Política

Freios e contrapesos de Rodrigo Maia


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Foto: Agência Brasil/EBC

A mais de um interlocutor nos últimos dias, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), disse que, se receber um pedido bem fundamentado de impeachment contra o presidente Jair Bolsonaro, ele poderá aceitá-lo e dar encaminhamento ao processo. Independentemente de qual seja o desfecho, é nesse pé que está hoje o perigoso flerte que Bolsonaro vem fazendo com o autoritarismo.

Em 1748, o filósofo francês Montesquieu publicou os 31 volumes da sua obra “O Espírito das Leis”. Nela, ele estabelece o que ficou conhecido como sistema de “freios e contrapesos” entre os poderes. Trata-se de um princípio basilar das democracias. Significa dizer que os poderes têm de trabalhar de uma forma em que um equilibre o outro. Numa democracia equilibrada, estabelece-se um sistema em que um poder terá ferramentas para impedir que um outro poder extrapole os seus limites. São os freios e contrapesos. Se um poder ultrapassa, os demais precisam ter condições de trazè-lo de volta para o lugar.

O ex-senador Marco Maciel, vice-presidente da República no governo Fernando Henrique Cardoso gostava de chamar o princípio estabelecido por Montesquieu de “equipotência dos poderes”. Os americanos e ingleses chamam de “check and balances”. Qualquer nome que se dê, os freios e contrapesos existem e são fundamentais em qualquer democracia.

Admirador declarado dos tempos nada democráticos da ditadura militar, o presidente Bolsonaro age na democracia como uma criança mimada que a todo momento testa os limites da autoridade dos seus país. Se os pais cedem, ele avança testando novos limites. Se os pais reagem, ele recua. Daí, a necessidade sempre da utilização no momento dos tais freios e contrapesos propostos pelo iluminista francês.

No nosso caso atual, quem tem se valido com gosto da prerrogativa de contrabalançar os excessos do presidente tem sido Rodrigo Maia. Naturalmente, na linha do que propôs Montesquieu, isso faz parte do seu papel. Mas também seria ingênuo supor que Maia assim age somente movido por suas convicções democráticas. O presidente da Câmara viu no comportamento de Bolsonaro uma janela de oportunidade. E é por ela que ele ensaia passar.

A profunda polarização ideológica das últimas eleições parece ter afundado o Brasil num tempo de insanidade. O contraponto de um presidente que ofende, difama e dá bananas para jornalistas virou, por exemplo, um senador, Cid Gomes (PDT-CE), avançando com uma retroescavadeira contra policiais militares. Que, diga-se, também extrapolam de seus direitos assombrando cidadãos, fechando lojas do Ceará encapuzados.

Rodrigo Maia prega que o antídoto para o hospício do radicalismo é a recuperação do centro democrático. Na sua avaliação, foi quando o país optou por esse centro que ele encontrou as melhores condições de estabilidade para avançar. Desde o ano passado, ele patrocina filmes divulgados na internet com essa ideia, dirigidos com competência pelo marqueteiro Chico Mendez.

Reuniões rotineiras têm sido feitas por Rodrigo Maia com políticos do centro democrático. Mesmo nomes do PT, como o deputado Paulo Pimenta (PT-RS) e o senador Jaques Wagner (PT-BA), têm participado das conversas. Na prática hoje, elas servem para manter Maia com o comando da Câmara, de onde ativa seus freios e contrapesos para evitar maiores arroubos do Executivo. Ele espera que tais ações redundem em alguma coisa na sucessão presidencial de 2022.  Pouco provável que elas tragam como consequência a própria candidatura de Maia. Mas ele pelo menos espera ter um papel preponderante na construção de um nome de centro para oferecer aos eleitores na ocasião.

O presidente da Câmara tem, por exemplo, conversado quase diariamente com o apresentador de TV Luciano Huck, nome que hoje também tem a simpatia do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Como alternativa, Huck tem um potencial curioso: mais do que com Bolsonaro, ele disputa votos entre a população mais pobre que hoje é eleitora de Luiz Inácio Lula da Silva, que, barrado pela Lei da Ficha Limpa, não disputará a eleição.

