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The Post, o filme, e o anseio por informação de qualidade


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Foto: Divulgação/20th Century Fox

Termina a sessão de The Post, o filme de Steven Spielberg em cartaz, e a plateia do cinema começa a aplaudir entusiasticamente tão logo aparecem os créditos finais. Por melhores que sejam, não costuma ser uma reação comum das plateias aplaudir filmes. Afinal, seus realizadores não estão ali fisicamente para receber os cumprimentos. Somente filmes que mexem muito com a emoção dos espectadores costumam receber essa reação. Pelo que me contam, a reação nesta seção de cinema não foi algo isolado. As pessoas estão aplaudindo The Post.

É algo curioso que o relato de uma situação vivida na redação de um jornal impresso na década de 1970, nos Estados Unidos, diante da tensa relação política do governo Richard Nixon naquela época, com a contestação que havia contra a Guerra do Vietnã, gere tal emoção nos dias de hoje. Para as novas gerações, talvez seja até difícil compreender os detalhes da rotina que o filme mostra nas redações dos jornais. Quantas pessoas conseguem reconhecer aquelas máquinas de linotipo ou os riscos dos desenhos de página feitos pelos diagramadores? Toda essa realidade quase extraterrena para qualquer um com menos de 40 anos aparece no filme sem qualquer preocupação didática maior de explicá-la. E mesmo assim o filme emociona. E é aplaudido no final.

Nas entrevistas sobre seu filme, Spielberg vem matando um pouco dessa charada. O que o motivou a desenvolver a história e transformá-la em filme foi o que ele chama de “tempo das fake news”. O atual ambiente, onde as pessoas informam-se pelas redes sociais, de forma rasa e descontextualizada. Não conseguem distinguir o que é falso ou verdadeiro. Nem conseguem informações mais detalhadas e aprofundadas sobre as questões que as afligem.

Em muitos momentos, a disseminação das informações é meramente militante. Os diversos grupos de interesse tratam de difundir o que lhes interessa, de forma distorcida e rasa, o mais próxima possível de mera palavra de ordem, de slogan de propaganda. A lógica das redes sociais trata de distorcer ainda mais a coisa, porque aproxima as informações ao que cada pessoa já pensa e aos seus interesses. No caso dos Estados Unidos, tendo agora um presidente com alta participação nesse jogo. Quando não está cuidando da tintura do cabelo, Donald Trump está nas redes sociais, desqualificando seus adversários e tendo como um de seus alvos preferenciais, a imprensa, que ele trata como sua adversária.

Por outro lado, a imprensa vive a maior crise da sua história. Viu esfarelar-se seu modelo anterior de negócios sem que esteja ainda construído um modelo novo. Nenhum veículo de comunicação de hoje poderia, como fez o Washington Post, como se mostra no filme, estabelecer como um de seus ativos numa reunião de negócios a atenção que dá para a manutenção de uma equipe de jornalistas de qualidade. Todos os atuais veículos de comunicação, por conta da crise, andam rifando seus jornalistas de qualidade, substituindo-os por outros mais jovens, menos experientes e mais baratos. Entregando cada vez mais reportagens aos cuidados de estagiários. Equipes menores e com menos tempo para apurar as informações que publica. No mundo do jornalismo on-line, não raro o tempo entre apuração e publicação não passa de alguns minutos. E não raro o veículo vê-se obrigado a corrigir logo depois, pela pressa, o que tinha acabado de informar.

E é preciso se reconhecer que não foram poucos os veículos que caíram na armadilha criada por eles mesmos de abandonar o antigo conceito de objetividade – esse dos tempos do filme – para declaradamente assumir posicionamentos que os fizeram pender claramente para um dos lados da disputa política. Claramente governistas ou oposicionistas, que credibilidade podem esperar ter diante do público que não professa das mesmas ideologias?

Contrapondo o jornalismo tradicional em crise, apresentam-se grupos de blogueiros voluntaristas, tentando fazer valer a ideia de que podem suprir, lobos solitários que são, as carências das cada vez menores equipes dos jornais, das revistas e emissoras de TV. Alguns falam somente para seus grupos. Outros, mal intencionados, achacam para fazer negócios. Muitos unem a isso o problema mencionado no parágrafo anterior: assumem declaradamente um lado do jogo político e não podem, assim, esperar receber, da mesma forma, credibilidade de qualquer um que não professe as mesmas ideologias. Alguns conseguem, pela experiência ou credibilidade de seus titulares, acrescentar algo. Todos, porém, carecem da estrutura mínima necessária para alimentar de forma plena seus leitores com notícias.

