Política

Ainda é a política, estúpido!


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Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

No auge da crise que acabou levando ao impeachment de Dilma Rousseff, ousei inverter em um artigo a famosa frase do marqueteiro de Bill Clinton, James Carville. Nas eleições de 1992, ele apontou que George Bush não era favorito, apesar da popularidade conquistado após ter vencido a Guerra do Golfo. “É a economia, estúpido!”, disse ele. Seu raciocínio era que a definição política de uma eleição dependia fundamental dos humores da população quanto aos aspectos econômicos: recessão, inflação, etc.

No período anterior à queda de Dilma, estava claro que acontecia o contrário. Por mais que se tentasse alguma coisa, a economia seguiria morro abaixo. Por causa da política. Ou seja, invertendo a máxima de Carville, no caso, era “a política, estúpido!”.

Na terça-feira, o dólar bateu a casa dos R$ 4. Os boletins do Banco Central e de outros analistas apontam para crescimento pífio, ou crescimento nenhum, do país este ano. Um comunicado interno da Receita Federal apontou que os cortes no orçamento previstos para este ano poderiam comprometer serviços como a emissão de CPF e a próprio restituição do imposto de renda. O governo enviou uma série de projetos ao Congresso de suplementação orçamentária que não caminham. Ou seja: estamos em crise.

E certamente não estamos em crise por conta dos pressupostos da equipe comandada pelo ministro da Economia, Paulo Guedes. O que Guedes propõe e procura fazer é o que consideram o caminho correto nove entre dez empresários e financistas do país e do lado capitalista do planeta. O governo aprovou com imensa facilidade na Câmara a reforma da Previdência e nada indica que venha a sofrer algum tipo de dificuldade agora no Senado. Nunca houve ambiente tão propício para a discussão e aprovação das chamadas reformas estruturantes no Congresso.

E, no entanto, o país segue empacado. E, se isso acontece, é prudente jogar a culpa na política. No tal “presidencialismo de colisão”, como cunhou com felicidade meu amigo Melillo Diniz, escolhido pelo presidente Jair Bolsonaro para substituir o criticado “presidencialismo de coalizão”, apontado por ele e por aqueles que o elegeram como  a chave do fisiologismo e da corrupção que prejudicam o país.

No caso de Dilma, ela colocou um ortodoxo no comando da economia, Joaquim Levy, e nada aconteceu. Certamente porque o ambiente de instabilidade e de incerteza política não aconselhava investimentos. Com seu temperamento forte e estabanado, Dilma não conseguia fazer os arranjos políticos para serenar o país. Isso somado ao fato de que o então presidente da Câmara, na prática no comando então do Congresso, não fazia a menor questão de ajudar nessa tentativa de serenar ânimos.

Agora, Bolsonaro pisa ao máximo no acelerador e joga às calendas qualquer tentativa de serenar os ânimos. Ao contrário, seu “presidencialismo de colisão”, elege inimigos todos os dias, afasta ex-aliados, entorna diariamente o caldo de qualquer entendimento. Não exatamente por ser estabanado. A tática tem método. Visa consolidar os apoios que já são mais sólidos. Fortalecer o “mito”, mantendo acesa a polarização radical do país.

Apesar de ter método, a estratégia é arriscada. É como apostar num incêndio imaginando ser possível controlá-lo. Ao enxergar tamanho cenário de instabilidade e incerteza, o investidor fica tentado a considerar se não é melhor esperar um pouco, manter o dinheiro fechado na carteira, dentro do bolso, enquanto o cenário não clareia.

Somam-se a isso guerras comerciais e posicionamentos internacionais que ganham um viés ideológico como nunca tiveram, nem mesmo no tempo da ditadura militar (quando as empreiteiras brasileiras, por exemplo, ganharam rios de dinheiro construindo hidrelétricas na União Soviética comunista). A Noruega tira seus recursos do Fundo Amazônia. A Alemanha ameaça boicotar produtos brasileiros. O Irã e outros países do Oriente Médio preocupam-se com o alinhamento aos Estados Unidos. Mesmo os agricultores brasileiros, que nunca se pautaram pelo ativismo ambiental, mostram-se preocupados com o exagero de certos posicionamentos, que fazem com que os produtos do país corram o risco de perder os chamados “selos verdes”, condicionamentos de compromisso ecológico que são cada vez mais frequentes em diversos países que importam do Brasil.

Peitar posicionamentos e mudanças de conceito muito fora do pensamento global pode dar mais certo em um país como os Estados Unidos na era Donald Trump, no qual Bolsonaro se espelha. Afinal, os Estados Unidos são a maior potência do mundo, com capacidade para serem autossuficientes. Podem bancar suas guerras. O emergente Brasil é dependente dos humores de seus parceiros. Geralmente, precisa de uma jamanta para subir a ladeira. E corre sempre o risco de rolar abaixo por um sopro ou um peteleco fora de hora. Se não conciliar política e economia, a política derruba a economia, estúpido!

Política

Simonal, Janaina e Freixo


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Impressiona o amargo gosto de atualidade que há no filme Simonal, de Leonardo Domingues, em cartaz nos cinemas do país. Fabrício Boliveira interpreta Wilson Simonal, cantor que fez enorme sucesso no final da década de 1960 e início da década de 1970. Para muitos, talvez o maior cantor brasileiro de todos os tempos. Que ascendeu ao sucesso numa velocidade estonteante e conheceu o fracasso com igual velocidade, acusado de dedurar os colegas e contribuir com a repressão da ditadura militar.