Tudo isso, é claro, se a racionalidade e o respeito à democracia for mantido daqui até 2022. Para isso, a democracia possui seus instrumentos. Os freios e contrapesos estabelecidos por Montesquieu. Nesse sentido, Rodrigo Maia abre sua caixa de ferramentas.

Política

Sobre vertigens e fábricas


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Enquanto a esquerda brasileira via-se decepcionada com a não premiação de “Democracia em Vertigem” com o Oscar de Melhor Documentário, os vencedores da noite na categoria, Steven Bognar e Julia Reichert, diretores de “Fábrica Americana”, subiam ao palco pomposo do Dolby Theatre e recitavam lá de cima a frase inicial do “Manifesto Comunista”, de Karl Marx e Friederich Engels: “Trabalhadores do Mundo, uni-vos!”.

O curto momento ocorrido na cerimônia de premiação do cinema resumiu os dilemas da esquerda. Daqui, mas não necessariamente somente a nossa esquerda. Mas os dilemas da esquerda do mundo inteiro diante dos desafios impostos pela revolução informática e as novas relações de trabalho.

Os diretores de “Fábrica Americana” não pareciam usar o slogan do Manifesto Comunista como uma celebração. Parecia mais um alerta.

Marx e Engels escreveram o Manifesto Comunista em 1848. Ou seja: no meio das mudanças que ocorriam no mundo em consequência da Revolução Industrial. Nas fábricas que surgiam, pessoas eram então submetidas a jornadas de trabalho que chegavam muitas vezes a 18 horas de trabalho. Sem folgas nos fins de semana. Crianças eram colocadas para trabalhar em minas de carvão, porque, pequenas, conseguiam penetrar em cavernas estreitas por onde os adultos não passavam.

Se, efetivamente, a opção pelo comunismo foi se dar em uma Rússia mais agrícola e ainda longe dos avanços industriais, ao contrário do que imaginavam Marx e Engels, a incitação da sua frase inicial de fato uniu trabalhadores pelo mundo e permitiu que eles se organizassem para obter condições mais dignas de trabalho. E foi dessa organização que surgiram sindicatos e, mais tarde, legendas como o Partido dos Trabalhadores, o PT, maior sigla de esquerda do Brasil.

Já comentamos por aqui as razões que levaram à indicação de “Democracia em Vertigem”. Menos do que uma adesão a um posicionamento de um lado do nosso FlaXFlu político ideológico particular, o que atrai a atenção sobre o filme é o fato de ele ser um relato de um fenômeno que preocupa o planeta: o ocaso das democracias representativas a partir da utilização de ferramentas da própria democracia. Em diversos lugares, percebe-se a utilização do apoio das maiorias para minar as democracias por dentro. Inclusive, para alguns, nos próprios Estados Unidos da era Donald Trump, e a pantomima do fracasso do seu processo de impeachment pode ter sido, muitos temem, um exemplo disso.

Mas, para além de toda a discussão sobre se a narrativa feita por Petra Costa é ou não fidedigna quanto ao que tenha ocorrido no Brasil, seu filme é um farol na popa. Aponta para trás. Enquanto “Fábrica Americana” aponta para a frente.

O documentário que ganhou o Oscar fala de uma realidade perturbadora: o esgarçamento profundo das relações de trabalho nestes novos tempos. Como aconteceu no século 19, a atual revolução trouxe novos modelos de relações que as regras antigas não previam. E vem daí o alerta feito pelos diretores a partir da frase do “Manifesto Comunista”. Ou os trabalhadores novamente se unem para compreender esses novos tempos e saber como lidar com eles ou serão atropelados pela História.

E é esse o dilema hoje do PT e da esquerda de um modo geral. Nosso principal partido de esquerda – e também os outros – não tem qualquer proposta para lidar com os desafios dessa nova revolução. Não sabem o que fazer diante de fenômenos que afastam as relações de trabalho do cenário ao qual se acostumaram e cresceram. Cada vez menos há portas de fábrica. Cartões de ponto. Jornadas estabelecidas. Carteira de trabalho.

Há o mundo do home office. Da pejotização. Dos motoristas de aplicativo. Das empresas que entregam comida. Do sujeito na Índia que se associa a outro no Canadá para juntos desenvolverem um aplicativo para uma empresa que está instalada no Japão.

