Política

Nós jornalistas somos “os suspeitos de sempre”


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O filme “Casablanca” certamente reúne o maior conjunto de frases antológicas da história do cinema. Aquelas que vivemos repetindo, acrescentadas que ficam às nossas vidas e experiências. “Toque outra vez, Sam” (ainda que no filme Bogart diga apenas “Play it, Sam” e não “Play it again” como a gente vive repetindo…), “Sempre teremos Paris”… e por aí vai.

Mas de todas as frases antológicas de “Casablanca”, a melhor é a dita pelo Capitão Renault, o francês colaboracionista cínico e de caráter ambíguo, quando tem que reprimir uma confusão no Rick’s Café, onde se passa o filme. “Prendam os suspeitos de sempre”, diz ele.

Ou seja, em tempos de ditadura, de liberdade reprimida, as arbitrariedades vicejam. As autoridades amplificadas, multiplicadas nos seus egos, sem necessidade de prestar contas a ninguém, relaxam no rigor das suas apurações. Num mundo que enxerga inimigos de todos os lados, prende a torto e a direito os que incomodam. Pouco importa se efetivamente cometeram o crime. Suas prisões servem tão somente para manter aceso o medo. Para renovar o gosto de sangue que rapidamente se torna um vício. Os “suspeitos de sempre” não são aqueles que, nas sombras, cometem crimes. São aqueles que, às claras, alertam para a sua existência.

Na Alemanha nazistas e nos territórios que ocupava, como Casablanca, os “suspeitos de sempre” eram os judeus, as minorias, os comunistas, os amantes da liberdade que não se curvavam àqueles tempos sombrios. Na Alemanha nazista e em qualquer momento em que a liberdade de expressão começa a correr risco, os jornalistas sempre se juntam aos “suspeitos de sempre”.

A verdade é que, para qualquer governo em algum momento, jornalistas viram os “suspeitos de sempre”. O grande escritor George Orwell, autor de “Revolução dos Bichos” e “1984” dizia: “Jornalismo é publicar aquilo que alguém não quer que se publique. O resto é publicidade”.

Nas suas obras, George Orwell tratou de dissecar e alertar para o perigo dos regimes que se constroem a partir de verdades absolutas. Vivemos hoje um momento em que muitos pregam a necessidade de “radicalizar” como solução para vencer o inimigo que enxergam do outro lado. “Radicalizar” significa “tornar absoluto”. É considerar que a verdade se encontra somente consigo. E que tudo que não vai ao encontro do que você considera verdade se torna uma mentira perigosa, que precisa ser destruída. Em “1984”, o Ministério da Verdade refazia as manchetes dos jornais e retocava fotos refazendo a “verdade” de acordo com as conveniências políticas que mudavam. Ou seja: o Ministério da Verdade era, de fato, um “Ministério da Mentira”. Mas aquilo não era exatamente um produto da imaginação de Orwell: Stálin tinha feito exatamente assim na União Soviética, eliminando dos arquivos fotos em que León Trotski aparecia, por exemplo. Na “Revolução dos Bichos”, Orwell mostra como o porco, o líder revolucionário daquele movimento de animais, aos poucos vai ficando igual ao homem que ele derrubou.

O livro de memórias do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso é cheio de críticas a jornais e jornalistas quanto à passagem de seu governo. Menospreza alguns jornalistas dizendo que não os lê. Critica jornais que o criticavam. Os acusa de “sensacionalismo”. Nos tempos do PT no poder, criou-se a expressão “Partido da Imprensa Golpista”, e muitos militantes seguem na balada de considerar que jornais e jornalistas se associaram para reduzir pelo golpe do impeachment a era petista.

Em se julgando verdade, se houve alguém que tenha se beneficiado da criação artificial de um ambiente que vinculava a era petista à corrupção, esse alguém foi o atual presidente Jair Bolsonaro. Foi Bolsonaro quem, nas eleições, conseguiu colar à percepção da sociedade a ideia de que ele era o oposto daquilo que a sociedade não mais queria.