A história de Simonal é uma das mais tristes da arte brasileira. Morador da favela do Morro do Pinto, no Leblon, Simonal incorporava todos os trejeitos do malandro carioca. Dono de um ego impressionante, considerou que seu talento e sua malandragem eram suficientes para navegar naqueles bicudos tempos da ditadura. Queria fazer sucesso afastado da disputa política do seu tempo. Achou que podia transitar bem com todo mundo. Ganhou dinheiro demais. Gastou dinheiro demais. Achou que estava sendo enganado por seu contador. Achou que seria uma boa ideia arranjar uns meganhas para dar uma surra nele. Achou que não teria nada demais se esses meganhas fossem ligados à repressão. Não contava que o contador fosse denunciar a surra à imprensa. Tolo, ingênuo, o típico malandro otário, arrotou contatos com a repressão que na verdade não tinha. Enrolado, foi abandonado tanto pela ditadura como pela classe artística.

O filme conta a história de Simonal sem fazer concessões à sua fraqueza de caráter e aos erros que ele cometeu. Mas mostrando como é possível se destruir a reputação de alguém adicionando falsidades a um fio de história. Logo, Simonal era apontado como dedo-duro, quando, na verdade, nunca entregou ninguém. Até porque, de fato, não tinha contato nenhum com ninguém da repressão. Diziam nas ruas que ele é quem tinha entregue Caetano Veloso e Gilberto Gil. Caetano e Gil foram presos porque suas atitudes tropicalistas incomodavam o regime. No mesmo dia, deveriam ter preso também Geraldo Vandré, mas ele conseguiu escapar. Anos depois, Caetano dirá em entrevista que Simonal nada teve a ver com a história.

Como mostra o filme, a ditadura largou Simonal à própria sorte, deixando vazar informações capazes de construir as fake news da época e destruir sua reputação. Simonal era também um incômodo aos padrões da época. O negro bem sucedido, milionário, com três Mercedes na garagem, casado com uma linda loura branca. Fazendo tributos a Martin Luther King. Destruindo o mito da igualdade racial que a ditadura queria preservar. Tempos de ditadura são tempos absolutos. Ou se é a favor ou se é contra. Ou se está do lado ou não se está. É, como dizia o slogan da época, “Ame-o ou deixe-o”.

Incrível é que hoje, em tempos considerados de plenitude democrática, esses valores absolutos pareçam estar de volta. Ou se é a favor ou se é contra. Ou se está do lado ou não se está. É “Ame-o ou deixe-o”. E da mesma forma há uma indústria de destruição de reputações. Baseada na disseminação de fake news. Uma usina de intolerância forçando posicionamentos. A principal autoridade da República reforçando todos os dias a manutenção do discurso do ódio, a eleição de inimigos.

Fica do passado o alerta da triste história do maior cantor brasileiro de todos os tempos. A gritar que os tempos precisam ser de menos intolerância. Felizmente, no mesmo momento em que o filme estreia nos cinemas brasileiros circula na internet um vídeo em que a deputada estadual Janaína Paschoal (PSL-SP) debate com o deputado federal Marcelo Freixo (PSol-RJ). É possível que esse seja o maior acontecimento político do ano.

Janaína foi a deputada mais votada do Brasil. Obteve mais votos para uma vaga na Assembleia Legislativa de São Paulo que Eduardo Bolsonaro consegiu para se eleger deputado federal. É uma das autoras do pedido de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. É uma das principais referências do atual pensamento de direita que se estabeleceu na política brasileira. Marcelo Freixo é, por sua vez, uma das principais referências do pensamento de esquerda na política brasileira. Referência na discussão sobre segurança pública. Parceiro de Marielle Franco, assassinada no Rio de Janeiro.

Janaína e Freixo, no vídeo, divergem em quase tudo. Discordam quase o tempo todo. Mas concordam num ponto fundamental. O diálogo é a pedra fundamental da democracia. Não existe democracia sem a busca de consensos. Democracia não convive com intolerância. Democracia não convive com falta de respeito. Democracia espera, busca, o relativo. Democracia não combina com o absoluto.

Do confronto violento, do ódio absoluto, da estratégia que busca vitórias e derrotas absolutas, não sairá país nenhum. Ou, pelo menos, não sairá país democrático. Os que dizem coisas como “é impossível dialogar com imbecis” autorizam seus adversários a dizerem de si o mesmo. É o diálogo de surdos remetendo um ambiente de ditadura a um tempo que se diz democrático. Que venham mais vídeos como os de Janaina e Freixo.

O filme de Simonal é um alerta. O vídeo de Jaanína e Freixo é um alento…

Política

Simonal, Janaina e Freixo


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Impressiona o amargo gosto de atualidade que há no filme Simonal, de Leonardo Domingues, em cartaz nos cinemas do país. Fabrício Boliveira interpreta Wilson Simonal, cantor que fez enorme sucesso no final da década de 1960 e início da década de 1970. Para muitos, talvez o maior cantor brasileiro de todos os tempos. Que ascendeu ao sucesso numa velocidade estonteante e conheceu o fracasso com igual velocidade, acusado de dedurar os colegas e contribuir com a repressão da ditadura militar.

