Política

Um tsunami chamado Flávio


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Foto: Wilson Dias/Agência Brasil-EBC

Ninguém sabe se quando previu na semana passada a ocorrência de um tsunami o presidente Jair Bolsonaro se referia à decisão da Justiça de quebrar o sigilo bancário de seu filho, o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ). Talvez os organismos de inteligência do governo já tivessem detectado a possibilidade de que isso viesse a acontecer. Talvez tenha sido por isso que Flávio decidiu partir para cima do Ministério Público na entrevista que deu ao jornal O Estado de S. Paulo alegando ser vítima de uma perseguição política que visa desestabilizar o governo do seu pai. Talvez ambos já estivessem preparando o terreno para justificar o ocorrido.

Tenha sido esse ou não o tsunami previsto pelo presidente, é inegável, porém, que se trata de uma onda imensa. Com enormes possibilidades de estrago. Já seria bem grave apenas se saber que a Justiça determinou a quebra do sigilo bancário de um senador da República que é também filho do presidente da República. Mas, para além disso, há uma série de outras questões envolvendo a investigação que apontam para a possibilidade de o tsunami varrer com força a costa do planeta Bolsonaro.

Desde que o Conselho de Controle da Atividade Financeira (Coaf) detectou que Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio movimentou de forma suspeita R$ 1,2 milhão nas suas contas, o caso só ganha em gravidade. Em vez de dar alguma explicação sobre o que fazia para justificar a bolada que movimentou, Fabrício Queiroz simplesmente desapareceu. Convocado, não compareceu para dar explicações. E ninguém hoje sabe do seu paradeiro. Flávio, da mesma forma, foi instado a se explicar ao Ministério Público e também não fez isso. Ao determinar a quebra do sigilo dos dois e de outros envolvidos, a Justiça chegou a cogitar a hipótese de decretar também a prisão de Fabrício Queiroz. Pode ser que isso ainda venha a acontecer.

Se os dois não explicam, a investigação certamente em algum momento dirá qual foi a origem do dinheiro movimentado por Queiroz. Se ele agia sozinho. Ou sob ordem de alguém. Se há dinheiro público envolvido. Dinheiro dos salários dos demais assessores do gabinete ou não. Dinheiro de outros ou não.

Há, tanto no caso como em outros, uma série de indícios de que Bolsonaro e seus filhos, na atividade parlamentar, podem ter se valido de alguns expedientes pouco republicanos comuns no chamado baixo clero da política. Contratação de funcionários fantasmas. Uso de laranjas. Formação de caixinha com dinheiro dos servidores para financiar campanhas. Rachadinhas, que é o esquema pelo qual o parlamentar recebe de volta parte do salário que combina com os funcionários. Se era isso o que acontecia, é um delito comum a vários vereadores e deputados de diversos gabinetes. Mas a comprovação da ocorrência desses expedientes já vai empanar um bocado o discurso de moralização do presidente, muito baseado na dita intolerância ao fisiologismo, ao toma-lá-dá-cá, à velha política. Deixaria clara a prática da pequena corrupção por parte do filho do presidente. A pequena corrupção do baixo clero. E o baixo clero pratica a pequena corrupção somente porque não tem acesso à grande corrupção.  O que ocorre com quem pratica a pequena corrupção quando passa a ter acesso à grande?

Mas há alguns indícios de coisa mais grave. Ligados à possibilidade relações tanto de Flávio quanto de Queiroz com as milícias do Rio de Janeiro. Há algum tempo, reportagem da revista IstoÉ mostrou que Val Meliga, irmã de dois milicianos presos, Alan e Alex Rodrigues Oliveira, tinha autorização de Flávio para assinar cheques em nome dele na sua campanha para o Senado.

As investigações que serão feitas após a determinação de quebra do sigilo de Flávio e de Queiroz deverão identificar o rastro do dinheiro. De onde saiu e onde foi parar. É preciso aguardar o que elas dirão. Mas a onda se forma. E não parece que será uma simples marolinha.

