Autor: rlago123

Política

A peleja do Mito contra a Ideia


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Foto: Benedita da Silva

Nas últimas semanas, circulava pelas redes sociais um meme divertido. Nele, aparecia uma foto do presidente Jair Bolsonaro com seus filhos 01, 02 e 03. E a seguinte legenda: “Pressionado pela crise, Bolsonaro resolveu se reunir com sua oposição”.

Eis no meme o resumo do que representará o retorno de Luiz Inácio Lula da Silva ao cenário político agora que deixou a sala/cela que ocupava na sede da Polícia Federal em Curitiba. Até então, Bolsonaro mantivera no Palácio do Planalto um inusitado modelo de autossuficiência: ao mesmo tempo em que governava, tratava de fazer oposição a si mesmo.

Alguns chegaram mesmo a concluir que se tratava de estratégia – e já tratamos disso por aqui. Mas o fato é que a usina de crises que acompanha o governo desde quando o vereador Carlos Bolsonaro se aboletou na mala do Rolls Royce presidencial e meteu a sola dos seus sapatos no delicado couro do banco daquela joia da mecânica britânica é instalada dentro do próprio governo. Com Lula de volta à cena, pela primeira vez Bolsonaro enfrentará de fato uma oposição externa, realmente vinda daqueles que lhe são adversários.

Se da prisão, Lula tivera a capacidade de se manter no debate político, essa capacidade multiplica-se de forma incomensurável com ele livre. Lula sairá pelo país amplificando com a inegável capacidade de retórica que sempre teve as bobagens e crises desnecessárias que Bolsonaro cria. Se era estratégia diversionista, agora haverá quem possa capitalizá-la. Se era estratégia diversionista, ela já implicava riscos, porque diminuíra a base de apoio do governo, dividira o campo conservador, jogara o presidente contra seu próprio partido, o PSL. Agora, há quem possa vir a lucrar com tudo isso.

Um dos maiores efeitos da vitória de Bolsonaro foi provocar a desarticulação da esquerda que poderia lhe fazer oposição. Um efeito natural: é normal que quem perca se desarticule. Vale lembrar que quando Lula foi eleito presidente, a composição anterior também se desarticulou e quase se esfacelou. Num primeiro momento, o PFL, antes de trocar o nome para DEM, chegou a cogitar a sua extinção.

A desarticulação da esquerda vinha fazendo com que os partidos de oposição muitas vezes somente assistissem à confusão que o próprio Bolsonaro e sua trinca de filhos provocava no governo. Há uma grande possibilidade de que, agora, os contendores nessa disputa não sejam mais Carluxo e algum general. Ou ex-aliados como Gustavo Bebianno, Alexandre Frota ou Joice Hasselmann.

Na euforia provocada pelo seu lado no FlaXFlu, tem sido ignorado um fato que ainda persiste apesar da liberdade de Lula. Ele está solto, mas segue não podendo ser candidato à Presidência da República. A condenação em segunda instância o impede. Não por conta de uma interpretação como acontecida no caso da prisão. O que o impede é uma lei aprovada pelo Congresso e sancionada pelo próprio Lula quando era presidente: a Lei da Ficha Limpa. A legislação estabelece que alguém condenado em segunda instância não pode disputar cargo eletivo. O impedimento não é automático. Lançadas as candidaturas, a Justiça Eleitoral tem de se debruçar sobre cada caso e analisar se há ou não as chamadas condições de elegibilidade. Mas não há nenhuma razão para imaginar que o Tribunal Superior Eleitoral, diante da condenação que agora já é em terceira instância mude o entendimento que teve nas últimas eleições presidenciais quando, por seis votos a um, indeferiu a sua candidatura.

Assim, mais do que aparecer como o possível adversário de Bolsonaro nas próximas eleições, não é de se descartar que o grande papel que Lula exercerá agora fora da prisão será o de reaglutinador da esquerda, das forças que se opõem ao atual governo. Em entrevistas anteriores à sua liberdade, ele já fizera alguns acenos nesse sentido.

Além disso, sempre vale se observar essa incrível capacidade que o continente sul-americano tem de se replicar. Quando o continente se encheu de caudilhos no final da primeira metade do século passado, tivemos Getúlio Vargas como o nosso por aqui. Quando os coturnos e as fardas verdes deram as caras por aqui, havia coturnos e fardas verdes espalhadas por toda a América do Sul. Quando um desses países se redemocratizou, se redemocratizaram os outros. Quando um guinou à esquerda, viraram também os outros. Quando resolveram, então, desviar-se à direita, eis Bolsonaro acompanhado de colegas conservadores por aí.

Na imensa velocidade das mudanças nesses tempos da revolução informática, em diversos países da América do Sul, esboça-se já uma reação à guinada conservadora. E o caso mais concreto deu-se na Argentina, com o retorno do peronismo.

