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Moro e o diabo de Al Pacino


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Foto: José Cruz/Agência Brasil-EBC

O Advogado do Diabo, filme de 1997 dirigido por Taylor Hackford, tornou-se um dos grandes clássicos do cinema do final do século passado. No filme, o grande Al Pacino interpreta John Milton, um advogado que é ninguém menos que o próprio Satanás. Keanu Reaves é Kevin Lomax, um jovem ambicioso que resolve ir trabalhar no luxuosíssimo escritório de Milton, o nosso diabo. John Milton é um desses famosos juristas que costumamos ver em sessões do Supremo defendendo políticos e empresários enrolados. Cobra caríssimo para livrar corruptos de colarinho branco da cadeia.

Durante o filme, Kevin Lomax vai ascendendo no escritório do diabo, ao mesmo tempo em que seu trabalho além do limite do que é correto e ético vai pesando na sua consciência. Até que se rebela e se livra das tentações do patrão satânico. No final do filme, está defendendo uma pessoa pobre, vítima de injustiça, em uma causa humanitária. Ao final do julgamento, que vence, ele é abordado por um repórter, que começa a incensá-lo com o intuito de transformá-lo em herói. Como não tem sentido evitar spoiler de um filme com 20 anos de idade, e até porque é o que vem a seguir que importa comentar no momento, lá vai. O repórter é, na verdade, nosso velho diabo disfarçado. Depois que entrevista o personagem de Keanu Reaves, ele transmuta-se para Al Pacino, que se vira para a plateia e diz a frase que se tornou célebre: “A vaidade é meu pecado preferido”.

A troca de mensagens de Instagram entre o ministro da Justiça, Sergio Moro, e o procurador da Lava Jato, Deltan Dallagnol, publicadas pelo site The Intercept, parecem reforçar a impressão do diabo de Al Pacino. A vaidade deve, de fato, ser o pecado preferido do demônio, dada a forma como ele coloca em risco mesmo o mais bem intencionado dos bem intencionados.

Muito vai se discutir daqui para a frente sobre os limites legais e éticos que tenham sido ultrapassados na troca de mensagens. E de outros trechos contendo novas e talvez mais graves ultrapassagens, dado que o site do jornalista americano Glenn Greenwald promete novas publicações. Independentemente, porém, do que venha a se concluir, o que as conversas já reforçam é a impressão de que o grande erro de Sérgio Moro na condução da Lava Jato parece ter sido mesmo sucumbir à vaidade.

No momento das conversas, Moro era ainda o juiz da Lava Jato às vésperas de fisgar seu peixe grande: o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Havia, e há, uma série de investigações contra o ex-presidente, algumas com indícios mais graves, outras com indícios menores. O primeiro caso a chegar à conclusão era o do tríplex no Guarujá que, segundo a acusação, lhe teria sido dado como propina pela empreiteira OAS. Ainda que sobre o caso haja uma série de dúvidas e questionamentos, é preciso lembrar que a condenação de Lula neste momento já foi confirmada por outros juízes e instâncias superiores a Moro.

Mas as conversas mostram como a expectativa da condenação excitava Moro e Dallagnol. O juiz, então, orienta ações dos procuradores, divide estratégias. Trabalha em conjunto para que não houvesse reveses no caminho da iminente condenação. Estabelece-se entre juiz e acusador um grau absolutamente indevido de promiscuidade, muito distante da imparcialidade que um juiz deve buscar. E, um parênteses: deveria buscar também o jornalista, só para deixar marcado aqui um ponto para o qual este jornalista não se cansa de insistir.

Após a condenação de Lula, Moro galga novo degrau na escalada da submissão à vaidade. Aceita ser ministro da Justiça de Jair Bolsonaro. Além do sentido de Justiça, parece prevalecer em Moro o seu próprio projeto político, algo que ele almejava ao partir na sua cruzada contra a corrupção na Lava Jato. Ser ministro do Supremo? Presidente da República?

