamentais para definir a tua história. Cuida primeiro da economia e da segurança. Deixa o aborto e o sexo dos anjos, dos gays, etc… pra depois. Isso não muda nada agora. Só traz os pentelhos pra rua. Depois você vira extrema direita, mas primeiro resolve o Brasil. Você tem o congresso na mão agora. O que você fizer agora é que vai definir. Dá uma porrada na cara em quem te chama desses “ismos” todos e governa para todos. A gente tá louco para trabalhar, investir, cair dentro, empreender, empregar, gastar, fazer… a gente não aguenta mais. Por isso mesmo estamos colocando, contra a nossa própria vontade, um maluco que nem você no planalto. Vai lá, maluco, e mostra que você é mito e não o ‘minto'”.

O primeiro problema do raciocínio é que se o eleitor está conscientemente colocando na Presidência “um maluco”, não poderá ficar surpreso depois se o ‘maluco” fizer maluquices. Se ele sabe que a chance de se “fazer a mesma merda é grande”, se isso acontecer, não vai poder fugir da responsabilidade. Segundo, se o candidato prestes a ganhar a Presidência é de extrema direita, não vai guardar essa característica e virar “extrema direita” mais tarde. Ao “torcer para dar certo”, ele tenta se afastar da responsabilidade que tem com sua escolha e os riscos de tal escolha dar errado.

O que fica claro é que o eleitor imagina dar uma chacoalhada radical em tudo o que lhe incomoda. Incomodado com o estado de coisas que não o deixa progredir, evoluir, que toma seu emprego, sua renda, fica irritado. Fica com raiva. Vota com raiva.

E constroi a partir do seu mundo virtual uma realidade paralela, um mundo de mentirinha no qual só enxerga a parte que quer enxergar. Onde não cabe nada do que não lhe interessa. Onde não tem lugar nada que não construa a narrativa que deseja para deixar sua cabeça em paz.

Acontece que o próximo presidente irá governar fora da bolha. O próximo presidente não governa nas redes sociais. Não governa nos mundos virtuais onde somos fortes, corajosos, felizes e decididos. Ele governa nesse mundo de verdade em que todos nós vivemos misturados. Para este mundo de verdade, nenhum dos lados do FlaXFlu se preparou. Ambos escolheram essa eleição plebiscitária, essa disputa polarizada. Ambos optaram por transformar os eleitores em torcedores. Acabado o jogo, recolhidas nossas bandeiras e anunciado o placar, quando voltarmos para casa, só vai nos restar dizer: “E agora?”

Política

Dias de São Bartolomeu


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Reprodução do quadro O Massacre de São Bartolomeu, de François Dubois

Esta eleição já está perto da centena de casos de agressão de pessoas por motivação política. O capoeirista Moa do Katendê foi assassinado em Salvador. Uma moça em Porto Alegre teve uma suástica marcada em canivete na sua própria pele. E um delegado teve o displante de dizer que se tratava do símbolo budista de paz e fraternidade. Que jamais chegue o dia em que paz e prosperidade precisem ser uma imposição autoritária gravada a canivete no corpo das pessoas.

Mas é preciso que jamais se deixe de lembrar que a escalada de violência nestas eleições perfurou o intestino de um dos candidatos com uma facada. Colocou-o na UTI em estado grave.  Causa ainda limitações e incômodos que agora se ajustam à perfeição à sua estratégia de faltar aos debates.

A violência domina as ruas de forma descontrolada como se saísse de uma panela de pressão que explodiu. É como se o resultado do primeiro turno autorizasse barbaridades, como se demonstrações de ódio e preconceitos estivessem agora chanceladas pelo resultado das urnas. Não há dúvida: venceu o lado mais violento. Porque é o lado que admite a violência como parte da solução. Na segurança pública, na educação de crianças, para obter determinadas “curas” de gênero. Mas importa dizer também que ensaios revanchistas, que trocavam a ideia de vitória eleitoral por “tomada de poder”, também se assanharam por aí. E também apontavam um dedo ameaçador para seus inimigos.

A opção pela tolice binária, maniqueísta, como forma de disputa política mostra agora a sua face monstruosa. Era óbvio que em algum momento a guerra de torcidas, o UFC intelectual, saísse do mundo virtual das redes sociais e fosse parar nas ruas. Se a disputa optava pelo preto contra o branco, era natural o choque do branco quando viesse a vitória do preto. E provavelmente o choque não teria sido diferente se fosse o contrário.

Quando um homem vira “mito” e o outro vira “ideia”, há muito tempo abandonou-se a argumentação racional que deveria pautar uma escolha política para substituí-la por um tipo de emoção de cunho religioso. Não há nuances possível quando um ser humano de símbolo de admiração passa a ser símbolo de culto. A ele, tudo passa a ser permitido.