As reações a The Post parecem determinar um certo anseio das pessoas por informação de qualidade. Por algum tipo de contrato que lhes garanta obter um relato de confiança sobre o que lhes interessa, num quadro em que não parecem enxergar essa possibilidade vinda de lugar nenhum da imensa profusão de notícias que aparece hoje nos seus computadores, tablets e celulares.

The Post  demonstra que está longe de ser trivial, banal, o trabalho jornalístico. E que ele está longe também de ser dispensável numa sociedade moderna. Segue na mesma linha de mensagem assinalada há alguns anos por Spotlight. Primeiro, mostra como não é na verdade nada solitário o trabalho jornalístico que realmente faz diferença. Tanto em The Post como em Spotlight, fica claro como jornalismo é trabalho de equipe. Como tem resultado efetivo quanto mais toda a estrutura do jornal está envolvida. Desde o proprietário, ao dar a autorização para que a história seja investigada e publicada, até o foca mais novato. Quando envolve não apenas aqueles diretamente relacionados com a apuração, mas todo o corpo da empresa.

É um trabalho que exige dedicação, mas sobretudo estrutura. Não tem como ser bem feito nem por equipes enxutas e inexperientes nem pela ação voluntarista e individual de alguns. Ou seja: a maior parte de quem está hoje no jogo do jornalismo está a quilômetros de ser capaz de produzir informação de qualidade. E a profusão cada vez maior de informação rasa, distorcida, quando não falsa, que chega nas telas de cada um só faz provocar mais confusão e insegurança.

Por menos que compreenda as imagens dos linotipos, dos riscos dos diagramadores e das laudas das máquinas de escrever, o espectador compreende que o recebimento de informações de qualidade é algo que trabalha a seu favor. Que governante algum, seja de que partido for, jamais vai se agradar com o trabalho de uma imprensa livre, cumprindo o seu papel.  Que sempre tentará atacar ou relativizar o trabalho da imprensa.

Menos Google. Mais sola de sapato. Mais saliva gasta. Mais papel de bloquinho. Mais tinta de caneta. Não sou eu quem está pedindo. O pessoal é que está querendo…

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Que tiro será esse? Próximo presidente pode ser uma bala perdida


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Foto: Agência Brasil-EBC

A primeira pesquisa Datafolha após a condenação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva veio mais para confundir do que para explicar. Quando ele é retirado das opções, aparece um quadro no qual Jair Bolsonaro lidera, mas sem grande consistência: sua intenção de voto diminuiu e ele perde em várias situações de segundo turno. Especialmente, a pesquisa não aponta ninguém que claramente vá se beneficiar ou ser o repositório dos votos que seriam dados a Lula no caso, bastante provável, dele não disputar a eleição. Ou seja: embolou o jogo.

Vamos admitir, apenas por hipótese, que todo esse processo,  que envolve o Ministério Público, a Polícia Federal, o Poder Judiciário em várias instâncias – que, de acordo com o site do Ministério Público, levando-se em conta somente a sua vertente no Paraná já expediu 888 mandatos de busca e apreensão, 222 mandados de condução coercitiva, 101 mandados de prisão preventiva, 111 mandados de prisão temporária, 117 condenações contra 113 pessoas, que somam 1.753 anos de prisão, entre outros números –, de fato tenha sido movido com o único propósito de impedir Lula de disputar a eleição.  Se tal conspiração for verdade, todos esses conspiradores correm o risco, a julgar pela Datafolha, de atirar no que viram e acertar o que não viram.

Parafraseando a Jojo Todynho (perdoem, sinal dos nossos tempos), há uma chance de nos perguntarmos em outubro que tiro será esse. No quadro embolado que a pesquisa Datafolha demonstra, há uma grande chance de o próximo presidente ser uma bala perdida. Ou seja: alguém completamente fora do quadro anteriormente previsto.

E, se havia nisso tudo de fato alguma conspiração de “centro-direita”, a pesquisa aponta uma grande chance do resultado final não vir desse campo.