Lá, Cristina Kirchner abriu mão de ser a candidata à Presidência e montou a vitoriosa manobra que colocou um nome mais moderado, mais palatável que ela, Alberto Fernández, à frente da chapa. Cristina sabia que reunia ao mesmo tempo grande popularidade e grande impopularidade. Era ao mesmo tempo forte e imensamente rejeitada. Assim, saiu do primeiro plano para ser candidata a vice-presidente. Deu certo.

Além da impossibilidade legal, Lula carrega características semelhantes. É popular e impopular. Forte por um lado e imensamente rejeitado por outro. Talvez possa emprestar sua capacidade aglutinadora da mesma forma a uma composição na qual não esteja à frente.

Por outro lado, Lula traz de volta a polarização que, em 2018, beneficiou mais Bolsonaro. O hoje presidente tratou de querer ter sempre Lula como seu adversário, porque sabia que Lula aglutinava os ódios que podiam reverter a seu favor. Hoje, porém, Bolsonaro está desgastado pelo motor da usina de crises que ele próprio alimentou no Palácio do Planalto. Se Lula será capaz de reverter tal desgaste a seu favor e a favor do grupo oposicionista, veremos a partir de agora. O fato, porém, é que há um senhor de barba branca agora a ocupar o espaço de oposição que até então eram do 01, do 02 e do 03.

Política

O  perigoso morde-assopra do clã Bolsonaro


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Foto: Fábio Pozzebom/Agência Brasil-EBC

Numa interessante análise publicada há poucos dias no Poder 360, Leonardo Cavalcanti  avalia a possibilidade de o clã Bolsonaro se valer do que o professor de Antropologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Piero Leirner, chama de “estratégia militar dissonante”. De acordo com Leirner, trata-se da replicação de uma tática de guerra, na qual informações desencontradas são repassadas de modo a criar uma estratégia de confusão, que desorienta o inimigo.

Passa-se uma ideia de descontrole. De que não há unidade de pensamento. Uma coisa é dita. Outra é contradita. Desautorizada. Daí, recua-se do que foi dito. Até a criação da próxima controvérsia. Na estratégia, segundo avalia Leirner, o presidente Jair Bolsonaro acaba aparecendo como o elemento moderador. A tática gera mobilização dentro do governo e entre a militância mais próxima do presidente. E mantém acesa a polarização com a esquerda, o interminável FlaXFlu que tem sido o nosso pesadelo.

O morde-assopra ficou claro em dois momentos recentes. Primeiro, no vídeo do Rei Leão e das hienas. No vídeo, Bolsonaro aparece como o leão e as hienas são todas as demais instituições republicanas brasileiras: Judiciário, Legislativo, imprensa… Tratava-se de uma clara demonstração de guerra. De ruptura institucional. O que Bolsonaro pretendia com aquilo? Então, diante da repercussão negativa, ele declara que o vídeo foi um erro, retira o vídeo do ar e pede desculpas.

Então, alguns dias depois, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-RJ) critica a radicalização dos movimentos de protesto no Chile e diz que o governo deve se preparar para reagir caso algo semelhante se esboce ocorrer por aqui. Diz que o governo precisa ter instrumentos para essa reação. E fala numa possível volta do AI-5, um instrumento da ditadura que dava poderes fora da Constituição ao governo para fechar o Congresso, cassar pessoas, censurar a imprensa. Diante do evidente repúdio geral a tal absurdo, Bolsonaro desautoriza Eduardo. Que pede desculpas e recua.

Não tivesse sido, porém, por um modo patético, eis que depois o próprio Eduardo Bolsonaro volta ao tema novamente não para explicar, mas para confundir. Diz em outro vídeo que o que ele tinha querido dizer não era uma pregação da volta do AI-5, mas a necessidade de o governo ter instrumentos para agir de forma “energética” em caso de radicalização. O vídeo, felizmente, repercutiu pelo ridículo do uso errado do termo “energético”. O que pretendia Eduardo era transformar os protestos numa rave e distribuir Red Bull pra moçada?

Ou, levando a fala a sério: o que são instrumentos “energéticos”? Porque, se de fato houvesse uma radicalização de protestos fora dos preceitos da lei, que extrapolassem o direito de manifestação, a Constituição e as leis brasileiras possuem instrumentos enérgicos – este é o termo correto –  para coibir. Se os “energéticos” estão fora do limite legal e constitucional e denotam autorização para ações autoritárias, a democracia brasileira deve rechaçá-los.

Se há algo de pensado nesse morde-assopra, se é a adoção de uma tática diversionista de inspiração militar, é preciso dizer que tudo isso sai completamente dos manuais conhecidos de administração de um governo. Se der certo, vai obrigar uma profunda revisão de conceitos.

É interessante para quem disputa uma eleição – sobretudo se não está no governo – criar em torno do pleito um ambiente de confusão e desorientação. Especialmente se for capaz de fazer com que o caminho da solução ao final passe por ele. Nesse sentido, a tática de Bolsonaro para manter a polarização acesa durante o pleito do ano passado foi um sucesso absoluto. Mas governos precisam de tranquilidade. Precisam de um mínimo de estabilidade para ver avançarem seus projetos.