A essa altura do segundo turno, a campanha presidencial passa por um momento curioso de se observar por quem alertou o tempo todo para o risco do FlaXFlu apaixonado. Reportagem publicada nesta segunda-feira, 15, pela Folha de S. Paulo fala das estratégias de informação militares usadas por Jair Bolsonaro, o candidato do PSL. Mostra como o bate-cabeças da sua campanha, onde o general Mourão e o economista Paulo Guedes dizem coisas para depois serem desautorizados. Vivêssemos um ambiente de serenidade racional, esses seriam sinais de falta de unidade e gerariam insegurança. Nos nossos tempos de devoção religiosa, contudo, servem para reforçar ainda mais a figura do “mito”. É ele quem chega com sua autoridade, desautoriza e coloca seus subordinados nos seus devidos lugares. Eles, humanos, são falhos. Bolsonaro, a essa altura mais que humano, a eles levará a luz.

As hostes lulistas, porém, não agiam de forma diferente. Enquanto Lula liderava com folga as pesquisas e transferia com velocidade ultrassônica suas intenções de voto para Fernando Haddad, de nada adiantava alertar que a estratégia era arriscada, que isolava o PT, que não admitia espaços para recuos e rearranjos. A estratégia de Lula era genial e levaria à vitória. Agora, por exemplo, o apresentador Luciano Huck escreve artigo criticando Bolsonaro e dizendo que suas ideias são retrógradas, sectárias, preconceituosas e belicistas. Aí, alguém imediatamente posta: “Um que acordou”. Acordou de quê? Alguma vez Huck declarou que apoiaria Bolsonaro? O fato de ter posições mais conservadoras e não apoiar o PT o faz, então, seguidor de Bolsonaro? Somente na cabeça binária que se instalou no Brasil. Quando quem não está de um lado está necessariamente do outro.

Essa é a grande dificuldade vivida agora por Haddad. Ele precisa ampliar sua votação quando, durante anos, o PT optou por esse tipo de pensamento binário, que adotava o termo “fascistas” para todos a quem se opunha. Da mesma forma como Bolsonaro chama de “comunistas” todos os que não estão com ele. Agora, Haddad busca, por exemplo, apoio do ex-ministro do STF Joaquim Barbosa. Aquele que já foi o suprassumo do mal por condenar autoridades petistas envolvidas no mensalão. É complicado precisar agora dos matizes quem vinha pintando ignorando que existem mais de 50 tons de cinza…

São tristes e sangrentos os momentos em que os embates políticos se tornam religiosos. Na história da França, um dos mais horrorosos desses momentos foi a Noite de São Bartolomeu, quando católicos, apoiados pelo próprio rei, saíram às ruas assassinando protestantes. Os relatos dizem que somente naquela noite, mais de duas mil pessoas foram assassinadas pelas ruas de Paris. Como os episódios seguiram-se por outras cidades francesas por semanas, meses e até anos, há quem compute quase cem mil mortes associadas com a Noite de São Bartolomeu.

Foram, na verdade, dias de São Bartolomeu. Dias em que a certeza absoluta numa verdade única transformava-se em ódio contra os que pensavam de forma diferente. Quando o ódio virava preconceito. E se transformava em violência. Autorizadas pelo júbilo de vitórias. Os dias de São Bartolomeu estão de volta…

Política

O PT encolheu-se no primeiro turno. O que fará no segundo?


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Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil – EBC

Na construção das eleições deste ano, desde sempre Jair Bolsonaro, do PSL, escolheu o PT como seu adversário. Ele não saberia e provavelmente não teria tido o mesmo resultado se sua disputa não fosse com alguém do partido da estrela. E, no caminho contrário, o PT também desde sempre escolheu Bolsonaro como seu adversário. Assustou-se ao final quando viu o tamanho do antipetismo, mas seu adversário predileto sempre foi Bolsonaro. Da mesma forma, dificilmente também venceria um segundo turno contra algum candidato mais moderado.

Na verdade, Bolsonaro é, em grande parte, fruto das escolhas feitas pelo PT desde que começou a ser enredado pelos escândalos de corrupção e começou a construir a narrativa de que era tudo mentira e de que não passava de vítima das elites. Até o mensalão, o PT estava de braços dados com as elites. As elites aceitavam com disposição a ideia de fazer com os petistas um governo de coalizão. Henrique Meirelles saíra do Banco de Boston e de uma eleição como deputado federal pelo PSDB para virar presidente do Banco Central de Lula. Giselle Bündchen doava valiosos diamantes de sua coleção para o programa Fome Zero. Jorge Gerdau, Benjamin Steinbruk, Marisa Serrano (das Lojas Marisa) e Paulo Skaf estavam no Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social.