Mas, nove meses depois de tomar posse, é Bolsonaro quem vocifera pesado contra os jornais e os jornalistas. Com seu estilo que passa longe da sutileza, diz que os jornais “mentem”, “distorcem”, “difamam”. Com o propósito de derrubá-lo. Ou seja, com velocidade impressionante Bolsonaro incorpora ao seu discurso a tese de que a imprensa é “golpista”.

Assim, diante da tarefa que temos de expor problemas e mazelas, seguimos, nós jornalistas, sendo “os suspeitos de sempre”. Em tempos de ditadura, o preço pago é bem alto. “Suspeitos de sempre” são presos, muitas vezes torturados e até mortos. Jornais são sufocados, trabalha-se para desoxigenar suas fontes de financiamento. Felizmente, em tempos de democracia, o que ficam são somente as reclamações dos poderosos…

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Política

Bolsonaro testa limites do MP e da PF. Pode ver testados os seus…


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Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr

Na entrevista exclusiva que me concedeu no Jornal de Brasília o ex-secretário de Governo Gustavo Bebbiano, ele alerta de forma muito dura para o que considera grave risco de “suicídio político” do presidente Jair Bolsonaro. Esse risco, na avaliação dele, está relacionado à impressão que Bolsonaro passa de temer o grau de independência e de autonomia que conquistaram o Ministério Público e a Polícia Federal. Para Bebbiano, ao agir assim, Bolsonaro ensaia um flerte com a turma que já há algum tempo anseia por travar a escalada de combate à corrupção no país. Foi para derrotar essa turma que boa parte do eleitorado de Bolsonaro optou por ele. Bebbiano, assim, aponta tal fator como o componente que pode desidratar o apoio ao presidente mesmo junto ao seu círculo mais fiel. Trava a essa altura ao combate à corrupção, no entender de Bebbiano, é coisa que a sociedade brasileira não mais aceita.

Curioso alguém imaginar que Bebbiano seja “cachorro morto” por ter sido demitido do governo. Bebbiano foi o coordenador da campanha vitoriosa que levou Bolsonaro à Presidência. Pouca gente sabe melhor do que ele que sentimentos e motivações têm o eleitorado que o escolheu presidente. Quais as características que, no imaginário das pessoas, separam o capitão Bolsonaro do “mito”. Quando Bebbiano analisa o que já vem derretendo o presidente e o que pode terminar de desmilinguí-lo, parece prudente prestar atenção.

Bolsonaro vem testando fortemente os limites de autonomia dos nossos dois principais mecanismos de investigação. Primeiro o Ministério Público e, mais recentemente, a Polícia Federal, foram construindo desde a Constituição de 1988 um caminho sólido para se firmarem no seu trabalho acima dos humores ocasionais dos governos para realizar seus trabalhos.

Não que não haja certa razão em algumas críticas feitas ao poder excessivo dado especialmente aos procuradores da República. Não são raras, de fato, as vezes, em que eles misturam suas convicções ideológicas ao exercício das suas funções. E as conversas reveladas pelo site The Intercept Brasil mostram isso claramente. Diversos gestores em variados níveis reclamam que hoje é praticamente impossível passar por uma administração sem responder a um processo. Um grau de desgaste, dizem, que muitas vezes produz efeito oposto à moralização. Diante da radicalização que criminaliza todo mundo, os honestos se intimidam e ficam aqueles que assumem o risco pelos lucros pouco republicanos que vislumbram.

A possibilidade de um freio de arrumação nisso, porém, pode vir por meios legais. Dificilmente virá pelo posicionamento de um presidente que imagina poder ter ingerência mais forte para barrar tal processo de independência. Que, no caso do Ministério Público, tem previsão legal – ele não é subordinado a nenhum poder. E, no caso da Polícia Federal, ganha musculatura de fato, ainda que legalmente exista a subordinação ao Ministério da Justiça.