A história de Simonal é uma das mais tristes da arte brasileira. Morador da favela do Morro do Pinto, no Leblon, Simonal incorporava todos os trejeitos do malandro carioca. Dono de um ego impressionante, considerou que seu talento e sua malandragem eram suficientes para navegar naqueles bicudos tempos da ditadura. Queria fazer sucesso afastado da disputa política do seu tempo. Achou que podia transitar bem com todo mundo. Ganhou dinheiro demais. Gastou dinheiro demais. Achou que estava sendo enganado por seu contador. Achou que seria uma boa ideia arranjar uns meganhas para dar uma surra nele. Achou que não teria nada demais se esses meganhas fossem ligados à repressão. Não contava que o contador fosse denunciar a surra à imprensa. Tolo, ingênuo, o típico malandro otário, arrotou contatos com a repressão que na verdade não tinha. Enrolado, foi abandonado tanto pela ditadura como pela classe artística.

O filme conta a história de Simonal sem fazer concessões à sua fraqueza de caráter e aos erros que ele cometeu. Mas mostrando como é possível se destruir a reputação de alguém adicionando falsidades a um fio de história. Logo, Simonal era apontado como dedo-duro, quando, na verdade, nunca entregou ninguém. Até porque, de fato, não tinha contato nenhum com ninguém da repressão. Diziam nas ruas que ele é quem tinha entregue Caetano Veloso e Gilberto Gil. Caetano e Gil foram presos porque suas atitudes tropicalistas incomodavam o regime. No mesmo dia, deveriam ter preso também Geraldo Vandré, mas ele conseguiu escapar. Anos depois, Caetano dirá em entrevista que Simonal nada teve a ver com a história.

Como mostra o filme, a ditadura largou Simonal à própria sorte, deixando vazar informações capazes de construir as fake news da época e destruir sua reputação. Simonal era também um incômodo aos padrões da época. O negro bem sucedido, milionário, com três Mercedes na garagem, casado com uma linda loura branca. Fazendo tributos a Martin Luther King. Destruindo o mito da igualdade racial que a ditadura queria preservar. Tempos de ditadura são tempos absolutos. Ou se é a favor ou se é contra. Ou se está do lado ou não se está. É, como dizia o slogan da época, “Ame-o ou deixe-o”.

Incrível é que hoje, em tempos considerados de plenitude democrática, esses valores absolutos pareçam estar de votos. Ou se é a favor ou se é contra. Ou se está do lado ou não se está. É “Ame-o ou deixe-o”. E da mesma forma há uma indústria de destruição de reputações. Baseada na disseminação de fake news. Uma usina de intolerância forçando posicionamentos. A principal autoridade da República reforçando todos os dias a manutenção do discurso do ódio, a eleição de inimigos.

Fica do passado o alerta da triste história do maior cantor brasileiro de todos os tempos. A gritar que os tempos precisam ser de menos intolerância. Felizmente, no mesmo momento em que o filme estreia nos cinemas brasileiros circula na internet um vídeo em que a deputada estadual Janaína Paschoal (PSL-SP) debate com o deputado federal Marcelo Freixo (PSol-RJ). É possível que esse seja o maior acontecimento político do ano.

Janaína foi a deputada mais votada do Brasil. Obteve mais votos para uma vaga na Assembleia Legislativa de São Paulo que Eduardo Bolsonaro consegiu para se eleger deputado federal. É uma das autoras do pedido de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. É uma das principais referências do atual pensamento de direita que se estabeleceu na política brasileira. Marcelo Freixo é, por sua vez, uma das principais referências do pensamento de esquerda na política brasileira. Referência na discussão sobre segurança pública. Parceiro de Marielle Franco, assassinada no Rio de Janeiro.

Janaína e Freixo, no vídeo, divergem em quase tudo. Discordam quase o tempo todo. Mas concordam num ponto fundamental. O diálogo é a pedra fundamental da democracia. Não existe democracia sem a busca de consensos. Democracia não convive com intolerância. Democracia não convive com falta de respeito. Democracia espera, busca, o relativo. Democracia não combina com o absoluto.

Do confronto violento, do ódio absoluto, da estratégia que busca vitórias e derrotas absolutas, não sairá país nenhum. Ou, pelo menos, não sairá país democrático. Os que dizem coisas como “é impossível dialogar com imbecis” autorizam seus adversários a dizerem de si o mesmo. É o diálogo de surdos remetendo um ambiente de ditadura a um tempo que se diz democrático. Que venham mais vídeos como os de Janaina e Freixo.

O filme de Simonal é um alerta. O vídeo de Jaanína e Freixo é um alento…

Política

Ódio e ignorância


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Foto: Marcos Corrêa/PR

Nas últimas semanas, o presidente Jair Bolsonaro vem incrementando em velocidade perigosíssima a adição de dois ingredientes explosivos ao seu discurso. Esses ingredientes são o ódio e a ignorância.

Difícil saber a essa altura se a inclusão em doses cavalares desses dois temperos na sopa que vai ficando cada vez mais indigesta é fruto de estratégia ou da personalidade de Bolsonaro que aflora e que não mais ele consegue controlar.