Logo depois do mensalão, o PT esboçou fazer uma autocrítica e uma correção de rumos. Expulsou Delúbio Soares dos seus quadros. Tirou José Dirceu da Casa Civil. Sob a presidência de Tarso Genro, ensaiava expulsar outros e fazer o que Genro chamava de “refundação”. Lula chegou a pedir “desculpas” à Nação. Mas, contido o escândalo, o presidente começou a recuperar sua popularidade. Confiante, reintegrou Delúbio, trouxe Dirceu de volta ao centro. A balada foi se aprofundando após o petrolão.

É verdade que fragilidades e abusos da Justiça e dos investigadores ajudaram na escolha do PT. Dilma fazia um governo desastroso que mergulhava o país numa crise sem precedentes. Mas os motivos para o seu impeachment sempre foram difusos e frágeis. E o arranjo matreiro final que cassou o seu mandato mas manteve os seus direitos políticos só piorou as coisas. A condenação de Lula por conta da história do apartamento do Guarujá é igualmente fraca. Embora haja elementos mais fortes em outras histórias, como a do Sítio de Atibaia, que ainda não foi julgada.

O problema, porém, é que na campanha deste ano o PT muitas vezes pareceu mais preocupado em reconstruir a narrativa, especialmente a narrativa de Lula, do que efetivamente em ganhar as eleições. Partiu para uma campanha que em muitos momentos foi de afronta às instituições. Instigou sua militância a ir às ruas contra o Judiciário, contra o Congresso, contra o Ministério Público, contra a imprensa. Em vez de personalizar eventuais posições politizadas de alguns, preferiu generalizar. Era um complô das instituições.

Todas as pesquisas de opinião desde o ano passado já mostravam que Lula tinha grande potencial eleitoral, produto da sua popularidade e carisma, especialmente no Nordeste. Mas tinha também rejeição alta. A reeleição de Dilma já tinha mostrado um país dividido. Assim, desde sempre ser novamente candidato era opção de alto risco. Risco ainda mais alto pela opção de construir sua candidatura como uma reação à “perseguição” que o partido dizia sofrer. Era, portanto, uma opção construída com raiva.

As denúncias de corrupção contra ele indicaram também já desde o ano passado que era muito grande a possibilidade de Lula não poder ser candidato, porque acabaria condenado. Indicava-se com muita clareza a necessidade de construção de uma alternativa. Ciro Gomes, do PDT, colocou-se sempre de forma clara como desejoso de se tornar essa alternativa. O PT desdenhou-o. Mais do que isso, trabalhou depois para esvaziar suas chances eleitorais, fazendo um acordo com o PSB, que agora é difícil saber se para o PT realmente valeu a pena.

Esboçou logo Fernando Haddad como uma de suas alternativas internas. Mas levou a definição para os 45 minutos do segundo tempo. Estabeleceu claramente, portanto, que Haddad era um reserva de Lula. Alguém sem luz própria. Alguém que seguiria as orientações do mestre preso.

Adotou-se, assim, uma estratégia extrema. Que muitos militantes do PT entenderam como revanchista. Se vencessem, reconstruíram as narrativas, enquadrando Judiciário, imprensa, inocentando seus líderes considerados culpados, Lula acima de todos. Algo que Ciro Gomes classificou em mais de um momento como um “baile à beira do precipício”.

Cada passo dado a caminho dessa radicalização, fortalecia mais Bolsonaro como a sua antítese. O PT parecia esquecer-se de algumas lições do estudo que fizera André Singer antes da eleição de 2002, e que serviu de bíblia para a construção do perfil “Lulinha Paz e Amor”. Mostrava Singer que o povo brasileiro, em sua maioria, é conservador. Dizia, além disso, que esse povo “não gosta de bagunça”. O discurso do PT afrontava instituições. Bolsonaro, por seu lado, falava em “ordem” e “autoridade”. Seus eleitores falavam também em “intervenção militar”. Que é golpe. E golpe é bagunça. Mas, ante os olhos conservadores, é como se fosse uma bagunça organizada, feita por quem tem a autoridade das armas. Mais tarde, o discurso evoluiu para o que chamaram de “intervenção pelo voto”. Ou seja: uma guinada conservadora pela via democrática. O que é algo perfeitamente dentro das regras.

Além disso, o resultado das urnas ao final deste primeiro turno indica de forma clara que o PT pode até ter o apoio de parte da população para retornar ao poder. Mas não tem para reconstruir como gostaria a narrativa que o inocenta. Toda vez que os institutos de pesquisa perguntaram, a maioria dos entrevistados disse apoiar a Lava Jato e a prisão de Lula. E a derrota de Dilma Rousseff para o Senado em Minas demonstra pouca disposição de avalizar a solução matreira dada no seu impeachment e trazê-la de volta à cena.

