Política

Esse incrível governo sanfona…


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Foto: Marcelo Camargo – Agência Brasil/EBC

Seguidamente, os atos e declarações do atual governo têm efeito parecido ao das tempestades de verão. São breves, mas são fortes. Sabe-se que vai passar, mas sabe-se que deixará diversos efeitos deletérios pelo caminho: alagamentos, desabrigados, transtornos…

É o caso da declaração do ministro da Educação, Abraham Weintraub, de que determinaria corte em verbas de universidades pela avaliação absolutamente subjetiva e discricionária de que elas promoveriam “balbúrdia”. Promovida de fato a “balbúrdia” a partir da declaração do ministro, recuou-se do critério selecionador e estabeleceu-se um corte linear para todas as universidades. Continua sendo uma péssima notícia para o ensino superior. Mas, pelo menos, não haverá aí nenhum tipo de critério que pareça perseguição ou censura.

Mas a declaração de Weintraub produziu e produz ainda seus efeitos, como uma tempestade de verão. As redes sociais se coalharam de um lado de defesas veementes das universidades atacadas e da sua produção acadêmica. E de outro por fotos de festas provavelmente falsas e não comprovadas com gente pelada e outros excessos.

Não foi a primeira e certamente não será a última vez que o governo declara que fará uma coisa e recua depois. Essa tem sido uma rotina. Que, talvez, faça parte de uma estratégia, dentro desse novo formato estranho de comunicação via redes sociais, que ainda muito espanta e que precisa muito ser melhor estudado. Antes da volta aos Divergentes, já conversávamos que há método no Golden Shower. Também falamos sobre isso aqui .

A fala de Weintraub mobilizou os exércitos virtuais. E essa parece ser a primeira função de fato. Uma necessidade de manter a guerra nas redes. Uma necessidade de busca de manutenção do ambiente de polarização que levou à vitória do atual governo. Do outro lado, a oposição mais radical parece sentir que também somente a manutenção dessa polarização preserva sua chama acesa.

O segundo ponto a dirigir esse avança e recua é a manutenção de certa tática diversionista. Desvia-se o foco para esses temas que o próprio governo mais tarde não sustenta. Se não sustenta, os torna de fato periféricos. Mas eles, ainda que não produzam efeitos, tratam de encher de assunto e argumentos os exércitos virtuais. Que deixam de lado os temas essenciais. A predileção pelo diversionismo mantém vivo um governo ainda de muito poucos resultados práticos.

O grande problema dessa prática é que, alimentadora de conflitos, ela nutre também diversos embates internos. É um governo em crise interna permanente. Olavistas brigam com militares. Que brigam com evangélicos. Que brigam com mais alguém.

Uns noticiam que o ministro da Justiça, Sérgio Moro, está insatisfeito e quer sair do governo. Outros noticiam que quem vai sair é Damares Alves, dos Direitos Humanos. Ambos, porém, permanecem. Desmente-se a notícia. Mas ninguém tenha dúvida de que as informações iniciais saíram de fontes de dentro do próprio governo. Ou porque as insatisfações existem ou porque determinados grupos querem desgastar determinados ministros. Ou porque informações ditas e desmentidas também ajudam na tática diversionista.

E segue, assim, o baile. Um baile que, nesse avança e recua, vai sendo regido por um solo de sanfona. É abrindo e fechando o fole bem rapidamente que hoje se governa.

Política

O barril de pólvora venezuelano mora ao lado


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Foto: Antonio Cruz-EBC/Agência Brasil

Na reunião na terça-feira, 30, em que o governo avaliou a situação da Venezuela, o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, levou informações colhidas com o secretário de Estado dos Estados Unidos, Mike Pompeo, que davam conta de que Juan Guaidó poderia sair vitorioso da rebelião que plantava no país. O vice-presidente Hamilton Mourão, o ministro da Defesa, general Fernando Azevedo, e o chefe do Gabinete de Segurança Institucional, general Augusto Heleno, ficaram mais reticentes. E a posição de prudência dos três militares acabou prevalecendo. Guaidó não derrubou Nicolás Maduro. A crise na Venezuela prossegue. Pode descambar para uma guerra civil, mas não há qualquer indício que aponte de forma clara qual dos lados sairá vitorioso.