Ao escolher Augusto Aras fora da lista tríplice, Bolsonaro parece estar em busca do seu Geraldo Brindeiro particular. Do seu engavetador geral da República. É preciso verificar até que ponto a corporação hoje, diante dos avanços que ocorreram desde o governo Fernando Henrique Cardoso, está disposta a respeitar um novo engavetador como chefe e até onde pode agir à sua revelia. As reações à decisão de Bolsonaro de ignorar a lista tríplice já se esboçam.

Já a Polícia Federal deu algumas seguidas mostras da pouquíssima disposição de ver suas investigações barradas por ordens de comando. Isso alimentou diversas rusgas nos governos petistas, à medida em que a Operação Lava Jato avançou. E rebelião mesmo quando Michel Temer escolheu para diretor da PF Fernando Segóvia. A tentativa agora de demitir Mauricio Valeixo produz suas reações.

Ao testar esses limites, Bolsonaro corre dois riscos. O primeiro é a desidratação política de que fala Bebbiano. O segundo é o da produção de novas rebeliões em grau bem mais agudo tanto no Ministério Públlico quanto na PF. E, aí, o risco é de ruptura institucional. De quebra de hierarquia. Uma das lições da democracia é que presidentes podem muito. Mas presidentes não podem tudo. E as democracias, quando consolidadas, às vezes se revelam um bocado fortes…

Política

Ainda é a política, estúpido!


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Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

No auge da crise que acabou levando ao impeachment de Dilma Rousseff, ousei inverter em um artigo a famosa frase do marqueteiro de Bill Clinton, James Carville. Nas eleições de 1992, ele apontou que George Bush não era favorito, apesar da popularidade conquistado após ter vencido a Guerra do Golfo. “É a economia, estúpido!”, disse ele. Seu raciocínio era que a definição política de uma eleição dependia fundamental dos humores da população quanto aos aspectos econômicos: recessão, inflação, etc.

No período anterior à queda de Dilma, estava claro que acontecia o contrário. Por mais que se tentasse alguma coisa, a economia seguiria morro abaixo. Por causa da política. Ou seja, invertendo a máxima de Carville, no caso, era “a política, estúpido!”.

Na terça-feira, o dólar bateu a casa dos R$ 4. Os boletins do Banco Central e de outros analistas apontam para crescimento pífio, ou crescimento nenhum, do país este ano. Um comunicado interno da Receita Federal apontou que os cortes no orçamento previstos para este ano poderiam comprometer serviços como a emissão de CPF e a próprio restituição do imposto de renda. O governo enviou uma série de projetos ao Congresso de suplementação orçamentária que não caminham. Ou seja: estamos em crise.

E certamente não estamos em crise por conta dos pressupostos da equipe comandada pelo ministro da Economia, Paulo Guedes. O que Guedes propõe e procura fazer é o que consideram o caminho correto nove entre dez empresários e financistas do país e do lado capitalista do planeta. O governo aprovou com imensa facilidade na Câmara a reforma da Previdência e nada indica que venha a sofrer algum tipo de dificuldade agora no Senado. Nunca houve ambiente tão propício para a discussão e aprovação das chamadas reformas estruturantes no Congresso.

E, no entanto, o país segue empacado. E, se isso acontece, é prudente jogar a culpa na política. No tal “presidencialismo de colisão”, como cunhou com felicidade meu amigo Melillo Diniz, escolhido pelo presidente Jair Bolsonaro para substituir o criticado “presidencialismo de coalizão”, apontado por ele e por aqueles que o elegeram como  a chave do fisiologismo e da corrupção que prejudicam o país.

No caso de Dilma, ela colocou um ortodoxo no comando da economia, Joaquim Levy, e nada aconteceu. Certamente porque o ambiente de instabilidade e de incerteza política não aconselhava investimentos. Com seu temperamento forte e estabanado, Dilma não conseguia fazer os arranjos políticos para serenar o país. Isso somado ao fato de que o então presidente da Câmara, na prática no comando então do Congresso, não fazia a menor questão de ajudar nessa tentativa de serenar ânimos.

