Autor: rlago123

Política, Uncategorized

As fake news são seculares… Seu terreno fértil é o ódio


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Que o exemplo da perversidade duradoura de uma mentira do século 19 nos alerte em 2018

“Sempre que um grupo de pessoas é ensinado a odiar outro grupo, inventa-se uma mentira para insuflar o ódio e justificar um complô”.

É com essa frase que começa “O Complô”, último álbum desenhado e escrito pelo grande cartunista americano Will Eisner. Criador do personagem The Spirit, Eisner é considerado pela grande maioria dos críticos o maior autor de histórias em quadrinhos de todos os tempos. Ninguém mais que ele teve a obsessão de transformar os quadrinhos em arte, ultrapassando as barreiras do mero entretenimento juvenil. Eisner é o principal criador do conceito da Graphic Novel, o romance gráfico, uma forma de contar histórias, profundas e adultas, associando texto e ilustração.

“O Complô”, obra concluída em 2004, publicada no Brasil pela Companhia das Letras, trata de “fake news”, embora o termo naquela ocasião ainda não estivesse tão disseminado como hoje. E mostra que as “fake news” são bem mais antigas do que supõe quem pensa se tratarem de um fenômeno contemporâneo, consequência das redes sociais. As “fake news” são seculares. E vicejam principalmente quando encontram, como terreno fértil, tempos de ódio. Quando o mundo se transforma numa disputa maniqueísta e tola entre “o bem e o mal” (bem e mal com todas as aspas possíveis), surge a mentira para alimentar e fortalecer esse ódio. Quando se quer ardentemente acreditar em algo, a racionalidade e bom senso são sempre os primeiros derrotados.

Em “O Complô”, Eisner conta a história de uma das mais bem produzidas e duradouras “fake news” de todos os tempos. Um documento surgido na Rússia tsarista com o título de “Protocolos dos Sábios de Sião”. Os tais protocolos seriam um documento escrito por líderes judeus que descreveriam uma articulação deles para dominar o mundo. O documento surgiu no final do século 19, quando o tsar Nicolau III começou a sofrer os primeiros sinais da revolta que em 1917 culminaria na Revolução Socialista. Surgiu,então, entre seus assessores políticos a ideia de produzir e disseminar um documento que mostrasse que, insuflando essa revolta, estavam judeus, cujo propósito era estabelecer a confusão para dominar o mundo.

Contrataram, então, um falsário chamado Mathieu Golovinski para produzir o tal documento. Golovinski pegou como base um livro desconhecido e perdido escrito em 1864 pelo francês Maurice Joly para atacar o imperador Napoleão III. Chamava-se “O Diálogo no Inferno entre Maquiavel e Montesquieu”. O objetivo era aproximar as ideias e ações de Napoleão III das de Maquiavel para apontá-lo como um déspota. Para tanto, Joly distorceu as ideias originais de Maquiavel. Como aparece em um diálogo do álbum de Eisner: “Mas você inventou as palavras de Maquiavel… Para provar seu argumento”, diz um interlocutor. “Exato! Mas continuo próximo das ideias dele… Foram necessárias poucas alterações”, responde Joly. O francês acabou preso e condenado por difamação. Seu livro foi apreendido e sua circulação proibida. Joly suicidou-se em 1878.

Em 1898, Golovinski praticamente copia, com algumas alterações, o “Diálogo no Inferno entre Maquiavel e Montesquieu” para produzir “Os Protocolos dos Sábios de Sião”. As mesmas palavras são usadas agora como se seus autores fossem líderes judeus. No “Diálogo no Inferno”: “Todo homem busca o poder, e não há nem mesmo um homem que não seria opressor caso pudesse”.Em “Os Protocolos”: “Todo homem almeja o poder, todos se tornariam ditadores se pudessem”.  Ou no “Diálogo”: “Esses tigres têm alma de ovelha, cabeça cheia de vento. Seu sonho é a absorção do indivíduo numa unidade simbólica”. Em “Os Protocolos”: “Esses tigres na aparência têm alma de ovelha e o vento circulando livremente pela cabeça. Nós os deixamos com a ideia fantasiosa da absorção da individualidade pela unidade simbólica do Coletivismo”. Os dois livros foram escritos num intervalo de tempo de 40 anos.

Em 1921, o jornal inglês The Times publica os dois textos mostrando claramente que “Os Protocolos dos Sábios de Sião” são uma farsa, plágio descarado do “Diálogo no Inferno entre Maquiavel e Montesquieu”. O que moveu Will Eisner a contar a história dessa farsa na sua última obra foi o fato de ter deparado, quase cem anos depois, com os “Protocolos” circulando, como se verdadeiros fossem, em sites antissemitas na internet.

Eisner mostrava a força que a mentira tem quando se deseja acreditar nela, e o quanto ela é alimentada pelo ódio. Como viceja especialmente nos ambientes onde a discussão equilibrada e respeitosa não é bem-vinda. Onde ela é forjada pelo preconceito e pelo desejo apenas de encontrar novas ideias e textos que somente corroborem o que já se pensa.

