Política

Dias de São Bartolomeu


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Reprodução do quadro O Massacre de São Bartolomeu, de François Dubois

Esta eleição já está perto da centena de casos de agressão de pessoas por motivação política. O capoeirista Moa do Katendê foi assassinado em Salvador. Uma moça em Porto Alegre teve uma suástica marcada em canivete na sua própria pele. E um delegado teve o displante de dizer que se tratava do símbolo budista de paz e fraternidade. Que jamais chegue o dia em que paz e prosperidade precisem ser uma imposição autoritária gravada a canivete no corpo das pessoas.

Mas é preciso que jamais se deixe de lembrar que a escalada de violência nestas eleições perfurou o intestino de um dos candidatos com uma facada. Colocou-o na UTI em estado grave.  Causa ainda limitações e incômodos que agora se ajustam à perfeição à sua estratégia de faltar aos debates.

A violência domina as ruas de forma descontrolada como se saísse de uma panela de pressão que explodiu. É como se o resultado do primeiro turno autorizasse barbaridades, como se demonstrações de ódio e preconceitos estivessem agora chanceladas pelo resultado das urnas. Não há dúvida: venceu o lado mais violento. Porque é o lado que admite a violência como parte da solução. Na segurança pública, na educação de crianças, para obter determinadas “curas” de gênero. Mas importa dizer também que ensaios revanchistas, que trocavam a ideia de vitória eleitoral por “tomada de poder”, também se assanharam por aí. E também apontavam um dedo ameaçador para seus inimigos.

A opção pela tolice binária, maniqueísta, como forma de disputa política mostra agora a sua face monstruosa. Era óbvio que em algum momento a guerra de torcidas, o UFC intelectual, saísse do mundo virtual das redes sociais e fosse parar nas ruas. Se a disputa optava pelo preto contra o branco, era natural o choque do branco quando viesse a vitória do preto. E provavelmente o choque não teria sido diferente se fosse o contrário.

Quando um homem vira “mito” e o outro vira “ideia”, há muito tempo abandonou-se a argumentação racional que deveria pautar uma escolha política para substituí-la por um tipo de emoção de cunho religioso. Não há nuances possível quando um ser humano de símbolo de admiração passa a ser símbolo de culto. A ele, tudo passa a ser permitido.

A essa altura do segundo turno, a campanha presidencial passa por um momento curioso de se observar por quem alertou o tempo todo para o risco do FlaXFlu apaixonado. Reportagem publicada nesta segunda-feira, 15, pela Folha de S. Paulo fala das estratégias de informação militares usadas por Jair Bolsonaro, o candidato do PSL. Mostra como o bate-cabeças da sua campanha, onde o general Mourão e o economista Paulo Guedes dizem coisas para depois serem desautorizados. Vivêssemos um ambiente de serenidade racional, esses seriam sinais de falta de unidade e gerariam insegurança. Nos nossos tempos de devoção religiosa, contudo, servem para reforçar ainda mais a figura do “mito”. É ele quem chega com sua autoridade, desautoriza e coloca seus subordinados nos seus devidos lugares. Eles, humanos, são falhos. Bolsonaro, a essa altura mais que humano, a eles levará a luz.

As hostes lulistas, porém, não agiam de forma diferente. Enquanto Lula liderava com folga as pesquisas e transferia com velocidade ultrassônica suas intenções de voto para Fernando Haddad, de nada adiantava alertar que a estratégia era arriscada, que isolava o PT, que não admitia espaços para recuos e rearranjos. A estratégia de Lula era genial e levaria à vitória. Agora, por exemplo, o apresentador Luciano Huck escreve artigo criticando Bolsonaro e dizendo que suas ideias são retrógradas, sectárias, preconceituosas e belicistas. Aí, alguém imediatamente posta: “Um que acordou”. Acordou de quê? Alguma vez Huck declarou que apoiaria Bolsonaro? O fato de ter posições mais conservadoras e não apoiar o PT o faz, então, seguidor de Bolsonaro? Somente na cabeça binária que se instalou no Brasil. Quando quem não está de um lado está necessariamente do outro.

Essa é a grande dificuldade vivida agora por Haddad. Ele precisa ampliar sua votação quando, durante anos, o PT optou por esse tipo de pensamento binário, que adotava o termo “fascistas” para todos a quem se opunha. Da mesma forma como Bolsonaro chama de “comunistas” todos os que não estão com ele. Agora, Haddad busca, por exemplo, apoio do ex-ministro do STF Joaquim Barbosa. Aquele que já foi o suprassumo do mal por condenar autoridades petistas envolvidas no mensalão. É complicado precisar agora dos matizes quem vinha pintando ignorando que existem mais de 50 tons de cinza…

São tristes e sangrentos os momentos em que os embates políticos se tornam religiosos. Na história da França, um dos mais horrorosos desses momentos foi a Noite de São Bartolomeu, quando católicos, apoiados pelo próprio rei, saíram às ruas assassinando protestantes. Os relatos dizem que somente naquela noite, mais de duas mil pessoas foram assassinadas pelas ruas de Paris. Como os episódios seguiram-se por outras cidades francesas por semanas, meses e até anos, há quem compute quase cem mil mortes associadas com a Noite de São Bartolomeu.

Foram, na verdade, dias de São Bartolomeu. Dias em que a certeza absoluta numa verdade única transformava-se em ódio contra os que pensavam de forma diferente. Quando o ódio virava preconceito. E se transformava em violência. Autorizadas pelo júbilo de vitórias. Os dias de São Bartolomeu estão de volta…

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