A diferença entre as posições de Araújo e dos ministros militares é mais um dos vários episódios a mostrar maior equilíbrio e prudência da ala militar. Araújo – e provavelmente não era muito diferente a posição de Mike Pompeo – mais torcia do que avaliava cenários. Os militares traziam a impressão que colheram ouvindo seus próprios colegas das Forças Armadas venezuelanas. Especialmente Mourão, que foi adido militar na Venezuela por dois anos e ainda tem contatos por lá. Mourão tinha informações de que o apoio a Guaidó dentro das Forças Armadas venezuelanas era pequeno, e que ele não teria suporte para sustentar a rebelião que pregava. Talvez não conseguisse também arregimentar apoio popular na proporção necessária para tomar o poder.

Mourão conhece as características do barril de pólvora venezuelano. Sabe que o país está cindido ao meio desde que Hugo Chávez ascendeu ao poder. Ali já havia uma clara divisão. Desde então, a crise instalou-se no país e não houve mais momento de paz. Sabe também das dificuldades de uma rebelião popular mais sólida em um país com grande concentração populacional nas grandes cidades, como Caracas. Nas regiões mais isoladas, mais pobres, os governos chavistas mal ou bem melhoraram as condições de vida da população.

Em uma conversa recente, Mourão já me falava dos riscos que envolviam a presença da Rússia e de Cuba na Venezuela. Desde que a crise se instalou, o governo de Vladimir Putin enviou tropas e armamentos para dentro do país. No caso de Cuba, é forte a infiltração  nos serviços de inteligência do governo de Maduro. Ali, a partir dos cubanos, estabeleceu-se um certo poder de milícia, que hoje conversa com organizações criminosas, tráfico de drogas. Fala-se na presença de 20 mil a 60 mil cubanos atuando nas áreas de inteligência da Venezuela. Alas militares venezuelanas estão misturadas nisso. Extremamente difícil desfazer.

Desde que os americanos se enfiaram no Vietnã na década de 1970, ou no Iraque mais recentemente, sabe-se bem o tamanho do desgaste que provoca uma guerra perdida. Cuja necessidade não fica clara para a população. Baseada em dados falsos ou distorcidos. Criados mais por um desejo de torcida que pela real avaliação dos fatos e do cenário.

A opção pragmática da diplomacia brasileira, que hoje parece correr sérios riscos com Araújo, não se deu somente por escolha. É, de fato, a opção mais sensata para um país com o tamanho que o Brasil tem nas relações internacionais – não se trata aqui do seu tamanho físico, territorial. Se o apoio a guerras insensatas desgastou os Estados Unidos, a maior potência bélica mundial, imagine o que faria conosco.

Conhecedor da Venezuela, Mourão não parece acreditar muito que a saída ali se dará pelas ingerências externas. Considera muito mais que os próprios venezuelanos acharão um caminho diante da total insolvência do país. Um país que não aguentará mais por muito tempo a crise em que vive. A pressão externa, assim, deve se dar pela via diplomática. Há um barril de pólvora prestes a estourar na nossa fronteira norte. Seria uma irresponsabilidade sermos nós a acender o pavio.

Política

Falta gasolina no Posto Ipiranga


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Com a enquadrada que levou a respeito do imposto previdenciário, é a segunda vez que o secretário de Receita, Marcos Cintra, é desautorizado pelo presidente Jair Bolsonaro. A primeira vez foi em novembro, Bolsonaro ainda nem tinha tomado posse, quando Cintra era assessor de Paulo Guedes na transição e propôs a criação de um imposto sobre movimentação financeira. Na ocasião, diante da reação do então presidente eleito, chegou-se a dizer que Cintra talvez nem virasse secretário. Agora, não será surpresa se ele acabar demitido.

Quatro meses depois da posse, vão caindo alguns mitos construídos na campanha em torno do “Mito”. Um deles é quanto à autonomia que seria dada a determinados ministros, especialmente Paulo Guedes, o “Posto Ipiranga” da economia. Quem esperava um Bolsonaro tutelado por certos setores de seu governo, rápido vai percebendo que estava equivocado. Bolsonaro exerce a sua Presidência. O que não quer dizer exatamente que isso seja de todo bom.