As redes sociais rodeiam as pessoas de outras que pensam de maneira igual, formando pequenos mundinhos. Surgidas para ampliar, as redes sociais têm o perverso dom de muitas vezes limitar. O ex-presidente americano Barak Obama tem investido muito no alerta para isso, nas suas palestras depois que deixou o governo. A disseminação de notícias falsas e distorcidas nos Estados Unidos pautou fortemente a última eleição, na qual Donald Trump venceu Hillary Clinton.

Certamente, como aconteceu nos Estados Unidos e também em outras eleições recentes, na França ou na Alemanha, as redes sociais serão a ferramenta mais importante de disseminação de ideias na nossa campanha eleitoral no ano que vem. E, aqui como lá, certamente disseminarão uma tonelada de notícias falsas. Não pode haver maior perigo do que a vitória do falso para depois governar de verdade. Tirando sua máscara de falsidade para mostrar sua face verdadeira. “Os Protocolos dos Sábios de Sião” são uma “fake news” secular. Que o exemplo da sua perversidade duradoura nos alerte em 2018. Procurem nas livrarias “O Complô”, de Will Eisner. Feliz 2018!

 

 

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MDB… Porém, parece que há golpes de P


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Numa das faixas do LP Joia, aquele que tem a famosa capa em que aparece nu, ao lado de sua então mulher, Dedé, e de seu filho, Moreno, Caetano Veloso demonstrava a importância que podia ter uma letra P. Acompanhado da banda de pífanos de Caruaru, Caetano começava a letra de “Pipoca Moderna” pontuando uma situação marcada primeiro pela letra N. “E era nada de nem noite de negro não”. Mais adiante, esse quadro sombrio descrito era abalado pela tal presença do P. “Porém, parece que há golpes de P, de pé, de pão, de parecer poder”.

Era 1975. Eram os negros tempos da ditadura militar. E era curioso que Caetano escolhesse o P para ilustrar a resistência àquele sombrio “não”. Porque, na época, essa resistência era representada por um partido sem P, o MDB. Um partido que ganhou o P no início da redemocratização, como uma das últimas imposições definidas pelo regime militar. Um partido que, com o novo nome de PMDB, descaracterizou-se, hoje abrigando uma boa leva de políticos investigados, denunciados e condenados por corrupção, com uma pecha de fisiologismo. Esta semana, o PMDB resolveu eliminar de novo da sua sigla o P. Mas será que tem mesmo alguma chance de retornar ao que era quando se chamava somente MDB? Ou tudo não passará de um mero “golpe de P”?

Desde o seu surgimento na ditadura militar, o MDB convive com certa desconfiança contra ele. O partido surgiu quando a ditadura acabou com o pluripartidarismo e instituiu o bipartidarismo. Só poderia haver um partido a favor do governo, que seria a Aliança Renovadora Nacional (Arena) e um de oposição, o MDB (Movimento Democrático Brasileiro). Estabelecida pela própria ditadura, era, portanto, a oposição consentida, a resistência autorizada, daí a desconfiança. O partido teve que batalhar para demonstrar que, naquele momento, teria de ser mesmo o abrigo possível para uma contestação democrática. E assim cresceu. Os partidos não autorizados, como os comunistas, abrigaram-se nele e o MDB legitimou-se.

Quando a ditadura começou a sentir seus estertores, autorizou o retorno do pluripartidarismo. E, além de impor o P à sigla (todos os partidos a partir daí tinham de se chamar “partido” e ter o P no início), atuou para esvaziá-lo. Os diversos partidos que se abrigavam antes no MDB saíram para criar suas próprias siglas. Do lado do apoio ao governo, ficou incólume a Arena agora com o nome de PDS, que passou mesmo a ser conhecido como “maior partido do ocidente”.

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Tempos históricos do MDB: Brossard, Teotônio Vilela, Marcos Freyre, Ulysses, Alberto Silva e
Humberto Lucena. Foto Orlando Brito

No processo que levou à eleição de Tancredo Neves, o PMDB conheceu momentos de legitimação, sob o comando do ex-deputado Ulysses Guimarães. Mas Tancredo morreu antes de tomar posse. E o presidente virou um estranho no ninho peemedebista, José Sarney, que apenas alguns meses antes era nada menos que o presidente do PDS, comandando a dissidência que resultou no nascimento do PFL e da Aliança Democrática, o movimento que permitiu a vitória de Tancredo no Colégio Eleitoral.

No governo Sarney, o partido foi inchando e se descaracterizando. Foi inclusive essa situação que levou à criação do PSDB: os tucanos nasciam para recuperar o que tinha sido descaracterizado no PMDB. Mas, no poder, os tucanos também incharam e se descaracterizaram. E não foi diferente com o PT na Presidência. O poder atrai.

Agora, o MDB extingue o P em busca de um retorno da identificação da sociedade com seus tempos de glória. Mas não são mais os chamados “autênticos” daquela época que comandam o partido. Mas os que entraram depois. Terá de provar que não é mera estratégia de marketing. Que não é mero “golpe de P”…