Difícil saber até que ponto Moro foi enredado pelo pecado da vaidade. Mas os clássicos da literatura ou do cinema que falam sobre pecados contam sempre que há um preço a se pagar em um eventual pacto com o diabo. E que todo o sucesso obtido com tal pacto acaba, ao final, em arrependimento dos Faustos e outros personagens dessas histórias. Moro disse ter aceito ser ministro porque considerava que, no Executivo, poderia aprofundar a aprovação e utilização das ferramentas de combate à corrupção. Desde que entrou no governo, porém, ele muito mais coleciona dissabores que vitórias

. Seu projeto anticrime patina no Congresso. Claramente não são suas e ele torce o nariz para propostas como a que flexibiliza a porte e a posse de armas nos termos em que foi feita ou a que passa a mão na cabeça dos motoristas infratores.

A vaidade cobra seu preço. A vaidade, dizia o diabo de Al Pacino, é o seu pecado preferido…

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Balbúrdia nas estradas


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Tem razão o presidente da Comissão Especial da Reforma da Previdência, deputado Marcelo Ramos (PL-AM), quando diz que o presidente Jair Bolsonaro não parece ter noção de prioridade. A reforma, que o governo declara ser sua prioridade, avança aos trancos e barrancos no Congresso. Eis que, quando parece ter se vislumbrando um ambiente de maior entendimento depois da aprovação pelo Senado da Medida Provisória do combate às fraudes do Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS), Bolsonaro resolve atravessar a Praça dos Três Poderes para pessoalmente entregar no Parlamento, todo pimpão e orgulhoso, um projeto de lei que afrouxa o Código de Trânsito.

Em que medida isso é um ponto importante da sua agenda política? Desde quando passar a mão na cabeça de motoristas que cometam infração no trânsito se insere em um projeto de governo declaradamente de direita? Dar permissão para que alguém permaneça mais tempo fora da lei desde quando é um posicionamento conservador?

Fazer paralelos entre flexibilizar a condução de veículos e flexibilizar a posse e o uso de armas de fogo é um absurdo sem qualquer sentido, independentemente do que se ache de uma coisa ou outra. A turma na faixa dos 50 anos ou mais certamente vai se lembrar da Campanha de Segurança nas Estradas, instituída na década de 1970. No auge da ditadura militar, que Bolsonaro tanto louva e admira, a campanha é o embrião de todo o projeto seguinte que civilizou o trânsito de automóveis no país.

É na Campanha de Segurança nas Estradas, concebida e gerada pelo regime militar, que nasce o que viria a ser mais tarde o Código de Trânsito que Bolsonaro agora flexibiliza. Campanha que tinha como um dos seus slogans memoráveis: “Não faça do seu carro uma arma. A vítima pode ser você”. A mensagem era clara. O automóvel é um meio de transporte que, por pesar toneladas e ser veloz, pode se transformar em uma arma letal se for mal conduzido. Ocorre que essa arma é conduzida de dentro dela. Ou seja: quem faz do seu carro uma arma, além de distorcer o sentido do seu uso, se comporta como um piloto kamikaze, colocando em risco a sua vida e a vida das pessoas que ama. Além de errado, é burrice.

Quem refletir sobre qual seria o perfil de alguém conservador, de direita, certamente vai imaginar um cidadão disciplinado, rigoroso cumpridor das regras e das leis. É para defender a Constituição e as regras que definem o seu país no seu extremo que as corporações militares essencialmente existem. O marechal Eurico Gaspar Dutra, um presidente militar do passado – daqueles que, como Bolsonaro, foram democraticamente eleitos – fazia do cumprimento estrito da Constituição o pilar único do seu mandato. Costumava dizer: “Se está no livrinho (como ele chamava a Carta), eu faço”. Por isso, soa tão estranho Bolsonaro se orgulhar tanto de propor um projeto de lei cuja base é passar a mão na cabeça de motoristas que descumprirem as regras de trânsito.

É que Bolsonaro – assim como seu guru do estrangeiro, Olavo de Carvalho – parece pertencer a uma estranha geração de pessoas que se dizem de direita. Uma certa direita anárquica. Com o perdão do ministro da Educação, Abraham Weintraub, parece ser o seu chefe quem gosta de balbúrdia. Há diversos momentos na vida de Bolsonaro em que ele parece se comportar como alguém que só respeita as leis e as regras de que ele gosta. Com as quais se identifica. As outras, ele desobedece solenemente.