Agora, Bolsonaro pisa ao máximo no acelerador e joga às calendas qualquer tentativa de serenar os ânimos. Ao contrário, seu “presidencialismo de colisão”, elege inimigos todos os dias, afasta ex-aliados, entorna diariamente o caldo de qualquer entendimento. Não exatamente por ser estabanado. A tática tem método. Visa consolidar os apoios que já são mais sólidos. Fortalecer o “mito”, mantendo acesa a polarização radical do país.

Apesar de ter método, a estratégia é arriscada. É como apostar num incêndio imaginando ser possível controlá-lo. Ao enxergar tamanho cenário de instabilidade e incerteza, o investidor fica tentado a considerar se não é melhor esperar um pouco, manter o dinheiro fechado na carteira, dentro do bolso, enquanto o cenário não clareia.

Somam-se a isso guerras comerciais e posicionamentos internacionais que ganham um viés ideológico como nunca tiveram, nem mesmo no tempo da ditadura militar (quando as empreiteiras brasileiras, por exemplo, ganharam rios de dinheiro construindo hidrelétricas na União Soviética comunista). A Noruega tira seus recursos do Fundo Amazônia. A Alemanha ameaça boicotar produtos brasileiros. O Irã e outros países do Oriente Médio preocupam-se com o alinhamento aos Estados Unidos. Mesmo os agricultores brasileiros, que nunca se pautaram pelo ativismo ambiental, mostram-se preocupados com o exagero de certos posicionamentos, que fazem com que os produtos do país corram o risco de perder os chamados “selos verdes”, condicionamentos de compromisso ecológico que são cada vez mais frequentes em diversos países que importam do Brasil.

Peitar posicionamentos e mudanças de conceito muito fora do pensamento global pode dar mais certo em um país como os Estados Unidos na era Donald Trump, no qual Bolsonaro se espelha. Afinal, os Estados Unidos são a maior potência do mundo, com capacidade para serem autossuficientes. Podem bancar suas guerras. O emergente Brasil é dependente dos humores de seus parceiros. Geralmente, precisa de uma jamanta para subir a ladeira. E corre sempre o risco de rolar abaixo por um sopro ou um peteleco fora de hora. Se não conciliar política e economia, a política derruba a economia, estúpido!

Política

Simonal, Janaina e Freixo


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Impressiona o amargo gosto de atualidade que há no filme Simonal, de Leonardo Domingues, em cartaz nos cinemas do país. Fabrício Boliveira interpreta Wilson Simonal, cantor que fez enorme sucesso no final da década de 1960 e início da década de 1970. Para muitos, talvez o maior cantor brasileiro de todos os tempos. Que ascendeu ao sucesso numa velocidade estonteante e conheceu o fracasso com igual velocidade, acusado de dedurar os colegas e contribuir com a repressão da ditadura militar.

A história de Simonal é uma das mais tristes da arte brasileira. Morador da favela do Morro do Pinto, no Leblon, Simonal incorporava todos os trejeitos do malandro carioca. Dono de um ego impressionante, considerou que seu talento e sua malandragem eram suficientes para navegar naqueles bicudos tempos da ditadura. Queria fazer sucesso afastado da disputa política do seu tempo. Achou que podia transitar bem com todo mundo. Ganhou dinheiro demais. Gastou dinheiro demais. Achou que estava sendo enganado por seu contador. Achou que seria uma boa ideia arranjar uns meganhas para dar uma surra nele. Achou que não teria nada demais se esses meganhas fossem ligados à repressão. Não contava que o contador fosse denunciar a surra à imprensa. Tolo, ingênuo, o típico malandro otário, arrotou contatos com a repressão que na verdade não tinha. Enrolado, foi abandonado tanto pela ditadura como pela classe artística.

