Política

Fawkes, fakes e facas


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Esses tempos estranhos que vivemos sugerem fortemente a ingestão de tolerância e bom senso. Se possível, na veia. Nesse sentido, é altamente recomendável a leitura de “Círculo de Fogo”, de Ken Follet. É o último volume da trilogia iniciada por Follet com o magistral “Os Pilares da Terra”, na qual ele conta a história da Inglaterra e da Europa da Idade Média ao Renascimento a partir de uma cidade fictícia chamada Kingsbridge.

“Círculo de Fogo” trata da violentíssima disputa religiosa que atingiu a Europa após o protestantismo. Mostra como as tentativas de tolerância e de convivência entre as duas formas de cristianismo, a antiga e a nova, foram rechaçadas com sangue e estupidez por aqueles que acreditavam ter a verdade ao seu lado. Que acreditavam em um mundo maniqueísta. Em uma forma única de pensamento. Uma forma cuja máxima era: “Quem não está do meu lado está contra mim”. Preto ou branco. Se já houvesse tais iguarias na época, coxinha ou mortadela.

Curioso que um dos personagens no final do romance é Guy Fawkes. Aquele cuja máscara virou moda nas manifestações de protesto pelo mundo desde o Ocupa Wall Street. Aí, graças à história em quadrinhos de Alan Moore, “V de Vingança”. A máscara vira aqui um símbolo dos nossos tempos. Não pelo que representa a HQ de Moore, mas pelo que ela, a máscara e seu personagem, evoca de ignorância e intolerância, talvez os dois maiores predicados da época em que vivemos.

“Círculo de Fogo” narra os acontecimentos na Inglaterra da segunda metade do século 16 até o início do século 17, depois que Henrique VIII, inspirado pelo protestantismo, abandona o catolicismo e cria a religião anglicana. Os anos seguintes serão de intensa violência e reações, seja dos que desejam a volta do catolicismo, seja dos novos protestantes. Após a morte de Henrique VIII, assume o trono da Inglaterra Eduardo IV. E depois dele Maria Tudor, ou Maria I. Católica radical, ela abole a reforma religiosa e promove o retorno do catolicismo. Os que se opusessem e mantivessem o protestantismo eram severamente punidos, não raramente queimados na fogueira. Não por acaso, Maria Tudor inspirou o drink com suco de tomate chamado Bloody Mary. Claro: Maria I tinha certeza que a verdade estava do seu lado, e que a verdade justificava qualquer um dos seus atos.

Maria I teve diversas gravidezes psicológicas. Mas nenhum herdeiro. Quando morreu, gerou uma disputa entre Elizabeth I, que assumiu o trono, e Maria Stuart, rainha da Escócia. Elizabeth restabeleceu o protestantismo na Inglaterra. Mas tentou gerar um ambiente de tolerância religiosa. Durante todo o seu tempo, tais tentativas de tolerância foram rechaçadas pelos grupos radicais católicos. Especialmente por influência da França. Maria Stuart era filha de Maria de Guise, de uma influente família francesa católica, que passou a agir para derrubar Elizabeth do trono inglês e colocar Maria Stuart em seu lugar. Para se proteger das tentativas de golpe vindas da família Guise, Elizabeth criou o primeiro serviço secreto de espionagem da história. E, longe da tolerância pretendida, sob o pretexto de se defender, acabou matando um monte de gente.

Na França, as disputas entre católicos e protestantes eram também violentas. E geraram um dos mais sanguinários episódios da história: a Noite de São Bartolomeu. Cada nobre católico tinha por missão assassinar um nobre protestante. Seguiu-se daí uma carnificina sem controle em Paris. As pessoas se mataram nas ruas por meses. Os relatos falam de duas mil até 70 mil mortes em consequência do que se iniciou na noite de 23 de agosto de 1572. Claro: todos os envolvidos tinham certeza que a verdade estava do seu lado, e que a verdade justificava qualquer um dos seus atos.

A tentativa de golpe na Inglaterra acabou levando à decapitação de Maria Stuart. Após sua execução, o papa une-se ao trono da Espanha para tentar restituir o catolicismo na marra, numa tentativa de invasão da Inglaterra pela esquadra espanhola. Embora mais numerosa, a Marinha espanhola acaba derrotada pelos navios comandados pelo famoso almirante Francis Drake. Mais alguns milhares de pessoas mortas. Mas claro: todos estavam certos de que a verdade estava do seu lado e que a verdade justificava qualquer um dos seus atos.

Na virada do século, Elizabeth I morre. Em seu lugar, assume Jaime I, que curiosamente era filho de Maria Stuart. Apesar de filho de Maria Stuart, ele cresceu distante de sua mãe, como protestante. Adulto, converteu-se ao catolicismo. Por isso, acreditava-se que promoveria políticas de tolerância religiosa. Mas faz o contrário: ao assumir, estabelece regras ainda mais rigorosas de exigência do protestantismo como religião.

E é aí que entra na história Guy Fawkes. Provavelmente, um máximo de 10% das pessoas que andaram usando a sua máscara nos protestos o fizeram por causa da HQ de Alan Moore. Os outros 90% foram de onda. Dos 10% que leram a HQ de Alan Moore, no máximo uns 10% sabem quem realmente foi Guy Fawkes. Na história de Alan Moore, o homem que usa a máscara de Guy Fawkes é um anarquista num futuro distópico. Ele pretende realizar o atentado ao Parlamento que o verdadeiro Fawkes não conseguiu em 5 de novembro de 1605.

O verdadeiro Guy Fawkes nada tinha de anarquista. Era um católico fanático, que consegue encher um porão abaixo do Parlamento de pólvora. Seu plano era explodir com tudo, matando as centenas de pessoas presentes à cerimônia de abertura do Parlamento, incluindo aí o rei Jaime I e toda a família real. O serviço secreto que Elizabeth fundara descobre o plano e prende Fawkes. O homem que virou máscara de protesto, é claro, estava certo de que a verdade estava do seu lado e que a verdade justificava qualquer um dos seus atos.

Hoje, vivemos um tempo em que o conhecimento é disseminado por alguns posts nas redes sociais. Levando a informações distorcidas e apequenadas. Nesse sentido, nada como achar que Guy Fawkes foi um anarquista bem intencionado. E, a partir dessa “verdade”, concluir que a verdade está do seu lado e que ela justifica qualquer um dos seus atos.

Então, um lado diz que vai chamar seu exército. Então, um lado diz que vai incendiar o país. Então, o outro lado simula fuzis e metralhadoras com os dedos ou com outros objetos. Então, o outro lado chuta em comício um boneco que representa seu adversário. Então, alguém com a mente distorcida pelas informações e equívocos compartilhados pelas redes sociais pega uma faca na cozinha. E sai às ruas “a mando de Deus”. Ele sabe que a verdade está ao seu lado e que ela justifica qualquer um dos seus atos. Então…

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