Autor: rlago123

Política

É a economia estúpida


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Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil-EBC

Giselle Chassot*

Um funcionário do FMI de 26 anos. Um pastor a e músico-norte americano. Tinham em comum a defesa do fim do isolamento social para contar o avanço da pandemia. Tinham. Porque ambos estão mortos. Ironicamente, pelo coronavírus de que desdenharam.

Será que, a essa altura, para a família e os entes queridos de ambos continua válida a opção entre a economia e a vida humana? Ou ela agora já terá se tornado, como deve, um descalabro? A tese de que não dá para parar o mundo porque alguns vão morrer talvez nos tenha trazido a onde estamos e ao que somos agora. Uma população de insensíveis, que se habituou a não ver os problemas dos outros, a considerar invisíveis quem não é parte da nossa bolha.

São os velhos e os frágeis que vão morrer? Então, danem-se os menos favorecidos, os miseráveis, os idosos que não produzem mais. É a economia, estúpido.

Mas que economia? A economia que coloca em risco a saúde e a vida das pessoas? Certamente, a mesma economia que insiste que o Sistema Único de Saúde está falido, mas corre para ele em busca de vacinas; ou a economia que reclama das universidades públicas, mas clama agora por pesquisas científicas capazes e debelar os riscos da doença. Ou, ainda, a economia que desdenha da imprensa tradicional mas corre para ela em busca de informações confiáveis. No caso, não é a economia, estúpido. É a economia estúpida…

Quem diz defender o pequeno empresário, “que vai falir se não produzir” está interessado em seus milhões de prejuízo diário. Pouco importa a ele se o pequeno vai fechar. Porque o pequeno sabe que um comércio ou um empreendimento atendem pessoas de verdade, e não números gerados pelo deus-mercado.

O hipócrita que faz passeatas com seus carrões defendendo o fim do isolamento pode se isolar. Mas a enfermeira, o lixeiro, o policial não podem. E nenhum de nós que pode ficar em casa também deve sair. Não vale a pena se tornar um possível “porta-vírus” e levar a doença para dentro de nossas casas ou alastrá-la irresponsavelmente pelo país.

Quando escrevia esse texto, o número de mortos no Brasil chegava a 15. Ou achatamos a curva de crescimento da pandemia ou não haverá leitos e respiradores disponíveis para todos nem no SUS nem nos luxuosos hospitais privados. Quando os defensores da economia precisarem desses equipamentos e não os encontrarem, talvez percebam que a doença, ao contrário do que eles insistem em alardear, não acomete só os velhinhos, os doentes e a população de rua. E um problema de saúde pública, em grandes proporções, é também um grave problema econômico.

Na Inglaterra, que no começo experimentou a ideia que agora cativa por aqui a alguns, o príncipe Charles, herdeiro do trono, e o primeiro ministro Boris Johnson testaram positivo para o coronavírus. Não é possível defender que Johnson possa estar inserido em nenhuma das categorias. Ele não é nem velho, nem frágil, nem miserável.

Quem tenta tirar a população de casa não dá valor algum à vida de quem produz para fazer a roda da economia girar. É gente que se considera diferenciada, eternamente jovem e inatingível. Talvez sejam. Mas, ainda que acreditem que a covid-19 é uma doença de velhos, devem ter velhos em quem pensar. Ou não?

A defesa implacável da economia sobre a vida é o ápice de um tempo em que as pessoas olham para o lado e não enxergam gente. Precisamos entender que não, não é a economia, estúpido.

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Política

O vírus da política


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Foto: Isaac Nóbrega/PR

Há alguns dias, o governador Ibaneis Rocha, vendo o rumo que já vinha tomando a discussão sobre o novo coronavírus envolvendo o presidente Jair Bolsonaro e os governadores, especialmente o governador de São Paulo, João Dória, desabafou, irritado, com um interlocutor: “Fica todo mundo olhando só para o próprio umbigo. Politizando o que não é para politizar”.