A essa altura, Bolsonaro briga com seu partido, briga com outros partidos conservadores do Congresso, não consegue formar uma base, joga suas fichas na formação de um novo partido quando ele precisa de votos agora, não no futuro. Briga com o Judiciário. Briga com a imprensa. Briga com os setores mais organizados da sociedade civil de perfil mais conservador, como o Movimento Brasil Livre (MBL). Qual a garantia de tranquilidade mínima que isso lhe traz para a aprovação dos seus projetos?

Se há por trás de tudo isso uma intenção não democrática, golpista, como se preocupam alguns, de que forma Bolsonaro encontrará respaldo para tal aventura se dispensa as instituições? Em 1964, militares não tomaram o poder sozinhos. Precisaram – e tiveram – o apoio de instituições como boa parte do Legislativo, do Judiciário, da imprensa, da sociedade civil.

Há, por último, uma outra avaliação que devem fazer os que defendem soluções mais conservadoras, de direita, para o país. Ao vencer as eleições, Bolsonaro deu a esse gupo mais conservador a chance de propor seu modelo pela via democrática. Alternância de poder, como se espera que ocorra em qualquer democracia madura. Dez meses depois da posse, o esboço de qualquer sugestão autoritária e não democrática seria a admissão de que, no Brasil, tal grupo conservador não consegue manter seu modelo pela via institucional. Seria uma admissão de fracasso, do ponto de vista democrático.

De 1954 a 1960, o grupo conservador viu esbarrar as suas chances na moderação que era feita pelo PSD. O partido, como bem explicou Lucia Hippolito no seu “PSD: de Raposas e Reformistas”, evitava os extremismos. A lógica se rompeu com Jânio Quadros. E não deu certo, pela via democrática, após a sua renúncia. O golpe jogou às favas a tentativa de sucesso pelo caminho democrático. A direita brasileira pagou seu preço. Afastou-se do debate até conseguir emergir de novo com a construção da eleição de Bolsonaro. Já vai admitir de novo a impossibilidade de sucesso de suas ideias pelo debate democrático? Vai de novo fazer descer goela abaixo por vias autoritárias? É o que propõe o clã Bolsonaro antes de pedir desculpas? Ou tudo não passa de um mal entendido? Ainda  que seja um planejado e estratégico mal entendido…

Política

Os riscos da guerra total


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Reprodução/Vídeo

O vídeo estilo Rei Leão que o presidente Jair Bolsonaro nos impingiu durante um tempo e do qual depois se arrependeu é um veemente sincericídio. O presidente, com a ajuda dos seus assessores, aqueles a quem, em entrevista ao site Congresso em Foco, o ex-ministro Gustavo Bebianno chama com todas as letras de “loucos”, se coloca ali contra tudo e contra todos. Não adianta a essa altura ter se arrependido depois. Até porque, antes do seu arrependimento, seu assessor Filipe Martins já havia ratificado seu conteúdo. Ficou claro que aquilo é o que de fato pensa Bolsonaro e aqueles que o assessoram.

O vídeo demonstra que Bolsonaro hoje se sente atacado por todas as instituições brasileiras. Contra ele está o Judiciário, representado pelo Supremo Tribunal Federal. Está o Legislativo, a partir de diversos partidos – até o mesmo o seu próprio, o PSL. Está a imprensa, a partir dos seus principais veículos. Está a sociedade civil organizada, em grupamentos como o Movimento Brasil Livre (MBL) ou organizações classistas como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Bolsonaro só tem a seu favor um tal difuso “brasileiro patriota”.

Não sei se os “loucos”, como chama Bebianno, se inserem ou não nessa onda, mas já se estuda o surgimento pelo mundo de um certo anarquismo de direita. A tal nova onda, ao explicitar individualismos, coloca contra si todas as organizações da sociedade. E é daí que muitos passam a acreditar em tenebrosas conspirações, como a que envolveria toda a comunidade científica em torno de negar que a terra é plana, por exemplo. Enfim, um mundo delirante. Que fica perigoso se alguém com tais ideias chega ao poder. Espera-se que não seja o nosso caso…

O fato, porém, é que o vídeo Rei Leão de Bolsonaro é a mais explícita afirmação da existência dessa disposição contra a ordem institucional. De um sentimento, por parte de Bolsonaro e do grupo que o cerca, de isolamento e de perseguição. Que Bebianno, na entrevista, enxerga que possa desaguar mesmo futuramente em alguma tentativa de golpe.

Mas é justamente nesse ponto que qualquer arroubo golpista agora de Bolsonaro será completamente diferente da construção que se deu no golpe militar de 1964, que ele tanto venera e elogia. Em 1964, as instituições se uniram para depor João Goulart. Os militares tiveram o apoio da imprensa, do Congresso, de parte do Judiciário, de parte da sociedade civil organizada, para tomarem o poder. Se oposição dessas instituições houve, foi depois, diante da constatação de que a devolução prometida do poder não se daria e que a ditadura se consolidaria, como se consolidou, por vinte anos.