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Política

O “patinho horroroso” enfrenta a procela


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Foto: Antônio Cruz/Agência Brasil-EBC

Ao comentar a enxurrada de derrotas que o Congresso lhe impôs na quinta-feira (9), o presidente Jair Bolsonaro disse que poderia vir na semana que vem contra ele um “tsunami”. Não ficou claro se ele falava de forma genérica ou se de fato espera mesmo que alguma onda gigantesca lhe afogue. A verdade é que o que não falta é candidata a vaga a lhe atingir a proa.

Bolsonaro poderia estar se referindo à possibilidade de o plenário do Congresso confirmar a retirada do Conselho de Controle da Atividade Financeira (Coaf) do Ministério da Justiça ao votar a MP da Reforma Administrativa. Do fato de o juiz Sérgio Moro ter estabelecido como uma das condições para assumir o Ministério da Justiça justamente ter o controle do Coaf. Que a confirmação da ida do Coaf para o Ministério da Economia – somada aos demais reveses que Moro vem enfrentando – acabe levando o juiz da Lava Jato a deixar o governo.

Pode ser ainda que ele estivesse se referindo ao fato de, diante desse rolo todo, o Congresso não conseguir o ambiente necessário para votar a MP, e ela acabe caducando. O que demoliria a mudança administrativa toda. Nada de super Ministério da Economia. Nada de Cultura misturada com Esporte, etc.

Ou o tsunami a que ele se referia pode ser a possível derrubada do Decreto das Armas. Que chocou até mesmo a Bancada Evangélica tão próxima de Bolsonaro, avalista da ministra dos Direitos Humanos, Damares Alves. Decreto que permite que crianças treinem tiro. Que concede revólveres a jornalistas. Parecer encomendado pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), aponta inconstitucionalidades do decreto. O Supremo Tribunal Federal (STF) quer explicações.

Enfim, o mar onde Bolsonaro navega é de procela. O que não lhe falta são ondas gigantes. Ocorre, porém, que boa parte dessa confusão é responsabilidade dele mesmo. Ou dos candidatos a Netuno que ele carrega ao lado, agitando seus tridentes nas redes sociais. Especialmente o dublê de filósofo e astrólogo de Richmond Olavo de Carvalho e o filho 02, Carlos Bolsonaro, o popular Carluxo.

Na mesma fala em que previu tsunamis, Bolsonaro avaliou-se como um “patinho feio”, aliás, “horroroso”, que paga por estar tentando “mudar o país”. Diz que recebeu uma “missão de Deus” nesse sentido. Há certamente aí um esforço do presidente de buscar entre seus admiradores na sociedade o apoio de que necessita. Mostrando-o novamente como alguém que luta contra as velhas práticas da política. Por isso, ele acrescentou na fala que suas dificuldades decorrem de não aceitar fazer as indicações políticas que os partidos impõem. Uma resistência a sucumbir ao antigo toma-lá-dá-cá. Diz ainda Bolsonaro que as mudanças no país que ele implementa são “para todos”.

É aí, porém, que parece se dar a fábrica de ondas gigantes que vem engolindo o governo. Parece haver uma certa falta de compreensão de qual seja de fato o interesse desses “todos” a quem Bolsonaro destina as mudanças que tenta fazer. Seria natural que Bolsonaro excluísse desses “todos” as parcelas que fazem oposição ao seu governo. O problema é que não são elas que vêm produzindo as ondas e tsunamis. O governo hoje se afoga dentro da sua própria piscina.

Os votos contrários que imprimiram a enxurrada de derrotas do governo na comissão especial da Reforma Administrativa vieram do DEM, do PP, do MDB… De deputados que compõem o Centrão. Sozinhos, os partidos de esquerda não seriam capazes de produzir as derrotas. Bolsonaro deve ter razão ao argumentar que tais partidos querem tutelá-lo e voltar ao “dando que se recebe” com que se acostumaram. Mas não é somente aí que o problema do presidente reside.