Agora, para crescer no segundo turno, precisará o PT refazer toda a sua estratégia. Precisará mostrar que é Bolsonaro quem a vida inteira declarou e demonstrou apreço a governos e soluções antidemocráticas. Mas seu enrosco está no fato de também ter flertado com a afronta às instituições. Precisará mostrar que a vitória eleitoral está acima da eventual reconstrução da sua narrativa. Que essa vitória não inclui planos revanchistas que poderão pegar mesmo alguns daqueles que tenta agora conquistar no segundo turno. Que não quer “tomar o poder”, como disse José Dirceu, mas exercê-lo em nome da sociedade. Terá, enfim, usando a expressão de Ciro Gomes, encontrar outro lugar para o seu baile, que não seja a beira do precipício.

Política

Os plebiscitos do próximo domingo


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Foto: Antônio Cruz/Agência Brasil – EBC

Em Brasília, uma moça circulava entre as cerca de 30 mil pessoas que se manifestavam contra o candidato do PSL à Presidência, Jair Bolsonaro, com o seguinte cartaz: “Sou coxinha. Mas ele não!”

A julgar pelos acontecimentos deste sábado, 29, talvez seja preciso rever em parte o que escrevi na edição desta semana da revista IstoÉ, a partir da avaliação feita pelo diretor do Insituto Sensus, Ricardo Guedes. Para Guedes, a polarização que as pesquisas demonstram entre Bolsonaro e o candidato do PT, Fernando Haddad, indica que a eleição será um plebiscito sobre os últimos 16 anos do país. PT X anti-PT, segundo a sua análise.

As manifestações deste sábado talvez indiquem que, além do julgamento sobre a era PT, um outro plebiscito esteja sendo feito também no próximo domingo, 7 de outubro, quando os brasileiros irão às urnas. Um plebiscito sobre o valor que o cidadão deste país dá à manutenção dos princípios que fundaram a nossa democracia após os mais de 20 anos de ditadura militar. Princípios contidos na Constituição que completa agora 30 anos.

Se a Constituição de 1988 tem entre seus defeitos o fato de ser prolixa demais, esse defeito muito decorre da preocupação que havia entre os constituintes de reforçar como princípios o respeito às minorias, a garantia da igualdade de direitos e a preocupação social. Aparentemente, acendeu em parte da população o sinal de que tais princípios correm sérios riscos.

A partir daí, diante do claro quadro de polarização, boa parte dos cidadãos passa a fazer suas escolhas diante do risco de ameaça que sente com relação à manutenção desses princípios. Como a moça que se declara “coxinha”, mas sai para a manifestação junto aos eleitores tradicionais do PT de Fernando Haddad.

Não que esteja fora do foco da eleição de domingo a avaliação da era petista. Ou, mais que a era petista, a era lulista. Ela levou à polarização. O crescimento de Fernando Haddad herdando os votos que eram dados a Lula, barrado pela Lei da Ficha Limpa, se explica por isso. E, de outro lado, os eleitores concentraram seus votos anti-PT e anti-Lula naquele que mais fortemente parecia ser a sua antítese: Jair Bolsonaro.

A partir de agora, porém, se houver ampliação da intenção de voto em Haddad, ela não se dará mais tanto por essa motivação. Ela se dará porque, diante do quadro polarizado e das reduzidas chances dos demais candidatos, Haddad seria o antídoto a evitar o que se teme em Bolsonaro.

As manifestações contrárias ao candidato do PSL foram significativamente maiores que as manifestações a seu favor. A favor de Bolsonaro, a maior parece ter sido a da praia de Copacabana no Rio de Janeiro. Não fosse pelo fato de ter tido alta do hospital, o sábado não seria um dia de boas notícias para ele. Bolsonaro poderá voltar à sua campanha, ainda que com limitações. Seu grande desafio agora será tentar provar que não representa os riscos que levaram por todo o país multidões às ruas.

Nesse sentido, porém, ele começa mal. Quando seguidamente Bolsonaro declara desconfiança do sistema eletrônico de votação, e diz que não acreditará em nenhum outro resultado que não seja a sua vitória, ele atiça o temor de que prevaleçam seus pendores antidemocráticos. Ofusca-se o candidato que se submete democraticamente ao pleito. Sobressai aquele que elogiou o golpe de 1964 e seus personagens, como Carlos Alberto Brilhante Ustra. No sábado, Bolsonaro foi brindado com um editorial da TV Globo, no Jornal Nacional, reafirmando a necessidade de os candidatos respeitarem as regras a que aceitaram se submeter, inclusive quanto ao resultado final do pleito.