No caso da economia, o apelo a Paulo Guedes como o Posto Ipiranga era uma forma de se esquivar das questões mais técnicas. Bolsonaro admitia não entender de economia. E dizia que, nesse quesito, quem quisesses as respostas devia procurá-las diretamente no Ministério da Economia. No seu Posto Ipiranga.

A Guedes o recado parecer ter sido entendido da seguinte forma. Economia é um tema complexo. O país vive uma crise grave, que precisa de remédios amargos para ser contornada. Guedes imagina ter o caminho para tirar a carroça do atoleiro. Mas é um caminho que exige sacrifícios. Imaginava construir uma pasta forte, com técnicos decididos como ele, para desatolar a carroça. Se achava que conseguiria fazer isso sem intervenções, vai se frustrando um bocado. Falta gasolina no Posto Ipiranga.

Como qualquer outro político que se elege, por menos que admita, Bolsonaro tem seus compromissos. E é por conta desses compromissos que ele intervém. E é por conta desses compromissos que alas que imaginavam poder tutelá-lo não conseguem.

Em entrevista recente, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), fez uma acertada avaliação dos dilemas que cercam Jair Bolsonaro. Ao listar defeitos e qualidades do presidente, Maia enxergou uma forte fidelidade dele ao núcleo central do seu eleitorado. Uma parcela mais radical e sólida que lhe garantiu os 15% iniciais na campanha e que lhe deram a musculatura necessária para ser um candidato competitivo. Ao se apresentar como o grande antípoda do PT, Bolsonaro ampliou-se para além desses 15%, angariando outros segmentos que também não desejavam os petistas de volta. Empresários, gente do sistema financeiro, enfim, os liberais. Os militares. Políticos de partidos de centro-direita, como o DEM. Esses segmentos esperavam ter capacidade maior de influência no governo. Para Maia, batem-se contra o núcleo central do bolsonarismo. E Bolsonaro, por muitas vezes, tem se mantido fiel a esse núcleo. Ainda que ao final ele tenha se tornado minoria no seu eleitorado. E na sociedade.

Nas duas vezes, Cintra sugeriu impostos não discricionários. Pagos por todo mundo. E, nas duas vezes, Bolsonaro reagiu pela pressão da sua base mais sólida. No caso agora, por pressão das igrejas evangélicas. Cintra não pretendia criar um imposto só para elas. Citou-as para dizer que o tributo que pretendia seria pago por todos. Mas mexeu em um vespeiro. Para além dos evangélicos, também é tema tabu entre o eleitorado de classe média – igualmente forte na base bolsonarista – falar em novos impostos. Já basta o sacrifício que haverá na Previdência. E assim o próprio Maia acabou saindo também contra Marcos Cintra.

Fica, porém, demarcado que nenhum dos setores que julgavam ter poder e autonomia dentro do governo na verdade os têm. Quem manda no Posto Ipiranga é Bolsonaro. Como se viu no episódio da destituição de Ilona Szabó do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária, quem manda no Ministério da Justiça é também Bolsonaro, e não Sério Moro. Como se viu no episódio do aumento do óleo diesel e da propaganda do Banco do Brasil, é Bolsonaro também quem manda nas estatais. E como se vê nas constantes pendengas com o vice-presidente Hamilton Mourão ou com o secretário de governo, general Santos Cruz, os militares também não tutelam o presidente.

No fundo, não pode ser uma surpresa perceber que um presidente com o perfil de Bolsonaro queira exercer autoridade. O risco ocorrerá se ele não perceber que o Brasil é bem maior e mais complexo que sua base sólida de 15%.

 

Política

Carluxo só sabe ser oposição


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Embora já tenha demonstrado diversas vezes que se trata de um fator de crise permanente, o presidente Jair Bolsonaro não vai “demitir”seu filho Carluxo do comando das suas redes sociais. Como escrevi antes por aqui, “há método no Golden Shower“. Carlos Bolsonaro é uma espécie de Grilo Falante ao contrário de Jair Bolsonaro. Se na fábula infantil o bichinho servia de consciência ao boneco de pau Pinóquio, cochichando no seu ouvido palavras de moderação, Carluxo berra radicalismo nas orelhas do pai presidente. Ele diz tudo o que o pai gostaria de dizer mas que, em função do cargo, não pode assumir.