Vale, no caso, repetir o que por aqui já se disse. Ao lançar sua candidatura, Bolsonaro contava com um grupo que lhe é mais fiel e sólido ideologicamente e que lhe garantiu cerca de 15% de apoio. Musculatura suficiente para que ele se apresentasse como o grande contraponto ao risco de retorno do PT ao poder. Foi essa característica que fez com que ele se tornasse, então, o opção do restante dos seus eleitores. Leitores que estão fora desses 15% originais. São os empresários liberais ligados ao ministro da Economia, Paulo Guedes, que já andou também levando uns cascudos de Carluxo. Os admiradores de Sérgio Moro e da Lava Jato. Os militares que se mostram mais sensatos e moderados do que se esperava inicialmente. Os evangélicos, como se vê agora com relação ao Decreto das Armas. Os políticos e partidos do Centrão.

Em entrevista recente, Rodrigo Maia avaliava como Bolsonaro é fiel a essa parcela original de 15% que deu o primeiro impulso à sua candidatura. Apontava isso mesmo como uma qualidade. Ocorre, porém, que essa parcela está longe de representar a maioria. Excluir quem lhe faz oposição é algo normal, e não comprometeria seu governo. Olhar, porém, somente para a agenda da minoria daqueles que nas eleições se colocaram ao seu lado é tornar perigosamente incerta a navegação. De tsunami em tsunami, alguma hora uma onda o engole.

Política

Em tempos radicais, os inimigos dormem ao lado


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Antes da posse de Jair Bolsonaro, nem o vidente mais insano seria capaz de prever que o capitão reformado que passou toda a sua vida política a defender a ditadura militar viria a, depois de eleito, eleger justamente os militares de seu governo como adversários. Da mesma forma, nem o vidente louco iria projetar que seriam esses militares – com a sombra que certamente trariam da memória desses tempos de ditadura – as figuras mais sensatas e moderadas desse futuro governo.

Na terça-feira (8), Bolsonaro almoçou com a cúpula militar, e, de acordo com as informações que saíram depois do encontro, combinou-se jogar água fria na fervura para acabar com a brigalhada. Mas, nas redes sociais, militares já combinavam chamar os ataques do dublê de filósofo e astrólogo Olavo de Carvalho de “favelagem”. É óbvio que a troca de chumbo não vai parar. Mais do que isso, por mais que publicamente Jair Bolsonaro faça apelos em nome da trégua ou tente minimizar a potência dos ataques, a verdade é que a lógica de seu governo incentiva esse ambiente. Nunca é demais lembrar o que já dissemos: há método no golden shower.

Desde que a campanha de Jair Bolsonaro à Presidência ganhou musculatura, sua principal força motriz são as redes sociais. Como acontecera com Donald Trump nos Estados Unidos, Bolsonaro inaugurou no Brasil o momento em que o mundo virtual passou de fato a comandar a evolução política. E as redes sociais trouxeram para o ambiente político alguns novos aspectos que ainda não são compreendidos e precisam de maior análise. Um deles, porém, já ficou claro: o que impulsiona os movimentos nas redes sociais não é necessariamente a adesão da maioria da sociedade. Nas redes sociais, prevalecem os grupos mais aguerridos e organizados. Que não necessariamente representam a maioria, mas, sim, as parcelas mais radicais. Na disputa renhida e mal educada que se estabeleceu nos Facebooks da vida, os mais moderados – que, de fato, são a maioria – acabam saindo do debate. Boa parte nem entra na discussão. O restante para quando sobe o nível de agressão e quando a turma mais organizada entra em grupo para o ataque.

No caso de Bolsonaro, esse grupo mais radical garantiu-lhe a força inicial para se colocar como candidato competitivo. No total de brasileiros que o elegeram, essa turma representa em torno de 15%. À medida que Bolsonaro foi aparecendo para os demais como o antípoda do PT, outros grupos começaram a aderir a ele. Não por concordância com suas posições mais radicais. Mas porque enxergaram que ele é que ganhava mais força para derrotar o PT, que tais grupos já não mais queriam no comando do país. Esse grupo inicial mais radical de 15% parece bem próximo às ideias do filósofo de Richmond, Olavo de Carvalho. Aí estão os filhos 01,02 e 03 de Bolsonaro. E não estão os liberais ligados ao ministro da Economia, Paulo Guedes. Nem boa parte dos defensores da Operação Lava-Jato e do super-juiz e agora ministro da Justiça, Sérgio Moro. E, para surpresa de muitos, não está também a cúpula militar.

