Política

De golpe em golpe


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Foto: Antônio Cruz (Agência Brasil/EBC)

Os fatos ainda são muito recentes para que saibamos como a história vai lidar com eles. As recentes iniciativas de algumas universidades de pautar cadeiras para estudar o “golpe” contra a ex-presidente Dilma Rousseff – todos nós sabemos – são atos políticos. Não têm exatamente rigor científico. Uma ideia, porém, começa a habitar a cabeça de alguns analistas: a de que tenha havido não um golpe, mas uma sequência de golpes.

Não um golpe como a narrativa do PT tenta imprimir, na qual uma inacreditável conjunção de forças tenha se unido para apear o partido do poder: Polícia Federal, Ministério Público, Tribunal de Contas, Judiciário em todas as suas instâncias, Congresso Nacional… A outra hipótese que fermenta aponta para a possibilidade de autoridades bem postas no processo terem enxergado em vários momentos janelas de oportunidade para tirarem proveito próprio do que acontecia. Produzindo, assim, uma diversidade de golpes. Alguns bem sucedidos, outros frustrados. Por essa razão é que estaríamos vivendo esse longo período de instabilidade política.

O “golpe” 1 foi o dado contra Dilma. Não que a ex-presidente tenha deixado de produzir as tais “pedaladas fiscais”. Ela se aproveitou sim de um tipo de malabarismo contábil que já se fazia e abusou dele em quantidades mastodônticas. Uma reportagem assinada por Leandra Peres no jornal Valor Econômico mostra em detalhes e documentos como Dilma foi diversas vezes alertada de que sua opção pelo ciclismo fiscal iria dar problemas. Dilma ignorou os alertas. Resolveu se arriscar. Deu no que deu.

O rito do impeachment de Dilma seguiu rigorosamente todos os passos determinados pelo Supremo Tribunal Federal. Perto dele, o impeachment anterior, de Fernando Collor, é que parece ter atropelado etapas. Collor teve bem menos tempo para se defender entre uma etapa e outra do seu processo. O impeachment de Collor concluiu-se em quatro meses. No caso de Dilma, se for considerado o momento em que o então presidente da Câmara, Eduardo Cunha, aceitou a abertura do processo, até a cassação do seu mandato, foram dez meses. Se for considerado o momento da aprovação na Câmara, foram seis meses.

Mas é evidente que muito mais do que convicções jurídicas sobre se Dilma teria ou não cometido crime de responsabilidade, o que prevaleceu foi uma conjugação de conveniências políticas, diante de um governo que, àquela altura, não tinha mais qualquer sustentação parlamentar. Uma das maiores demonstrações de que a conveniência política prevaleceu foi a estranha decisão do Senado de conferir a ela apenas metade da pena prevista na Constituição: cassou seu mandato, mas manteve os seus direitos políticos.

O “golpe” 2 foi imaginado por Eduardo Cunha. Ele acreditava que, da mesma forma que o impeachment, prosperaria na Justiça Eleitoral o entendimento de que houve abuso de poder econômico na eleição da chapa Dilma/Michel Temer. Nessa hipótese, a chapa seria cassada, e Eduardo Cunha se tornaria presidente da República convocando, àquela altura, novas eleições diretas. O TSE não cassou a chapa. E quem acabou derrotado foi o próprio Eduardo Cunha.

Derrotado pelo “golpe” 3. Figura central no processo de impeachment de Dilma e no seu desgaste político, criando e pondo em prática as tais “pautas bombas” que foram inviabilizando seu governo, Eduardo Cunha caiu na rede da Operação Lava-Jato. Cunha conseguiu protelar por onze meses o processo contra ele. Mas quem valeu-se de Cunha para tirar de Dilma sabia agora que ele também tramara. Assim, quando Cunha caiu, viu esvaziar-se de maneira retumbante todo o poder que tinha amealhado no Parlamento. Eduardo Cunha foi cassado com 450 votos a favor contra apenas dez contra. O acerto posterior tirou “da planície” – como discursou na quinta-feira na convenção do DEM o ex-presidente do partido, senador José Agipino Maia (RN) – o deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ) para guindá-lo ao posto de presidente da Câmara no lugar de Cunha.

Numa inacreditável busca por identificação mútua, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse em entrevista à jornalista Mônica Bergamo que o presidente Michel Temer teria sido vítima de uma tentativa de “golpe” no episódio da delação premiada dos irmãos Friboi, Joesley e Wesley Batista. Esteja Lula certo ou não, o fato é que os irmãos Friboi encontraram no processo de delações da Lava Jato uma janela de oportunidade para ganhar dinheiro. Especularam com suas delações. Conseguiram um estranho acordo pelo qual confessavam seus crimes e ganhavam por conta da colaboração um milionário exílio em Nova York. As investigações contra Temer não pararam. Mas o esquema dos Friboi foi descoberto, ainda que eles já tenham se livrado a essa altura da cadeia. Talvez não na linha da narrativa de Lula, temos aí o “golpe” 4.

Agora, enreda-se contra Temer novo episódio, que o relaciona com supostas irregularidades e recebimento de propina no Porto de Santos. Na semana passada, articuladores da campanha de Rodrigo Maia à Presidência da República raciocinavam sobre o novo caso. Avaliavam que ele poderá ensejar um novo pedido de investigação contra Temer que, como os outros dois anteriores, terá que ser aprovado pela Câmara dos Deputados. Nas duas primeiras vezes, os pedidos de investigação foram negados, o segundo com bem maior dificuldade que o primeiro. Se vier um terceiro pedido, ele virá em cima do pleito de outubro, com os deputados tentando a reeleição ou a eleição para outros cargos diante de um presidente que tem hoje seu governo muito mal avaliado. Tendo à frente do processo Rodrigo Maia candidato à Presidência. Essa conjunção de fatores fermenta a possibilidade do “golpe” 5. Se bem sucedido ou frustrado, só vamos saber lá adiante. E, assim, de golpe em golpe seguiremos…

 

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