Parece haver, sim, estratégia diversionista na profusão de frases absurdas que o presidente parece declamar sem maiores constrangimentos. Já havia no carnaval na história do “golden shower”. Houve em outros episódios, em clara combinação com outros personagens, como no caso da indicação de seu filho, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) para a embaixada dos Estados Unidos. O problema é quando o absurdo diversionista ultrapassa a produção de piadinhas sem graça e de mau gosto para ingressar no terreno das duas palavras escritas no primeiro parágrafo: ódio e ignorância.

Aí, não temos mais o Bolsonaro rindo de suas próprias piadas. Temos um presidente tenso, trincado, distribuindo à população que o apoia doses cavalares de raiva e de preconceito. A frase sobre o pai do presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Felipe Santa Cruz, não teve outro propósito senão machucar, agredir, abrir feridas e trazer de volta os traumas de uma criança de pouco mais de dois anos de idade que viu seu pai desaparecer depois de ser preso pela ditadura militar. Ao dizer saber o que acontecera com Fernando Santa Cruz, o pai do presidente da OAB, Bolsonaro agiu como agente da repressão capaz de acrescentar informações a uma família que no passado foi alijada do luto. Se concretamente, como demonstrou na sequência, não tem absolutamente nada de novo a acrescentar, só o que restou foi a crueldade. O golpe baixo contra o adversário.

Como tática, prossegue, assim, na disputa maniqueísta com seus inimigos de esquerda, mais notadamente no PT. Um tipo de disputa que o beneficiou nas eleições do ano passado. Bolsonaro imagina encontrar terreno fértil nesse jogo sem nuances. E tem alguns antagonistas que aceitam o jogo nesses termos. Por outro lado, vai levando seu discurso ao máximo extremo. Perde a cada dia o apoio dos elementos mais moderados que se puseram ao seu lado na eleição. Nesse sentido, talvez a agressão ao presidente da OAB possa ser mesmo um ponto de inflexão, dada a reação de nomes como o governador de São Paulo, João Dória, e o jurista Miguel Reale Jr., um dos autores do pedido de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff.

Mas o presidente que cultiva o ódio como estratégia repassa tal comportamento àqueles que o seguem e admiram. Cabe uma reflexão sobre até que ponto tal opção não influi em certos comportamentos violentos que pareceram crescer nos últimos seis meses. O aumento expressivo do número de feminicídios. De violência contra a mulher. De intolerância religiosa que queima, por exemplo, templos umbandistas. Até mesmo de violência contra crianças. Pessoas que começam a se sentir autorizadas, pelo ambiente construído, a libertar seus demônios interiores.

O outro elemento explosivo e perigoso que se soma é a ignorância. Bolsonaro parece muitas vezes orientar suas decisões e ações a certas impressões particulares que, quando se chocam com as evidências científicas, recebem dele autorização para mandar as evidências às favas. Lembra um dos personagens apresentados no documentário “A Terra é Plana”, que promove experimentos para provar a sua tese de que o planeta não é redondo. Todos os experimentos falham, reforçando as evidências de que ele está errado, que não há nada plano na superfície terrena. Mas ele segue repetindo que a Terra não é redonda.

A briga de Bolsonaro com o diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Ricardo Magnus Osório, é o exemplo mais veemente. Diante das evidências demonstradas pelo instituto de aumento do desmatamento na Amazônia, o presidente manda às favas as evidências.

O problema é tomar decisões de governo baseadas em achismos que desprezam as evidências. Essa parece ser uma opção rumo a perigoso obscurantismo de certa forma inédita. Há uma tendência – novamente desprovida de evidência – de que a Academia é formada unicamente por um bloco de esquerda que conspira ali para impor sua linha de pensamento. É bem diferente da linha adotada por pensadores de direita no passado. Não consta que Roberto Campos, ao discorrer sobre suas convicções de que um estatismo exagerado levaria o Brasil à bancarrota, mandasse às favas as evidências e as teorias que aprendera nos seus estudos acadêmicos. Ele, que era economista, diplomata, professor, formado em Filosofia e Teologia, pós-graduado em Economia pela Universidade de Colúmbia.

Governar desprezando as evidências é como optar por acelerar um automóvel na direção de um muro. Governar com ódio é ir acrescentando tijolos ao muro enquanto se acelera em direção a ele. Não acreditar na existência do muro não fará o muro desaparecer. E aumentar o tamanho do muro só torna ainda maior o risco grave de colisão.

Política

Torneirinha de asneiras


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Na magistral obra de Monteiro Lobato – o Sítio do Picapau Amarelo – ganha muitas vezes ares de protagonista certo personagem que tem na boca uma torneirinha de asneiras. Fala o que quer. Ri dos seus próprios pensamentos inconvenientes. Teimosamente, é quase sempre muito difícil demover tal personagem da incorreção e inconveniência do que diz.

Certa vez, esse personagem resolveu reformar a natureza. Instalou o ninho nas costas dos passarinhos. Fez  com que os livros se tornassem comestíveis. Tirou as cascas das laranjas e de outros frutos. Enfim, imaginou que tudo o que durante todo o tempo anterior foi feito estava errado e precisava ser reformado.

Não demorou muito para que se verificasse a imensa confusão por trás daquelas mudanças. Os passarinhos não aguentavam o peso sofrido de ter que o tempo todo carregar nas costas seus ninhos. O porquinho rabicó comeu na estante o volume da Ilíada de Homero e as obras completas de William Shakespeare, apenas pelo sabor de alho e tempero e não pela beleza do conteúdo. Sem as cascas, as laranjas estragavam-se no transporte e eram alvo mais fácil dos insetos e outros predadores.