Essa é a chave para explicar por que Ibaneis resolveu não participar da reunião de todos os demais governadores com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ). Nas últimas horas, desde o arriscadíssimo pronunciamento de Bolsonaro na televisão, sugerindo às pessoas que flexibilizassem o confinamento e voltassem ao trabalho para evitar um desastre econômico, o debate em torno da covid-19 foi deixando de ser um debate médico-sanitário para virar um debate político-eleitoral.

O governador do DF optou por não ser mais um no retrato dessa disputa que, no momento, em nada ajuda na prática a contenção da contaminação pelo coronavírus. Ao contrário, só expõe o mundo das autoridades à contaminação por outro bichinho: o vírus da política, aquele que, desde o célebre poema escrito no século 19 por Machado de Assis, a gente sabe que é transmitido pela mosca azul.

Não que Dória ou Rodrigo Maia a essa altura sejam os únicos responsáveis por essa politização do tema. Na verdade, quem começou com isso foi Bolsonaro. Ele é que, sentindo ficar numa posição coadjuvante nas ações para evitar a pandemia, optou por essa estratégia de fazer um discurso na contramão de todos os demais. Sua hesitação e inação levou ao protagonismo dos governadores e de seu ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. Não por acaso, seu pronunciamento aconteceu depois da divulgação da pesquisa Datafolha que mostrava maior grau de confiança da população nas ações dos chefes estaduais e do ministro da Saúde.

No caso de Ibaneis, na prática, não ter ido à reunião dos governadores com Maia em nada muda as suas ações. Ibaneis foi o pioneiro na adoção das medidas de restrição para evitar o contágio. Foi o primeiro a fechar escolas e lojas. Não teria sentido mudar de opinião quanto a isso agora. Pelo contrário, é possível que, ao final do decreto, que acaba em 4 de abril, ele acabe estendendo novamente as medidas de restrição caso haja necessidade.

Foi Ibaneis quem pediu à Justiça que exigisse do Hospital das Forças Armadas (HFA) a entrega da lista de nomes das pessoas que ali fizeram exames e testaram positivo para o coronavírus. E é estranho que o hospital informe que houve 17 testes positivos mas tenha omitido o nome de duas pessoas. Bolsonaro e sua mulher, Michelle, ali fizeram seus testes. Ou seja: na prática, a linha de Ibaneis neste momento vai no sentido oposto à adotada por Bolsonaro. E o governador do DF não se furta a situações de confronto como essa.

Quanto a, porém, discutir agora a contaminação pelo vírus da política e não pelo coronavírus, aí, é outra história…

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Em tempos de Ensaio sobre a Cegueira, há que se investir na lucidez


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Giselle Chassot*

Quando escreveu “Ensaio sobre a Cegueira”, o visionário escritor José Saramago imaginou uma epidemia se alastrando pelo mundo. Uma epidemia que deixava a todos cegos. Os contaminados eram encarcerados em locais semelhantes a antigos leprosários e tentavam sobreviver ao isolamento, ao preconceito e ao pânico. E a possibilidade de contágio despertava o que há de pior nas pessoas: o egoísmo, a loucura individualista.
O mundo agora se vê nas páginas de Saramago. O covid-19 se espalha sem fronteiras. E, no Brasil, temos talvez o único presidente do mundo que não só minimiza a doença, mas chama de histéricos quem busca evitar o caos. Ou seja: ao que parece, no caso do nosso presidente, a doença teve efeitos semelhantes aos do romance de Saramago, provoca certa cegueira.

De uma maneira inconsequente, lunática e bipolar, o mesmo Jair Bolsonaro que pediu às pessoas para não irem às ruas no dia 15 de março se misturou ao povo em frente aos palácios do Planalto e da Alvorada. Tirou fotos, apertou mãos. Esqueceu que ele mesmo fará um novo exame para descartar a presença do vírus que já chegou a 14 dos integrantes da comitiva presidencial que voltou há poucos dias dos Estados Unidos.
Calcula-se que o efeito do coronavírus será devastador. Num país já arrasado pela epidemia do desemprego e da economia sem rumo, o gasto previsto com UTis por conta do coronavírus é de R$ 1 bilhão.