O que parece estar acontecendo é que, na estridência das redes sociais, os grupos que dominam o debate elegem como seus inimigos não seus opositores, mas os aliados que podem ameaçar a sua hegemonia no debate. A prudência e a moderação da cúpula militar ameaça o avanço das ideias mais radicais desses grupos. Que não enxergam o que, no caso, têm visto os militares: tais posições não têm apoio da maioria da sociedade, só têm amparo entre os radicais.

Em tempos autoritários, já se viu tal tipo de comportamento. Na União Soviética, o ditador Joseph Stálin não sossegou enquanto não prendeu e matou todos aqueles que estiveram ao lado de Lênin na revolução socialista, a começar por León Trotski. Quando radicalizou, Stálin começou a vê-los um por um como inimigos. Por aqui, o grupo mais radical jogou bombas em bancas de revista e tentou explodir o Riocentro para sabotar o processo de abertura política. O que as redes sociais parecem inaugurar é um tempo que proporciona aos radicais ferramentas para prosperar mesmo na democracia.

No fundo, isso não acontece somente no lado do governo. Durante a campanha, no lado do que virou oposição, o único movimento de sucesso foi o que desidratou as possibilidades de Ciro Gomes, no PDT, apresentar-se como alternativa de esquerda a Fernando Haddad, do PT, que entrou na disputa como desconfortável reserva de Luiz Inácio Lula da Silva, numa candidatura que obviamente, por essa natureza, iria perder a parada. Agora mesmo, boa parte do exército de esquerda nas redes sociais gasta mais tempo apontando contradições e atacando a deputado Tábata Amaral (PDT-SP) do que atacando o governo Bolsonaro, desde que ela começou a despontar.

Os tempos loucos das redes sociais dão, assim, sobrevida à polarização que marcou a campanha. E os dois lados dessa polarização seguem considerando ser mais importante manter essa radicalização acesa do que seguir à frente com o país. Por isso, elegem como inimigos os parceiros mais moderados. Seus inimigos dormem ao lado.

Política

Esse incrível governo sanfona…


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Foto: Marcelo Camargo – Agência Brasil/EBC

Seguidamente, os atos e declarações do atual governo têm efeito parecido ao das tempestades de verão. São breves, mas são fortes. Sabe-se que vai passar, mas sabe-se que deixará diversos efeitos deletérios pelo caminho: alagamentos, desabrigados, transtornos…

É o caso da declaração do ministro da Educação, Abraham Weintraub, de que determinaria corte em verbas de universidades pela avaliação absolutamente subjetiva e discricionária de que elas promoveriam “balbúrdia”. Promovida de fato a “balbúrdia” a partir da declaração do ministro, recuou-se do critério selecionador e estabeleceu-se um corte linear para todas as universidades. Continua sendo uma péssima notícia para o ensino superior. Mas, pelo menos, não haverá aí nenhum tipo de critério que pareça perseguição ou censura.

Mas a declaração de Weintraub produziu e produz ainda seus efeitos, como uma tempestade de verão. As redes sociais se coalharam de um lado de defesas veementes das universidades atacadas e da sua produção acadêmica. E de outro por fotos de festas provavelmente falsas e não comprovadas com gente pelada e outros excessos.

Não foi a primeira e certamente não será a última vez que o governo declara que fará uma coisa e recua depois. Essa tem sido uma rotina. Que, talvez, faça parte de uma estratégia, dentro desse novo formato estranho de comunicação via redes sociais, que ainda muito espanta e que precisa muito ser melhor estudado. Antes da volta aos Divergentes, já conversávamos que há método no Golden Shower. Também falamos sobre isso aqui .

A fala de Weintraub mobilizou os exércitos virtuais. E essa parece ser a primeira função de fato. Uma necessidade de manter a guerra nas redes. Uma necessidade de busca de manutenção do ambiente de polarização que levou à vitória do atual governo. Do outro lado, a oposição mais radical parece sentir que também somente a manutenção dessa polarização preserva sua chama acesa.