Enfim, rapidamente todos aqueles que tinham sido “reformados” reclamavam do resultado para elas das reformas. Dona Benta ralhou sobre a reforma: “Que absurdo (…) reformar a natureza! Quem somos nós para corrigir qualquer coisa do que existe! E, quando reformamos qualquer coisa, aparecem logo as consequências que não previmos!.

Mais adiante, dirá dona Benta: “Eu reconheço suas boas intenções. Você tudo fez na certeza de estar agindo pelo melhor. Mas não calculou uma porção de inconveniências que podem acontecer, e estão acontecendo”.

Mas o personagem, ao final, segue teimosamente defendendo suas mudanças. Na prática, de boa parte das reformas recua, sem, porém, admitir claramente. Mas foi aprendendo. “E assim terminou a aventura (…) da Reforma da Natureza”, escreve Lobato. O personagem “aprendeu a planejar a fundo qualquer mudança nas coisas, por menor que fosse. Viu que isso de reformar às tontas, como fazem certos governos, acaba sempre produzindo mais males do que bens”.

Política? Quem está falando de política? O tema aqui  é literatura…

Política

O hambúrguer diversionista


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Embora não seja, sem dúvida nenhuma, um bom tempero para hambúrguer, é impossível pensar na indicação do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) para a Embaixada dos Estados Unidos sem lembrar do “golden shower” do carnaval passado.

A divulgação do tal vídeo pornográfico acrescido do comentário constrangedor que perguntava aos brasileiros nas redes sociais o que é “golden shower” garantiu ao presidente Jair Bolsonaro espaços e mais espaços não só nas redes sociais mas também na imprensa tradicional.

Agora, temos a discussão em torno das qualidades de Eduardo Bolsonaro para assumir a principal representação diplomática brasileira nos Estados Unidos. Ele fala, diz o presidente, inglês fluente porque, como diversos rapazes de classe média, fez intercâmbio nos Estados Unidos. Então, aparece um vídeo no qual Eduardo começa a dar uma entrevista para uma TV americana, empaca no meio, e reage dizendo: “Deu um branco aqui, caralho!”. Além disso, ele mesmo, ao mencionar suas qualidades, conta que “já fritou hambúrguer no frio do Maine”. O Instituto Rio Branco provavelmente já cogita incluir o curso de chapeiro entre as cadeiras de formação diplomática.

Num jogo combinado, Bolsonaro solta a ideia da embaixada e Eduardo a replica, aceitando a honrosa tarefa. Então, Eduardo enumera seu currículo de intercambista chapeiro e quem replica aí é o presidente. E, nós, vamos na sequência também replicando a história, porque, afinal, palavra de presidente, mesmo que soe como patacoada, diante do seu grau de importância, vira assunto sério.

E porque, no caso, o balão lançado com a história de Eduardo Bolsonaro embaixador pode mesmo ganhar os ares e se concretizar de fato. Se der certo, Bolsonaro emplaca o filhote na embaixada. Se não der, se ele vier a ser rejeitado pelo Senado, se o Supremo julgar que é nepotismo, se a pressão o fizer mudar de ideia, seguirá a vida, dizendo que respeita a democracia e que não se pode ganhar todas.

Em uma ou outra hipótese, porém, o presidente terá desviado o foco de outros temas que lhe causam incômodo. A começar pela reforma da Previdência. Embora Bolsonaro a tenha encampado e pareça convencido da sua necessidade, desde a campanha ainda, a pauta das reformas pertence à ala liberal do seu governo, que não é a sua. Há mais de uma dezena de vídeos e reportagens do passado que mostram como Bolsonaro, pessoalmente, como parlamentar, sempre foi contra as tentativas anteriores de reformar a Previdência. Na votação, ficou claro como parte da sua base voltou-se contra o projeto, obrigando o próprio presidente a pedir tratamento especial para seus correligionários policiais. Quando o texto-base da reforma foi aprovado, quem foi elogiado e aplaudido foi o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ).

E há ministros e filhos enrolados em processos com laranjas. Há baixo crescimento da economia. Há desemprego crescente. Há Sérgio Moro e suas conversas comprometedoras. Contra tudo isso, envidemos, então, nossos esforços para fritar hambúrguer no número 3006 da Massachussetts Avenue em Washington, DC.

Política

Rodrigo Maia, o reformista. Será raposa?


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Foto: Fabio Pozzebom/Agência Brasil-EBC

O choro do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), ao anunciar, na tarde da quarta-feira (10), o resultado da aprovação do texto-base da reforma da Previdência foi o retrato inconteste do triunfo da velha política. Pode-se comparar perfis, experiências, reputações, mas Maia recuava ali mais de 60 anos e recolocava o país na lógica do equilíbrio político que ainda hoje o caracteriza. Era o velho PSD da década de 1950 mostrando ainda as suas caras.