Se há por parte de Bolsonaro e de seus “loucos” – de novo, usando o termo de Bebianno – alguma estratégia, ela parece partir para uma opção de guerra total. Olavo de Carvalho e seus discípulos parecem ter percebido que a alternativa conservadora tomada não apenas aqui mas em diversos países da América do Sul por alguma razão se esfarinha. A Argentina optou por voltar para o peronismo. A Bolívia elegeu Evo Morales em primeiro turno – é preciso se verificar se com fraude ou não. O Equador protesta. O Chile nem se fala.

Seria, assim, necessária, na cabeça deles,  alguma reação. O problema é estabelecer uma reação contra tudo. Que elege todas as instituições como inimigas. Mesmo junto ao comando militar, Bolsonaro comprou diversas brigas. Reduziu o tamanho da participação de praticamente todos os seus generais. Mantém mudo o seu porta-voz, general Rego Barros. Difícil saber se contaria com a instituição Forças Armadas caso embarcasse em tal aventura. Fica, assim, com ele somente o tal “brasileiro patriota”.

E contra, as instituições. E esse é o risco da guerra total. Qual o tamanho do apoio de que dispõe Bolsonaro na sociedade? O que ele quer quando declara guerra ao Supremo? Aos demais governadores, como Wilson Witzel, do Rio? E, citando novamente Witzel e João Dória, de São Paulo, às demais forças do campo conservador? Ao seu próprio partido e aos demais? Aos movimentos sociais, incluindo aqueles que o elegeram, como o MBL? Ao final dessa guerra, sobrará o quê de pé?

O tamanho da briga comprada fica claro no desenrolar dos últimos acontecimentos. Bolsonaro foi citado pelo porteiro do seu prédio na investigação do assassinato de Marielle. Isso é fato. E, sabido, precisa ser noticiado. Mas Bolsonaro só aumentou o fogo da sua artilharia contra a TV Globo. E contra Witzel, que acusa de ter orientado tal menção aos investigadores. Aos investigadores, que teriam incitado o humilde porteiro. Menção que levará o caso ao Supremo, que ele retratou como hiena no tal vídeo.

O risco de declarar guerra contra todo mundo é se todo mundo aceitar a declaração de guerra…

Política

Impressões a partir de Santiago


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Saímos do Chile às 6h da manhã da quarta-feira, 23 de outubro, com a certeza de que tão cedo as coisas não irão amenizar totalmente no país. E o mais de milhão de pessoas nas ruas alguns dias depois foi a demonstração veemente disso. As coisas já começavam a se espalhar além de Santiago e seus arredores. Na pacata cidade turística de Pucón, onde estávamos antes, e onde normalmente a rotina só é interrompida de vez em quando pelas erupções do vulcão Villa Rica, que assoma sobre a cidade, ou por um e outro tremor de terra, as passeatas se iniciavam. Como também em Temuco, onde está o aeroporto mais próximo de Pucón.

Até então, pareciam maiores ali as preocupações, entre os índios Mapuche, com a possível construção de hidrelétricas que os ameaçam de remoção das terras ancestrais que ocupam há milênios. Ou, entre a população local, de novas estradas asfaltadas que facilitem demais o acesso aos rios, lagos e vulcões que dão nome à região, ameaçando o controle de um tipo de turismo sustentável que respeita a natureza.

A ira que se iniciou no fim de semana em Santiago, porém, avança sobre a faixa estreita e comprida de terra, a tripa que forma o Chile na parte oeste do continente sul-americano. Ira que, após a linda manifestação de 1,2 milhões de pessoas nas ruas da capital, ganha ares de protesto mais pacífico – é inesquecível a cena do policial que dança com a manifestante que ganhou as redes sociais.

Porque, da mesma forma, pouco tem a ver com a causa inicial, o aumento de 30 pesos na passagem do metrô, algo em torno de R$ 0,20. Curioso que seja o mesmo valor do aumento das passagens de ônibus em São Paulo que marcaram o início das manifestações de protesto no governo Dilma Rousseff. Porque, no Chile agora como no Brasil de Dilma, os protestos não eram só pelos R$ 0,20. O que estourou foi um poço de insatisfação que vinha latente desde que o país optou pela implantação das medidas neoliberais que até então eram um modelo de sucesso a ser seguido por outros neoliberais do planeta – como nosso ministro da Economia, Paulo Guedes – e se tornam agora um vigoroso sinal de alerta.