O segundo ponto a dirigir esse avança e recua é a manutenção de certa tática diversionista. Desvia-se o foco para esses temas que o próprio governo mais tarde não sustenta. Se não sustenta, os torna de fato periféricos. Mas eles, ainda que não produzam efeitos, tratam de encher de assunto e argumentos os exércitos virtuais. Que deixam de lado os temas essenciais. A predileção pelo diversionismo mantém vivo um governo ainda de muito poucos resultados práticos.

O grande problema dessa prática é que, alimentadora de conflitos, ela nutre também diversos embates internos. É um governo em crise interna permanente. Olavistas brigam com militares. Que brigam com evangélicos. Que brigam com mais alguém.

Uns noticiam que o ministro da Justiça, Sérgio Moro, está insatisfeito e quer sair do governo. Outros noticiam que quem vai sair é Damares Alves, dos Direitos Humanos. Ambos, porém, permanecem. Desmente-se a notícia. Mas ninguém tenha dúvida de que as informações iniciais saíram de fontes de dentro do próprio governo. Ou porque as insatisfações existem ou porque determinados grupos querem desgastar determinados ministros. Ou porque informações ditas e desmentidas também ajudam na tática diversionista.

E segue, assim, o baile. Um baile que, nesse avança e recua, vai sendo regido por um solo de sanfona. É abrindo e fechando o fole bem rapidamente que hoje se governa.

Política

O barril de pólvora venezuelano mora ao lado


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Foto: Antonio Cruz-EBC/Agência Brasil

Na reunião na terça-feira, 30, em que o governo avaliou a situação da Venezuela, o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, levou informações colhidas com o secretário de Estado dos Estados Unidos, Mike Pompeo, que davam conta de que Juan Guaidó poderia sair vitorioso da rebelião que plantava no país. O vice-presidente Hamilton Mourão, o ministro da Defesa, general Fernando Azevedo, e o chefe do Gabinete de Segurança Institucional, general Augusto Heleno, ficaram mais reticentes. E a posição de prudência dos três militares acabou prevalecendo. Guaidó não derrubou Nicolás Maduro. A crise na Venezuela prossegue. Pode descambar para uma guerra civil, mas não há qualquer indício que aponte de forma clara qual dos lados sairá vitorioso.

A diferença entre as posições de Araújo e dos ministros militares é mais um dos vários episódios a mostrar maior equilíbrio e prudência da ala militar. Araújo – e provavelmente não era muito diferente a posição de Mike Pompeo – mais torcia do que avaliava cenários. Os militares traziam a impressão que colheram ouvindo seus próprios colegas das Forças Armadas venezuelanas. Especialmente Mourão, que foi adido militar na Venezuela por dois anos e ainda tem contatos por lá. Mourão tinha informações de que o apoio a Guaidó dentro das Forças Armadas venezuelanas era pequeno, e que ele não teria suporte para sustentar a rebelião que pregava. Talvez não conseguisse também arregimentar apoio popular na proporção necessária para tomar o poder.

Mourão conhece as características do barril de pólvora venezuelano. Sabe que o país está cindido ao meio desde que Hugo Chávez ascendeu ao poder. Ali já havia uma clara divisão. Desde então, a crise instalou-se no país e não houve mais momento de paz. Sabe também das dificuldades de uma rebelião popular mais sólida em um país com grande concentração populacional nas grandes cidades, como Caracas. Nas regiões mais isoladas, mais pobres, os governos chavistas mal ou bem melhoraram as condições de vida da população.

Em uma conversa recente, Mourão já me falava dos riscos que envolviam a presença da Rússia e de Cuba na Venezuela. Desde que a crise se instalou, o governo de Vladimir Putin enviou tropas e armamentos para dentro do país. No caso de Cuba, é forte a infiltração  nos serviços de inteligência do governo de Maduro. Ali, a partir dos cubanos, estabeleceu-se um certo poder de milícia, que hoje conversa com organizações criminosas, tráfico de drogas. Fala-se na presença de 20 mil a 60 mil cubanos atuando nas áreas de inteligência da Venezuela. Alas militares venezuelanas estão misturadas nisso. Extremamente difícil desfazer.