Ao longo dos últimos dias, enquanto se desenrolava a condenação de Lula, Bolsonaro também viu sua situação ser questionada por denúncias de uso indevido de verba de moradia. Às quais respondeu de forma absolutamente grosseira. Assim, o que a pesquisa mostra é uma situação cristalizada. Como polarizava com Lula, sem ele Bolsonaro lidera. Mas com os mesmos índices que já tinha, até um pouco menos.

E quem parece mais se beneficiar da saída são outros candidatos identificados com o mesmo campo da centro-esquerda de Lula: Marina Silva e Ciro Gomes. Marina irá para a sua terceira eleição presidencial, e sempre apareceu em posição de destaque. Nas últimas eleições, chegou a liderar por um momento depois da morte de Eduardo Campos (era a sua candidata a vice). Parte da sua força vem desse recall. E parte vem de certo perfil próximo do de Lula (de mulher pobre que ascendeu, ex-petista, com preocupações parecidas). Mas, desde que saiu do PT, Marina só aumentou seu afastamento do partido, a ponto de apoiar Aécio Neves no segundo turno nas últimas eleições. Isso faz com que não herde votos da militância. Mas o eleitorado de Lula é muito maior que a militância petista.

Já Ciro faz um movimento pendular no apoio a Lula. Há tempos trabalha para ser o Plano B de Lula. Ora Ciro viu-se mais próximo disso, ora mais longe. Então, ora ele defendeu Lula mais fortemente, ora afastou-se para atacar mais duramente a ele e ao PT. O fato é que Ciro foi construindo ao longo do tempo um perfil de “sincerão”, que agrada a parte do eleitorado. E “sincerão” numa linha que coincide com certos pontos do discurso lulista e petista, de enxergar erros e disposição político-partidária nas ações da Lava-Jato, ao mesmo tempo em que por vezes aponta para erros do PT, especialmente na forma como construiu suas alianças e imiscuiu-se com elas. Se o macho man não se enrolar nas respostas como aconteceu em outras ocasiões…

A profusão de diferentes cenários testados pelo Datafolha, trazendo de volta nomes que pareciam já fora da disputa como o prefeito de São Paulo, João Dória, e o apresentador Luciano Huck, é outro elemento a reforçar como o quadro está embolado.

Dentro, portanto, dessa imprevisibilidade, alguém pode fazer um momento inesperado e tomar o tiro que os estrategistas imaginavam que iria acertar outra pessoa. Ainda vamos ter que esperar mais um pouco para saber que tiro será esse…

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O importante ABC de Bóris Fausto


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Foto: Dilma no dia em que deixou o Palácio da Alvorada (Wilson Dias/Agência Brasil – EBC)

Quer uma dica? Não termine a semana sem ler a entrevista do historiador Bóris Fausto publicada neste sábado no UOL. Deixe de lado as preferências políticas pessoais dele, tão legítimas como as suas. Abandone as luvas de boxe com que participa desse inútil e triste UFC intelectual que virou o país e reflita a partir do pensamento de um dos maiores historiadores deste país (aliás, se você não possui nem deixa próximo de sua mesa de cabeceira, procure nas livrarias a fundamental História do Brasil de Bóris Fausto).

O ponto central da entrevista é a avaliação de Bóris Fausto de que o processo de impeachment contra a ex-presidente Dilma Rousseff abriu sobre o Brasil uma Caixa de Pandora. De onde saem fatos e monstros de consequências imprevisíveis e incontroláveis.

Como afirma já ao final da sua entrevista, Fausto não foi contra o impeachment de Dilma. Menos pelas tais pedaladas fiscais e mais pelo estado de total ingovernabilidade em que se encontrava o país. O problema é que o impeachment não trouxe tal governabilidade de volta. Pelo contrário, desprendeu do país reações complicadas e violentas, cujas consequências são impossíveis de se prever.

Começa pelo fato, diz o historiador, de as motivações de cada um dos parlamentares que participou do processo terem sido muito mais pessoais que cívicas. Pesou no processo como o impeachment poderiam salvar a própria pele de muitos, ou de que forma aquilo poderia contribuir para as ambições futuras de cada um. Aquilo que ficou patente na já célebre conversa do senador Romero Jucá (PMDB-RR) com o ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado: a construção de um grande “acordo nacional” que limitasse o processo da Lava-Jato no PT e o concluísse em Dilma, livrando a cara dos demais.