É falta de lucidez, é cegueira voluntária fazer de conta que nada está acontecendo e que o vírus não chegará até nós. Ele já está entre nós, como o mal que causou a cegueira fictícia do livro de Saramago. Lançado em 1995, o romance narrava a cegueira branca que atingia primeiro um homem; depois uma cidade inteira. O governo não se importa e, quando decide agir, as pessoas infectadas são colocadas em uma quarentena com recursos limitado. Viver se torna um desafio.

O livro virou filme, dirigido por Fernando Meirelles. Muita gente assistiu e se apavorou. Saiu do cinema mexido, imaginando como seria viver nessa situação. Foi assim comigo. Achei, ingenuamente, que se tratava apenas de uma metáfora sobre as coisas que estavam no mundo e não queríamos ver. Sobre a cegueira branca diária de todos nós.

Mas era muito mais do que isso. Era a visão do que podemos viver agora. Se não prestarmos atenção, se não nos organizarmos, estaremos fadados ao mesmo destino.
É necessário, portanto, que mantenhamos a lucidez. Que tenhamos discernimento para compreender que não é o caso de nos apavorarmos e ficarmos parados esperando tudo passar. É momento de calma e, se não for pedir demais, é momento de autoridades serenas, que consigam encarar o desafio. Alguns países da Ásia já conseguiram. Os italianos encaram com galhardia e bom-humor o isolamento determinado. Os espanhóis ficam em casa.

É bonito assistir aos italianos cantando o hino nacional e a belíssima Bela Ciao de suas varandas. Aqui, temos um sistema de saúde pública que garante a todos o atendimento. Esse é nosso diferencial e nossa melhor arma. Um sistema inclusivo que, mesmo depauperado, garante que os menos favorecidos tenham atendimento nos hospitais e nas Unidades de Terapia Intensiva. Em outros países, não é assim. O SUS é a nossa resistência. Precisa ser respeitado.

Quem sabe essa epidemia nos ensine a ser mais generosos; a ver as pessoas ao nosso lado como seres humanos iguais a nós. Quem sabe essa epidemia nos ensine a pensar no coletivo, a recriar o país, a reintegrar um povo partido ao meio por convicções políticas.
Quem sabe a cegueira nos traga de volta a lucidez. A lucidez relatada também por Saramago cuja mensagem é que sob a democracia podem estar escondidos vetores de natureza autoritária. Lúcido é quem os enxerga.

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Política

Notícias à Bolsolândia


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Foto: Reprodução/vídeo

Foi assustadora – não há outro termo possível – a total desconexão das declarações do presidente Jair Bolsonaro nos últimos dias do que a realidade mostrava não apenas no Brasil mas no planeta.

Enquanto as bolsas do mundo todo derretiam na segunda-feira, Bolsonaro pintava – com esmero e um óculos de sol verde-limão no rosto – os retângulos de um quadro de Romero Britto.

Aliás, Romero Britto, que também retratou em seus tempos Lula e Dilma Rousseff, é uma ótimo opção, com seus cachorrinhos, gatinhos e passarinhos coloridos, para pintar cenários descolados da realidade.

Na sequência da tarde de pintura, Bolsonaro disse que a disseminação do coronavírus era um “exagero da imprensa”, que a queda histórica das Bolsas de Valores no mundo era uma coisa episódica. Repetia uma dessas tolices da internet, ao dizer que a dengue mata muito mais do que o coronavírus.

Um dia depois, a Organização Mundial de Saúde decretava ser a disseminação do coronavírus uma pandemia. As bolsas voltaram a cair ontem no mundo inteiro. Houve novos casos de circuit breaker, mais de uma interrupção das atividades num único dia. O dólar ultrapassou no Brasil a perigosa casa dos R$ 5.  O ídolo de Bolsonaro, Donald Trump, anunciou drásticas medidas para tentar conter o avanço do vírus nos Estados Unidos. País do qual Bolsonaro voltou com integrantes da sua comitiva, como o secretário de Comunicação, Fabio Wajngarten, infectado. Ao final da semana, estava o presidente fazendo um pronunciamento usando máscara cirúrgica, em isolamento, seguindo a orientação do seu ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta.  Não era uma besteira, presidente.