O filme conta a história de Simonal sem fazer concessões à sua fraqueza de caráter e aos erros que ele cometeu. Mas mostrando como é possível se destruir a reputação de alguém adicionando falsidades a um fio de história. Logo, Simonal era apontado como dedo-duro, quando, na verdade, nunca entregou ninguém. Até porque, de fato, não tinha contato nenhum com ninguém da repressão. Diziam nas ruas que ele é quem tinha entregue Caetano Veloso e Gilberto Gil. Caetano e Gil foram presos porque suas atitudes tropicalistas incomodavam o regime. No mesmo dia, deveriam ter preso também Geraldo Vandré, mas ele conseguiu escapar. Anos depois, Caetano dirá em entrevista que Simonal nada teve a ver com a história.

Como mostra o filme, a ditadura largou Simonal à própria sorte, deixando vazar informações capazes de construir as fake news da época e destruir sua reputação. Simonal era também um incômodo aos padrões da época. O negro bem sucedido, milionário, com três Mercedes na garagem, casado com uma linda loura branca. Fazendo tributos a Martin Luther King. Destruindo o mito da igualdade racial que a ditadura queria preservar. Tempos de ditadura são tempos absolutos. Ou se é a favor ou se é contra. Ou se está do lado ou não se está. É, como dizia o slogan da época, “Ame-o ou deixe-o”.

Incrível é que hoje, em tempos considerados de plenitude democrática, esses valores absolutos pareçam estar de volta. Ou se é a favor ou se é contra. Ou se está do lado ou não se está. É “Ame-o ou deixe-o”. E da mesma forma há uma indústria de destruição de reputações. Baseada na disseminação de fake news. Uma usina de intolerância forçando posicionamentos. A principal autoridade da República reforçando todos os dias a manutenção do discurso do ódio, a eleição de inimigos.

Fica do passado o alerta da triste história do maior cantor brasileiro de todos os tempos. A gritar que os tempos precisam ser de menos intolerância. Felizmente, no mesmo momento em que o filme estreia nos cinemas brasileiros circula na internet um vídeo em que a deputada estadual Janaína Paschoal (PSL-SP) debate com o deputado federal Marcelo Freixo (PSol-RJ). É possível que esse seja o maior acontecimento político do ano.

Janaína foi a deputada mais votada do Brasil. Obteve mais votos para uma vaga na Assembleia Legislativa de São Paulo que Eduardo Bolsonaro consegiu para se eleger deputado federal. É uma das autoras do pedido de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. É uma das principais referências do atual pensamento de direita que se estabeleceu na política brasileira. Marcelo Freixo é, por sua vez, uma das principais referências do pensamento de esquerda na política brasileira. Referência na discussão sobre segurança pública. Parceiro de Marielle Franco, assassinada no Rio de Janeiro.

Janaína e Freixo, no vídeo, divergem em quase tudo. Discordam quase o tempo todo. Mas concordam num ponto fundamental. O diálogo é a pedra fundamental da democracia. Não existe democracia sem a busca de consensos. Democracia não convive com intolerância. Democracia não convive com falta de respeito. Democracia espera, busca, o relativo. Democracia não combina com o absoluto.

Do confronto violento, do ódio absoluto, da estratégia que busca vitórias e derrotas absolutas, não sairá país nenhum. Ou, pelo menos, não sairá país democrático. Os que dizem coisas como “é impossível dialogar com imbecis” autorizam seus adversários a dizerem de si o mesmo. É o diálogo de surdos remetendo um ambiente de ditadura a um tempo que se diz democrático. Que venham mais vídeos como os de Janaina e Freixo.

O filme de Simonal é um alerta. O vídeo de Jaanína e Freixo é um alento…

Política

Simonal, Janaina e Freixo


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Impressiona o amargo gosto de atualidade que há no filme Simonal, de Leonardo Domingues, em cartaz nos cinemas do país. Fabrício Boliveira interpreta Wilson Simonal, cantor que fez enorme sucesso no final da década de 1960 e início da década de 1970. Para muitos, talvez o maior cantor brasileiro de todos os tempos. Que ascendeu ao sucesso numa velocidade estonteante e conheceu o fracasso com igual velocidade, acusado de dedurar os colegas e contribuir com a repressão da ditadura militar.

