Política

Nunca mais!


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Por uma dessas coincidências da vida, termino justamente hoje a leitura de “Silêncio na Cidade”, romance do meu amigo, o jornalista Roberto Seabra. Meu querido amigo Beto construiu o que os franceses chamam de “roman à clef” – numa tradução livre, “romance com chave”, formato no qual se usam personagens fictícios em substituição aos personagens reais – para retratar o caso Ana Lídia. Neste 31 de março, o golpe militar que mergulhou o país por vinte anos numa ditadura completa 55 anos. Em setembro, o assassinato de Ana Lídia completará 46 anos.

Nestes estranhos tempos, há quem sugira comemorar os 55 anos do dia que virou uma noite de vinte anos. Rememorar aquele dia e suas consequências certamente é algo muito necessário. Rememorar, lembrar, para que nunca mais se repita. Comemorar… Não há nada a comemorar…

Há dezenas de tristes histórias de torturas, assassinatos, desaparecimentos que poderiam ser lembradas para mostrar que não há nada a comemorar. Serão histórias que mostrarão a covardia de um regime que impôs força absolutamente desproporcional contra seus opositores, contra seus adversários. Serão histórias de um regime que se impôs pelo medo, pela sombra, pela violência.

Mas, em todos esses casos, se contarão histórias de violência – ainda que desproporcional – contra adversários do regime. O caso Ana Lídia mostra, porém, como a sombra da ditadura não atinge somente seus adversários. Ela cai, gelada, sobre qualquer um. Ela vitima também os inocentes. Ana Lídia era uma menina de apenas 7 anos. Seus pais, funcionários públicos. E seu bárbaro assassinato nada teve a ver com a forma como eles pensavam ou atuavam. Linda, loura, de olhos azuis, Ana Lídia parecia um anjo de igreja barroca. Nada poderia emoldurar mais que seu rosto a imagem da absoluta inocência.

Às 13h do dia 12 de setembro de 1973, Ana Lídia foi encontrada nua em um matagal próximo à Universidade de Brasília, semienterrada numa vala próxima a marcas de pneus e duas camisinhas. Seus cabelos tinham sido cortados e havia marcas de cigarro em diversas partes do seu corpo.

Em “Silêncio na Cidade”,  Beto Seabra descreve como as investigações chegaram ao irmão de Ana Lídia, Álvaro Henrique Braga. Ele e sua namorada, Gilma Varela de Albuquerque, teriam cometido a barbaridade de entregar a menina como pagamento de uma dívida de drogas junto a traficantes. Venderam a menina pra pagar uma dívida de drogas!

Um dia antes de ser encontrada morta, Ana Lídia foi levada para um sítio nas proximidades de Brasília. Foi nesse sítio que todo tipo de barbaridade foi cometida contra a menina. E é aí que ela deixa de ser somente a vítima de um crime bárbaro para se tornar uma vítima da ditadura.

O sítio pertencia ao então vice-líder da Arena, partido que apoiava a ditadura, no Senado, Eurico Rezende. Entre os suspeitos de terem assassinado Ana Lídia, estavam o filho de Eurico Rezende, Eduardo Ribeiro Rezende, e o filho do então ministro da Justiça, Alfredo Buzaid, Alfredo Buzaid Júnior, conhecido como Buzaidinho. O terceiro suspeito era o traficante  Raimundo Lacerda Duque.

Como narra Beto Seabra em seu romance, o Estado, com a força que só têm as ditaduras, trabalhou para abafar o caso e impedir que as investigações avançassem sobre o filho do senador e o filho do ministro da Justiça. No dia 20 de maio de 1974, a Polícia Federal emitiu um notificado que somente as ditaduras emitem: “De ordem superior, fica terminantemente proibida a divulgação através de meios de comunicação social escrito, falado, televisado, comentários, transcrição, referências e outras matérias sobre caso Ana Lídia”.

Até hoje, não houve um desfecho para o caso. Ninguém foi punido. Há quem ainda leve flores ao túmulo de Ana Lídia. Há quem a considere uma santa. Talvez alguns poucos se lembrem, ao passar pelo escorregador em forma de foguete que há no Parque da Cidade, que ele foi batizado com o nome de Ana Lídia.

Esses que se lembram percebem que há uma chaga viva no coração da cidade que nunca vai se fechar. Chaga que se abriu no dia em que uma menina de sete anos foi violentada até a morte por rapazes que se julgavam capazes de tudo somente porque eram filhos de altas autoridades da República em tempos sem Justiça e sem democracia. O dia também em que pelos louros cachos e pelos olhos azuis de Ana Lídia a cidade perdeu sua inocência. E percebeu que todos, sem distinção, eram vítimas da sombra que escurecia aqueles dias.

As ditaduras assombram. As ditaduras gelam. As ditaduras amedrontam. As ditaduras violentam. As ditaduras disseminam o ódio. As ditaduras impedem o diálogo. As ditaduras dividem as pessoas. As ditaduras fazem chorar e ranger os dentes. As ditaduras nada comemoram. As ditaduras não podem voltar. Nunca mais!

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