Agora, por outro lado Haddad tem também o desafio de segurar as línguas de alguns de seus aliados. Se, para além do plebiscito sobre a era petista, há mesmo no domingo um plebiscito sobre nossos princípios democráticos, certamente não ajuda nem um pouco uma declaração como a dada por José Dirceu, ao dizer que o que haverá, no caso de uma vitória de Haddad, será não uma eleição, mas uma “tomada de poder”.

Não, José Dirceu. Não será uma tomada de poder. O Brasil democrático se governa a partir de uma harmonia entre os três Poderes. O Poder Executivo precisa se entender e governar em conjunto com o Legislativo e o Judiciário. Então, o presidente eleito não “toma o poder”. Ele recebe da sociedade uma procuração para, democraticamente, agir em nome dela. Quando age de modo diferente da sua vontade, há diversos instrumentos para que a vontade da maioria prevaleça. A começar pela necessidade de aprovação de seus atos pelo Legislativo. Da mesma forma, não ajuda o questionamento de decisões judiciais e afrontas ao Judiciário, pelos mesmos motivos. Como diz a Constituição que completa 30 anos, “todo poder emana do povo”. O poder não será do PT ou de quem vencer a eleição. O poder continuará sendo do povo.

Àqueles que estão à frente do duelo marcado para o próximo domingo, é precisam que compreendam muito bem quais serão as motivações dos eleitores. O país vive momento delicado. Está dividido. Interpretar de forma errada os recados que vêm das ruas poderá ser algo de potencial extremamente perigoso.

Política

No FlaXFlu, é o “ai, Jesus!” 


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Foto: EBC/Agência Brasil

Na sua primeira entrevista como presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), o ministro Antônio Dias Toffoli viu-se obrigado a declarar que, qualquer que seja o resultado das eleições deste ano, ele será “respeitado”. Terminada a ditadura militar, o Brasil vem votando rotineiramente para presidente da República desde 1989. Ninguém jamais tinha antes achado necessário afirmar que o resultado das urnas seria “respeitado” qualquer que fosse ele. Porque, se vivemos numa democracia, tal frase seria óbvia. Se ela se torna necessária, é por conta dos tempos estranhos que vivemos. Tempos de ódio. Tempos de radicalização. De maniqueísmo. De polarização absoluta. Tempos de FlaXFlu. E, no FlaXFlu, como disse Lamartine Babo na letra do hino do Flamengo, “é o ai, Jesus!”

A pesquisa do Ibope divulgada nesta segunda-feira, 24, reforça a polarização. A não ser que haja uma reviravolta muito grande, o segundo turno será disputado por Jair Bolsonaro, do PSL, e Fernando Haddad, do PT. Neste momento, cerca de dois milhões de mulheres encontram-se nas redes sociais em franca campanha contra Jair Bolsonaro, do PSL, a quem não dizem o nome, chamam de “Coiso” e algumas outras denominações, como os personagens dos livros de Harry Potter faziam com Voldemort. Do outro lado, os apoiadores de Bolsonaro aprofundam os motivos para que seus adversários o chamem de “Coiso” cantando nas ruas que feministas, caso ele ganhe, vão “comer na tigela” porque têm “mais pelos do que cadela”. É nesse clima que caminhamos para o primeiro turno no dia 7 de outubro.

Foi por volta do julgamento do Mensalão, um pouco antes, um pouco depois, que a polarização começou a se esboçar. Que grupos começaram a se dividir nas redes sociais como se fossem torcidas de times de futebol. O início do FlaXFlu. Durante um tempo, era claro que a guerra de torcidas era travada por grupos mais radicais de cada lado. Mas o ativismo dos grupos foi contaminando o debate, colocando, de fato, a maioria da sociedade nessa disputa louca. É de forma absoluta, sim ou não, preto ou branco, que hoje a sociedade parece ver a disputa política. Assim a sociedade parece querer. Assim tudo indica que ela irá votar. Que assuma, então, as consequências depois. Consequências que já levam antes do pleito o presidente da Suprema Corte a dizer que o resultado das eleições “será respeitado”.

Em entrevista ao jornal Valor, José Dirceu, um dos principais estrategistas do PT, diz que o Brasil está dividido ao meio. Segundo ele, 45% estão com o PT e 45% estão com Bolsonaro e outros candidatos conservadores. E que esses conservadores irão votar em Bolsonaro como votaram antes em Fernando Collor e Jânio Quadros, porque jamais votarão num projeto de esquerda. José Dirceu é, sem dúvida, um bom estrategista político. Mas há problemas em seu raciocínio.