Ocorre que nem todo mundo aceitou participar do tal “acordo”. Bóris Fausto observa que a Lava-Jato pode estar correndo perigos, mas ela não parou. Ao contrário: como um dos primeiros fatos que veio na sequência, o próprio presidente Michel Temer viu-se como um dos principais alvos das denúncias. Assim, um governo que não era legitimado pelo voto viu-se com imensas dificuldades de se legitimar de alguma outra forma, já que seu comandante encontra-se enrolado na mesma teia que enredou sua antecessora e o partido dela.

Uma situação que leva a um desencanto generalizado com a política, com seus atores e partidos. Partidos que já eram enfraquecidos pelo fato de não terem, a quase totalidade, sequer a sombra da consistência ideológica que chegaram ter os partidos da nossa experiência democrática anterior, de 1945 a 1964. Desse caldo emerge uma figura como Jair Bolsonaro, como expressão de certa vocação autoritária brasileira, que em outras épocas subiu ao poder pelo golpe, mas que talvez agora tenha alguma chance de se legitimar pelo voto.

Que leva à total desarmonia entre os Poderes. Um Legislativo já de algum tempo desmoralizado. Um Executivo com os problemas apontados acima de legitimidade. E um Judiciário que ocupa o vácuo, legislando e tomando decisões administrativas (como a decisão de impedir a posse da deputada Cristiane Brasil no Ministério do Trabalho).

Num cenário onde tudo se torna questionável, partidarizado, politizado ao extremo, lidera as pesquisas de intenção de voto o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, condenado em segunda instância, num quadro, portanto, de total incerteza jurídica. Numa estratégia de desafio e confronto que, em alguns momentos e por conta de alguns personagens, derrapa para o perigoso flerte com a desobediência civil.

Bóris Fausto observa que estamos longe de ter no Brasil “uma democracia plena e consolidada”. Até porque tivemos o mau hábito de seguidamente interromper esse processo com aventuras autoritárias. Assim, esse quadro todo coloca em risco tudo pelo que se lutou e que se conquistou desde 1985, quando se derrubou a ditadura militar.

Ele mostra-se otimista com a possibilidade de as eleições de outubro conseguirem dar um freio de arrumação nisso tudo, com a eleição de um presidente legitimado pelo voto. Tomara que Bóris Fausto tenha razão. A leitura desapaixonada das avaliações de pessoas com o grau de conhecimento e a capacidade de análise como Bóris Fausto nos ajudaria. Mais reflexão e menos FlaXFlu nos ajudará a sair desse enrosco.

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Condenação de Lula não encerra nada. Muito pelo contrário…


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Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil-EBC

O fato de ter sido condenado por unanimidade pelos três desembargadores do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4) reduziu bastante as possibilidades de recurso do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mas não as eliminou. Até porque o principal gramado onde se pretende manter acesa essa disputa não é exatamente o do Judiciário. É o político.

Sobre as razões – se elas são justas ou injustas, se há motivos ou não, etc –, não vamos entrar nelas aqui, até porque as torcidas do FlaXFlu já se empenham muito nisso, e não há cristão que convença um lado de que pode haver argumento válido do outro. O fato é que Lula e o PT escolheram para enfrentar a situação uma estratégia de confronto e de desafio.

A partir da ideia central de que é vítima de uma perseguição injusta e de que tudo teria sido urdido com o único propósito de impedi-lo de disputar as eleições presidenciais em outubro, Lula tenta se valer da sua indiscutível popularidade e da também indiscutível capacidade de mobilização do PT para manter acesa essa chama do confronto até onde for possível.

Na verdade, desde o início esses eram os riscos do processo. Ao contrário de Fernando Collor, um aventureiro solitário, os personagens que foram caindo desde que se descobriu o mensalão pertencem ao partido mais organizado na sociedade do país. Ao longo do processo, os que tinham mais capacidade de liderança mobilizaram militâncias, palavras de ordem, punhos cerrados, contra as suas condenações. Mais do que natural que assim fosse se e quando as contestações judiciais chegassem ao líder máximo do PT.