A própria história da saída de Bolsonaro do Exército está inserida assim. Capitão do Exército, Bolsonaro primeiro escreveu um artigo para a revista Veja, no qual reclamava dos baixos salários pagos aos militares. A reivindicação podia até ser justa, mas afrontava a regra de que militares da ativa não devem fazer manifestações políticas públicas. Ele mesmo reconhecia no texto o risco de transgredir tal regra: “Corro o risco de ver minha carreira de devoto militar seriamente ameaçada, mas a imposição da crise e da falta de perspectivas que enfrentamos é maior”, dizia. Na sequência, de fato, foi preso por “transgressão grave”, por ter “ferido a ética, gerando clima de inquietação na corporação militar”.

Em seguida, a própria revista Veja revelou em reportagem que Bolsonaro e outro militar, Fábio Passos, tinham um plano de explodir bombas em unidades militares e em pontos do Rio de Janeiro para pressionar o comando. A ideia era que não houvesse vítimas: só se provocasse algum susto, para demonstrar a insatisfação que havia com relação aos baixos salários. Houve uma investigação, e Bolsonaro acabou no final inocentado pelo Superior Tribunal Militar (STM), porque as investigações não foram conclusivas. Pelo artigo inicial, porém, Bolsonaro ficou 15 dias preso. No mesmo ano, 1988, deixou o Exército.

Naqueles anos de início de redemocratização, embora fosse militar, Bolsonaro era um dos alvos da arapongagem do Serviço Nacional de Informações (SNI), que ainda existia. Documentos entregues por um ex-araponga à Comissão de Direitos Humanos da Câmara revelaram, entre outras coisas, que vigiar cada passo de Bolsonaro foi a primeira missão recebida por ele no Exército. Numa conversa no ano passado, durante a campanha presidencial, um general da cúpula do Exército me disse que havia grande resistência inicial ao nome de Bolsonaro como candidato justamente porque ele, como militar, nunca demonstrou muito apreço pela disciplina e pela hierarquia, comportando-se muito mais como um líder sindical da corporação.

Mais recentemente, quando era deputado federal, Bolsonaro foi flagrado pescando em uma área de proteção ambiental perto de Angra dos Reis e foi multado. Em dezembro do ano passado, quando já estava eleito presidente, a multa foi anulada. Em março, o servidor do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) que multou Bolsonaro foi exonerado sem maiores explicações.

São situações que parecem agregar à personalidade do presidente um certo gosto pela transgressão, quando eventualmente a regra o incomoda. Quem tem a caneta presidencial certamente tem muito mais poder para varrer do mapa legal toda regra que incomoda. Mas esse pode ser um comportamento bem perigoso. Como dizia o tio do Homem Aranha, um senhor que, a julgar pelos quadrinhos, em nada parecia ser de esquerda, “com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”.

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Quem paga o pacto?


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Foto: Marcos Corrêa/PR

Não tem nada mais velho nessa ideia de “nova política” do que essa história de pacto nacional pelo país. Por isso, com o perdão dos leitores, vai aí acima um título que também é velho e já foi usado bem mais de uma vez em algum veículo nestes últimos mais de 30 anos desde a redemocratização.

Bem lá atrás, no começo dessa história, José Sarney propôs o primeiro pacto. Herdava de forma trágica e inesperada a Presidência com a doença e morte de Tancredo Neves. Tinha a correta convicção de que não estava legitimado pela sociedade. Morria de medo de um retrocesso pelas mãos e botas ainda muito poderosas dos militares. Propôs, então, o que se chamou de “pacto social”. Para reforçar o pacto, adotou como slogan o “Tudo pelo social”. Ao qual o jornal humorístico Planeta Diário rapidamente acrescentou: “E nós pela entrada de serviço…”