O vídeo de Olavo de Carvalho criticando o vice-presidente Hamilton Mourão, o pivô da nova crise, não foi a primeira postagem a aparecer e depois ser retirada dos perfis de Jair Bolsonaro nas redes. Isso tem acontecido rotineiramente. Foi assim, por exemplo, no tal vídeo do ator que lia texto defendendo a ditadura militar. A postagem entra, provoca seus efeitos, depois sai como se fosse um engano. Mas os filhos de Bolsonaro – especialmente Carlos, e um pouco menos Eduardo. Flávio é o que menos entra nessa trama, embora tenha sugerido à turma do Hamas que se explodissem – seguem depois mantendo a tensão.

Fica claro que o papel de Carlos Bolsonaro é botar fogo no circo. Depois, o presidente sai de debaixo da lona a tempo e os dois ficam contemplando o incêndio. É uma experiência meio maluca, fruto desses novos tempos de comunicação via redes sociais que ainda desafia o entendimento dos analistas políticos. Nas redes sociais, a ideia de diálogo e concertação de ideias que sempre marcou as democracias é substituída por uma guerra. Ninguém quer convencer ninguém. Quer apenas derrotar os adversários, seguir em frente e deixar os corpos vencidos pelo caminho.

É um tipo de estratégia que funcionou muito bem para fazer Bolsonaro chegar com grande sucesso à Presidência da República. Da mesma forma como fizera com Donald Trump nos Estados Unidos. Nesse ambiente de guerra, permite a vitória não exatamente daqueles que tenham os exércitos maiores. Mas de quem tenha os exércitos mais organizados para a guerra virtual.

No caso de Bolsonaro, ele obteve assim os 15% mais radicais que são as tropas bolsonaristas mais fieis. Uma tropa que teve papel importantíssimo para dar ao presidente a musculatura inicial que o colocou de forma competitiva na campanha. Ao longo do tempo, para além disso, a candidatura foi se ampliando pela forma como colou como antípoda do petismo. Quando se consolidou na maioria do eleitorado o desejo de por fim à era do PT no poder, os demais eleitores além do bloco inicial consolidado de 15% de bolsonaristas aderiram ao projeto. E venceram a guerra.

O problema é que, vencida a guerra, é preciso construir tempos de paz. E é aí que o modelo de Carluxo não se encaixa. Ele não sabe viver em tempos de paz. Ao derrotar os inimigos da campanha, vai colecionando novos inimigos. Cola, então, no presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), que devia ser o avalista no Congresso das reformas estruturantes, a pecha de “velha política”. Enxerga em Gustavo Bebianno, que comandou o partido de Bolsonaro na campanha, o “vazador” de notícias para a velha imprensa. Enxerga nessa velha imprensa, cujos proprietários alinham-se inteiramente com a necessidade das reformas e com o pensamento liberal, “um bando de esquerdopatas comunistas”. E vê Hamilton Mourão como um inimigo que quer tomar do pai o poder. Escolhe Olavo de Carvalho como aliado, alguém que tem exatamente como especialidade tocar fogo nos circos. Nem no Brasil vive para não sofrer as consequências dos incêndios que provoca.

Parece mais do que evidente para qualquer grupo sensato que, vencida a guerra, Bolsonaro precisaria ampliar-se do seu grupo original de 15%. E os aliados óbvios seriam os grupos conservadores no Congresso – como o DEM de Rodrigo Maia -, os setores liberais da sociedade – do qual fazem parte os proprietários dos meios de comunicação -, e os militares – meio com o qual Bolsonaro, embora fora do Exército há mais de vinte anos, sempre procurou se identificar.