À capacidade de mobilização do PT soma-se a popularidade pessoal de Lula. Ao longo do tempo em que esteve no poder, ele foi alterando o perfil do seu eleitorado, além da turma petista de carteirinha, que não deve ser desprezada, pelas razões já mencionadas acima. Até 2002, possuía um eleitorado mais de classe média, que avaliava ser o PT um partido mais orgânico, de comportamento mais sério que, chegando ao poder, estaria comprometido com o combate à corrupção e com mudanças no modo fisiológico e patrimonialista da política brasileira. Naquela primeira eleição que ganhou, é marco dessa mensagem a célebre propaganda dos ratos roendo a bandeira nacional.

Ao longo de seus governos, Lula foi implementando políticas de inclusão social que alteraram o perfil desse eleitorado. O bem sucedido Bolsa Família foi o carro-chefe. Mas havia também amplas políticas de facilitação de crédito, e aumento real do salário mínimo. As famílias mais pobres, beneficiárias dessas políticas, sentiram essa diferença e passaram a ser o eleitorado principal de Lula. E, como Lula conseguiu muito tornar-se para esses eleitores um ser único – o cientista político André Singer chegou a propor que se estabeleceu, além do petismo, um lulismo –, ele parece se descolar do fato de Dilma Rousseff, em seu segundo governo, não ter sido capaz de sustentar as condições econômicas e estruturantes para manter adiante esses planos de inclusão social.

Some-se a isso o fato de as propostas do governo de Michel Temer parecerem menos inclusivas. O governo trabalha no sentido de tentar convencer a população que elas, diante da crise, são necessárias, mas esse é um discurso muito difícil de ser aceito. Agudizam a comparação e, nessa população, fortalecem a lembrança dos bons tempos que tiveram com Lula.

Esse eleitorado não tem, como o de classe média, a questão da corrupção como eixo central das suas motivações ao votar. Boa parte desse eleitorado já tinha a convicção de que “político é tudo igual” no que se refere ao mau trato da coisa pública. É um eleitorado que, assim, estabeleceu um sentido mais pragmático ao seu voto: espera do político que escolher alguma coisa concreta em seu favor em troca. Num quadro em que todos os partidos e boa parte dos principais políticos tem também a sua honestidade contestada, o jogo fica para esse eleitorado zerado com relação a Lula. Ainda mais quando alguns exageros colaboram com argumentos para fragilizar as denúncias contra o petista (aquela condução coercitiva, os áudios irregularmente vazados, etc.)

O PT não mobiliza essas pessoas. A capacidade de mobilização do partido é bem menor. Mas ainda é maior que a capacidade de mobilização dos demais partidos, que nunca foram capazes de constituir uma militância. De acordo com as pesquisas, esses eleitores têm Lula como seu candidato.

A estratégia, portanto, será a seguinte. Primeiro, fazer na Justiça todos os recursos possíveis. Manter a panela acesa com a mobilização dos militantes. Envolver ao máximo os eleitores que têm Lula como candidato para legitimar o discurso político. Trabalhar ao máximo os exageros, inconsistências e motivações políticas contra Lula e o PT que realmente parecem existir da parte de alguns no Judiciário.

Difícil, porém, esperar um resultado bom dessa soma. Qualquer que seja o final, parte da sociedade brasileira vai se sentir confrontada, derrotada, desafiada. Como unir as pontas depois e recuperar no país a necessária tranquilidade é a pergunta a ser respondida. No momento, apenas toca-se fogo em gasolina…

 

 

 

 

 

 

 

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Os riscos do julgamento de Lula, num tempo em que decisão judicial se discute


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Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil – EBC

Nos tempos de Ulysses Guimarães, toda vez que a Justiça contrariava alguma decisão política, as “Excelências” sacavam imediatamente da mesma frase feita: “Decisão judicial não se discute; decisão judicial se cumpre”. De algum ponto do mar de Angra dos Reis, onde desapareceu, Ulysses hoje observa o passar de um tempo onde nada merece mais discussão do que decisão judicial. Está em curso na manhã desta quarta-feira (24) uma das decisões judiciais com maiores consequências para o desenrolar da nossa realidade política, e eis aí uma das nossas tragédias: como cumprir decisões judiciais discutíveis?

A essa altura do campeonato, o que menos parece interessar no caso do julgamento do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva é se ele de fato recebeu ou não propina da empreiteira OAS. Se o tríplex no Guarujá era ou não o produto dessa propina. Se há ou não provas que possam levar os desembargadores do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4) a condenar Lula. Qualquer que seja a decisão, as torcidas já estão postas na arquibancadas, desfilam pelas ruas de Porto Alegre camisetas vermelhas e amarelas, e nada vai ser capaz de alterar suas certezas e convicções: quem acha que Lula é inocente, continuará achando; quem acha que Lula é culpado, também.