O pacto durou enquanto Sarney foi popular com o Plano Cruzado. Degringolou quando a população percebeu que o Cruzado era uma farsa sustentada por um artificial congelamento de preços. Por conta da farsa, o PMDB, partido de Sarney, elegeu todos os governadores do país, com exceção de Sergipe, onde foi eleito João Alves, do PDS. Logo em seguida, os preços foram descongelados e dispararam rapidamente. A população revoltou-se. Em Brasília, quebrou tudo na Rodoviária no episódio que ficou conhecido como “Badernaço”. E lá se foi o pacto… Sarney enfrentou uma CPI da Corrupção, perdeu um ano de mandato na Constituinte, inventou o Centrão que até hoje nos visita para negociar rádios e outras benesses para evitar outras perdas, levou o país a uma hiperinflação sem precedentes. Terminou o mandato como um dos presidentes mais impopulares da história.

Itamar Franco também propôs seu pacto. O então líder do governo, Pedro Simon, batizou-o de “condomínio da governabilidade”. Talvez tenha sido o que mais sucesso obteve com esse entendimento. Havia uma compreensão tácita entre os partidos políticos de que tinham responsabilidade grande em fazer com que o governo Itamar desse certo. Afinal, tinham derrubado num processo de impeachment logo o primeiro presidente eleito democraticamente por voto direto depois da ditadura militar. Precisavam mostrar que tinham tão somente se valido de um instrumento constitucional para dar solução política a uma crise. O “condomínio” uniu-se a Itamar. Mesmo o PT  – que ajudou a derrubar Collor, mas preferiu ficar oficialmente de fora – fazia uma oposição branda.

Mas as urgências da disputa política também desmontaram o pacto. Inicialmente, Itamar cogitou lançar à Presidência na sua sucessão seu ministro da Previdência, o jornalista Antônio Britto, ex-porta-voz de Tancredo Neves. O hoje senador Tasso Jereissati (CE) costurava com o hoje presidiário Luiz Inácio Lula da Silva uma aliança entre o PSDB e o PT. Mas houve o Plano Real, e a sorte eleitoral e política mudou de lado. Lula, que então liderava todas as pesquisas para presidente, resolveu ficar contra o Real. O plano deu certo. Nunca mais houve hiperinflação no país. O país voltou a poder planejar sua vida financeira. O ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, que vinha de perder uma eleição para Jânio Quadros para prefeito de São Paulo e tivera dificuldades para se eleger senador, virou pule de dez na disputa presidencial e desbancou Lula. Iniciou-se aí a tola divisão entre coxinhas e petralhas que dominou o debate político e resultou na derrota de ambos com a vitória de Jair Bolsonaro.

Certamente, agora, Bolsonaro sentiu-se legitimado pelas manifestações de domingo. Que foram, sim, expressivas. Mas menores que os atos de protesto do dia 15 de maio pelos cortes na educação. Temos, portanto, uma população dividida. Mais, talvez, do que temer reações da sociedade quanto à manutenção dos velhos instrumentos da barganha ou outras palavras de ordem do tipo, o que pode ter movido os presidentes da Câmara, do Senado e do STF a aceitarem o tal pacto proposto foi o vislumbre de fogo alto no circo se os grupos organizados de um lado e de outro continuarem marchando nas ruas, num estranho e perigoso revesamento,  um em reação ao outro.

O que parece ter se acertado, portanto, é um pacto de não agressão. Bolsonaro para de criticar Rodrigo Maia. Que para de atiçar o Centrão para que coloque entraves ao governo nas votações no Congresso. José Antônio Dias Toffoli para, por sua vez, de colocar Alexandre de Moraes para perseguir inimigos e tentar censurar a imprensa. E segue-se, assim, o barco.

Aí, voltamos ao título surrado lá de cima, que já perguntava há mais de 30 anos quem perde quando se fazem esses entendimentos. Porque alguém sempre tem que ceder num pacto. E geralmente quem entra de candidato a ceder geralmente é a sociedade, que não participou dele. Quem entra, quem fica de fora na reforma da Previdência e outras reformas estruturantes que vierem a ser acertadas? O pacto suspende, arrefece ou ameniza as investigações de combate à corrupção? É “com o Supremo, com tudo”? Inclui, por exemplo, tirar o Coaf do Ministério da Justiça? O Coaf que investigou Fabrício Queiroz, o ex-assessor do senador Flávio Bolsonaro, filho do presidente?