Formávamos um grupo de quatro jornalistas que viemos ao Chile a convite da Latam no voo inaugural da linha direta que agora liga Brasília a Santiago três vezes por semana, às terças, quintas e sábados. O voo foi inaugurado na terça-feira, dia 15. Na programação conferida para o Press Tour, tivemos a sorte de deixar Santiago um dia antes do início dos protestos. Nada parecia indicar que a cidade estouraria, agora já com 18 mortos desde o princípio das manifestações. Em Pucón, o que chegava eram reflexos. Como o cancelamento e atraso de voos, que nos obrigou a ficar no Chile dois dias a mais que o previsto inicialmente.

No momento da nossa saída do país, ficava claro o pavor do presidente Sebastián Piñera na sua tentativa de acalmar a situação após a sua desastrada reação inicial. Quando os protestos estouraram, Piñera resolveu ser duro. Decretou Estado de Emergência. Colocou as tropas militares na rua para reprimir as manifestações. Decretou toques de recolher que variam de extensão conforme as coisas melhoram ou pioram em cada região. No desastre inicial, chegou a dizer que o país vivia uma situação de guerra. Não poderia ter dito nada pior. Afinal, ele tenta conter manifestações do próprio povo do Chile. Declarara, então, guerra aos próprios concidadãos que preside. As ruas fervem aos gritos de “Fuera Piñera!”

Visto que tal reação só fazia colocar na sua conta mortos que já vão a 19, Piñera procurou negociar. Anunciou na noite de terça-feira, um pacote de contrarreformas que começa a ameaçar colocar por terra o ideário neoliberal chileno que tanto encanta a outros economistas como Paulo Guedes. Melhora no valor de aposentadorias, redução do valor de contribuições pagas, foram coisas que ele anunciou em seu discurso. Que não arrefeceram a disposição da oposição, que agora sugere uma greve geral no país. Agora, Piñera sugere a renúncia coletiva de seus ministros em mais uma tentativa de solução conciliada.

O belo palácio que serve como sede do governo chileno foi em seu início a Casa da Moeda. É por isso batizado de Palacio de La Moneda. A política neoliberal adotada pelo Chile é como as moedas que ali já foram cunhadas: tem dois lados. Fez o país dar um grande salto de desenvolvimento. O Produto Interno Bruto (PIB) per capita chileno é 60% superior ao brasileiro. As projeções indicam um crescimento de 3% na economia do país, enquanto as previsões no Brasil ficam abaixo de 1%.

Em contrapartida, tal modelo aprofundou fortemente a desigualdade social. Uma desigualdade que as ruas de Santiago não mais conseguem esconder. Há dezenas de acampamentos de sem teto espalhados em praças da cidade. Muitos são migrantes haitianos e venezuelanos. Mas há ali chilenos também. Grandes favelas distribuem-se em diversos pontos da periferia da capital do Chile. É o resultado de toda uma rede de proteção social que desmoronou nos últimos anos.

O Chile gasta 25% menos que o Brasil na educação pública, por exemplo. O modelo de capitalização da previdência passa os seguros para a iniciativa privada, aumentando os gastos individuais e reduzindo benefícios. Tudo isso resultou num grande aumento da desigualdade social. O Chile hoje só perde para o Qatar e para o Brasil em termos de desigualdade entre o conjunto da população em comparação com o 1% mais rico.

A insatisfação latente com a situação estourou no fim de semana. E pode resultar em um conjunto de contrarreformas que, de alguma forma, retomem ao menos parte da rede de proteção social do país. Caso contrário, as ruas chilenas poderão pegar fogo novamente.

O que parece claro neste momento é a sensação de que o governo compreendeu os recados das ruas. Embora Piñera reclame das manifestações mais violentas, que levaram a saques e às mortes, cujos responsáveis o presidente chileno chamou de “delinquentes”, o chamado à negociação contrasta com a posição inicial do governo ao decretar o Estado de Emergência.

Para alguns analistas, ao decretar o Estado de Emergência e entregar a segurança aos militares, Piñera teria pretendido trazer de volta a sensação de terror dos tempos da ditadura militar de Augusto Pinochet para amedrontar os manifestantes. O problema: quem protestava não viveu tal tempo, não tinha memória dele e pagou para ver.

No caso dos voos domésticos e internacionais, a situação ainda está longe de se normalizar. No Aeroporto de Santiago, foram instaladas diversas camas de campanha onde dormem passageiros de voos cancelados. Somente da Latam, desde o início dos protestos, mais de 300 voos tiveram cancelamento. A situação já se normaliza, com cerca de 98% da operação retomada. Mas é preciso realocar passageiros que perderam suas conexões.

Chile 0473

Para esses passageiros, se deslocar para fora do aeroporto era até a quarta-feira, quando deixamos o Chile, tarefa complicada. Os hoteis mais próximos do aeroporto estavam lotados. E o toque de recolher então decretado entre 20h e 6h da manhã complicava ainda mais o deslocamento. Para chegar ao aeroporto, os bilhetes de passagem servem de salvo conduto. Para sair, porém, é preciso pegar um documento no posto dos Carabineiros justificando a necessidade do trânsito. Do contrário, sair é risco de prisão. Na terça-feira, muitas lojas do aeroporto ainda estavam fechadas porque os funcionários não conseguiram chegar para trabalhar. Na quarta, ainda havia lojas fechadas, mas a situação já estava mais perto do normal.