O problema é que tais convicções adentraram o terreno da paixão, muito, muito longe do equilíbrio e da racionalidade. E, no caso do funcionamento da Justiça e dos demais poderes da República, muito pouca coisa pode ser mais perigosa que isso. Seja qual for a decisão tomada nesta quarta-feira pelo TRF4, haverá reações contra ela. A decisão será discutida. Será contestada. Convulsionando ainda mais este Brasil já tão convulsionado. A solução, amigo, adie-se para um capítulo seguinte. E só Deus sabe o tamanho que terá toda essa novela…

O que torna toda a questão ainda mais complicada é que a própria Justiça tem responsabilidade na produção desse tempo em que decisão judicial se discute. As ácidas discussões dos ministros Gilmar Mendes e José Roberto Barroso, por exemplo, são parte disso. Se o Supremo Tribunal Federal politizou ao nível das discussões entre Gilmar e Barroso as suas sessões, como pedir mais equilíbrio do restante do Judiciário para baixo?

O TRF4 julgará um homem correta ou incorretamente – aqui não se pretende entrar nessa discussão – elevado por alguns à condição de mito. Que lidera as pesquisas eleitorais para o pleito presidencial de outubro. Que parece disposto a discutir até o fim a decisão que contra ele for tomada. Que tem uma militância ainda mais disposta a levar a cabo essa discussão. A presidente do PT, senadora Gleisi Hoffmann (PR), chegou a dizer que, para prender Lula, teriam que matar alguém.Os debates que chegam quase às vias de fato no Supremo são hoje meramente técnicos? Não sendo eles técnicos, é possível cobrar que sejam técnicos os debates no Superior Tribunal de Justiça (STJ)? Nos Tribunais Regionais? As decisões de cada juiz? Por outro lado, não sendo técnicos como deviam, como esperar que tais decisões sejam respeitadas? Não respeitadas as decisões judiciais, o que sobra? A lei do mais forte? O caos?

É nesse clima que o julgamento se aproxima. As águas de Angra dos Reis nunca foram plácidas. Se ficarem ainda mais encrespadas hoje, talvez seja o dr. Ulysses…

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O PR mostra o tamanho do prego fincado no caixão


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Foto: Wilson Dias/Agência Brasil – EBC

Num estranho vídeo publicado na semana passada no blog do jornalista Gerson Camarotti, o líder do PR na Câmara, José Rocha (BA), faz um resumo preciso do tamanho do rolo político que provoca essa história do Caixão (Helena Chagas , em artigo no site Os Divergentes ,foi absolutamente precisa: o nome vai pegar! Aqui, já pegou). Diga-se: o vídeo é estranho na sua forma, a imagem é gravada de baixo para cima.

Já tínhamos comentado por aqui como a pressão política vai complicando ainda mais a vida do presidente Michel Temer. Seja no rolo da nomeação da deputada Cristiana Brasil (PTB-RJ) seja na história do Caixão, um grande problema é a necessidade de construção da maioria na base política num tempo de escolha na bacia das almas. Num ano de eleição, o governo Temer tem baixa popularidade. Os partidos pendurados no poder não querem largar o osso. Mas, ao mesmo tempo, hesitam em emprestar um apoio incondicional que compromete suas chances no pleito. Aumentam o calor da pressão.

O PR no momento ainda não definiu quem apoiará nas eleições presidenciais. Avalia até mesmo a hipótese de vir a apoiar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Nas duas vezes em que Lula foi eleito, era o PR seu parceiro, com o vice José Alencar. Mas, como mostra José Rocha no vídeo, quer manter seus nacos de poder preservados. Pressiona Temer porque entende que o presidente e seu governo precisam do partido. E, de fato, precisam.

Assim, mantém a indicação da vice que indicou, Deusdina dos Reis, fazendo a ressalva de que assim será se, ao final do processo, ela sair isenta da apuração. Em caso contrário, quer manter o direito de fazer nova indicação para o cargo. Essa pressão não é só do PR. Os partidos da base de Temer ameaçam não votar a reforma da Previdência caso percam o poder de indicar os nomes para a Caixa Econômica Federal.