Primeiro problema: os conservadores já votaram no PT em eleições anteriores. Como governo, o PT jamais se propôs a ser radical, no extremo da esquerda, como a atual polarização tenta impor. Os governos petistas foram governos de coalizão. Que agregavam partidos que iam da esquerda à direita, como, por exemplo, o PP. Lula teve como seu vice um empresário conservador, José Alencar. Tinha ministros de esquerda na reforma agrária e de direita, defensores do agronegócio, como Kátia Abreu, na Agricultura. Mesmo hoje, seria difícil considerar boa parte dos eleitores das classes mais baixas, especialmente no Nordeste, como de esquerda. Eles são eleitores que o PT não tinha e conquistou no governo com seus programas sociais que representaram melhora nas suas vidas. Não pessoas de esquerda. E certamente não são de esquerda diversos políticos aliados ao PT no Nordeste, como Renan Calheiros (MDB-AL) ou Ciro Nogueira (PP-PI).

O que o PT fez desde o Mensalão foi construir uma narrativa no qual se colocava como vítima das forças conservadoras (que, em parte estavam e anda estão do seu lado). Um discurso que foi aprofundando cada vez mais a ideia de que vivíamos um “nós contra eles”. A elite conservadora, os “louros de olhos azuis”, como chegou a dizer o ex-presidente Lula certa vez, de um lado, e a classe trabalhadora de outro.

Se a ideia do antipetismo refluiu para Jair Bolsonaro, alguém que não demonstra apreço pela democracia, que a vida inteira flertou com o autoritarismo, defendendo o período da ditadura militar e torturadores como Brilhante Ustra, é impossível não considerar que isso em parte tenha se dado porque, na sua defesa, o PT não raras vezes colocou-se como mais de esquerda do que realmente era.

Se houve excessos, erros ou injustiças cometidos nos processos contra o PT, precisaria o PT também em algum momento avaliar em que medida seu próprio comportamento dividiu o país e colocou da forma como colocou metade do país contra ele. E fez com que essa outra metade admitisse da forma como hoje parece admitir ungir alguém que pode mesmo vir a comprometer toda a longa reconstrução democrática que o país vem fazendo desde o fim do regime militar.

Talvez a racionalidade, de um lado e de outro, possa ao final corrigir os rumos e evitar essa tragédia. Fazendo com que o caminho da democracia seja mantido. Segurando os arroubos mais apaixonados das torcidas. Que foram construindo um mundo cuja máxima tem sido: “quem não está comigo, é meu inimigo”. É um mundo de “sim” ou “não”. De preto ou branco. E o mundo real é cheio de matizes. Tem bem mais de 50 tons de cinza. Ignorá-los é um perigo. Ignorância é sempre um perigo. E sempre cobra seu preço.

Política

Fawkes, fakes e facas


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Esses tempos estranhos que vivemos sugerem fortemente a ingestão de tolerância e bom senso. Se possível, na veia. Nesse sentido, é altamente recomendável a leitura de “Círculo de Fogo”, de Ken Follet. É o último volume da trilogia iniciada por Follet com o magistral “Os Pilares da Terra”, na qual ele conta a história da Inglaterra e da Europa da Idade Média ao Renascimento a partir de uma cidade fictícia chamada Kingsbridge.

“Círculo de Fogo” trata da violentíssima disputa religiosa que atingiu a Europa após o protestantismo. Mostra como as tentativas de tolerância e de convivência entre as duas formas de cristianismo, a antiga e a nova, foram rechaçadas com sangue e estupidez por aqueles que acreditavam ter a verdade ao seu lado. Que acreditavam em um mundo maniqueísta. Em uma forma única de pensamento. Uma forma cuja máxima era: “Quem não está do meu lado está contra mim”. Preto ou branco. Se já houvesse tais iguarias na época, coxinha ou mortadela.

Curioso que um dos personagens no final do romance é Guy Fawkes. Aquele cuja máscara virou moda nas manifestações de protesto pelo mundo desde o Ocupa Wall Street. Aí, graças à história em quadrinhos de Alan Moore, “V de Vingança”. A máscara vira aqui um símbolo dos nossos tempos. Não pelo que representa a HQ de Moore, mas pelo que ela, a máscara e seu personagem, evoca de ignorância e intolerância, talvez os dois maiores predicados da época em que vivemos.

