Política

Moro e a fogueira das vaidades


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Foto: Walter Campanato – Agência Brasil/EBC

O filme Patton – Rebelde ou Herói? é um dos mais vigorosos ensaios já feitos sobre a vaidade humana. Já nas suas primeiras cenas, o general George Smith Patton aparece todo empavonado, envergando uniforme que ele mesmo desenhou, à frente de uma imensa bandeira estática dos Estados Unidos. Maravilhosamente interpretado por George C. Scott, ele capricha no uso de frases fortes, recheadas de palavrões. Como: “Nenhum filho da puta venceu uma guerra morrendo pelo seu país. Venceu fazendo o outro filho da puta morrer pelo país dele”. Enquanto fala, a câmera dá closes em partes da sua exagerada vestimenta: as medalhas enormes e espalhafatosas, o capacete, o revólver com cabo de madrepérola. O filme segue mostrando o personagem controverso e as diversas vezes durante a Segunda Guerra Mundial em que ele é traído pelo seu ego gigantesco.

Primeiro, quando resolve apostar corrida com o general britânico Bernard Montgomery durante a invasão da Sicília para ver quem chegava primeira à cidade de Messina, ponto fundamental para a tomada da Itália. Depois, em nova carreira desta vez contra os soviéticos para entrar primeiro em Berlim e dar fim à guerra da Europa. Na primeira disputa particular com Montgomery, que vence, Patton submete suas tropas a imensas dificuldades nas batalhas nas montanhas. Ao visitar uma enfermaria repleta de soldados feridos, esbofeteia e chama de “covarde” um soldado em surto, com estresse pós-traumático. Na segunda corrida com os soviéticos, que perde, insulta o comandante as tropas do país aliado.

Apesar de ter entrado para a história como brilhante estrategista militar, Patton paga nos dois episódios o preço da sua vaidade. A agressão ao soldado lhe rende um período na geladeira. Por isso, acaba tendo somente papel secundário na Operação Overlord, do desembarque na Normandia, o Dia D, e chega mesmo a fazer somente marketing de guerra em palestras para senhoras na Inglaterra. Ao final da guerra na Europa, com as agressões aos soviéticos, é forçado à aposentadoria, sem participar, como pretendia, da Guerra do Pacífico contra os japoneses. Patton era um profundo estudioso da história militar. Assim, o filme termina com ele passeando com seu cachorro bull terrier enquanto uma narração em off lembra o costume dos antigos generais romanos nos desfiles que faziam em triunfo depois de suas vitórias. Atrás do comandante, postava-se durante o desfile um escravo ou soldado que durante todo o percurso sussurrava no seu ouvido que “as glórias são efêmeras”.

Como mostra o diretor Franklin J. Shaffner nesse filme magistral, a vaidade pode ser o maior inimigo da glória. No Brasil dos nossos tempos, recomenda-se o filme ao juiz Sérgio Moro. Ao aceitar tornar-se ministro da Justiça do futuro governo Jair Bolsonaro, Moro corre o risco de ultrapassar esse ponto no qual a vaidade se torna o maior inimigo da glória.

É impressionante como Moro pauta de forma absoluta sua trajetória pela experiência da Operação Mãos Limpas, na Itália, que ele gosta de tratar pelo termo original em italiano, Mani Pulite. O célebre artigo escrito por ele ainda em 2004 sobre a Operação Mãos Limpas já foi tema deste colunista algumas vezes. Impressiona pelo tom premonitório do que ele usaria depois na Operação Lava-Jato: as delações premiadas; os vazamentos para a imprensa como forma de pressionar as investigações com a ajuda da opinião pública; as táticas para colocar um implicado contra o outro, etc.

Agora, ao aceitar o convite de Bolsonaro para assumir o Ministério da Justiça, novamente Moro inspira-se na Operação Mãos Limpas. No caso, encarna o juiz Giovanni Falcone. Falcone comandou a Mãos Limpas e desbaratou a Cosa Nostra, a máfia siciliana. Foi o responsável pela delação do mafioso Tommaso Buscetta, uma das principais testemunhas da famosa operação italiana. Depois, Falcone aceitou assumir o cargo de diretor de Assuntos Penais no Ministério da Justiça italiano, como forma de consolidar uma política anticorrupção.

O problema é que, como diz o próprio Moro em seu artigo de 2004, a Operação Mãos Limpas não foi perfeita. Na Itália, o vácuo de poder deixado pelo desmantelamento dos antigos partidos tradicionais que sucumbiram com a investigação foi ocupado pelo empresário Sergio Berlusconi. Que, depois, acaba sendo ele mesmo investigado por corrupção. “Tendo ou não Berlusconi alguma responsabilidade criminal, não deixa de ser um paradoxo que ele tenha atingido tal posição na Itália mesmo após a operação mani pulite”, admite Sérgio Moro em seu artigo.

Por mais semelhanças que haja, a história nunca se repete do mesmo jeito. Ainda que não seja referência para o grupo que daqui a dois meses estará no poder, Karl Marx dizia que a história se repete “como farsa ou como tragédia”. Como Falcone, Moro acredita que, no Ministério da Justiça, possa estabelecer uma estrutura no Executivo e um arcabouço de normas aprovadas pelo Legislativo que torne irreversível o combate à corrupção. Antes mesmo de assumir, já começa a articular no Congresso esse pacote de medidas.

O primeiro problema para Moro é escapar da ideia da motivação política das suas ações como juiz na Lava-Jato quando aceita se tornar ministro daquele que foi o beneficiário dessas ações. Moro considera que seus adversários já lhe impunham essa pecha. Portanto, na sua avaliação, vale o risco. Num caminho que claramente visa o gabinete principal do terceiro andar do Palácio do Planalto. Bolsonaro tem dito que não disputará a reeleição. Se isso for verdade, Moro já vislumbra o posto daqui a quatro anos.

Virá daí seu segundo problema: como se desvencilhar caso o governo Bolsonaro não atinja a expectativa que criou e fracasse. Como reconhece Moro, na Itália não houve exatamente o desejado fim da corrupção política. Lá, Falcone acabou não assistindo a esse fracasso. Foi assassinado em 1992, ao lado de sua mulher, a procuradora Francesca Morvillo. O carro em que viajavam explodiu na estrada, numa operação orquestrada pela própria máfia siciliana. Os tempos brasileiros não parecem tão violentos, e dificilmente tal destino se repetiria por aqui. Se não se repetirá como tragédia, o tempo dirá como se dará por aqui o futuro de Sérgio Moro.

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