É incrível como o arranjo político desenhado no Brasil ao final da era Vargas seja ainda o desenho mais sólido do jogo de forças que mantém nossa estabilidade em tempos de democracia. Os partidos mudaram, novos grupos surgiram, novas pressões aconteceram, há hoje diversos elementos novos vindos de outras formas de participação da sociedade – a mais recente delas, a força de pressão direta via redes sociais. Mas a lógica que havia no tripé UDN-PSD-PTB naquele arranjo permanece. A UDN representando os grupos conservadores, de direita, à época ligados às novas categorias de profissionais liberais que surgiam com o crescimento urbano brasileiro. O PTB ligado à crescente organização sindical, dos trabalhadores que se aglutinavam com a industrialização do país e os embates do sindicalismo. E o PSD, ao centro, aglutinando os coroneis e raposas da política de líderes regionais da Velha República com novos representantes das forças moderadas.

Como mostra Lúcia Hippolito no seu ótimo livro “PSD, de Raposas e Reformistas”, o PSD foi fortemente responsável por manter a estabilidade política do final da era Vargas até o final da década de 1950, administrando e amaciando os conflitos entre esquerda e direita, partidariamente representados pelo PTB e pela UDN. Em tempos em que a Guerra Fria estimulava arroubos golpistas de um lado e de outro. Um trabalho que provavelmente atrasou em coisa de vinte anos o infeliz desfecho da ditadura militar com o golpe de 1964. Foi do PSD a última tentativa de manter as coisas estabilizadas, com a implementação do parlamentarismo para reduzir os poderes de João Goulart.

A vitória de Jair Bolsonaro após a longa era em que o PT se manteve no poder – a maior era de domínio de um partido na nossa história republicana – traz de volta para o cenário um tempo de embate forte entre direita e esquerda. Com todos os riscos de transformação disso num radical diálogo de surdos, em nada semelhante do que se espera de uma democracia. Por mais que se torça o nariz para o conteúdo da reforma da Previdência, o trabalho de Rodrigo Maia ao aprovar o texto-base trouxe a bola de novo para o centro do campo. No que isso pode significar de bom e de ruim. A lição que fica é que o jogo jogado continua a ser o da política, de quem negocia e cede. Não o de quem atropela.

De ruim, fica claro que em um país no qual hoje as forças políticas dividem-se numa miríade de partidos sem consistência ideológica, o jogo da negociação seguirá passando pelo velho toma-lá-dá da distribuição de verbas e cargos. O governo abriu firme a carteira para fazer passar o projeto. Fica claro também que seguirá conseguindo mais quem pode mais. A negociação suprimiu setores e categorias da reforma. O sistema previdenciário brasileiro seguirá sendo desigual, penalizando mais alguns e pesando bem menos sobre outros.

De bom, Rodrigo Maia mostra ao governo que o jogo da democracia não é o de vitórias ou derrotas absolutas. Não se atropela o Congresso. Não se desce goela abaixo projetos e imposições. Sempre o que se aprovará é o possível, não o totalmente desejado.

A outra lição é que,diante da constatação de situações contra as quais não há possibilidade de impedimento, quem não negocia perde totalmente. Logo no início do seu primeiro governo, o ex-presidente Lula fez uma reforma da Previdência. Ou seja: quando esteve no poder, o PT já constatou que, na prática, não se sustentava seu discurso anterior de que não era necessária uma mudança nos cálculos e nos formatos do nosso sistema previdenciário. Outros partidos de oposição, como o PDT, na campanha presidencial do ano passado, também já sustentavam a necessidade de reforma. No processo de discussão do projeto, as oposições apostaram que o governo, estabanado e de cintura dura, poderia acabar pondo tudo a perder e não aprovando nada. Acabou ficando fora da negociação. Não negociou. Não contribuiu para a formação de um projeto mais palatável. Correrá atrás agora, enfraquecido, na tentativa de emplacar algum destaque.

Enquanto isso, Rodrigo Maia estabelece como agenda seguinte a reforma tributária, a partir de projetos que já tramitavam e que tiveram iniciativa no Congresso. Ou seja, uma agenda sua, e não de iniciativa do Executivo. O tempo dirá se o presidente da Câmara de 49 anos será tão habilidoso quanto seus modelos do PSD da década de 1950. Se será capaz de segurar da mesma forma os embates entre os radicais de direita e esquerda trazendo a bola para o centro do campo. Veremos o quanto Rodrigo Maia será capaz de ser “raposa”, no seu projeto de ser “reformista”.

Política

Datafolha é Maracanã em dia de FlaXFlu


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Foto: Clauber Cleber Caetano/Agência Brasil-EBC

Quando o presidente Jair Bolsonaro adentrou o gramado do Maracanã para premiar os jogadores da Seleção Brasileira campeã da Copa América, metade do estádio o vaiou e outra metade o aplaudiu. Na fila para receber as medalhas, parte dos jogadores e o técnico da Seleção, Tite, demonstraram claro incômodo na proximidade com o presidente. Outros, porém, ficaram claramente orgulhosos, felizes, por estarem com Bolsonaro.

Um dia depois, o Instituto Datafolha espelhou em números precisos a sensação do domingo. O Brasil, assim como aconteceu com a torcida e com a delegação da Seleção Brasileira, divide-se exatamente entre os que amam Bolsonaro e os que odeiam. E outra parcela também do mesmo tamanho fica no meio entre as duas pontas, indiferente ou pelo menos distante dessas paixões exacerbadas. Quem andou nos últimos anos ouvindo as redes sociais falarem de “coxinhas”, “mortadelas” e “isentões”, é isso mesmo, levado à potência extrema.