“Círculo de Fogo” narra os acontecimentos na Inglaterra da segunda metade do século 16 até o início do século 17, depois que Henrique VIII, inspirado pelo protestantismo, abandona o catolicismo e cria a religião anglicana. Os anos seguintes serão de intensa violência e reações, seja dos que desejam a volta do catolicismo, seja dos novos protestantes. Após a morte de Henrique VIII, assume o trono da Inglaterra Eduardo IV. E depois dele Maria Tudor, ou Maria I. Católica radical, ela abole a reforma religiosa e promove o retorno do catolicismo. Os que se opusessem e mantivessem o protestantismo eram severamente punidos, não raramente queimados na fogueira. Não por acaso, Maria Tudor inspirou o drink com suco de tomate chamado Bloody Mary. Claro: Maria I tinha certeza que a verdade estava do seu lado, e que a verdade justificava qualquer um dos seus atos.

Maria I teve diversas gravidezes psicológicas. Mas nenhum herdeiro. Quando morreu, gerou uma disputa entre Elizabeth I, que assumiu o trono, e Maria Stuart, rainha da Escócia. Elizabeth restabeleceu o protestantismo na Inglaterra. Mas tentou gerar um ambiente de tolerância religiosa. Durante todo o seu tempo, tais tentativas de tolerância foram rechaçadas pelos grupos radicais católicos. Especialmente por influência da França. Maria Stuart era filha de Maria de Guise, de uma influente família francesa católica, que passou a agir para derrubar Elizabeth do trono inglês e colocar Maria Stuart em seu lugar. Para se proteger das tentativas de golpe vindas da família Guise, Elizabeth criou o primeiro serviço secreto de espionagem da história. E, longe da tolerância pretendida, sob o pretexto de se defender, acabou matando um monte de gente.

Na França, as disputas entre católicos e protestantes eram também violentas. E geraram um dos mais sanguinários episódios da história: a Noite de São Bartolomeu. Cada nobre católico tinha por missão assassinar um nobre protestante. Seguiu-se daí uma carnificina sem controle em Paris. As pessoas se mataram nas ruas por meses. Os relatos falam de duas mil até 70 mil mortes em consequência do que se iniciou na noite de 23 de agosto de 1572. Claro: todos os envolvidos tinham certeza que a verdade estava do seu lado, e que a verdade justificava qualquer um dos seus atos.

A tentativa de golpe na Inglaterra acabou levando à decapitação de Maria Stuart. Após sua execução, o papa une-se ao trono da Espanha para tentar restituir o catolicismo na marra, numa tentativa de invasão da Inglaterra pela esquadra espanhola. Embora mais numerosa, a Marinha espanhola acaba derrotada pelos navios comandados pelo famoso almirante Francis Drake. Mais alguns milhares de pessoas mortas. Mas claro: todos estavam certos de que a verdade estava do seu lado e que a verdade justificava qualquer um dos seus atos.

Na virada do século, Elizabeth I morre. Em seu lugar, assume Jaime I, que curiosamente era filho de Maria Stuart. Apesar de filho de Maria Stuart, ele cresceu distante de sua mãe, como protestante. Adulto, converteu-se ao catolicismo. Por isso, acreditava-se que promoveria políticas de tolerância religiosa. Mas faz o contrário: ao assumir, estabelece regras ainda mais rigorosas de exigência do protestantismo como religião.

E é aí que entra na história Guy Fawkes. Provavelmente, um máximo de 10% das pessoas que andaram usando a sua máscara nos protestos o fizeram por causa da HQ de Alan Moore. Os outros 90% foram de onda. Dos 10% que leram a HQ de Alan Moore, no máximo uns 10% sabem quem realmente foi Guy Fawkes. Na história de Alan Moore, o homem que usa a máscara de Guy Fawkes é um anarquista num futuro distópico. Ele pretende realizar o atentado ao Parlamento que o verdadeiro Fawkes não conseguiu em 5 de novembro de 1605.

O verdadeiro Guy Fawkes nada tinha de anarquista. Era um católico fanático, que consegue encher um porão abaixo do Parlamento de pólvora. Seu plano era explodir com tudo, matando as centenas de pessoas presentes à cerimônia de abertura do Parlamento, incluindo aí o rei Jaime I e toda a família real. O serviço secreto que Elizabeth fundara descobre o plano e prende Fawkes. O homem que virou máscara de protesto, é claro, estava certo de que a verdade estava do seu lado e que a verdade justificava qualquer um dos seus atos.

Hoje, vivemos um tempo em que o conhecimento é disseminado por alguns posts nas redes sociais. Levando a informações distorcidas e apequenadas. Nesse sentido, nada como achar que Guy Fawkes foi um anarquista bem intencionado. E, a partir dessa “verdade”, concluir que a verdade está do seu lado e que ela justifica qualquer um dos seus atos.