Enquanto a cerimônia do Oscar acontecia, “Democracia em Vertigem” perdia e “Fábrica Americana” vencia, o PT fazia 40 anos. E, num contundente e amargo artigo, o ex-presidente do partido e ex-ministro da Justiça Tarso Genro dizia por que ele resolvera não ir à festa. No artigo, publicado no site UOL, Tarso avalia, com todas as letras, que “o PT ficou obsoleto”. “Não adianta, por exemplo, o PT prometer se renovar e pregar a restauração da CLT. Os processos de trabalho foram fragmentados e hoje temos autônomos, horistas, PJs, precários, intermitentes… Trata-se, neste caso, de organizar um outro sistema público protetivo que envolva estes excluídos das legislações trabalhistas, que irão aumentar”, escreve Tarso.

Ele conclui: “Acho que o PT não acompanhou essas mudanças”. Na verdade, aparentemente, nem o PT nem a grande maioria dos partidos de esquerda. Foi esse o alerta feito na cerimônia do Oscar. Um alerta que ajuda a explicar muita coisa…

Política

Damares, Norte e Nordeste


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Foto: Fabio Pozzebom/Agência Brasil-EBC

Não resta a menor dúvida de que a ministra dos Direitos Humanos, Damares Alves, é polêmica. Mas não resta a menor dúvida também de que ela é o que o presidente Jair Bolsonaro chama de “terrivelmente evangélica”. Está totalmente identificada com o discurso conservador, especialmente nos costumes, que hoje ocupa o poder no país. E Damares é também a responsável por atacar os graves problemas sociais que ainda estão bem longe de resolvidos no Brasil. A combinação desses dois fatores faz com que, hoje, Damares esteja escalada pelos estrategistas políticos do governo para um importante papel: ser a cabeça de ponte a estourar o dique de votos e popularidade que o principal adversário do bolsonarismo, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seu PT, mantém nas regiões Norte e Nordeste. Não estranhe a linguagem militar, pois é esse o jargão usado principalmente pelos estrategistas do governo.

O raciocínio em torno de Damares vem da própria evolução de como Lula conquistou o seu cacife na parte norte do país. Na sua primeira eleição, em 2002, a maior parte dos votos do ex-presidente petista viera das regiões Sul e Sudeste. Foi somente na sequência do seu governo, na sua reeleição e nas duas eleições de Dilma Rousseff, que o cenário se inverteu e a principal reserva de votos petistas passou a vir do Norte e do Nordeste. Para os estrategistas do governo, isso não foi exatamente o resultado de uma guinada político-ideológica à esquerda vinda dos eleitores dessa região. Foi consequência da ampliação do Bolsa Família e do sucesso das políticas sociais dos governos do PT.

Resultado, portanto, da profunda carência social da população mais pobre dessas regiões. É claro que promover igualdade social está mais próximo do discurso da esquerda. Mas isso acontece na clássica visão mais econômica da divisão esquerda/direita. E o grande embate ideológico hoje no país está mais voltado à questão de costumes. Os conceitos que hoje a direita mais usa – como “ideologia de gênero” – estão mais voltados a uma ideia de que há uma indústria cultural de esquerda no mundo que quer minar os valores tradicionais ligados à família. E, nesse sentido, até Hollywood para boa parte dessas pessoas seria hoje de esquerda.

O grande paradoxo dessa história toda é que a maior parte da população diretamente beneficiada pelos programas sociais implementados pelo PT é conservadora nos costumes. Boa parte tornou-se, como Damares, “terrivelmente evangélica”. E, mesmo que não professe a mesma crença, não pensa de modo muito diferente. É aí que se une a conformação capaz de fazer da ministra dos Direitos Humanos a ferramenta para tentar minar o dique de Lula.

Desde o ano passado, Damares tem priorizado na sua agenda visitas ao Norte e ao Nordeste. Mais do que isso, começou a implantar laboratórios para ações mais efetivas na região. O mais avançado deles está sendo implementado na Ilha de Marajó, no Pará. A grande ilha fluvial tem um dos piores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) do país, ainda que possua a maior criação de búfalos do continente e tenha imenso potencial turístico. Há ali um sério problema que bate com as preocupações de Damares: uma incidência muito grande de casos de abuso sexual de crianças, especialmente dentro das famílias. Não é à toa a criação ali do mito do Boto, que tem muito a ver com isso.