Desde que os americanos se enfiaram no Vietnã na década de 1970, ou no Iraque mais recentemente, sabe-se bem o tamanho do desgaste que provoca uma guerra perdida. Cuja necessidade não fica clara para a população. Baseada em dados falsos ou distorcidos. Criados mais por um desejo de torcida que pela real avaliação dos fatos e do cenário.

A opção pragmática da diplomacia brasileira, que hoje parece correr sérios riscos com Araújo, não se deu somente por escolha. É, de fato, a opção mais sensata para um país com o tamanho que o Brasil tem nas relações internacionais – não se trata aqui do seu tamanho físico, territorial. Se o apoio a guerras insensatas desgastou os Estados Unidos, a maior potência bélica mundial, imagine o que faria conosco.

Conhecedor da Venezuela, Mourão não parece acreditar muito que a saída ali se dará pelas ingerências externas. Considera muito mais que os próprios venezuelanos acharão um caminho diante da total insolvência do país. Um país que não aguentará mais por muito tempo a crise em que vive. A pressão externa, assim, deve se dar pela via diplomática. Há um barril de pólvora prestes a estourar na nossa fronteira norte. Seria uma irresponsabilidade sermos nós a acender o pavio.

Política

Falta gasolina no Posto Ipiranga


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Com a enquadrada que levou a respeito do imposto previdenciário, é a segunda vez que o secretário de Receita, Marcos Cintra, é desautorizado pelo presidente Jair Bolsonaro. A primeira vez foi em novembro, Bolsonaro ainda nem tinha tomado posse, quando Cintra era assessor de Paulo Guedes na transição e propôs a criação de um imposto sobre movimentação financeira. Na ocasião, diante da reação do então presidente eleito, chegou-se a dizer que Cintra talvez nem virasse secretário. Agora, não será surpresa se ele acabar demitido.

Quatro meses depois da posse, vão caindo alguns mitos construídos na campanha em torno do “Mito”. Um deles é quanto à autonomia que seria dada a determinados ministros, especialmente Paulo Guedes, o “Posto Ipiranga” da economia. Quem esperava um Bolsonaro tutelado por certos setores de seu governo, rápido vai percebendo que estava equivocado. Bolsonaro exerce a sua Presidência. O que não quer dizer exatamente que isso seja de todo bom.

No caso da economia, o apelo a Paulo Guedes como o Posto Ipiranga era uma forma de se esquivar das questões mais técnicas. Bolsonaro admitia não entender de economia. E dizia que, nesse quesito, quem quisesses as respostas devia procurá-las diretamente no Ministério da Economia. No seu Posto Ipiranga.

A Guedes o recado parecer ter sido entendido da seguinte forma. Economia é um tema complexo. O país vive uma crise grave, que precisa de remédios amargos para ser contornada. Guedes imagina ter o caminho para tirar a carroça do atoleiro. Mas é um caminho que exige sacrifícios. Imaginava construir uma pasta forte, com técnicos decididos como ele, para desatolar a carroça. Se achava que conseguiria fazer isso sem intervenções, vai se frustrando um bocado. Falta gasolina no Posto Ipiranga.

Como qualquer outro político que se elege, por menos que admita, Bolsonaro tem seus compromissos. E é por conta desses compromissos que ele intervém. E é por conta desses compromissos que alas que imaginavam poder tutelá-lo não conseguem.

Em entrevista recente, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), fez uma acertada avaliação dos dilemas que cercam Jair Bolsonaro. Ao listar defeitos e qualidades do presidente, Maia enxergou uma forte fidelidade dele ao núcleo central do seu eleitorado. Uma parcela mais radical e sólida que lhe garantiu os 15% iniciais na campanha e que lhe deram a musculatura necessária para ser um candidato competitivo. Ao se apresentar como o grande antípoda do PT, Bolsonaro ampliou-se para além desses 15%, angariando outros segmentos que também não desejavam os petistas de volta. Empresários, gente do sistema financeiro, enfim, os liberais. Os militares. Políticos de partidos de centro-direita, como o DEM. Esses segmentos esperavam ter capacidade maior de influência no governo. Para Maia, batem-se contra o núcleo central do bolsonarismo. E Bolsonaro, por muitas vezes, tem se mantido fiel a esse núcleo. Ainda que ao final ele tenha se tornado minoria no seu eleitorado. E na sociedade.