Então, um lado diz que vai chamar seu exército. Então, um lado diz que vai incendiar o país. Então, o outro lado simula fuzis e metralhadoras com os dedos ou com outros objetos. Então, o outro lado chuta em comício um boneco que representa seu adversário. Então, alguém com a mente distorcida pelas informações e equívocos compartilhados pelas redes sociais pega uma faca na cozinha. E sai às ruas “a mando de Deus”. Ele sabe que a verdade está ao seu lado e que ela justifica qualquer um dos seus atos. Então…

Política

Torcer pode… Só não é jornalismo


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Foto: Fábio Pozzebon-Agência Brasil/EBC

A decisão tomada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que indeferiu a candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e impediu a sua campanha, não deveria ser surpresa para ninguém. Nós, na revista IstoÉ, antecipamos como seria a decisão do tribunal em reportagem de capa há três semanas. Em linhas gerais, salvo alguns detalhes, já se sabia desde então que a intenção do TSE era resolver a questão ainda em agosto, diante da convicção da maioria dos ministros de que gerava insegurança ao eleitor a campanha eleitoral se iniciar sem haver certeza sobre quem seriam ao final os candidatos no pleito. Insegurança que aumentava diante da certeza de que um dos candidatos não ia mesmo estar nas urnas em outubro. Depois disso, diversos outros veículos colheram as mesmas informações de fontes da Justiça Eleitoral.

Qualquer um tem o direito de torcer pelo desfecho que mais gosta. Pode desejar fervorosamente. Mas, ao escrever e publicar esses seus desejos, se eles não corresponderem ao que a realidade parece impor, não estará fazendo jornalismo. Pode-se questionar as razões da condenação que fazem com que Lula hoje cumpra pena preso na sede da Polícia Federal em Curitiba. Há até bons argumentos nesse sentido que devem ser levados em conta. Só não se deve propositalmente ignorar os fatos na construção de uma narrativa que iluda as pessoas.

Por isso segue parecendo de alto risco a estratégia adotada pelo PT. Se todos os fatos apontavam que o TSE decidiria a questão da inelegibilidade de Lula antes do início do horário eleitoral, a estratégia até agora só produziu ônus para o verdadeiro candidato, o ex-prefeito Fernando Haddad. Até agora não oficializado, Haddad ficou fora dos debates já realizados, ficou fora da rodada de entrevistas no Jornal Nacional, também não participou de outras entrevistas de outros veículos, sua agenda não aparece no noticiário no espaço reservado a divulgar as atividades dos candidatos. E o espaço de propaganda eleitoral dos presidenciáveis inicia-se sem a participação de Haddad e do PT. Impossível não questionar se tal estratégia não é mera egotrip de Lula. Se realmente é o melhor caminho para levar Haddad à principal cadeira do terceiro andar do Palácio do Planalto.

O PT poderá – e certamente fará isso – explorar a nova derrota dentro da narrativa que faz de perseguição política a Lula. Mas seus adversários certamente explorarão também o fato de que até agora Lula perdeu em todas as tentativas feitas por sua defesa na Justiça. No caso do TSE – que julga somente a questão da elegibilidade, sem entrar no mérito da condenação -, é preciso dizer que a convicção de que Lula não poderia disputar a eleição presidencial foi unânime. Até porque a Lei da Ficha Limpa não deixa muita margem para dúvida quanto à inelegibilidade de alguém condenado por órgão colegiado de segunda instância. Mesmo o ministro Edson Fachin fez questão de dizer que essa era a sua convicção. Considerava Lula inelegível.

A divergência de Fachin dizia respeito ao documento do Comitê de Direitos Humanos da ONU. Para ele, não era mera recomendação. Deveria ser obedecido. Ou seja: ele votou de modo diferente não porque era a sua convicção. Mas porque, na sua avaliação, havia uma determinação do comitê nesse sentido. O documento da ONU era, assim, o único trunfo que a defesa de Lula tinha. E, mesmo assim, revelou-se, ao final, frágil para reverter a convicção do tribunal.

Diificilmente um recurso ao STF, pelas manifestações que já fizeram diversos ministros, terá maior sucesso. Cada dia sem a oficialização de Haddad é um dia a menos de campanha para o PT e um dia a menos para que se busque fazer a transferência de votos de Lula para o verdadeiro candidato. Pesquisas mostram que tal transferência é possível. Mas ela precisa ser feita. Até agora, a maioria dos eleitores não sabe que Haddad é o candidato de Lula. Se o percentual de votos em Haddad aumenta quando ele é informado pelos pesquisadores de sua vinculação com Lula, é preciso que fique claro que tal informação não será dada pela Justiça Eleitoral. Ao aparecer a foto de Haddad, a urna não informará que ele é o nome apoiado por Lula. O eleitor precisará saber disso. E, até agora, a estratégia adotada não ajuda nesse propósito.

Ignorar os fatos diante de um desejo não costuma ser o melhor caminho para o sucesso de uma estratégia.