A história de Simonal é uma das mais tristes da arte brasileira. Morador da favela do Morro do Pinto, no Leblon, Simonal incorporava todos os trejeitos do malandro carioca. Dono de um ego impressionante, considerou que seu talento e sua malandragem eram suficientes para navegar naqueles bicudos tempos da ditadura. Queria fazer sucesso afastado da disputa política do seu tempo. Achou que podia transitar bem com todo mundo. Ganhou dinheiro demais. Gastou dinheiro demais. Achou que estava sendo enganado por seu contador. Achou que seria uma boa ideia arranjar uns meganhas para dar uma surra nele. Achou que não teria nada demais se esses meganhas fossem ligados à repressão. Não contava que o contador fosse denunciar a surra à imprensa. Tolo, ingênuo, o típico malandro otário, arrotou contatos com a repressão que na verdade não tinha. Enrolado, foi abandonado tanto pela ditadura como pela classe artística.

O filme conta a história de Simonal sem fazer concessões à sua fraqueza de caráter e aos erros que ele cometeu. Mas mostrando como é possível se destruir a reputação de alguém adicionando falsidades a um fio de história. Logo, Simonal era apontado como dedo-duro, quando, na verdade, nunca entregou ninguém. Até porque, de fato, não tinha contato nenhum com ninguém da repressão. Diziam nas ruas que ele é quem tinha entregue Caetano Veloso e Gilberto Gil. Caetano e Gil foram presos porque suas atitudes tropicalistas incomodavam o regime. No mesmo dia, deveriam ter preso também Geraldo Vandré, mas ele conseguiu escapar. Anos depois, Caetano dirá em entrevista que Simonal nada teve a ver com a história.

Como mostra o filme, a ditadura largou Simonal à própria sorte, deixando vazar informações capazes de construir as fake news da época e destruir sua reputação. Simonal era também um incômodo aos padrões da época. O negro bem sucedido, milionário, com três Mercedes na garagem, casado com uma linda loura branca. Fazendo tributos a Martin Luther King. Destruindo o mito da igualdade racial que a ditadura queria preservar. Tempos de ditadura são tempos absolutos. Ou se é a favor ou se é contra. Ou se está do lado ou não se está. É, como dizia o slogan da época, “Ame-o ou deixe-o”.

Incrível é que hoje, em tempos considerados de plenitude democrática, esses valores absolutos pareçam estar de votos. Ou se é a favor ou se é contra. Ou se está do lado ou não se está. É “Ame-o ou deixe-o”. E da mesma forma há uma indústria de destruição de reputações. Baseada na disseminação de fake news. Uma usina de intolerância forçando posicionamentos. A principal autoridade da República reforçando todos os dias a manutenção do discurso do ódio, a eleição de inimigos.

Fica do passado o alerta da triste história do maior cantor brasileiro de todos os tempos. A gritar que os tempos precisam ser de menos intolerância. Felizmente, no mesmo momento em que o filme estreia nos cinemas brasileiros circula na internet um vídeo em que a deputada estadual Janaína Paschoal (PSL-SP) debate com o deputado federal Marcelo Freixo (PSol-RJ). É possível que esse seja o maior acontecimento político do ano.

Janaína foi a deputada mais votada do Brasil. Obteve mais votos para uma vaga na Assembleia Legislativa de São Paulo que Eduardo Bolsonaro consegiu para se eleger deputado federal. É uma das autoras do pedido de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. É uma das principais referências do atual pensamento de direita que se estabeleceu na política brasileira. Marcelo Freixo é, por sua vez, uma das principais referências do pensamento de esquerda na política brasileira. Referência na discussão sobre segurança pública. Parceiro de Marielle Franco, assassinada no Rio de Janeiro.

Janaína e Freixo, no vídeo, divergem em quase tudo. Discordam quase o tempo todo. Mas concordam num ponto fundamental. O diálogo é a pedra fundamental da democracia. Não existe democracia sem a busca de consensos. Democracia não convive com intolerância. Democracia não convive com falta de respeito. Democracia espera, busca, o relativo. Democracia não combina com o absoluto.