Não deixa de ser verdade o argumento, que parece definir o comportamento de Carlos e que Jair Bolsonaro endossa, de que esses grupos sempre pretenderam tutelar o atual governo. Especialmente os militares e os partidos conservadores tradicionais, como o DEM. Enxergam, sim, em Bolsonaro, uma janela de oportunidade. O presidente coloca seu filho Carluxo para resistir a isso a seu modo nas redes sociais. Provocando, porém, um estado de crise desnecessária. Que transforma os tempos que deveriam ser de paz em novos tempos de guerra.

No entanto, não há qualquer sinal – a não ser de quem cultive alucinações paranoicas – de que tais grupos tenham a intenção de apear Bolsonaro do poder para assumir em seu lugar. Parece mais claro um desejo de ascender pegando carona no fenômeno para colher os frutos mais tarde, nas disputas eleitorais do futuro.

Se Mourão preparou-se para, como vice, exercer um papel mais moderado do que o figurino que envergava antes como militar, palmas pra ele. Compreendeu como deve se comportar em tempos de paz. Talvez pudesse mesmo ser mais discreto. Mas isso deveria significar aceitar as excentricidades, para dizer o mínimo, de certas declarações e comportamentos do governo?

Se o Congresso e os partidos tradicionais mais conservadores querem colher frutos de uma aproximação com o governo, também não é algo que devesse surpreender. Mesmo que ninguém aconselhe Bolsonaro a ser fisiológico e aceitar o toma-lá-dá-cá, é natural que o DEM e outros partidos queiram exercer poder de influência que sirva como cacife para voos eleitorais mais tarde. E se o governo precisa desse apoio para aprovar seus projetos no Congresso, precisa saber aceitar isso. Mais adiante, com o sucesso dos projetos, que dispute o papel de protagonista. Quem quer aprovar emenda constitucional tem de estar preparado para fazer esse jogo.

Vencida a guerra, em tempos de paz, o vencedor precisa se ampliar sobre os derrotados. Não pode imaginar que eliminará da face da Terra todos os demais e reduzir o Brasil aos seus 15% mais fieis. É onde esbarra a estratégia de Carlos Bolsonaro. Carluxo não sabe ser governo. Só sabe ser oposição.

 

Política

A politização da Justiça


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Foi o saudoso jornalista e cientista político Ariosto Teixeira um dos primeiros a apontar para o fenômeno que ficou conhecido como judicialização da política. Um Legislativo fraco e um Executivo em crise permanente deram espaço para que o Judiciário, pela anomia e fraqueza dos dois outros poderes, começasse a legislar e a resolver diversas das questões políticas.

Foi assim que o Supremo Tribunal Federal permitiu, entre outras questões, o casamento entre pessoas do mesmo sexo ou o aborto de bebês anencéfalos. O Congresso não tinha condições ou força para se organizar, a Justiça resolvia em seu lugar.

O fenômeno produziu um imenso protagonismo do Judiciário nos últimos anos. Virou coisa comum se recorrer ao Supremo para resolver as querelas que muitas vezes não eram jurídicas. De Corte discreta e sóbria, o STF foi ganhando destaque, seus ministros foram se tornando figuras conhecidas. Alguns ganharam aos olhos da sociedade aspecto de heróis. A toga virou a capa preta de um Batman justiceiro.

Neste momento em que a crise agora atinge o próprio Judiciário como um todo e o STF em particular, parece ter havido uma evolução daquele fenômeno que Ariosto enxergou lá atrás, ainda no governo Fernando Henrique Cardoso. A musculatura que superfortaleceu o Judiciário nos últimos anos parece ter evoluído da judicialização da política para a politização da Justiça. E aí está uma das raízes da crise que agora seriamente abala a reputação da Suprema Corte.

É claro que a Justiça e o Supremo sempre foram políticos. O próprio modelo de escolha dos ministros do STF por nós escolhido reforça esse aspecto. Os ministros são nomeados pelo presidente da República e sabatinados e aprovados pelo Senado Federal. Em tese, parece ser uma boa trama de diálogo entre os Poderes, envolver Executivo e Legislativo no processo de escolha dos juízes da Suprema Corte. Ocorre, porém que, nesse processo, os ministros entram devedores da escolha primeiro do presidente e da aprovação depois do Senado. Quando estão sendo escolhidos, fazem uma peregrinação pelos gabinetes dos senadores. O que acertam, o que prometem, fica eternamente entre eles.