Fora da Bolsolândia, esse mundo virtual que o presidente parece ter escolhido para si e para seus seguidores mais fieis, o mundo passa por um momento de grande perigo. O Brasil, por maior que seja o esforço contrário de Bolsonaro, não está desconectado do mundo. E seu governante deveria estar bem mais preocupado com isso.

Ao contrário da tolice repetida na internet, o problema do coronavírus não é se ele mata mais ou menos que a dengue ou outras doenças. O problema do coronavírus é que ele é conhecido há somente alguns meses e já infectou centenas de milhares de pessoas no planeta. O problema é, portanto, essa impressionante velocidade de disseminação.

Ele não é grave entre os mais jovens. Para eles, é letal em apenas 0,2% dos casos. Mas é muito grave entre os idosos, em torno de 18%. Um estudo publicado na edição de ontem do Jornal de Brasília mostra que, tomando-se por base o que aconteceu na China, em 15 dias poderá haver cerca de quatro mil pessoas infectadas no Brasil. Algumas centenas dessas pessoas serão idosos. Se esses idosos precisarem de leitos de UTI, que não existem nessa quantidade, temos aí um gravíssimo problema de saúde pública.

O que impressiona hoje é que a Bolsolândia não agrega sequer alguns dos próprios integrantes do governo. Ciente do tamanho do problema, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, montou um gabinete de crise há algumas semanas e vem fazendo um irrepreensível trabalho de monitoramento da situação.

O ministro da Economia, Paulo Guedes, demora a reagir, mas também parece ter sentido o tamanho da encrenca. O problema de saúde pública traz consigo um gravíssimo problema econômico. Os Estados Unidos proibiram na quarta-feira (11) voos para a Europa. Medidas restritivas como essas tomadas pelas economias do mundo certamente farão circular menos dinheiro. É o espectro ameaçador da crise em proporções mundiais.

A solução até então posta, de acelerar as reformas, deixa de ser solução nesse cenário. Não adianta somente criar um quadro que seja mais atraente para novos investimentos se o mundo, e com ele seus investidores, entrarem num momento de retração. Não haverá investimentos.

É aí que entra a face mais perigosa da desconexão de Bolsonaro. A negligência de uma autoridade no seu posto traz o risco de novas negligências e desconexões. Então, se Bolsonaro cria sua Bolsolândia, o Congresso, na esteira, cria a sua Congressolândia. E, num momento como esse, resolve aumentar em R$ 20 bilhões as despesas do governo com gastos sociais, derrubando um veto presidencial e ampliando os gastos com o Benefício de Prestação Continuada (BPC).

O problema disso tudo é que não há para nós a opção de nos abrigarmos na Bolsolândia. Nem na Congressolândia. Tudo o que não precisamos agora é de um presidente ou de parlamentares desconectados da realidade, repetindo frases lacradoras para seus seguidores nas redes sociais. Nem Romero Brito nem máscaras cirúrgicas sem necessidade. O que precisamos é de seriedade neste momento.

Política

Alzira Soriano, nossa Mulher Maravilha


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Há algumas famílias que têm o privilégio de ter seus super-heróis particulares. Um bombeiro que arrisca a sua vida para salvar pessoas. Um bom e corajoso policial. Um médico querido de toda a comunidade. Pessoas que, pelo seu exemplo, marcam e orientam as trajetórias de todos os que estarão próximas delas.

Minha família não tem um super-herói. Tem uma super-heroína. Alzira Soriano foi a primeira mulher a exercer um cargo público no Poder Executivo na América Latina. Em 1929, portanto há 87 anos, Alzira, minha bisavó, foi eleita prefeita da cidade de Lajes, no sertão do Rio Grande do Norte.