Segundo o Datafolha, um terço dos brasileiros ama Bolsonaro. E certamente esse primeiro terço saiu daqueles que ao longo dos últimos anos foi classificado nas redes sociais como “coxinhas”. São o créme de la créme dos coxinhas. Outro terço odeia Bolsonaro. E sem dúvida essa parcela vem daqueles que as redes sociais andaram chamando de “mortadelas”. São a essência da mortadelice. E quem fica no meio é ainda aquela turma tida como “isentões”. Aqueles aos quais ou a política não apaixona tanto ou aqueles que entendem que não há assim tantos mocinhos e bandidos no mundo.

Ainda que a pesquisa Datafolha não tenha mostrado números muito diferentes da rodada anterior, ela impressiona por apresentar um país tão exatamente dividido entre as torcidas desse já bastante incômodo FlaXFlu político. É incrível que 33%  considere o governo ótimo ou bom e outros exatos 33% considerem o governo ruim ou péssimo. E que haja 31% que o considere regular. Ou seja: um país dividido em três partes exatamente iguais, uma vez que o percentual de 31% que fica no meio se iguala aos demais na margem de erro da pesquisa.

Para quem deseja um país menos convulsionado para que tenha a necessária tranquilidade para avançar, essa certamente não é uma boa notícia. A famosa cena do gramado da Esplanada na votação do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, que virou o cartaz do filme “Democracia em Vertigem”, continua dolorosamente atual. Somos aquele gramado dividido por um feio muro improvisado de metal verde, um terço de um lado, outro terço do outro. E outro terço em casa. De cada lado do muro, vamos ruminando nossos ódios para soltá-lo para o outro lado, como massa verde, ácida e gosmenta.

O quadro anima radicalismos. A Bolsonaro, demonstra que sua melhor estratégia é manter-se polarizado contra Lula e o PT. A Lula e ao PT, mostra que a melhor estatégia é igualmente radicalizar posições e polarizar-se contra Bolsonaro. E a outra parte isola-se, seja porque sempre se omite, seja porque não enxerga solução nos extremos, seja porque não encontra alternativa a esses extremos.

Talvez isso deságue nos próximos dias na votação da reforma da Previdência. Em vez da busca de consensos necessária na democracia, uma guerra entre extremos. O governo querendo atropelar uma reforma sem maiores discussões. A oposição tentando derrotá-la também sem apresentar soluções alternativas. Vitórias ou derrotas absolutas não é bem o jogo das democracias…

Política

Um governo infestado de comunistas…


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Pelas vias tortuosas da mente de Carlos Bolsonaro, vamos descobrindo que as Forças Armadas brasileiras são uma instituição tão invadida por comunistas que para ele se torna mesmo um grande perigo aceitar segurança militar. O Gabinete de Segurança Institucional da Presidência está entranhado de petistas, caso do sargento preso com 39 quilos de cocaína que transportava dentro do avião presidencial. Parece incluir-se entre a turma o próprio general Augusto Heleno, que há alguns meses era tido como um dos principais conselheiros do presidente Jair Bolsonaro. Que perigo!

São também comunistas e petistas os integrantes do Movimento Brasil Livre. Esses devem agregar ao esquerdismo perigosos componentes de feitiçaria, de bruxaria. Afinal, conseguem ao mesmo tempo defender a livre iniciativa e a distribuição de renda. Professam o original caminho de atingir a igualdade pela meritocracia. Como diz o famoso meme que circula pela internet, são um caso a ser investigado pela Nasa.

A cada dia que passa, vai-se descobrindo um número maior de esquerdistas e comunistas denunciados nos posts de Carluxo ou nos cartazes distribuídos nas passeatas que viraram um esporte nacional quase tão querido quanto o futebol. Vai ficando difícil entender como essa perigosa multidão de infiltrados no Exército, nos movimentos liberais, no empresariado, no Judiciário, nos partidos políticos, etc, não foi capaz de vencer as eleições do ano passado. O velho da Havan já mandou a jornalista Raquel Sheherazade para Cuba…

Tudo isso poderia ser somente uma engraçada excentricidade destes nossos tempos se não estivesse gravemente contaminando o governo. Fica difícil não acreditar que de alguma forma o presidente Jair Bolsonaro não ratifica esse tipo de pensamento. Principalmente depois da demissão do ministro Santos Cruz da Secretaria de Governo. Desde o início, desde a saída de Gustavo Bebianno, a verdade é que Carluxo vem ganhando todas as paradas.

O que parece acontecer é que, a partir das diatribes de Carluxo nas redes sociais, Bolsonaro vai limando do governo os que se uniram a ele na campanha com o intuito de controlá-lo. Como já se disse por aqui, Bolsonaro construiu sua candidatura partindo de uma base de cerca de 15% da sociedade que aderiu fortemente às suas ideias. É a parcela mais sólida dos chamados bolsomínions, que o tratam como “mito”. Uma musculatura forte o suficiente para colocá-lo competitivo no jogo. Com isso, ele foi se consolidando como a mais viável alternativa capaz de derrotar o PT e por fim à sua era. Assim, aderiram a ele militares, liberais e outros grupos que, longe de serem partidários fieis, somente queriam vencer o PT.