O ministério de Damares está implementando ali um programa chamado Abrace o Marajó. Ela está liderando uma ação que envolve oito ministérios para levar investimentos e direitos sociais à ilha. Recursos do BNDES e da iniciativa privada – inclusive a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) – estão sendo movidos para construir um grande resort e levar turismo à região. O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas (Inep) doou um barco batizado de Navio dos Direitos, que viaja pelo rio dando orientações, fazendo documentos, cadastro para o Benefício de Prestação Continuada (BPC) e contendo uma Casa da Mulher Brasileira fluvial.

A partir dos resultados obtidos na Ilha de Marajó, a ideia é fazer outros laboratórios semelhantes em cidades do Norte e Nordeste, como Fortaleza e Aracaju e municípios menores.

Damares está em contato com candidatos a prefeito que tenham identificação com seus projetos para ajudá-los nas eleições municipais e trazê-los para o projeto de reeleição de Jair Bolsonaro em 2022. Ainda que o presidente esteja hoje sem partido, pensa-se que esse pode ser um caminho para pavimentar a tentativa de segundo mandato.

Se a ministra for capaz de unir uma efetiva ação social a um discurso mais conservador que, na verdade, hoje parece mais próximo da forma de pensar de quem precisa dessa ação, avalia o governo que poderá trazer grandes danos ao dique de Lula no Norte e no Nordeste.

Política

O jornalismo e as torcidas


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Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil-EBC

Para muitos, a década de 1990 marcou o melhor momento do jornalismo político brasileiro. Dois episódios destacaram o trabalho de repórteres a partir de Brasília e mudaram os rumos do poder e da política do país. O primeiro foi o caso PC Farias, que levou ao impeachment do então presidente Fernando Collor. O segundo foi o escândalo dos anões do Orçamento, que obrigou o Congresso Nacional a sair de seu corporativismo cortando na própria carne, cassando e punindo deputados e senadores.

Os dois episódios caracterizam-se pelo total protagonismo da imprensa. Os fatos foram desvendados e detalhados pelos jornalistas. E foi a partir das informações impressas em jornais e revistas que vieram depois os desdobramentos em Comissões Parlamentares de Inquérito, em investigações na Polícia Federal e no Ministério Público e em eventuais ações na Justiça.

Uma mudança significativa ocorrida com o fortalecimento do Ministério Público e da Polícia Federal e com o enfraquecimento da imprensa a partir da atual crise do jornalismo é que esse protagonismo inverteu-se. Hoje, na maioria das vezes, os repórteres têm somente publicado o resultado das apurações e investigações que são feitas por procuradores e policiais que, a partir de uma relação de confiança, lhes vazam o conteúdo.

O caso da Vaza Jato, como se batizou a série de reportagens que vem sendo publicada pelo site The Intercept e outros veículos, trouxe mais uma novidade nesse relacionamento. Conteúdos obtidos a partir da ação de hackers nas redes de relacionamento que hoje todos nós temos na internet. É, evidentemente, uma novidade, não um ponto fora da curva. Basta lembrar, por exemplo, que os relatos da união de um jornalista veterano com uma jovem hacker são o mote de uma das mais celebradas séries de bestsellers do momento, a saga sueca Millenium.

Qualquer que seja, porém, o caminho, seja maior ou menor o protagonismo do trabalho do repórter, em todas as situações há sempre a discussão sobre os limites éticos e legais que envolvem o cada vez mais necessário exercício do jornalismo. E, não se engane: quanto mais questionado e criticado por autoridades, quanto mais ódio gerar entre as torcidas, mais necessário vai se tornar o jornalismo de qualidade. E, em linhas gerais, a primeira coisa a nortear esses limites será o interesse público. Se tais informações são de interesse público, elas devem ser publicadas.