Veja-se o tamanho da complicação. Mesmo depois da denúncia de existência de um esquema de desvio de recursos na Caixa, os partidos e seus políticos insistem em manter intacto o sistema e os mecanismos que produziram tal esquema. E, se o governo vier a resistir, declaradamente corre o risco de perder os apoios que tem.

Diga-se em defesa do atual governo que está longe de ser uma particularidade sua a indicação política para cargos que deveriam ser técnicos como esses do Caixão. O atual ocupante de uma cela no presídio da Papuda Geddel Vieira Lima foi vice-presidente de Pessoa Jurídica da Caixa no governo Dilma Rousseff, para citar um exemplo. Ao contrário, essa prática rotineira é uma de nossas tragédias…

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Um mico chamado Brasil


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Foto: Wilson Dias/Agência Brasil – EBC

O rolo em torno da nomeação da deputada Cristiane Brasil (PTB) para o Ministério do Trabalho é mais uma daquelas histórias que parecem ser possíveis apenas neste país cujo sobrenome a ministra barrada compartilha. Assim como a história do compromisso político para manter diretores denunciados na Caixa Econômica Federal. Ter uma ministra do Trabalho impedida pela Justiça justamente porque não cumpriu as regras da legislação trabalhista é uma daquelas piadas prontas que qualquer estrangeiro custa a acreditar que seja verdade. Ou tentar manter nos cargos pessoas denunciadas – neste ponto, o presidente Michel Temer acabou cedendo depois de receber recomendação do Banco Central para fazer o afastamento e depois de ser avisado de que ele também poderia acabar responsabilizado caso não afastasse os diretores. São coisas que fazem com que o Brasil – nome ou sobrenome – não seja, como disse certa vez o maestro Tom Jobim, “para principiantes”.

A filha de Roberto Jefferson foi condenada por não honrar os direitos trabalhista de um ex-motorista que trabalhou com ela por 15 anos. Por essa razão, o Judiciário vem barrando a sua nomeação. Como pode uma ministra do Trabalho que não respeita justamente as regras do setor que ela foi chamada para administrar?

No caso dos diretores da Caixa, havia o temor de retaliações partidárias no caso de os diretores serem afastados. O que poderia levar Temer a ter novos problemas políticos, além daqueles que já tem.

Além, porém, da questão específica, os rolos mostram as profundas dificuldades políticas de Temer para cumprir este ano final do mandato que herdou da ex-presidente Dilma Rousseff. Cristiane Brasil não foi nomeada para o Ministério do Trabalho por conta de suas profundas qualificações técnicas para o exercício da pasta. É uma indicação claramente política para compor base de sustentação. Mas, mais do que isso, é uma indicação diante da precariedade de nomes que a realidade reserva a Temer.

Diversos ministros vão saindo porque precisam se desincompatibilizar para disputar as eleições em outubro. Se ministros vão saindo por essa razão, evidentemente novos políticos não vão entrar no Ministério agora pela mesma razão. O que limita imensamente as possibilidades de escolha do presidente.

É a mesma linha de dificuldade que gerou a saia justa na Caixa e vai jogando para as calendas a reforma da Previdência. O problema para arranjar ministros é o mesmo tipo de encrenca de se aprovar um tema polêmico e impopular: estamos em ano eleitoral. Problema que leva a ceder a pressões, como no caso da Caixa. Ainda que seja benéfica e necessária, caso se acredite no que afirma o governo, as mudanças na Previdência não produzirão efeitos visíveis antes da eleição para que justifiquem o desgaste da sua aprovação. Assim, a classe política a adia. E aumenta a pressão.

O mico de sobrenome Brasil, portanto, fica na conta das dificuldades que a realidade política impõem ao governo. Há, no caso, no entanto, ainda um outro aspecto. A atual força do Judiciário na formulação de decisões que hoje acabam extrapolando a mera esfera jurídica e acabam entrando na própria esfera política. Já há tempos a Justiça brasileira, diante das fraquezas do Congresso e dos rolos do Executivo, legisla e toma decisões administrativas. Independentemente das próprias alegações jurídicas de cada caso, é inegável que esse peso maior adquirido pelo Judiciário é um componente importante a engrossar ainda mais esse caldo complicado do atual momento político brasileiro.