Será algo à la João Gilberto? Será que a “voz do pacto” é “mesmo um desacato”?

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A oposição não foi aos atos do governo


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Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil-EBC

Um dado curioso das manifestações de apoio ao governo Jair Bolsonaro no domingo foi a quase total ausência da oposição nos atos. Claro, ninguém está falando da presença física de opositores do governo nas ruas. Estamos falando dos alvos das manifestações. Com exceção de um pixuleco – o boneco do Lula presidiário – aqui ou ali, a turma gritou mesmo foi contra o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), o Centrão, o Supremo Tribunal Federal (STF) e a “mídia”.

Eis aí um ponto inusitado que une as hostes de Bolsonaro das do PT e de Lula. Eles podem pensar diferente em praticamente tudo, mas seus principais inimigos vão se tornando exatamente os mesmos.

Foi o Centrão de Rodrigo Maia, então sob o comando do ex-presidente da Câmara e agora presidiário Eduardo Cunha (MDB-RJ) que conduziu o processo de impeachment de Dilma Rousseff. Foi o Centrão de Maia e Cunha que tratou de inviabilizar completamente o segundo mandato de Dilma tornando o país ingovernável e criando as condições políticas para o seu afastamento. Foi o Supremo Tribunal Federal que conduziu primeiro o processo do Mensalão e depois os julgamentos provenientes da Lava Jato, esfarinhando o PT e condenando a sua cúpula à cadeia. O Supremo é instância máxima do Judiciário, que colocou e mantém na cadeia o ex-presidente Lula. E foi a “mídia”, a tal “mídia golpista” que distorceu fatos, criou versões com o propósito de desgastar o PT e tirar o partido do poder.

É o Centrão de Rodrigo Maia que agora cria dificuldades para que sejam aprovados os projetos de Jair Bolsonaro. É o Centrão de Rodrigo Maia que trata de inviabilizar o governo para achacá-lo, pressioná-lo e garantir a manutenção dos expedientes da “velha política”. O Supremo Tribunal Federal agora quer livrar da cadeia criminosos da Lava Jato. Mas ao mesmo tempo incentiva investigações contra o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) com o propósito de constranger e desgastar o governo de seu pai, o presidente Jair Bolsonaro. E a mídia – que parece, então, ser sempre golpista não importa quem seja o presidente – distorce fatos e inventa versões com o propósito de criar embaraços para o atual governo.

Ainda que a motivação para os atos de domingo tenha sido promover uma reação às manifestações de 15 de maio, quando a oposição levou gente às ruas para protestar contra os cortes na educação, é impressionante essa coincidência de inimigos. No domingo, somaram-se ao Centrão, ao STF e à mídia nos protestos importantes aliados de um passado recente que contribuíram para derrubar o PT e permitir a ascensão de Bolsonaro. O Movimento Brasil Livre (MBL) era o mais visível deles.

Nós já dizíamos aqui antes que as manifestações de apoio ao governo seriam expressivas. Bolsonaro conta com um grupo organizado e aguerrido, com forte capacidade de mobilização. Representa, porém, os 15% originais que deram a musculatura inicial para a sua candidatura. Sem a presença do MBL e outros grupos mais moderados, não estavam presentes de forma maciça as forças que aderiram depois a Bolsonaro quando perceberam nele a chance maior de tirar o PT do poder.

Boa parte desses grupos está no Centrão e em outras forças que o discurso dos bolsonaristas mais radicais afasta. Fica claro que Bolsonaro quer usar a opinião pública como instrumento de pressão sobre o Congresso para não sucumbir às ferramentas do velho toma-lá-dá-cá. Em princípio, essa poderia ser uma estratégia saudável. É uma constatação de muitos – não somente na direita – que foram os expedientes fisiológicos do nosso presidencialismo de coalizão que levaram o Brasil à crise que vive.