No caso que envolve diretamente agora o site The Intercept e o jornalista GlennSe Greenwald, é justamente a manutenção da lamentável guerra de torcidas que outra vez vai empanando a compreensão do que é a função e o trabalho dos jornalistas. Na relação entre jornalistas e fontes e na discussão sobre quais seriam os limites da relação dos repórteres com as suas fontes para a obtenção das informações que consideram de interesse público, a discussão não deveria ser contaminada pela paixão das torcidas do nosso FlaXFlu político. Não é justo questionar determinadas relações e relativizar outras.

Uma das últimas reportagens publicadas pelo Intercept a partir do material da Vaza Jato trata justamente da relação entre jornalistas e os procuradores da força-tarefa da Lava Jato. A reportagem questiona essa relação, e afirma que jornalistas, no acerto com suas fontes, poderiam ter ultrapassado limites éticos. É fato que a Lava Jato procurou desde o início cercar-se de jornalistas numa estratégia de fazer com que suas investigações ganhassem mais notoriedade. Dez anos antes da investigação começar, o juiz Sergio Moro, hoje ministro da Justiça, já destacava a importância dessa parceria em um famoso artigo da sua autoria onde analisa as razões do sucesso da Operação Mãos Limpas na Itália.

Mas é justamente a possível ultrapassagem de limites na relação com as fontes que fez com que o procurador Wellington Oliveira considerasse poder apresentar denúncia contra Greenwald. Da mesma forma, foi a partir da obtenção de conversas do hacker Luiz Molição com Greenwald que ele chegou a essa conclusão. Nas conversas, Molição negocia a publicação das informações que obtivera e pergunta a Greenwald se ele deveria apagar as mensagens para não deixar rastros. O procurador entendeu que o jornalista dava orientações de procedimento aos hackers, o que caracterizaria o seu envolvimento.

A reação de autoridades e outros à denúncia contra Greenwald é mais do que correta. Acendeu-se um sinal mais do que amarelo de ameaça no caso à liberdade de imprensa. Porém, da mesma forma, nada parece indicar muito claramente que os jornalistas que tinham relação com os procuradores da Lava Jato da mesma forma tenham avançado além dos seus limites legais e éticos. Nos dois casos, as conversas parecem fazer parte do tipo de negociação comum que há entre jornalistas e fontes antes da publicação de matérias. Em um ou outro caso, para se concluir acerca de limites ultrapassados ou não, é preciso que as avaliações não se contaminem pelas paixões.

Em 1917,o senador americano Hiran Warren Johnson disse que, “numa guerra, a primeira vítima é a verdade”. Na atual guerra de torcidas que virou o debate político brasileiro, perderemos todos nós se a vítima se tornar a verdade.

Política

Além da nossa vertigem


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É difícil a essa altura saber exatamente que chances o documentário Democracia em Vertigem terá de sair da cerimônia do dia 24 de fevereiro em Los Angeles carregando a estatueta dourada e careca do Oscar. Importante agora é avaliar por que razão a Academia incluiu o filme entre os concorrentes. E certamente, apesar de nossas paixões interiores, isso nada tem a ver com a nossa guerra particular de torcidas.

Meio ingênuo ou muita pretensão da nossa parte imaginar que os intelectuais da Academia de Hollywood resolveram tomar partido na nossa guerrinha político-partidária-ideológica tupiniquim. Eles seguem desde sempre nos considerando somente mais uma republiqueta latino-americana, exótica e distante.

No caso, o que importa, e foi o motivo da escolha, é como o episódio particular brasileiro ali contado repercute em algo que ganha preocupação planetária. Que conversa com os Estados Unidos de Donald Trump e fenômenos que se replicam em diversos outros países do mundo: a agonia das democracias. Ou, pelo, menos, o forte questionamento dos modelos de democracia representativa a que nos acostumamos.

O tema está em um livro recente, “Como morrem as democracias”, de autoria de dois pesquisadores da Universidade de Harvard, Steven Levitsky e Daniel Ziblatt. E aí a famosa universidade da cidade de Cambridge, no estado de Massachussets, está mais próxima dos interesses e leituras dos intelectuais da Academia de Artes e Ciências de Hollywood que os nossos líderes e disputas locais.