Ainda que as coisas tendam a se normalizar, o Chile é uma panela de pressão. Aparentemente, o governo chileno compreendeu isso e recua da tentação repressora inicial. Se, para os países vizinhos que ensaiam arroubos liberais semelhantes, a situação serve de alerta, que se preste, então, atenção também a isso. Piñera aprendeu em poucos dias que a cara feia dos carabineiros não era o melhor caminho para diminuir a pressão da sua panela.

Política

Nós jornalistas somos “os suspeitos de sempre”


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O filme “Casablanca” certamente reúne o maior conjunto de frases antológicas da história do cinema. Aquelas que vivemos repetindo, acrescentadas que ficam às nossas vidas e experiências. “Toque outra vez, Sam” (ainda que no filme Bogart diga apenas “Play it, Sam” e não “Play it again” como a gente vive repetindo…), “Sempre teremos Paris”… e por aí vai.

Mas de todas as frases antológicas de “Casablanca”, a melhor é a dita pelo Capitão Renault, o francês colaboracionista cínico e de caráter ambíguo, quando tem que reprimir uma confusão no Rick’s Café, onde se passa o filme. “Prendam os suspeitos de sempre”, diz ele.

Ou seja, em tempos de ditadura, de liberdade reprimida, as arbitrariedades vicejam. As autoridades amplificadas, multiplicadas nos seus egos, sem necessidade de prestar contas a ninguém, relaxam no rigor das suas apurações. Num mundo que enxerga inimigos de todos os lados, prende a torto e a direito os que incomodam. Pouco importa se efetivamente cometeram o crime. Suas prisões servem tão somente para manter aceso o medo. Para renovar o gosto de sangue que rapidamente se torna um vício. Os “suspeitos de sempre” não são aqueles que, nas sombras, cometem crimes. São aqueles que, às claras, alertam para a sua existência.

Na Alemanha nazistas e nos territórios que ocupava, como Casablanca, os “suspeitos de sempre” eram os judeus, as minorias, os comunistas, os amantes da liberdade que não se curvavam àqueles tempos sombrios. Na Alemanha nazista e em qualquer momento em que a liberdade de expressão começa a correr risco, os jornalistas sempre se juntam aos “suspeitos de sempre”.

A verdade é que, para qualquer governo em algum momento, jornalistas viram os “suspeitos de sempre”. O grande escritor George Orwell, autor de “Revolução dos Bichos” e “1984” dizia: “Jornalismo é publicar aquilo que alguém não quer que se publique. O resto é publicidade”.

Nas suas obras, George Orwell tratou de dissecar e alertar para o perigo dos regimes que se constroem a partir de verdades absolutas. Vivemos hoje um momento em que muitos pregam a necessidade de “radicalizar” como solução para vencer o inimigo que enxergam do outro lado. “Radicalizar” significa “tornar absoluto”. É considerar que a verdade se encontra somente consigo. E que tudo que não vai ao encontro do que você considera verdade se torna uma mentira perigosa, que precisa ser destruída. Em “1984”, o Ministério da Verdade refazia as manchetes dos jornais e retocava fotos refazendo a “verdade” de acordo com as conveniências políticas que mudavam. Ou seja: o Ministério da Verdade era, de fato, um “Ministério da Mentira”. Mas aquilo não era exatamente um produto da imaginação de Orwell: Stálin tinha feito exatamente assim na União Soviética, eliminando dos arquivos fotos em que León Trotski aparecia, por exemplo. Na “Revolução dos Bichos”, Orwell mostra como o porco, o líder revolucionário daquele movimento de animais, aos poucos vai ficando igual ao homem que ele derrubou.

O livro de memórias do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso é cheio de críticas a jornais e jornalistas quanto à passagem de seu governo. Menospreza alguns jornalistas dizendo que não os lê. Critica jornais que o criticavam. Os acusa de “sensacionalismo”. Nos tempos do PT no poder, criou-se a expressão “Partido da Imprensa Golpista”, e muitos militantes seguem na balada de considerar que jornais e jornalistas se associaram para reduzir pelo golpe do impeachment a era petista.

Em se julgando verdade, se houve alguém que tenha se beneficiado da criação artificial de um ambiente que vinculava a era petista à corrupção, esse alguém foi o atual presidente Jair Bolsonaro. Foi Bolsonaro quem, nas eleições, conseguiu colar à percepção da sociedade a ideia de que ele era o oposto daquilo que a sociedade não mais queria.

Mas, nove meses depois de tomar posse, é Bolsonaro quem vocifera pesado contra os jornais e os jornalistas. Com seu estilo que passa longe da sutileza, diz que os jornais “mentem”, “distorcem”, “difamam”. Com o propósito de derrubá-lo. Ou seja, com velocidade impressionante Bolsonaro incorpora ao seu discurso a tese de que a imprensa é “golpista”.