Enquanto tais acordos e acertos continuavam formando o processo de escolha da Suprema Corte, ganhavam independência e força o Ministério Público e a Polícia Federal. Que se associaram numa jornada de saneamento da corrupção política. Uma jornada que só teria sentido se, evidentemente, culminasse com a condenação dos culpados. Na associação iniciada entre MP e PF, entrou também o Judiciário. Da primeira instância de Curitiba com Sérgio Moro ao STF.

O problema é que os tais acordos e compromissos para as escolhas parecem emergir dos subterrâneos à medida em que tal processo avança e esbarra nas suas idiossincrasias. Claramente, a divisão do Supremo – que muitas vezes vai às vias de fato – está na forma como os ministros compreendem o papel que devem ter nesse processo de saneamento da política. O que várias vezes também deixa transparecer as amizades e compromissos pregressos. Um processo que dividiu o Supremo.

Parte do STF discursa que MP e PF extrapolam das suas atribuições na escalada a que se impuseram. Que politizam as investigações. Que passam por cima das leis e das regras. Outra parte associa-se aos esforços saneadores. Seria risível se não fosse trágico na insegurança jurídica que provoca a história da Turma que prende contra a Turma que solta. As decisões de um ministro que são reformadas pela decisão de outro.

O último passo desse processo é o que estampa os nomes dos próprios ministros do Supremo no rol de denunciados no tal processo de saneamento. Assim como já vinha acontecendo com altos figurões dos outros dois poderes, os figurões do Judiciário passam também a ser os personagens dos vazamentos de processos para a imprensa, das investigações veladas, ganham as manchetes dos jornais e as capas de revista. De condenadores, caíram na vala comum dos condenados – pelo menos, dos condenados pela opinião pública. E apelam às vezes violentamente invocando os superpoderes que ou ganharam ou acharam ter ganho nos últimos anos.

Talvez devesse ser o ponto de inflexão a fazer com que nós, ingênuos brasileiros, parássemos de acreditar em mocinhos e bandidos. Deixássemos de delegar a santos milagreiros, mitos incontestes e combatentes de capa as nossas mazelas. O Brasil pode sair desse processo mais maduro. Ou continuar acreditando em contos da Carochinha. A escolha é nossa.

Política

Acredite: há método no golden shower


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Uma coisa sobre a qual a ciência política ainda terá de se debruçar com mais profundidade é o efeito da atual era virtual e do crescimento da comunicação via redes sociais nas democracias. Até, então, parecia claro que as democracias, na busca do consenso a partir das maiorias, acabava na maioria das vezes fazendo com que os resultados eleitorais pendessem para o centro. No processo de diálogo, os extremos iam sendo limados. Há sinais bem claros de que o processo de construção política a partir das redes sociais altera esse comportamento.

As redes sociais não estimulam exatamente o diálogo. Geram muito mais uma guerra pesada de pontos de vista. E o propósito de uma guerra não é chegar a um consenso. É derrotar o inimigo. Numa guerra, os vencedores avançam e deixam pelo caminho os corpos dos seus adversários. Não parece haver outro motivo para explicar por que as eleições do ano passado acabaram por se transformar numa estridente disputa radical entre esquerda e direita, com a vitória de Jair Bolsonaro como a opção de direita.Nem sempre uma guerra é ganha por quem tem o maior exército. É ganha por aqueles que melhor se prepararam para ela. Que tiveram a melhor estratégia.

Talvez esteja aí a razão pela qual Bolsonaro seja hoje o presidente com pior avaliação da sociedade, de acordo com as pesquisas, entre os eleitos desde a redemocratização. A verdade é que ele nunca foi a opção da maioria. A maioria dividiu-se entre os demais candidatos na disputa. Pode-se argumentar que isso também aconteceu nas demais eleições, com os demais presidentes. Ocorre, porém, que Bolsonaro, nestes seus primeiros cem dias de governo, ao contrário dos demais, não procurou amenizar seu discurso para se aproximar dos demais setores da sociedade que não estão intimamente ligados a ele e ao seu discurso. Pelo contrário, até nos ambientes em que a busca do consenso é absolutamente vital e necessária – como no Parlamento, para aprovar a reforma da Previdência –, Bolsonaro alterna tentativas de diálogos com grossas caneladas. Diz, por exemplo, que não vai se submeter à “velha política”, e que não fará isso porque “não quer jogar dominó no xadrez com Lula e Michel Temer”.