O livro de Levitsky e Ziblatt mostra como as democracias podem se esgarçar a partir das suas próprias características particulares. Como a utilização de ferramentas e elementos político-institucionais dessas próprias democracias, aliada à formação de uma base popular disposta a isso, podem vir a trabalhar para demoli-las.

Em momentos de ambiente extremamente polarizado, excessivamente radicalizado, que ignora o centro e a construção de consensos, essa associação aparece. E aí a democracia não necessariamente corre riscos pela produção de um golpe armado, de tropas nas ruas depondo presidentes e outros líderes. Ou a partir de grandes revoluções. Ela se mina de dentro para fora.

São decisões de parlamentos ou mudanças constitucionais que multiplicam a possibilidade de mandatos sucessivos, perpetuando líderes e grupos, como acontece na Venezuela. São ondas de protesto e insatisfação que acabam sendo desvirtuadas e trabalhando contra o desejo inicial de quem protestava, como ocorreu em muitos dos países envolvidos na Primavera Árabe.

No fundo, essa associação entre a utilização das próprias ferramentas de uma democracia fragilizada com o apoio popular em uma sociedade polarizada não é muito diferente da situação que explica a ascensão de Adolf Hitler na Alemanha no final da década de 1930. O Partido Nazista de Hitler chegou ao poder por via democrática após a crise econômica na Alemanha. E foi o próprio Parlamento alemão que autorizou, em 1934, a transmissão de funções legislativas para o poder Executivo. No caso, fortalecendo Hitler.

No caso dos nossos episódios particulares, narrados em Democracia em Vertigem, o que preocupa fora das nossas fronteiras não é exatamente a disputa doméstica entre bolsomínios e petralhas. É se essa disputa doméstica seria parte do avanço mundial de um modelo político que compromete a democracia. Se aqui as ferramentas utilizadas para a deposição de Dilma Rousseff foram ou não comprometidas por propósitos e intenções antidemocráticas. Ou seja: se é um exemplo que faz parte desse processo de esgarçamento da democracia de dentro para fora.

E, para nós, especificamente, fora do clima de guerra de torcidas, o filme pode nos ajudar a entender diversas coisas, pela riqueza de imagens de bastidores que há nele. Nossa particular guerra de narrativas também prejudica seu entendimento. É fundamental para o entendimento do contexto, por exemplo, as falas de Gilberto Carvalho admitindo como o PT foi se afastando de suas bases populares e se inserindo cada vez mais com gosto no conchavo com seus aliados da política tradicional. Também importante o trecho em que Dilma tenta – com sua retórica por vezes confusa – explicar por que foi escolhida a sucessora de Lula. E conclui dizendo que “muitas vezes Lula trabalha com o fato consumado”. Ou seja: dando a entender que ela só foi a sucessora de Lula porque assim Lula quis.

Mas isso é importante para as nossas leituras. Os intelectuais da Academia estão longe dessa nossa vertigem. A vertigem deles é outra.

Política

Vazios da polarização


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Uma tentação à qual eu sempre resisti como jornalista e analista político foi de fazer previsões. Jornalista não é pitonisa. Não lê búzios nem bola de cristal. Jornalista não tem dom premonitório. Alguns têm imensa vaidade e presunção. O que os faz cair na tentação de arriscar a clarividência.

Dois anos antes da eleição de 2018, mais ou menos no mesmo período em que agora estamos da eleição de 2022, em um debate com jornalistas em uma universidade de Brasília, comentava, sem arriscar previsões de futuro, que parecia se acirrar cada vez mais o embate esquerdaXdireita com estridência de guerra de torcidas, de FlaXFlu. E que isso talvez pudesse fazer crescer a candidatura de Jair Bolsonaro contra o PT de Lula nas eleições presidenciais seguintes. Alguns jornalistas presentes minimizaram essa possibilidade, dizendo que o Brasil sempre tendia para o centro, e que Geraldo Alckmin, o candidato do PSDB, iria crescer e engolir tais pretensões. Se nenhum dos leitores aqui desembarcou agora de Marte, não é preciso lembrar o que de fato se deu dois anos depois.