A história da saga de minha bisavó marcou de uma forma incrível minha família. Durante muito tempo, fomos um matriarcado, de mulheres fortes mandando e definindo os destinos de suas famílias. Se não continuamos assim foi por conta de gerações posteriores quase que somente masculinas. Os Soriano – que depois viraram Lago, quando minha avó, Ismênia, casou-se com o dentista Ruy Lago e teve três filhos, José, meu pai, e seus dois irmãos, Thomaz e Ruy – viraram homens diferentes. Temos um profundo respeito pelas mulheres e conseguimos vê-las de fato como iguais. Não como seres mais frágeis. Ou muito menos com aquelas ideias bobas antigas, de responsáveis pelo pecado original, etc. Pelo contrário, elas nos parecem até superiores. Super-heroínas, mesmo.

Trata-se de uma mulher que ficou viúva aos 22 anos. Seu marido, Thomaz Soriano de Souza, morreu de gripe espanhola em 1919. Minha bisavó teve que se virar sozinha, com duas filhas nascidas e mais uma na barriga. Assim forjou-se aquela que, em 1929, se tornaria a primeira prefeita da América Latina, motivo na época de matéria até no New York Times.

Vovó Alzira é mais um daqueles casos que o destino forja. Se não tivesse ficado viúva tão cedo, certamente não teria que, tão cedo, administrar uma fazenda em pleno sertão nordestino, a Fazenda Primavera. Não teria que mandar em homens, em rudes vaqueiros. Não chamaria a atenção do movimento feminista do Rio Grande do Norte, que não a escolheria como opção de mulher para disputar as eleições para prefeito. É provável que ela ficasse na condição de dona-de-casa, cuidando das suas filhas. Mas o destino não quis assim, e vovó Alzira foi fazer história.

Não que já não houvesse o gosto pela política na família. O pai de minha bisavó, Miguel Teixeira de Vasconcelos, já era um dos líderes políticos da região. Mas meu bisavô era nome apontado como provável futuro governador do Rio Grande do Norte. Ou seja: se não tivesse morrido, a primazia política era dele. Até porque era um mundo majoritariamente masculino (infelizmente, ainda vivemos num mundo majoritariamente masculino…). Em 1929, quando vovó Alzira foi eleita, as mulheres no Brasil ainda nem votavam. Ela se aproveitou  de uma brecha na legislação eleitoral do Rio Grande do Norte. A legislação permitia que homens e mulheres fossem candidatos, embora mulheres não votassem. As sufragistas foram atrás de pessoas com perfil para, mesmo assim, terem chances de ser eleitas. Como forma de abrir caminho na luta pela emancipação feminina.

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Vovó teve que ser dura. Ouviu muitas piadas e xingamentos. Os homens contrapunham a ideia de “homem público”, ligada ao político, a “mulher pública”, para insinuar que ela era uma prostituta por fazer política, por administrar uma cidade. A necessidade de ter de responder a esse tipo de coisa fez de vovó, dizem, uma mulher que não costumava levar desaforo para casa. O seu secretariado no município era composto apenas por homens. Uma mulher baixinha mandava neles. Não cheguei a conhecê-la. Conheci minha avó e suas irmãs, minhas tias-avós, que não eram diferentes. Ai de quem se atrevesse a tratá-las como ‘mulherzinhas”, no sentido pejorativo do termo.

Eram admiráveis na inteligência rara e no conhecimento político, mulheres atualizadas, sempre antenadas, profundas. Meu pai era absolutamente fascinado pela imagem da avó. Enquanto meu pai foi vivo, vovó Alzira era citada praticamente todos os dias. A Fazenda Primavera, que ela administrava, era o local sempre das férias do meu pai. Ele, um Pedrinho, e a fazenda, o seu “Sítio do Pica-pau Amarelo”.

A aventura de minha bisavó como prefeita durou apenas um ano. Em 1930, houve a revolução e ela deixou o cargo com a ascensão de Getúlio Vargas. Mais tarde, foi duas vezes vereadora. Chegou a presidir a Câmara e a liderar a UDN no município.

Hoje, a casa em que minha bisavó nasceu, em Jardim de Angicos, no sertão do Rio Grande do Norte, é um museu que guarda a memória da sua imensa aventura.

