Política

Será um novo marco na saúde?


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Foto: Mariana Raphael – Secretaria de Saúde do DF

A notícia de que o Ministério da Saúde já encontrou médicos para substituir 90% dos profissionais cubanos e de que pode, então, rapidamente suprir totalmente a sua ausência pode vir a ser um marco importantíssimo para a saúde pública do país. A substituição por profissionais brasileiros pode significar a quebra de uma resistência histórica da maioria da categoria ao modelo de Medicina da Família que o Ministério da Saúde preconiza para a atenção básica. Se de fato for quebrada essa resistência, a saúde pública brasileira tem a chance de dar um salto gigantesco em termos de qualidade na sua saúde pública, aproximando-se de países como a Inglaterra, o Canadá e Portugal.

Se isso vier acontecer, o presidente eleito Jair Bolsonaro terá dado um tiro ideológico no que viu e acertado no que não viu. Sua ação que levou à reação de Cuba, de romper com o acordo que tinha para o Programa Mais Médicos, tinha por intenção atingir o PT, na linha que vem preconizando de imprimir uma agenda ideológica às suas relações internacionais, o que já preocupa muita gente no campo da diplomacia. Mas se acreditava inicialmente que a retirada dos médicos cubanos produziria um buraco no atendimento de saúde básica no país. Caso isso não aconteça, para além da briga ideológica, o tiro pode resultar de fato na consolidação finalmente de um modelo de saúde pública que hoje os principais especialistas consideram o mais indicado para enfrentar os problemas dos tempos modernos na área.

A Medicina de Família, que atua na atenção básica dentro do programa Mais Médicos, é uma especialidade médica. O médico de família é preparado para chefiar uma equipe que vai atuar numa comunidade sempre com as mesmas pessoas, cerca de quatro mil. Nas cidades em que a saúde básica funciona com Estratégia Saúde da Família, a área do município é esquadrinhada para permitir que esse atendimento ocorra dessa forma. Ali, ele passa a conhecer profundamente a realidade dos pacientes que atende de forma rotineira. O foco do atendimento não se dá, assim, na doença, mas na manutenção da saúde de cada paciente.

Se um paciente vai à emergência de um hospital se queixando de alguma dor, o médico que ali o atende foca nos sintomas da sua doença. Ele não conhece o ambiente em que o paciente vive, nem sua rotina e nem em que condições vive sua família. Na Estratégia Saúde da Família, todas essas características são levadas em conta. Ao fazer o acompanhamento de saúde de uma gestante, sabe-se, por exemplo, que ela vive em um casebre em condições insalubres. Que seu marido é, digamos, alcóolatra. Que há registro de uso de drogas na família. Condições que, conhecidas, vão sem dúvida afetar o desenvolvimento do bebê que está sendo gestado e a saúde da mãe. Se uma criança aparece com bronquite, digamos, sabe-se que ela mora, por exemplo, próxima de uma fábrica de cimento, o que compromete sua condição respiratória. Em um hospital, um médico só saberá de tal situação se a paciente contar, o que quase nunca acontece.

Auxiliado pelos agentes comunitários de saúde, a Equipe de Saúde da Família faz um acompanhamento rotineiro dessas quatro mil pessoas que recebem a sua atenção. Assim, antes de tratar especificamente da doença, essa equipe trata de manter seus pacientes com saúde. É mais barato e mais eficiente. Os especialistas estimam que uma Equipe de Saúde da Família consegue resolver 80% dos casos da comunidade que ela assiste.

O modelo que se centra nos hospitais, que ainda é forte no imaginário das pessoas, fazia sentido até a primeira metade do século passado, quando a maior parte dos problemas de saúde de uma população se relacionava a doenças infectocontagiosas. Assim, a solução era mesmo internar e isolar os pacientes até que se curassem. Hoje, os principais problemas de saúde estão relacionados a doenças crônicas, como hipertensão e diabetes. Pacientes que têm tais doenças vão conviver com elas para sempre. Mas na maior parte dos casos vão seguir normalmente com suas vidas. Só são internadas em casos de agravamento agudo dos seus males. Se forem de forma rotineira ao médico, se estiveram com suas taxas normais, se a medicação prescrita estiver fazendo resultado, nada de mais grave acontece com elas. As emergências dos hospitais não são para essas pessoas. Para elas, o que funciona é algo que lhes garanta esse atendimento rotineiro.

Ocorre, porém, que quando esse modelo dá certo, a saúde dos pacientes não se agrava. Porém, é quando a saúde do paciente se agrava que a medicina se torna de fato lucrativa. Controlar a hipertensão não dá dinheiro ao médico. Tratar um infarto que exija a colocação de pontes de safena, dá.

Se a Medicina de Família é uma especialidade, o médico precisa optar por ela. Se ela trata de manter seus pacientes sãos, não será o Médico de Família aquele que será chamado se o quadro se agravar. Assim, é uma especialidade onde o médico optará por viver do seu salário. Não tem cirurgias complexas, colocação de próteses caríssimas e sofisticadas. Poucos são os médicos que fazem essa opção. A grande maioria vai virar cirurgião plástico, ortopedista, oncologista.

A Estratégia Saúde da Família sofre grande resistência de boa parte da classe médica. Pude testemunhar isso quando assessorei a Secretaria de Saúde do Distrito Federal. Tanto que, pressionado pela categoria, o governador eleito Ibaneis Rocha disse que retornaria ao modelo tradicional, colocando especialistas de outras áreas, e não médicos de família, nos postos de saúde. Se o fizer, cometerá um grande erro, indo na contramão do que preconiza e incentiva o Ministério da Saúde e as organizações internacionais do setor.

Quando lançou o programa Mais Médicos, a então presidente Dilma Rousseff disse que se valia da parceria com os médicos estrangeiros pelo desinteresse dos médicos brasileiros. Não apenas em ir para o interior, discurso que ficou mais conhecido, mas também pelo desinteresse pela Medicina de Família. Agora, o jornal Folha de S. Paulo revela a existência de emails que reforçam o discurso de que pode ter havido uma opção política e ideológica no acordo com Cuba.

A rápida substituição dos médicos cubanos vai reforçar esse discurso. Mas, para além da disputa política e ideológica, o que há de importante é a possibilidade de consolidação da Estratégia Saúde da Família com profissionais locais, o que poderá lhe dar uma garantia maior de fixação e permanência. Será um avanço inestimável, caso realmente aconteça.

 

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