Da mesma forma sem nenhuma pretensão de fazer previsões, é preciso dizer que o cenário atual, a dois anos das próximas eleições presidenciais, segue apontando para uma forte polarização entre Jair Bolsonaro e o PT de Lula. Novamente com a mesma limitação que em 2018 o próprio Lula se tornasse candidato: ele é inelegível, com base na Lei da Ficha Limpa, que ele mesmo sancionou como presidente, por estar condenado em segunda instância tanto no caso do tríplex do Guarujá como no caso do Sítio de Atibaia.

De forma ainda mais intensa que dois anos antes da eleição de 2018, Bolsonaro agora parece imprimir a estratégia de radicalizar na polarização ideológica, tendo Lula e o PT como seus antagonistas. A coisa ganha agora mais intensidade porque Bolsonaro é o presidente. Ou seja, tornou-se o grande protagonista do xadrez político e imprime o tom e as regras do jogo.

Por outro lado, se a intenção é radicalizar ao máximo, Lula e o PT parecem morder a isca. Ou considerar que essa polarização de alguma forma também os beneficia no jogo. O PT parece apostar no desgaste de Bolsonaro, que talvez possa se confirmar pela queda na sua popularidade e pelo afastamento de aliados. E apostar que a recuperação econômica amparada no liberalismo exacerbado do ministro da Fazenda, Paulo Guedes, não vai se reverter em ganhos concretos para a população.

É possível que Lula e o PT estejam certos quanto ao desgaste político de Bolsonaro daqui até 2022. Quanto ao desgaste econômico, dados os acenos de recuperação, pode ser mais incerto. Bolsonaro parece politicamente meio embananado com a história da criação do Aliança pelo Brasil e com a briga com o PSL. Ficou sem partido. Ficou sem base formal no Congresso. Talvez sem condições de oficializar o Aliança para as eleições municipais deste ano, pode se ver obrigado a construir alianças insólitas com diferentes partidos, formando um pavimento incerto para 2022.

Mas a opção de Lula e do PT de radicalizar o antagonismo também limite suas possibilidades de aliança. Neste momento, ou se está de cabeça no projeto Lula/PT para 2022 ou se é também considerado adversário. Ou seja: na aposta de confrontação radical, tanto Bolsonaro quanto Lula se escolhem como adversários e limitam o embate ao máximo entre os dois.

As pesquisas mostram a ambos com faixas em torno de 30% de simpatia do eleitorado. Fica, então, um vazio a ser conquistado por outras candidaturas. Ou que acabará no fim se omitindo da disputa ou em parte sendo atraído pelas duas opções radicais. É a movimentação em torno desse vazio que precisa ser observada.

Chama a atenção em recente pesquisa divulgada pelo Datafolha que Lula e o apresentador de TV Luciano Huck parecem correr na mesma raia de preferência do eleitorado. No país que se move menos por questões ideológicas do que gostaria a guerra das redes sociais, ambos têm seus cacifes principais nos eleitores do Nordeste e de baixa escolaridade. Por outro lado, a mesma pesquisa mostra que o ministro da Justiça, Sergio Moro, pode ser a pedra no sapato de Bolsonaro, crescendo beneficiário das brigas desnecessárias e do desgaste que o presidente promove entre seus aliados.

São dados que mostram que a manutenção da tendência mais conservadora na opção dos eleitores pode se dar novamente nos próximos pleitos. Se Huck pode roubar votos de Lula, essa hipótese fica evidente.

O quadro após a eleição municipal no segundo semestre vai clarear o cenário. Qual será o saldo de Bolsonaro, se entrar na disputa sem partido? Até que ponto seus eventuais aliados poderão já a partir daí migrar para a construção de uma opção Moro? Lula consolida sua base no Nordeste ou a perde para outro nome conservador, como Huck? São as perspectivas em torno do vazio consequente da polarização que deverão mostrar os contornos do futuro.

Política

Saída pela direita?


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Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil – EBC

A pesquisa divulgada no primeiro dia do ano pelo Instituto Datafolha reforça impressões perigosas, que devem fazer acender um alerta na sociedade. Mas que também servem para apontar para qual rumo político deve continuar seguindo o país neste ano de 2020 e nos próximos.