Nas duas vezes, Cintra sugeriu impostos não discricionários. Pagos por todo mundo. E, nas duas vezes, Bolsonaro reagiu pela pressão da sua base mais sólida. No caso agora, por pressão das igrejas evangélicas. Cintra não pretendia criar um imposto só para elas. Citou-as para dizer que o tributo que pretendia seria pago por todos. Mas mexeu em um vespeiro. Para além dos evangélicos, também é tema tabu entre o eleitorado de classe média – igualmente forte na base bolsonarista – falar em novos impostos. Já basta o sacrifício que haverá na Previdência. E assim o próprio Maia acabou saindo também contra Marcos Cintra.

Fica, porém, demarcado que nenhum dos setores que julgavam ter poder e autonomia dentro do governo na verdade os têm. Quem manda no Posto Ipiranga é Bolsonaro. Como se viu no episódio da destituição de Ilona Szabó do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária, quem manda no Ministério da Justiça é também Bolsonaro, e não Sério Moro. Como se viu no episódio do aumento do óleo diesel e da propaganda do Banco do Brasil, é Bolsonaro também quem manda nas estatais. E como se vê nas constantes pendengas com o vice-presidente Hamilton Mourão ou com o secretário de governo, general Santos Cruz, os militares também não tutelam o presidente.

No fundo, não pode ser uma surpresa perceber que um presidente com o perfil de Bolsonaro queira exercer autoridade. O risco ocorrerá se ele não perceber que o Brasil é bem maior e mais complexo que sua base sólida de 15%.

 

Política

Carluxo só sabe ser oposição


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Embora já tenha demonstrado diversas vezes que se trata de um fator de crise permanente, o presidente Jair Bolsonaro não vai “demitir”seu filho Carluxo do comando das suas redes sociais. Como escrevi antes por aqui, “há método no Golden Shower“. Carlos Bolsonaro é uma espécie de Grilo Falante ao contrário de Jair Bolsonaro. Se na fábula infantil o bichinho servia de consciência ao boneco de pau Pinóquio, cochichando no seu ouvido palavras de moderação, Carluxo berra radicalismo nas orelhas do pai presidente. Ele diz tudo o que o pai gostaria de dizer mas que, em função do cargo, não pode assumir.

O vídeo de Olavo de Carvalho criticando o vice-presidente Hamilton Mourão, o pivô da nova crise, não foi a primeira postagem a aparecer e depois ser retirada dos perfis de Jair Bolsonaro nas redes. Isso tem acontecido rotineiramente. Foi assim, por exemplo, no tal vídeo do ator que lia texto defendendo a ditadura militar. A postagem entra, provoca seus efeitos, depois sai como se fosse um engano. Mas os filhos de Bolsonaro – especialmente Carlos, e um pouco menos Eduardo. Flávio é o que menos entra nessa trama, embora tenha sugerido à turma do Hamas que se explodissem – seguem depois mantendo a tensão.

Fica claro que o papel de Carlos Bolsonaro é botar fogo no circo. Depois, o presidente sai de debaixo da lona a tempo e os dois ficam contemplando o incêndio. É uma experiência meio maluca, fruto desses novos tempos de comunicação via redes sociais que ainda desafia o entendimento dos analistas políticos. Nas redes sociais, a ideia de diálogo e concertação de ideias que sempre marcou as democracias é substituída por uma guerra. Ninguém quer convencer ninguém. Quer apenas derrotar os adversários, seguir em frente e deixar os corpos vencidos pelo caminho.

É um tipo de estratégia que funcionou muito bem para fazer Bolsonaro chegar com grande sucesso à Presidência da República. Da mesma forma como fizera com Donald Trump nos Estados Unidos. Nesse ambiente de guerra, permite a vitória não exatamente daqueles que tenham os exércitos maiores. Mas de quem tenha os exércitos mais organizados para a guerra virtual.