Noventa e um anos depois, neste Dia Internacional da Mulher, não sei como ela enxergaria o mundo que ajudou de forma decisiva a transformar. Por aqui, uma mulher já chegou à Presidência da República. Para depois sofrer um processo de impeachment. Elas ainda são absoluta minoria no universo da política. Ainda ganham salários menores para exercerem as mesmas funções que homens. Ainda sofrem violência somente pelo fato de serem mulheres. Violência que cresce, na atual escalada assustadora do feminicídio. Ainda cumprem dupla jornada porque não conseguem ajuda doméstica de seus maridos. O mundo ainda sente falta de outras Mulheres Maravilhas, como foi minha bisavó Alzira Soriano.

Política

O contraponto é com as raposas…


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Movimentos na política às vezes são bastante sutis. Há a impressão de que nada de novo aconteceu. Mas as camadas subterrâneas se movem, e os resultados concretos irão aparecer mais adiante. Para se antecipar às coisas, é preciso observar com lupa e atenção esses movimentos.
À primeira vista, a história da convocação feita pelo presidente Jair Bolsonaro para as manifestações do dia 15 de março não parece ter tido maiores consequências. Pelo menos para aqueles que esperavam grandes reações ou até mesmo, na visão dos mais exaltados, o início de um processo de impeachment. Mas houve alguns movimentos menores nesse processo que têm algum significado.
O primeiro deles foi a ida ao Palácio do Planalto no início da semana do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, para dar a Bolsonaro o recado de que o Poder Legislativo “não toleraria” novo ataque semelhante.
É claro: precisamos ver que efeitos concretos decorrerão disso. Primeiro, Bolsonaro não é dado a sutilezas. Então, é preciso esperar para ver se ele de fato entendeu o recado. Segundo, também é preciso esperar para ter certeza se o ultimado feito por Alcolumbre era para valer mesmo.
O segundo movimento foi a nota conjunta feita também no início da semana pelos partidos de oposição. Há muito tempo, não apareciam unidos em uma mesma ação partidos como o PT, o PDT, o PSB, o PCdoB, o PSOL e a Rede. Se a nota significa como desdobramento algum tipo de ação conjunta mais efetiva, também só o tempo dirá.
O que já se pode inferir de concreto dos dois episódios, porém, é avaliar de onde, efetivamente, virá mais efetivamente um contraponto aos excessos de Bolsonaro. E, neste momento, parece mais claro que ele venha do centro, de Alcolumbre e seus demais representantes.
Primeiro, esses partidos de centro estão atuando em bloco na Câmara, reunindo 297 deputados, o que é mais do que suficiente para definir qualquer situação. Ao final da semana, conseguiram estabelecer o acordo com o governo em torno do orçamento impositivo. Uma solução salomônica bem ao gosto das velhas raposas do antigo PSD que parecem lhes servir de inspiração. Havia um impasse sobre o controle dos R$ 30 bilhões de verbas, dividiu-se o problema ao meio: R$ 15 bilhões para cada um.
Do centro, saiu a solução. No tresloucado governo Bolsonaro, dois ministros hoje se destacam: Teresa Cristina, da Agricultura, e Luiz Henrique Mandetta, da Saúde. Ambos são do DEM, o líder dessas movimentações do centro.
Enquanto isso, a oposição de esquerda parece encontrar dificuldades para ir além da construção de uma nota conjunta. De novo, por exemplo, há problemas no momento da escolha de quem seria o líder da minoria na Câmara. Na primeira vez, o PCdoB deu um tombo no PSB. Os socialistas esperavam ter como líder Alessandro Molon (RJ) e o cargo foi para a comunista Jandira Feghali (RJ). Agora, era o PDT quem aspirava a vaga. E o tombo quem dá é o PT, que articulou para que o líder seja o petista José Guimarães (CE).
Alguém que participou da última reunião da oposição de esquerda, conta o seguinte bastidor. Em determinado momento, um deputado avaliou: “O apoiamento a Bolsonaro não existe mais. Ele está isolado”. Um outro deputado, diante do que via nas redes sociais, rebateu de pronto: “Não sei onde ele está vendo esse tal isolamento”.
Diante de uma esquerda perdida, goste-se ou não do estilo, é do rabo felpudo das raposas de centro que vai se dando, por enquanto, o contraponto…