Do confronto violento, do ódio absoluto, da estratégia que busca vitórias e derrotas absolutas, não sairá país nenhum. Ou, pelo menos, não sairá país democrático. Os que dizem coisas como “é impossível dialogar com imbecis” autorizam seus adversários a dizerem de si o mesmo. É o diálogo de surdos remetendo um ambiente de ditadura a um tempo que se diz democrático. Que venham mais vídeos como os de Janaina e Freixo.

O filme de Simonal é um alerta. O vídeo de Jaanína e Freixo é um alento…

Política

Ódio e ignorância


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Foto: Marcos Corrêa/PR

Nas últimas semanas, o presidente Jair Bolsonaro vem incrementando em velocidade perigosíssima a adição de dois ingredientes explosivos ao seu discurso. Esses ingredientes são o ódio e a ignorância.

Difícil saber a essa altura se a inclusão em doses cavalares desses dois temperos na sopa que vai ficando cada vez mais indigesta é fruto de estratégia ou da personalidade de Bolsonaro que aflora e que não mais ele consegue controlar.

Parece haver, sim, estratégia diversionista na profusão de frases absurdas que o presidente parece declamar sem maiores constrangimentos. Já havia no carnaval na história do “golden shower”. Houve em outros episódios, em clara combinação com outros personagens, como no caso da indicação de seu filho, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) para a embaixada dos Estados Unidos. O problema é quando o absurdo diversionista ultrapassa a produção de piadinhas sem graça e de mau gosto para ingressar no terreno das duas palavras escritas no primeiro parágrafo: ódio e ignorância.

Aí, não temos mais o Bolsonaro rindo de suas próprias piadas. Temos um presidente tenso, trincado, distribuindo à população que o apoia doses cavalares de raiva e de preconceito. A frase sobre o pai do presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Felipe Santa Cruz, não teve outro propósito senão machucar, agredir, abrir feridas e trazer de volta os traumas de uma criança de pouco mais de dois anos de idade que viu seu pai desaparecer depois de ser preso pela ditadura militar. Ao dizer saber o que acontecera com Fernando Santa Cruz, o pai do presidente da OAB, Bolsonaro agiu como agente da repressão capaz de acrescentar informações a uma família que no passado foi alijada do luto. Se concretamente, como demonstrou na sequência, não tem absolutamente nada de novo a acrescentar, só o que restou foi a crueldade. O golpe baixo contra o adversário.

Como tática, prossegue, assim, na disputa maniqueísta com seus inimigos de esquerda, mais notadamente no PT. Um tipo de disputa que o beneficiou nas eleições do ano passado. Bolsonaro imagina encontrar terreno fértil nesse jogo sem nuances. E tem alguns antagonistas que aceitam o jogo nesses termos. Por outro lado, vai levando seu discurso ao máximo extremo. Perde a cada dia o apoio dos elementos mais moderados que se puseram ao seu lado na eleição. Nesse sentido, talvez a agressão ao presidente da OAB possa ser mesmo um ponto de inflexão, dada a reação de nomes como o governador de São Paulo, João Dória, e o jurista Miguel Reale Jr., um dos autores do pedido de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff.

Mas o presidente que cultiva o ódio como estratégia repassa tal comportamento àqueles que o seguem e admiram. Cabe uma reflexão sobre até que ponto tal opção não influi em certos comportamentos violentos que pareceram crescer nos últimos seis meses. O aumento expressivo do número de feminicídios. De violência contra a mulher. De intolerância religiosa que queima, por exemplo, templos umbandistas. Até mesmo de violência contra crianças. Pessoas que começam a se sentir autorizadas, pelo ambiente construído, a libertar seus demônios interiores.

