Política

A Ágora Virtual não existe


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Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil-EBC

Para saber em quem votaria na eleição para a Presidência do Senado, o senador Jorge Kajuru (PSB-GO) resolveu fazer uma enquete nas suas redes sociais. Um dos diversos parlamentares que nunca antes tinham exercido cargo político, fruto da onda de renovação que varreu o país nas últimas eleições, Kajuru explicita o processo, mas não é o único a agir assim. A afirmação de um compromisso maior com aqueles que o elegeram e menor com os partidos políticos e os governos é uma característica comum a boa parte desses novos políticos. Pode ser uma boa novidade. Mas tem grande chance de se transformar também em um grande perigo.

De fato, políticos como Kajuru e diversos outros, como Kim Kataguiri (DEM-SP), do Movimento Brasil Livre (MBL), devem muito pouco aos seus partidos e às estruturas tradicionais da política a sua eleição. Na maioria das vezes, eles receberam quantia pequena de seus partidos, fizeram campanha bem mais barata, não estão apoiados na velha lógica de conseguir verba pública, inaugurar obras e angariar assim os votos das suas bases. Eles primeiro amealharam uma quantidade imensa de seguidores nas redes sociais, passaram a influenciar esses seguidores e ser influenciados por eles. E a partir do burburinho que fazem nas redes sociais acabaram eleitos. Assim, julgam que poderão ser mais independentes das orientações partidárias e que não precisarão fazer alinhamentos automáticos com governos em troca de favores ou conveniências. É o cerne da tal “nova política”.

Não há dúvida de que era necessária uma sacudida nos velhos métodos de fazer política que se instalaram no país depois do fim da ditadura militar e da redemocratização. Os partidos e os parlamentares estavam mais do que acostumados às práticas do velho toma lá dá cá. Diversas legendas foram criadas sem qualquer compromisso ideológico somente para praticar esse “é dando que se recebe”. Houve partido criado que se vangloriava de não ter posição ideológica nenhuma. Depois de seguidos casos de corrupção que varreram diversos políticos graúdos e empresários para a cadeia, está mais do que claro que o modelo se esgotou. É preciso, porém, alertar que sua substituição por um novo modelo no qual o parlamentar preste contas ao eleitorado pela via virtual, pelas redes sociais, pode inaugurar um caminho ainda mais distorcido e perigoso.

Quando a internet e as redes sociais surgiram, os mais otimistas comemoravam o prenúncio de uma nova era na qual iria surgir um modelo de democracia direta. Era a criação da Ágora Virtual. A Ágora era a praça na qual os cidadãos da Grécia antiga praticavam a democracia direta. Pela internet, o cidadão poderia ser consultado diretamente sobre os assuntos que lhe afetavam e orientar a decisão a ser tomada. Os representantes no Parlamento passariam a ser de fato meros representantes. Apertariam o botão de acordo com o que os cidadãos lhe dissessem pelas redes. Em útima instância, talvez até se tornassem desnecessários. A consulta poderia passar a ser feita sem intermediários. Passada, porém, a euforia inicial, o que se verifica é que o mundo virtual é completamente diferente do mundo real. E que tomar decisões no mundo real a partir das impressões que se colhe no mundo virtual pode ser o caminho mais rápido para se cometer grandes equívocos. A Ágora Virtual não existe.

Já dissemos por aqui que o exemplo mais concreto desse risco parece ter sido a decisão que a Inglaterra tomou de sair da Comunidade Europeia, o tal “Brexit”. A forma como os ingleses hoje debatem o tema parece demonstrar que a decisão foi tomada de forma emocional a partir de palavras de ordem e posicionamentos propositalmente distorcidos alimentados nas redes sociais. Tomada a decisão, veio o choque de realidade. Agora, os ingleses tentam desfazer o que fizeram, mas o retorno é bem mais difícil.

O primeiro grande problema é que os mundos virtuais não conseguem enxergar a totalidade do mundo real. Os tais algoritmos vão aproximando os que pensam de forma parecida e afastando os que pensam de forma diferente. Formam, então, as tais bolhas. Com o tempo, as pessoas começam a imaginar que o mundo inteiro pensa como suas bolhas. Muitas vezes de forma mal intencionada, outras por ingenuidade, vão-se consolidando nas bolhas impressões e pontos de vista que não se sustentam no mundo real. Pessoas são idolatradas ou demonizadas de acordo com as conveniências. Premissas falsas detonam determinadas ações ou incensam outras.

O parlamentar nas redes sociais inevitavelmente acabará fazendo parte de alguma bolha. Acabará ignorando todo tipo de pensamento que esteja fora da sua bolha. Assim, quando consultar sua bolha para tomar uma decisão no Congresso, ele vai correr grande risco de contrariar os interesses da sociedade, se a sua bolha for minoria. Vai agradar à sua bolha. Isso talvez lhe garanta seguidas reeleições. Mas radicalizará sua posição cada vez mais, distante do interesse coletivo.

O segundo problema é a imensa capacidade de manipulação e distorção desses mundos virtuais. O uso de robôs e perfis falsos nas redes para fazer prevalecer determinadas ideias, pontos de vistas e personagens hoje já não é nem mais novidade. É um processo que já se desenvolve há mais de uma década. Que já tem diversos especialistas enriquecendo. A disseminação, assim, da prática de consulta virtual pelos parlamentares tem boa chance de não vir a produzir um resultado que, como se deseja, espelhe mais a vontade da sociedade. É grande o risco de que ele somente espelhe a vontade do lobista que conseguir usar de forma mais ampla e eficiente as redes sociais para distorcê-la a seu favor. O lobista engravida as redes sociais de perfis falsos e muito ativos conforme seu interesse e ganha o debate legislativo. Elege os seus. Se perpetua.

Há dois anos, Emma Watson, a Hermione do Harry Potter, protagonizou um filme de ficcção cientítica que pode parecer uma despretensiosa sessão da tarde, mas que faz um alerta importante. Chama-se “O Círculo”, foi dirigido por James Ponsoldt, e tem também Tom Hanks no elenco. No filme, os Estados Unidos aceitam terceirizar suas eleições e tomadas de decisão a uma rede social do tipo Facebook. Como todo mundo está conectado nela, parece uma forma mais eficiente e barata de fazer democracia. Ao final, se descobre que os donos da rede recebiam vultosa grana de corporações para orientar as decisões.

A democracia representativa pode estar em crise. Ela só não pode vir a ser substituída por uma espécie de tirania virtual corporativa. Porque não há jeito de se mudar para a bolha. No mundo real, a bolha não existe.

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