Política

Água mole em pedra dura…


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Foto: Valter Campanato/Agência Brasil – EBC

Não foram poucas as vezes, na sua longa carreira parlamentar, em que o então deputado Jair Bolsonaro viu-se às voltas com a discussão sobre se teria ou não quebrado o decoro. Em todas as ocasiões em que se discutiu a possível abertura de um processo de cassação do seu mandato, ao final seus pares acabaram passando a mão na sua cabeça e Bolsonaro acabou se safando.

O desfecho dessas situações acabou sendo esse por conta de dois possíveis aspectos, não necessariamente excludentes. O primeiro: testar os limites das instituições e da democracia tornou-se uma espécie de esporte para Bolsonaro. O segundo: muitas vezes, os demais deputados o consideraram um ser exótico, um integrante exaltado do baixo clero, a quem eventualmente dar muita importância ao que ele dizia seria talvez dar ainda mais projeção a ele.

Quanto ao primeiro aspecto, não resta a menor dúvida de que Bolsonaro segue semanalmente testando os limites das instituições e da democracia. Ele parece agir como uma equipe de Fórmula Um que corre o tempo todo com o regulamento debaixo do braço, não para respeitá-lo integralmente, mas para descobrir que brechas existem nele e de que forma elas podem auxiliá-lo a transgredi-lo.

E aí entra o segundo aspecto. Se as transgressões ao regulamento não produzirem qualquer efeito prático, é bem possível que as equipes adversárias não prestem muita atenção a isso. Mas e a brecha encontrada colocar a equipe na liderança do campeonato, certamente isso vai gerar reação dos adversários.

Se ao longo da vida parlamentar de Bolsonaro, transgressões à regra foram toleradas por seus pares porque eles o consideraram um exótico a quem não se deveria dar importância, fica claro que isso, se aconteceu, terá sido um erro estratégico. Foi isso que permitiu a ele criar a ideia do “Mito”, o político lacrador, que diz o que pensa, sem papas na língua. Aquele que traz, como ele mesmo diz, a “verdade”, para citar em seguida o trecho da Bíblia que diz que a verdade “libertará”.

Bolsonaro é hoje presidente da República. Portanto, quando ele testa os limites das instituições e da própria democracia, o efeito possível de tal ato é diretamente proporcional ao tamanho do cargo que ocupa.

Por outro lado, Bolsonaro parece bom no esporte que pratica. Ao testar os limites, ele parece sempre deixar suas próprias brechas. Ou suas opções de recuo. Se fica possível avançar a partir do limite estabelecido, avança-se. Se as instituições reagem, recua-se. Isso já aconteceu várias vezes. E parece ter acontecido de novo com a história do compartilhamento dos vídeos que convidam para as manifestações contra o Congresso.

Bolsonaro constroi a tese de que fez compartilhamentos de “cunho pessoal”, entre amigos no whatsapp. Não institucionalmente, como presidente. É difícil separar o pessoal em alguém que, presidente da República, representa uma instituição. Diz também que os vídeos que ele compartilhou criticam, mas não falam em fechamento do Congresso. Mais que tudo, ele adota como postura apoio a uma manifestação em favor do seu governo, e não contra os demais poderes. Diante da reação dos demais poderes, houve um recuo.

Neste momento, o aspecto positivo de tudo isso foi a pronta reação das autoridades que representam os demais poderes e outras instituições. Demonstraram que parecem estar funcionando os famosos freios e contrapesos que mantêm os poderes equilibrados e impedem que um extrapole sobre o outro. O problema é saber que resiliência tem de fato uma democracia ainda não totalmente madura como a brasileira ao se ver testada o tempo inteiro. É saber se esse constante teste dos limites não equivale àquele velho ditado: “Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”.