O outro elemento explosivo e perigoso que se soma é a ignorância. Bolsonaro parece muitas vezes orientar suas decisões e ações a certas impressões particulares que, quando se chocam com as evidências científicas, recebem dele autorização para mandar as evidências às favas. Lembra um dos personagens apresentados no documentário “A Terra é Plana”, que promove experimentos para provar a sua tese de que o planeta não é redondo. Todos os experimentos falham, reforçando as evidências de que ele está errado, que não há nada plano na superfície terrena. Mas ele segue repetindo que a Terra não é redonda.

A briga de Bolsonaro com o diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Ricardo Magnus Osório, é o exemplo mais veemente. Diante das evidências demonstradas pelo instituto de aumento do desmatamento na Amazônia, o presidente manda às favas as evidências.

O problema é tomar decisões de governo baseadas em achismos que desprezam as evidências. Essa parece ser uma opção rumo a perigoso obscurantismo de certa forma inédita. Há uma tendência – novamente desprovida de evidência – de que a Academia é formada unicamente por um bloco de esquerda que conspira ali para impor sua linha de pensamento. É bem diferente da linha adotada por pensadores de direita no passado. Não consta que Roberto Campos, ao discorrer sobre suas convicções de que um estatismo exagerado levaria o Brasil à bancarrota, mandasse às favas as evidências e as teorias que aprendera nos seus estudos acadêmicos. Ele, que era economista, diplomata, professor, formado em Filosofia e Teologia, pós-graduado em Economia pela Universidade de Colúmbia.

Governar desprezando as evidências é como optar por acelerar um automóvel na direção de um muro. Governar com ódio é ir acrescentando tijolos ao muro enquanto se acelera em direção a ele. Não acreditar na existência do muro não fará o muro desaparecer. E aumentar o tamanho do muro só torna ainda maior o risco grave de colisão.

Política

Torneirinha de asneiras


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Na magistral obra de Monteiro Lobato – o Sítio do Picapau Amarelo – ganha muitas vezes ares de protagonista certo personagem que tem na boca uma torneirinha de asneiras. Fala o que quer. Ri dos seus próprios pensamentos inconvenientes. Teimosamente, é quase sempre muito difícil demover tal personagem da incorreção e inconveniência do que diz.

Certa vez, esse personagem resolveu reformar a natureza. Instalou o ninho nas costas dos passarinhos. Fez  com que os livros se tornassem comestíveis. Tirou as cascas das laranjas e de outros frutos. Enfim, imaginou que tudo o que durante todo o tempo anterior foi feito estava errado e precisava ser reformado.

Não demorou muito para que se verificasse a imensa confusão por trás daquelas mudanças. Os passarinhos não aguentavam o peso sofrido de ter que o tempo todo carregar nas costas seus ninhos. O porquinho rabicó comeu na estante o volume da Ilíada de Homero e as obras completas de William Shakespeare, apenas pelo sabor de alho e tempero e não pela beleza do conteúdo. Sem as cascas, as laranjas estragavam-se no transporte e eram alvo mais fácil dos insetos e outros predadores.

Enfim, rapidamente todos aqueles que tinham sido “reformados” reclamavam do resultado para elas das reformas. Dona Benta ralhou sobre a reforma: “Que absurdo (…) reformar a natureza! Quem somos nós para corrigir qualquer coisa do que existe! E, quando reformamos qualquer coisa, aparecem logo as consequências que não previmos!.

Mais adiante, dirá dona Benta: “Eu reconheço suas boas intenções. Você tudo fez na certeza de estar agindo pelo melhor. Mas não calculou uma porção de inconveniências que podem acontecer, e estão acontecendo”.

Mas o personagem, ao final, segue teimosamente defendendo suas mudanças. Na prática, de boa parte das reformas recua, sem, porém, admitir claramente. Mas foi aprendendo. “E assim terminou a aventura (…) da Reforma da Natureza”, escreve Lobato. O personagem “aprendeu a planejar a fundo qualquer mudança nas coisas, por menor que fosse. Viu que isso de reformar às tontas, como fazem certos governos, acaba sempre produzindo mais males do que bens”.

Política? Quem está falando de política? O tema aqui  é literatura…