O problema é que as pesquisas mostram que Bolsonaro hoje não tem o apoio da maioria. E se ele ajuda com seus atos e discursos a prioritariamente afastar parte daqueles que nas eleições estiveram com ele, vai-se apoiando mais e mais numa minoria. Como dissemos antes,o risco que havia era, com as manifestações, a criação de um aval enganoso que corroborasse a radicalização ainda maior do discurso do governo.

Como as manifestações foram expressivas mas não tão grandes como o próprio governo esperava, esse risco talvez esteja agora afastado. O prudente seria tanto o governo como seus novos inimigos, especialmente o Centrão e o Congresso, avaliarem os atos de domingo exatamente pelo seu valor de face. Expressivos para mostrar que há uma parcela forte da população que rechaça qualquer tipo de esforço conjunto da elite política para parar as investigações sobre corrupção e que cansou das velhas práticas do fisiologismo. Mas não forte o suficiente para que o governo imagine que pode tudo e que vai atropelar Congresso e outras instituições para fazer valer o que deseja, sem negociação e sem diálogo.

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Flávio, sigilos e milícias


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Na lista das 98 pessoas com ligações com o presidente Jair Bolsonaro e com o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), que tiveram os sigilos quebrados na investigação do caso Queiroz há dois nomes que precisam ser observados com o máximo de atenção.

São Valdenice de Oliveira Meliga e Alessandra Cristina de Oliveira. Valdenice era a tesoureira do PSL do Rio de Janeiro nas eleições do ano passado. Alessandra é a atual primeira-tesoureira. Em princípio, as investigações apuram a existência de esquemas de rachadinha. Ou seja: quando o político combina com o funcionário contratado ficar com parte do salário acertado entre os dois. Um tipo de esquema muito comum entre políticos do baixo clero. E que se desconfia fosse a razão da movimentação estranha que o Conselho de Controle da Atividade Financeira (Coaf) identificou nas contas de Fabrício Queiroz, o assessor/motorista de Flávio que, como o personagem na música de Chico Buarque, “assim como veio, partiu não se sabe pra onde”.

Na campanha, Valdenice e Alessandra tinham autorização para assinar cheques em nome de Flávio Bolsonaro. É normal que tal autorização seja dada a tesoureiras, que são as pessoas que oficialmente estão designadas para lidar com o dinheiro do partido. O problema são as ligações que existem entre elas e entre elas e as milícias que atuam no Rio de Janeiro. É no aprofundamento dessas investigações que reside o perigo.

É, no mínimo, curioso que Bolsonaro tenha inventado essa perigosa aposta em manifestações justamente uma semana depois da autorização da Justiça de quebra de sigilo de Flávio. Se ele já tinha ou não informações prévias sobre essa possibilidade, é difícil saber. Mas que foi esse o grande tsunami que houve, não há dúvida. Que tipo de teste de popularidade Bolsonaro pretende, que tipo de confronto pode vir daí, só o tempo dirá.

Val Meliga, como é chamada Valdenice, é irmã dos gêmeos Alan e Alex Rodrigues Oliveira, que foram presos na Operação Quarto Elemento do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) e do Ministério Público do Rio de Janeiro. Foram encontrados pelo menos dois cheques da campanha de Flávio assinados por Val, nos valores de R$ 3,5 mil e R$ 5 mil.

Um dos cheques assinados por Val foi para a empresa Alê Soluções e Eventos Ltda. Que pertence a ninguém menos que Alessandra. A empresa de Alessandra estava contratada para fazer a contabilidade da campanha de Flávio. E não apenas dele, mas de outros 42 candidatos do PSL no Rio. Além disso, Alessandra era funcionária do gabinete de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio, com um salário de R$ 5 mil.

Então, temos aí o seguinte. Um de cada cinco candidatos a cargo eletivo do PSL do Rio nas últimas eleições entregou a contabilidade da sua campanha para a hoje primeira-tesoureira do partido. Que era funcionária no gabinete de Flávio, que também a contratou. No mínimo, há aí uma complicada mistura de funções e responsabilidades.