Assim, diante da tarefa que temos de expor problemas e mazelas, seguimos, nós jornalistas, sendo “os suspeitos de sempre”. Em tempos de ditadura, o preço pago é bem alto. “Suspeitos de sempre” são presos, muitas vezes torturados e até mortos. Jornais são sufocados, trabalha-se para desoxigenar suas fontes de financiamento. Felizmente, em tempos de democracia, o que ficam são somente as reclamações dos poderosos…

Política

Bolsonaro testa limites do MP e da PF. Pode ver testados os seus…


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Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr

Na entrevista exclusiva que me concedeu no Jornal de Brasília o ex-secretário de Governo Gustavo Bebbiano, ele alerta de forma muito dura para o que considera grave risco de “suicídio político” do presidente Jair Bolsonaro. Esse risco, na avaliação dele, está relacionado à impressão que Bolsonaro passa de temer o grau de independência e de autonomia que conquistaram o Ministério Público e a Polícia Federal. Para Bebbiano, ao agir assim, Bolsonaro ensaia um flerte com a turma que já há algum tempo anseia por travar a escalada de combate à corrupção no país. Foi para derrotar essa turma que boa parte do eleitorado de Bolsonaro optou por ele. Bebbiano, assim, aponta tal fator como o componente que pode desidratar o apoio ao presidente mesmo junto ao seu círculo mais fiel. Trava a essa altura ao combate à corrupção, no entender de Bebbiano, é coisa que a sociedade brasileira não mais aceita.

Curioso alguém imaginar que Bebbiano seja “cachorro morto” por ter sido demitido do governo. Bebbiano foi o coordenador da campanha vitoriosa que levou Bolsonaro à Presidência. Pouca gente sabe melhor do que ele que sentimentos e motivações têm o eleitorado que o escolheu presidente. Quais as características que, no imaginário das pessoas, separam o capitão Bolsonaro do “mito”. Quando Bebbiano analisa o que já vem derretendo o presidente e o que pode terminar de desmilinguí-lo, parece prudente prestar atenção.

Bolsonaro vem testando fortemente os limites de autonomia dos nossos dois principais mecanismos de investigação. Primeiro o Ministério Público e, mais recentemente, a Polícia Federal, foram construindo desde a Constituição de 1988 um caminho sólido para se firmarem no seu trabalho acima dos humores ocasionais dos governos para realizar seus trabalhos.

Não que não haja certa razão em algumas críticas feitas ao poder excessivo dado especialmente aos procuradores da República. Não são raras, de fato, as vezes, em que eles misturam suas convicções ideológicas ao exercício das suas funções. E as conversas reveladas pelo site The Intercept Brasil mostram isso claramente. Diversos gestores em variados níveis reclamam que hoje é praticamente impossível passar por uma administração sem responder a um processo. Um grau de desgaste, dizem, que muitas vezes produz efeito oposto à moralização. Diante da radicalização que criminaliza todo mundo, os honestos se intimidam e ficam aqueles que assumem o risco pelos lucros pouco republicanos que vislumbram.

A possibilidade de um freio de arrumação nisso, porém, pode vir por meios legais. Dificilmente virá pelo posicionamento de um presidente que imagina poder ter ingerência mais forte para barrar tal processo de independência. Que, no caso do Ministério Público, tem previsão legal – ele não é subordinado a nenhum poder. E, no caso da Polícia Federal, ganha musculatura de fato, ainda que legalmente exista a subordinação ao Ministério da Justiça.

Ao escolher Augusto Aras fora da lista tríplice, Bolsonaro parece estar em busca do seu Geraldo Brindeiro particular. Do seu engavetador geral da República. É preciso verificar até que ponto a corporação hoje, diante dos avanços que ocorreram desde o governo Fernando Henrique Cardoso, está disposta a respeitar um novo engavetador como chefe e até onde pode agir à sua revelia. As reações à decisão de Bolsonaro de ignorar a lista tríplice já se esboçam.

Já a Polícia Federal deu algumas seguidas mostras da pouquíssima disposição de ver suas investigações barradas por ordens de comando. Isso alimentou diversas rusgas nos governos petistas, à medida em que a Operação Lava Jato avançou. E rebelião mesmo quando Michel Temer escolheu para diretor da PF Fernando Segóvia. A tentativa agora de demitir Mauricio Valeixo produz suas reações.

Ao testar esses limites, Bolsonaro corre dois riscos. O primeiro é a desidratação política de que fala Bebbiano. O segundo é o da produção de novas rebeliões em grau bem mais agudo tanto no Ministério Públlico quanto na PF. E, aí, o risco é de ruptura institucional. De quebra de hierarquia. Uma das lições da democracia é que presidentes podem muito. Mas presidentes não podem tudo. E as democracias, quando consolidadas, às vezes se revelam um bocado fortes…

Política

Ainda é a política, estúpido!