Militares; os liberais do ministro da Economia, Paulo Guedes; os procuradores e policiais trazidos pelo ministro da Justiça, Sérgio Moro, seriam a força competente de fato à frente do governo do capitão. Aparentemente, Bolsonaro, seis meses depois, resiste a esse monitoramento. Defenestra a base militar. Surfa nos problemas de Moro para inverter a equação no caso dele – Bolsonaro menos dependente de Moro; Moro mais dependente de Bolsonaro. Mantém Guedes isolado à negociação da reforma da Previdência – e sem muitas vezes a necessária ajuda na articulação política.

O problema é que, retirados militares, liberais e a turma que defende mais a Lava Jato e menos o governo, o que fica é clara minoria. Uma fórmula muito mais capaz de gerar atritos que soluções. A parcela mais fiel ao bolsonarismo e à extrema direita terá que produzir resultados melhores que as piadas de gosto duvidoso do ministro da Educação, Abraham Weintraub…

Política

O efeito reverso das denúncias contra Moro


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Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil-EBC

O Instituto Paraná Pesquisas, do cientista político Murilo Hidalgo, divulgou nesta terça-feira (25) pesquisa que merece muita atenção. Murilo gosta de fazer curtas apurações sobre temas relevantes da nossa pauta política, que servem como bússolas importantes dos caminhos que o país tende a seguir. Desta vez, ele fez somente duas perguntas a 2.264 pessoas de 176 municípios dos 26 estados brasileiros e do Distrito Federal, entre os dias 17 e 21 de julho. A primeira pergunta foi se a pessoa tinha tomado conhecimento das denúncias do WikiJato do The Intercept Brasil, que apontam para um conluio entre o hoje ministro da Justiça, Sérgio Moro, quando era juiz e os procuradores da Lava Jato. A segunda pergunta foi: isso põe em dúvida os resultados da operação?

A resposta à primeira pergunta aponta para um nível bem alto de conhecimento dos diálogos que o site The Intercept Brasil vem publicando, agora em parceria com outros veículos. Nada menos que 86,7% dos entrevistados disseram ter tomado conhecimento das publicações. A segunda pergunta mostra que isso pode ter provocado certo abalo na credibilidade da Lava Jato, mas longe de ser o suficiente para mudar a convicção da maioria da sociedade quanto à sua importância. Para 38,1% dos entrevistados, o que vem sendo publicado põe, sim, em dúvida os resultados da operação. Mas para 56,1%, isso não aconteceu. Esse grupo, que constitui a maioria, continua convicto da importância da operação que engaiolou um expressivo número de políticos e empresários brasileiros.

Fica claro aí um efeito reverso das denúncias, do qual o presidente Jair Bolsonaro e Sérgio Moro já parecem ter se dado conta. As publicações do The Intercept parecem ter recolocado a disputa político no terreno que Bolsonaro mais gosta: o da polarização absoluta dele com Lula, de seu grupo com o do PT. E não é por outra razão que Bolsonaro animou-se a, desde já, lançar-se no terreno da reeleição.

Enquanto ficam completamente desaparecidos do noticiário os fatos que poderiam questionar o próprio Bolsonaro e seu grupo enquanto representantes da moralidade política como se pretendem – as histórias que envolvem laranjas, milícias, Fabrício Queiroz, o senador Flávio Bolsonaro, o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, etc – parte-se para cima de Sérgio Moro. Questiona-se de forma dura sua imparcialidade. Mostra-se que ele, de fato, no mínimo, flertou profundamente com os limites das suas funções para alcançar condenações, especialmente a do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

E eis que voltamos, então, àquele ponto que alçou Bolsonaro à Presidência. As denúncias reanimaram o Lula Livre. E a liberdade de Lula voltou a ser a referência da oposição. Ocorre que, se Lula aglutina os seus, é ele que aglutina também os que se opõem a ele. Foi a impressão de que Bolsonaro era o único capaz de derrotar o PT – e, consequentementemente, derrotar Lula – que fez com que seu eleitorado se ampliasse além dos 15% originais, angariando o empresariado, o meio militar, os liberais.

Por conta das trapalhadas de seu próprio estilo, Bolsonaro vinha perdendo o apoio além dos seus 15%. Porque insiste em falar somente para eles. Ainda perde, por conta de episódios como o da demissão do general Santos Cruz. Ou das brigas com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ). Mas a ameaça à Lava Jato cria um novo fator de união. Talvez nem pelos riscos ao combate à corrupção. Mas pelos riscos de se ver Lula novamente solto e em campanha.

As avaliações de que o episódio enfraquece Moro e o joga no colo de Bolsonaro talvez sejam um pouco simplistas. O que na verdade parece ter acontecido é que elas uniram novamente o presidente e seu ministro da Justiça. Se antes Bolsonaro vinha largando o ministro de lado, porque ele às vezes atrapalhava sua pretensão de falar somente para seus 15%, agora o presidente voltou a ver em Moro a chance de retornar ao velho FlaXFlu que ele gosta de jogar.

Lula é, ao mesmo tempo, o calo e o trunfo de Bolsonaro. Seu maior inimigo, mas também seu adversário predileto. Há algo nessa relação que lembra uma canção de João Bosco e Aldir Blanc, “Siameses”, cujos versos dizem: “Amiga inseparável/Rancores siameses/Nos unem pelo olhar/Infelizes pra sempre/Em comunhão de males”…