De acordo com a pesquisa, diminuiu o apoio dos brasileiros à democracia. Felizmente, a maioria de nós continua considerando que a democracia é o melhor regime de governo. Ou, pelo menos, como dizia Winston Churchill, é o pior à exceção de todos os outros. Segundo o Datafolha, 62% dos brasileiros consideram que a democracia é sempre a melhor forma de governar. Em outubro de 2018, porém, quando foi feita a mesma pergunta, o apoio à democracia foi de 69%. Um outro dado que preocupa é que aumentou nove pontos percentuais a parcela daqueles que consideram que tanto faz se o governo seja democrático ou não: de 13% para 22%. Manteve-se o índice dos que disseram considerar que uma ditadura pode ser melhor que a democracia em certas circunstâncias: 12%.

Para além das chances de retorno de uma ditadura, que o maior percentual dos entrevistados considera uma possibilidade remota, os dados do Datafolha reforçam uma constatação: o Brasil endireitou. Não no sentido de que tenha deixado de ser torto. Mas no sentido de que guinou à direita.

Infelizmente, com as seguidas interrupções que tivemos ao longo da nossa vida na nossa democracia, não conseguimos amadurecer na nossa sociedade a aptidão democrática. Adquirimos um sentimento paternalista com relação aos nossos governantes. Esperamos que eles sejam uma espécie de redentores com a capacidade de resolver todos os nossos problemas com a força das suas canetas. Como nenhum deles, por melhor que seja, jamais terá tal capacidade, nos frustramos. E essa frustração nos leva a desprezar a democracia, imaginando que mais poder dará mais tinta à caneta. Depois, nos arrependemos. E seguimos assim nossa trágica sina.

Dificilmente, conservadores de países como os Estados Unidos, Inglaterra ou França diriam que tanto faz uma democracia ou uma ditadura. Os cidadãos de direita desses países, na sua ampla maioria, vão às urnas tentar eleger seus candidatos e perdem ou ganham, sabendo que ganhar ou perder faz parte do jogo. Mas, por aqui, infelizmente, o desapreço à democracia muitas vezes mistura-se com a tendência à direita.

De qualquer modo, o Datafolha mostra que tal percepção ainda é de uma minoria. O que importa é que o jogo segue democrático. Em um momento em que parece haver uma expressiva percepção mais à direita do jogo político. E é isso o que transparece nos primeiros movimentos do xadrez eleitoral nessas primeiras horas de 2020.

Talvez nunca tenha havido tamanha profusão de candidatos de perfil mais conservador ensaiando a entrada no jogo da sucessão presidencial. A começar pelo próprio Jair Bolsonaro, o mais de direita deles. Mas é pela mesma raia, com maior ou menor inclinação, que se ensaiam os governadores de São Paulo e do Rio, João Dória e Wilson Witzell. É por aí que vai o apresentador de TV Luciano Huck. Ou o ministro da Justiça, Sérgio Moro. Mesmo o movimento de valorização do centro político, que se esboça, tem inclinação mais à direita. Nada indica inclinações antidemocráticas no presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), mas, do ponto de vista econômico, ele é, sem dúvida, um conservador.

Enquanto isso, o campo da esquerda segue tendo sua alternativa concentrada em um Luiz Inácio Lula da Silva que, como em 2018, continua impedido de disputar a eleição, barrado que está pela Lei da Ficha Limpa. Parece cada vez mais improvável que ele consiga reverter as condenações contra ele. Então, candidato não será. Para onde, então, se reverterão os votos que não serão para ele? Terá Lula agora maior capacidade de transferir seus votos para outro candidato, talvez o mesmo Fernando Haddad, do que teve em 2018? Ou o provável recrudescimento da opção mais à direita do eleitorado enfraquecerá mais ainda a opção?

Além disso, outras opções de esquerda, como Ciro Gomes, do PDT, parecem pelo menos neste primeiro momento enfraquecidas. O partido de Ciro não tem nomes visíveis fortes para a disputa municipal deste ano, como forma de ir pavimentando seu caminho.

Pelo campo da direita, há ainda um último fator importante. Se Bolsonaro não for capaz de colocar em campo no pleito municipal seu novo partido, o Aliança, assanha ainda mais as pretensões dos demais nomes à direita no sentido de ocuparem esse vácuo. Ao que tudo indica, o jogo de outubro será mais intenso pelo lado direito…