É por isso que a reforma avança e recua, gerando desânimo entre empresários e os demais setores que a apoiam. Uma ala mais moderada dentro do governo aconselha que se pare com o debate mais polêmico. Que Bolsonaro retorne aos métodos tradicionais de governo e pare de sacar seu dedo explosivo no Twitter e no Facebook. A verdade, no entanto, é que Bolsonaro provavelmente não vai parar. Acredite: há método no golden shower.

A guerra virtual nas redes sociais não parou com a eleição. Nem vai parar. Ela é parte do novo modelo de comunicação. Se por um lado Bolsonaro precisa buscar consensos para aprovar no Congresso a reforma da Previdência ou o pacote anti-crime do ministro da Justiça, Sérgio Moro, por outro ele precisa manter mobilizados seus exércitos para a guerra virtual.

Esse novo modelo de comunicação sepultou a informação como seu bem maior. A informação foi trocada pela confirmação. Nas bolhas virtuais, o que cada um deseja é a confirmação do que já acredita. Está aí o método por trás do golden shower. Se o vídeo pornô divulgado por Bolsonaro choca quem está fora da bolha conservadora, dentro dela serve de confirmação. Para os que acham que carnaval é só sacanagem, putaria.

Dentro da esfera do governo, esse parece ser o papel de ministros como Damares Alves, dos Direitos Humanos, e Ernesto Araújo, das Relações Internacionais. Explica também porque o colombiano Ricardo Vélez Rodrigues foi substituído no Ministério da Educação por Abraham Weintraub. Em termos ideológicos, trocou-se media docena por meia dúzia.

Na comunicação, a manutenção desse caminho tem como expoente o filho do presidente, o vereador Carlos Bolsonaro. Se boa parte enxerga Carlos como fator de confusão – como se evidenciou no episódio da demissão de Gustavo Bebbiano – assim não parece ver o próprio Bolsonaro. Que, numa entrevista recente, voltou a elogiar o filho. Goste-se ou não, Carlos faz para o pai no mundo virtual exatamente o que combinou com ele.

A verdade é que, nesse processo, a parte mais estridente da oposição segue pelo mesmo caminho. O PT tem hoje um discurso radical que nunca teve quando foi governo. Esmera-se na produção de “tigrões” e “tcutchucas” que beiram a tolice. O desvio de foco e o diversionismo viraram a tônica do debate político.

Nestes primeiros cem dias de governo, essa opção pela guerra virtual mostrou-se motivo de desgaste e crise permanente. Mas, num processo cujo propósito não parece ser mesmo buscar consensos, ela mantém mobilizado o exército de Bolsonaro. E discursos parecidos mobilizam os exércitos de parte da oposição. Provavelmente, os próximos cem dias não serão diferentes. A tranquilidade é, assim, deixada de lado. Mas é assim que a banda agora toca. E nem podemos reclamar. Porque, nessa banda, nós também empunhamos entusiasmados nossos instrumentos.

Política

Nunca mais!


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Por uma dessas coincidências da vida, termino justamente hoje a leitura de “Silêncio na Cidade”, romance do meu amigo, o jornalista Roberto Seabra. Meu querido amigo Beto construiu o que os franceses chamam de “roman à clef” – numa tradução livre, “romance com chave”, formato no qual se usam personagens fictícios em substituição aos personagens reais – para retratar o caso Ana Lídia. Neste 31 de março, o golpe militar que mergulhou o país por vinte anos numa ditadura completa 55 anos. Em setembro, o assassinato de Ana Lídia completará 46 anos.

Nestes estranhos tempos, há quem sugira comemorar os 55 anos do dia que virou uma noite de vinte anos. Rememorar aquele dia e suas consequências certamente é algo muito necessário. Rememorar, lembrar, para que nunca mais se repita. Comemorar… Não há nada a comemorar…

Há dezenas de tristes histórias de torturas, assassinatos, desaparecimentos que poderiam ser lembradas para mostrar que não há nada a comemorar. Serão histórias que mostrarão a covardia de um regime que impôs força absolutamente desproporcional contra seus opositores, contra seus adversários. Serão histórias de um regime que se impôs pelo medo, pela sombra, pela violência.