No caso de Bolsonaro, ele obteve assim os 15% mais radicais que são as tropas bolsonaristas mais fieis. Uma tropa que teve papel importantíssimo para dar ao presidente a musculatura inicial que o colocou de forma competitiva na campanha. Ao longo do tempo, para além disso, a candidatura foi se ampliando pela forma como colou como antípoda do petismo. Quando se consolidou na maioria do eleitorado o desejo de por fim à era do PT no poder, os demais eleitores além do bloco inicial consolidado de 15% de bolsonaristas aderiram ao projeto. E venceram a guerra.

O problema é que, vencida a guerra, é preciso construir tempos de paz. E é aí que o modelo de Carluxo não se encaixa. Ele não sabe viver em tempos de paz. Ao derrotar os inimigos da campanha, vai colecionando novos inimigos. Cola, então, no presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), que devia ser o avalista no Congresso das reformas estruturantes, a pecha de “velha política”. Enxerga em Gustavo Bebianno, que comandou o partido de Bolsonaro na campanha, o “vazador” de notícias para a velha imprensa. Enxerga nessa velha imprensa, cujos proprietários alinham-se inteiramente com a necessidade das reformas e com o pensamento liberal, “um bando de esquerdopatas comunistas”. E vê Hamilton Mourão como um inimigo que quer tomar do pai o poder. Escolhe Olavo de Carvalho como aliado, alguém que tem exatamente como especialidade tocar fogo nos circos. Nem no Brasil vive para não sofrer as consequências dos incêndios que provoca.

Parece mais do que evidente para qualquer grupo sensato que, vencida a guerra, Bolsonaro precisaria ampliar-se do seu grupo original de 15%. E os aliados óbvios seriam os grupos conservadores no Congresso – como o DEM de Rodrigo Maia -, os setores liberais da sociedade – do qual fazem parte os proprietários dos meios de comunicação -, e os militares – meio com o qual Bolsonaro, embora fora do Exército há mais de vinte anos, sempre procurou se identificar.

Não deixa de ser verdade o argumento, que parece definir o comportamento de Carlos e que Jair Bolsonaro endossa, de que esses grupos sempre pretenderam tutelar o atual governo. Especialmente os militares e os partidos conservadores tradicionais, como o DEM. Enxergam, sim, em Bolsonaro, uma janela de oportunidade. O presidente coloca seu filho Carluxo para resistir a isso a seu modo nas redes sociais. Provocando, porém, um estado de crise desnecessária. Que transforma os tempos que deveriam ser de paz em novos tempos de guerra.

No entanto, não há qualquer sinal – a não ser de quem cultive alucinações paranoicas – de que tais grupos tenham a intenção de apear Bolsonaro do poder para assumir em seu lugar. Parece mais claro um desejo de ascender pegando carona no fenômeno para colher os frutos mais tarde, nas disputas eleitorais do futuro.

Se Mourão preparou-se para, como vice, exercer um papel mais moderado do que o figurino que envergava antes como militar, palmas pra ele. Compreendeu como deve se comportar em tempos de paz. Talvez pudesse mesmo ser mais discreto. Mas isso deveria significar aceitar as excentricidades, para dizer o mínimo, de certas declarações e comportamentos do governo?

Se o Congresso e os partidos tradicionais mais conservadores querem colher frutos de uma aproximação com o governo, também não é algo que devesse surpreender. Mesmo que ninguém aconselhe Bolsonaro a ser fisiológico e aceitar o toma-lá-dá-cá, é natural que o DEM e outros partidos queiram exercer poder de influência que sirva como cacife para voos eleitorais mais tarde. E se o governo precisa desse apoio para aprovar seus projetos no Congresso, precisa saber aceitar isso. Mais adiante, com o sucesso dos projetos, que dispute o papel de protagonista. Quem quer aprovar emenda constitucional tem de estar preparado para fazer esse jogo.

Vencida a guerra, em tempos de paz, o vencedor precisa se ampliar sobre os derrotados. Não pode imaginar que eliminará da face da Terra todos os demais e reduzir o Brasil aos seus 15% mais fieis. É onde esbarra a estratégia de Carlos Bolsonaro. Carluxo não sabe ser governo. Só sabe ser oposição.