Mas o cheque de Flávio que pagou Alessandra foi assinado por Val, irmã de milicianos.

Onde vai parar esse novelo, somente as investigações que se iniciam com as quebras dos sigilos vai dizer. Bolsonaro pai e Bolsonaro filho dizem que não há nada a esconder. Afirmam ser vítimas de uma perseguição do Ministério Público.

Só não dá para dizer que os dois não estejam preocupados. O presidente pede socorro à militância. No domingo, saberemos se esse socorro virá. E até onde tal fidelidade se estende.

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O capitão em seu labirinto


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Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil-EBC

A semana tem ares de decisiva para o governo do capitão presidente Jair Bolsonaro, por conta das manifestações de apoio que ele convocou para domingo. Mas é bom alertar que os impactos do que vier a acontecer no início da próxima semana poderão ser um pouco enganosos.

Depois da série de tsunamis da semana passada, Bolsonaro quer testar a sua popularidade. O texto que ele postou em que um economista dizia ser o Brasil ingovernável caso o governante não aceite sucumbir aos conchavos e barganhas que a classe política impõe parecia ter um tom meio de carta de renúncia à Jânio Quadros. A evocação de “forças terríveis” ou “ocultas” estava toda lá. Mas era, na verdade, mais um ataque à tal “velha política”.

Era de novo Bolsonaro falando aos seus que foi eleito para fazer um governo diferente. No fim da semana, o presidente tratou de turbinar ainda mais essa história, cometendo o exagero de se dizer alguém com uma missão divina. Publicou um vídeo de um pastor africano dizendo que ele é um “escolhido de Deus”. O governo tem quase seis meses e o presidente segue nas redes sociais construindo a ideia do “mito” da campanha.

O que se verifica como reação nas redes sociais é que os movimentos de Bolsonaro pareceram solidificar ainda mais a sua base de apoio original. E afastaram um pouco mais os grupos moderados que optaram pelo capitão nas eleições do ano passado quando enxergaram que ele era a escolha mais clara para derrotar um novo mandato do PT, que não queriam. Ou seja: Bolsonaro outra vez resolveu falar somente para os seus. Deu nova demonstração de que é com seu grupo original que ele se sente compromissado.

Estima-se que o grupo original mais radical que deu a musculatura inicial para a candidatura de Bolsonaro gire em torno de 15% da população. É a turma aguerrida que ganhou da sua oposição o apelido de bolsomínions. É essa turma que poderá ir às ruas no domingo caso a convocação feita por Bolsonaro der certo.

É aí que os números podem ser enganosos. Se Bolsonaro tiver a capacidade de arregimentar seu grupo mais próximo, esses 15% têm ainda o potencial de fazer manifestações expressivas nas ruas. Vão passar a impressão de que é massiva a popularidade do presidente. São grupos organizados, o que torna esse cenário possível.

Ocorre que são 15%. Portanto, são minoria mesmo dentro das forças que hoje estão mais próximas ao governo, que compõem a ala conservadora da sociedade. Há, por exemplo, hoje um claro descolamento da parcela mais liberal. A maior evidência disso está nas críticas que vêm sendo feitas pelo Movimento Brasil Livre (MBL).

Assim, um sucesso das manifestações de domingo poderá levar a um quadro enganoso de apoio popular. Que pode fazer Bolsonaro radicalizar ainda mais o seu discurso. Afastando ainda mais liberais, empresários, o Centrão, etc. Mantendo a crise. O outro cenário está na possibilidade de as manifestações serem um fracasso. Aí, Bolsonaro se verá realmente em apuros…

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É prudente respeitar os “idiotas”


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Lá do Texas, distante oito mil quilômetros das ruas brasileiras, o presidente Jair Bolsonaro tratou de chamar os milhares de manifestantes que protestaram contra os cortes no orçamento da Educação de “idiotas úteis”.

Governos minimizarem o efeito de manifestações contra eles é algo tão comum quanto técnicos da Seleção Brasileira minimizando as consequências de uma goleada num amistoso às vésperas da Copa do Mundo. Quem está de fora, porém, sente e sabe bem a diferença que há entre a realidade e o discurso.