Mas, em todos esses casos, se contarão histórias de violência – ainda que desproporcional – contra adversários do regime. O caso Ana Lídia mostra, porém, como a sombra da ditadura não atinge somente seus adversários. Ela cai, gelada, sobre qualquer um. Ela vitima também os inocentes. Ana Lídia era uma menina de apenas 7 anos. Seus pais, funcionários públicos. E seu bárbaro assassinato nada teve a ver com a forma como eles pensavam ou atuavam. Linda, loura, de olhos azuis, Ana Lídia parecia um anjo de igreja barroca. Nada poderia emoldurar mais que seu rosto a imagem da absoluta inocência.

Às 13h do dia 12 de setembro de 1973, Ana Lídia foi encontrada nua em um matagal próximo à Universidade de Brasília, semienterrada numa vala próxima a marcas de pneus e duas camisinhas. Seus cabelos tinham sido cortados e havia marcas de cigarro em diversas partes do seu corpo.

Em “Silêncio na Cidade”,  Beto Seabra descreve como as investigações chegaram ao irmão de Ana Lídia, Álvaro Henrique Braga. Ele e sua namorada, Gilma Varela de Albuquerque, teriam cometido a barbaridade de entregar a menina como pagamento de uma dívida de drogas junto a traficantes. Venderam a menina pra pagar uma dívida de drogas!

Um dia antes de ser encontrada morta, Ana Lídia foi levada para um sítio nas proximidades de Brasília. Foi nesse sítio que todo tipo de barbaridade foi cometida contra a menina. E é aí que ela deixa de ser somente a vítima de um crime bárbaro para se tornar uma vítima da ditadura.

O sítio pertencia ao então vice-líder da Arena, partido que apoiava a ditadura, no Senado, Eurico Rezende. Entre os suspeitos de terem assassinado Ana Lídia, estavam o filho de Eurico Rezende, Eduardo Ribeiro Rezende, e o filho do então ministro da Justiça, Alfredo Buzaid, Alfredo Buzaid Júnior, conhecido como Buzaidinho. O terceiro suspeito era o traficante  Raimundo Lacerda Duque.

Como narra Beto Seabra em seu romance, o Estado, com a força que só têm as ditaduras, trabalhou para abafar o caso e impedir que as investigações avançassem sobre o filho do senador e o filho do ministro da Justiça. No dia 20 de maio de 1974, a Polícia Federal emitiu um notificado que somente as ditaduras emitem: “De ordem superior, fica terminantemente proibida a divulgação através de meios de comunicação social escrito, falado, televisado, comentários, transcrição, referências e outras matérias sobre caso Ana Lídia”.

Até hoje, não houve um desfecho para o caso. Ninguém foi punido. Há quem ainda leve flores ao túmulo de Ana Lídia. Há quem a considere uma santa. Talvez alguns poucos se lembrem, ao passar pelo escorregador em forma de foguete que há no Parque da Cidade, que ele foi batizado com o nome de Ana Lídia.

Esses que se lembram percebem que há uma chaga viva no coração da cidade que nunca vai se fechar. Chaga que se abriu no dia em que uma menina de sete anos foi violentada até a morte por rapazes que se julgavam capazes de tudo somente porque eram filhos de altas autoridades da República em tempos sem Justiça e sem democracia. O dia também em que pelos louros cachos e pelos olhos azuis de Ana Lídia a cidade perdeu sua inocência. E percebeu que todos, sem distinção, eram vítimas da sombra que escurecia aqueles dias.

As ditaduras assombram. As ditaduras gelam. As ditaduras amedrontam. As ditaduras violentam. As ditaduras disseminam o ódio. As ditaduras impedem o diálogo. As ditaduras dividem as pessoas. As ditaduras fazem chorar e ranger os dentes. As ditaduras nada comemoram. As ditaduras não podem voltar. Nunca mais!