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Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

No auge da crise que acabou levando ao impeachment de Dilma Rousseff, ousei inverter em um artigo a famosa frase do marqueteiro de Bill Clinton, James Carville. Nas eleições de 1992, ele apontou que George Bush não era favorito, apesar da popularidade conquistado após ter vencido a Guerra do Golfo. “É a economia, estúpido!”, disse ele. Seu raciocínio era que a definição política de uma eleição dependia fundamental dos humores da população quanto aos aspectos econômicos: recessão, inflação, etc.

No período anterior à queda de Dilma, estava claro que acontecia o contrário. Por mais que se tentasse alguma coisa, a economia seguiria morro abaixo. Por causa da política. Ou seja, invertendo a máxima de Carville, no caso, era “a política, estúpido!”.

Na terça-feira, o dólar bateu a casa dos R$ 4. Os boletins do Banco Central e de outros analistas apontam para crescimento pífio, ou crescimento nenhum, do país este ano. Um comunicado interno da Receita Federal apontou que os cortes no orçamento previstos para este ano poderiam comprometer serviços como a emissão de CPF e a próprio restituição do imposto de renda. O governo enviou uma série de projetos ao Congresso de suplementação orçamentária que não caminham. Ou seja: estamos em crise.

E certamente não estamos em crise por conta dos pressupostos da equipe comandada pelo ministro da Economia, Paulo Guedes. O que Guedes propõe e procura fazer é o que consideram o caminho correto nove entre dez empresários e financistas do país e do lado capitalista do planeta. O governo aprovou com imensa facilidade na Câmara a reforma da Previdência e nada indica que venha a sofrer algum tipo de dificuldade agora no Senado. Nunca houve ambiente tão propício para a discussão e aprovação das chamadas reformas estruturantes no Congresso.

E, no entanto, o país segue empacado. E, se isso acontece, é prudente jogar a culpa na política. No tal “presidencialismo de colisão”, como cunhou com felicidade meu amigo Melillo Diniz, escolhido pelo presidente Jair Bolsonaro para substituir o criticado “presidencialismo de coalizão”, apontado por ele e por aqueles que o elegeram como  a chave do fisiologismo e da corrupção que prejudicam o país.

No caso de Dilma, ela colocou um ortodoxo no comando da economia, Joaquim Levy, e nada aconteceu. Certamente porque o ambiente de instabilidade e de incerteza política não aconselhava investimentos. Com seu temperamento forte e estabanado, Dilma não conseguia fazer os arranjos políticos para serenar o país. Isso somado ao fato de que o então presidente da Câmara, na prática no comando então do Congresso, não fazia a menor questão de ajudar nessa tentativa de serenar ânimos.

Agora, Bolsonaro pisa ao máximo no acelerador e joga às calendas qualquer tentativa de serenar os ânimos. Ao contrário, seu “presidencialismo de colisão”, elege inimigos todos os dias, afasta ex-aliados, entorna diariamente o caldo de qualquer entendimento. Não exatamente por ser estabanado. A tática tem método. Visa consolidar os apoios que já são mais sólidos. Fortalecer o “mito”, mantendo acesa a polarização radical do país.

Apesar de ter método, a estratégia é arriscada. É como apostar num incêndio imaginando ser possível controlá-lo. Ao enxergar tamanho cenário de instabilidade e incerteza, o investidor fica tentado a considerar se não é melhor esperar um pouco, manter o dinheiro fechado na carteira, dentro do bolso, enquanto o cenário não clareia.

Somam-se a isso guerras comerciais e posicionamentos internacionais que ganham um viés ideológico como nunca tiveram, nem mesmo no tempo da ditadura militar (quando as empreiteiras brasileiras, por exemplo, ganharam rios de dinheiro construindo hidrelétricas na União Soviética comunista). A Noruega tira seus recursos do Fundo Amazônia. A Alemanha ameaça boicotar produtos brasileiros. O Irã e outros países do Oriente Médio preocupam-se com o alinhamento aos Estados Unidos. Mesmo os agricultores brasileiros, que nunca se pautaram pelo ativismo ambiental, mostram-se preocupados com o exagero de certos posicionamentos, que fazem com que os produtos do país corram o risco de perder os chamados “selos verdes”, condicionamentos de compromisso ecológico que são cada vez mais frequentes em diversos países que importam do Brasil.

Peitar posicionamentos e mudanças de conceito muito fora do pensamento global pode dar mais certo em um país como os Estados Unidos na era Donald Trump, no qual Bolsonaro se espelha. Afinal, os Estados Unidos são a maior potência do mundo, com capacidade para serem autossuficientes. Podem bancar suas guerras. O emergente Brasil é dependente dos humores de seus parceiros. Geralmente, precisa de uma jamanta para subir a ladeira. E corre sempre o risco de rolar abaixo por um sopro ou um peteleco fora de hora. Se não conciliar política e economia, a política derruba a economia, estúpido!