Jair Bolsonaro é fruto dos movimentos de protesto que começaram na Copa das Confederações ainda no primeiro governo Dilma Rousseff. Movimentos que depois nunca mais pararam e foram crescendo até inviabilizar completamente a permanência de Dilma e da era petista. Deveria, portanto, ser o primeiro a identificar os efeitos dessas ondas de insatisfação.

Mas Bolsonaro foi bem mais além que minimizar. Ele resolveu provocar os manifestantes. Chamou-os de “idiotas”, de “massa de manobra”. Seria bem mais prudente ao presidente respeitar esses “idiotas” que foram às ruas. A situação de Bolsonaro não anda das mais confortáveis.

Há no modus operandi de Bolsonaro e da turma mais próxima a ele – incluindo seus filhos – uma necessidade atávica de agredir sempre os adversários. É o clima de guerra permanente das redes sociais. E já comentamos sobre isso por aqui. Algo que Bolsonaro importa de outros governantes que antes dele tinham descoberto o poder das redes sociais. É assim que faz Vladimir Putin na Rússia. É assim que faz Donald Trump nos Estados Unidos.

Ocorre que a Rússia é um país onde o Estado é muito forte. Não é exatamente uma democracia. Nos Estados Unidos e aqui, o estilo da agressividade crônica atiça os adversários. Mantém um clima de confronto e crise permanente. E já começa a ficar evidente que essa intranquilidade permanente não exatamente ajuda o “capitão eleito”, para repetir uma expressão usada por seu filho, Carlos Bolsonaro.

Enquanto pessoas foram às ruas em número longe de ser desprezível, Bolsonaro reagia chamando-o de “idiotas”. Na Câmara, o ministro da Educação, Abraham Weintraub, igualmente reagia insinuando chamar os deputados de “vagabundos”, que nunca na vida tiveram uma carteira assinada. Ou seja: é guerra permanente contra os supostos adversários.

Mais uma vez guardando o espaço da sensatez no governo, o vice-presidente Hamilton Mourão disse que as reações aos cortes na Educação foram um problema de comunicação. Foram mesmo. Se o governo desde o início tivesse dito que o corte era necessário porque os governos anteriores, de Dilma e de Michel Temer, tinham quebrado o país, o que não deixava alternativas, talvez tivesse conseguido a partir daí criar um outro ambiente. Primeiro, obrigaria os adversários a se debruçarem nos números. Segundo, números sempre são mais difíceis de compreender. Não geram disposição para palavras de ordem. Terceiro, poderiam arregimentar grupos em efeito contrário, que reclamariam dos desmandos e trapalhadas da era petista.

Mas Weintraub resolveu dizer que estava cortando o dinheiro porque as universidades faziam “balbúrdia”. Mesmo tendo tornado depois o corte generalizado, foi essa primeira mensagem que ficou. Quem nunca frequentou uma universidade pode mesmo pensar – até por despeito – que ali só se faz bagunça. Quem, porém, sentou nas cadeiras de um curso superior e dá valor ao diploma que recebeu, sabe o que exatamente fez para merecê-lo. O que inclui boa parte da elite conservadora brasileira. Ou seja: boa parte dela não vai comprar esse discurso para desmerecer o valor do seu próprio esforço.

Assim, construiu a palavra de ordem que ontem foi às ruas. Foi chamado à Câmara para se explicar numa clara molecagem do Centrão. Passou o recibo. Chegou no plenário e agrediu os deputados. Nem se ajudou nem ajudou o governo que patina no Congresso colecionando derrotas.

Nas atitudes de Bolsonaro e de Weintraub há a esperança de que arregimentaram seus exércitos. E que um dia esses exércitos possam sair às ruas, se necessário, em sua defesa. Mas é sempre bom lembrar. A turma aguerrida de Bolsonaro nas redes é o seu grupo inicial, de uns 15%. Não é a maioria mesmo daqueles que o elegeram. Falar o tempo todo somente para esses grupos não é falar para a maioria da sociedade. Esse erro vem sendo repetido seguidamente.